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Tratados referentes a vitruvio sec. 1 a.c.
Tipologia: Resumos
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da Vinci , Curitiba, v. 3 , n. 1, p. 9-18, 2006
CARLOS EDUARDO U. BOTELHO, GISELLE LUZIA DZIURA, GISELE PINNA BRAGA
Professora - Arquitetura e Urbanismo - UnicenP/Centro Universitário Positivo [email protected]
TRÊS TRATADISTAS DA ARQUITETURA E A ÊNFASE NO USO DO ESPAÇO
RESUMO
Resgatar valores do passado traduz a preocupação com a história e com a memória. Na Arquitetura, os tratados representam um papel fundamental na leitura do passado, envol- vendo teorias e prática de projeto. Essa releitura possui algumas distorções, que com o tempo foram se perdendo ou sendo acrescentadas, mas ainda referenciadas nos dias atuais. Da litera- tura romana, resta-nos apenas um texto de arquitetura, o De architectura de Vitruvius. Os tratados arquitetônicos publicados no Renascimento Italiano nos séculos XV e XVI nos mostram os estudos teóricos e a prática de projeto, realizados por grandes mestres da arqui- tetura do passado, que se refletem em sua base, até os dias atuais. Vitruvius, Alberti e Palladio estruturam seus tratados basicamente na tríade fundamental da arquitetura: solidez, utilidade e beleza ( firmitas, utilitas e venustas ). O presente artigo procura analisar e refletir a essência da questão da funcionalidade nos espaços, demonstrando que a presença da multifuncionalidade (edificação destinada a abrigar duas ou mais atividades distintas) não é um conceito novo. Palavras-chave: Funcionalidade, espaço, tratado, multifuncionalidade, arquitetura.
ABSTRACT
To rescue the past translates the concern with the history, the memory. In the architecture, the treaties represent a fundamental paper in the past review, involving theories and practical of project. This review have many distortions that was lost and including data up to now and today they are mentionated. From roman literature remains an architecture workmanship, for exemple De architectura´ s Vitruvius. Thus, the architectural treaties published in the Italian Renaissance in centuries XV and XVI show the theoretical studies and practical of project maded by great masters of the architecture in the past and they influence us today. Vitruvius, Alberti and Palladio made theirs studies based in a triad that include aesthetic, functional and constructive premises. This article wants to analize and reflect the functionality question essence in the spaces, demonstrating that the multifunctionality presence (destined construction to shelter two or more distinct activities) is not a new concept. Key words: Functionality, space, treated, multifunctionality, architecture.
TRÊS TRATADISTAS DA ARQUITETURA E A ÊNFASE NO USO DO ESPAÇO
desses temas, com perguntas e atuações. Muito provavelmente estes posicionamentos serão seguidos também no futuro, assumindo esse pensar construtivo que parece ser inerente à vida humana. Embora, na presente análise, a função, ou multifunção, seja discutida, sua condição não é adjetiva, mas subtrativa para a arquitetura, pois não constitui um simples agregado a suas qualidades formais ou construtivas. A arquitetura se entrelaça com os quatro eixos, com a realidade quotidiana e com sua história, sendo a função analisada segundo suas relações com a forma, o contexto e a construção.
