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Vida Data e lugar de nascimento, Apuntes de Lengua y Literatura Gallega

Asignatura: Literatura Portuguesa I (das origens à Renascença), Profesor: Maria Isabel Moran Cabanas, Carrera: Lengua y Literatura Gallega, Universidad: USC

Tipo: Apuntes

Antes del 2010

Subido el 10/06/2008

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luz_varela 🇪🇸

4.3

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1. Vida
1.)1Data e lugar de nascimento: crê-se que nasce em 1524 / 1525, mas não
documentos que o acreditem. Tampouco se sabe qual foi o seu lugar de
nascimento, há hipóteses que assinalam Lisboa e outras que mesmo defendem
a sua origem galega (Filgueira Valverde relaciona o apelido Camões com o
topónimo pontevedrês Camos). Morre o 10 de Junho de 1580.
1.)2Formação: não se sabe onde adquire a sua formação, mas crê-se que estuda
filosofia e literatura na Universidade de Coimbra sob a protecção dum tio
que era Padre (D. Bento).
1.)3Procedência social: tudo parece indicar que pertencia à pequena
nobreza, que naquela altura vivia numas condições económicas bastante
adversas. Camões mostrou sempre o seu inconformismo com esta situação,
razão pela que um dos seus biógrafos diz que era demasiado pobre para viver
como fidalgo e demasiado fidalgo para viver como pobre.
1.)4Passagens signicativas da sua vida:
1.)4.)a Atribuíram-se-lhe vários desterros, entre os que destaca um desterro
para Ceuta onde teria exercido de soldado e perderia o olho direito, uma
perda que refere nos seus versos.
1.)4.)b Atribuíram-se-lhe várias relações amorosas, entre as que destaca a
que manteve com a Infanta D. Maria, irmã do rei D. Manuel I, a qual
inspiraria alguns dos seus textos. Um exemplo é “Perdigão perdeu a
pena”, umas redondilhas em que o perdigão, que é um auto-pseudónimo do
autor, quer subir demasiado alto e tem um final trágico.
1.)4.)c Conhece-se a sua passagem pela cadeia como consequência dum
conflito com um funcionário da Corte. Esteve um ano em prisão e saiu
depois de ser perdoado pelo rei e pelo agredido, mas com a condição de
viajar para a Índia para servir a Coroa.
1.)4.)d Na Índia:
Parece que sentiu uma grande decepção com Goa pela ambição dos
portugueses, cidade que que literariamente chamaria Babilónia (terra de
exílio dos israelitas) por considerá-la uma terra má e à que se refere com
expressões negativas. Esta identificação da Índia com Babilónia baseia-
se na composição “Sóbolos rios que vão / de Babilónia a Sião”.
Participou em várias expedições marítimas e numa delas Camões iria
perde-lo tudo por causa duma tempestade nas proximidades da costa da
Indochina. Segundo a lenda, nesta tempestade:
Morre uma moça chinesa com a que Camões teria uma relação
amorosa e que baptizara literariamente como Dinamene. Pouco
depois teria escrito os sonetos elegíacos dedicados a Dinamene.
Correu grande risco o manuscrito de Os Lusíadas (cujo primeiro
canto teria sido redigido na Índia, segundo alguns biógrafos), que
Camões teria salvado das águas.
)a Camões abandona a Índia e, com a ajuda económica das suas amizades, vai
para Moçambique, onde contrai cada vez mais dívidas.
)b Regressa de novo a Lisboa, parece que também com a ajuda económica dos
seus amigos, um dos quais parece que foi João de Barros1. Em Lisboa
publica Os Lusíadas (1572) e consegue sobreviver com uma tença anual
concedida pela Monarquia como reconhecimento ao seu serviço à pátria
como soldado e escritor. Com tudo, Camões é apresentado pelos seus
10. Camões
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1 Entre as seis cartas conservadas de Camões há algumas dirigidas a João de Barros.
4 Da que se disse que foi uma vendedora mulata que o mantinha (Faria e SOusa); uma
bailarina índia (Teófilo Braga); uma cocinheira (Carolina Michaëlis); simplesmente
uma mulher morena à que Camões chama preta de modo carinhoso.
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1. Vida

1.)1 Data e lugar de nascimento : crê-se que nasce em 1524 / 1525 , mas não

há documentos que o acreditem. Tampouco se sabe qual foi o seu lugar de

nascimento, há hipóteses que assinalam Lisboa e outras que mesmo defendem

a sua origem galega (Filgueira Valverde relaciona o apelido Camões com o

topónimo pontevedrês Camos). Morre o 10 de Junho de 1580.

