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08/10. A Renascença, Apuntes de Lengua y Literatura Gallega

Asignatura: Literatura Portuguesa I (das origens à Renascença), Profesor: Maria Isabel Moran Cabanas, Carrera: Lengua y Literatura Gallega, Universidad: USC

Tipo: Apuntes

Antes del 2010

Subido el 20/04/2008

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1. Introdução à Renascença
1.1.. Contexto histórico
Desde 1580 e até 1640 Portugal perde a sua independência e a corte
desloca-se para Madrid ou Valladolid. É o período conhecido como Monarquia
Filipina.
1.2.. Antecedentes literários
Há dois conjuntos de textos que podemos considerar obras de transição
da Idade Média para a Renascença:
1) Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que contém composições proto-
épicas em que se tratas o tema das descobertas dum ponto de vista humanista
(face positiva e negativa).
2) Teatro de Gil Vicente, que contém personagens mitológicas (teatro alegórico)
e também trata o tema das descobertas desde uma perspectiva humanista.
1.. Etiquetas ligadas à Renascença
A Renascença supõe a assimilação das formas artísticas greco – latinas e
do espírito que leva a utiliza-las, mas não a sua ressurreição porque se tinham
usado na Idade Média. Deste modo, a etiqueta de Renascença ou Renascimento
aparece ligada a:
1) Humanismo: que implica o estudo da cultura greco latina e, a partir dela,
a exaltação do Homem como cidadão do mundo e protagonista de feitos
gloriosos, quer dizer, o antropocentrismo que se opõe ao teocentrismo
medieval.
2) Classicismo: etiqueta que se refere a uma estética que estabelece um sistema
rigoroso de regras específicas para os diferentes géneros literários:
2).)a Épica.
2).)b Lírica, com subgéneros como:
Écloga / égloga: composições de ambientação bucólica e temática
amorosa ou social nas que intervêm mais duma personagem. Um dos
representantes mais importantes da écloga é Bernardim Ribeiro.
Epístola: carta em verso que abrange tanto temas intimistas como
sociais. São importantes as epístolas de Sá de Miranda.
Canção: composição metaliterária na que intervém no discurso o próprio
texto, o papel ou a pena. Consta do corpo do texto e um envio, uma
estrofe de menor extensão em que se apela à canção. Destacam as
canções de Camões.
Ode: composição comemorativa dum facto ou figura cultivada por quase
todos os autores renascentistas, entre os que destaca António Ferreira.
Elegia.
)a Drama, no que se diferencia muito claramente entre tragédia e comédia
(ao contrario que em Gil Vicente).
2.. Formas
7. A Renascença
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¡Descarga 08/10. A Renascença y más Apuntes en PDF de Lengua y Literatura Gallega solo en Docsity!

  1. Introdução à Renascença

1.1.. Contexto histórico

Desde 1580 e até 1640 Portugal perde a sua independência e a corte desloca-se para Madrid ou Valladolid. É o período conhecido como Monarquia Filipina.

1.2.. Antecedentes literários

Há dois conjuntos de textos que podemos considerar obras de transição da Idade Média para a Renascença :

  1. Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que contém composições proto- épicas em que se tratas o tema das descobertas dum ponto de vista humanista (face positiva e negativa).
  2. Teatro de Gil Vicente , que contém personagens mitológicas (teatro alegórico) e também trata o tema das descobertas desde uma perspectiva humanista.

1.. Etiquetas ligadas à Renascença

A Renascença supõe a assimilação das formas artísticas greco – latinas e do espírito que leva a utiliza-las, mas não a sua ressurreição porque já se tinham usado na Idade Média. Deste modo, a etiqueta de Renascença ou Renascimento aparece ligada a:

  1. Humanismo : que implica o estudo da cultura greco – latina e, a partir dela, a exaltação do Homem como cidadão do mundo e protagonista de feitos gloriosos, quer dizer, o antropocentrismo que se opõe ao teocentrismo medieval.

