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A garota sem rosto do lago, Exercícios de História

Terrorista que eu não vou usar mais aquilo que eu falei que ia ser mais fácil pra mim e

Tipologia: Exercícios

2020

Compartilhado em 12/09/2020

rafael-cgp
rafael-cgp 🇧🇷

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A
GAROTA
DO
LAGO
Sem inimigos nem suspeitos. Apenas uma pessoa cheia de planos que
estava viva num dia e, no outro, é encontrada morta.
Tradução: Carlos Szlak
CHARLIE DONLEA
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Baixe A garota sem rosto do lago e outras Exercícios em PDF para História, somente na Docsity!

A

GAROTA

DO

LAGO

Sem inimigos nem suspeitos. Apenas uma pessoa cheia de planos que

estava viva num dia e, no outro, é encontrada morta.

Tradução: Carlos Szlak

C H A R L I E D O N L E A

PARTE I

A CACHOEIRA

DO SOL DA MANHÃ

1

Becca Eckersley Summit Lake 17 de fevereiro de 2012 A ocasião de sua morte

A NOITE DE INVERNO CAIU NO EXATO MOMENTO EM QUE

Becca Eckersley deixou o café. Caminhando pelas ruas escuras de Summit Lake, ela enrolou o cachecol em torno do pescoço para se proteger do frio. Sentia-se bem depois de finalmente ter falado com alguém, pois tornou aquilo real. A revelação de seu segredo de longa data aliviou a pressão, per- mitindo-lhe relaxar um pouco. Enfim, Becca acreditou que tudo daria certo. No lago, o cais rangeu sob seus pés até ela alcançar o terraço que cir- cundava a casa à beira do lago de seus pais. Despreocupada após o tempo passado no Café Millie, Becca não sentiu a presença dele. Não o notou nas sombras, oculto na escuridão. Ela abriu a porta lateral e a trancou atrás de si. Em seguida, na antessala tirou o cachecol e se livrou do casaco pesado. Ligou o alarme e se dirigiu ao banheiro. Ali, colocou-se sob a ducha de água quente e deixou o estresse para trás. A confissão no café foi um teste. Prático. No último ano, Becca guar- dara muitos segredos — e aquele era o maior e o mais insensato de todos. Os outros podiam ser atribuídos à juventude, à inexperiência. No entanto, esconder essa última parte de sua existência era pura imaturidade, expli- cada apenas pelo medo e pela ingenuidade. O alívio que sentiu ao enfim contar para alguém confirmou sua decisão. Seus pais precisavam saber. Já era hora. Exausta por causa da pós-graduação em direito e do ritmo frenético de sua vida, ficava fácil imaginar-se indo para debaixo das cobertas e dor- mindo até de manhã. No entanto, Becca viera para Summit Lake para

cumprir seu dever. Para entrar nos eixos novamente. Dormir não era uma opção, portanto. Assim, ela levou dez minutos para secar os cabelos, ves- tir um agasalho esportivo confortável e meias grossas de lã. Na bancada da cozinha, ligou o iPod, abriu o livro, ajeitou as anotações e o laptop , e começou a estudar. Antes, o chuveiro e o secador de cabelos encobriram o ruído da maça- neta da porta e dos dois fortes golpes de ombro testando a resistência da fechadura. No entanto, naquele momento, após estudar direito constitucio- nal durante uma hora, Becca escutou: uma pancada ou vibração na porta. Becca reduziu o volume do iPod e apurou a audição. Meio minuto de silêncio se passou, e então um golpe estridente na madeira. Três batidas sonoras que a assustaram. Ela consultou o relógio e se espantou — ele só deveria chegar no dia seguinte. A menos que quisesse fazer uma sur- presa, o que costumava acontecer. Becca correu até a antessala e puxou a cortina para o lado. Ficou con- fusa com o que viu. Nessa confusão, seus pensamentos se perderam. Sen- tiu um frio na barriga e um arrepio na espinha. Com a mente pouco clara, nenhum pensamento se sobressaiu para fazê-la refletir. Lágrimas brota- ram nos olhos e, ao mesmo tempo, um sorriso se manifestou. Ela desligou o alarme, com a luz vermelha se convertendo em verde. Em seguida, des- trancou a porta e girou a maçaneta. Espantou-se quando ele forçou a entrada e, como água acumulada contra um dique, projetou-se na direção da antessala. Mais surpreendente ainda foi a agressão. Despreparada para o ataque dele, Becca sentiu os calcanhares serem arrastados por sobre o piso de ladrilhos. Então, ele a empurrou com força contra a parede. Agarrando-a pelos ombros e pelos cabelos, arrastou-a até a cozinha. O pânico esvaziou a mente de Becca. Naquele momento, todas as ideias e imagens que tinham estado ali até alguns segundos atrás desa- pareceram, dando lugar aos seus instintos mais primitivos. Becca Eckers- ley passou a lutar por sua vida. A agressão prosseguiu na cozinha, com Becca agarrando e chutando qualquer coisa que fosse capaz de ajudá-la. Depois de o livro e o laptop caí- rem no chão, ela procurou tracionar os pés com meias de lã nos ladrilhos frios. Enquanto ele a puxava pelo recinto, ela agitava as pernas frenetica- mente. Foi quando desferiu um pontapé enfurecido contra a cristaleira,

