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A Árvore da Vida Parte1, Notas de estudo de Religião

Apostilas de Conceitos Esotéricos sobre a "A Árvore da Vida" de Israel Regardie, um Estudo sobre Magia.

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 26/11/2013

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usuário desconhecido 🇧🇷

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A ÁRVORE DA VIDA
UM ESTUDO SOBRE MAGIA
ISRAEL REGARDIE
Tradução e notas de Edson Bini
Introdução e notas explicativas de Marcos Torrigo
Dedicado com pungente memória do que poderia ter sido
a MARSYAS
“Deves compreender, portanto, que esse é o primeiro caminho para a felicidade, concedendo às
almas uma plenitude intelectual de união divina. Mas a dádiva sacerdotal e teúrgica de felicidade é
chamada, realmente, de portal para o Demiurgo das totalidades, ou a sede, ou o palácio, do bem. Em
primeiro lugar, outrossim, possui um poder de purificação da alma. . . posteriormente provoca uma
coaptação do poder da razão com a participação e visão do bem e uma liberação de toda coisa de
natureza oposta, e em último lugar produz uma união com os deuses, que são os doadores de todo bem”
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Em virtude da bastante difundida ignorância a respeito da soberana natureza da Teurgia Divina e a
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A ÁRVORE DA VIDA

UM ESTUDO SOBRE MAGIA

ISRAEL REGARDIE

Tradução e notas de Edson Bini

Introdução e notas explicativas de Marcos Torrigo

Dedicado com pungente memória do que poderia ter sido

a MARSYAS

“Deves compreender, portanto, que esse é o primeiro caminho para a felicidade, concedendo às almas uma plenitude intelectual de união divina. Mas a dádiva sacerdotal e teúrgica de felicidade é chamada, realmente, de portal para o Demiurgo das totalidades, ou a sede, ou o palácio, do bem. Em primeiro lugar, outrossim, possui um poder de purificação da alma... posteriormente provoca uma coaptação do poder da razão com a participação e visão do bem e uma liberação de toda coisa de natureza oposta, e em último lugar produz uma união com os deuses, que são os doadores de todo bem”

JÂMBLICO

INTRODUÇÃO

Em virtude da bastante difundida ignorância a respeito da soberana natureza da Teurgia Divina e a despeito de freqüentes referências quase em toda parte ao assunto magia, permitiu-se que ao longo dos

séculos se desenvolvesse uma total incompreensão. São poucos hoje os que parecem ter sequer a mais vaga idéia do que constituiu o elevado objetivo de um sistema considerado pelos sábios da Antigüidadea Arte Real e a Alta Magia. E por ter existido quantitativamente ainda menos pessoas preparadas para defender até o fim a filosofia da magia e disseminar seus verdadeiros princípios entre aqueles julgados dignos de recebê-los, o campo de batalha tomado pelas reputações destroçadas de seus Magos foi cedido aos charlatães. Esses, ai de nós , fizeram bom uso de sua oportunidade de esbulho indiscriminadamente, a tal ponto que a própria palavra magia se tornou agora sinônimo de tudo que é desprezível, sendo concebida como algo repulsivo.

Durante muitos séculos na Europa autorizou-se esse incorreto estado de coisas, que se manteve até em torno de meados do século passado, quando Éliphas Lévi, um escritor dotado de certa facilidade de expressão e talento para a síntese e a exposição, se empenhou em devolver à magia sua antiga reputação grandiosa. Até que ponto teriam seus esforços obtido êxito ou não caso não tivessem sido sucedidos e estimulados pelo advento do movimento teosófico em 1875 em associação com a discussão aberta do oculto e de temas místicos que a partir de então se seguiram, é extremamente difícil dizer. E mesmo assim, não foram coroados de muito êxito, pois apesar de quase oitenta longos anos de atenção e discussão aberta da filosofia e prática esotéricas em vários de seus ramos, não é possível descobrir no Catálogo da Sala de Leitura do Museu britânico uma única obra de magia que tente apresentar uma exegese lúcida, clara e precisa, desembaraçada do emprego exagerado de símbolos e figuras de linguagem. Oitenta anos de estudo do oculto e nem sequer uma obra séria sobre magia!

