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Solidão e Identidade Trans: Análise da Exclusão e Segregação, Trabalhos de Psicologia de Gênero

Este documento explora a solidão experimentada por pessoas trans devido à exclusão e segregação na sociedade cisheteronormativa. A autoria analisa como as normas e condutas sociais relegam pessoas trans ao espaço da abjeção, impactando suas vidas em diversas dimensões, incluindo relacionais e de saúde mental. O texto também discute a importância da reflexão sobre as contribuições de vygotsky em relação às emoções e planos genéticos.

Tipologia: Trabalhos

2020

Compartilhado em 24/12/2022

OdaraThiago
OdaraThiago 🇧🇷

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(TRANS) SOLIDÕES: a solidão do outro e de si
Tuty Veloso Coura Guimarães
Thiago Odara
Resumo. A solidão de pessoas trans é uma questão recorrente dentro das discussões entre as pessoas
que ocupam a posição de ser trans. A maioria desses discursos partem de um espaço da solidão do
outro, uma vez que pessoas trans sofrem a abjeção, porém é possível inferir também sobre outro tipo de
solidão, a solidão de si. Portanto, este artigo é proveniente de revisão bibliográfica e tem o objetivo de
analisar o sujeito trans em sua experiência com a solidão do outro e a solidão de si, como situações que
surgem a partir da imposição de uma lógica cisheteronormativa ao sujeito trans, atingindo o lugar das
possibilidades relacionais e das possibilidades do poder ser.
Introdução
A solidão é um tema para o qual se fizermos uma simples busca, dentro do contexto
acadêmico, podemos verificar que existem muitos estudiosos que se debruçam sobre suas
características. Porém, ao fazermos um adentro sobre a solidão, pouco se é falado sobre a
solidão de si, se tornando um tema voltado, em maior parte de suas produções, para uma
lógica da solidão de um outro, associada à questão identitária. Quando pensamos as
transgeneridades e as realidades das pessoas que as vivenciam, é possível analisar que as
normas e condutas da sociedade contemporânea, que se mostra cisheteronormativa, relega
às pessoas trans o espaço da abjeção, fazendo com que tal população sofra impactos desde a
sua constituição como sujeitos válidos para a sociedade, dessa forma a exclusão e a
segregação, típicas da abjeção, promovem a solidão em diversas dimensões para além da
afetiva.
Esse tema é pouco discutido, possuindo escassa literatura no âmbito da produção
científica. Tendo em vista as diversas violências que atingem a população trans atualmente,
como agressões físicas, verbais e simbólicas, bem como as rejeições, invisibilidades e
negacionismos, que levam a condições psicológicas que podem levar a uma qualidade de
vida e, até mesmo ao suicídio que, dentro da comunidade trans, apresenta-se em alto nível.
Nesse contexto, é necessário ampliar nossos estudos acerca da solidão imposta às
transgeneridades em suas diversas formas, como a solidão do outro que traz consigo muitas
maneiras de se concretizar, bem como a solidão de si que se caracteriza por processos de
internalização diversos.
Devido a isso, este capítulo é proveniente de revisão bibliográfica e de análise de
conteúdos, desenvolvendo a ideia da solidão, com o objetivo de analisar o sujeito trans em
sua experiência com a solidão do outro e a solidão de si, como situações que surgem a partir
da imposição de uma lógica cisheteronormativa ao sujeito trans, atingindo o lugar das
possibilidades relacionais e das possibilidades do poder ser, promovendo uma reflexão a
partir das contribuições de Vigotski sobre os planos genéticos e as emoções.
Contribuições de Vigotski
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(TRANS) SOLIDÕES: a solidão do outro e de si Tuty Veloso Coura Guimarães Thiago Odara Resumo. A solidão de pessoas trans é uma questão recorrente dentro das discussões entre as pessoas que ocupam a posição de ser trans. A maioria desses discursos partem de um espaço da solidão do outro, uma vez que pessoas trans sofrem a abjeção, porém é possível inferir também sobre outro tipo de solidão, a solidão de si. Portanto, este artigo é proveniente de revisão bibliográfica e tem o objetivo de analisar o sujeito trans em sua experiência com a solidão do outro e a solidão de si, como situações que surgem a partir da imposição de uma lógica cisheteronormativa ao sujeito trans, atingindo o lugar das possibilidades relacionais e das possibilidades do poder ser. Introdução A solidão é um tema para o qual se fizermos uma simples busca, dentro do contexto acadêmico, podemos verificar que existem muitos estudiosos que se debruçam sobre suas características. Porém, ao fazermos um adentro sobre a solidão, pouco se é falado sobre a solidão de si, se tornando um tema voltado, em maior parte de suas produções, para uma lógica da solidão de um outro, associada à questão identitária. Quando pensamos as transgeneridades e as realidades das pessoas que as vivenciam, é possível analisar que as normas e condutas da sociedade contemporânea, que se mostra cisheteronormativa, relega às pessoas trans o espaço da abjeção, fazendo com que tal população sofra impactos desde a sua constituição como sujeitos válidos para a sociedade, dessa forma a exclusão e a segregação, típicas da abjeção, promovem a solidão em diversas dimensões para além da afetiva. Esse tema é pouco discutido, possuindo escassa literatura no âmbito da produção científica. Tendo em vista as diversas violências que atingem a população trans atualmente, como agressões físicas, verbais e simbólicas, bem como as rejeições, invisibilidades e negacionismos, que levam a condições psicológicas que podem levar a uma má qualidade de vida e, até mesmo ao suicídio que, dentro da comunidade trans, apresenta-se em alto nível. Nesse contexto, é necessário ampliar nossos estudos acerca da solidão imposta às transgeneridades em suas diversas formas, como a solidão do outro que traz consigo muitas maneiras de se concretizar, bem como a solidão de si que se caracteriza por processos de internalização diversos. Devido a isso, este capítulo é proveniente de revisão bibliográfica e de análise de conteúdos, desenvolvendo a ideia da solidão, com o objetivo de analisar o sujeito trans em sua experiência com a solidão do outro e a solidão de si, como situações que surgem a partir da imposição de uma lógica cisheteronormativa ao sujeito trans, atingindo o lugar das possibilidades relacionais e das possibilidades do poder ser, promovendo uma reflexão a partir das contribuições de Vigotski sobre os planos genéticos e as emoções. Contribuições de Vigotski