No chão, com as pernas estendidas e os braços como dois galhos de árvore quebrados ligados às suas laterais, ela encarava a porta escanca- rada do pátio. O farol distante, com sua luz brilhante orientando os bar- cos perdidos na noite, era tudo que ela percebia e tudo que ela queria. Era vida, e Becca se agarrou à sua imagem oscilante. Ao longe, uma sirene ecoou na noite, baixinha no início, e depois, mais alta. A ajuda estava chegando, embora ela soubesse que era muito tarde. No entanto, Becca saudou a sirene e o auxílio que traria. Não era mais para si que ela esperava a ajuda.

2

Kelsey Castle Redação da revista Events 1 o^ de março de 2012 Duas semanas depois da morte de Becca

O RETORNO DE KELSEY CASTLE AO TRABALHO FOI TRANQUILO

e sem cerimônia, do jeito que ela queria. Kelsey parou o carro no estacio- namento dos fundos; assim, ninguém notaria seu veículo. Em vez de se arriscar no elevador, entrou furtivamente pela porta de trás e subiu pela escada. Era muito cedo ainda, e a maioria dos funcionários estava enfren- tando a hora do rush ou tentando ganhar mais alguns minutos de sono. Ela não poderia permanecer invisível para sempre. Teria de conversar com alguém. No entanto, esperava manter a porta de seu escritório fechada e correr atrás do prejuízo por algumas horas, sem ser interrompida por sorrisos tristes e expressões do tipo “Como você está?”. Ao deixar a escada, percebeu as estações de trabalho vazias. Com pas- sos firmes, percorreu o corredor, mantendo os olhos fixos na porta de seu escritório, como se fosse um cavalo de corrida como tapa-olhos para as late- rais. A porta do escritório de seu editor se encontrava aberta, com as luzes brilhando. Kelsey sabia que não o venceria, jamais. Após mais alguns pas- sos, alcançou seu escritório, entrou e rapidamente fechou a porta atrás de si. — O que você está fazendo aqui? — Penn Courtney perguntou com uma expressão de desaprovação. — Achei que só voltaria dentro de duas semanas. Penn, sentado no sofá dela, com os pés sobre a mesa de centro, folheava os rascunhos dos artigos que seriam publicados na edição daquela semana. Kelsey respirou fundo.

— Esqueça os e-mails. São todos lixo. — Penn deixou que ela lesse por um minuto antes de continuar: — Ficou sabendo de Summit Lake? — Não. O que houve? — É uma cidadezinha nas montanhas Blue Ridge. Singular. Acon- chegante. Cheia de forasteiros que passam o tempo em casas de veraneio. Esportes aquáticos no verão; pistas de esqui e passeios em motos de neve no inverno. Kelsey lançou um olhar para ele e, depois, de volta para o computador. — Você precisa de Finasterida? — O remédio para calvície? — Sim. São quase cinquenta e-mails de ofertas. — Acho que é muito tarde para isso. — Penn passou a mão sobre a cabeça totalmente lisa. — Viagra? Será que esses idiotas sabem que sou uma mulher? Sim, a maioria dos e-mails é lixo. — Quero que você vá até lá. — Penn colocou a pilha de papéis sobre a mesa dela. Kelsey desviou o olhar da tela, moveu-o para a pilha de papéis e, em seguida, dirigiu-o na direção de Penn. — Ir aonde? — Summit Lake. — Para quê? — Uma história. — Não comece, Penn. Acabei de lhe dizer. — Não estou começando nada. Há uma história ali, e quero que você cuide dela. — Que história pode existir numa cidadezinha turística? — Uma história importante. — Resposta horrível. Você está querendo se livrar de mim porque acha que não estou pronta para voltar. — Não é verdade. — Penn fez uma pausa. — Estou querendo me livrar de você porque acho que você precisa disso. — Droga, Penn! — Kelsey ficou de pé. — É assim que as coisas vão ser de agora em diante? Vai me tratar como se eu fosse uma boneca de

