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Natália Correia acharia graça a que a celebração apesar de tudo precoce da sua obra ... Na economia misteriosa da História, Portugal é o peso minúsculo.
Tipologia: Provas
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T ~ ~ U I O NATÁLIA CORREIA
Organização Secção Francesa de D.E.EE.R. Faculdade de Letras da Universidade do Porto Edição Faculdade de Letras da Universidade do Porto Data da Edição 2003
Concepção gráfica Sersilito-Empresa Gráfica, S.A.
Tiragem 500 exemplares ISBN 972-9350-80- Depósito legal 206043/
do século XX, o Grand Siècle ser investigado nos subterrâneos do clandestino, do sombrio, do interdito, da graça, até do seu tão querido irracional ... Poderei mesmo resumir a direcção dos actuais estudos
literários sob Luís XIV, o rei da luz, no mesmo modo genial com que subintitulou a sua obra maior: O
Sol nas Noites e o Luar nos Dias.
6 (^1) --.- Natália Correia, 10 Anos Depois --
Breve perfil d e Natália e m sua o b r a Testemunho de Urbano Tavares Rodrigues ESCRITOR
Natália Correia é, pelo que há de heterogéneo, tumultuoso e apaixonado na sua obra, como na sua vida, figura singular da nossa literatura do século XX.
uma personalidade muito forte, excessiva e contundente, foi na poesia que iniludivelmente nos deixou o mais rico e duradouro filão da sua escrita. Deve muito à experiência surrealista e em s articular a Mário Cesariny de Vasconcelos. Dele recebeu (e transformou) o desatino verbal de longos poemas anafóricos, recheados de surpreendentes metáforas, por vezes atingindo a violência e a beleza de alguns textos inspirados onde se abrem múltiplas pistas de sentido para representar o universo concentracionário do fascismo português, a mediocridade e a repressão, a pífia moral salazarista, a hipocrisia quase geral como no célebre poema "Queixa das Almas Jovens Censuradas" de um dos seus melhores livros, Dimensão Encontrada. Estridente na ~olémica,provocatória e original na brilhante tentativa teatral que é A Pécora, propensa
Açores, deu-nos também ensaios e poemas todos voltados para a raiz, para a mátria, para a transcendência. Do mesmo modo, exibindo renovado virtuosismo orquestral e retórico, escreve, na ultima fase da sua vida os Sonetos Românticos, mais um desafio, tão longe das suas ficções de vanguarda como Madona ou As Núpcias, onde eleva o tema do incesto, grato à mitologia clássica a uma rara completude de desarmoniaharmonia. A infantilização do País, os homens transformados em autómatos, a imitação da felicidade para estrangeiro ver tudo isso, metaforizou Natália Correia nessas célebres quadras que José Mário Branco cantou em França para os emigrantes e exilados e levou a todos os lugares de Portugal depois de Abril:
"Dão-nos a honra de manequim Para dar corda à nossa ausência. Dão-nos o prémio de ser assim Sem pecado e sem inocência.