Por algum tempo tornou-se conhecido em vários lugares que este escritor era um estudioso de magia. Conseqüentemente indagações acerca da natureza da magia seriam amiúde endereçadas a ele. Com o passar do tempo tais indagações tornaram-se tão numerosas e tão abismal a ignorância involuntária sobre o assunto contida em todas elas que parece ser a hora exata para tornar disponível a esse público uma exposição sintética e definitiva. Visto que nenhuma outra pessoa tentou executar essa tarefa de

modo a produzir uma melhor formulação da magia. Este escritor estará dentre os primeiros que aclamarão essa realização com boas-vindas e louvores.

É também necessário registrar a atitude cortês dos senhores Methuen & Co. que deram a permissão para reproduzir as ilustrações dos quatro deuses egípcios de Os deuses dos egípcios , de Sir E. A. Wallis Budge.

Israel Regardie Londres, agosto de

INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO

É possível que um pai tenha um filho favorito? Existirá um entre todos os demais que secretamente ele sinta ser a menina de seus olhos? Com maior freqüência que o caso negativo, a despeito de todos os protestos em contrário, certamente existe.

Pois é isso que ocorre comigo. Ao me pedirem que escrevesse uma introdução para esta nova edição de A árvore da vida , senti um entusiasmo interior que combina muitas emoções bem distintas. Este livro tem um significado especial para mim que nenhum dos meus outros escritos jamais teve. Primeiramente, há o fato elementar de ele ter sido o primeiro livro que emergiu de meu espírito em botão. A garden of pomegranates [Jardim das romãs], publicação anterior, simplesmente se desenvolveu a partir de um conjunto de notas cabalísticas que eu guardara por vários anos – e isto é tudo o que sempre foi.

Comentou-se ser A árvore da vida a mais abrangente introdução disponível aos numerosos, complexos e por vezes obscuros escritos místicos de Aleister Crowley. Ambos os livros mencionados foram a ele dedicados, para quem trabalhei como secretário durante muitos anos. Simbolicamente, esses dois livros vieram a representar a minha independência dele.

A árvore da vida gerou também uma correspondência pelo mundo todo que resultou em várias amizades profundas e duradouras, pelas quais me sinto sumamente grato.

Embora este livro apresente muitos erros tipográficosde menor importância – devidos, sobretudo, à pressa e o descuido da juventude – tem sido considerado útil como um guia para o extenso, complicado e maravilhoso sistema de iniciação Golden Dawn [Aurora Dourada], cuja gratidão que sinto por ele precisa ser aqui registrada. Alguns aprendizesalegam que os dois volumes de The Golden Dawn (Llewellyn Publications, St. Paul, Minn. 1970) contêm uma tal massa diversificada de informações que um guia dotado de clareza constitui pré-requisito para abrir uma senda inteligível através de seus documentos, rituais e instruções. Esta nova edição deve vir a servir a tal finalidade.

Escrevendo A árvore da vida aprendi muito. Este livro combinou muitos fragmentos isolados de conhecimento e experiência desconexos. A correspondência indicou que serviu a outros igualmente bem.

A despeito de sua extravagância e pendor para o emprego excessivo de adjetivos, que foram as marcas de minha juventude – trinta e cinco anos transcorreram desde que foi escrito – afirmou-se como um guia sincero e simples para uma arte intricada e, em outros aspectos, obscura. Um psiquiatra britânico foi amável a ponto de admitir um sentimento de espanto e real admiração pelo fato de alguém de vinte e poucos anos de idade ter sido capaz de demonstrar a compreensão espiritual e capacidade para síntese evidenciadas neste livro. Se essa avaliação for válida, dever-se-á muito a Aleister Crowley, a quem muito devo. À sua derradeira defesa da estupidez de biógrafos e jornalistas sensacionalistas devotei muitos anos de minha vida. Sua obra jamais perecerá, permanecendo como uma inspiração aos aprendizesde um futuro remoto, como o foi para mim.

Crédito é devido também ao meu Gênio superior e divino – para usar a bela linguagem da Golden Dawn – pois sem essa diretriz interna nenhuma literatura, mesmo profunda, atraente e arrebatadora, significaria muita coisa. Visto que a orientação obtida posteriormente da Hermetic order of the Golden Dawn resultou da publicação de A árvore da vida , sua redação não foi influenciada pela Ordem. Mais

Assim, para esta nova edição de A árvore da vida, só me resta dizer com humildade, sinceridade e convicção: vá em frente e propague a palavra. Ela expõe um bom ensino, uma nobre filosofia e um sistema arcaico porém prático de se atingir alturas embebidas de sol para as quais toda a espécie humana finalmente terá de se elevar e repousar. Que possam todos os leitores obter toda a satisfação, ajuda e conforto espirituais e esclarecimento que eu obtive na redação inicial deste livro e nos anos que se seguiram.

