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Trabalho acadêmico que estuda os motivos e o desenrolar da crise asiática ocorrida em 1997
Tipologia: Trabalhos
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Para que possamos entender de forma definitiva as causas reais da crise asiática ocorrida em meados de 1997 é interessante, em primeiro lugar, notarmos a existência de alguns fundamentos macroeconômicos básicos que, grosso modo, estiveram todo o tempo por de trás dos fenômenos de ordem financeira que desestabilizaram profundamente a economia de países que, até então, eram considerados prósperos, seguros e estáveis.
Econômica e financeiramente falando, invariavelmente sempre vamos encontrar pelo mundo afora duas categorias básicas de países: primeiro os países que se acham na condição de credores internacionais; e segundo, aqueles países que, ao contrário, são levados à difícil condição de devedores internacionais. Os devedores internacionais seriam justamente aqueles países que dependem de um influxo constante de recursos externos para assim financiarem seus processos de crescimento e desenvolvimento. Financiamentos esses bancados exatamente pelos países credores que, dispondo de fundos financeiros excedentes, saem a procura de novas alternativas de investimento (de caráter produtivo ou não) para seus capitais ociosos e acabam encontrando essas alternativas nos países tidos como devedores (que a propósito sempre são levados, dada a condição de tomadores de recursos, a remunerar os investimentos internacionais a taxas mais elevadas.
Tal situação, é verdade, poderia ser considerada normal e aceitável se levássemos em conta a tese de que todo o fluxo de capitais existente entre países credores e devedores ocorre sempre de um modo previsível e dentro de um horizonte de longo prazo. Ou seja, teríamos, com certa regularidade, capitais sendo transferidos de um país a outro com o ânimo de fincar raízes e ir gradativamente sendo acumulados com o passar do tempo no interior dos países devedores (destinatários dos recursos). Contudo, observa-se ainda hoje algo que foi notório durante a crise asiática, isto é, dentre as diversas modalidades de capital que circulam internacionalmente visando primordialmente equilibrar os excessos e as carências de poupança existentes entre os países credores e os países devedores estão, sempre a marcar forte presença, os chamados capitais especulativos e voláteis de curto prazo. Capitais que passeiam pelo mundo na ânsia de ganhos imediatos e cuja extrema mobilidade é ao mesmo tempo causa e conseqüência do processo de globalização e desregulamentação dos mercados financeiros mundiais, da elevação da oferta monetária e de uma integração sem precedentes das praças financeiras internacionais. Vemos então que esses capitais voláteis tem um comportamento totalmente oposto àquilo que seria desejável pelos países tomadores de recursos externos (devedores), uma vez que circulam de maneira irregular, imprevisível e sem estabelecer qualquer vínculo de longo prazo com os países que os recebem, tornando ainda mais grave e arriscada a atual situação de dependência externa desses países. Dependência que tem como
uma de suas inúmeras facetas, os históricos déficits em transações correntes registrados por tais países e o constante acúmulo de dívida externa (situação típica dos países devedores, incluindo, é claro os países asiáticos).
Mas o que estaria realmente por de trás desses déficits crônicos em conta corrente
(que em muitos casos têm apresentado uma forte tendência de elevação com o passar do tempo)? Na verdade, déficits em conta corrente resultam do simples fato
de que há países que no todo necessitam consumir e investir internamente uma quantia que é maior do que aquilo que lhes cabe em termos de renda nacional e
também maior em relação ao que conseguem poupar internamente num dado intervalo de tempo. É o que os economistas costumam chamar de insuficiência da
renda e da poupança interna. Um fato que leva determinados países a não poderem financiar autonomamente e de forma sustentada seus projetos de desenvolvimento econômico e social, e por isso são obrigados à recorrerem aos aportes de capitais do estrangeiro (a chamada poupança externa). O problema aqui é que a renda nacional, de onde deveria ser destacada uma parcela correspondente a poupança interna do país (poupança essa que seria novamente reinvestida trazendo mais produção e mais renda) não consegue se elevar significativamente à medida que ocorre um aumento cada vez maior na dependência externa do país juntamente ao fenômeno típico e constante de repatriação de capitais vindos de fora. Assim fica difícil contornar de maneira definitiva a situação crônica dos elevados déficits em conta corrente desses países porque o fluxo de capitais estrangeiros que eles recebem geram uma contrapartida posterior materializada na forma de uma saída de recursos sob a rubrica de remessa de lucros, dividendos, juros, pagamentos de royaltes, etc. Saída que torna-se maior e mais freqüente nos momentos de crise cambial ou a simples ameaça dela, como se verificou nos países asiáticos, agravando ainda mais o déficit e reduzindo sobremaneira a capacidade daqueles países em honrarem seus compromissos externos e pagarem suas dívidas. A par disso se percebe ainda que quando um país capta muito dinheiro externo para alavancar seu crescimento uma fatia considerável da renda doméstica bruta que é produzida se deve, em tese, ao uso de fatores de produção pertencentes a não residentes no país (sejam eles pessoas ou empresas). Remetendo ao exterior essa renda de propriedade de estrangeiros não residentes no país num montante maior do que a renda trazida de fora temos então o valor da Renda Nacional sempre inferior ao da Renda Interna Produzida. Gerando uma Renda Nacional insuficiente são se pode ter uma poupança interna compatível com as necessidades de crescimento do país e, em conseqüência mantêm-se a situação de dependência externa.