Natália Correia. 10 Anos Deoois 7
A Natalidade d e Natália Fernando Dacosta ESCRITOR
Natália Correia está hoje numa espécie de limbo. Limbo é o local onde repousam as almas dos grandes inocentes e dos grandes perversos, ou seja das crianças e dos criadores - que ela era, até ao excesso Não se tornava fácil compreendê-la. Nem amá-la. Fazê-lo, exigia sentimentos, disponibilidades especiais. Era um ser tocado pelo sagrado, um desses seres que não cabem no espaço que lhes foi destinado, nem no corpo, nem nas normas, nem nos modelos, nem nos sentimentos. Os que a não aguentavam, combatiam-na não pelas ideias mas pelos tiques, não pela criação mas pela distracçáo, tentando reduzi-la a anedotários de efeitos fáceis e falsos. Ao mesmo tempo forte e desprotegida, imponente e indefesa, egoísta e generosa, arguta e ingénua, dissimulada e frontal, sentia-se, ante as coisas rasteiras (e as pessoas, e as acções) perdida; só as grandes a tocavam, galvanizando-a. Então toda ela ganhava golpe de asa, vertigem. Era esplendoroso vê-la a entrar nos templos de chicote em punho, isto é, de palavra viva, zurzindo os vendilhões, os traficantes, os hipócritas, os videirinhos. Era magnífico acompanháela nas suas estradas de Damasco em direcção à utopia, ao amor, à justiça, à criatividade, à elegância, levando pelo braço poetas e amantes, perseguidos e ostracizados, loucos e solitários. Poetisa, dramaturga, romancista, ensaísta, cronista, conferencista, deputada, oradora, editora, tradutora, Natália Correia marcou transversalmente várias gerações e identidades de nós. A literatura (através da ficção e da reflexão), a comunicação social (dos jornais e da TV), a política (de intervenções parlamentares e ideológicas), o convívio (de colóquios e tertúlias) foram os grandes campos onde se afirmou, se popularizou, se acrescentou. A ilha (nasceu em S. Miguel) deu-lhe o gosto mágico pela vida. Ela «é a mãe, é a fatalidade dos insulares)), comentava. É o território do oculto, da partida, do regresso. «Onde vos retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho do espírito», avisava. A noção de Pátria e de Mátria, acrescenta a de Frátria - Frátria como símbolo de fraternidade, de igualdade, de equidade,
Natália Correia, 10 Anos Depois i 9
F e r n a n d o D a c o s t a A N a t a l i d a d e d e N a t á l i a
Bate-se pela recuperação do sagrado, do politeísmo, do femininismo, do barroco, do diferente, e pelo repúdio da crucificação, do consumismo, do descontrolo demográfico, da arrogância indiferenciadora. "Como atingir a paz com os olhos postos num só deus, se as guerras são fornecidas pela nossa fé na vitória sobre a fé dos outros!" - interrogava-se Os grandes mitos portugueses encontraram em si uma celebrante incomum: o mito do Andrógino (o ser completo, uno e plural), do Desejado (o que contém a resistência, não a desistência), de Pedro e Inês (a paixão, a volúpia pela morte), da Ilha (o espaço da esfinge, da iniciação). A todos dedicou obras próprias, reformulando-os, dando-lhes dimensões de novos futuros e liberdades. As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação. Sabia indignar-se com grandeza - e indignar os outros à sua altura. Muitas vezes perdia a cabeça connosco e nós com ela. Sufocava-nos. Muitas vezes apetecia-nos fugir. Não aguentávamos a sua energia, a sua lucidez, a sua exigência, o seu empenhamento, a sua implacabilidade. Muitas vezes tentámos matá-la em nós para sermos nós. Até nisso nos ajudou. Era uma mulher inigualável. Nos caprichos, nos excessos, nas iras, nas premonições, nos exibicionismos, na sedução, na coragem, na esperança. Cantava, dançava, declamava, improvisava, discursava, polemizava como poucos entre nós alguma vez o fizeram, o somaram.
As Noites do Botequim
A noite, reservava#apara os amigos e os admiradores no Botequim, que abriu com a poetisa Isabel Me~reles,nos anos sessenta. Vendo o marido arruinado (fora um hoteleiro próspero), arranjou-lhe, no Largo da Graça, um pequeno bar para administrar - e se ocupar. Espaço único, marcaria a vida política e cultural portuguesa das últimas décadas do século. Por ele, elas suas madrugadas, passaram (até fechar em 1995) projectos exaltantes, exultantes, de artes, de utopias, de generosidades, de cumplicidades; pela sua saleta de veludos e músicas, inúmeras estratégias de revoluções, de ficções foram feitas, desfeitas, sem desânimo nem remorso. Romances e filmes, peças e recitais, debates e canções, quadros e fantasias, viagens e homenagens nasceram nas suas mesas, entre ((rosbifes))e .champanhes», generais e presidentes, embaixadores e vadios, loucos e amantes, sob a energia, a natalidade de Natália que fez dele - para a nossa memória, para nosso afecto - um casulo, um .sol nas noites)) e um «luar nos dias)).