2 MARCUS VITRUVIUS POLLIO (1° SÉC. d.C.)
A descoberta dos manuscritos de Vitruvius causou reverberação por muitos séculos. Seus textos nos fazem compreender como os antigos edifícios romanos eram concebidos e construídos através de informações concretas sobre os materiais utilizados, as técnicas empre- gadas e as intenções de desenhos, que somente as ruínas romanas divulgaram parcialmente. A “revelação para o mundo” do tratado de Vitruvius ocorreu em plena Renascença, devido à revalorização da cultura clássica, além das descobertas de novos continentes, que ampliaram o conhecimento do Planeta. Vitruvius foi conservado, e provavelmente usado, durante mil e quinhentos anos. Sua leitura deixou de ser apenas objeto de especialistas e passou a integrar a cultura ocidental, desde as primeiras críticas datadas de 1404. Vitruvius foi citado ou comentado, mais de cem vezes, entre 1414 e 1547, pelos mais brilhantes intelectuais da época, como Ghiberti, Alberti, Filarete, D. João de Castro, Philibert de L´Orme e Palladio. A edição impressa em latim, em Veneza, considerada “princeps” do tratado de Vitrúvio, data de 1485. Os Dez Livros são organizados e distribuídos nos seguintes temas:
GISELLE LUZIA DZIURA
A arquitetura consiste no ordenamento, disposição, eurritmia, proporção, con- veniência e agenciamento de espaços. Esse último refere-se à funcionalidade, ou uso do edifício, configurando a repartição dos vários espaços e, nas obras, sua combinação e dispêndio moderados pela aplicação do cálculo. O momento do agenciamento é dado quando os edifícios são tratados diferentemente de acordo com os usos, pois parece ser preciso construir habitações urbanas diferentemente daquelas às quais afluem os produtos agrícolas; e também diferente dos financistas, dos opulentos, das pessoas refinadas e dos poderosos. Os agenciamentos são feitos conforme o uso, levando-se em conta seus usuários. Além disso, salienta-se o caráter, como sendo a qualidade da obra que reflete o tema, a função e o proprietário. Nesse livro, Vitruvius cita os três atributos da arquitetura: solidez, utilidade e beleza (firmitas, utilitas e venustas). O edifício, no entanto, terá a qualidade de solidez quando a profundidade dos alicerces tiver atingido as camadas mais rígidas do solo, e quando a escolha criteriosa de todos os materiais for adequada. Terá a qualidade de utilidade, quando se chegar a uma disposição correta e sem impedimento do uso dos espaços, e sua distribuição vantajosa e adequada entre as regiões de acordo com seu gênero; e o da beleza quando o aspecto da obra se mostrar acolhedor e elegante, quan- do as dimensões dos elementos mantiverem justas as relações de proporção. A utilidade (utilitas) será discutida nos vários edifícios citados por Vitruvius. Nas cidades, a divisão dos seus espaços em seu interior, a utilidade se faz pri- meiramente na escolha do lugar, que deve ser salubre e elevado; livre de neblinas e geadas; em regiões temperadas; e observando a natureza ao redor. Depois de muradas as cidades, segue-se a divisão das áreas entre as destinadas às praças, a orientação das ruas segundo os pontos cardeais, de uma forma conveniente para os ventos serem habilmente desviados das ruas (se frios, ferem; se quentes, entorpecem; se úmidos, enfraquecem). Definido o arruamento e praças, são estabelecidas as áreas em função dos recintos sagrados, do foro e dos demais lugares comuns. Os espaços destinados aos templos são atribuídos aos deuses e daí a sua posição e localização na cidade. O Livro 2 trata da origem dos edifícios, e por que meios teriam sido desenvolvi- dos e progredidos até os dias atuais. As edificações foram sendo construídas a partir de seu uso, e com imaginação, alcançando dessa forma uma qualidade artística. O Livro 3 dispõe sobre os templos cuja composição é baseada nas proporções do corpo humano. Dessa forma, aos projetar os templos, deve se ordenar os elementos da obra de modo que, separado, ou em conjunto, seu agenciamento aconteça de forma harmoniosa, no que se refere à conveniência e às proporções. No Livro 5, as construções romanas públicas tomam lugar com espaços multifuncionais (Fig. 1). Os foros romanos constituíam espaços ao entorno dos locais de espetáculos; ao longo de pórticos eram instaladas bancas de cambistas e, nos pavi- mentos superiores, galerias que estariam corretamente dispostas, tanto para negócios privados quanto para proveito dos cofres públicos. Suas dimensões eram executadas de modo a comportar uma multidão de homens, não sendo um espaço reduzido demais, e também não parecendo um foro deserto, em função da escassez da população; estabe- lecendo nas proporções entre a largura e o comprimento, o agenciamento conveniente para sua função.