Antes de começarmos a discussão sobre a solidão, consideramos válida a apresentação dos estudos de Vigotski sobre as emoções e sobre os planos genéticos, pois suas percepções nos darão base para atingir as noções de solidão que desejamos abordar, facilitando o entendimento e nos guiando através da perspectiva sócio-histórica. Para Vigotski, é na interação dialética entre os planos genéticos que se dá a constituição de cada indivíduo e, esses são integrados pelo plano filogenético, que diz respeito sobre a história da espécie; ontogenético, como a história do próprio indivíduo; sociogenético, que condiz com a história do grupo cultural e; microgenético, sobre a história da formação de cada processo psicológico específico em curto prazo, bem como das experiências vividas pelo indivíduo. Dessa forma, podemos compreender o sujeito como produto dos processos físicos e mentais, cognitivos e afetivos, internos e externos. Tendo em vista as emoções: Para Vigotski, as emoções são funções psicológicas superiores, portanto, culturalizadas e passíveis de desenvolvimento, transformação ou novas aparições. Além disso, a concepção vigotskiana de emoção coloca esse processo psicológico em estreita relação com outros do psiquismo humano. Alguns autores compactuam com a ideia de Vigotski sobre a emoção, como é o caso de Smirnov que nos traz a perspectiva de que: nem tudo na realidade objetiva provoca uma reação, mas apenas aquilo que corresponde a uma necessidade ou motivo da atividade do sujeito, que age sobre ele. De acordo com o significado dos objetos que motivam o sujeito, os quais dependem dos fenômenos e das atividades que este desenvolve para cumprir as exigências sociais às quais deve responder, tem-se a variação de intensidade das emoções e dos sentimentos (Smirnov apud Smirnov nos diz sobre a diferenciação entre emoções e sentimentos. As emoções, segundo o autor, citado por Machado et al, apesar de dizerem respeito à satisfação de necessidades orgânicas, não estão isentos das exigências sociais como nos sentimentos, que tratam sobre as necessidades culturais, o qual varia de acordo com a classe social, período histórico, entre outros, pois as emoções são reações de um ser social. Conforme a citação acima, podemos observar que, as emoções e os sentimentos são subjetivos para o sujeito, porém a origem de ambos se dá a partir da relação com o outro, de forma que sua gênese se mostra objetiva. Temos também através das emoções, sendo elas, um reflexo das necessidades orgânicas, o desenvolvimento emocional do sujeito, refletindo diretamente em seus sentimentos: Aquilo que em uma época histórica provocava sentimentos especiais nos membros de uma classe social determinada, pode provocar sentimentos opostos nos membros de outra classe social e em outra época histórica (Smirnov, 1969) A OBRA TEORIA DAS EMOÇÕES final do 6 paragrafo