10 L á l i a Correia, 10 Anos Depois
Relaciona-se com Ferreira de Castro, Maria Archer, António Sérgio, Manuel da Fonseca, Jaime Cortesão, Manuel de Lima, Cesariny, Rogério Paulo, Almada, tomando-se, a partir daí, presença irrecusável entre intelectuais, artistas e políticos. 'Acusavam-me, continuam a acusar-me de tanta coisa, de ser promíscua, de ter relações com homens e mulheres ... o problema é que eu quase não tenho libido. Mesmo em nova, o sexo nunca representou grande coisa para mim. Sempre
confidenciava com indisfarçável pudor - era, aliás, muito pudica no que dizia respeito à sua intimidade. 'A maior parte das pessoas apenas viam em mim a fêmea, o corpo, só depois percebiam que eu tinha ideias, talento. Isso maçava-me muito, e revoltava-me.". Depressa deixará de se preocupar com o corpo. A beleza, a elegância perdidas não pareciam melancolizá-la. "Uma vez por semana a cabeleireira ia arranjá-la a casa", pormenoriza-me Helena Cantos, sua amiga de juventude. "Não comprava roupas e os vestidos eram feitos pela porteira. Quando morreu houve até dificuldade em escolher um em bom estado, para a amortalharmos. Levou o azul escuro, de veludo, que envergava nas ocasiões de maior cerimónia".
Verdadeira Pitonisa
O centro da sua casa situava.se na zona de estar (biblioteca, escritório, área de comer, de receber, de festejar, de preguiçar), espaço grandioso forrado a livros, a quadros, a fotos, a referências, a recordações, a símbolos, mesa gigantesca ao centro, mármore negro, pés esculpidos de oiro, tinteiro de cobre, candeeiro de haste, poltronas de rebordo, televisão sem som, telefone sem fios, recordações sem negrumes. Por ele passaram vultos universais, Henry Miller, Ionesco, Claude Roi, Michaux, nele se representou Sartre (clandestinamente) pela primeira vez em Portugal. 'Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano dois mil", exclamou Henry Miller depois de assistir a uma discussão sobre o amor. "Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa", disse referindo-se à anfitriã. Na sala, onde trabalhava durante a tarde (de manhã fazia-o no quarto, descalça, isolada), as atenções convergiam para um quadro sobre a lareira, ao alto, notável auto-retrato que Natália fizera; vinte anos atrás ela entregara-se, durante meses, exclusivamente à pintura. Podia ter sido, se a continuasse (Almada incentivou-a), um nome cimeiro das nossas artes plásticas. "Pintei como terapêutica. Ferida, nessa altura, pela notícia da morte da minha mãe, que estava no Brasil, agarrei-me, rangendo de dor, aos pincéis e fechei-me num quarto durante um ano". A ilha deu-lhe o gosto irreal pela vida: Ela "é a mãe, é a fatalidade dos insulares. Mesmo os mais desgarrados, como aparentava ser Antero, escolhem a ilha como túmulo, ou seja, berço para reviver".
(^12) L---- Natália Correia,^10 Anos^ Depois
A parte mais secreta da biblioteca, dispersa por todas as divisões , estava em estantes descomunais, num corredor que abria com um quadro de Bual, em tons azuis e verdes.Telas valiosas seguiam-se-lhe pelos cantos, à espera de serem encaixilhadas, penduradas, recuperadas, amadas.
Um escultor visionário, Júlio, tomou-a por um ser mítico, um ícone índio, e fixouea em busto de pedra. Comovida, Natália colocou-o numa parede nobre, junto a uma menina-girassol, lindíssima, de Cesariny Um fotógrafo de sensibilidade, Sampaio Teixeira, imaginou-a uma deusa grega e retratou-a, esplendorosamente nua, em cenários dionisíacos - mais de 20 "slides" inéditos deixados (por testamento) ao Centro Nacional de Cultura, onde se encontram, se resguardam, invioláveis, intocáveis.