1.)2 Formação : não se sabe onde adquire a sua formação, mas crê-se que estuda

filosofia e literatura na Universidade de Coimbra sob a protecção dum tio

que era Padre (D. Bento).

1.)3 Procedência social : tudo parece indicar que pertencia à pequena

nobreza , que naquela altura vivia numas condições económicas bastante

adversas. Camões mostrou sempre o seu inconformismo com esta situação,

razão pela que um dos seus biógrafos diz que era demasiado pobre para viver

como fidalgo e demasiado fidalgo para viver como pobre.

1.)4 Passagens significativas da sua vida:

1.)4.)a Atribuíram-se-lhe vários desterros , entre os que destaca um desterro

para Ceuta onde teria exercido de soldado e perderia o olho direito , uma

perda que refere nos seus versos.

1.)4.)b Atribuíram-se-lhe várias relações amorosas , entre as que destaca a

que manteve com a Infanta D. Maria , irmã do rei D. Manuel I, a qual

inspiraria alguns dos seus textos. Um exemplo é “Perdigão perdeu a

pena” , umas redondilhas em que o perdigão, que é um auto-pseudónimo do

autor, quer subir demasiado alto e tem um final trágico.

1.)4.)c Conhece-se a sua passagem pela cadeia como consequência dum

conflito com um funcionário da Corte. Esteve um ano em prisão e saiu

depois de ser perdoado pelo rei e pelo agredido, mas com a condição de

viajar para a Índia para servir a Coroa.

1.)4.)d Na Índia :

• Parece que sentiu uma grande decepção com Goa pela ambição dos

portugueses, cidade que que literariamente chamaria Babilónia (terra de

exílio dos israelitas) por considerá-la uma terra má e à que se refere com

expressões negativas. Esta identificação da Índia com Babilónia baseia-

se na composição “ Sóbolos rios que vão / de Babilónia a Sião ”.

• Participou em várias expedições marítimas e numa delas Camões iria

perde-lo tudo por causa duma tempestade nas proximidades da costa da

Indochina. Segundo a lenda, nesta tempestade :

• Morre uma moça chinesa com a que Camões teria uma relação

amorosa e que baptizara literariamente como Dinamene. Pouco

depois teria escrito os sonetos elegíacos dedicados a Dinamene.

• Correu grande risco o manuscrito de Os Lusíadas (cujo primeiro

canto teria sido redigido na Índia, segundo alguns biógrafos), que

Camões teria salvado das águas.

)a Camões abandona a Índia e, com a ajuda económica das suas amizades, vai

para Moçambique , onde contrai cada vez mais dívidas.

)b Regressa de novo a Lisboa , parece que também com a ajuda económica dos

seus amigos, um dos quais parece que foi João de Barros 1. Em Lisboa

publica Os Lusíadas (1572) e consegue sobreviver com uma tença anual

concedida pela Monarquia como reconhecimento ao seu serviço à pátria

como soldado e escritor. Com tudo, Camões é apresentado pelos seus

1 Entre as seis cartas conservadas de Camões há algumas dirigidas a João de Barros.

4 Da que se disse que foi uma vendedora mulata que o mantinha (Faria e SOusa); uma

bailarina índia (Teófilo Braga); uma cocinheira (Carolina Michaëlis); simplesmente

uma mulher morena à que Camões chama preta de modo carinhoso.

biógrafos como um homem orgulhoso e insatisfeito , contestatário com a

falta de reconhecimento dos seus valores, tanto como homem de letras

como de armas. Esta é uma interpretação tirada dos últimos versos de Os

Lusíadas , em que diz que silencia a sua voz porque não quer já mais cantar

para gente vil e desagradecida.

)c Camões morre em 1580 , mas não temos dados exactos do que acontece

com os seus restos, que parece que foram enterrados sob uma placa em que

se lia Aqui jaz Luís de Camões, príncipe de poetas, viveu pobre e miserável

e assim morreu. O terramoto de 1755 arrasou o seu sepulcro e hoje os

seus restos estão presumivelmente nos Jerónimos de Lisboa.

