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Tipologia: Notas de estudo
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2ª edição revisada
Traduzido por ELIZABETH STOWELL CHARLES GOMES
Categoria: Relacionamentos
Publicado no Brasil com todos os direitos reservados pela: Editora Mundo Cristão Rua Antônio Carlos Tacconi, 79, São Paulo, SP, Brasil, CEP 04810- Telefone: (11) 2127- Home page: www.mundocristao.com.br
1ª edição eletrônica: junho de 2012
Prefácio
A repercussão de meu primeiro livro sobre este assunto, Temperamento controlado pelo Espírito [1], muito me inspirou e surpreendeu. A primeira edição de mil exemplares, em brochura, era mais do que nossa igreja poderia utilizar, mas a Cruzada Estudantil começou a vendê-la por meio de sua livraria em San Bernardino (Califórnia) e logo se tornaram necessárias mais duas impressões. O gerente de vendas da editora Ty ndale leu o livro na época em que eu já começara a orar para que Deus mandasse uma editora em nosso auxílio — meus filhos estavam ficando cansados de colar, encadernar e empacotar os livros do pai, na garagem! Eu estava no aeroporto de San Diego com minha esposa e de lá voaria para a cidade de Chicago, onde faria uma palestra. Comentei com ela: “Espero que o Senhor nos revele sua vontade quanto ao futuro do livro Temperamento controlado pelo Espírito”. Naquela noite, conheci Bob Hawkins, da editora Ty ndale. Depois da palestra, ele me convidou para jantar e manifestou sua vontade de que o livro fosse publicado em escala nacional. Aliviado, só pude concordar — se não pelo público leitor, ao menos por minha família, àquela altura já esgotada de tanto trabalho. Desde então, temos nos maravilhado com a maneira como Deus tem usado esse livro. Chegam cartas das mais diversas partes do mundo — de missionários, pastores, conselheiros e leigos — e diversos leitores confessaram ter encontrado a Cristo como Salvador por intermédio dessa leitura. Até a presente data, o Temperamento controlado pelo Espírito já foi traduzido para o espanhol, japonês, russo e português. Três sociedades missionárias fizeram uso do livro para treinar seus candidatos ao trabalho missionário. Muitas igrejas o têm utilizado em grupos de estudo, classes de escola dominical e reuniões de mocidade. No momento em que estou escrevendo, milhares de exemplares já foram publicados. Não seria necessário dizer que isso muito nos encorajou. Não sou autor do conceito dos quatro temperamentos. Minha contribuição foi apenas fazer aplicações práticas dessas classificações seculares para que cada indivíduo possa examinar a si mesmo, analisando seus pontos fortes e suas fraquezas, e assim buscar a cura do Espírito Santo para aquelas tendências que o impedem de ser usado por Deus. Temperamentos transformados é o resultado de pesquisas adicionais sobre o assunto, como também de nossos trabalhos de aconselhamento a pessoas em dificuldades. Foi inspirado pela descoberta de uma transformação de temperamento na vida de diversos personagens bíblicos; transformação que hoje encontramos em cristãos cheios do Espírito Santo. Deve-se lembrar que essa mudança não depende do conhecimento dos quatro temperamentos, mas da plenitude do Espírito. As personalidades bíblicas que conheceremos foram transformadas antes da formulação da teoria dos temperamentos. Nossa esperança está na promessa de Deus: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!”