GISELLE LUZIA DZIURA
Os ginásios, embora não seja do costume romano construí-los, foram esclareci- dos e demonstrados como eram executados pelos gregos. São construídos salões com peristilos retangulares, com corredores periféricos de dois estádios (184 m) de compri- mento, a partir dos quais são dispostos três pórticos simples e um quarto para o sul. Outros pórticos são construídos para abrigar salas de conversação, a sala de banhos frios, a sauna, o coriceu, o conistério, salão dos mancebos, um lugar para guardar óleos e um tepidário. O lado exterior é constituído de pórticos, projetando-se passeios a céu aberto (galerias) e um estádio. O Livro 6 trata das edificações priva- das, cuja localização é determinada seguindo- se a orientação determinada pelas particula- ridades das regiões e variedade de aspectos do firmamento. Mesmo nas edificações pri- vadas, a multifuncionalidade está presente, muitas vezes com a presença de comércio, aluguéis, depósitos no térreo e habitação no pavimento superior. (Fig. 3) Os átrios dos edifícios são classifica- dos da seguinte forma: toscana, coríntica, tetrastila, em duas águas e abobadada (Fig. 4). Os átrios em duas águas são mais utilizados em habitações de inverno porque seus implúvios não prejudicam a iluminação das salas de jantar. Os átrios abobadados são exe- cutados onde não há grandes vãos a serem vencidos, e por cima dos quais, podem ser erguidas habitações espaçosas.
Figura 3 - Disposição funcional das resid. privadas. Fonte: Vitruvius (8).
Figura 4 - Atrio Toscano – residência Pompéia. Fonte: Vitruvius (8).
TRÊS TRATADISTAS DA ARQUITETURA E A ÊNFASE NO USO DO ESPAÇO
As salas de jantar de inverno e salões de banho deverão estar voltados para o ocidente invernal (luz vespertina e calor solar). Os dormitórios e as bibliotecas devem estar orientados para o nascente; as salas de jantar primaveris e outonais também devem estar voltadas para o nascente. As salas de jantar de verão devem estar voltadas para o norte, assim como as pinacote-cas, oficinas de pintura e tecelagem. Definidas as orientações, observa-se, no caso de edifícios particulares, o uso de edifícios exclusivos para chefes de família, de modo que os recintos privativos tenham acesso restrito. Neste caso evidenciam-se as áreas em que não entrem pessoas sem serem convidadas, em espaços como dormitórios, salas de jantar, quartos de banho, e demais apo- sentos que tenham as mesmas características de uso. Para as áreas comuns, até mesmo as pessoas não solicitadas poderão ter acesso, como vestíbulos, átrios, peristilos, e outras áreas de usos semelhantes. Nos edifícios rurais, os domicílios deveriam ter como espaços principais, estábulos, armazéns, celeiros, dispostos nos subterrâneos dos edifícios; despensas e demais recintos deveriam ser construídos antes, tendo em vista que a preservação dos mantimentos estava em conformidade com o luxo. Do mesmo modo para prestamistas e rendeiros públicos, as resi- dências deveriam ser mais cômodas, elegantes e seguras. Já para advogados e peritos que recebem consultas, as residências deveriam ser mais elegantes e espaçosas; para os nobres que possuem cargos e magistraturas e que prestam serviços aos cidadãos, deveriam possuir vestí- bulos régeis altos, átrios e pátios com peristilos vastos, passeios silvestres extensos, além de bibliotecas, pinacotecas e basílicas. Uma das diferenças entre edifícios urbanos e rurais con- siste que, na cidade, os átrios costumam estar próximos a portas de entrada, e no campo, os peristilos deveriam ter átrios ao redor de pórticos pavimentados, voltados para as salas de conversação e para os passeios. Desse modo, conclui-se que para cada tipo de usuário (conveniência) os edifícios de- vem estar dispostos de uma maneira diferente.
Considerado o “homem universal” do Renascimento por estudar várias áreas de co- nhecimento, Alberti buscou a arquitetura intelectual, aproximando a filosofia clássica com o pensamento cristão. De um lado, o Alberti diurno, voltado para as artes e para a construção de casas e espaços urbanos; de outro, o Alberti noturno, que se preocupou com o drama da existência humana. A dificuldade em compreender o tratado de Vitruvius, e sua aproximação com disci- plinas intelectuais, levou Alberti a escrever um tratado arquitetônico, intitulado De Re/ Edificatoria (Sobre a arte de edificar). Seu tratado começa com um comentário sobre Vitruvius, esforçando-se para compreender suas obscuras terminologias e descrições, e atingindo con- clusões sobre a complexa arte dos edifícios, apesar de sua experiência de primeira mão. Segundo Pereira (2000, p.1), Alberti buscou “entender a arquitetura como ordenada por princípios matemáticos baseado na geometria e nas proporções”. Dessa forma, para Alberti, as regras da criação estão na natureza, conciliada através da expressão numérica, e formulando proporções com o corpo humano. A arquitetura, tendo no conhecimento aplicado ao esforço, ao trabalho e à produção, aparece como um meio de materializar um ideal sócio-cultural.