2. Obra

2.1. Lírica

A obra lírica de Camões só foi publicada postumamente , sob o título de

Rimas^2. Crê-se que Camões teria projectado publicar a sua obra, que já estaria pronta

num manuscrito sob o título de Parnaso Lusitano , mas este seria-lhe roubado.

Esta parte de obra de Camões apresenta, ainda na actualidade, muitos

problemas de edição já que circulam muitas variantes dos textos, textos atribuídos

a Camões que não são dele (de Diogo Bernardes, poemas do Cancioneiro Geral^3 ) e

textos atribuídos a outros autores que são em realidade de Camões. Deste modo, na

actualidade não há nenhuma edição aceite por toda a crítica (algumas atribuem-lhe

mais de mil textos, e outras menos de quinhentos). Com tudo, podemos citar as de:

a) Júlio da Costa Pimpão ;

b) Leodegário de Azevedo Filho , edição muito diferente às tradicionais.

2.1.1. Obra lírica escrita na medida velha

São mais de cem composições ligadas à lírica tradicional , com um

carácter mais folclórico e desenfadado. As suas principais características são:

1) Temática lúdica e brincalhona, ligada ao galanteio ou ao humor e à sátira.

2) Estilo engenhoso : exploração das possibilidades significativas da linguagem

através de jogos de palavras. Frequentemente encontra no corpo da palavra

um pretexto para desenvolver um discurso estabelecendo uma rede de nexos.

Isto supõe uma similitude com o Barroco (Quevedo, Baltasar Gracián), razão

pela que Camões é visto por muitos autores como um autor de transição para

o Barroco ( maneirista ). Neste sentido destaca a exploração que faz da palavra

pena :

Significado Significante

1. pluma (das aves)

2. instrumento da escrita

3. mágoa

4. condena

5. rocha

1. pena

2. penar

3. apenado

4. depenado

2 Bocage publicaria uma obra com o mesmo título pela admiração que sentia por

Camões.

3 Publicado em 1516, antes do nascimento de Camões.

MOTE

Descalça vai pera a fonte Lianor, pela verdura; vai fermosa e não segura.

VOLTA

Leva na cabeça o pote, o testo nas mãos de prata, cinta de fina escarlata, sainho de chamalote; traz a vasquinha de cote, mais branca que a neve pura; vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta, cabelos d' ouro o trançado, fita de cor d' encarnado... Tão linda que o mundo espanta! Chove nela graça tanta que dá graça à fermosura; vai fermosa, e não segura.

• Temática : elogio duma moça à maneira de descriptio

puellae. É uma descrição plástica (alusão a cores, tecidos, penteados, ornamentação, pela mais branca que a neve pura...)

• É interpretada coma a primeira composição duma

trilogia em que Camões comentaria os três estados da paixão. Este primeiro estado seria o da liberdade , mas com o risco de ficar nas garras da paixão ( vai fermosa e não segura ).

• É uma composição ligada ao folclore e à tradição

(fonte).

MOTE SEU

Descalça vai pola neve... Assi faz quem Amor serve.

VOLTAS

Os privilégios que os reis não podem dar, pode Amor, que faz qualquer amador livre das humanas leis. Mortes e guerras cruéis, ferro, frio, fogo e neve, tudo sofre quem o serve.

Moça fermosa despreza todo o frio e toda a dor. Olhai quanto pode Amor mais que a própria natureza: medo nem delicadeza lhe impede que passe a neve. Assi faz quem Amor serve.

Por mais trabalhos que leve, a tudo se of'receria; passa pela neve fria mais alva que a própria neve; com todo o frio se atreve... Vede em que fogo ferve o triste que o Amor serve.

• É interpretada como a segunda composição da trilogia,

em que se desenvolve a segunda fase da paixão amorosa: vivência do enamoramento e o cativeiro que supõe. Canta-se ao serviço amoroso, mais poderoso do que qualquer lei humana (compara-se com o serviço ao rei ou à guerra).

• Forma : mote (de autoria colectiva) + glosa.

• Metáforas recorrentes em Camões: neve ( brancura )

e fogo ( amor ).

• Ligação com a tradição : pé descalço e erotismo.

CANTIGAS ALHEIAS

Na fonte está Lianor lavando a talha e chorando, às amigas perguntando: «Vistes lá o meu amor?»

