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Aberturas. Imagine que está a ouvir um grupo de estudantes à volta da mesa de um seminário a discutir o romance O Monte dos. Vendavais(1), de Emily Brontë.
Tipologia: Esquemas
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Tal como o sapateado, a arte de analisar obras literárias já deu praticamente o que tinha a dar. Toda a tradição daquilo a que Nietzsche chamou «leitura lenta» está em risco de desaparecer sem deixar rasto. Ao prestar especial atenção à forma e à técnica literárias, este livro tenta desempenhar um modesto papel na tentativa de salvá-las. Fundamentalmente, pretende ser um guia para principiantes, mas espero que também se revele útil para quem já esteja envolvido nos estudos literá- rios ou para quem simplesmente goste de ler poemas, peças e romances nos seus tempos livres. Tento esclarecer questões como a narrativa, a trama, a personagem, a linguagem lite- rária, a natureza da ficção, os problemas da interpretação crítica, o papel do leitor e o valor das avaliações. O livro propõe também algumas ideias acerca de autores específicos, bem como sobre correntes literárias, como, por exemplo, o classicismo, o romantismo, o modernismo e o realismo, para aqueles que possam sentir necessidade delas. Creio que sou mais conhecido como teórico da literatura e comentador político, e alguns leitores poderão perguntar-se o que é feito desses interesses neste livro. A resposta é que não podemos levantar questões políticas ou teóricas acerca de textos literários sem um certo grau de sensibilidade face à
CAPÍTULO 1
Imagine que está a ouvir um grupo de estudantes à volta da mesa de um seminário a discutir o romance O Monte dos Vendavais (^1 ), de Emily Brontë. A conversa poderia ser mais ou menos assim: Estudante A: Não consigo perceber o que é que há de tão especial na relação da Catherine com o Heathcliff. São somente uns putos quezilentos. Estudante B: Bem, na verdade, não é sequer uma relação , pois não? É mais uma espécie de união mística de egos. Não se pode falar dela em linguagem corrente. Estudante C: Porque não? O Heathcliff não é um místico, é um bruto. O gajo não é uma espécie de herói byroniano; é cruel. Estudante B: OK, então quem é que o fez assim? As pessoas do Monte, claro. Quando ele era criança, não tinha problemas. Elas acham que ele não é suficientemente bom para se casar com a Catherine, e, portanto, ele transforma-se num monstro. Pelo menos, não é um cobarde como o Edgar Linton. (^1 ) Ou O Monte dos Ventos Uivantes , consoante as traduções. [ N. do T. ]
Como Ler Literatura Estudante A: Claro, o Linton tem um bocado falta de carác- ter, mas trata a Catherine muito melhor do que o Heathcliff. O que é que há de errado nesta discussão? Algumas das observações feitas são bastante perspicazes. Toda a gente parece ter continuado a ler para lá da página 5. Ninguém parece achar que Heathcliff é uma vilória do Kansas. O problema é que, se alguém que nunca tivesse ouvido falar n’ O Monte dos Vendavais ouvisse esta discussão, nada lhe sugeriria tratar- -se de um romance. Talvez o ouvinte pudesse assumir que os estudantes estavam a coscuvilhar acerca de uns amigos deles, bastante peculiares. Talvez a Catherine seja uma estudante do Instituto Superior de Gestão, o Edgar Linton seja o Reitor da Faculdade de Belas-Artes e o Heathcliff seja um contínuo psicopata. Não é dito nada acerca das técnicas por meio das quais o romance constrói as suas personagens. Ninguém levanta a questão de quais as atitudes que o próprio livro men- ciona face a estas figuras. Serão os seus julgamentos sempre consistentes ou será que são ambíguos? Então e a imagética, o simbolismo e a estrutura narrativa do romance? Reforçam aquilo que sentimos face às suas personagens ou boicotam-no? Claro que, com a continuação do debate, poderia tornar-se mais claro que os estudantes estavam a discutir acerca de um romance. Por vezes, é difícil distinguir aquilo que os críticos literários dizem acerca de poemas e romances de conversas sobre a vida real. Isso não constitui grande crime. No entanto, hoje em dia, isso tende a ocorrer demasiadíssimas vezes. O erro mais comum que os estudantes de literatura cometem é abordarem logo aquilo que o poema ou o romance referem, pondo de lado o modo como o dizem. Ler assim é pôr de parte a «literariedade» da obra — o facto de se tratar de um