1 - A teoria dos quatro temperamentos 1
A teoria dos quatro temperamentos
Hipócrates (460 a 370 a.C.) é frequentemente chamado de “Pai da medicina”. Sem dúvida, ele foi o gigante do mundo médico da antiga Grécia, e nos interessa por duas razões: 1) Geralmente lhe atribuem o fato de a medicina se preocupar com os problemas psiquiátricos; 2) Reconheceu as diferenças de temperamento entre as pessoas e apresentou uma teoria que as explica. Earl Baughman e George Welsh avaliaram da seguinte forma sua contribuição:
No mundo antigo sabia-se das grandes anomalias de comportamento, mas geralmente eram atribuídas à intervenção dos deuses e, assim, não podiam ser estudadas com objetividade. Hipócrates, porém, se opunha ao sobrenaturalismo, defendendo a ideia de uma orientação biológica, sobre a qual desenvolveu uma abordagem empírica à psicopatologia. Sua maior força estava talvez na exatidão de suas observações e na capacidade de registrar cientificamente as conclusões a que chegava. Na verdade, muitas de suas descrições de fenômenos psicopatológicos permanecem válidas. Portanto, Hipócrates marcou o início de uma abordagem cuidadosa e observadora da personalidade anormal, que um dia seria aplicada ao estudo da personalidade normal. O interesse de Hipócrates pelas características do temperamento é notável, especialmente quando consideramos a relativa negligência desse importante problema no mundo moderno da psicologia. Como resultado de suas observações, Hipócrates distinguiu os quatro temperamentos: o sanguíneo, o melancólico, o colérico e o fleumático. De acordo com ele, o temperamento dependia dos “humores” do corpo: sangue, bílis preta, bílis amarela e fleuma. Assim, começou por observar as diferenças de comportamento, formulando uma teoria para elas. A teoria era bioquímica em sua essência, e embora sua substância tenha desaparecido, permanece ainda conosco sua forma. Hoje, porém, falamos de hormônios e outras substâncias bioquímicas em vez de “humores”, substâncias que podem induzir ou afetar o comportamento observado.[1]
Os romanos pouco fizeram na área do intelectualismo criativo, contentando-se em perpetuar os conceitos dos gregos. Um século e meio após o imperador romano Constantino tornar o cristianismo religião oficial em 312 d.C., esse império desmoronou, dando início à Idade das Trevas. Consequentemente, poucas alternativas ao conceito de Hipócrates foram oferecidas até o século XIX. Foram poucos os estudos feitos na área da personalidade, a ponto de H. J. Ey senck[2] atribuir a ideia do conceito de quatro temperamentos a Galen, que o reativou no século XVII, e não a Hipócrates.
O filósofo alemão Emmanuel Kant foi provavelmente o que mais influência teve na divulgação da teoria na Europa. Embora incompleta, sua descrição dos quatro temperamentos, em 1798, foi bem interessante:
A pessoa sanguínea é alegre e esperançosa; atribui grande importância àquilo que está fazendo no momento, mas logo em seguida pode esquecê- lo. Ela tem intenção de cumprir suas promessas, mas não as cumpre por nunca tê-las levado suficientemente a sério, a ponto de pretender vir a ser um auxílio para os outros. O sanguíneo é um mau devedor e pede constantemente mais prazo para pagar. É muito sociável, brincalhão, contenta-se facilmente, não leva as coisas muito a sério e vive rodeado de amigos. Embora não seja propriamente mau, tem dificuldade em não cometer seus pecados; ele pode se arrepender, mas sua contrição (que jamais chega a ser um sentimento de culpa) é logo esquecida. Ele se cansa e se entedia facilmente com o trabalho, mas constantemente encontra entretenimento em coisas de somenos — o sanguíneo carrega consigo a instabilidade, e seu forte não é a persistência. As pessoas com tendência à melancolia atribuem grande importância a tudo o que lhes concerne. Descobrem em tudo uma razão para a ansiedade e em qualquer situação notam de imediato as dificuldades. Nisso são inteiramente o oposto do sanguíneo. Não fazem promessas com facilidade, porque insistem em cumprir a palavra e pesa-lhes considerar se será ou não possível cumpri-la. Agem assim, não devido a considerações de ordem moral, mas ao fato de que o inter-relacionamento com os outros preocupa sobremaneira o melancólico, tornando-o cauteloso e desconfiado. É por essa razão que a felicidade lhes foge. Dizem do colérico que tem a cabeça quente, fica agitado com facilidade, mas se acalma logo que o adversário se dá por vencido. Que se aborrece, mas seu ódio não é eterno. Sua reação é rápida, mas não persistente. Mantém-se