Adeus!

Israel Regardie 12 de maio de 1968. Studio City, Califórnia, 91604

PRIMEIRA PARTE

“A MAGIA É A CIÊNCIA TRADICIONAL DOS SEGREDOS DA NATUREZA QUE A NÓS

FOI TRANSMITIDA PELOS MAGOS.”

Éliphas Lévi

CAPÍTULO I

É expressão comum nos lábios de muitos a reiteração de que a espécie humana hoje, com todas suas enfermidades e aberrações, chafurda às cegas num terrível pântano. Mensageiro da morte e munido de tentáculos de destruição, esse pântano colhe a espécie humana com crescente firmeza para seu seio, ainda que com grande sutileza e furtivamente. Civilização, por mais curioso que seja, civilização moderna

é o seu nome. Os tentáculos, que são os instrumentos inconscientes de seus golpes catastróficos, partem da estrutura enferma, falsa e repugnante do sistema social decadente e do conjunto de valores em que estamos envolvidos. E agora, toda a textura do mundo social parece estar em processo de desintegração. Pareceria que a estrutura da ordem nacional está mudando da ruína econômica para aquele abandono derradeiro e insano que pode contemplar a extinção dessa estrutura num precipício escancarado rumo à completa destruição. Enraizados firmemente na plenitude da vida individual, os até aqui robustos bastiões de nossa vida estão sendo ameaçados como jamais o foram. Parece cada vez mais impossível diante do poente de cada sol para qualquer um reter mesmo a mais ligeira porção de seu legado divino e individualidade e exercer aquilo que faz de nós homens. Apesar de terem nascido em nossa época e tempo, aqueles poucos indivíduos que estão cientes mediante uma certeza isenta da dúvida de um destino que os impulsiona imperiosamente rumo à realização de suas naturezas ideais, constituem, talvez, as únicas exceções. Estes, a minoria, são os místicos de nascimento, os artistas e os poetas, os que contemplam além do véu e trazem de volta a luz do além. Encerrada dentro da massa, contudo, existe ainda uma outra minoria que, embora não plenamente consciente de um destino imperioso, nem da natureza de seu eu mais profundo, aspira ser diferente das massas complacentes. Presa de uma ansiedade íntima, mantém-se inquieta na obtenção de uma integridade espiritual duradoura. É impiedosamente oprimida pelo sistema social do qual constitui parte e cruelmente condenada ao ostracismo pela massa de seus camaradas. As verdades e possibilidades de um contato reintegrador com a realidade que pudesse ser estimulado aqui e agora, durante a vida e não necessariamente por ocasião da morte do corpo, são cegamente ignoradas. A atitude singularmente tola adotada pela maior parte da moderna humanidade européia “inteligente” para com essa aspiração constitui um grave perigo para a raça, a qual se permitiu com demasiada impaciência o esquecimento daquilo de que realmente depende, e de que é continuamente nutrida e sustentada tanto em sua vida interior quanto exterior. Agarrando-se avidamente à evanescência flutuante da precipitada existência exterior, sua negligência com relação aos assuntos espirituais somada à

beleza, o mundo como uma coisa viva e júbilo infindável. Não será visível para todos a beleza do sol e da lua, o esplendor das estações alternando-se ao longo do ano, a doce música do romper do dia e o fascínio das noites sob o céu aberto? E o que dizer da chuva escorrendo pelas folhas das árvores que se elevam aos portais do céu, e o orvalho na madrugada insinuando-se sobre a relva, inclinando-a com pontas de lança prateadas? A maioria dos leitores terá ouvido falar da experiência do grande místico alemão Jacob Boehme, que, após sua visão beatífica, penetrou os campos verdejantes próximos de seu povoado contemplando toda a natureza flamejante de luz tão gloriosa que até as tenras folhinhas de grama resplandeciam com uma graça e beleza divinas que ele jamais vira antes. Considerando que Buda tenha sido um grande místico – superior, talvez, a qualquer outro de que o leitor médio tem conhecimento – e que detinha uma grande compreensão da atuação da mente humana, é-nos impossível aceitar em seu valor aparente o enunciado de que a vida e o viver constituem uma maldição. Prefiro sentir que essa postura filosófica foi por ele adotada na esperança de que mais uma vez pudesse a humanidade ser induzida a buscar a inimitável sabedoria que perdera a fim de restaurar o equilíbrio interior e a harmonia da alma, cumprindo assim seu destino desimpedida pelos sentidos e pela mente. Obstando este gozo estático da vida e tudo o que o sacramento da vida pode conceder, existe uma causa radical da dor. Em uma palavra, ignorância. Por ignorar o que em si é realmente, por ignorar seu verdadeiro caminho na vida, o homem é, como ensinou Buda, tão acossado pela tristeza e tão duramente afligido pelo infortúnio.

