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de sua teoria dos sonhos, em formação permanente no livro. Se a ... uma barba amarela que o contorna fica especialmente acentuada com clareza.
Tipologia: Resumos
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André Carone
(^1) FREUD, S. Die Traumdeutung. Gesammelte Werke, Band II/III, Frankfurt am Main, Fischer Verlag, 1999, p. 519. Edição indicada no restante do texto pela sigla GW, seguida pelo número do volume e da página. Todas as traduções presentes neste ensaio são minhas.
tra a si mesmo nos sonhos de algum paciente. Esta multiplicidade aponta para problemas que não podem ser tratados aqui, e no entanto deve ser mencionada para que a mobilidade do texto não escape do nosso horizonte. Partiremos de seu elemento de base – o relato do sonho – para depois caracterizar o percurso. Esboçando uma des- crição um pouco crua da forma do livro, que iremos ponderar mais adiante, diremos que ele se organiza a partir de ciclos sucessivos de relatos e interpretações de sonhos. O discurso de primeira pessoa é evidente nas situações em que Freud é sonhador e intérprete de seu sonho, mas nem por isso desaparece nas interpretações dos sonhos dos pacientes, onde o autor aparece somente como este outro “eu” que acompanha a partir de fora uma série de pensamentos que não lhe pertencem. A voz desse “eu” não se esgota nas confidências ínti- mas de Freud, nas suas revelações sobre a infância ou as ambições da vida adulta: a primeira pessoa é antes de tudo a pessoa que sonha, ou melhor, que está contando um sonho. Para a questão que desejamos lançar agora basta notar que o trabalho de interpretação é sempre precedido pela fabricação deste relato do sonho. A tarefa de interpretar aderiu a um tal ponto à figura de Freud que o relato do sonho passou a ser compreendido como um registro neutro e objetivo das imagens oníricas. Enxerga-se nele a reprodução pura e simples do conteúdo manifesto, o ponto de par- tida para o resgate do conteúdo latente e a descoberta do sentido do sonho. Esta neutralização do relato também se deve, como veremos adiante, à sua linguagem. O registro verbal é de fato o elemento ini- cial que conduz à interpretação, e pode-se dizer também que ele cor- responde ao conteúdo manifesto do sonho. Mas com esta primeira defi nição vemos o problema, que parece ter se esgotado, desdobrar- se em outros dois: se o relato apresenta o conteúdo manifesto (que, como Freud irá destacar a partir do primeiro capítulo, não nos traz o sonho completo), ele não pode reproduzir a experiência direta do sonho. O conteúdo manifesto é a reprodução verbal do sonho tal como ele foi lembrado na vigília, e não o sonho vivido. Além disso, quem registra um sonho transpõe em palavras uma experiência pre- dominantemente visual, e a interpretação parte inevitavelmente de uma descrição do sonho que se teve. Freud convive com esta limi- tação sem desacreditar a linguagem do relato como uma expressão degradada da experiência do sonho. Os estudiosos do sonho, ele diz, “enganam-se quando tomam a modificação do sonho pela lembran- ça e pela tradução em palavras por arbitrária e indecifrável, e por conseqüência destinadas a nos conduzirem ao erro no conhecimento do sonho. Eles subestimam a determinação no psiquismo. Nada ali é arbitrário^1 ”. Portanto o relato, mesmo sem equivaler ao sonho real, traz as determinações suficientes para a recomposição de seu sentido secreto e não deve ser descartado. Enquanto outros autores se valem da impossibilidade de uma descrição exata do sonho para rebaixá-lo como fenômeno psíquico, Freud incorpora estas restrições ao esfor- ço para descobrir seu significado: “...a deformação não é outra coisa senão uma parte da elaboração à qual os pensamentos do sonho são
(^2) GW II/III 519.
obrigatoriamente submetidos por conta da censura^2 ”. Isso equivale a reconhecer que as modificações feitas pelo relato são elementos do sonho e podem ser interpretadas. Se há um texto do sonho, que tangencia e traduz a experi- ência noturna a partir de um outro registro, talvez seja interessante compreender como ele ajuda a compor o texto de A interpretação dos sonhos. Mas antes será necessário isolar este momento da composição do livro, o que exige que retornemos aos textos do sonho para obser- var, a partir de alguns exemplos, como é construída a sua forma.
Artefilosofia, Ouro Preto, n.7, p. 111-129, out.