"Sou da Ilha das línguas de fogo. Com elas aprendi a metrificar o Espírito. O indizível. O religioso é uma ideia que anda no ar mesmo para as pessoas que não têm sensibilidade para a ver nem coragem para a agarrar". As recordações dos Açores eram-lhe, amiúde, pontes para um tempo, o da infância, um espaço, o das ilhas, mágicos. Natália Correia precisava desse apego à infância e às ilhas, lugares de ligação ao mistério que a habitava. "Os deuses só nos pedem que estejamos na vida com a mesma naturalidade com que as flores estão na haste. Os homens só serão unidos quando acreditarem em todos os deuses. Mais importante do que eles existirem é acreditarmos neles".
Sacerdotisas do amor
Atraía como um íman os desvairados, os místicos, os assassinos, os ladrões, os vagabundos, os dementes. Todos a ouviam, a tocavam. Todos a fascinavam: «Temos que recuperar o seu sofrimento porque eles estão mais próximo do oculto)), repetia-nos. Era surpreendente vêela dirigir-se às prostitutas e aos travestis que acorriam a saudá-la quando, madrugada alta, chegava à sua rua, em Santa Marta: .Meninas, não consintam que as humilhem, lembrem-se que são sacerdotisas do amor!)). E ficava-se, por vezes até amanhecer, a ouvi-las, a exortá-las. Guardas-nocturnos, prostitutos, ((gigolos~,chulos, assaltantes, passantes, juntavam-se e faziam roda, e perguntas, e pedidos, e batiam-lhe palmas, num fantástico teatro de sombras e iluminações, vertigens e desmesurados. Nunca existiu nada, assim, nas margens da cidade, de tão intenso, tão belo, tão desapossado, tão comovedor. Só na vigília por ela, na Casa dos Açores, longa vigília de duas noites e dois dias (o tempo que um espírito necessita para se desprender do corpo) se atingiria, entre ondas de flores a chegarem de todo o pais, de músicos, de cantores, de
Natália Correia, (^10) -- Anos ~ e p o i d- 13
masculino e o feminino, o novo e o antigo, o conservador e o inovador; ser urgente assinar o Armistício connosco próprios
Cartas de amor
Dórdio Guimarães, que Natália conheceu nos anos sessenta, muito jovem, muito tímido, apaixonou-se por ela passando a segui-la como uma sombra, até ser-lhe uma sombra. "E um esposo-irmão", justificará aos que a interrogam. "O nosso é um casamento casto", acrescentará, sorrindo. As cartas de amor que Natália Correia escreveu (ao primo José António Correia quando fazia a guerra colonial na Guiné) colocam-na, pela sua intensidade e vertigem, entre as grandes autoras amorosas -superior a uma Mariana Alcoforado - da nossa literatura. Deviam, sem preconceitos nem inibições, ser publicadas (Inês Pedrosa deu, ante a incompreensão de alguns, um exemplo de ousadia nesse sentido), tal como os inéditos que deixou prontos e que não foram ainda divulgados nem conhecidos.
A solidariedade, a lealdade não tinham limites nela. Nunca a vi consentir que dissessem mal dos seus amigos; nunca a vi virar costas a quem lhe estendesse a mão, o sofrimento, o medo. A cultura portuguesa, cuja grande reserva se encontra nas ilhas e nos interiores, era-lhe uma paixão ardente. Enjoavam-na os enjoados da Pátria e dos sentimentos, os cínicos e os "yupis", os normalizadores e os burocratas. A ideia dos Estados Unidos da Europa punhaea possessa. Jamais esquecerei a tarde que passámos (ela, o Dórdio e eu) em casa de Miguel Torga, em Coimbra, na altura em que Portugal assinou o tratado de Mastrich. O poeta, que morreria pouco depois, encontrava-se deitado num "divã", quase inerte, ao fundo da saleta que lhe servia de escritório. O seu acabrunhamento parecia o de Camões após Alcácer Quibir. Catastrofista, não acreditava que Portugal sobrevivesse integrado na Comunidade Europeia: "É um continente com uma economia, uma cultura, uma informação muito fortes. Não vamos poder resistir-lhe", repetia. Preocupado com a tosse de Natália (a doença tomara-a já), levantou-se, foi buscar um estetoscópio e obrigou-a a deixar-se consultar. "Não está nada bem", sussurraria para nós. Sentou-se à secretária e prescreveu-lhe uma receita. A última que ele passou. "Em vez de a aviar numa farmácia vou guardá-la como recordação", decidiu, comovida, Natália. No chamado "Verão Quente de 75", Miguel Torga seria dos poucos vultos de esquerda a estar a seu lado na oposição às tentativas de tomada do poder por forças do PCE
Natália Correia. 10 Anos DU 15
"Não percas a Rosa", diário que ela escreveu sobre esses meses de brasa, tomou-se uma premonição: do fim do 25 de Abril, da queda do bloco de Leste, da ditadura mercantilista, da perversão globalizadora.