TRÊS TRATADISTAS DA ARQUITETURA E A ÊNFASE NO USO DO ESPAÇO
Após essa disposição, define-se a com- partimentação, dividindo o todo em partes inte- gradas harmonicamente, com um grau de preci- são maior, escala e hierarquia. Deve-se levar em conta também os aspectos de conforto ambiental, a harmonia na ornamentação do todo e a combinação equilibrada de partes com dis- tintas geometrias e dimensões. A seguir, as partes tomam lugar, abor- dando-se questões materiais mais específicas, como paredes, aberturas, coberturas. É impor- tante salientar que o todo forma as partes de maneira harmônica e integrada. De acordo com Brandão (2000, p.189): “Alberti procura as proporções não apenas be- las, mas ‘convenientes à obra como um todo’ (firmitas, commoditas e venustas)”. Dessa forma, as proporções configuram o edifício como um organismo que atinge os princípios da sua tríade. Segundo Aalberti apud Brandão (2000, p. 189), nessa totalidade tudo deve ser:
... distribuído como discrição e sistematizado convenientemente: a ordenação do conjunto se disporá de manei- ra tal que as partes não apenas contribuam para embelezar o edifício inteiro, mas que também não fique cada uma por sua própria conta destacada das outras, perdendo, por isso, seu próprio valor.
O tratado de Alberti envolve a compreensão da tríade vitruviana e a base teórica da arquitetura, de forma a resgatar valores e extrair do passado a sua essência. Como cita Pereira (2000, p.5), “a visão de arquitetura segundo Alberti é um apelo constan-te a um processo intelectual de análise e interpretação que não se limita a seu tempo e cultura, mas pode iluminar a compreensão do fenômeno arquitetônico mesmo na atualidade”. Portanto, o tratado albertiano da arquitetura intelectual apresenta o passado, analisa o presente e questiona o futuro. A concepção arquitetônica de Alberti se constitui em concepção mental traduzida graficamente através de desenhos: a) configuração e posição da área; b) programa e arranjo geral de funções, dimensões e formas; c) compartimentação; d) questões materiais mais específicas. Para entender a área é preciso relacionar o público e o privado; o sagrado e o profa- no; e dessa forma, como em Vitruvius, conclui-se que cada espaço requer diferentes sítios e condições, e sua forma e posição dependem do uso e do propósito. A área é representada graficamente onde aparecem as expressões matemáticas que a definem. A expressão de sua essência é definida graficamente através de compartimento.
Figura 5 - Palazzo Rucellai. Fonte: Risebero (4) p.104.