(^6) GW II/III 111.
lado da interferência dos estímulos externos que rompem facilmente o tecido do sono, destacando a pouca nitidez das imagens noturnas, o desarranjo dos elementos e a incerteza quanto ao conteúdo ver- dadeiro do sonho. Estes obstáculos também não escaparam à atenção de Freud. Em outro comentário igualmente discreto, ele conta que registrou o sonho da injeção em Irma “imediatamente depois de acordar 6 ”. Os relatos de sonhos presentes no livro trazem esta marca: são tex- tos diretos, apresentados no presente do indicativo – ou por vezes no conjuntivo, para indicar a incerteza da pessoa que sonha frente ao que está narrando. Raramente são empregados os verbos modais e auxiliares; conjunções explicativas e causais têm papel secundário quando surgem, e não organizam necessariamente o rumo da nar- ração. Sobretudo nos sonhos de Freud, os laços causais são tênues e encobrem conexões latentes a serem reveladas pelo trabalho de interpretação. A tarefa de ler os sonhos não é simples e exige concentração. Sem uma segunda leitura, não guardamos os elementos de relatos como o do “sonho revolucionário”, o mais extenso e fragmentado de todo o livro. As orações são justapostas sem um critério nítido de organização; por vezes elas se acumulam na frase sem que o leitor perceba qual a relação entre elas – “Agora sento-me no vagão, que parece o de um trem de subúrbio, e tenho na lapela uma coisa comprida com um trançado particular, e nela uma violeta de cor marrom ou roxa de material duro, o que impressiona muito as pessoas”. A partir da leitura deste sonho específico (o último da série apresentada acima), vemos que Freud não escreve o sonho pensando em seu conjunto. A ordem da primei- ra cena logo se quebra; não há transição para as situações seguintes e algumas seqüências estão cortadas (“Aqui a cena se interrompe”). É como se uma cena não soubesse que as outras existem. Elas pa- recem ter sido lançadas no papel sem nenhuma regra, e o rumo da interpretação não é visível a partir delas. Fica claro que o autor não busca um relato elegante ou coerente. Ele não está preocupado em explicar para os outros ou para si mesmo o que acontece no sonho: quer registrar o acontecido em sua forma bruta e botá-lo no papel antes que a lembrança se apague. A mesma convicção que o faz pe- dir aos pacientes que digam sempre o que lhes vem à cabeça, sem recusar nenhuma idéia que pareça absurda ou irrelevante, também o faz escrever seus sonhos (e os de seus pacientes) em linha reta, sem perguntar-se ainda pelo fio que reúne suas partes. As lacunas e aspe- rezas destas anotações são o preço a pagar pela existência de algum registro. Inscrito numa forma de linguagem, o sonho deixa de ser um sonho; em contrapartida, depois de fixar seus elementos pode- se examinar o que ficou escrito. Numa palavra, agora já podemos falar sobre ele: o sonho, mesmo deformado, continua a existir nesta inscrição literal. Em uma nota de rodapé que redigiu para explicar o contra- senso da cena de um outro sonho – “de repente estou numa outra carruagem, em que o revestimento e o assento são tão estreitos que bate-se
Artefilosofia, Ouro Preto, n.7, p. 111-129, out.
André Carone
(^7) GW II/III 458.
(^8) GW II/III 215.
diretamente no encosto” – notamos que há um método por trás da re- dação dos sonhos – ou então, que a ausência do método faz parte de sua estratégia: “Nem mesmo eu compreendo esta descrição; porém obedeço ao princípio de reproduzir o sonho nas palavras que me ocorrem durante a anotação. A versão literal é ela própria uma peça da figuração do sonho 7 ”. Esta nota da segunda metade do livro destaca algumas idéias gerais que podíamos entrever, com maior ou menor clareza, em ca- pítulos ou seções anteriores. Antes de mais nada, é preciso observar que Freud conta o sonho sem necessariamente entender o que es- creve; toda sua atenção se volta para a aparição do material, e ele não acomoda ou ordena o conjunto. Sabemos que a lembrança do sonho é imperfeita. Falas, passagens ou cenas inteiras são esquecidas, e muitas vezes desistimos de reproduzir um sonho porque boa parte do material se perdeu. Mas não existe apenas a imperfeição da lem- brança: recordamos algumas imagens do sonho durante a anotação, o que equivale a dizer que continuamos a descobrir o conteúdo do sonho enquanto tentamos expressá-lo na fala ou na escrita. Antes desta reprodução, temos uma recordação das imagens oníricas, mas não conhecemos o texto do sonho, que deve ser fixado com as pala- vras que surgem no instante da anotação. Ao que parece, Freud julga que a distância entre a vida onírica e a narração do sonho pode ser superada. Os novos conteúdos que aparentemente acrescentamos ao sonho noturno estão ligados a ele, e tanto podem ser produtos de nossa resistência às idéias que aparecem no sonho como tentativas de restituir aquilo que esta resistência quer afastar. A interpretação con- tinua sendo possível em ambos os casos: ou analisamos um elemento genuíno do sonho ou então a resistência ao seu conteúdo. Mesmo incompleto, o registro falado ou escrito do sonho deixa pistas que revelam e encobrem seu sentido. Hesitações, idéias ou associações que incidem no momento da anotação são para Freud uma parte do sonho. Por isso o vemos inserir em seu texto erros e repetições, como na abertura desta frase do “sonho revolucionário”: “ eu me enfureço, e então me enfureço”, logo esclarecida em uma nota de rodapé: “Esta repetição infiltrou-se no sonho, aparentemente por distração, e foi autorizada por mim porque a análise mos- tra que ela possui seu significado 8 ”. Duas vozes se misturam entre os textos do sonho e do rodapé. A intenção central do relato –descrever a cena em que o sonhador se enfurece ao ver um conde dizer que a flor predileta dos alemães é a unha-de-cavalo – é perturbada por palavras repetidas que se enre- dam na anotação. O registro literal é assim anexado ao sonho vivido, junta-se a ele, e Freud não recusa essa sobreposição que supostamen- te seria infiel ao verdadeiro conteúdo do sonho. As palavras repetidas alteram os contornos do relato, não nos deixam ver o sonho “como ele realmente aconteceu”, mas nem por isso nos impedem de conhe- cê-lo. A impressão que guardamos de um sonho nos diz alguma coisa
André Carone
(^10) GW II/III 112.