Debruçada sobre a mesa de trabalho, aos pés da cama, anota: 'A revolução marxista deter-se-à em Lisboa. A roda do mundo atingirá, nela, o limite da rotação, e desandará. Na economia misteriosa da História, Portugal é o peso minúsculo que vai fazer inclinar todo o conjunto".
Voltas a Portugal
Ramalho Eanes revelar.se-lhe-ía de uma lealdade suprema. Com discrição e firmeza defendeu-a, acompanhado por Manuela Eanes, até ao fim. Sem Natália o saber, os dois diligenciaram, por exemplo, que lhe fosse atribuída uma pensão por mérito artístico, maneira de lhe minorar, não a constrangendo, a sobrevivência. Presidente da República, encarregou-a por mais de uma vez de o representar em cerimónias oficiais de destaque. Embaixadas, Ministério da Cultura, direcção do Teatro Nacional foram, entre outros, cargos que, nesse período, ela recusou. Passámos, nos últimos anos, os fins de semana a cirandar pelo País. Para participar em debates, proferir conferências, apresentar livros, desenvolver encontros, promover obras. Íamos quase sempre à nossa custa, no meu carro (um soberbo "Nissan Primera"), ou no de Francisco Baptista Russo (um magnífico BMW), pagando com frequência a gasolina e as refeições do nosso bolso. Dotada de uma intuição notável para detectar talentos, Natália abria-se-lhes com generosidade, com quixotismo - apoiando-os, impulsionando-os, divulgando-os, amando-os.
Viajar com Natália Correia era uma aventura ora apaixonante, ora desesperante, tais os imprevistos, os incidentes, os caprichos, as exaltações, os temores que a possuíam. Uma noite, vínhamos de Tróia de um encontro de escritores ibéricos, ela dispara-me enquanto atravessávamos o Sado, num "feny-boato: "Não posso passar por Setúbal". Porquê, pergunto-lhe estupefacto. "Uma cigana disse-me há dias que este mês não devia entrar em nenhuma cidade com rio, além de Lisboa". Ironicamente, afianço-lhe: "Mas não passamos por lá. Há uma auto-estrada à saída do barco que nos leva por outro lado". Claro que não havia. Percorremos calmamente Setúbal sem que ela, na sua incomensurável inocência, se apercebesse de nada. "É bonita esta auto-estrada, tem casas à volta, nem parece uma auto-estrada", comentou.
16 1 Natiiia Correia, 10 Anos Depois
do bom. O número seria, daí em diante, repetido com oportunidade e proveito. A sua era uma luz que nem todos conseguiam suportar, até porque não permitia filtros aos que a fitavam. O tempo foi, entretanto, mudando, mudandoea, isolando-a. A força da palavra, a sua arma, enfraqueceu. A cultura e o espírito, a imaginação e a utopia depreciaram-se. Tentou resistir: "Não, não me mato/ Antes me zango até ficar um cacto1 Quem me tocar, maldito1 Que se pique". A vitória do liberalismo selvagem, da tecnocracia desumanizante, da globalização colonialista, amputou-a. «Pela primeira vez na minha vida tenho medo)), confidencia-me. «As forças do mal estão a ganhar terreno, a perverter a democracia, a solidariedade». As mulheres da política, por outro lado, decepcionam-na: «Em vez de levarem o feminino para o poder, de modo a transformá-lo, melhorá-lo, não: imitam os homens, ultrapassam-nos no que eles têm de pior. Comportam-se como travestis».