GISELLE LUZIA DZIURA
Segundo Alberti (Livro 1): “... a arquitetura é um harmonioso trabalho que respeita a utilidade, dignidade (mérito) e prazer. Se a cidade parece uma grande casa e a casa se torna uma pequena cidade, as várias partes da casa não podem ser consideradas como edifícios em miniatura?” Portanto, edifícios em diferentes escalas, espaços públicos e privados, merecem ser estudados de maneiras diferentes, pois cada um possui sua correta zona e posição. Casa e cidade são homólogos na medida em que se deixam controlar pelos mesmos princípios e regras universais. Tipologias são definidas na cidade segundo quatro categorias: edifícios pú- blicos universais, os públicos particulares, os privados universais e os privados particulares. Sendo edifício, a cidade é concebida por Alberti segundo os mesmos critérios gerais da fun- ção, da economia, do organismo e da permanência. Todos precisam da cidade e dos seus serviços públicos, de tranqüilidade, de sanidade, de segurança e de auto-suficiência. Os aspectos dos edifícios nascem da necessidade, nutrido de conveniência, de dignifi- cado pelo uso e por fim sua satisfação. O Livro 2 trata da disposição funcional dos edifícios públicos, os quais fazem parte do contexto urbano, com paredes altas, preenchendo o vazio urbano com torres e galerias. Ao redor dos edifícios públicos deveria estar a defesa, seguida de um pátio coberto com pórticos. Em frente a este edifício deveria estar a prisão. Edifícios privados: Descritos como miniaturas da cidade, as edificações devem ser saudáveis e oferecer toda facilidade e comodidade (conveniência). A casa privada foi a primeira a ser construída pela família, como um lugar de repouso, tendo como tema principal o seu uso, a função e a posição social. O edifício rural citado por Alberti é diferente do habitar na cidade, pois há restrições com relação à disposição das paredes. No campo as restrições são menores. As casas de campo são habitadas por senhores ou por homens da terra, além de serem divididas naquelas construídas para negócios e aquelas pretendidas pelo prazer de morar bem. Como os senho- res são interessados com o cultivo, a função desses edifícios é beneficiar e preservar os produ- tos colhidos da terra, assim como a estocagem da safra. Alguns mantinham uma casa de campo (villa) para o verão e outra para o inverno, e assim, variando de lugar para lugar, de acordo com o clima e as características da região, combinando o quente com o frio, o úmido com o seco. Além desses elementos de disposição, as villas deveriam ter fácil acesso para os cam- pos, generosa área de recepção para convidados e vistas panorâmicas para a paisagem (peque- nas cidades ao longe, montanhas, mar, jardins). Essas eram as vantagens da casa de campo. Cada casa é dividida em zonas públicas, semiprivadas e privadas. O espaço público é constituído por uma grande área em frente aos portões. Dentro dos portões não haveria escassez de espaços semiprivados, alas de jardins, passeios e piscinas. Ambas as áreas com gramado ou pavimentadas deveriam possuir pórticos ou loggias semicirculares, onde poderi- am acontecer reuniões, discussões, e também onde a família poderia passar o dia nas férias. O “coração” da casa é o átrio, ou o pátio, seguido em importância da sala de jantar, com acesso para os aposentos privados e finalmente para a sala de estar. E assim o restante, de acordo com o seu uso. No átrio realizava-se o foro público, incorporando uma confortável entrada e abrindo para a luz, considerado o espaço nobre. Essa função predominante é espa- cialmente transposta através das paredes altas que formam os espaços ou através da combina-
GISELLE LUZIA DZIURA
De considerável importância para o Renascimento, o tratado de Vitruvius, escrito em latim, era o ponto de partida de muitos arquitetos, apesar da dificuldade de sua compreensão devido à falta de ilustrações e à presença de termos técnicos obscuros em latim, além da mistura de grego e latim. Palladio estudou Vitruvius, Alberti e outros tratadistas, escreveu seu tratado e tornou públicos seus desenhos e algumas obras. Palladio foi competente como arquiteto, pelos seus projetos e construções, e também como escritor. Publicou a reconstituição dos antigos edifícios romanos com seus desenhos, no “I quattro libri dell architettura”, desenvolvendo uma rigorosa interpretação da arquitetura clássica filtrada, pelos escritos de Vitruvius. Mais tarde esse tratado inspirou um movimento fora da Itália, o Palladianismo. Suas freqüentes visitas a Roma possibilitaram-lhe conhecer os monumentos antigos, que ainda existiam nas regiões por onde passava, e interessar-se em compreender a fundo os valores estruturais e formais dos mesmos. Media-os e esboçava-os, e mais tarde os incorpora- va à sua própria obra, não de modo superficial, mas com aguda inteligência e aplicação, de quem desejava assimilar a lógica da construção e das partes ainda subsistentes