De acordo com a filosofia tradicional dos magos, cada homem é um centro autônomo único de consciência, energia e vontade individuais – numa palavra, uma alma – como uma estrela que brilha e existe graças à sua própria luz interior, percorrendo seu caminho nos céus reluzentes de estrelas, solitária, sem sofrer qualquer interferência, exceto na medida em que seu curso celeste seja gravitacionalmente alterado pela presença, próxima ou distante, de outras estrelas. Visto que nos vastos espaços estelares raramente ocorrem conflitos entre os corpos celestes, a menos que algum se extravie de sua rota estabelecida – acontecimento bastante esporádico –, nos domínios da espécie humana não haveria caos, haveria pouco conflito e nenhuma perturbação mútua se cada indivíduo se contentasse em estar firmado

na realidade de sua própria consciência superior, ciente de sua natureza ideal e de seu verdadeiro propósito na vida, e ansioso para trilhar a estrada que tem de seguir. Por terem os homens se desviado das fontes dinâmicas a eles e ao universo inerentes, por terem abandonado suas verdadeiras vontades espirituais, e por terem ainda se divorciado das essências celestiais, traídos por um prato de guisado mais repugnante que qualquer um que Jacó tenha vendido a Esaú, o povo que o mundo hoje nos apresenta exibe aspecto tão desesperançado e uma humanidade vincada na sua aparência pelo desalento. A ignorância do curso da órbita celeste e do seu significado inscrito nos céus perenemente constitui a raiz que se encontra no fundo da insatisfação, infelicidade e nostalgia da raça, as quais são universais. E por isso a alma viva brada por socorro aos mortos, e a criatura a um Deus silente. De todos esses brados geralmente nada resulta. As mãos erguidas em súplica não trazem qualquer sinal de salvação. O frenético ranger de dentes resulta tão-somente em desespero mudo e perda de energia vital. Só existe redenção a partir de nosso interior, e ela é lavrada pela própria alma mediante sofrimento e no decorrer do tempo graças a muito empenho e esforço do espírito.

Como, então, poderemos retornar a essa identidade estática com nossos eus mais profundos? De que modo pode ser realizada essa necessária união entre a alma individual e as Essências da realidade universal? Onde o caminho que conduziria finalmente ao aprimoramento e melhoramento do indivíduo e conseqüentemente à solução dos desconcertantes problemas do mundo dos homens?


O aparecimento do gênio, independentemente dos vários aspectos e campos de sua manifestação, é marcado pela ocorrência de um curioso fenômeno acompanhado quase sempre por visão e êxtase supremos. Essa experiência a que faço alusão é indubitavelmente a indicação de qualidade e legitimidade e a marca essencial de realização genuína. Essa experiência apocalíptica não é concedida à mediocridade. À pessoa ordinária, carregada como se acha com o dogma e a tradição fatigada raramente ocorre esse lampejo de luz espiritual que faz sua descida em esplêndidas línguas de chama como o Espírito Santo de

muito bem ser uma generalização, trata-se, não obstante, de uma generalização que traz consigo a marca da verdade. Muitas outras pessoas inferiores cujas vidas receberam alegria e brilho de maneira similar foram capacitadas conseqüentemente a realizar uma certa obra na vida, artística ou secular, que, de outra forma, teria sido impossível.