sempre ocupado, embora o faça a contragosto, justamente porque não é perseverante; prefere dar ordens, mas aborrece-o ter de cumpri-las. Gosta de ter seu trabalho reconhecido e adora ser louvado publicamente. Dá valor às aparências, à pompa e à formalidade; é orgulhoso e cheio de amor-próprio. É avarento, polido e cerimonioso; o maior golpe que pode sofrer é a desobediência. Enfim, o temperamento colérico é o mais infeliz por ser o que mais provavelmente atrairá oposição. Fleuma significa falta de emoção e não preguiça; implica uma tendência a não se emocionar com facilidade nem se mover com rapidez, e sim com moderação e persistência. A pessoa fleumática se aquece vagarosamente, mas retém por mais tempo o calor humano. Age por princípio, não por instinto; seu temperamento feliz pode suprir o que lhe falta em sagacidade e sabedoria. Ela é criteriosa no trato com os outros e em geral consegue o que quer, persistindo em seus objetivos, embora pareça ceder à vontade alheia.[3]
observações confirma a perícia dos freudianos em diagnosticar os problemas da personalidade, mas levanta sérias dúvidas quanto a sua habilidade em curar os enfermos. Uma nova geração de psiquiatras está voltando a atenção para algumas das antigas ideias e pesquisando outras teorias. Alguns estão até mesmo enfatizando a responsabilidade do homem por seus atos, como a Bíblia nos ensina.[5] Durante a primeira metade do século XX, apenas dois escritores cristãos parecem ter escrito a respeito dos quatro temperamentos. Ambos eram europeus, mas suas obras foram amplamente divulgadas nos Estados Unidos. Um grande pregador e teólogo inglês, Alexander Why te (1836-1921), realizou um breve trabalho sobre os quatro temperamentos, incluído em seu The Treasury of Alexander Whyte [Tesouro de Alexander Why te]. [6] Depois de ler seu excelente livro Bible Characters [Personagens bíblicos] , ninguém poderá duvidar de que ele foi um estudioso do tema. Entretanto, com respeito à Teoria dos Quatro Temperamentos, a obra mais significativa de que tenho conhecimento é o Temperament and the Christian Faith [O temperamento e a fé cristã] , de O. Hallesby. [7] O propósito do dr. Hallesby foi ajudar os conselheiros a reconhecer os quatro temperamentos por meio de descrições detalhadas de suas características, a relacioná-los entre si e resolver os problemas típicos de cada um deles. Meu livro Temperamento controlado pelo Espírito foi inspirado na leitura dessa obra. Como pastor-conselheiro, recebi muita orientação dos proveitosos estudos do dr. Hallesby, mas fiquei de certa forma angustiado pela condição desesperadora em que ele “deixava” a pessoa de temperamento melancólico. Pensei então: “Se eu fosse do tipo melancólico, depois desta leitura, me suicidaria”. Mas eu sabia que há muita esperança para o melancólico — como para qualquer dos outros temperamentos — no poder de Cristo Jesus. Foi então que Deus abriu meus olhos para o ministério do Espírito Santo na vida emotiva do crente. Comecei a desenvolver o conceito de que há uma força divina para cada fraqueza humana por meio da plenitude do Espírito. Depois de conversar a respeito dessa ideia com centenas de pessoas e de aconselhar muitas outras, estou mais do que convencido de que as nove características da vida plena do Espírito Santo, mencionadas em Gálatas 5:22-23, contêm uma força para cada uma das fraquezas dos quatro temperamentos: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei”.
2 - A contaminação pelo freudianismo 2
A contaminação pelo freudianismo
Tem sido fascinante ver a reação dos leitores ao livro Temperamento controlado pelo Espírito. Todo ser humano tem grande interesse em saber “o que realmente o faz funcionar”, razão pela qual a psicologia é matéria preferida por grande parte dos estudantes universitários. A explicação da Teoria dos Quatro Temperamentos sobre as motivações do comportamento humano faz sentido para muitas pessoas. Donas de casa, estudantes, universitários, pastores, profissionais liberais e pessoas de todo tipo de vida facilmente se enquadram em um dos tipos. Soubemos que pessoas que trabalham em aconselhamento, pastores e psicólogos recomendaram o livro a seus clientes. Um psicólogo cristão, conhecido em todo o país, recomendou-o em todos os lugares dos Estados Unidos. Diversos professores de psicologia em faculdades cristãs têm usado esse livro em seus cursos, e tenho sido convidado para falar sobre o assunto. A reação dos psicólogos e psiquiatras não cristãos tem sido menos entusiasta, mas já se esperava