A abjeção é um termo que se refere ao espaço que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política, que em, termos sociais, constitui a experiência de ser temido e recusado com repugnância, pois sua própria existência ameaça uma visão homogênea e estável do que é a comunidade, como expõe Miskolci. Assim, o sujeito trans quando sofre a desventura da solidão se frustra com as impossibilidades de estabelecer vínculos com o outro, sendo esse outro não só uma amizade, romance ou família, mas também vínculos empregatícios, educacionais entre outros, se deparando com a ausência de retornos a essas demandas. Dessa forma: A solidão não é, portanto, simples privação, ela é hipersensibilidade à ausente presença do outro [...]. Eis o princípio capital que se desenha aqui: a profundidade da solidão mede – tal qual uma sonda

  • a intensidade do desejo ardente do outro que não responde ao chamado. (Assoun apud Tanis, 2003) Tanis, B. (2003). Circuitos da solidão: entre a clínica e a cultura. São Paulo: Casa do Psicólogo/FAPESP A solidão não é, portanto, simples privação, ela é hipersensibilidade à ausente presença do outro [...]. Eis o princípio capital que se desenha aqui: a profundidade da solidão mede - tal qual uma sonda - a intensidade do desejo ardente do outro que não responde ao chamado. (Assoun apud Tanis apud TATIT; ROSA, 2013) Observa-se frequentemente que muitas famílias não aceitam a pessoa trans em sua individualidade, invalidando sua existência, e com isso desde esse contexto já lhe é tirado o direito ao afeto parental, de forma que o sujeito ao afirmar sua identidade corre riscos em relação ao convívio, sofrendo regalias sobre suas formas de se expressar, agir e pensar; em relação à moradia, podendo ser expulso de casa; em relação à saúde mental, a partir de violências simbólicas; em relação à exposição a agressões físicas e; em relação ao patrimônio, uma vez que é possível que haja deserdação. Tais aspectos da não aceitação familiar gera conflitos para o sujeito que ao passar por esses tipos de desamparo, promovendo a solidão no ponto em que o seu desejo pelo outro não é correspondido. Ainda sobre um plano familiar podemos analisar as questões conjugais, pois, muitas vezes, a revelação para o outro e/ou o autoconhecimento tardio sobre sua transgeneridade podem engendrar a falta. O flerte em ambientes como bares, baladas, ou qualquer ambiente que propicie que ele ocorra, é um exemplo. É frequente após o flerte a aproximação e nesse momento, ou por dizer ser uma pessoa trans ou ainda ocorrer a percepção de que se trata de um corpo trans, muitas das pessoas almejadas pela pessoa trans durante o processo desistem de levar adiante a paquera, pois são impedidos pela questão social da abjeção do sujeito trans, de modo que a rejeição se mostra aqui como a perda de potencial dentro das possibilidades relacionais no âmbito amoroso, já que a correspondência ao desejo foi quebrada a partir da revelação. Outro exemplo dentro das questões conjugais é o autoconhecimento tardio da transgeneridade. O sujeito trans que viveu reprimido durante boa parte de sua existência e

que, dessa forma, se adequou às normas e condutas sociais exigidas pela sociedade cisheteronormativa, acaba levando mais tempo para reconhecer em si sua própria transgeneridade e, quando a reconhece, já está envolvido amorosamente com alguém, podendo estar até mesmo casado. Com isso, durante o processo de se assumir uma pessoa trans, a pessoa com quem já possui um vínculo amoroso estável pode não entender a situação, repudiar a ideia (podendo levar a agressões físicas e psicológicas), exigir a interrupção do reconhecimento ou ainda terminar a relação, exigindo divórcio em caso de casamento. Além da questão do autoconhecimento tardio, vale também ressaltar que essa situação também pode ocorrer com o sujeito trans que já reconhece em si sua transgeneridade por algum tempo, mas que a esconde socialmente, sendo a revelação para a pessoa com quem estabelece vínculo amoroso um propulsor para as reações já explicitadas. O mercado de trabalho também é outro local de negação e privação de acessibilidade, tanto para manter um determinado emprego em que o sujeito já está inserido, sendo exigido que ele não exponha publicamente sua transgeneridade, tanto para aquele que está a procura de um emprego e todas as portas lhe são fechadas caso assumida ou venha a assumir sua transgeneridade. Ao sujeito já empregado, é negado o direito de revelar-se ou assumir-se trans e/ou é submetido a inúmeras formas de violências simbólicas. Esse sujeito, caso não seja demitido, pode ser constantemente desrespeitado e invalidado ou muitas vezes usado como forma de dizer que seu local de trabalho é inclusivo, mesmo que na prática esse sujeito esteja sendo violentado e, apenas mantido no emprego para que a empresa possa usá-lo de marketing de falsa inclusão. Assim, gerando nesse sujeito, uma segregação ou exclusão social perante seus colegas de trabalho e/ou clientes, trazendo medo e solidão constantes, pois a formação de vínculos dentro da empresa se mostra dificultada, demonstrando perda da sua potencialidade relacional e, para aqueles que lhe é imposto o esconderijo, a perda da potência de poder ser. Ao sujeito a procura de emprego, as portas de empregabilidade, em suma maioria, lhe são fechadas, o que pode gerar grandes problemas econômicos, e uma marginalização ainda maior do que esse sujeito já está submetido. Ser um sujeito que está relegado ao espaço da abjeção significa exclusões institucionais, como o direito ao trabalho trazendo possíveis riscos através da inacessibilidade a alimentação ou moradia. Sem ter o que comer, ou onde morar, é gerado um completo desamparo, marginalização e, consequentemente, solidão, uma vez que, estando em situação de rua, o afeto se torna cada vez mais precário, distante e obsoleto, tendo em vista as prioridades que se estabelecem em relação a alimentação e abrigo, situações que, por falta de amparo, promovem várias angústias, que podem levar até mesmo ao suicidio. Considerando o contexto educacional, Richard Miskolci, em seu livro “Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças”, aponta que, historicamente, a escola foi durante muito tempo um local de normalização e que, nos termos de Foucault, a educação foi um meio da biopolítica, uma forma poderosa de normalização coletiva. Em suma, é no ambiente escolar que os ideais coletivos sobre como deveríamos ser começam a aparecer como demandas e até mesmo como imposições, muitas vezes de uma forma muito violenta (Miskolci, 2012)