desses monu- mentos. Portanto, o efeito de Roma no desenvolvimento da arquitetura de Palladio foi imedi- ato. No desenho da Villa Vlamarana, em Vigardolo, e da Villa Pisani, em Bagnolo (1541 e 1542), adaptou detalhes do moderno e do antigo edifício que tinha visto em Roma. Discutiu primeiramente as casas e os edifícios privados, para depois proceder com os edifícios públicos. Tratou brevemente de estradas, pontes, praças, prisões, basílicas, templos, teatros, banhos, aquedutos, fortificações de cidades e portos. O Livro I apresenta a preparação, a fundação e os materiais necessários a serem obser- vados antes do início do edifício, procedendo à descrição das ordens de arquitetura, conside- rando os diferentes tipos de espaços e as partes do edifício. O Livro II caracteriza o morar, começando com a casa privada grega e romana. O Livro III concerne os trabalhos públicos – praças, estradas, pontes e basílicas – e faz um balanço entre exemplares antigos e seus projetos. O Livro IV descreve à parte o Tempietto de Bramante, voltando à arquitetura antiga sagrada, e espe- cialmente aos templos de Roma. Antes de iniciar a construção do edifício, é discutida a idéia da preparação, constituída na tríade arquitetônica, como em Vitruvius: a utilidade ou comodidade, a durabilidade e a beleza. A utilidade provém quando cada membro está em posição apropriada e bem situada, e com o que “dignidade” requer. Cada membro está corretamente posicionado quando as loggias, halls, salas, adegas e celeiros estão locados em seus próprios lugares. A durabilidade está garantida quando as paredes verticais estão no prumo, fortalecidas, e as funções estruturais são satisfatórias. A beleza deriva de uma elegante forma, do relacionamento do todo com as partes, e das partes entre elas com o todo. Os edifícios precisam parecer completos e com “corpos” bem defini- dos, de modo que cada membro combine com os outros, e com todos os membros necessários para o que é requerido. No Livro 2 é demonstrada a mudança de centralidade do edifício, do pátio para o vestíbulo, que é tratado como uma sala de espera, devidamente ornada.
TRÊS TRATADISTAS DA ARQUITETURA E A ÊNFASE NO USO DO ESPAÇO
Figura 6 - Villa Cornaro – Gable, Padova 1551-53. Fonte: CONSTANT (3) p. 64.
A função dos espaços constitui: As loggias são usualmente construídas na frente ou atrás das casas e, se elas são construídas no meio, devem ser únicas ou no máximo duas. Possuem muitos usos, como passear, comer e outros passatempos. O seu tamanho é proporcional ao edifício. A entrada das casas é um espaço público e serve como lugar onde as pessoas esperam o se- nhor da casa para recebê-las, desempenhando diversas funções: saudações, negócios, consultas. O salão de festas deve possuir grandes dimensões, e se destinar a banquetes, comédias, casamentos e outros entretenimentos. Sua forma retangular possibilita que as pessoas se reúnam e observem os acontecimentos. Os demais aposentos são distribuídos em ambos os lados da edificação. A disposição das residências deve ser adequada ao uso da família, devendo-se tomar cuida- do não somente com os elementos (loggias, pátios, salas, escadas) mais importantes, mas com a iluminação e acessos, assim como com as partes menores e subordinadas às maiores e de maior prestígio. Similarmente, a razão consiste na comparação com o corpo humano, que possui as partes mais “belas”, como também as menos agradáveis. No entanto, as partes são dependentes entre si, e com relação ao todo, de modo que sem essa relação perderia sua dignidade e beleza. Além disso, as partes devem corresponder com a escala do empreendimento, ou seja, à articulação dimensional, similarmente ao corpo humano; com a presença de partes ocultas (partes utilitárias, não devem ser vistas) e partes expostas (são dependentes das ocultas), analogamente aos espaços servidos e espaços serventes de Louis Kahn. Espaços interiores também poderiam possuir múlti- plas funções, servindo de apoio às outras duas laterais, com mezaninos, estúdios e bibliotecas. Dessa forma, espaços como adega, depósitos, despensa, cozinha, pequenos quartos, lavande- ria, fornos e outros espaços do dia-a-dia, estão localizados na parte mais baixa do edifício, ou parcialmente no subsolo, que, neste caso, possuem duas vantagens: a parte de cima da casa não incomoda a parte de baixo e proporciona um visual elegante do edifício elevado. (Fig. 6) Os quartos de verão devem ser espaçosos e orientados para o norte, os quartos de inverno para o sul e oeste, e os quartos de primavera e outono para leste. A sala de estudos e as bibliotecas são orientadas da mesma forma porque são usadas mais no período da manhã do que nos outros períodos do dia. Exemplos:
Residência Count Valerio Chiericati, Vicenza. (Fig. 7). A parte mais baixa do edifício é destinada à loggia. O andar térreo elevado é destinado aos fluxos. A sala está localizada acima da loggia, no meio da fachada.