A situação de dependência externa, (que é concomitantemente causa e conseqüência dos contínuos déficits em conta corrente de inúmeros países - incluindo os asiáticos), na verdade já vem continuamente alimentando um processo que, feito instável, imprevisível e, por tal razão de incerteza, até mesmo irracional em função de um fenômeno, muitas vezes passional, caracterizado pelo intenso fluxo de capitais especulativos, não poderia ter outro desfecho senão aquilo que se presenciou durante a crise asiática. Entretanto, como se não bastasse a ocorrência de tudo isso, outros fatores também contribuíram decisivamente para tornar inevitável a crise asiática e ainda por cima agravar ainda mais o quadro de instabilidade financeira de países
fortemente alicerçado na entrada de capitais produtivos no país, os investimentos que serão destinados aos novos projetos de plantas industriais e ao desenvolvimento tecnológico, pode ter como resultado um incremento significativo na quantidade dos bens produzidos no país (que pode-se elevar ainda mais graças a melhora nos índices de produtividade). Desta maneira geramos internamente uma quantidade maior de produtos excedentes com potencial elevado de exportação. Melhorando os saldos comerciais do país devedor atenuam-se os déficits em conta corrente e em conseqüência disso é detida a escalada crescente verificada nos níveis de endividamento externo do país em questão.
Um outro ponto importante a ser ressaltado nesse momento tem relação com o fato
de que, no caso dos países asiáticos, boa parte dos financiamentos externos (na sua maioria compostos por empréstimos de bancos estrangeiros, financiamentos de importação e influxo de capitais especulativos de curto prazo) estavam sendo dirigidos para setores econômicos que não redundariam em um aumento subseqüente na quantidade de bens passíveis de serem comercializados externamente, ou seja o que havia em curso era justamente algo oposto à tese levantada no parágrafo anterior. Verificou-se, por exemplo, que durante anos uma parte importante da poupança externa estava financiando grandes e inúmeros projetos de construção de imóveis, além de outros projetos que, apesar de econômica e financeiramente inviáveis (ou seja, sem chances reais de proporcionar lucros aceitáveis) eram colocados em execução em virtude de uma espécie de boom imobiliário que se instalava nos países daquela região asiática (boom que contava, além de tudo, com o aval das agências governamentais). Vale ainda lembrar, inclusive, que esses projetos estavam sendo implementados num ambiente onde já imperava um alto grau de especulação imobiliária (que elevava artificialmente os preços dos imóveis). Ambiente que, de um certo modo, também se caracterizava como de muita volatilidade e risco, o que fazia cada vez mais temerário captar recursos externos para investir justamente num setor cuja promessa de retorno era quase que inexistente principalmente em razão da má qualidade de tais projetos de investimento e da falta de um planejamento cuidadoso e racional que levasse em conta variáveis de demanda, de retorno e, principalmente, de risco.
Analisando o que vinha já há muito tempo ocorrendo na Ásia também atesta-se, a bem da verdade, que muito do dinheiro disponível começava, em proporções cada vez maiores, a ser deslocado dos investimentos em projetos novos (incluindo os do setor imobiliário - que mostravam-se com demanda insuficiente e sem retorno) para, através do redirecionamento das consideráveis quantidades de recursos financeiros ainda abundantes (visto que os empréstimos externos continuavam a abastecer as economias asiáticas com relativa regularidade e a juros muito baixos), o financiamento de projetos meramente especulativos voltados exclusivamente para a montanha de ativos já existentes e disponíveis para compra nos países asiáticos, como imóveis, terras, ações, etc, fazendo, em decorrência disso, se elevar substancialmente a chamada bolha de consumo. Ativos, que a propósito, podiam ser adquiridos para revenda através de repasses de dinheiro patrocinados pelo mercado internacional de capitais e passivamente garantidos pelo governo, o que só fazia elevar os índices de endividamento externo sem contudo gerar uma contrapartida na
forma de riqueza material que deveria ser, no futuro, mais do que suficiente para honrar os serviços dessa dívida externa que vinha sendo acumulada.
Obviamente, se pedimos emprestado no exterior fundos para aplicação em investimentos que imediatamente se mostram inviáveis, sem liquidez, sem promessa de retorno, impagáveis e ainda sujeitos à perdas financeiras expressivas (devido a um processo muitas vezes irracional e inconseqüente de especulação) o resultado, é claro, não poderia ter sido outro, ou seja, com o tempo foi-se naturalmente desaparecendo por completo qualquer resquício de confiança por parte dos agentes internacionais que, em última instância são os que provêm esses fundos. Sem acreditarem mais na capacidade de alguns países da Ásia em cumprirem seus compromissos financeiros externos (crença que se tornou certa logo após o estouro da bolha) e temerosos de que os crescentes déficits em conta corrente apresentados por esses países acabassem por desaguar numa súbita desvalorização das moedas asiáticas, os investidores externos não tinham outra coisa a fazer senão desfazerem suas posições de investimento, remetendo para fora seus capitais. Derrubando de vez as cotações das moedas locais, a saída momentânea de uma enxurrada de dólares trouxe instabilidade e pânico aos mercados asiáticos, o que levou um número ainda maior de investidores a levarem de volta seus capitais. Novas entradas de capital externo também foram suspensas até que se restabelece-se a normalidade e a confiança no mercado asiático, o que fez com que se agravasse ainda mais a situação das contas externas dos países envolvidos na crise, que estarrecidos, viam as cotações de suas moedas despencarem de um instante para outro.