(^11) GW II/III 111.
pretende fixar o significado, que será construído a partir da explo- ração dos elementos que o sonhador enumera. O texto do sonho é invariavelmente preciso, mas apenas enquanto relato. Sua exatidão é peculiar: ele deve ser a reprodução exata do conteúdo que emergiu no momento em que alguém escrevia ou relatava o sonho. A escrita (ou a fala) abre caminho para um significado oculto que estava presente de alguma maneira no instante do sonho. Por isso, em vez de nos afastar do sonho vivido todos os acréscimos, omissões e enganos que lançamos no relato podem nos colocar mais perto da experiência original. O movimento do texto acompanha, tanto quanto possível, o movimento do sonho. Vimos até aqui por quais caminhos o relato está remetido à experiência do sonho. Mas ele também se liga ao trabalho de inter- pretação e à teoria do sonho articulada por Freud.
Não podemos subestimar a imagem da palavra escrita e a ação exercida por ela enquanto escrevemos. Ela aparece a todo instante em A interpretação dos sonhos , página após página, seja nos relatos que Freud escreveu para interpretar sonhos dele próprio, de pacientes ou conhecidos, seja nas pistas que ele recolhe a partir da transcrição fo- nética de certas passagens do relato; ou ainda, nas suspeitas que levan- ta quando encontra explicações causais no sonho manifesto e tenta partir deste raciocínio aparente para chegar ao raciocínio latente que foi substituído após a deformação do sonho. Em uma anotação, as imagens de palavras exercem o papel reservado ao som de nossa voz quando narramos as cenas de um sonho: elas orientam e reorientam nossa atenção, separam informações ou avançam por algum cami- nho que escapava à nossa intenção inicial. Nos sonhos de Freud não faltam as marcas de hesitação ou de incerteza que penetram na fala sob a forma de variações do tom de voz, frases incompletas, silêncios entre palavras, repetições de fragmentos ou vogais que se alongam indefinidamente. Em menos de uma página a narração do “sonho da injeção em Irma”, por exemplo, repete por sete vezes o sinal de três pontos... No primeiro parágrafo do “sonho revolucionário” há um trecho “mais confuso”; no segundo, um outro que o autor logo classifica, sem o menor embaraço, como “novamente confuso”. A interrupção de uma das ações pela frase: “aqui a cena é interrompi- da”, não denuncia apenas a atuação da censura sobre um conteúdo proibido: ela abre espaço para outras recordações que precisam ser registradas o quanto antes, como se o sonhador lutasse contra o tem- po para não perder nenhuma lembrança. Freud ainda sonha com a palavra escrita. No sonho central do livro ela aparece na fórmula da trimetilamina , “que vejo diante de mim em letras borradas 10 ”. É bem possível que a imagem da fórmula escrita com uma tinta carregada estivesse associada ao momento da noite anterior em que o sonhador “redigiu o caso clínico de Ir- ma 11 ”, antes de encaminhá-la a um médico mais prestigiado. Dois anos depois deste primeiro sonho, ele narra este outro em uma carta
(^12) FREUD, S. Briefe an Wilhelm Fliess 1887-1904 – Herausgegeben von Jeffrey Moussaief Masson [ Cartas a Wilhelm Fliess 1887-1904 – Editado por Jeffrey Moussaief Masson], Frankfurt am Main, Fischer Verlag, 1999, p. 266. (^13) GW II/III 235. (^14) GW II/III 237. (^15) GW II/III 441. (^16) GW II/III 441. Os dois destaques são do próprio Freud. (^17) GW II/III 302. Em sua interpretação, Freud decompõe a palavra inventada pelo sonho em três outras: “colossal”, “Nora” e “Ekdal”, sendo que as duas últimas se referem a “duas peças de Ibsen”. (^18) GW II/III 284.