  2. Classicismo : etiqueta que se refere a uma estética que estabelece um sistema rigoroso de regras específicas para os diferentes géneros literários: 2).)a Épica. 2).)b Lírica , com subgéneros como:

  • (^) Écloga / égloga: composições de ambientação bucólica e temática amorosa ou social nas que intervêm mais duma personagem. Um dos representantes mais importantes da écloga é Bernardim Ribeiro.
  • Epístola: carta em verso que abrange tanto temas intimistas como sociais. São importantes as epístolas de Sá de Miranda.
  • Canção: composição metaliterária na que intervém no discurso o próprio texto, o papel ou a pena. Consta do corpo do texto e um envio, uma estrofe de menor extensão em que se apela à canção. Destacam as canções de Camões.
  • Ode: composição comemorativa dum facto ou figura cultivada por quase todos os autores renascentistas, entre os que destaca António Ferreira.
  • Elegia. )a Drama , no que se diferencia muito claramente entre tragédia e comédia (ao contrario que em Gil Vicente).

2.. Formas

A forma mais usada é o soneto de versos decassílabos , mas a medida nova não impede a continuação da medida velha (redondilha) embora esta seja usada para temas considerados menos importantes (lúdicos, folclóricos). Mas há uma excepção : “Sôbolos rios que vão” de Camões , composição em que se trata um tema sério em redondilhas.

António Ferreira repudiara a medida velha e mesmo criticara os poetas coetâneos que a usam.

3.. O Renascimento português

  1. Temática das descobertas :
  • Elogiadas dum ponto de vista antropocêntrico.
    • (^) Introdução do elemento exótico (costumes, paisagens...)
  • Dualidade entre a experiência / observação – saber livresco , que se corresponde com a dualidade armas – letras que define o protótipo de homem renascentista. Assim, diz Camões que ele tem numa mão a pena, noutra a espada.
  1. Admiração pelas literaturas italiana e espanhola :
  • Literatura italiana : Sá de Miranda é considera-o o introdutor das formas renascentistas, já que estuda em Itália com uma bolsa concedida por D. João III e entra em contacto com os intelectuais italianos do século XVI (Dante, Petrarca, Bocaccio). Assim, assimila uma nova concepção da literatura e o chamado dolce stil nuovo.
  • Literatura espanhola : quando Sá de Miranda volta da Itália passa por Espanha e conhece a literatura espanhola do século XVI da mão de autores como Garcilaso de la Vega ou Juan Boscán , quem animara a Sá de Miranda a praticar o dolce stil nuovo.
  1. Bilinguismo : prática que já se dava no Cancioneiro Geral e em Gil Vicente , e que continua agora favorecida pela admiração pela literatura espanhola e o contexto histórico ( Monarquia Filipina ). Todos os autores renascentistas praticarão o bilinguismo, excepto António Ferreira quem mesmo o criticara na sua obra Poemas Lusitanos^1.
  1. As descobertas

1.3.. Fase dos navegadores

  1. Inicia-se em 1415 , quando os portugueses chegam a Ceuta e conseguem conquista-la. Nesta expedição participam vários membros da dinastia de Avis , como D. João I, D. Duarte ou D. Henrique, o Navegador. Esta conquista é recolhida na Crónica da tomada de Ceuta de Gomes Eanes de Zurara (continuador de Fernão Lopes). É muito salientável a figura de D. Henrique , quem tinha impulsado os estudos de Astronomia , Aritmética e Geometria na Universidade de Lisboa para preparar pilotos eficientes e actualizados nos progressos da náutica.

(^1) Obra publicada de jeito póstumo. O título também é colocado postumamente pela admiração que tem à pátria portuguesa.

  1. Bernardim Ribeiro

1.4.. Vida

diversas hipóteses sobre a biografia de Bernardim Ribeiro, mas há muito poucos documentos que as justifiquem:

  1. Origem : 1).)a Alguns teóricos defendem que é de Torrão (Alentejo), já que numa das suas éclogas aparece um pastor que diz ser desse lugar e interpreta-se esta personagem como um alter ego do autor. 1).)b Outros autores crêem que tem de ser dalgum lugar o norte de Portugal pela não distinção entre / F 06 2 / e / F 07 6 /.

  2. Formação : por Menina e moça sabemos que domina o estilo palaciano e que é quem de usar vocabulário jurídico.

  3. Profissão : há um alvará do rei D. João III em que se nomeia a um Bernardim Ribeiro como escrivão / notário, mas nãocerteza de que seja o mesmo autor de Menina e moça.