Após esse breve relato sobre alguns aspectos gerais relacionados com as causas da crise asiática, nosso objetivo agora é aprofundarmos um pouco mais a análise do que realmente foi essa crise e de como ela poderia ter se originado. Tentando chegar à gênesis da crise, nos deteremos na abordagem de tópicos mais específicos que, vistos na sua essência, nos permitirão percorrer em detalhes os diversos meandros da crise asiática e descrever com um grau maior de precisão quase que todas as facetas sob a quais se personificou a crise de 1997 que abalou o mundo econômico, financeiro e político mundiais
Vimos anteriormente como um acúmulo excessivo e descontrolado de déficits em conta corrente pode tornar perigosa e insustentável a situação externa de países periféricos e dependentes crônicos de poupança externa, exatamente como alguns países localizados no sudeste asiático. Ficou claro também como o agravamento de tal situação de desequilíbrio no balanço de pagamentos pôde levar esses países a uma crise cambial, financeira e de moeda cujas conseqüências acabaram por ser devastadoras para a economia daquela região da Ásia. O fenômeno que passou a ser comum nos países asiáticos dependentes, onde conjugava-se, ao mesmo tempo, crescimento insuficiente e baixo da renda nacional, taxa interna de poupança incapaz de atender a demanda por investimentos e, sobretudo, mal direcionamento do gasto interno (criando bolhas de consumo e alimentando processos especulativos
países (o que nos fornece uma idéia mais precisa sobre a liquidez e a capacidade dos países asiáticos de honrarem em dia seus compromissos externos) é demonstrada nos dois quadros abaixo. O que deixa evidente o fato de que, meses antes da crise (fins de 1996) países como Coréia e Indonésia já não tinham como pagar suas dívidas de curto prazo com suas reservas cambiais, ao mesmo tempo em que Filipinas e Tailândia já tinham quase que totalmente comprometidas suas reservas com os pagamentos dessas dívidas de curto prazo.
DÍVIDAS DE CURTO PRAZO (COMO PERCENTAGENS DO TOTAL DA DÍVIDA EXTERNA)
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 CORÉIA 30,87 28,19 26,99 25,85 25,47 51,60 50, INDONÉSIA 15,92 18,00 20,52 20,17 18,05 20,87 24, MALÁSIA 12,43 12,14 18,18 26,58 21,13 21,19 27, FILIPINAS 14,48 15,24 15,93 14,01 14,29 13,38 19, SINGAPURA 17,51 18,92 19,91 17,87 13,28 14,56 19, TAILÂNDIA 29,63 33,13 35,22 53,01 60,67 72,36 41, HONG KONG 45,97 46,63 45,89 41,19 30,04 28,36 43, CHINA 16,85 17,89 19,01 17,80 17,40 18,91 19, TAIWAN 88,31 86,49 86,93 84,99 76,75 72,18 68,
DÍVIDAS DE CURTO PRAZO (COMO PERCENTAGENS DOS SALDOS EM RESERVAS CAMBIAIS)
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 CORÉIA 72,13 81,75 69,62 60,31 54,06 171,45 203, INDONÉSIA 149,28 154,62 172,81 159,70 160,36 189,42 176, MALÁSIA 19,54 19,05 21,12 25,51 24,34 30,60 40, FILIPINAS 479,11 152,31 119,37 107,68 95,00 82,85 79, SINGAPURA 2,65 2,67 2,35 2,04 1,75 1,78 2, TAILÂNDIA 62,55 71,31 72,34 92,49 99,48 114,21 99, HONG KONG 23,52 21,78 18,38 17,09 16,49 14,16 22, CHINA 31,49 24,68 66,76 68,33 33,04 29,62 23, TAIWAN 21,56 20,21 21,00 23,64 21,76 21,64 21,
Além do mais, notava-se a existência de um outro aspecto fundamental que, sendo observado ao longo do tempo (principalmente durante os anos 90), permitiu complicar sobremaneira a já difícil situação dos países da Ásia. Afinal de contas, não é de hoje que se verifica nesses países uma constante absorção em larga escala de capitais estrangeiros de curto prazo, os chamados capitais voláteis (“hot moneys”), que são, a bem da verdade, altamente reversíveis, isto é, podem ser repatriados quase que instantaneamente a qualquer momento. Em tese, percebeu-se que, graças a extrema magnitude e intensidade dos influxos desses capitais especulativos (que visavam apenas o ganho imediato), os montantes de dinheiro externo que vinham continuamente entrando na maioria dos países asiáticos já eram bem mais do que suficientes para cobrir os déficits que esses mesmos países tinham em suas contas correntes (cobertura essa que, vale observar, se dava em condições de instabilidade
e de total falta de segurança). Como reflexo desse quadro de influxo de capitais nocivos, se registraram, entre outras coisas, alguns episódios importantes que neste momento vale ressaltar, assim como também algumas de suas conseqüências que naturalmente vieram na esteira de tudo o que vinha ocorrendo até então.
