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FALTA ÁGUA NO PLANETA TERRA A mudança climática global agora é o grande inimigo do recurso mais precioso para a humanidade. E, apesar do esforço global, a situação ainda é grave ANDRÉA ZENÓBIO GUNNENG De Oslo, Noruega Qual é a consequência mais malé- fica da mudança climática global? A elevação do nível do mar, que colo- cará em risco de 20 a 30 milhões de pessoas dentro do cenário previsto de aumento de dois graus centígra- dos da temperatura média global, ou 5o milhões para o cenário de três graus centígrados? Ou, ainda, a fo- me, que afetará 40 milhões se a tem- peratura subir dois graus centígra- dos, ou 80 milhões se o aumento al- cançar três? Isso sem contar tam- bém aqueles que apontam a disse- minação da malária, com 200 ou 300 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco, de contrair a doença para os cenários de dois e três graus centígrados, respectivamente. Porém, na realidade, nem se so- marmos todos esses dados chegare- mos perto do número de seres hu- manos que sofrerão com os efeitos da mudança climática sobre os re- cursos hídricos. De acordo com o diretor científico do Centro Internacional de Pesquisa Climática e de Meio Ambiente da Universidade de Oslo, Noruega, Knut Alfsen, a consequência mais maléfica da mudança climática global será a falta d'água. Se a temperatura média global aumentar dois graus centígra- dos, dois bilhões de pessoas viverão em áreas com estresse hídrico. Se chegar a três graus, o número chega- rá a 3,5 bilhões de seres humanos. Só na America Latina, a previsão para as áreas com falta d'água deverá atingir de 37 a 66 milhões de pessoas em 2020. No mundo, o número de ví- timas do crescente estresse hídrico será entre 0,4 bilhão e 1,7 bilhão até 2020, entre um e dois bilhões em 2050, e entre 1,1 bilhão e 3,2 bilhões em 2080, sendo a variação de núme- ros atribuída aos diferentes cenários considerados pelo Painel Intergover- namental sobre Mudanças Climáti- cas (em inglês, IPCC). Knut Alfsen alerta: “Juntamente com a falta de água vêm a falência agrícola, a fome, os incêndios flores- tais, as doenças, as crises econômicas, os conflitos políticos, as guerras...”. Is- so porque clima, recursos hídricos, contextos socioeconômicos e ecossis- temas biofísicos estão essencialmen- te interligados. Uma alteração em qualquer um destes elementos pode induzir uma mudança em qualquer outro. Atualmente, observações científi- cas e projeções climáticas oferecem E É E Eb Pon ET TUE SE E nana a Neo « ADD E ieAgiçe aa Co” q 4“ ' x o o ER É Eis E ê Je e k E é x nes * F 4 = "Uma criança morre a cada 19 segundos no planeta, vítima de consequências causadas pela falta de saneamento. E mais de um hão de pessoas não pos- suem acesso à água doce no mundo, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No Brasil, 25% não têm acesso a saneamento adequado" provas abundantes e inquestionáveis de que os estoques de água doce es- tão ainda mais vulneráveis e serão fortemente impactados pela mudan- ça climática global, com amplas con- sequências para as sociedades huma- nas e os ecossistemas. Os desafios relacionados à água do- ce são: ter muita água, ter muito pou- ca água, e ter muita poluição. Cada um destes problemas deverá ser exa- cerbado pelas alterações climáticas. Entender o que está acontecendo com os recursos hídricos e prever mudan- cas futuras é essencial para determi- nar as principais vulnerabilidades re- gionais e setoriais e então poder pla- nejar estratégias eficazes de mitiga- ção e adaptação às mudanças climá- ticas. Esse é o recado que a comunidade científica internacional enviou a to- da a humanidade durante as celebra- ções do Dia Mundial da Água. Atendendo a essa mensagem, a JB Ecológico publica aqui, com exclusi- vidade, as principais análises e previ- sões do relatório "Mudança Climática e Água", do IPCC, que trata especifica- mente dos impactos da mudança cli- mática sobre os estoques de água do- ce através do século XXI, “embora re- conhecendo que, mesmo se as con- centrações de gases de efeito estufa fossem estabilizadas hoje, o aqueci- mento e aumento do nível do mar continuariam durante séculos". do 140 milhões de pessoas por ano em média. Em Bangladesh, durante o dilúvio de 1998, cerca de 70% de seu território foi inundado. € Globalmente, o número de grandes catástrofes de inundações fluviais durante o período de 1996-2005 é duas vezes maior, por década, do que entre 1950 e 1980, enquanto as