essa atitude. Em primeiro lugar, porque a Teoria dos Quatro Temperamentos não é compatível com as ideias humanistas em voga; em segundo, porque os psiquiatras, não crendo em Deus, rejeitam, em princípio, o poder do Espírito Santo na cura das fraquezas humanas. Tal linha de pensamento influencia fortemente a reação à ideia dos quatro temperamentos. Fiz uma série de palestras para cerca de mil universitários norte-americanos, reunidos em um seminário de duas semanas. A primeira sessão foi uma explanação geral da Teoria dos Quatro Temperamentos. Logo que acabei de falar, diversos jovens esperavam por mim, armados de muitas perguntas. Quase todos eram estudantes de psicologia. Suas principais objeções resumiam-se em: “O senhor simplifica demais as coisas” ou “Suas respostas são muito simplistas”. A resistência deles era compreensível. Estavam muito envolvidos no processo de aprendizagem das complexas soluções para os problemas atuais da forma como nossos educadores os veem — não porque as respostas aos problemas do homem sejam tão intricadas, mas porque os formuladores dos currículos universitários têm rejeitado a Bíblia e a simples cura de Deus para os problemas do homem. Consequentemente, restam-lhes soluções muito envolventes. O triste é que, como o tempo não parece tornar válidas aquelas soluções, a frustração os leva à busca de outra resposta qualquer, contanto que seja mais complicada. Chegou a hora de alguém mostrar que a psicologia e a psiquiatria estão construídas principalmente sobre o humanismo ateísta. Darwin e Freud moldaram o pensamento do mundo secular a ponto de fundamentar sua estrutura mental sobre duas premissas: 1) Não há Deus — o homem é um mero acidente biológico; 2) O homem é o ser supremo, com capacidade para resolver por si
indicam que todos têm suas fraquezas. A Bíblia nos ensina que o homem é constantemente assediado pelo pecado, e os temperamentos destacam esse fato. A Bíblia diz que o homem possui uma “velha natureza”, que é a carne, melhor dizendo, “carne-corruptível”. O temperamento é composto de tendências natas, parte das quais são fraquezas. A classificação dos quatro temperamentos não é ensinada categoricamente na Bíblia, mas os estudos biográficos de quatro personagens bíblicos demonstrarão os pontos fortes e as fraquezas de cada um dos temperamentos. A Bíblia mostra que só é possível alcançar o poder para vencer os defeitos quando se recebe a Jesus Cristo pessoalmente como Senhor e Salvador, entregando-se por completo a seu Espírito. Um psicólogo, meu amigo, informou-me que há cerca de doze ou treze diferentes teorias da personalidade. A Teoria dos Quatro Temperamentos é provavelmente a mais antiga, e muitos cristãos consideram-na a melhor. Não é perfeita, assim como nenhum conceito humano. Porém, ajuda a pessoa comum a examinar-se por meio de um processo sistematizado e melhorado durante os séculos. A teoria não responderá a todas as dúvidas que você tenha sobre si mesmo, mas propiciará mais respostas do que as outras teorias. Ao estudá-la, ore agradecendo a Deus pelo acesso a uma fonte de poder capaz de mudar sua vida, transformando-a no que você e Deus querem que ela seja.
3 - Uso e abuso da ferramenta 3
Uso e abuso da ferramenta
A Teoria dos Quatro Temperamentos é um instrumento valioso para a autocompreensão. Mas, como qualquer ferramenta, pode ser usada incorretamente. De vez em quando, encontro pessoas que fizeram mau uso desse conceito, prejudicando a si e a outros. Em geral, esse abuso ocorre nas formas apresentadas a seguir: Alguns estudiosos da personalidade têm externado vez ou outra o conceito, aplicando-o indiscriminadamente. Não se contentando em apenas examinar e guardar para si as conclusões, eles fornecem aos indivíduos, sem cuidado algum, informações sobre seus temperamentos, delineando-lhes suas fraquezas características. Já vi pessoas humilharem familiares e companheiros de trabalho por apontar-lhes os traços desfavoráveis do temperamento e expor-lhes os defeitos. Nas palavras do psicólogo dr. Henry Brandt: “Não há nudez que se compare à nudez psicológica”. A natureza humana nos induz à autoproteção, não apenas física, mas também psicológica. O indivíduo que, de propósito, se expõe ao ridículo, revela um senso deturpado de autopreservação emocional. Chego a pensar que tais pessoas expõem seus defeitos insignificantes usando-os como escudo para esconder os defeitos maiores. Nenhum cristão cheio do Espírito Santo invadiria o íntimo de outra pessoa, expondo-a ao ridículo psicológico. Poderá ser muito