porcelana, me dando artigos sem importância para fazer e me mandando de férias porque você acha que não consigo lidar com meu trabalho? — Para ser honesto, creio que neste momento você não consegue. Você não devia voltar tão cedo. E não é assim que as coisas vão ser de agora em diante. — Então, Penn apoiou as mãos na mesa, se inclinou na direção de Kelsey e a encarou. Com o dobro da idade dela, dois filhos e uma vasectomia bem-sucedida, Penn a tratava como se ela fosse a filha que ele nunca teve. — Mas é assim que serão neste momento. Há uma his- tória em Summit Lake. Quero que você a investigue. É mero acaso que a cidade tenha uma visão maravilhosa das montanhas e um belo lago azul? Não. A revista normalmente a colocaria num hotel cinco estrelas com todas as despesas pagas? Claro que não. Mas eu sou o dono, você ajudou a revista a crescer, e quero um artigo de primeira. Estou mandando você para Summit Lake pelo tempo que for necessário para que descubra tudo. — Sentou-se numa cadeira em frente à mesa de Kelsey e suspirou. Kelsey fechou os olhos e se acomodou também. — Descobrir o quê? Qual é a história? — Uma garota morta. Kelsey ergueu as sobrancelhas, em interrogação, e o encarou com seus grandes olhos castanhos. — Continue. — É o único homicídio documentado da história de Summit Lake. Hoje, é assunto de muita discussão ali. Aconteceu duas semanas atrás, e está começando a ganhar repercussão nacional. O pai da garota é um advogado importante. A família é rica. A polícia ainda não tem pistas. Nenhum suspeito. Apenas uma garota que estava viva um dia e morta no dia seguinte. Algo que não faz sentido. Quero que você cutuque e bisbi- lhote. Descubra o que todo o mundo está deixando escapar. Aí, me dê um artigo que as pessoas queiram ler. Vou pôr o rosto dessa garota infeliz na capa da Events , não só com uma história a respeito de sua morte, mas com a verdade. E quero fazer isso antes que outros abutres sintam o cheiro e saiam voando para Summit Lake. Depois que a cidadezinha se encher de jornalistas e tabloides, ninguém mais vai abrir o bico. Kelsey pegou os papéis que Penn colocou sobre sua mesa e os folheou.

3

Becca Eckersley Universidade George Washington 30 de novembro de 2010 Catorze meses antes de sua morte

BECCA ECKERSLEY ESTAVA REUNIDA COM TRÊS AMIGOS NA

biblioteca da universidade. Pequenas luminárias conferiam luz à mesa ocupada por eles, bem como aos livros, aos papéis e aos seus rostos. Três anos antes, Becca chegara ao campus sem nenhuma de suas amizades do colégio, mas não teve problema algum para se adaptar à faculdade de direito. No primeiro ano, ela dividiu um quarto com Gail Moss, com quem desenvolveu uma boa amizade — bem como com Jack e Brad, tam- bém colegas de curso. Todos eles estudavam juntos com regularidade e formavam um quarteto incomum. — As pessoas dizem isso o tempo todo — Gail afirmou. — Que pessoas? — Brad quis saber. — Quem fala tanto da gente? — Não sei — Gail respondeu. — Alguns caras. Algumas garotas. — E qual é o problema deles? — Acham que somos estranhos. — Quem se importa com o que pensam? — Brad deu de ombros. — Falando sério, acho que é tudo coisa da sua cabeça. — Não é, não. — Gail respirou fundo. — Tudo bem, então vou fazer uma pergunta que quero fazer faz tempo: por que somos amigos? — Como assim? — Becca a fitou, surpresa. — Ora, porque gostamos uns dos outros. Porque nos damos bem, temos coisas em comum. É por isso que as pessoas se tornam amigas. — Gail está se referindo a sexo, ou à falta dele, entre nós. — Brad falava olhando para Gail. — Ela é muito tímida para externar isso dessa