perdas econômicas relacionadas é cinco ve- zes maior. Os principais fatores apon- tados como responsável pela crescen- te tendência de prejuízos causados por inundações são elementos so- cioeconômicos, como o desenvolvi- mento econômico, o aumento da po- pulação e da riqueza concentrada nas zonas vulneráveis, e mudanças no uso da terra. e Entretanto, já que as dramáticas inundações têm crescido mais rapi- damente do que a população ou o de- senvolvimento econômico, outros fa- tores devem ser considerados, in- cluindo as mudanças climáticas. As evidências científicas indicam uma aceleração do ciclo da água. A fre- quência de pesadas trombas d'água tem aumentado de forma compatível com ambos o aquecimento e o au- mento de vapor d'água atmosférico observados. POUCA ÁGUA € Globalmente, as áreas classificadas como muito secas, mais do que dupli- caram desde a década de 1970, espe- cialmente nos trópicos e subtrópicos. A diminuição das chuvas e o aumen- to das temperaturas, que favorecem a vaporização e redução da umidade do solo, são fatores importantes que contribuíram para mais regiões esta- rem experimentando secas. 6 As principais bacias hidrográficas do mundo que já sofrem com falta de água estão localizadas no Norte da África, na região do Mediterrâneo, no Oriente Médio, no Oriente Próximo (região da Ásia próxima ao Mar Me- diterrâneo, a Oeste do Rio Eufrates, incluindo Síria, Líbano, Israel, Palesti- na e Iraque), no Sul da Ásia, no Norte da China, na Austrália, nos EUA, no México, no Nordeste do Brasil e na costa Oeste da América do Sul. As es- timativas para as populações que vi- vem nessas bacias variam entre 1,4 bilhão e 2,1 bilhões. € Na maioria dos países, à exceção de alguns industrializados, a utilização de água tem aumentado nas últimas décadas devido ao crescimento popu- lacional, ao desenvolvimento econô- mico, às mudanças no estilo de vida e à expansão dos sistemas de abasteci- mento de água, sendo de longe o uso de água para irrigação a mais impor- tante causa. A irrigação é responsável por cerca de 70% do'total de água bombeada em todo o mundo, geran- do cerca de 40% do total da produção A DIMINUIÇÃO das bacias hidrográficas poderá afetar até 2,1 bilhões de pessoas agrícola. A área global irrigada au- mentou linearmente desde 1960, a uma taxa de cerca de 2% ao ano, de 140 milhões de hectares em 1961/63, para 270 milhões de hectares em 1997/99, representando hoje cerca de 18% do total de terras cultivadas. € Segundo projeções da FAO (Organi- zação das Nações Unidas para Agri- cultura e Alimentação), os países em desenvolvimento, com 75% da área ir- rigada mundialmente, são suscepti- veis de expandir suas áreas irrigadas em 0,6% por ano até 2030. A maior parte da expansão é projetada para ocorrer em áreas que já sofrem com falta d'água como o Sul da Ásia, Nor- te da China, o Próximo Oriente e Nor- te da África. = Cs E A E o o ? GEE cg Dag O RT E ra a é E ME a - pe p. EN cg a GELEIRAS derretem, & formando novos rios e aumentando o nível de água do oceano REINHARD KRAUSE/REUTERS. O QUE ESTÁ POR VIR aumento da intensidade e va- 0 das chuvas será responsável pelo aumento de riscos de inundação e seca em muitas áreas. A frequência de pancadas de chuvas aumentará na maioria das áreas do planeta durante o século XXI, agravando o risco de inundações. Ao mesmo tempo, a proporção da superfi- cie terrestre em seca extrema aumen- tará também, aliada a uma tendência para secas no interior dos continentes durante o verão, especialmente nos sub-trópicos, e em latitudes médias e baixas. € Em meados do século XXI, a taxa EREPTRE i - je Equidiáico e MARÇO DEU - ses anual média de vazão dos rios e dispo- núbilidade hídrica aumentarão em al- tas latitudes e em algumas áreas tropi- cal-úmidas, e diminuirão nas regiões secas localizadas em médias latitudes e nos trópicos secos. Muitas áreas se- mi-áridas e áridas, como a bacia hidro- gráfica Mediterrânea, a parte ociden- tal dos EUA, a região Sul da África e o Nordeste do Brasil estão particular- mente expostas aos impactos da mu- dança climática, com consequente di- minuição dos recursos hídricos. O Os estoques de água armazenados nas geleiras e em coberturas de neve irão diminuir no decorrer do século XXI, reduzindo assim a disponibilida- de hídrica durante períodos quentes e secos em regiões que são abastecidas por água derretida das grandes ca- deias montanhosas, onde mais de um sexto da população mundial vive atualmente. Nos Andes, por exemplo, o