Outro fator importante é que, na maioria dos aspectos, se não em todos, da vida da pessoa trans, ela se encontra em local de possível violência psíquica como, por exemplo, as já citadas neste capítulo. Nota-se enorme dificuldade em encontrar psicólogos e demais profissionais da área da saúde mental que aceitam atender pessoas trans e/ou, que tenham um preparo adequado, ou que no mínimo respeitem esse sujeito, deixando assim, a pessoa com a saúde mental cada vez mais vulnerável, contribuindo para a má qualidade de vida e para o crescente e alarmante números de casos estatísticos de suicidio da população trans. É válido trazer a informação de que, decorrente de todas essas violências e dificuldades de acesso à saúde, a população trans acaba por só procurar por atendimento médico em caso de extrema urgência, por já estarem cientes da negligência dos atendimentos e da quase certeza de que por serem pessoas trans não serão respeitadas. Por esses fatores, o sujeito trans, por considerar que em nenhum momento haverá empatia ou compreensão de sua realidade, passa a se sentir só, além de usar de mecanismos para proteger sua existência, não se abrindo completamente para outra pessoa sobre seus sentimentos. Muitas são as solidões vivenciadas por pessoas trans na perspectiva de um outro, poderíamos continuar discorrendo sobre elas por longo período de tempo, porém, acreditamos que a focalização sobre essa dimensão da solidão já se faz suficiente para o entendimento, tendo em vista que o nosso trabalho possui um viés para além dessa perspectiva da solidão. O sujeito trans e a solidão de si A solidão da pessoa trans não se trata apenas da solidão do outro, mas também da solidão que o acompanha desde o início de sua ontogênese. Essa solidão se caracteriza pelos processos de mediação e internalização, que estão na base do pensamento sociogenético. A internalização dos símbolos representa a inserção do indivíduo no universo de significados e valores da cultura em que vive (BRANCO, 1993). A mediação à qual Vigotski se refere ocorre fundamentalmente através da linguagem, um ponto importante na formação e no desenvolvimento das funções psicológicas superiores (CASTRO, 2010). Dessa forma, considerando que a sociedade brasileira é marcada por espaços de invisibilidades e opressões da população trans, a relegando à abjeção, o universo em que a pessoa trans vai internalizar os significados e valores culturais é carregado de preconceitos, discursos de ódio e violências de diversos tipos. Nesse contexto, vale destacar que a mediação significa a existência da intervenção de um “outro”, mais experiente, que atribuirá significados à realidade na qual estamos inseridos (BEDIM; OLIVEIRA, 2012), situando o comportamento como um reflexo direto do diálogo social (WERTSCH, 1980). Sendo assim, pode fazer com que tais significados e valores a serem internalizados não sejam condizentes com a realidade, criando uma barreira para o sujeito em relação a qualquer característica que fuja à cisheteonormatividade, as concebendo como algo negativo, de modo que se estabeleça a relação de não poder ser, além de possivelmente