engraçado fazer isso para criar um clima de bom humor em uma reunião, mas, por outro lado, poderá ser cruel e prejudicial para o atingido. Qualquer coisa que não seja benigna não provém do amor, e a Bíblia nos ensina a “falar a verdade em amor” (Ef 4:15). O Espírito Santo, que nos habita, quer que os cristãos “amem os irmãos”, dando- lhes a proteção emocional que almejamos também para nós. Mesmo no caso de a análise de temperamento não ser feita em público, ela poderá tornar-se um hábito nocivo. Uma jovem confidenciou-me que rejeitara um possível pretendente porque o considerava uma mistura indesejável de temperamentos. Não existe a tal mistura indesejável! Nenhum é “melhor” que outro, e o simples temperamento não é a garantia de determinadas atitudes. Um patrão, por exemplo, poderia rejeitar um empregado capaz, concluindo equivocadamente que sua personalidade o torna inapto para o cargo. Nesse caso, nem a jovem casadoura, nem o empregador deram oportunidade à influência transformadora do Espírito Santo. A Teoria dos Quatro Temperamentos é apenas uma ferramenta terapêutica. Com os outros ou consigo mesmo, deve ser usada sempre com parcimônia, flexibilidade e de forma construtiva. Uma boa regra é: não se ponha a analisar o temperamento de uma pessoa, a não ser que isso contribua para melhorar seu relacionamento com ela, e não diga a uma pessoa qual o temperamento que ela
caráter, mas também os costumes mais significativos. A personalidade nos encaminha para um padrão de conduta, o costume perpetua e reforça esse comportamento. O cristão não é escravo do hábito! Os hábitos — mesmo os mais arraigados na vida de uma pessoa — podem ser modificados pela fonte divina de poder que habita no crente.
Só lhe será possível usar bem a teoria quando você souber discernir seu tipo de temperamento. Para um estudo mais extenso das particularidades de cada um sugiro a leitura de meu primeiro livro, Temperamento controlado pelo Espírito. Após examinar minuciosamente o gráfico dos temperamentos, você poderá descobrir suas características predominantes fazendo uma lista das que se destacam em sua personalidade. Observe primeiro seus pontos fortes — as qualidades —, porque é mais fácil ser objetivo quanto a seus atributos positivos do que quanto aos negativos. Uma vez determinadas as virtudes, procure encontrar as fraquezas correspondentes. Muitas pessoas possuem uma tendência a mudar de ideia quando examinam seus defeitos, mas é melhor resistir a essa tentação e enfrentar sua personalidade com realismo.
colérico. Pois em conversa com seus amigos fui descobrindo que esta era sua história. Em seus primeiros tempos ele fora um colérico típico, um “comedor de fogo”, com algumas tendências à melancolia. Trabalhava noite e dia; era organizado, cheio de iniciativa e conseguia colher resultados onde outros tinham falhado. Aos trinta e poucos anos, se converteu. Tempos depois, um tanto acidentalmente, começou a ensinar a Bíblia a um casal recém-convertido. Esse estudo bíblico logo transformou-se em uma classe, e a seguir foi necessário estabelecer uma noite especial para as reuniões. Quando vim a conhecê-lo, essas aulas já eram realizadas três vezes por semana. Hoje, há duas fortes igrejas que resultaram dessas classes bíblicas. Mas a mudança que se operou nesse homem foi igualmente maravilhosa. A Palavra de Deus “habita ricamente nele”, e o Espírito Santo moldou de tal forma suas características coléricas, a ponto de torná-lo um exemplo bastante atual de um temperamento controlado pelo Espírito Santo. Ao observarmos com cuidado, notamos suas forças coléricas de boa organização e habilidade para a promoção, esforço, propósito no trabalho cristão e otimismo criativo, mesmo aos 72 anos. Faltavam-lhe, entretanto, ira, amargura, ressentimento, crueldade e outras formas de carnalidade típicas. Esse homem não conhecia nada a respeito da teoria, mas sabia o que era estar cheio do Espírito Santo. Não é necessário conhecer os princípios do temperamento para ser modificado pelo Espírito Santo, mas esses preceitos apontarão os defeitos mais perigosos de cada personalidade para que possamos apressar o processo de modificação. Outro fator a ser considerado quando estiver diagnosticando seu temperamento é a idade. A maioria dos temperamentos é mais fácil de distinguir entre os 15 e os 35 anos. Dessa época em diante, suas atitudes em geral se alternam, a não ser que os hábitos, as experiências ou outras pressões as acentuem. A condição física da pessoa também afetará suas expressões de temperamento. A