Residência Count Iseppo de Porti: Possui duas entradas para dois públicos diferentes. O térreo é abobadado. O pátio divide a casa em duas partes. A escada principal está localizada ao lado do pátio e sua posição central permite o acesso para ambos os lados do edifício. O serviço está localizado no subsolo.
Edifício de Count Ottavio de Thiene e Count Marc’Antonio, em Vicenza:
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dentro das exigências estreitamente conexas a ele requeridas. Isto se aplica ao todo (a casa), suas partes (os cômodos) e à cidade. Cada membro tem seu lugar e dimensão próprios, e de acordo com sua utilidade e conveniência dentro do todo. A tríade arquitetônica exposta nos tratados busca responder às várias exigências eco- nômicas, aos aspectos construtivos, aos aspectos estéticos, ao uso e às necessidades que soli- citaram sua existência. Na totalidade, cada parte deve reconhecer sua função no todo dentro do qual ela se define como parte. “Dispor tudo segundo sua importância e função”, conclui o segundo capítulo do Livro II de Alberti; “verificar se cada ponto foi bem definido e tenha recebido a colocação que lhe convém”, inicia o capítulo. No todo cada parte tem sua dignidade e seu papel próprio, em que o valor da parte é dado por sua capacidade de realizar bem a função que se faz necessária. Alberti alicerça a capacidade da arte de resistir à fortuna, ao tempo e à diluição das aparências. Para Vitruvius nada deve mais preocupar o arquiteto senão que os edifícios tenham, com relação a cada uma de suas partes, perfeição no conjunto. Assim que a relação entre as proporções estiver definida e a simetria explicada por meio de cálculos, será então apropriado considerar com agudeza de espírito de acordo com a natureza local, o uso ou o aspecto. Não há como recuperar a intenção original dos autores dos tratados, supostamente escondida atrás da obra, tal como acreditava ser possível a interpretação dos textos sagrados. No cenário atual, observa-se que as funções não só prescrevem o tamanho dos espa- ços, mas também sua forma, devendo permitir que sejam realizadas convenientemente. A forma é determinada pelo fato da maioria das funções constam numa série de ações conectadas com lugares (localizações) determinados. Assim, as funções estão mais ou menos conectadas com lugares específicos, mais ou menos complexas, e mais ou menos isoladas e independen- tes. Isso significa que não só exigem um espaço determinado, mas interconectar um certo número de lugares de ação. Sendo assim, o tema multifuncional não pode ser estudado separadamente dos aspec- tos fun-cionais do entorno. E todas as atividades podem ter uma certa independência (por exemplo, as funções de uma habitação), mas que ao mesmo tempo podem configurar siste- mas multifun-cionais, não perdendo sua identidade e outras qualidades espaciais e estéticas.
GISELLE LUZIA DZIURA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BRANDÃO, C.A. L. Quid tum? O combate da arte em Leon Battista Alberti. Belo Horizonte: UFMG 2000.
CONSTANT, C. The Palladio guide. New York: Princeton Architectural Press, 1993.
KATINSKY, J. R. Vitrúvio da arquitetura. São Paulo: Hucitec, 1997.
PALLADIO, A. The four books on architecture (traduzido por Tavernor e Schofield). Cambridge: MIT Press, 1997.
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RISEBERO, B. Historia dibujada de la arquitectura occidental. Madrid: Hermann Blume, 1982.
TUFFANI, E. Estudos vitruvianos. São Paulo: HVF Representações, 1993.
VITRUVIUS, M. P. The ten books on architecture. Tradução de: M. Morgan. New York: Dover,
WUNDRAN, PAPE, MARTON. Palladio. Tradução de: Casa das Línguas. Taschen: Koln, 1994.