passar a reproduzir tais violências, se afastando daquilo ou daquele sujeito que é tido como abjeto. Luria enfatiza o homem como um ser social por excelência e relata que, para Vigotski, cada sociedade se desenvolve diferentemente a partir de interações sociais e históricas (SCHERER, 2010) A partir dessa colocação, é possível refletir sobre as mudanças sociais e históricas ocorridas no Brasil, com a chegada dos portugueses, na época da colonização, referentes ao entendimento sobre os corpos na cultura pré-colonial na perspectiva indígena e a diferença das codificações, significados e valores culturais dos povos originários, que carregam sua própria ciência, de modo que nos faça perceber realidades constituídas com bases em outras premissas que, fundamentam outros mundos, possíveis e coexistentes. Para elucidar essa relação com o corpo, consideramos interessante trazer um texto do povo Xakriabá sobre o conceito corpo-território, selecionado pelos curadores Vicente Xakriabá, Edvaldo Xakriabá e Célia Xakriabá, presente no material de distribuição da exposição “Mundos Indígenas”, realizada no Espaço do Conhecimento UFMG, no período de 28/11/2019 a 02/08/2020, a qual contou com curadoras e curadores de cinco povos indígenas - Yanomami, Ye’kwana, Xakriabá, Tikmũ’ũn (Maxakali) e Pataxoop. “Território é um galho que nos conecta com a raiz. Território é relação ,com o sagrado. O território é nossa morada coletiva, mas é também nossa morada interior. Com o território, a relação não é com a terra como matéria: é uma relação ancestral com a terra como corpo e espírito. Território é terra, água, vento, pessoa, bicho, planta, chapada, caverna, árvore, roça, mas não só: é tudo o que isso significa nas múltiplas potências das palavras e, ao mesmo tempo, naquilo que não cabe nelas. Em nossos corpos, essa leitura se dá nas pinturas, na língua, na alimentação, nos resguardos, nos afetos, nos modos de aprender e ensinar. Nossos territórios-corpos têm potência de fazer e guardar ciência. Quando nos perguntam quem somos, dizemos que somos os que retomaram a terra roubada. Somos um povo da espiritualidade, que segura com uma mão a caneta e com a outra o maracá, pois o que alimenta a nossa luta é o pisar no chão e a orientação espiritual que vem do cocar. A Iaiá mandou dizer que nem tudo é para falar, algumas coisas

semelhante à transgeneridade e ao não-binarismo. “As famílias tradicionais brasileiras que os portugueses encontraram quando desembarcaram aqui não eram homofóbicas”, afirma o antropólogo Estevão Rafael Fernandes. Podemos junto a questão da homofobia, acrescentar que, o povo vivente da pré-colonização portuguesa, era um povo que tinha uma cultura diversa e grande naturalidade em tratar temas como transgeneridade, incluindo a não binariedade, bem como as múltiplas formas de expressão das sexualidades e práticas sexuais, entendemos assim, que a transfobia, tanto quanto a homofobia, vieram junto aos colonizadores e não faziam parte da cultura dos povos originários do território brasileiro. Retornando a questão da solidão de si da pessoa trans, a barreira criada pela lógica cisheteronormativa, implicada a questão sociogenética, promove emoções negativas para o sujeito, e seu afastamento daquilo ou daquele sujeito que é tido como abjeto, pode se mostrar como um afastamento de sua identidade e/ou de características próprias desse indivíduo em um plano microgenético, dificultando, ou até impedindo, seu próprio entendimento como uma pessoa trans, de modo que a pessoa devido aos afetos referentes às violências é separado de si a nível de sentir a ausência do que não conhece sobre sua própria realidade, o que chamamos aqui de solidão de si. Essa solidão pode ser agravada quando o sujeito, além da transgeneridade, escapa a mais padrões estabelecidos socialmente, tendo sua vivência já associada a outras violências, como por exemplo, as violências implicadas às pessoas não hetero, não brancas, não binárias, PCDs, não magras, periféricas, entre outras características pouco vistas e consideradas abjetas. Dois simples exemplos são os casos de mulheres trans lésbicas e os casos de homens trans gays. Outro ponto importante em que podemos observar os impactos da solidão de si, é a passabilidade compulsória, a qual o sujeito trans, muitas vezes, para tentar reduzir as violências direcionadas ao seu corpo, se vê na obrigação de “se parecer cis” para ter seu gênero legitimado socialmente, incorporando para si, símbolos impostos a feminilidade ou a masculinidade, uma vez que, a validação de seu gênero, em alguns contextos, só é efetiva caso o sujeito alcance determinado padrão estetico e comportamental cisgênero, novamente se afastando de seu desejo em prol das normas e condutas sociais. A metáfora do quebra-cabeça Como um quebra-cabeça, a solidão é composta de diversas peças que podem ser entendidas como fatores que constituem uma formação ampla do que entendemos ser solidão, dessa forma algumas analogias podem ser feitas com o quebra-cabeça. A primeira forma que podemos imaginar é a sociedade como um quebra-cabeça, sendo cada peça do jogo uma pessoa, de modo que se estivermos falando de um quebra-cabeça que tenha inúmeras peças, as demais peças podem não notar a ausência de uma, porém, sem a peça que falta, o quebra-cabeça não estará completo, assim como em uma sociedade que, ao segregar seus indivíduos, nunca estará completa se não souber respeitar as diferenças das pessoas como parte de uma sociedade na qual todos nós estamos inseridos, promovendo solidão para a peça-pessoa abjeta, bem como para as peças que se ligam à peça retirada de vínculo, pois dela dependem para estarem completas, como familiares, amigos, colegas de trabalho, etc.