pressão alta poderá levar um temperamento fleumático a assumir atitudes de atividade mais intensa do que seria o comum. A pressão baixa tenderá a tornar um sanguíneo ou colérico menos tenso. Já outras pessoas possuem estruturas fisiológicas que criam tensões nervosas — e isso certamente afetará a expressão de suas características. Por vezes, a educação na infância forma impressões e hábitos que parecem embotar o temperamento secundário. Libertada dessas inibições pelo Espírito Santo, a personalidade mostrará uma mudança marcante. Minha esposa, a quem quero muito, é um exemplo disso. Ela foi criada em um ambiente bastante severo e, durante os primeiros anos de nosso casamento, o medo era um fator preponderante em sua vida. Se naquela época eu tivesse diagnosticado seu temperamento, a teria considerado 70% fleumática e 30% sanguínea. As pessoas que a conheciam consideravam-na uma jovem suave, meiga e graciosa. Seis anos antes, ela tivera a experiência da plenitude do Espírito Santo. Desde então, a mudança tem sido surpreendente. Vi uma pessoa excessivamente retraída transformar-se em uma mulher vibrante, maravilhosa. Os temores que a prendiam foram afastados, provocando a
libertação de impulsos sanguíneos antes reprimidos. Minha esposa, antes tão tímida, que dizia: “Acho que para mim seria melhor desaparecer do que falar em público”; ou “É meu marido o orador da família”, tornou-se uma oradora dinâmica, capaz de magnetizar um auditório. Não é próprio das pessoas fleumáticas, mas sim das sanguíneas” conseguir isso. Mas, como se fora um botão de rosa a abrir-se, Deus tomou minha esposa (antes tão fechada, que passou quatro anos em nossa igreja sem nunca ter sido sequer convidada para fazer uma palestra para um pequeno grupo da sociedade de senhoras) e agora a usa em palestras para senhoras em muitas cidades da costa oeste dos Estados Unidos. A última vez que fui esperá-la no aeroporto, vinda de outro estado, comentei: “Se isso continuar assim, logo serei conhecido como ‘o marido de Beverly Lahay e’”. As palestras são apenas uma das áreas de mudança nesta ex-fleumática- sanguínea. Velhos amigos que encontram Beverly, hoje dinâmica e desinibida, quase não acreditam que seja a mesma pessoa. Se eu fosse diagnosticar seu temperamento neste estágio de sua vida, diria que ela é mais sanguínea do que fleumática — talvez 55% sanguínea e 45% fleumática. Naturalmente, grande parte da mudança operada nela reflete a modificação feita pelo Espírito Santo, mas em parte deve-se também à eliminação de atitudes e hábitos de infância que inibiam seu temperamento predominante. Sei que essa mudança foi operada pelo Espírito Santo porque toda modificação tem sido fortemente positiva. Do que conheço do assunto, percebo que ela não desenvolveu nenhum dos pontos característicos negativos do sanguíneo. A vida nos mostra a importância do aprendizado no período da infância. Depois de levar seu filho à experiência com Cristo, a melhor coisa que você pode fazer por ele é dar-lhe um ambiente de amor e compreensão, onde tenha liberdade de agir por si mesmo. Isso não significa licença para fazer coisas erradas, nem exclui a disciplina, mas requer que os pais não descarreguem sobre os filhos as próprias frustrações de temperamento, que exercitem o amor, a compreensão e o autocontrole que vem do Espírito Santo. Toda criança tem de ser tratada como um indivíduo. Algumas precisam ser disciplinadas severamente com amor, enquanto outras podem entrar na linha com apenas um olhar mais sério. Mas os pais devem ser controlados pelo Espírito Santo de uma forma especial, para que os filhos, aquilo que eles têm de mais precioso, cresçam até alcançarem todo o potencial de suas habilidades individuais. Outro fator que pode afetar o comportamento da pessoa, criando uma impressão errada quanto a seu temperamento natural, é a existência de um trauma, que pode ter sido provocado por um único acontecimento ou uma série deles em sua vida. Esses traumas são mais predominantes nas áreas do medo, causando no indivíduo atitudes de retração e recolhimento. Por exemplo, alguns indivíduos que normalmente falariam em público, por terem tido uma experiência traumatizante, sentem-se tolhidos a ponto de nem tentarem. Se uma criança, por exemplo, tentar representar em uma peça de teatro na escola e for ridicularizada em vez de elogiada, pode desenvolver uma inibição que perdure a vida toda. Algumas pessoas, quando se sentem envergonhadas, reagem com nervosismo, com risadas inadequadas ou alguma forma de comportamento