  4. Confissão : é muito aceitada a tese de que é de origem judia, por razões como: 4).)a Menina e moça edita-se pela primeira vez em Itália, na tipografia do judeu judeu Abrão Usque. Da sua tipografia sairam obras de tema religioso ou textos sagrados para os judeus, em hebreu ou latim. Em português só editou:

  • (^) Menina e moça ;
  • Consolação das tribos de Israel , do seu irmão Samuel Usque, uma apologia do povo judeu.

4).)b Uma das leituras que admite Menina e moça é uma leitura religiosa ligada ao povo judeu.

  1. Relação com Sá de Miranda : há indícios de que Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda se conhecessem: 5).)a Na obra de Sá de Mirandareferências a um Bernardim Ribeiro ligado à introdução do bucolismo em Portugal e do que se diz que esteve em Itália. 5).)b Numa écloga de Bernardim Ribeiro aparece uma personagem chamada Franco de Sandomir , que é interpretado por alguns estudiosos como um anagrama^2 de Francisco Sá de Miranda.

6.. Obra

6...1... Composições do Cancioneiro Geral

(^2) O anagrama é um recurso muito utilizado na Renascença.

cinco composições do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende da autoria dum Bernardim Ribeiro , mas não sabemos se é o mesmo autor de Menina e moça , embora incluam elementos ligados ao judaísmo : )a Importância da cor amarela , que eram obrigados a usar os judeus em Portugal para serem discriminados. )b Parodia ou fingimento de praticar os ritos católicos. )c Aparece o tema da partida.

Deste modo, podemos falar duma certa intertextualidade entre Menina e moça e estas composições.

1.5.. Éclogas

Berndardim Ribeiro é autor dum conjunto importante de éclogas.

1.6.. Menina e moça

)d Edições :

  1. Em 1554 é editada na cidade italiana de Ferrara , na tipografia do judeu Abrão Usque^3 sob o título de História de Menina e Moça por Bernardim Ribeiro agora de novo estampada e por suma diligência emendada. A locução de novo tem sido interpretada à moderna, de modo que implica a existência de edições anterior, mas no século XVI também podia significar pela primeira vez e tudo parece indicar que esta é a primeira edição da obra.

  2. Posteriormente reedita-se em Évora e adiciona-se uma quinta parte : O romance de cavalarias.

  3. Manuscritos : 1).)a (^) Manuscrito A , data-lo pelo professor Asensio em 1543 , já que na ultima folha se faz referência à morte de Rui de Sá Pereira e do Bispo de Coimbra, que foi nesse ano. 1).)b Manuscrito M , encontrado em Madrid. Data da segunda metade do século XVI e é mais breve que o anterior.

  4. Edições : 2).)a Edição de Ferrara ( 1554 ), a cargo de Abrão Usque. Contém também 5 éclogas, poesias menores e uma carta a Cristóvão Falcão. 2).)b Edição de Évora ( 1557/1558 ), a cargo de André de Burgos. Contém 5 éclogas e o romance Ao longo da Ribeira. 2).)c Edição de Colónia ( 1559 ), uma repetição da de Ferrara publicada por Arnold Birkman , conhecido pelos seus interesses comerciais em Antuérpia , um dos lugares aos que iam os judeus exilados da Espanha e Portugal.

Há certas variantes na língua e no texto das diferentes edições, mas geralmente segue-se a edição de Ferrara.

  1. Títulos : 3).)a História da Menina e Moça : edição de Ferrara e manuscrito perdido do (^3) Desde 1545 a Inquisição perseguia os judeus em Portugal, razão pela que muitos fugirom para a Itália, entre eles Abrão Usque.
  • Exploram-se as ideais da Morte e a Fortuna.
  • A linguagem é mais lírica e subjectiva que a das demais partes.
  • O discurso baseia-se na meditação , de modo que quase nãoacção.
  • Aparece já uma importante carga simbólica, que se desenvolverá no resto da obra.
  • A voz principal é a de uma jovem apresentada sozinha reflectindo sobre a sua solidão , tristeza e condição feminina.
  • O discurso da jovem é como um estudo psicológico da mulher desde uma perspectiva sexista, que opõe a psicologia do homem à da mulher:
  • Mulher: ser triste que nasce destinada à reflexão ;
  • Homem: ser mais liberado das impressões de angústia que nasce destinado à acção.
  • Intertextualidade com as cantigas de amigo , já que se aprece uma capacidade de transvestimento de Bernardim Ribeiro nessa jovem.
  • Reflexões metaliterárias : a jovem menciona um livro redigido para pessoas tristes, que dizer, para mulheres. Isto pode ser interpretado como um prólogo da própria obra.