Agora constitui um postulado mais ou menos lógico aquele que se conclui como uma direta conseqüência da premissa precedente, a saber: supondo que fosse possível através de uma espécie detentora de treinamento psicológico e espiritual induzir essa experiência ao interior da consciência de vários homens e mulheres dos dias de hoje, a humanidade como um todo poderia ser elevada além das aspirações mais sublimes, e surgiria uma poderosa nova raça de super-homens. Na realidade, é para essa meta que a evolução tende e o que é encarado por todos os reinos da natureza. Desde os primórdios, quando o homem inteligente surgiu pela primeira vez no palco da evolução, devem ter existido métodos técnicos de realização espiritual por meio dos quais a verdadeira natureza humana poderia ser averiguada, e por meio dos quais, ademais, o gênio da mais alta ordem desenvolveu-se. Este último, poderia acrescentar, foi concebido como sendo apenas o subproduto e a eflorescência terrestre da descoberta da órbita do Eu estrelado, e em tempo algum, pelas autoridades desta Grande Obra, foi em si considerado um objeto digno de aspiração. O “Conhece-te a ti mesmo” foi a suprema injunção impulsionando o elevado esforço deles. Se a criatividade do gênio se seguia como um resultado da descoberta do eu interior e da abertura das fontes da energia universal, se a inspiração das Musas resultava ou de um estímulo na direção de alguma arte ou filosofia ou da ocupação de leigo, tanto melhor. No começo do treinamento, todavia, esses místicos – pois foi com esse nome que essas autoridades passaram a ser conhecidas – eram completamente indiferentes a qualquer outro resultado além do espiritual. O conhecimento do eu e a descoberta do eu – a palavra “eu” sendo usada num sentido grandioso, noético e transcendental – eram os objetivos primordiais.

Se as artes têm sua origem na expressão da alma que escuta e vê onde para a mente exterior existem meramente silêncio e trevas, então evidentemente o misticismo é uma e talvez a maior das artes, a apoteose da expressão e do esforço artísticos. O misticismo, graças a algum suave decreto da natureza, tem sido sempre e em todos os tempos a mais sagradas das artes. O místico realmente abriga em seu peito aquela tranqüilidade que com freqüência se registra no rosto sereno do sacerdote exaltado ao altar. Ele é um reconhecido intermediário e porta-voz, as duas chaves sendo colocadas em suas mãos. Ele é, tanto as eras quanto seus colegas nas outras artes o admitem, mais diretamente introduzido ao interior do Santuário e mais imediatamente controlado pela psique. É por essa razão que seus sucessos são o sucesso de toda a humanidade em todos os tempos. Mas seus fracassos bastante freqüentes, quase como uma nova ruína de Lúcifer, são amargamente reprovados. Um mau poeta ou um mau músico é apenas alvo da censura daqueles de sua arte em particular, e seus nomes logo se apagam da memória de seu povo. Uma charlatão ou um falso mago, entretanto, põem em perigo o mundo inteiro, arrojando um pesado véu sobre a luz translúcida do espírito, a qual era sua principal tarefa trazer aos filhos dos homens. É por essa razão, também, que ele é em toda época somente para os muito poucos; mas, do mesmo modo, ele é para todos os poucos em todas as épocas. Glorificado com as beatitudes de todos os artistas e profetas de todas as épocas, sofre ignominiosamente com o vilipêndio deles, pois eles, como ele próprio, são místicos. Ele é solitário. Afastou-se para o seio das solidões subjetivas. Para onde ele foi – aonde poucos podem segui-lo a não ser que também tenham as chaves – ele é elogiosamente aclamado com canções e ditirambos.

Não é um conhecimento teórico do eu que o místico busca, uma filosofia puramente intelectual sobre o universo – embora isso, inclusive, tenha seu lugar. O místico procura um nível mais profundo de compreensão. A despeito da retórica sobre a poder absoluto da razão, os lógicos e os filósofos de todos os tempos estavam intimamente convencidos da impropriedade e impotência fundamentais da faculdade do raciocínio. Dentro dela, acreditavam eles, existia um elemento de autocontradição que anulava seu uso na busca da realidade suprema. Como prova disso toda a história da filosofia se apresenta como eloqüente testemunho. Acreditaram os místicos, e a experiência o confirmou reiteradamente, que apenas