maneira. É melhor você achar um jeito de se expressar com mais clareza se quiser ser advogada. — Ótimo. — Gail fechou os olhos por um instante para evitar contato visual. — Será que ninguém acha esquisito o fato de sermos amigos desde o primeiro ano e não ter havido nenhuma transa, nenhuma suruba, nenhum drama? — Você tinha um namorado quando nós a conhecemos — Jack lem- brou. — Qual era o nome dele? — Gene. Jack deu uma risada e apontou para Gail. — Isso mesmo. Euge. Eu gostava daquele cara. Meio babaca, mas de um jeito bacana. Brad também riu. — Tinha me esquecido dele. O cara detestava quando a gente o cha- mava de Euge. “É só Gene”, ele dizia. Vocês se lembram daquele fim de semana? Naquele momento, Becca também achou graça. — O fim de semana do “É só Gene”. Ah, meu Deus, parece que faz muito mais que três anos! Gail tentou não rir. — Sim, muito engraçado. Ele nunca voltou para Washington depois daquele fim de semana. — Euge terminou o namoro com você pouco depois, não foi? — Sim, Jack, por causa daquele fim de semana. — Fala sério! Só porque a gente o chamava de Euge? — Esqueça, Jack — Gail pediu. — Minha conclusão é que nosso quar- teto é único. Duas garotas, dois caras. Bons amigos na faculdade, sem nenhuma maluquice para balançar o coreto. Jack fechou seu livro de direito comercial e deu um tapinha nas cos- tas do amigo. — Brad será o senador mais poderoso do Congresso, vocês duas serão as advogadas idiotas que vão trabalhar para ele, eu serei o lobista que conseguirá todo o dinheiro necessário, e continuaremos sendo bons amigos. Quem se importa se as outras pessoas não entendem? — Ele

— Claro que é. — Becca pendurou a mochila no ombro, agarrou Brad pelo braço e pousou a cabeça no ombro dele, enquanto saíam da biblio- teca. — Mas gosto de você mesmo quando não cumpre o que promete. Ainda que eu tire uma nota C e manche meu histórico acadêmico. — Nenhuma das faculdades de direito mais prestigiadas do país a aceitará para pós-graduação com uma nota C em seu histórico. — Brad deu um tapinha na cabeça de Becca enquanto caminhavam. — Parece que terei de cumprir o que lhe prometi. O 19th Bar, no bairro de Foggy Bottom, em Washington, tinha o público normal de uma noite de terça-feira; ou seja, uma multidão de estudantes universitários no auge de sua existência. A maioria vinha de famílias ricas da costa leste e tinha planos associados a carreiras políticas ou direito. Alguns queriam outras coisas, mas eram minoria. Os amigos acharam uma mesa vazia junto à janela da frente, uma vidraça que permitia que os transeuntes observassem o interior do bar, invejando a vida dos jovens universitários a caminho do estrelato. Eles pediram cervejas e caíram em sua rotina comum de discutir política. Após alguns copos, Brad começou sua bravata recorrente e repleta de maldições sobre nunca ter existido um presidente americano que viveu realmente de acordo com seus princípios e, depois, governou da mesma maneira. — Eles sempre se tornam vítimas da política de Washington, sempre cedem a interesses específicos. Alguém pode citar um presidente que tinha mesmo o povo em mente na maioria de suas decisões no poder? Nenhum tinha, e o atual também não tem. É tudo uma questão de poder, manter o poder e repartir o poder com aqueles que investem o dinheiro neles. — E você vai pôr um fim nisso tudo, certo? — Ou morrerei tentando, Becca. E vou começar com o escroque filho da puta que se diz meu pai. — Brad tomou um gole de cerveja. — Assim que receber o diploma. — Eu buscaria contatos e apoio antes de atacar meu próprio pai — Becca disse. — Boa ideia. — Brad apontou para Becca, e em seguida tomou outro gole de cerveja, como se estivesse num pub irlandês prestes a começar