Como Ler Literatura sem arruinar completamente a frase. E esta é uma das várias coisas que queremos dizer ao chamar-lhe «poesia». Dizer que devemos encarar aquilo que é feito numa obra literária de acordo com o modo como é feito não é reivin- dicar que essas duas coisas encaixam sempre na perfeição. Poder-se-ia, por exemplo, narrar a história de vida de um rato-do-campo em versos brancos miltonianos. Ou poderí- amos escrever acerca da nossa ânsia de liberdade com uma métrica rígida como um colete de forças. Em casos como estes, a forma estaria interessantemente em desacordo com o conteúdo. No seu romance A Quinta dos Animais , George Orwell molda a complexa história da Revolução Bolchevique sob a forma de uma fábula aparentemente simples acerca de animais de criação. Nesses casos, talvez seja melhor os críticos falarem de uma tensão entre a forma e o conteúdo. Poderão encarar essa discrepância como parte do significado da obra. Os estudantes que acabámos de ouvir a discutir têm opini- ões divergentes acerca d’ O Monte dos Vendavais. Isso levanta toda uma série de questões que, em sentido estrito, pertencem mais à teoria da literatura do que à crítica literária. O que é que está envolvido na interpretação de um texto? Existe uma maneira certa e uma errada de o fazer? Podemos demonstrar que uma interpretação é mais válida do que outra? Poderá haver uma explicação verdadeira para um romance de que ainda ninguém se lembrou ou de que ninguém nunca se lem- brará? Poderão o Estudante A e o Estudante B estar ambos certos relativamente ao Heathcliff, muito embora as suas opiniões quanto a ele sejam vigorosamente opostas? Talvez as pessoas à volta da mesa se tenham confrontado com estas questões, mas, hoje em dia, muitíssimos estudantes não o fizeram. Para eles, o ato de ler é bastante inocente.
Aberturas Não têm consciência de quão inquietante é o mero facto de se dizer «Heathcliff». Afinal de contas, num certo sentido, Heathcliff não existe, pelo que parece estranho falar acerca dele como se existisse. É verdade que há teóricos da literatura que acham que as personagens literárias existem mesmo. Um deles acredita que a nave espacial Enterprise tem mesmo um escudo térmico. Outro considera que Sherlock Holmes é uma criatura de carne e osso. Outro ainda defende que o Sr. Pickwick, de Dickens, é real e que o seu criado, Sam Weller, consegue vê-lo, ainda que nós não consigamos. Estas pessoas não são clinicamente loucas, mas sim, simplesmente, filósofos. Existe uma relação, descurada na conversa dos estudantes, entre as suas próprias discussões e a estrutura do próprio romance. O Monte dos Vendavais conta a sua história de uma maneira que envolve uma diversidade de pontos de vista. Não existe qualquer «voz-off» nem um único narrador fiável que oriente as reações do leitor. Em vez disso, temos uma série de relatos, alguns deles, provavelmente, mais fidedignos do que outros, cada qual disposto dentro dos demais como matrioscas. O livro intercala uma mininarrativa com outra, sem nos dizer o que pensar das personagens e dos aconteci- mentos que descreve. Não tem pressa alguma de nos revelar se Heathcliff é um herói ou um demónio, se Nelly Dean é perspicaz ou estúpida, se Catherine Earnshaw é uma heroína trágica ou uma miúda mimada. Isto faz com que seja difícil os leitores formarem juízos definitivos acerca da história, e essa dificuldade é acrescida pela sua cronologia confusa. Podemos contrastar esta «visão complexa», como foi chamada, com os romances de Charlotte, irmã de Emily. Jane Eyre , de Charlotte Brontë, é narrado a partir de um só ponto