Numa primeira fase, anterior a todo o processo de crise que viria em seguida, verificou-se um significativo aumento das reservas em moeda forte que, originárias da entrada freqüente de capitais estrangeiros voláteis e reversíveis (os chamados hot- moneys), criavam uma espécie de ilusão ou falsa percepção de que, os tigres asiáticos (assim como também as demais nações consideradas emergentes e destinatárias desses capitais), detinham volumosas quantias em divisas internacionais que, no caso, pagariam com folga quaisquer compromissos externos anteriormente assumidos e, como se ainda não bastasse, com o agravante de permitirem que novos empréstimos pudessem ser feitos e, consequentemente, novos compromissos serem assumidos (empréstimos que, na sua maioria de curto prazo, cresciam a taxas em média superiores às taxas de elevação dos saldos em reservas cambiais fazendo aumentar, como visto no quadro anterior, a razão existente entre dívidas de curto prazo e saldo em reservas). Em realidade estes saldos em reservas cambiais, baseados fundamentalmente em recursos de curto prazo (originários de investimentos especulativos ou empréstimos) estavam, como de certo, permanentemente submetidos ao grave risco de evaporarem quase que instantaneamente ao menor sinal de crise cambial e de moeda, em parte derivadas de desequilíbrios mais acentuados nas famigeradas contas do balanço de pagamentos (tais como déficits exagerados em conta corrente). Tal situação nos faz crer então que, sendo difícil controlar e amenizar as expectativas dos investidores internacionais em relação à evolução das contas externas dos países da Ásia (que sem uma base de sustentação confiável em divisas - já que acumulavam as chamadas reservas cambiais voláteis - tornavam-se incapazes de fazerem frente a uma possível desvalorização súbita no valor de suas moedas), a ameaça de ataques especulativos contra as moedas locais ficava cada vez maior e aumentava mais na medida em que boatos, falsas notícias, determinadas declarações públicas e análises temerárias sobre a situação de solvência do país em vias de entrar numa crise cambial eram constantemente disseminadas pela imprensa e chegavam com força até os formadores de opinião existentes no mercado financeiro. Tal conjuntura, como sabemos, acabou por levar a um processo de repatriação desenfreada dos capitais investidos no país, antecipação das remessas de lucros e dividendos e total abandono por parte dos investidores, tanto internacionais como também nacionais, de suas posições em moeda local, provocando uma procura excessiva por moeda estrangeira (procura essa que, como veremos no parágrafo seguinte, também esteve relacionada com a sobrevalorização desmedida das moedas da maioria dos países asiáticos, gerando as inevitáveis quedas nas cotações dessas mesmas moedas).
O influxo em excesso de capitais de curto prazo (que se notou principalmente na segunda metade dos anos noventa na Ásia) trouxe, além da elevação nos níveis de reservas dos países emergentes daquela região, uma verdadeira inundação de dólares que encharcaram em demasia os mercados de moeda de países como Tailândia, Coréia, Malásia, Indonésia, Singapura, dentre outros como Taiwan e Hong-
processo de crescimento econômico de todos esses países emergentes da Ásia. Confirmando a tese que acabamos de defender, apresentamos a seguir uma tabela e também um gráfico que indica claramente como, ao longo dos anos 90, os saldos comerciais da maioria dos países asiáticos tenderam sempre a ocupar a zona representativa de déficit (área negativa do gráfico), ou em alguns casos, a se situarem muito próximo a essa zona.
SALDOS COMERCIAIS ASIÁTICOS (COMO PERCENTAGENS DO PIB) 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 CORÉIA -0,81 -3,04 -1,42 0,06 -1,22 -1,63 -4,36 -1, INDONÉSIA 1,68 0,91 1,81 1,48 0,72 -0,76 -1,14 0, MALÁSIA 2,1 -3,74 1,39 -0,11 -1,59 -3,75 0,58 - FILIPINAS -5,73 -3 -4,27 -8,53 -8,95 -8,8 -9,44 -12, SINGAPURA 6,76 10,62 9,29 8,12 14,87 15,38 13,62 12, TAILÂNDIA -7,75 -6,88 -4,7 -4,56 -5,18 -7,09 -6,65 0, TAIWAN 4,74 4,39 1,69 1,6 1,66 1,61 3,45 2, Obs: Valores Negativos Representam Déficits
Em que pese a necessidade de fazer com que as moedas asiáticas retornassem às suas cotações de equilíbrio e dessem um novo ânimo às exportações dos tigres, quase todos os países emergentes da Ásia (com exceção apenas de Coréia e Taiwan) insistiram na manutenção de regimes de câmbio fixo ao longo do período que antecedeu a crise e assim deixaram que suas moedas continuassem sobrevalorizadas. A propósito disso, Roubini, também compartilha da idéia de que os regimes cambiais adotados em alguns países da Ásia foram elementos decisivos para a não reversão das tendências de apreciação ou valorização de algumas moedas locais asiáticas em relação ao dólar norte americano e da correlação implícita existente entre o fenômeno da sobrevalorização excessiva dessas moedas e a crise fatídica de 1997. Inclusive, observando atentamente o comportamento das taxas de câmbio asiáticas vemos que na primavera de 1997 o valor real de algumas das moedas asiáticas tinham (tomando como base o ano de 1990) se apreciado de maneira significativa considerando os padrões internacionais. Para tanto, os números são claros, visto que na Malásia a moeda local, em termos reais, se valorizou frente ao dólar em 19%, nas Filipinas em 23%, na Tailândia em 12%, na Indonésia em 8%, na Singapura em 18% e 30% em Hong Kong. As exceções ficaram a cargo de países como Coréia e Taiwan, que contrariamente tiveram suas moedas depreciadas, em termos reais, na casa de 14% (Coréia) e 10% (Taiwan), devido basicamente aos regimes de câmbio mais flexíveis existentes nesses dois países (Coréia e Taiwan). Isso sem falar na China que também apresentou, nos últimos anos, uma forte desvalorização de sua moeda apostando em regimes de câmbio mais flexíveis (o que fortaleceu sobremaneira a poder de competição externa dos chineses, tornando mais difícil para os demais países asiáticos reverterem suas situações de desequilíbrio externo, levando ao agravamento da situação que em seguida levaria á crise).