ao amigo Wilhelm Fliess: “Sonhei recentemente que sentia um forte carinho por Mathilde, mas seu nome era Hella, e eu via novamente ‘Hella’ impresso em letras borradas diante de mim. Resolução: Hella é o nome de uma sobrinha americana cujo retrato recebemos 12 ”. A escrita reaparece no sonho em que ele chega a um hotel e logo recebe um bilhete. “No bilhete está sublinhado duas vezes: não comer nada, e depois uma segunda instrução (confuso) , algo como: não trabalhar nada (...)^13 ”. No conteúdo latente de alguns sonhos também reen- contramos o gesto de escrever. Ao interpretar este mesmo sonho, por exemplo, Freud associa a imagem do bilhete aos bilhetes que “os neurastênicos trazem e mostram para os médicos 14 ”. Mais adiante, na seção que investiga os sonhos absurdos, lemos o sonho de Freud em que um colega seu, o senhor M., recebe uma crítica devastadora de Goethe (!), mas garante aos amigos que “sua admiração por Goethe não foi abalada por esta experiência pessoal^15 ”. A frase do sonho altera ligei- ramente as palavras do trecho de uma carta que escreveu ao perió- dico que havia publicado uma crítica impiedosa do trabalho de seu amigo Fliess. “Em minha carta de cancelamento ressalto a esperança de que nossas relações pessoais não sejam abaladas pelo incidente^16 ”. Numa outra passagem ele conta que sonhou “com uma frase” que resumia sua opinião sobre o artigo de um colega: “ Esse é mesmo um estilo no- rekdal^17 ”. Mesmo na conhecida passagem do livro em que compara o sonho manifesto a um hieróglifo [ Bilderschrift ] “cujos signos devem ser traduzidos apenas para a linguagem dos pensamentos oníricos”, ele descreve uma imagem que agrupa “uma casa em cujo telhado se pode ver um barco, uma pessoa correndo com a cabeça decepada e uma letra isolada” – um objeto que, como ele esclarece logo a seguir, “não aparece no mundo natural 18 ”. O estilo seco e quase telegráfico da descrição, marcado pela vontade de proteger uma matéria enfraquecida, cria uma continui- dade que não existe no momento em que tentamos – quase sempre com dificuldade – lembrar as imagens que aparecem durante o sono. A recordação de um sonho nem sempre é instantânea, podendo le- var horas, dias ou até semanas. Há sonhos que nos levam a outros sonhos esquecidos e deslocam nossa atenção; e também há trechos esquecidos que recuperamos enquanto tentamos contar o sonho a uma outra pessoa. Em situações como esta, tão comuns na vida de quem se interessa por seus sonhos, a fala e a lembrança invertem seus papéis. A lembrança que chega sem aviso modifica a fala, tal como a repetição que modificou a anotação de Freud – “eu me enfureço, então me enfureço”. Nos casos em que acontece essa surpresa, não podemos mais reduzir a narração do sonho a uma tradução linear e imperfeita do sonho vivido. Aqui não é a fala que deforma a lembrança, e sim o contrário: a lembrança deforma a fala ao acrescentar imagens, palavras ou cenas. Dito de outra maneira, nesta situação a fala não reproduz um outro conteúdo: ela produz a recordação diante de nós, no tempo presente. Apesar disso, é difícil negar que o texto do sonho apaga as fl utuações da memória. Ele submete suas imagens a uma espécie de compressão, concentrando as imagens que surgiram para a consci-
Artefilosofia, Ouro Preto, n.7, p. 111-129, out.
(^21) Apud Mahony, P. Freud as a writer, Yale University Press, New Haven and London, 1987, p. 57. (^22) Mahony, P. Freud as a writer, p.75.
Numa carta, Freud diz: “Quando sento para trabalhar e coloco a caneta na mão, sempre fico curioso quanto ao que vai surgir, e isso me leva de uma maneira irresistível ao trabalho^21 ”. Sua vontade de criar uma forma para idéias que o tomam de surpresa se realiza no gesto de escrever, que é orientado por um impulso interior. Seu laço com a escrita é natural: ele pode aguardar pelo momento do trabalho para descobrir aquilo que realmente irá escrever – como se anteci- passe, de uma maneira um pouco confusa, aquilo que seu texto passa a revelar no instante em que o trabalho começa. Alterando ligeira- mente uma frase de um sonho seu, diremos que para Freud pensar e escrever são como que uma coisa só. Na frase da carta ficam nítidos dois aspectos da escrita freudiana analisados por Patrick Mahony: sua tolerância à incerteza e sua auto-confiança diante do mistério dos fatos psicológicos^22. Um traço fortemente intuitivo se destaca do re- trato que fiz há pouco de Freud como um escritor de sonhos: ele quer prender aquilo que está prestes a surgir, concentra-se no instante em que o sonho é falado ou escrito para não deixar escapar nenhuma informação. Os erros e hesitações que incidem neste momento logo entram no relato, passam a fazer parte do sonho e abrem caminho para a revelação de seu sentido. O caráter impulsivo e repentino da anotação fica reforçado pelo tempo verbal do texto dos sonhos, o presente do indicativo. Mas essa escolha gramatical, que se aplica