uma briga. Limpou a boca com o antebraço, num gesto dramático, e enca- rou o teto do bar. Os outros começaram a rir ante o espetáculo. Brad continuou: — Precisa vir de repente, de modo totalmente insuspeito. Sim, vou criar uma coalizão, e quando meu pai achar que está numa boa, vou mandá-lo para a prisão, como Giuliani fez com Teflon Don, aquele mafioso seboso. — Nem foi ainda aceito para pós-graduação numa faculdade de direito oficialmente reconhecida e já se compara com Rudy Giuliani. — Jack deu uma risada. — Amo sua autoconfiança. Becca e seus amigos adoravam as tiradas de Brad. Jack e Gail as escutavam por entretenimento, mas Becca possuía uma percepção mais aguçada. Ela conhecia Brad melhor. Sabia de seus segredos, seus desejos e seus conflitos. Entendia que suas opiniões eram fruto da rebelião. Um pai opressivo, que acumulou uma fortuna dirigindo um dos maiores escritórios de advocacia da costa leste, tentava dirigir a vida do filho numa direção que Brad não desejava seguir. Numa mistura de rendição dissimulada e vingança secreta, Brad concordou com uma formação aca- dêmica na George Washington e, em breve, suportaria cursar pós-gra- duação numa universidade da Ivy League — o grupo das oito universidades mais prestigiadas do país. No entanto, em vez de se jun- tar ao pai na roubalheira — como costumava dizer —, Brad usaria o diploma pago por ele para, algum dia, acabar com a carreira do grande sr. Reynolds. Esse era o plano. Naqueles três anos de amizade, Becca encontrara o pai de Brad algu- mas vezes. O pai dela também o conhecia, pois tinha um relacionamento profissional com Reynolds. Todos os anos, o pai de Brad organizava um fim de semana na cabana de caça dos Reynolds, para onde alguns advo- gados ricos iam para caçar alces, fumar charutos e falar de negócios. No ano anterior, o pai de Becca fora convidado, e voltou para o lar dizendo que o sr. Reynolds era um verdadeiro idiota. Um homem frio e severo, que pressionava os filhos de maneira doentia. Becca nunca teve dificuldade para entender o ressentimento de Brad. Como punição pela ausência permanente do pai nos torneios de beisebol,

— A semana do saco cheio! — Gail exclamou, arregalando os olhos. — Meus pais vão para a Europa. Teremos a casa só para nós! — A menos que vocês, rapazes, prefiram ir para South Beach para pegar umas garotas da Universidade de Miami — Becca sugeriu. Brad e Jack se entreolharam e trocaram brindes. — Sim, nós avisaremos vocês sobre a semana do saco cheio. Talvez tenhamos de fazer uma breve parada por lá. — Jack piscou, sorrindo. — Seus idiotas! — Gail gracejou. Todos riram e pediram mais cerveja. Faltavam duas semanas para os exames finais. Naqueles dias todos pareciam imortais.

4

Kelsey Castle Summit Lake 5 de março de 2012 Dia 1

NAS MONTANHAS DE SUMMIT LAKE, KELSEY CASTLE OBSERVAVA

de um penhasco o sol nascente tingir de vermelho o horizonte e conver- ter as nuvens esparsas em algodão-doce cor de cereja. Ao longe, sobre o centro do lago, nuvens escuras se formavam. Uma tempestade se aproxi- mava, o que fez Kelsey se lembrar de sua juventude: as pancadas de chuva iluminadas pelo sol que sempre aconteciam em seu aniversário, e a risada sonora de seu avô ao ver as nuvens chegarem. O aguaceiro vinha rápido, e seu avô murmurava junto ao seu ouvido, enquanto gotas de água rolavam pelos rostos e pregavam as roupas contra os corpos: “Feliz aniversário para a fazedora de chuva”. Todas as outras pessoas corriam em busca de abrigo, com jornais ou jaquetas sobre a cabeça, mas Kelsey e o avô dançavam e chutavam poças enquanto a chuva caía. Ao mesmo tempo, um céu azul luminoso, pouco além das nuvens carregadas, lan- çava raios de sol e iluminava os pingos como diamantes se precipitando do firmamento. E tão rápido quanto a tempestade surgia ela desaparecia, deixando árvores gotejantes e poças na rua que refletiam o céu azul. Era um fenômeno estranho, que Kelsey começou a amar. Pelo fato de aconte- cer todos os anos, em seu aniversário, tornou-se uma marca especial em sua vida, que dizia que alguém, em algum lugar, zelava por ela em seu dia especial. Pelo menos era o que seu avô sempre dizia. Kelsey caminhou até a beira do penhasco e respirou fundo diversas vezes para pôr a respiração sob controle. Ela chegara a Summit Lake na noite anterior, e logo cedo deixou o hotel. Em meio ao silêncio e