Voltando aos comentários de Roubini, fica evidente que, por de trás desses regimes que mantiveram sobrevalorizadas as moedas locais (regimes típicos de países como
Malásia, Indonésia, etc), está na verdade o uso do câmbio como uma espécie de âncora de suporte à política monetária desses países ou, em outras palavras, a idéia de buscar obter, através do câmbio fixo, um maior controle sobre o nível de preços interno que, servindo às estratégias de estabilização de algumas economias asiáticas, trouxeram como conseqüência (a partir do instante em que as taxas de inflação doméstica superavam os índices de inflação do resto do mundo), uma considerável apreciação do valor das moedas locais dos países que entravam nesse tipo de regime. A relação entre a valorização de determinadas moedas da Ásia e os seguidos déficits em conta corrente também é mencionada por Roubini, principalmente quando se constata que os países cuja moeda estava sobrevalorizada apresentavam piora nos seus déficits em conta corrente, enquanto países como China e Taiwan, que tinham experimentado depreciação no valor de suas moedas ostentavam superávits em suas contas correntes. À exceção apenas da Coréia que, graças a conjugação de outros fatores como crescimento exagerado, bolhas de consumo, especulação financeira, dificuldade em concorrer no mercado internacional com outros países, dentre outros, continuou a ter que arcar com seguidos déficits em sua conta corrente, em que pese o fato da moeda coreana ter sofrido um processo de depreciação real ao longo da década de 90. A seguir exibimos duas tabelas que tentam mostrar por um lado os contínuos déficits em conta corrente que foram norma em vários países emergentes da Ásia e, de outro, o processo de valorização das moedas asiáticas tendo como referência o ano de 1990 (base = 100)
SALDO EM CONTAS CORRENTES (COMO PERCENTAGENS DO PIB)
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 CORÉIA -1,24 -3,16 -1,7 -0,16 -1,45 -1,91 -4, INDONÉSIA -4,4 -4,4 -2,46 -0,82 -1,54 -4,27 -3, MALÁSIA -2,27 -9,08 -4,06 -10,11 -11,51 -13,45 -5, FILIPINAS -6,3 -2,46 -3,17 -6,69 -3,74 -5,06 -5, TAILÂNDIA -8,74 -8,61 -6,23 -5,68 -6,38 -8,35 -8, HONG KONG 8,4 6,58 5,26 8,14 1,98 -2,21 -2, CHINA 3,02 3,07 1,09 -2,17 1,16 0,03 0, TAIWAN 7,42 6,97 4,03 3,52 3,12 3,05 4, Obs: Valores Negativos Representam Déficit
VALORIZAÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO REAL NOS PAÍSES DA ÁSIA - (1990 = 100) 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 CORÉIA 96 91,5 87,7 85,2 84,7 87,7 87, INDONÉSIA 97,4 99,6 100,8 103,8 101 100,5 105, MALÁSIA 97 96,9 109,7 111 107,1 106,9 112, FILIPINAS 92,4 103,1 107,1 97,4 111,7 109,6 116, TAILÂNDIA 102,2 99 99,7 101,9 98,3 101,7 107, HONG KONG 99,7 103,9 108,5 116 114,5 116 125, TAIWAN 96,5 95,7 95,7 91,4 92,6 90,4 89,
antecipadamente provocam uma crise cambial e de moeda via repatriação em massa de capitais e suspensão unilateral de empréstimos e refinanciamentos) estava a crescente ameaça dos chamados ataques especulativos (normalmente engendrados contra moedas que se encontram à beira de um crise) que, no caso da crise asiática, acabaram se tornando um outro fator que, por uma série de razões, praticamente obrigou os investidores/credores internacionais a acreditarem que a crise era iminente, forçando-os a anteciparem suas decisões e assim consolidarem de vez a crise. Ataques que, na opinião de Krugman, começam a se configurar quando os especuladores do mercado, apostando que o regime de paridade fixa de uma moeda não poderá se manter por muito tempo, discretamente ficam em várias posições vendidas a descoberto em moeda nacional (isto é, toma emprestado moeda nacional e, ao mesmo tempo, faz um contrato futuro de venda dessa mesma moeda nacional por um preço determinado para entrega num prazo de 30 dias ou mais). Acumulando uma quantidade enorme de contratos futuros exatamente deste tipo, os especuladores, logo em seguida, tentam forçar uma corrida no mercado (induzindo-o a compra ostensiva de moeda estrangeira), através de declarações públicas de que a moeda nacional está sobrevalorizada ou fazendo ele mesmo, especulador, volumosas compras de moeda estrangeira, provocando então uma demanda sem precedentes de moeda estrangeira no mercado. Impossibilitado de cobrir tamanha demanda por divisas, o Banco Central do país é obrigado a se curvar ao mercado e deixa que a moeda local se desvalorize.