a praticamente todos os sonhos do livro, causa uma certa estranheza: é mais natural falar ou escrever um sonho no passado – e também mais correto, pois sempre há uma distância que separa o fato da recorda- ção. O sonho terminou, e somente mais tarde tentamos recordar o fato que já pertence ao passado. Mas, para um autor que cria espaço para idéias que surgem no momento da anotação e recompõe o con- teúdo do sonho durante a anotação, o tempo presente não se resume a uma opção de estilo. Ele é, na verdade, o limite de seu horizonte. Freud narra o sonho, que já passou, como se ele ainda não tivesse ter- minado, e faz desaparecer a distância entre o fato e a recordação que seria evidente caso ele empregasse o pretérito perfeito ou imperfeito. Mas o tempo presente não aparece somente nos textos dos sonhos, como é possível notar a partir dos exemplos que apresentamos: ele invade a composição de todo o livro, criando uma continuidade en- tre os relatos, interpretações, aproximações e esboços teóricos acerca do sonho. No segundo capítulo da Interpretação dos sonhos notamos que, em vez de escrever depois de elaborar a interpretação, ele avança rumo ao significado do sonho enquanto escreve:
“Mas desconfio ainda de um outro significado”; “ Agora me ocorre que nos últimos meses encontrei motivos para sus- peitar que essa senhora também fosse histérica”; “ Agora me lembro , imaginei muitas vezes a possibilidade de que esta senhora pudesse aceitar minha ajuda...”; “ Até este momento eu nunca havia pensado nisso ; agora me vem quase como uma vingança do destino”; “ Observo agora um dos deslizamen-
Artefilosofia, Ouro Preto, n.7, p. 111-129, out.
(^23) GW II/III 114; GW II/III 115; GW II/III 116; GW II/ III 117; GW II/III 123; GW II/III 120. Todos os destaques são meus. (^24) GW II/III 144; GW II/III 145; GW II/III 146; GW II/ III 176; GW II/III 176; GW II/III 181; GW II/III 181; GW II/III 445; GW II/III 459. Novamente, todos os destaques são meus.
André Carone
tos sobre os quais a ligação de idéias avança no sonho”; “Volto da flebite para minha esposa, e agora aparecem na mi- nha lembrança três situações parecidas, com minha mulher, com Irma e com a falecida Mathilde...”; “Como se fosse uma confirmação, agora me passa pela cabeça : será que o Dr. M. sabe que as manifestações de sua paciente se devem a uma histeria^23 ?” Seria de esperar que o papel da associação livre fosse destacado na análise do sonho central do livro, da qual foram retiradas todas estas citações. A ênfase concedida ao momento da associação, ao ins- tante em que o conteúdo latente do sonho começa a alcançar as palavras (e a consciência), poderia perfeitamente ser um instrumento de persuasão: não podemos esquecer aqui do empenho do autor para convencer seu público da eficiência do novo método. No entanto outras interpretações estão marcadas por intervenções do tempo pre- sente que nos fazem lembrar a interferência daquela repetição sobre o relato do sonho – eu me enfureço, então me enfureço : “ E então me ocorre uma outra conversa que tive há poucos dias com meu outro colega N.”; “ Agora sei também por que preciso desta figuração”; “ Mas agora um novo conte- údo começa a aparecer para mim”; “A este respeito me ocorre que na tarde do dia seguinte ao sonho (cuja interpretação alcancei somente à noite) pensei na cocaína, numa espécie de sonho diurno”; “ Noto de repente que meu sonho está ligado a um episódio da noite anterior”; “Mas vejam só: durante a análise sou lembrado de que o homem que in- terrompeu nossa conversa se chama Gärtner [jardineiro]”; “passado algum tempo eu lembro agora que uma de minhas pacientes...”; “ E então sou conduzido à fonte principal do Geseres..^24_._ ” Na anotação e na interpretação dos sonhos vemos a repetição de uma mesma postura. O caminho do texto do sonho está sempre por ser definido, e o caminho da interpretação é redefinido a cada novo passo, durante a análise e não antes dela. As associações que o momento da análise captura logo são integradas à interpretação. A marca deste percurso em ziguezague são as intervenções que surgem no texto de Freud, como “agora me lembro”, “agora me ocorre”, ou “e então, percebo que...” São trechos que alteram a todo instante o rumo da interpretação, mas trazidas com tanta naturalidade que avan- çamos na leitura sem notar que o autor refaz seu texto enquanto está escrevendo. Encontramos o contraponto a este contato direto com os fatos psicológicos nas passagens em que Freud assume o controle de seu texto e passa a trabalhar na síntese de informações, elaborando hipóteses e esboçando teorias que ele mesmo admite serem provisó- rias. Quando adere à reflexão, sua presença como autor fica atenuada, mas não chega a se apagar. Para ele, tão importante quanto o ato de escrever é o momento em que se escreve. A descrição preserva a referência ao instante mesmo quando o autor se afasta deste contato
(^28) GW II/III 29.