derretimento das geleiras fornece água para sustentar a correnteza dos rios e para o abastecimento de água de dezenas de milhões de pessoas duran- te longos períodos secos. Muitas pe- quenas geleiras na Bolívia, Equador e Peru desaparecerão dentro das próxi- mas décadas. O abastecimento de água será comprometido em áreas ali- Pa aa IL na rota das muda: climáticas: o estado de Sa Catarina foi afetado pel; chuvas no ano passado O SOFRIMENTO HÍDRICO DA AMÉRICA LATINA A população latino-americana con- tinua crescendo, demandando mais alimentos de um continente que tem a maioria de sua economia dependen- te da produtividade agrícola. Ou seja, qualquer variação regional nas colhei- tas é uma questão extremamente rele- vante e até de sobrevivência para mui- tos. Mas as mudanças nos recursos hí- dricos já se fazem presentes, com con- sequências econômicas, sociais e am- bientais em todo o continente da América Latina. ÁGUA € A ocorrência de desastres relaciona- dos com as mudanças climáticas (seca, ciclones, furacões, pancadas de chuva, inundações) aumentaram 2,4 vezes entre os períodos de 1970-1990 e 2000- 2005, continuando uma tendência ob- servada nos anos 90. Somente 19% dos eventos entre 2000 e 2005 foram quantificados economicamente, re- presentando uma perda de cerca de US$ 20 bilhões. O Aumento de chuvas foram observa- das no Sul do Brasil, Paraguai, Uru- guai, Nordeste da Argentina (Pampas), partes da Bolívia, Noroeste do Peru, Equador e Noroeste do México. O maior volume de chuvas provocou um aumento de 10% da frequência de inundações no Rio Amazonas; um au- mento de 50% do fluxo dos rios no Uruguai, Paraná e Paraguai; e mais inundações na Bacia do Mamoré na Amazônia boliviana. O Um aumento do número de chuvas intensas e de dias secos consecutivos também foram observados ao longo da região latino-americana. Inversa- mente, uma tendência decrescente de chuva foi observada no Chile, Sudoes- te da Argentina, no Nordeste do Brasil, Sul do Peru e Oeste da América Central (por exemplo, Nicarágua). ENERGIA € A hidrelétrica é a principal fonte de energia elétrica para a maioria dos países da América Latina, e total- mente vulnerável às persistentes anomalias e em grande escala no re- gime de chuvas devido ao El Nifio e La Nifia, como é observado na Ar- gentina, Colômbia, Brasil, Chile, Pe- ru, Uruguai e Venezuela. € A combinação de aumento da de- manda de energia e de secas provocou. uma inoperância das hidrelétricas na maior parte do Brasil em 2001, contri- buindo para uma redução no PIB. € O encolhimento de geleiras já está afetando a geração hidroelétrica, co- mo observado nas cidades de La Paz (Bolívia) e Lima (Peru) e na Colômbia. Em toda a América Latina as geleiras têm diminuído nas últimas décadas com efeitos potenciais para a geração de energia hidrelétrica; muitas peque- nas geleiras já desapareceram. SAÚDE € Eventos meteorológicos extremos relacionados à mudança climática têm provocado efeitos adversos no quadro de saúde pública na América Latina. As secas têm favorecido epide- mias na Colômbia e Guiana, enquanto inundações têm gerado epidemias na região seca do litoral Norte do Peru. O Cerca de 262 milhões de pessoas, re- presentando 31% da população latino- americana, vivem em áreas de risco de malária (ou seja, tropical e sub-regiões tropicais). Baseado em cenários so- cioeconômicos e de emissões de gases de efeito estufa, algumas análises in- dicam a diminuição da duração do pe- ríodo de transmissão da malária em áreas onde está prevista a diminuição do volume de chuvas, como na Amazô- nia e América Central. O Os resultados reportam ainda um número adicional de pessoas em risco de contrair malária nas áreas em tor- no do limite sul de distribuição da doença na América do Sul. Nicarágua e Bolívia apresentarão um possível au- mento na incidência de malária em 2010, com variações sazonais. € Outros cenários preveem um au- mento substancial no número de pes- A ALTA precipitação de chuvas favorecerá o plantio de culturas como a soja soas em risco de dengue devido às mu- danças nos limites geográficos de transmissão no México, Brasil, Peru e Equador. e Alguns modelos preveem mudan- ças na distribuição espacial (disper- são) do vetor da leishmaniose no Peru, Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia, bem como a distribuição men- sal do vetor da dengue. € Anuais variações de dengue e febre hemorrágica da dengue em Honduras e Nicarágua parecem estar relaciona- das às flutuações na densidade