Comentário dalguns trechos Trecho 1 (linhas 1 – 36) (^) • Intertextualidade com:

  • Novela bucólica ;
  • Écloga : personagem que sai da cidade por causa dalguma desgraça pessoal, sobre tudo amorosa, e que se refugia em solidão no campo.
  • Léxico relacionado com a Fortuna / Destino, a tristeza e a natureza.
  • Ideia do exílio.
  • Tema da mudança dos tempos , muito presente na Renascença (Camões:”Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”). É sempre uma mudança negativa.
  • Interpretação religiosa : a moça pode ser a voz do povo judeu que foi expulso de Portugal e fica errante , fora de contacto com a sociedade. Trecho 2 (linhas 53 – 98) (^) • Psicologia feminina : a mulher é a emissária e destinatária da obra pela sua condição de ser triste.
  • Referências metaliterárias : Bernardim Ribeiro parece transvestir-se na personagem da jovem para apresentar a obra.
  • Intertextualidade com:
  • Cantigas de amigo (transvestimento de Bernardim Ribeiro na personagem da jovem);
  • Consolação das tribos de Israel , de Samuel Usque, obra em que se trata o exílio do povo judaico e a consequente tristeza.
  • Discurso disfórico : léxico relacionado com a tristeza. É o tipo de discurso mais marcado em toda a literatura religiosa hebraica.
  • Tema da partida para outros lugares e experiência da solidão.
  1. (^) O romance de Aónia e Bimarder :
  • Presença do autor , que faz que a novela também possa ser qualificada de autobiográfica. Assim, narra-se o percurso do povo hebraico ao mesmo tempo que o de Binmarder , personagem que se identifica com Bernardim Ribeiro.
  • Temática da tristeza (esta parte inicia-se com uma elegia pela morte de Belisa).
  • (^) Repete-se a modo de glosa todo o relatado na primeira parte.
  • Há mais acção :
    • durante o pranto de Aónia pela morte da sua irmã Belisa um cavaleiro apaixona-se por ela e, para conquista-la, muda a sua vestimenta de cavaleiro para a de pastor e o seu nome trocando-lhe as letras.
    • O resultado é que o cavaleiro fica com o nome de Binmarder, que também tira da frase Bin m’arder! , pronunciada por um pastor que fugia de ser queimado.
    • Sob a nova e falsa identidade consegue o amor de Aónia, abandonando a Aquelísia , uma mulher com a que tinha uma relação de modo oficial e por obrigação.
    • Aónia casa com outro cavaleiro como estratégia para esconder a sua relação com Binmarder , mas este não sabe que é uma estratégia e foge pelo bosque.
  • Simbolismo :
    • Binmarder parece o alter ego de Bernardim Ribeiro.
    • O fogo do que foge o pastor simboliza o fogo da Inquisição , já que os judeus que não se arrependiam eram queimados vivos, mentes que os que si se arrependiam eram mortos antes de serem queimados.
    • (^) Aquelísia é um anagrama e Eclesia , pelo que a relação de Binmarder com a Igreja tinha sido por obrigação e não por devoção. Isto é uma referência à obrigação que tinham os judeus conversos de fingirem que praticavam a fé cristã.
  • Bucolismo cada vez mas presente (rebanhos, cães, lobos, pastores...)
  • Interpretação do ponto de vista hebraico : os elementos judaicos estão cada vez mais presentes:
    • Descrição dos rituais funerários judaicos;
    • (^) Oposição entre o amor por devoção com Aónia, e o amor por obrigação com Aquelísia.

Comentário dalguns trechos Trecho 1 (linhas 1398 –

  • Tema da mudança , sempre negativa.
  • Tema da Fortuna : o atento à sorte que supõe a falsa conversão.
  • Referências metaliterárias : Binmarder como alter ego de

remodelados de forma que parecessem um conjunto, mas no que intervieram diferentes autores.