Compreendendo um pouco melhor a realidade dessas circunstâncias que estiveram todo o tempo associadas com o desenrolar da crise cambial asiática, verifica-se, a priori, que um ataque especulativo a uma moeda só pode ser viabilizado, na prática, se as autoridades monetárias do país insistem teimosamente em manter uma relação fixa de valor entre a moeda local e uma outra moeda forte (geralmente o dólar americano). O problema é que tal situação pode ganhar uma dimensão potencialmente explosiva (exatamente como no caso asiático) se os Bancos Centrais dos países que adotam a política de câmbio fixo se vêem cada vez mais impossibilitados de defenderem a paridade das suas moedas frente ao dólar (atiçando a ânsia dos especuladores e induzindo-os a planejarem ataques contra essas moedas). Como se sabe, quando um governo se põe a sustentar artificialmente o valor da sua moeda ele deve sempre intervir nos mercados de câmbio toda vez que houver uma demanda de moeda estrangeira. Mormente, a medida em que surgem os primeiros sinais de uma provável crise e ocorre um aumento da demanda por moeda estrangeira, o banco central age então contrabalançando essa pressão (que levaria naturalmente a uma desvalorização da moeda local) ofertando no mercado grandes volumes de moeda estrangeira. Entretanto, esta política só se mostra eficaz se o país em questão tiver a sua disposição reservas cambiais suficientes para vender no mercado justamente naqueles estreitos momentos que normalmente conduzem (se nada for feito) a uma crise, e que tem, portanto, um caráter decisivo em todo esse processo. Contudo, ao que parecia, reservas em abundância era algo que já não mais existia em muitos dos países asiáticos que sofreram ataques especulativos, ou seja, o que existia na verdade era uma crescente diminuição no nível das reservas daqueles países, uma vez que boa parte das reservas até então disponíveis ou tinham sido gastas ao longo do tempo para manter estáveis as cotações das moedas
locais ou então, estavam sendo usadas para honrar compromissos externos cada vez mais onerosos como juros da dívida externa, amortizações, pagamento de importações, etc. Nível de reservas que, sustentado em parte por capitais voláteis, tendeu a desabar com maior rapidez ainda quando ficou claramente evidenciado que seria impossível para as autoridades monetárias asiáticas segurarem as cotações das suas moedas (dado o baixo nível de reservas de que tinham a mão para controlar os ânimos do mercado), fazendo da crise apenas uma questão de tempo. Em linhas gerais, foi exatamente isso que ocorreu na Tailândia em julho de 1997, onde a moeda local, o Bath tailandês sofreu uma forte desvalorização, já que não agüentou um ataque especulativo maciço e suas divisas se esgotaram rapidamente pela fuga de capitais. A Tailândia que, diga-se de passagem, era de todos os tigres, o país que apresentava maior fragilidade, mostrando sinais de deterioração em áreas importantes de sua economia. O que talvez explique, ao menos em parte, o porque de ser a Tailândia o primeiro país emergente da Ásia onde os especuladores farejaram lucro certo, apostando vultosas somas contra a sua moeda. Daí em diante, como não podia deixar de ser, a insegurança se alastra e toma conta, de vez, dos demais tigres asiáticos que, já vivendo uma situação de insustentabilidade tanto sob o ponto de vista econômico como financeiro (situação essa temperada por um ambiente de risco incalculado) fez somente elevar a cobiça dos especuladores que viram assim então a promessa de obtenção de maiores lucros investindo contra os outros países problemáticos da região.
Submetida a uma desvalorização contínua a moeda tailandesa detonou, além disso, o chamado efeito dominó que, de forma definitiva, pôs fim ao regime cambial de paridades fixas existente nos demais países da Ásia, obrigando-os a também desvalorizarem suas moedas. O porque desse contágio que levou a um processo aparentemente sem fim de desvalorizações automáticas nas moedas de vários países asiáticos explica-se da seguinte forma: Na medida em que as moedas dos tigres asiáticos se mostravam anteriormente a crise, de uma certa forma, sob o mesmo nível de paridade (apesar de umas mais sobrevalorizadas do que outras e ainda outras que tinham sido depreciadas em relação ao dólar), verifica-se, em tese, que havia ali um relativo estado de equilíbrio, mesmo porque as cotações em que encontravam as diversas moedas desses tigres asiáticos foram sendo formadas ao longo dos anos e não haviam sido registrados, até momentos antes da crise, grandes oscilações no valor que essas moedas tinham entre si. Contudo, após o ataque especulativo contra o Bath tailandês, outras moedas da região começaram a se desvalorizar, pois também vinham sendo “atacadas pelos especuladores do mercado. Como ainda havia moedas que não tinham sofrido desvalorização e, sobretudo, a intensidade com que estavam sendo desvalorizadas as outras moedas não se mostrava simétrica e na mesma proporção, iniciou-se um processo de desequilíbrio nas paridades de troca entre as moedas da região levando a uma situação de também desequilíbrio nos indicadores de competitividade externa dos produtos de exportação de cada um desses países em crise. Obviamente, quando países de uma mesma região competem no mercado internacional utilizando praticamente as mesmas estratégias e, a par disso, vem durante anos, disputando os mesmos mercados e mantendo, de uma certa forma, estável, entre eles, o poder de compra de suas moedas, uma brusca e acentuada desvalorização em uma ou mais moedas
países até então inseridos no rol das grandes potências emergentes do globo, como a Coréia. Entretanto, Krugman afirma que essa relação de contágio é perfeitamente compreensível quando se analisa mais especificamente a situação macroeconômica daqueles países emergentes da Ásia cujos sistemas econômicos e produtivos se mostravam mais interligados e apresentavam características mais próximas como é o caso de Malásia, Tailândia e Indonésia que, cabe lembrar, acostumaram-se a competir nos mercados internacionais se valendo, principalmente, da venda de grandes quantidades de produtos intensivos em mão-de-obra (não se encaixando, portanto, no modelo coreano de exportações). Partindo de tal constatação, vemos então que a situação de correlação econômica da Coréia com os outros três países asiáticos citados (Malásia, Tailândia e Indonésia) é bem menos contundente e bem menos explícita, não se configurando, deste modo, a existência de ligações econômico-competitivas mais estreitas entre os três países acima mencionados e a Coréia que, a bem da verdade, possui uma estrutura produtiva diferenciada em relação aos outros países do sudeste asiático.
Sendo assim, para enfocarmos a crise asiática como um todo, desvendando-a a partir da análise de seus aspectos globais (aspectos esses que agiram ao mesmo tempo sobre uma gama diversa de países), não é suficiente apenas nos determos em circunstâncias como moedas sobrevalorizadas, desvalorizações competitivas e disputa predatória por mercados. Uma vez que, pela própria tese defendida por Krugman, a crise cambial asiática (fortemente marcada por uma sucessão, aparentemente sem fim, de violentas quedas no valor das moedas locais frente ao dólar e por uma total exaustão das reservas em divisas da maioria dos chamados tigres asiáticos), na verdade é, na opinião de Krugman, mera conseqüência, mero sintoma, dentre vários, que foram desencadeados pelo colapso dos mercados financeiros asiáticos. Colapso que, sob certo ponto de vista, foi nada mais nada menos do que a própria corporificação da chamada crise asiática. Crise que, segundo as próprias palavras de Krugman, teve sua origem fundamental associada a uma brutal inflação de preços de ativos de investimento que, num dado instante e de forma abrupta e violenta, teve que necessariamente ser corrigida e ajustada de acordo com padrões de avaliação mais realistas.