de ve- tores relacionadas às mudanças cli- máticas (temperatura, umidade, ra- diação solar e precipitação). O Em algumas zonas costeiras do Gol- fo do México, um aumento da tempe- ratura de superfície do mar e de preci- pitação tem sido associado ao aumen- to de ciclos de transmissão da dengue. O Inundações têm produzido surtos de leptospirose no Brasil, particular- mente em áreas densamente povoa- das sem drenagem adequada. A distri- INAE RIVERAS/REUTERS. está provavelmente ligada a fatores climáticos. e No que diz respeito às doenças transmitidas por roedores, há indí- cios de aumento de surtos observa- dos durante e após fortes chuvas e inundações por causa de padrões al- terados de contato entre homem-pa- tógeno-roedores. AGRICULTURA € Como resultado da alta precipitação e umidade causada pelo El Nifio, vá- rias doenças fúngicas na cultura do milho, batata, trigo e feijão têm sido observadas no Peru. e Alguns impactos positivos são re- portados para a região dos Pampas ar- gentinos, onde o aumento de chuva le- vou a uma maior produtividade nas colheitas: 38% nos campos de soja, 18% nos de milho, 13% nos de trigo, e 12% nos de girassol. Da mesma forma, a produtividade de pastagem aumentou buição da esquistossomose também — 7% na Argentina e no Uruguai. Ee E E po TER E: me USER CG ah : E 56, anca DE 208 e Te Hrotóico 4 BT do Pa ES E e É q * % É o a V nd VOCÊ SABIA QUE... € O mecanismo da sensação de sede é tão fraco que, com frequência, 37% dos seres humanos a confunde com a fome? € Uma desidratação imperceptível retardará o metabolis- mo em aproximadamente 3%? € Um copo de água aliviará a fome à meia-noite, em quase 100% dos casos, sob dieta redutora, segundo um estudo realizado na Universidade de Washington (EUA)? € Uma redução de somente 2% de água no corpo pode causar perda momentânea de memória, dificuldade em fazer contas matemáticas básicas e problemas de focar a visão sobre uma tela de computador ou sobre uma página impressa? € Beber um mínimo de oito copos de água por dia diminui o risco de câncer de cólon em 45%, além de baixar o risco de câncer de mama em 79% e reduzir à metade a proba- bilidade de se desenvolver câncer na bexiga? € De acordo com especialistas, a água é importantísima para o funcionamento do cérebro? e se estamos estressados, devemos aumentar a quanti- dade para 16 copos de água por dia? € 90% do volume de nosso cérebro é composto por água, que é o principal veículo das transmissões eletroguímicas? O Estudos preliminares indicam que, em 80% das pessoas, beber de 8 a 10 copos de água por dia, pode aliviar signi- ficativamente muitas indisp: es? € As pessoas normalmente NÃO bebem a quantidade necessária por dia para não ter que urinar seguidamente. Sabia que este é um inconveniente menor em troca de uma melhoria em sua saúde? O A água elimina os antiácidos e cura a acidez estomacal; previne e pode ajudar na cura da artrite, enxaqueca, colite (falta de água no intestino grosso), pressão alta, colesterol, diabetes e asma? € Há 2.000 anos, a população mundial correspondia a 3% da população atual, enquanto o volume de água per- manece o mesmo hoje? O A partir de 1950, o consumo de água, em todo o mundo, triplicou. E que o consumo médio por habitante foi amplia- do em cerca de 50%? O A água engarrafada ou de fontes naturais é a melhor? € O homem pode passar até 28 dias sem comer, mas ape- nas três dias sem água? € O gotejamento de uma torneira chega a um desperdício de 46 litros por dia? Isto é, 1.380 litros por mês. Ou seja, mais de um metro cúbico por mês, o que significa uma conta mais alta. O Existe diferença entre água e recurso hídrico? Sim! Água é a substância química formada por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. E recurso hídrico é essa mesma água que se encontra nos rios, reservatórios e oceanos e tem um uso associado, agregando valor econômico. e O Brasil é o país mais rico em água doce do planeta? Nada menos que 13,7 % de toda água do mundo está aqui. € 70% das internações hospitalares no Brasil são causadas por doenças relacionadas à água? € Em todo o mundo, cerca de 10 milhões de mortes anuais resultam de doenças intestinais transmitidas pela-água? O Cada minuto de banho gasta de três a seis litros de água? O Você economiza 70 litros de água se fechar a torneira enquanto ensaboa a louça? O O índice de desperdício de água no Brasil chega a 40% entre a produção e os domicílios? Fonte: Cetesb/São Paulo - WWF Brasil SA apro SA ad à pdaão pe odor eco