VOLTAS DO CAMÕES

Posto o pensamento nele, porque a tudo o Amor a obriga, cantava; mas a cantiga eram suspiros por ele. Nisto estava Lianor o seu desejo enganando, às amigas perguntando: Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre üa mão, os olhos no chão pregados, que, do chorar já cansados, algum descanso lhe dão. Desta sorte Lianor suspende de quando em quando sua dor; e, em si tornando, mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água, que não quer que a dor se abrande Amor; porque, em mágoa grande, seca as lágrimas a mágoa.

• Terceira fase da paixão: desengano e desilusão.

• Intertextualidade com a lírica tradicional ( às amigas

perguntando: “vistes lá o meu amor?” ).

• Expressão do amor de maneira hiperbólica ( olhai que

extremos de dor! ) e referência ao choro como um alívio.

Que despois de seu amor soube novas perguntando, d' emproviso a vi chorando. Olhai que extremos de dor!

“Sobolos rios que vão” • Assunto grave , a diferença das outras composições

em redondilhas, como nas composições em medida nova.

• Composição inspirada no Salmo 136 da Bíblia de

modo bastante fiel. Neste Salmo narra-se o exílio dos israelitas que têm de abandonar Sião e fugir a Babilónia.

• Contraposição de dois cronotopos :

Sião (Hierusalém) Babilónia

passado feliz presente triste

origem exílio

bem mal

• Temas :

• Mudança ou mutação , sempre para pior , um

tema recorrente na obra de Camões e na Renascença em geral.

• Fortuna : ventura (verso 136).

• Fama , mais poderosa do que a morte ( barões

assinalados de Os Lusíadas ).

• Saudade da terra de origem , enfatizada mediante

imagens violentas (versos 190 e 191: a voz, quando a mover, / se me congele no peito. ) que lembram a do soneto O dia em que eu naci moura a pereça.

O dia em que eu naci moura e pereça, não o queira jamais o tempo dar; não torne mais ao mundo e, se tornar, eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça, mostre o mundo sinal de acabar, naçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas de ignorantes, as lágrimas no rosto, a cor perdida, cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou ao mundo a vida mais desgraçada que jamais se viu!

• Memória que, sob a filosofia platónica é o registo

ou conservação passiva das vivências

Oh! quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Génio de vinganças!

• Está ligado ao tempo , que implica mudança (metáfora do rio).

Composição Comentário Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho co’o tormento, para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são e não defeitos; e sabei que, segundo o amor tiverdes, tereis o entendimento de meus versos.

Soneto – prólogo em que Camões apresenta a

sua obra literária:

• Referências ao processo da comunicação

literária :

• Mensagem amorosa.

• Autor como agente da escrita ( escrevesse ).

• Destinatário : Ó Vós [...] quando lerdes.

• Humilitas : escureceu-me o engenho, breve livro.

• Poema egotista. Camões insiste em que ele

canta verdades puras , não defeitos (erros).

• Apresentação de temas recorrentes da sua

lírica:

• Fortuna : Enquanto quis Fortuna que tivesse.

• Passagem do tempo , ligada à Fortuna, que

é sempre para pior. Assim, contrapõe-se o passado (tempo de esperança) com o presente (tempo de desengano). Eu cantarei de amor tão docemente, Por uns termos em si tão concertados, Que dous mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que o amor a todos avivente, Pintando mil segredos delicados, Brandas iras, suspiros magoados, Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto De vossa vista branda e rigorosa, Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto A composição alta e milagrosa, Aqui falta saber, engenho e arte.

Soneto – prólogo :

• Processo de comunicação literária :

• Mensagem amorosa : cantarei de amor.

• Autor : Eu cantarei.

• Destinatário : Faça sentir ao peito que não

sente / Farei que o amor a todos avivente.

• Temas recorrentes :

• Amor e os seus efeitos contraditórios :

Brandas iras, suspiros magoados, / temerosa ousadía e pena ausente.

• Imagem da mulher : senhora protótipo do

amor cortês e da literatura petrarquista. É uma mulher esquiva e doce ao mesmo tempo ( desprezo honesto [...] vista branda e rigorosa ), intangível, superior ao poeta e de qualidades inefáveis ( contentar-me-ei dizendo a menor parte ), descrita só do ponto de vista psicológico.