Tem-se escrito muito sobre ioga, de tolices e algo digno de nota. Mas todo o segredo do Caminho da União Real está contido no segundo aforismo dos Sutras de Ioga de Patanjali. A ioga busca atingir a realidade solapando as bases da consciência ordinária, de maneira que no mar tranqüilo da mente que sucede a cessação de todo pensamento, o eterno sol interior de esplendor espiritual possa brilhar para derramar raios de luz e vida, e imortalidade, intensificando todo o significado humano. Todas as práticas e exercícios nos sistemas de ioga são estágios científicos com o objetivo comum de suspender completamente todo pensamento sob vontade. A mente precisa estar inteiramente esvaziada sob vontade de seu conteúdo. A magia, por outro lado, é um sistema mnemônico de psicologia no qual as minúcias cerimoniais quase intermináveis, as circumambulações, conjurações e sufumigações visam deliberadamente a exaltar a imaginação e a alma, com a plena transcendência do plano normal do pensamento. No primeiro caso, o machado espiritual é aplicado à raiz da árvore, e o esforço é feito conscientemente para minar toda a estrutura da consciência com o fito de revelar a alma abaixo. O método mágico, ao contrário, consiste no empenho de ascender completamente além do plano de existência de árvores, raízes e machados. O resultado em ambos os casos – êxtase e um maravilhoso transbordamento de alegria, furiosamente arrebatador e incomparavelmente santo – é idêntico. Pode-se compreender facilmente então que o meio ideal de encontrar a pérola perfeita, a jóia sem preço, através da qual pode-se ver a cidade santa de Deus, é uma judiciosa combinação de ambas as técnicas. Em todos os casos, a magia se revela mais eficiente e poderosa quando combinada ao controle da mente, que é o objetivo a ser atingido na ioga. E, da mesma forma, os êxtases da ioga adquirem um certo matiz rosado de romantismo e significado inspiracional quando são associados à arte da magia.

Desnecessário dizer, portanto, que quando falo de magia aqui faço referência à teurgia divina louvada e reverenciada pela Antigüidade. É sobre uma busca espiritual e divina que escrevo; uma tarefa de autocriação e reintegração, a condução à vida humana de algo eterno e duradouro. A magia não é aquela prática popularmente concebida que é filha da alucinação gerada pela ignorância selvagem, e que serve de instrumento às luxúrias de uma humanidade depravada. Devido a ignorante duplicidade dos

charlatães e a reticência de seus próprios escribas e autoridades, a magia durante séculos foi indevidamente confundida com a feitiçaria e a demonolatria. Salvo algumas obras que foram ou demasiado especializadas em sua abordagem ou distintamente inadequadas para o público em geral, nada foi até agora publicado para estabelecer em definitivo o que a magia é realmente. Neste trabalho não se pretende tratar de maneira alguma de encantamentos de amor, filtros e poções, nem de amuletos que impeçam que a vaca do vizinho produza leite, ou que lhe roubem a esposa, ou da determinação da localização de ouro e tesouros ocultos. Tais práticas vis e estúpidas bem merecem ser designadas por aquela expressão tão abusivamente empregada, a saber, “magia negra”. Este estudo não tem nada a ver com essas coisas, pelo que não se deve concluir que nego a realidade ou eficácia de tais métodos. Mas se qualquer homem estiver ansioso para descobrir a fonte de onde brota a chama da divindade, caso haja alguém que esteja desejoso de despertar em si mesmo uma consciência mais nobre e sublime do espírito, e em cujo coração arda o desejo de devotar sua vida ao serviço da espécie humana, que essa pessoa se volte zelosamente para a magia. Na técnica mágica talvez possa ser encontrado o meio para a realização dos mais grandiosos sonhos da alma.

Do ponto de vista acadêmico, a magia é definida como a “arte de empregar causas naturais para produzir efeitos surpreendentes”. Com essa definição – e também com a opinião de um escritor como Havelock Ellis, que é um nome dado a todo o fluxo da ação humana individual – estamos de pleno acordo, visto que todo ato concebível no período inteiro que dura a vida é um ato mágico. Que efeito sobrenatural poderia ser mais espantoso ou miraculoso do que um Cristo, um Platão ou um Shakespeare que foi o produto natural do casamento de dois camponeses? O que haveria de mais maravilhoso e surpreendente que o crescimento de um minúsculo bebê que atinge a completa maturidade de um ser humano? Todo e qualquer exercício da vontade – o erguer de um braço, o proferir de uma palavra, o germinar silente de um pensamento – todos são por definição atos mágicos. Entretanto, os efeitos “surpreendentes” que a magia procura abarcar ocupam um plano de ação um tanto diferente daqueles que foram indicados, embora estes, apesar de tão comuns, sejam, não obstante, surpreendentes e taumatúrgicos. O resultado que o mago,