Outra forma de percebermos a solidão de si no contexto do quebra-cabeça, seria todo o quebra-cabeça como uma só pessoa e, assim, ao tentar reprimir uma parte de si, ou seja, algumas de suas peças, por se espelhar em outros quebra-cabeças que compõem a sociedade à medida que tenta se moldar a um padrão de vivência que não corresponde a sua realidade, ela estará em uma solidão de si, pois suas peças “roubadas” ou “colonizadas” condizem com a realidade dos processos de subjetivação que impedem as possibilidades do poder ser e até das possibilidades de se relacionar. Tendo em vista o lugar da pessoa trans que, como um quebra-cabeça dentro dessa perspectiva da metáfora, sente a falta das peças as quais não chegou a conhecer, pois a sua existência sendo quebra-cabeça está incompleta. Por último, entendendo novamente a sociedade como um quebra-cabeça, podemos contextualizar a peça que escapa ao formato exigido para seu encaixe, ou, de maneira literal, a pessoa assume uma forma que, para sociedade, foge aos padrões estabelecidos pelas normas e condutas sociais, que se baseiam na cisheteronormatividade, promovendo violências que, dessa vez, se tornam mais diretas do que às demais apresentadas, constituindo ações mais invasivas que, voltando ao quebra-cabeça, a peça é jogada fora, queimada, rasgada ou afins, para que não perturbe a organização das demais peças do quebra-cabeça, de modo que pode ser resultado dessas ações de ódio e desrespeito a solidão, levando a má qualidade de vida e ao suicídio, isso quando o seu direito à vida não é violado e sua existência vítima de um assassinato (mesmo acreditando que o suicídio também é provocado por relações sociais, configurando também uma violação desse direito), como a peça que, por não ter o encaixe necessário, é descartada. CONCLUSÃO Durante a pesquisa foi possível analisar que os impactos da solidão na vida de uma pessoa trans passa por diversas variáveis, mas inevitavelmente a questão social é uma implicação para a constituição tanto da solidão de um outro como também da solidão de si, uma vez que os espaços de abjeção promovem a partir de processos de subjetivação a supressão dos desejos reais de uma pessoa trans em relação a sua construção de gênero em prol de normas e condutas que têm o poder de inventar o normal estabelecendo o que se pode ser e o que se pode fazer, produzindo a falsa ideia de que alguma possibilidade que escape tal “normalidade” imposta não é válida ou existente, como por exemplo a dita “passabilidade” que é a busca por uma aparência cis tendo como foco passar despercebido enquanto pessoa trans em um contexto de violência, passabilidade a qual muitas vezes não é o desejo daquele que a busca mas uma forma que se convence ser a adequada uma vez que a violência promove a ideia de que só é violentado aquele que não condiz com a regra cisheteronormativa, o que não é verdade, bem como outros exemplos que poderiam ser citados como a binariedade, a heterossexualidade, etc.. Dessa forma é possível inferir sobre a necessidade de mostrar e validar existências não cis, não hetero, não brancas, não binárias, PCDs, não magras, periféricas, entre outras características pouco vistas e consideradas abjetas, pois os moldes criados a partir de uma colonialidade que perdura desde a colonização dos povos indígenas, alterando suas normas e condutas sociais, podem promover a solidão não só do outro, mas também a de si, uma vez que tais processos atingem a subjetividade, gerando pessoas insatisfeitas com suas vivências, configurando um novo espaço de violência.