(^29) Muschg, Walter. “Freud als Schriftsteller”, em Die Zerstörung der deutschen Literatur, Berna, Francke, 1958, p. 334.
André Carone
tomar parte nela, mas como estou acalorado, vou antes refrescar-me no cemitério que cerca a Igreja. Enquanto leio algumas lápides, ouço os sineiros subirem a torre e vejo em seu topo os pequenos sinos que darão o sinal do início da prece. Por um instante eles pendem imóveis, então começam a balançar – e de repente suas badaladas ressoam fortes e penetrantes – tão fortes e penetrantes que põem um fim ao meu sono. Porém o som dos sinos vem do despertador^28 ”. A narração de Hildebrandt tem a leveza e a graça de uma fanta- sia ou de uma revêrie. Ele utiliza o tempo presente, mas escreve com a intenção de contar uma história, e por isso transporta o conteúdo do sonho para uma atmosfera de lirismo em que aparecem “campos ver- dejantes”, “moradores em trajes festivos” e sinos que “pendem imó- veis”. A substituição dos sinos pelo barulho do despertador orienta toda a sua descrição e esgota o significado do sonho. O som dos sinos é o único elemento do sonho que encobre alguma outra coisa: a explicação do sonho se encerra nesta cena final. As imagens oníri- cas não estão escondendo outras idéias ou lembranças que precisam ser recuperadas. Hildebrandt narra uma história que não precisa ser explicada, enquanto Freud amplia a distância entre sonho manifesto e sonho latente, inserindo em seu texto hesitações e lacunas que um outro sonhador poderia considerar irrelevante. A atenção que Freud concede ao detalhe é tão intensa que o sentido aparente de um sonho passa a ocupar um papel secundário na descrição. O es- quecimento do sonho traz prejuízo suficiente para a interpretação, e por isso Freud não seleciona imagens ou palavras, registrando tudo o que sua lembrança ainda é capaz de alcançar, sem preocupar-se com a harmonia do conjunto. No “sonho revolucionário” ele precisa escolher entre as cidades de “Krems ou Znaim”, mas depois escolhe “Graz ou algo parecido”. No sonho de Hildebrandt, por outro lado, não encontramos trechos indistintos ou confusos, mas é bem possível que ali aparecessem um ou dois sinos, partituras de canto ou panfl etos de comércio; talvez enquanto redigia o seu sonho, ele repetisse ou trocasse palavras, mas, ao contrário de Freud, eliminasse estas passagens por não ter encontrado nelas nenhum interesse. A fluência elegante de seu texto indica que, ao contrário de Freud, ele não o anotou às pres- sas, logo depois de acordar. Mas não faria qualquer sentido dizer que o encadeamento harmônico e a suavidade do texto de Hildebrandt mascaram o sonho real: sua anotação é despreocupada e amena por- que para ele o sonho não esconde um significado oculto. A separação entre latente e manifesto está fora de seu horizonte. O despojamento e a dureza dos sonhos escritos por Freud apontam evidentemente uma outra direção. Ao expor todas as suas lacunas, ele apresenta ao leitor um texto precário e incompleto que demanda uma interpretação. A distância entre sonho manifesto e la- tente começa a aparecer no relato do sonho, um texto “enxuto e audacioso, notado como um estenograma, almejando a mais elevada precisão^29 ”, na observação igualmente precisa de Walter Muschg. A
(^30) GW II/III 103. (^31) Entenda-se aqui o termo “interpretação” de um modo muito abrangente, que incorpora também a reflexão metapsicológica que Freud constrói em seu livro sobre o sonho. Embora possa ser considerado “metapsicológico”, o capítulo final do livro está muito distante de ser um tratado geral de psicologia; por outro lado, a chamada reflexão metapsicológica começa a ser desenhada bem antes deste capítulo final e por vezes se apresenta ao término de uma extensa interpretação de sonho. Ver, por exemplo, GW II/III
revelação das lacunas inicia o movimento da interpretação, que avan- ça na medida em que for possível extrair novos materiais e novos sentidos a partir deste material manifesto. Como sabemos, o sentido do sonho se revela a partir da análise isolada de seus elementos. O primeiro passo da interpretação consiste na decomposição. O sonho escrito por Freud é “um conglomerado em que cada pedaço de pe- dra requer uma determinação especial^30 ”. E assim o besouro-de-maio do sonho de uma paciente nos remete ao mês de maio , em que ela nasceu e também se casou; no sonho “O amigo R. é meu tio”, a bar- ba amarela de R. é a superposição de um tio de barba amarela, que cometeu um delito, e do amigo R., uma pessoa de bem. O homem do sonho é uma massa de fragmentos: a barba amarela do tio, um rosto de feições alteradas e o nome R. se acumulam, criando uma unidade que é apenas uma aparência a ser desmanchada pelo traba- lho de interpretação. Para Freud, a leitura de um sonho deve ser a leitura de seus elementos, e não de seu sentido aparente. A presença de um “porque” ou de um “portanto” no texto do