Considerando as teses e os princípios levantados, expostos e defendidos por Krugman, somos então obrigados a sair em busca de outros elementos e fatores que, inerentes a todos os países daquela região da Ásia que foram “contaminados” pela crise cambial (sofrendo, cada um a seu modo, diversas modalidades de ataques especulativos contra suas respectivas moedas), deverão finalmente nos conduzir a novas e impressionantes constatações, levando-nos ao descobrimento de determinadas facetas econômicas, financeiras e políticas típicas entre os tigres asiáticos afetados pela crise. Facetas que nos permitirão a revelação de causas mais profundas associadas com a crise de 1997.
Determinado a desvendar essas facetas, Krugman resolve apostar todas as suas fichas numa teoria causal que destaca primeiramente um processo de excessivo endividamento dos agentes econômicos e financeiros asiáticos favorecido em grande parte por políticas de crédito exageradamente expansivas. Desta maneira, ainda
segundo Krugman, a crise cambial que se instalou na Ásia pode ser vista como conseqüência de um grave e forte desajuste nos mercados monetários e de crédito asiáticos, desajustes que, diga-se de passagem, eram perfeitamente observáveis em todos os países afetados pela crise. A magnitude desses desajustes (que variavam de país para país) fica bastante evidenciada na medida em que nos defrontamos com o que já vinha acontecendo em períodos anteriores à crise, ou seja, uma incrível onda de superinvestimentos financiados com crédito externo farto e barato. Crédito que era canalizado e intermediado através de um conjunto de instituições financeiras bancárias e não bancárias de caráter local que, na verdade, compunham um sistema na sua maior parte totalmente endividado e alavancado em dólares (elevando sobremaneira o risco cambial das operações) e, como se não bastasse, ainda mal regulamentado, mal fiscalizado pelas autoridades de cada país e, o que é pior, mancomunado com os poderes públicos que, aceitando, avalizando e, de certo modo até, contribuindo diretamente para expandir ainda mais as orgias de investimento e gastos desproporcionais à riqueza efetivamente produzida em cada país, só fez por elevar continuamente, de forma ostensiva, o verdadeiro castelo de cartas em que se transformou o sistema financeiro asiático, sistema esse montado sobre uma extensa pirâmide de empréstimos, emissão frenética de papéis (em geral lançados em cima de garantias governamentais) e incontáveis compromissos de pagamento futuro. Pirâmide que, frise-se, tinha suas bases fundadas sobre uma riqueza essencialmente monetária, especulativa e volátil.
A inflação de preços de determinados tipos de ativo de investimento como ações, imóveis, terras, dentre outros, que se seguiu a esse fenômeno de super-avalancagem das operações financeiras e de crédito produziu aquilo que todos chamavam à época de bolha especulativa. Bolha que, saliente-se, também esteve intimamente relacionada com um excesso de otimismo nunca antes visto e que foi, em grande medida, resultado de períodos longos e ininterruptos de crescimento econômico pelos quais passaram os tigres asiáticos. Isso sem mencionar o fato de que as taxas de consumo, renda e investimento também se mostraram sempre elevadas durante um bom período de tempo, ampliando ainda mais o clima de otimismo exagerado e extremada confiança no futuro verificada concomitantemente ao surgimento da tal bolha especulativa. Os quadros que apresentamos a seguir confirmam de modo incontestável o “boom” de crescimento dos chamados tigres asiáticos e dos elevados índices de investimento verificados nesses países ao longo dos anos 90.
ÍNDICES DE CRESCIMENTO DO PIB VERIFICADOS ENTRE OS PAÍSES EMERGENTES DA ÁSIA (EM PERCENTAGENS) 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 CORÉIA 9,13 5,06 5,75 8,58 8,94 7,10 5, INDONÉSIA 6,95 6,46 6,50 15,93 8,22 7,98 4, MALÁSIA 8,48 7,80 8,35 9,24 9,46 8,58 7, FILIPINAS -0,58 0,34 2,12 4,38 4,77 5,76 9, SINGAPURA 7,27 6,29 10,44 10,05 8,75 7,32 7, TAILÂNDIA 8,18 8,08 8,38 8,94 8,84 5,52 -0,43* TAIWAN 7,55 6,76 6,32 6,54 6,03 5,67 6, HONG KONG 4,97 6,21 6,15 5,51 3,85 5,03 5,
conjunto de empresas do setor privado (principalmente as maiores) extrapolavam e estimavam demasiadamente para cima as perspectivas de receita e de lucros futuros pois, no fundo, acreditavam no prolongamento do surto de desenvolvimento dos países da região e na manutenção das linhas de financiamento, mais especificamente aquelas linhas bancadas com dinheiro externo e desregulamentadamente intermediadas pelos sistemas bancários locais dos países asiáticos. Apenas para termos uma noção aproximada da monstruosa elevação que houve nos montantes de empréstimos bancários que foram direcionados para as empresas do setor privado dos países emergentes da Ásia durante quase toda a década de 90, visualizemos o quadro abaixo que mostra claramente como evoluíram em larga escala os índices de empréstimos concedidos e como esses índices chegaram, em alguns casos, a facilmente superarem o próprio produto interno bruto do país, ou seja, ultrapassando, em margem elevada, a quantidade de riqueza real produzida internamente no país, demonstrando de modo indiscutível, o perigoso excesso de alavancagem econômico- financeira que, sendo ao mesmo tempo causa e conseqüência das práticas especulativas verificadas nos mercados do sudeste asiático, em resumo, produziu a temível bolha de ativos.