Devido a isso, o capítulo ao qual se refere este resumo é proveniente de revisão bibliográfica e de análise de conteúdos encontrados nas plataformas de redes sociais, como por exemplo o Instagram e o Facebook, desenvolvendo a ideia da solidão, com o objetivo de analisar o sujeito trans em sua experiência com a solidão do outro e a solidão de si, como situações que surgem a partir da imposição de uma lógica cisheteronormativa ao sujeito trans, atingindo o lugar das possibilidades relacionais e das possibilidades do poder ser. A solidão da pessoa trans, portanto, não se trata apenas da solidão do outro, mas também da solidão que o acompanha desde o início de sua experiência, quando o sujeito sente a ausência de si próprio, o impedindo de conhecer o seu eu, promovendo uma solidão que se permeia pelo inconsciente, a solidão de si. Essa solidão que é imposta movimenta-se de formas diferentes e atreladas ao conflito, encontrando saídas e conforto em várias formas, incluindo o próprio isolar-se como uma solidão que se torna companheira, segura e por algum tempo excludente da solidão de si. Durante a pesquisa foi possível analisar que os impactos da solidão na vida de uma pessoa trans passa por diversas variáveis, mas inevitavelmente a questão social é uma implicação para a constituição tanto da solidão de um outro como também da solidão de si, uma vez que os espaços de abjeção promovem a partir de processos de subjetivação a supressão dos desejos reais de uma pessoa trans em relação a sua construção de gênero em prol de normas e condutas que têm o poder de inventar o normal estabelecendo o que se pode ser e o que se pode fazer, produzindo a falsa ideia de que alguma possibilidade que escape tal “normalidade” imposta não é válida ou existente, como por exemplo a dita “passabilidade” que é a busca por uma aparência cis tendo como foco passar despercebido enquanto pessoa trans em um contexto de violência, passabilidade a qual muitas vezes não é o desejo daquele que a busca mas uma forma que se convence ser a adequada uma vez que a violência promove a ideia de que só é violentado aquele que não condiz com a regra cisheteronormativa, o que não é verdade, bem como outros exemplos que poderiam ser citados como a binariedade, a heterossexualidade, etc.. Dessa forma é possível inferir sobre a necessidade de mostrar e validar existências não cis, não hetero, não brancas, não binárias, PCDs, não magras, periféricas, entre outras características pouco vistas e consideradas abjetas, pois os moldes criados a partir de uma colonialidade que perdura desde a colonização dos povos indígenas, alterando suas normas e condutas sociais, podem promover a solidão não só do outro, mas também a de

si, uma vez que tais processos atingem a subjetividade, gerando pessoas insatisfeitas com suas vivências, configurando um novo espaço de violência. É nesse sentido que reiteramos que todas as formas de se relacionar e de poder ser quem se é são válidas e precisam sair do espaço de “anormalidade” para uma sociedade mais saudável em suas relações, de forma que o respeito às diferenças seja fator inerente, podendo os sujeitos possuírem suas interseccionalidades como desejarem, uma vez que uma pessoa não possui necessariamente apenas uma intersecção, podendo assumir mais espaços de rejeição. Thiago Odara coisas dentro de mim Não há nada dentro de mim a não ser como um enorme buraco sem fim, que me sulga e me tira toda liberdade que um corpo humano pudesse ter, assim como a analogia de harry potter e os dementadores, os dementadores olha pra ti e lhe sulgam qualquer tipo de boa sensação e alegria, não me sinto sulgado pelo dementador, me sinto como sendo um, um ser incapaz de sentir alegria e prazer. Já não sinto prazer em pequenas coisas como o cheiro de uma terra molhada ou em me balançar na rede, nada mais é capaz de me trazer um pouco sequer de alegria, e assim como os dementadores também sou um ser temido, em que todes sentem medo, receio. me leem como aberração. Quem quer saber o que eu quero fazer num dia de sol como ir numa cachoeira que sempre amei tanto ou ir numa trilha, viajar ou sei la. As pessoas olham pra mim e querem saber o que é ser uma bicha de buceta, o que é meu corpo, num contexto como de um museu em quem você vai e tudo ali é observação, estudo e descpberta, Eu sou bem agnostico, não acredito em algo pós morte, mas também não nego a existência de uma possibilidade de se existir, na verdade me vejo com uma simpatia proxima a religiões de matriz africana, que se eu pudesse gostaria de fazer parte (ou não, pode ser que conhecendo eu não goste mais tbm) mas a questão é, a morte sem nada além dela me representa liberdade, de tudo que palavras nenhumas por mais infinitas e abrangentes que sejam seriam capazes de dizer sequer um milesimo de toda dor que existe dentro de mim, nesse sentido, a morte seria como uma liberdade de por um fim a tudo isso, a abaerração que eu represento socialmente e a todas dores, memorias que não são passadas mas literalmente revividas por mim muitas vezes, seria não precisar mais me preocupar com as limitações que estou acorrentado por ser autista, dificuldade de aprendizado, leitura, compreensão de coisas que não sejam unicamente meu hiperfoco, e também as interações sociais que inclusive é a principal causa afetada pelo autismo. E, se caso possa exisatir algo pós morte, eu poderia dar um abraço tão sonhado em minha mãe, mesmo que meu sonho de fumar um baseado com ela nunca va se realizar, mas eu poderia sentir seu cheiro, ou se pós morte seja diferente de um corpo como fisico, isso não importa, ainda seria ela. Imagina viver uma vida sem me ver preso ao que vivi na minha adolesncencia e toda chacota que fui e sou a maioria das pessoas o tempo todo, poder não ser alvo de risadas ou chacotas dentro de outras coisas. Como se ter um corpo trans e afeminado já não fosse suficiente pra ser uma aberração e sair de casa todos os dias sem saber sequer se serei estuprado, ainda sou a aberração no proprio meio trans e lgb, aquelus que me identifico me veem como uma aberração ou chaveirinbho de ser mostrado como descontrução, ou topa minha amizade, mas deixa explicito, que o meu corpo? bem esse é nojento.