cada povo pelo mundo afora encontrarem a si mesmas e entrarem em comunhão sagrada com a própria Fonte da Vida, graças à sua iluminação, elas se tornarão a mecha da humanidade e lançarão uma resplandecente e gloriosa auréola de ouro sobre o universo. Nesses indivíduos que constituem uma minoria minúscula, quase microscópica da população do globo, desejosa e ansiosa de se devotar a uma causa espiritual, reside a única esperança para a suprema redenção da espécie humana. Éliphas Lévi, o celebrado mágico francês, arrisca uma opinião nova que acho pode ter alguma relação com esse problema e projeta um raio de luz sobre essa proposta. “Deus cria eternamente...”, escreve ele, “o grande Adão, o homem universal e perfeito, que contém num único espírito todos os espíritos e todas as almas. As inteligências vivem, portanto, duas vidas imediatamente, uma geral, que é comum a todas elas, e outra especial e individual”.

Esse Adão protoplástico é chamado nessa obra qabalística intitulada O livro dos esplendores *, de Homem Celestial e compreende em um ser, como observa o erudito mago, as almas de todos os homens e criaturas, e forças dinâmicas que pulsam através de toda porção do espaço estelar. Não é meu desejo tratar de metafísica neste momento, discutindo se esse ser universal primordial é criado por Deus ou se simplesmente se desenvolveu do espaço infinito. Tudo o que quero considerar agora é que a totalidade da vida no universo, vasta e difundida, é esse ser celestial, a Super-Alma como alguns outros filósofos o conheceram, criado para sempre nos céus. Nesse corpo cósmico nós, indivíduos, bestas e deuses, somos as minúsculas células e moléculas, cada uma com sua função independente a ser cumprida na constituição e no bem-estar sociais dessa Alma. Essa teoria filosófica admiravelmente sugere que como no homem da terra há uma inteligência que governa suas ações e seus pensamentos, da mesma maneira, em sentido figurado, há no Homem Celestial uma alma que é sua inteligência central e sua faculdade mais importante. “Tudo o que existe na superfície da Terra possui sua duplicata espiritual no alto, e não existe nada neste mundo que não esteja associado a algo e que não dependa desse algo.” Assim escrevem os doutores da Qabalah. Tal como no homem a substância cerebral cinzenta é a mais sensível, nervosa e refinada do corpo, do mesmo modo os seres mais sensíveis, desenvolvidos e espiritualmente avançados no universo

compreendem o coração, a alma e a inteligência do Homem Celestial. É nesse sentido, em suma, que os poucos que empreendem a realização da Grande Obra, isto é, encontrar a si mesmos de um ponto de vista espiritual e identificar sua consciência integral com as Essências Universais, como Jâmblico as chama, ou os deuses, que constituem o coração e a alma do Homem Celestial – esses poucos são os servos da espécie humana. Executam a obra da redenção e cumprem o destino da Terra.

  • Publicado no Brasil com o título As origens da cabala, pela. Ed. Pensamento, tradução de Márcio Pugliesi e Norberto de Paulo Lima. (N. T.)

O misticismo – magia e ioga – é o veículo, portanto, para uma nova vida universal, mais rica, mais grandiosa e mais plena de recursos do que jamais o foi, tão livre como a luz do sol, tão graciosa quanto o desabrochar de um botão de rosa. Ela é para ser tomada pelo homem.

CAPÍTULO II

É bastante provável que de maneira tonitruante seja emitida de certas fontes a condenação de que o sistema indicado nesta obra como magia faz somente referência ao princípio da constituição humana pertinente exclusivamente à natureza inferior. Em decorrência dessa classificação, não é difícil antecipar que toda a técnica teúrgica venha a ser inteiramente condenada como “psiquismo”, por exemplo, nos círculos teosóficos. Na verdade, como poucas considerações bastariam para demonstrar, tal condenação é mal colocada e injustificada. A fim de retificar esse ponto de vista de uma vez por todas, apresentamos A árvore da vida ao público leitor. Abomino essa loquacidade teosófica. Permitam que registre aqui minha repugnância por suas classificações demasiado simplistas, sua contínua disposição de aplicar rótulos de mordaz opróbrio a coisas parcialmente compreendidas. Não fosse o caso de sentir-me tão profundamente envolvido com a magia – sustentando que nela possa ser encontrado o meio de tomar o reino dos céus de assalto – esse abuso e propositada censura dos teósofos seria merecidamente ignorado e relegado àquela esfera de desprezo a que com justiça pertencem. Tem havido em geral excessiva incompreensão quanto ao