VOLUME DE FINANCIAMENTOS BANCÁRIOS PARA O SETOR PRIVADO (COMO PERCENTAGEM DO PIB) 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 CORÉIA 52,54 52,81 53,34 54,21 56,84 57,04 61,81 69, INDONÉSIA 49,67 50,32 49,45 48,90 51,88 53,48 55,42 69, MALÁSIA 71,36 75,29 74,72 74,06 74,61 84,80 93,39 106, FILIPINAS 19,17 17,76 20,44 26,37 29,06 37,52 48,98 56, SINGAPURA 82,20 83,34 85,06 84,14 84,21 90,75 95,96 100, TAILÂNDIA 64,30 67,70 72,24 80,01 91,00 97,62 101,94 116, TAIWAN 100,41 108,99 126,43 137,23 146,89 149,49 146,05 146, HONG KONG - 141,84 134,20 140,02 149,00 155,24 162,36 174,
Com efeito, dada as enormes facilidades em se alavancar vultosas operações de empréstimo e financiamento, principalmente a partir de um lastro supervalorizado de ativos, criava-se, como bem atestou o quadro acima, um ambiente que praticamente induzia a todos a se manterem firmes na busca por mais e mais empréstimos, elevando, como já havíamos constado anteriormente, o endividamento externo dos tigres da Ásia. Entretanto, um problema adicional surge para tornar mais periclitante a situação de risco envolvendo esses empréstimos. Problema que nos faz crer na existência de mais um elemento de fragilidade típica das economias emergentes asiáticas e que acabou, a sua maneira, contribuindo decisivamente para a debaclê final do sistema financeiro e de crédito montado no sudeste asiático. A verdade é que, como nos informa o jornalista Adriano Silva em matéria especial sobre a crise asiática, muito do dinheiro contraído pelo setor privado e com o aval do governo, em vez de ser investido no aumento da produtividade, no desenvolvimento de novas tecnologias, na capacitação de mão-de-obra ou na melhora da infraestrutura, acabou sendo desviado para a especulação imobiliária (que como já mencionamos, é parte componente dos circuitos especulativos que nutriam a bolha de ativos) e, pasmem, também para o incremento produtivo de indústrias em completa saturação, como
metalurgia, automóveis e transporte aéreo (indústrias cuja demanda era declinante e que, em razão disso, gerava capacidade ociosa, lucros marginais e quase nenhum ganho de eficiência). Além disso, consumiram-se fortunas na construção de campos de golfe, condomínios e escritórios de luxo, sem falar que bilhões foram enterrados em projetos faraônicos do governo que, assim como todos os outros gastos citados, não tinham a menor condição de gerar o retorno necessário para a cobertura dos empréstimos. Assim desta maneira, sem tornar sustentável o processo de crescimento econômico via elevação dos índices de produtividade e melhora no grau de eficiência alocativa dos recursos disponíveis, acentuou-se a tendência de um esgotamento do ciclo de prosperidade e riqueza material dos tigres que, apesar de tal fato, dispunham ainda de astronômicas somas de dinheiro em circulação (que na verdade vinham sendo fomentadas pela crescente escalada financeira mundial e mantidas em expansão pelos bancos locais e pelos agentes especuladores). O incrível disso tudo é que a oferta excedente de moeda e crédito produzia uma demanda artificial que, de certo modo, fazia nascer a tal da bolha apenas em mercados específicos (como aqueles já citados, ações, imóveis, terras, etc) não expandindo seus efeitos inflacionários para os setores de bens e serviços das economias asiáticas, ou seja, o fenômeno da bolha não causava uma inflação geral, de caráter galopante, nas economias asiáticas 1.
Aperfeiçoando a análise a respeito do fenômeno da bolha especulativa, Aluízio Beviláqua, autor do livro “Crise na Ásia – O Tufão e a Muralha de Papel, ressaltou numa de suas palestras, a existência de uma teoria que busca justificar a bolha especulativa como um desequilíbrio entre a oferta de dinheiro, de capital monetário e de títulos negociáveis e a respectiva base produtiva real e palpável existente na economia dos tigres. Na verdade, ainda segundo Aluízio Beviláqua, é um ciclo perene de especulação que cria as condições desse desequilíbrio e colabora no sentido de desenvolvê-lo. Desequilíbrio que se dá quando a base financeira se desloca, se desprende da base produtiva. Explicando em outras palavras poderíamos raciocinar da seguinte forma: Na medida em que produção e moeda passam a oscilar de uma maneira quase que independente uma da outra, verifica-se, na maioria das vezes, que a produção real de bens e serviços, está sempre, ao contrário da moeda, limitada pela evolução ou não dos índices de eficiência e eficácia da economia como um todo. Evolução que deveria ocorrer pelo acúmulo constante de uma determinada quantidade de capital físico e intelectual que fosse capaz de gerar aumentos significativos na produtividade geral do país, alavancando, sob bases sólidas, seu potencial de produção e de formação de riqueza material concreta e visível. A questão é que, no caso dos tigres asiáticos, foi detectado o atingimento do ciclo máximo de expansão do capital produtivo (como, a propósito, já foi mencionado anteriormente).
1.O que pode ser perfeitamente explicado se levarmos em conta o fato das moedas da maioria dos países da região estarem sobrevalorizadas, criando a chamada âncora cambial que, barateando as importações, inibia a elevação de determinados custos internos; além do fato dos déficits em conta corrente estarem servindo como uma espécie de amortecedor das pressões de demanda interna, ou seja, qualquer acréscimo na demanda por algum produto que superava o nível de oferta interna era suprida por meio do aumento das importações que, produzia mais déficit em