Aberração desumaniza, tira a essencia humana daquela pessoa, em que ela deixa de ser qualquer coisa, pors outros a pessoa não tem gostos, sonhos, planos, nada. aberração é uma palavra que serve como forma de anular qualquer pessoa e resumir a pessoa a isso. eu sinto nojo de mim, e isso me da vfontade de me machucar. Se tem um verme em vc, vc toma um vermifugo e o extermina, eu sou o verme. A filogênese: A filogênese fala sobre a história do desenvolvimento do indivíduo ligada a uma certa trajetória que caracteriza determinada espécie, no caso de ser humano, com as características da espécie, que vão se impondo os seus membros em seu desenvolvimento. Cada espécie tem suas especificidades, como por exemplo, na espécie humana, o movimento de pinça dos dedos. Diante das características da filogênese humana, a flexibilidade do cérebro humano se destaca, pois permite que ele se adapte às mais variadas situações. Isso é possível pelo fato do ser humano não possuir um cérebro predeterminado geneticamente ao nascer. O homem não sabe quase nada ao nascer, tudo terá de ser desenvolvido, tornando-o uma das criaturas mais indefesas e frágeis da natureza, mas ao mesmo tempo, isso permite uma flexibilidade no seu desenvolvimento, ou seja, ele está por ser constituído e se adapta a diversas situações. A ontogênese A ontogênese se parece com o desenvolvimento de cada ser dentro de sua espécie, ou seja, a trajetória de vida da espécie se coloca com limitação e característica que são peculiares à espécie, sendo que cada membro da espécie se desenvolve e se constroem dentro dessa determinada trajetória. O desenvolvimento de cada membro será o resultado da passagem deste por esta seqüência da espécie. No caso do ser humano, ao nascer, por um bom período depende totalmente do adulto, aprendendo com esses coisas como falar, andar, etc. Sóciogênese: Uma outra via de desenvolvimento ou plano genético em Vigotski refere-se a sociogênese. Os indivíduos estão inseridos em um meio social e cultural, e torna-se resultante do processo histórico desta sociedade, e que emprega certas características a cada membro. Aqui não estamos tratando da história e da cultura em si, mas suas características presentes nesta sociedade, com as quais a pessoa entra em contato por estar neste meio, e acaba se desenvolvendo enquanto sujeito e caracterizando o seu desenvolvimento. São jeitos de se comportar, de vestir, alimentar entre outros. O plano genético da sociogênese pode ser visto sob dois aspectos: Em uma situação ele pode ser alargador das potencialidades humanas, pois pela cultura o homem pode libertar-se, ou transgredir alguns determinismos naturais que lhe se impõem.

Sociogenese: O outro aspecto da sociogenese se dá através da forma de organização de cada cultura a partir de seu desenvolvimento o que se apresenta na vida da sociedade de forma diferente, sendo que o sujeito se desenvolve a partir destas configurações. Assim em cada cultura tem-se as fases do desenvolvimento do ser humano do seu jeito, com características históricas e culturais, e, configurações peculiares à mesma. Ela relê e reescreve a sua sociedade recriando, alterando a cultura e as pessoas. Microgenese. A microgenese fala sobre fenômenos, experiências de cada fenômeno psicológico de cada membro de uma espécie. São histórias que dizem respeito a um determinado fenômeno psicológico, a sua história. Até a apreensão de um determinado (fenômeno) ou habilidade. Em cada pessoa esse fenômeno acontece de forma diferente e que só diz respeito a suas subjetividades. Como cada fenômeno tem sua história, ele é considerado micro, pois não se refere ao desenvolvimento de forma global,mas sendo mais específico a um fenômeno. Na microgenese é diferente em cada membro da espécie de forma que permita que se desenvolva a particularidade de cada, ela faz com que sejamos diferentes um dos outros.