• Humilitas , usada para sublinhar a grandeza da

mulher: aqui falta saber, engenho e arte. Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

• Definição poética do conceito de amor

• Que se estabelece em termos dialécticos a

partir da oposição entre a dor e a felicidade que produz.

• Mas, ao ser um conceito paradoxal, há

também uma vontade de unificar as ideias do discurso através da palavra amor (com a que começa e termina o poema).

• Forma :

• Forma circular (o poema começa e termina

com a mesma palavra) e cheia de paralelismos (anáfora).

• Também seria possível assinalar uma forma

antitética , já que o último terceto é

introduzido com a partícula adversativa mas.

É uma definição baseada no paradoxo, tanto no contido como na forma, já que o amor, apesar dos seus efeitos negativos, é quem de unir corações, pelo que é um conceito paradoxal. Um mover d’olhos, brando e piedoso, sem ver de quê; um riso brando e honesto, quase forçado; um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso;

um despejo quieto e vergonhoso; um repouso gravíssimo e modesto; uma pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso;

um encolhido ousar, uma brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento:

esta foi a celeste formosura da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento.

• Definição duma mulher – ideia (descriptio

puellae), da que só faz uma descrição psicológica e, no caso de ser física, tem de ser seguindo os cânones da época. É uma mulher intangível, superior ao poeta (celeste formosura) e também contraditória (encolhido ousar, medo sem ter culpa).

• Referências mitológicas: Circe, feiticeira da

Odisseia, uma obra que Camões conhece muito bem.

• Inspiração em Petrarca.

Pede o desejo, Dama, que vos veja; Não entende o que pede; está enganado. É este amor tão fino e tão delgado, Que, quem o tem, não sabe o que deseja.

Não há coisa, a qual natural seja, Que não queira perpétuo o seu estado; Não quer logo o desejo o desejado, Por que não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afeito em mim se dana; Que, como a grave pedra tem por arte O centro desejar da Natureza,

Assi o pensamento, pela parte Que vai tomar de mim, terrestre, humana, Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

• Contradições do amor : desejo vs. razão :

• Estrutura antitécia , já que primeiro pede e

justifica o desejo (qualificando-o como uma lei natural, igual do que a lei da gravidade), mas afinal considera-o uma baixeza (influencia da teoria neoplatónica)

Transforma-se o amador na coisa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho, logo, mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples, busca a forma.

• Temática amorosa , desenvolvendo o motivo

da transformação do amador na coisa amada (neoplatonismo). É um motivo que já estava presente no Cancioneiro Geral , mas que se desenvolve agora na Renascença.

• Inspiração em Petrarca ( imitatio ).

• Estrutura antitética : corpo vs. alma , acidente

vs. sujeito , matéria vs. forma.

• Intertextualidade com outros textos dele e

doutros autores renascentistas.

Presença bela, angélica figura, Em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado; Gesto alegre, de rosas semeado, Entre as quais se está rindo a Fermosura;

Olhos, onde tem feito tal mistura Em cristal branco e preto marchetado, Que vemos já no verde delicado Não esperança, mas enveja escura;

Brandura, aviso e graça que, aumentando A natural beleza c'um desprezo Com que, mais desprezada, mais se aumenta;

São as prisões de um coração que, preso, Seu mal ao som dos ferros vai cantando, Como faz a sereia na tormenta.

• Descrição da mulher – ideia , introduzindo a

figura da mulher – anjo.

Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida, descontente, Repousa lá no Céu eternamente E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

• Soneto pertencente ao ciclo de Dinamene ,

que a crítica biografista identificou com uma moça chinesa que teria afogado no mesmo naufrágio em que Camões quase perde os

Oh, como se me alonga, de ano em ano, A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano; Perde-se-me um remédio, que inda tinha; Se por experiência se adivinha, Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece, Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda parece, Da vista se me perde e da esperança.

• Passagem do tempo ( peregrinação ) e

mudança para pior, que leva à perda da confiança.

• Referência metaliterária : este meu breve e vão

discurso humano! (discurso = percurso vital e também processo da escrita).

Cá nesta Babilónia, donde mana Matéria a quanto mal o mundo cria; Cá donde o puro Amor não tem valia, Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana, E pode mais que a honra a tirania; Cá, onde a errada e cega Monarquia Cuida que um nome vão a desengana;

Cá, neste labirinto, onde a nobreza, Com esforço e saber pedindo vão Às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão, Cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião!