Vivia pobre sem saber que era rica. Que as suas colecções de arte, de manuscritos, de originais, de pintura valiam mais de trezentos mil contos. A miséria passou a assustá.la, sobretudo a partir do momento em que o PS não quis recandidatá-la ao Parlamento - e faltavam-lhe apenas sete meses para ter, como deputada, direito a reforma. O Botequim imergiu em decadência. Os jornais deixaram de solicitar-lhe colaborações, os seus livros não se vendiam. A RTP recusou-lhe propostas de programas, indiferente ao êxito da série ~Mátria.. As companhias de teatro ignoravam-lhe as peças, apesar do sucesso de «A Pécora~. Dórdio Guimarães, com quem casara para fugir à solidão, faz- -se-lhe um peso, uma preocupação crescentes. Natália perde, rapidamente, saúde, espaço, influência, energia. A década de noventa cerca-a. «Os dias que aí vêm são mesquinhos e feios, não me apetece ter de os viver)), exclama. Amigos e companheiros (Rogério Paulo, Manuel da Fonseca, António José Saraiva, António Quadros) são, nesse ano negro, levados de nós. «A partir de agora, se alguém me quiser encontrar, procure-me", escreve, "entre o riso e a paixão. Adeus, espero- -vos no Templo». Ao raiar a madrugada de 16 de Março de 1993 entra em casa - e voa.
18 j Natália Correia,- 10 - - Anos Depois
Natália Correia Maria Teresa Horta ESCRITORA
Era uma força da natureza. Formada no desassombro. Na desmesura.
Pronta a aceitar os desafios, no confronto com o interdito. Instigada pela vontade que nela morava de ir sempre mais longe: Na escrita, no seu dia a dia, no amor, através dos quais se excedia, crescia; revolvida-envolvida, exigindo estar ao leme do processo de construção do prazer, do êxtase. Expostos. Voluntariamente expondo-se. Com uma alegria libertina, que chegava a tocar a inocência perdida. De menina, a guardáela cuidadosamente por dentro do avesso do peito, numa intensa e permanente busca da figura materna. Relação fusional que ambiguamente se aceita e se recusa, acabando por ser ao seu ventre que se irá buscar a maior ousadia. Como quem procura Eurídice nas trevas da morte. Intocável? ~Indemneatravessei as labaredas porque o Amor faz a Obra e o fogo faz o Amor))
O Amor e a Obra em Natália indissociáveis, porque dependiam em permanência um do outro. «Nada se faz sem o
destemido envolvimento com tudo e todos que estavam à sua roda. Gesto largo e generoso, palavra acesa ou justa, sem jamais queimar as asas dos versos ou temer a desgraça. Deixando-se irlpartir, seguindo o sinal pela tecitura da alma de cada poema, em torno da chama, da identidade feminina.
.De hora negra me enrola a crespa vaga E atira a endereços desumanos O dia em que eu nasci por aziaga Ordem de um 13 que sangra entre os arcanos.»
A sua força era enorme e portuguesa. De mulher muito jovem e ardente, até ao fim. No verso dúctil ou vibrante ou bravio, deixando como testamento a todos nós, o seu canto envenenado de sereia, inclinando a cabeça para trás, como muitas vezes fazia. Seduzindo, ao mostrar o caule do pescoço: (<Mordeis.mea cauda do fato de sereia? Que importa! Eu vou no voo do condor. Escureceis-me o verso onde clareia A estrela que me deu um trovador!
Que importa! Eu vou no vento. A lua cheia Dos meus cantos está no seu fulgor.»
Natália Correia. 10 Anos Depois ' 21