  • Acção :
    • (^) Começa com um discurso dum cavaleiro , mas que não é o mesmo que ia falar ao final da quarta parte.
    • A donzela é reposta nos seus direitos e recupera a honra e os bens, mas a partir de certo momento Avalor é substituído por outro cavaleiro andante: Tasbião.
    • Tasbião vê-se implicado em combates, traições, lutas com feras...
    • Aparece também um ermitão que ora pelas almas de Aónia e Binmarder , das que se diz que estão no “outro mundo”.

Comentário dalguns trechos Trecho 1 (linhas 3792 –

  • Situação na obra : último trecho da última parte da edição de Ferrara.
  • (^) História de cavalarias ( complexidade de Menina e moça , que pode ser qualificada de diferentes modos) e elogio do serviço à dama. Paralelismo entre o cavaleiro andante e o judeu errante ;
  • Paralelismo com o início da obra pelo afastamento da terra própria.
  • Intercalação duma história dentro doutra (Avalor conta uma história parecida à que está a viver, mas em que o protagonista era o seu pai).

)h Menina e moça e Crisfal

  • Crisfal é uma écloga publicada em 1554 em Ferrara , considerada por parte da crítica como obra de Bernardim Ribeiro.
  • Crisfal seria um criptónimo de Cristóvão Falcão e, a partir do carácter amoroso da composição, ter-se-ia criado um mito em relação com a biografia de Cristóvão Falcão:
  • Nobre que esteve em prisão por casar com uma menor , história à que se faz alusão na écloga.
  • Para evitar polémicas é enviado por D. João III a Roma e, mais tarde, seria capitão de várias fortalezas na África.
  • De volta a Portugal seria preso de novo por agredir um fidalgo , até que consegue uma carta de perdão.
  • Finalmente casa com outra nobre.

)i O Judaísmo / criptojudaismo em Menina e moça

A partir de certas reflexões de Helder Macedo vem-se interpretando Menina e moça como uma novela mística / religiosa em chave judaica:

  1. Interpretação que tem sentido tendo em conta que: )a Bernardim Ribeiro foi um cristão novo ; )b É escrita no momento em que os judeus são expulsos e perseguidos em Portugal.
  1. O carácter feminista de Menina e moça não poderia inserir-se dentro da tradição hebraica em geral, mas sim tendo em conta a obra Zohar ou Livro do esplendor redigida no século XIII por Moisés de León , que estava em pleno apogeu a época de Bernardim Ribeiro. É uma obra que se caracteriza por: 2).)a (^) Exortar ao povo judeu à resistência e à fidelidade de maneira alegórica. 2).)b Estar ligada ao cabalismo hispânico ou corrente dos Iluminados , que pretendia explicar certas questões místicas da doutrina judaica, entre as que está a de que cada mulher , como filha, noiva ou mãe, constitui para o homem um meio de aceso à salvação ( Chéquina ). Esta visão da mulher nesta obra judaica pode explicar que se considere Menina e moça como uma novela de carácter religioso, embora não apresente a mulher no modo tradicional da cultura hebraica.

Não podemos esquecer que a situação dos judeus em Portugal é muito difícil nesta altura:

  1. Em 1497 , durante o reinado de D. Manuel I, são forçados a se converterem já que após a expulsão dos judeus de Castela (1492) muitos refugiaram-se em Portugal. O facto de serem forçados a se converterem deve-se, em parte, à pressão de Castela.

  2. (^) Em 1506 produz-se o Massacre de Lisboa ou Matança da Páscoa :

  • Inicia-se um domingo de Abril em que os cristãos rezavam pelo fim da seca e da peste e dizem ver o rosto de Cristo iluminado num altar, mas um cristão novo diz que é apenas o reflexo do Sol.
  • Por causa desta afirmação o cristão novo é perseguido e assassinado e estende-se a ideia de que os judeus são culpáveis da seca , da peste , da fome ..
  • Houve um chamamento para a persecução dos hereges (mesmo se tinha prometido a absolvição dos pecados para aquelas pessoas que matassem judeus) que tem como resultado o assassinato de entre 2000 e 4000 judeus.
  • (^) Quando a família real volve a Lisboa (estava fora da corte por causa da peste) penaliza às pessoas que tinham fomentado esta persecução.
  1. Em 1540 instaura-se a Inquisição em Portugal e os judeus fugiram ou foram expulsos e, ademais, mesmo os que tinham sido expulsos tinham de pagar um resguardo à Coroa para poder sair de Portugal.