sonho manifesto não é a prova de que o sonho já traz uma explicação, pois todas as palavras são elementos do sonho: o rapaz que sonha que “ seu pai o ofende porque ele [o filho] chegou muito tarde em casa” estaria enganado por acreditar que a cena tão clara de seu sonho não exige uma expli- cação. Na verdade, ela encobre uma outra cena do passado, em que o rapaz “fica bravo com o pai porque ele [o pai] saiu muito cedo de casa”. Toda a cena foi invertida no sonho manifesto, e o “porque” que aparentemente explicava a cena do sonho na verdade encobria a sua deformação. Esse exemplo breve dá a medida do compromisso de Freud com a palavra escrita: o raciocínio do sonho é um material para a interpretação do sonho e representa ou substitui algum outro elemento. A nitidez das explicações que aparecem em nossos sonhos é falsa, e para ultrapassar a aparência o escritor de sonhos deve saber reproduzir sua fachada e apontar o que existe para além dela. Mas o que justifica afinal a estranheza do relato? Até este mo- mento nós o descrevemos e indicamos de que maneira um de seus traços elementares – o uso do presente do indicativo – infiltra-se no trabalho de interpretação. Se nos ativermos ao plano da forma, pode- mos justificá-la satisfatoriamente pela estrita adesão à perspectiva do sonhador: o relato não lida com o significado do sonho (ao contrário do que se observa, por exemplo, no sonho de Hildebrandt), e sua estranheza é atenuada no livro pelo movimento alternado de relato e interpretação^31. O relato está submetido a um limite na medida em que não se confunde com a explicação do sonho, e uma investigação isolada de seus aspectos formais, como esta que realizamos, não escapa a limites muito parecidos. Para compreender o sentido e a utilidade desta forma do relato, vamos recuperar a descrição do sonho mencio- nada há pouco, que o define como um “conglomerado” constituído por elementos que devem ser investigados separadamente. Ora, as nar- rações secas e por vezes francamente desconexas do sonho valorizam os elementos isolados em prejuízo do conjunto, preparando assim o caminho para o tipo de interpretação que Freud pretende realizar: o
Artefilosofia, Ouro Preto, n.7, p. 111-129, out.
(^34) O leitor familiarizado com A interpretação dos sonhos não irá se esquecer da recorrência da duplicidade em certos sonhos de Freud – como a cena em que “pede-se para fechar o(s) olho (s)” ou o sonho “Geseres-Ungeseres”. Há outras duplicações de palavras neste sonho revolucionário, sendo que a mais importante não foi reproduzida em minha tradução. O sonhador diz: “eu me enfureço” (“Ich fahre auf ”) e, mais adiante: “vou em um cabriolé” (“Ich fahre auf einen Einspänner”). No texto do sonho há um encontro literal entre “ir” ou “viajar” para algum lugar (“ fahren auf ”) e “enfurecer- se” (“ auf fahren ”). E ainda: no final do texto, o sonhador acredita que o condutor os deixará passar “desapercebidos” (“un auffäl ig”), depois de notar que tem na lapela uma violeta que “impressiona” (“ auffäll t”) as pessoas.
inteligível. Ao menos um aspecto ele tem em comum com o sonho de Hildebrandt que lemos há pouco: nos dois textos, nenhum elemento se descola do conjunto. Mas a análise desmembra sua unidade e torna visíveis as lacunas. A monografia sobre uma certa planta conduz Freud à flor predileta de sua esposa, à monografia que ele escreveu sobre uma plan- ta – a planta da coca – e à sua predileção por monografias na juventude; essa imagem o remete ainda a uma cena da infância em que ele e a irmã desfolham um livro dado de presente pelo pai. Todas essas recorda- ções se comprimem na primeira das três frases do sonho: “Escrevi uma monografia sobre uma certa planta”. A sobreposição dos conteúdos é tão exata que não levanta suspeita. A compressão de lembranças recentes e antigas não deixa buracos, transformando o sonho em uma fachada lisa e ordenada que não nos faz imaginar o que haveria do lado de dentro. No caso do “sonho revolucionário”, que ocupa um espaço muitíssimo maior, as proporções são bem diferentes. As cenas parecem descoladas umas das outras; as ações transcorrem espaços diferentes. Ao contrário do sonho da monografia botânica, suas lacunas são quase palpáveis. No texto encontramos várias alternativas, como se duas palavras ocupas- sem uma única vaga: “Thun ou Taafe”, “indico ou digo [à zeladora]”, “Krems ou Znaim”, “Graz ou algo parecido”, “[um vidro para urinar] que tivemos que comprar ou compramos na cidade”. Apesar de in- voluntária, a repetição que comentei em outras passagens – “eu me enfureço, então me enfureço” – está próxima de uma série de outras repetições: o conde “coloca na lapela um papel retalhado”, e o so- nhador depois traz “na lapela uma coisa cumprida com um trançado particular”; há “móveis de uma cor entre marrom e roxo ” e “uma violeta marrom ou roxa ”; na segunda cena, os acessos do átrio estão “ocupados”, e na terceira as estações também estão “ocupadas” [ besetzt ]. O sonho traz ainda algumas duplicações: “Multidão de pessoas, reunião de estu- dantes” [ Menschenmenge, Studentenversammlung : duas palavras compostas que são tratadas como sinônimos no texto do sonho^34 ]. O sonho pare- ce articular-se como se não fosse possível encontrar um termo comum para a cena da estação de trem, vivida no dia anterior ao sonho, e uma cena de sua vida de estudante. No entanto, o sonho manifesto não cristaliza uma imagem única, e o passado e o presente se chocam nas imagens do sonho, criando uma duplicidade. Se no sonho da mono- grafia botânica os espaços abertos eram criados pela interpretação, aqui eles podem ser vistos diretamente.Tudo se passa como se a consciência fosse uma lente fotográfica exposta a um excesso de luz e perdesse seu foco. No entanto, em vez de registrar imagens sem nitidez, ela registra várias imagens que ocupam o mesmo lugar – um móvel marrom ou roxo, um conde que se chama Thun ou Taffe. Ao contrário do sonho da monografia botânica, todos os pontos luminosos estão dispersos. Essa abertura gramatical para o registro de nomes ou ações alternativas coincide com uma abertura do autor para o conteúdo de seu sonho. Pelo relaxamento da escrita automática, disposta a registrar tudo, ele tenta recriar o fluxo contínuo e a ausência de controle presentes no sonho real. A despeito de todas as suas incongruências, o “sonho revo- lucionário” mostra claramente que o texto dos sonhos concentra-se
Artefilosofia, Ouro Preto, n.7, p. 111-129, out.
(^35) GW II/III 540. “Das Präsens ist die Zeitform, in welcher der Wunsch als erfüllt dargestellt wird”.
André Carone
no instante da redação, não se rende ao processo secundário. Mesmo sem referir-se em nota aos contra-sensos e ambigüidades do texto ma- nifesto, Freud o segue contando sem preocupar-se com a ligação de suas partes, registrando no tempo presente o sonho tal como ele lhe aparece. A contradição e a incongruência servem, como vimos, como contraponto ao gesto de explicação e interpretação. Mas não nos esqueçamos da convicção com que Freud nos apre- senta o sonho como a realização de um desejo. Por que nos surpre- enderia então que o texto destes sonhos seja desinibido ou mesmo ilógico, ou que ele possa, com aparente naturalidade, reunir elementos e contextos tão disparatados numa mesma cena? Não seria legítimo su- por que a incongruência do relato torna evidente a incongruência do próprio desejo? A primeira pista para uma resposta encontra-se, talvez, na ligação que Freud reconhece entre a realização de desejo e o tempo presente quando afirma, já no sétimo capítulo:“O presente do indicati- vo é o tempo verbal em que o desejo se apresenta como realizado^35 ”. Se no plano geral A interpretação dos sonhos explora os diferentes perfis do fenômeno onírico e parte de uma avaliação de textos cien- tífi cos que tratam dos sonhos rumo a um crescente grau de abstração, no plano particular o livro em momento algum se desvencilha de seu objeto primeiro – o sonho. Desde a abertura até o capítulo final um trabalho constante de narração, decomposição e decifração de sonhos se repete. O relato do sonho representa o primeiro movimento deste trabalho, precedido em certas ocasiões por um breve relato prelimi- nar e sempre sucedido por uma interpretação de extensão e profun- didade inconstantes que lança alguma luz sobre um aspecto definido do universo do sonho. O cenário da investigação é constantemente submetido a alterações: conforme o tópico selecionado, estas inter- pretações podem ilustrar a realização do desejo; a presença de restos diurnos ou recordações de infância; as interferências somáticas ou a presença de estímulos externos; o simbolismo; os mecanismos de condensação, deslocamento ou elaboração secundária. Embora des- pontem associados a uma rubrica determinada, os sonhos arrastam na sua sombra traços de tópicos anteriores, e não surpreende que em seu longo percurso o livro não retome somente abordagens e formu- lações teóricas como também diversas interpretações de sonhos: ao mesmo tempo que alça vôo rumo à especulação, Freud permanece ancorado à sua matéria-prima. Como se advertisse o leitor para o inacabamento de sua pesquisa, ele reinterpreta alguns entre seus prin- cipais sonhos à medida que a investigação avança. É o que se passa com o sonho da injeção em Irma, o “sonho da monografia botânica” e o “sonho revolucionário” (inspirado pelo encontro com o Conde Thun), com os sonhos “R. é meu tio” e “ non vixit ”, além do “sonho da guilhotina”, de Maury. Este movimento nos revela um autor que não dissocia a preocupação (científica) de comunicar um estado de coisas da preocupação (narrativa) de expressar um estado de alma – um traço que pode ser iluminado pelo exame de sua prosa científica e denuncia a presença do escritor Freud na raiz de sua obra.