• Intertextualidade con Sobolos rios que vão.

O dia em que eu naci moura e pereça não o queira jamais o tempo dar; não torne mais ao mundo e, se tornar, eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, o Céo se lhe escureça, mostre o mundo sinais de se acabar, nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas, pasmadas de ignorantes, as lágrimas no rosto, a cor perdida, cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou ao mundo a vida mais desaventurada que se viu.

• Soneto apocalíptico.

• Referências bíblicas : Apocalipse e base no

Livro de Job. O poeta, a diferença de Job, perde a confiança.

• Imagens violentas ( sangue chova o ar ).

• Hipérbole.

• Referência ao leitor futuro ( ó gente temerosa ).

Erros meus, má fortuna, amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a fortuna sobejaram, Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa [a] que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos. Oh! quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Génio de vinganças!

• Responsabilidade compartilhada entre a

Fortuna e os próprios erros.

• Temática amorosa.

• Discurso disfórico.

• Passagem do tempo : Tudo passei; mas tenho tão

presente /A grande dor das cousas que passaram, / Que as magoadas iras me ensinaram / A não querer já nunca ser contente.

Dizei, Senhora, da Beleza ideia: Para fazerdes esse áureo crino, Onde fostes buscar esse ouro fino? De que escondida mina ou de que veia?

Dos vossos olhos essa luz febeia, Esse respeito, de um império dino? Se o alcançastes com saber divino, Se com encantamentos de Medeia?

De que escondidas conchas escolhestes As perlas preciosas orientais Que, falando, mostrais no doce riso?

• Descriptio puellae : mulher – ideia , da que se

dá uma descrição física , mas baseada nos cânones da época.

• Referências mitológicas : luz febeia, Narciso,

Medeia.

Pois vos formastes tal como quisestes, Vigiai-vos de vós, não vos vejais; Fugi das fontes: lembre-vos Narciso. Verdade, Amor, Razão, Merecimento Qualquer alma farão segura e forte; Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte Têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento, E não sabe a que causa se reporte; Mas sabe que o que é mais que vida e morte, Que não o alcança o humano entendimento.

Doutos varões darão razões subidas; Mas são experiências mais provadas, E por isso é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas E cousas cridas há sem ser passadas... Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.

• Estrutura dialéctica : verdade, amor, razão

e merecimento vs. fortuna, caso, tempo e sorte. São os últimos os que realmente regem o mundo.

• Presença da fé em Deus ( mas o melhor de tudo

é crer em Cristo ), algo muito pouco frequente em Camões, ainda que também podemos encontrar isto em Sobolos rios que vão.

Canção X: “Vinde cá, meu tão certo secretário”

• Estrutura das canções :

• Texto da composição.

• Envio , estrofe de pequena extensão que

contém um apelo à canção. É dizer, são composições metaliterárias.

• Contido : o autor dirige-se ao papel nos

primeiros versos, personificado na figura do secretário (quem guarda os secretos). Poderia ser considerada como uma canção – epílogo.

• Estilo engenhoso (palavra pena ).

2.2. Épica

)A O género da epopeia

)1 Definição : a epopeia é uma composição narrativa de carácter histórico em

que se reflectem diferentes aspectos dum povo através das aventuras dalguns

heróis. Normalmente está protagonizada por um herói central.

)2 História da epopeia :

)2.)a Literatura grega : a Odisseia de Homero apresenta o protótipo de

herói épico, Ulisses , e a partir desta obra desenvolver-se-ia o género épico.

)2.)b Literatura latina : imita o modelo da Odisseia , e a obra mais

importante é a Eneida de Virgílio , que recolhe as aventuras de Eneias e a

convenção das lutas entre deuses.

)2.)c Renascença : as obras épicas mais importantes são:

• Orlando furioso , de Ariosto (narrativa cavaleiresca).

• Orlando enamorado , de Boiardo (narrativa cavaleiresca).

• Jerusalém libertada , de Torquato Tasso (épica que elogia a história

cristã servindo-se do motivo das cruzadas).

)B A epopeia em Portugal

Desde o século XV há chamamentos para a elaboração dum poema épico

em Portugal sobre as descobertas. Por exemplo:

)B.)1 Cancioneiro Geral.

)B.)2 Poemas lusitanos de António Ferreira.