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tese de Haylton Farias.
Tipologia: Teses (TCC)
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publicado por Haylton Farias
Existem muitas maneiras de encarar o fenômeno do alcoolismo, seja do ponto de vista médico, psiquiátrico, psicológico, econômico, social, de saúde pública e muitos outros. Quero abordar aqui, neste breve artigo, o ponto de vista comportamental da dependência em relação a qualquer objeto, seja uma substância química ou não - e, mais especificamente, do álcool. Fala-se muito do alcoolismo como uma doença, inclusive hereditária e genética, mas não podemos deixar de ressaltar que o alcoolismo como doença só passa a ser assim considerado quando há a dependência. Até este ponto, a prática de beber álcool não é considerada doença e é vista pelos médicos e certas áreas da ciência, dentro de uma certa medida ou dose, como uma prática saudável para o organismo.
Da “doença” dependência não se fala. Fala-se da dependência “química”, como se a questão estivesse na química e não na relação emocional de dependência, embora possamos ficar dependentes de jogo de cartas, de corrida de cavalo, de novelas, trabalho ou qualquer outro objeto com química ou não que elejamos para representar, re-apresentar, uma situação de dependência emocional familiar.
Embora, ao se atingir o estágio de dependência do álcool, o acúmulo de substancias químicas depositadas na corrente sanguínea seja bastante elevado e faça com que o adito necessite de cada vez mais e mais da droga, a dependência só se instala depois de um bom tempo de uso, onde o sujeito aprende o hábito de beber.
O tabaco e o álcool talvez sejam as drogas mais deletérias à saúde por essa característica de deposição química no organismo, diferentemente de outras drogas e, paradoxalmente, são as drogas consideradas lícitas e aceitas pela sociedade. É considerado um ato de sociabilidade se encontrar para beber e fumar.
Do meu ponto de vista o comportamento dependente do adito em drogas, no caso o álcool, é sempre o sintoma de uma relação de dependência emocional familiar.
A Palavra dependência vem do radical “pender”, de-pender, ficar pendurado. Para que se dependure, é preciso que haja um gancho, um suporte. Alguém que o suporte, que lhe dê suporte. O alcoólatra é dependente da família, assim como a família também é dependente dele, numa via de mão dupla.
Como paciente identificado, bode expiatório, ele pode, com seu problema, encobrir muitos outros problemas de relacionamento entre os familiares, como por exemplo a disputa de poder entre a linhagem materna e paterna na orientação da família. A depressão de um ente parental pode até mesmo tornar-se um elemento aglutinador da família em torno de seu problema.
Daí a incidência de recaídas incompreensíveis no âmbito pessoal do alcoólatra, mas muitas vezes promovidas pela própria família, que não suporta seus problemas, mas que é capaz de suportar o alcoólatra, e que, numa missão até sublime, se colocam como mártires.
A dependência aqui é compreendida como o estado de relação emocional e literal em que a criança necessita de um adulto para cuidar de sua saúde, higiene e preservação. Ou que um adulto, para escapar de seus problemas, vai cuidar de um outro. Muitas mães são dependentes de seus filhos e não sabem. Muitos filhos dão problemas às suas mães para que elas se perpetuem nessa função materna e não tenham que encarar novos ciclos de vida.
Nós seres humanos, ao nascer, somos totalmente dependentes dos cuidados de um adulto e é esse "cuidar de si mesmos" que nós ensinamos aos nossos filhos no processo educativo de se tornar adulto e independente, um projeto auto sustentável capaz de cuidar de outras crianças, na constituição de suas próprias famílias.
A compreensão do alcoolismo como doença hereditária ou genética, muito aceita atualmente, exime o alcoólatra da responsabilidade de cuidar de si mesmo ou de sua “doença”, de ser o responsável pelo ato de beber. Esta visão parece sugerir que a bebida vem ao adito por conta própria e entra em seu corpo apesar de seu desejo de não bebe. Assim, a responsabilidade fica colocada na doença, como coisa independente, ou na idéia de vício; como se o vício o possuísse e não ele que possuísse o vício. Se sei que passo mal quando como feijão, para que como? E se como, que eu seja responsável pelas conseqüências de minha escolha.
Por ser uma droga aceita pela sociedade, suas conseqüências vão aparecer tardiamente e a sua prática começar precocemente, geralmente na adolescência, e hoje em dia cada vez mais cedo, como ritual de passagem da vida infantil para a vida adulta, como prática de socialização, inclusão grupal e coletiva, meio de desinibição e potência, paradoxalmente mantendo o sujeito na condição de dependência infantil. O alcoólatra gosta de ficar “mamado”, “naquelas águas”.
Ainda do meu ponto de vista, a dependência do álcool é a tentativa de resolver problemas emocionais, como a dor psíquica da solidão, separação, angústia ou ansiedade, por meio de uma dissolução do ego (eu) numa “solução"
aquosa, líquida, reeditando a emoção de uma nostalgia do estado primevo intra-uterino, onde tudo, desde fome, frio, medo... era resolvido por um ente maior a quem ele estava totalmente ligado e dependente: A Mãe.
É a reedição de um estado de total dependência, atualizada na relação de dependência com o álcool como droga de eleição. O alcoólatra sempre precisa de alguém que cuide dele: esposa, pais, filhos, médicos, terapeutas ou a própria sociedade através de seus sistemas de saúde, pois o alcoólatra apresenta muitos problemas colaterais, como úlceras, ataques cardíacos, quebra de membros e tantos outros que os hospitais públicos têm que tratar.
Como diz um amigo meu “Quem bebe, tem problemas de bebê ”. Tendo nascido, o ser humano obtém condições para sua sobrevivência a partir de um esforço próprio como o choro advindo de uma dor de fome, frio, solidão ou separação. A dor é a sensação de que estamos vivos e é preciso suportá-la para viver. O alcoólatra quer “a morte ser”, amortecer, tecer a morte em álcool.
Tendo nascido, o ser humano experimenta a dor da luz, do som, do tato, da fome, da separação, enfim, da individuação, separação da mãe como entidade provedora. É preciso “botar a boca no mundo”, por conta própria para garantir a sobrevivência.
Talvez seja essa a dor que o alcoólatra procura dissolver em álcool, a Solutio, fazendo um retorno à “Prima Matéria”.
A Solutio, pertence à água, assim como o Calcinatio pertence ao fogo, a Coagulatio ao elemento terra e a Sublimatio ao elemento ar. Basicamente a Solutio transforma sólido em líquido.
"Essa imagem espantosa expressa a forma como o ego bem desenvolvido pode vivenciar a Solutio, porém um ego imaturo poderá ter prazer na regressão...gerando grande ansiedade, uma vez que a autonomia do ego duramente conseguida é ameaçada pela dissolução. Uma Solutio com êxtase é a mais perigosa. Corresponde ao conceito de incesto urobórico de Neumann: O incesto urobórico é uma forma de entrada na mãe, de união com ela e contrasta agudamente com outras formas posteriores de incesto. No incesto urobórico, a ênfase no prazer e no amor não é ativa em sentido algum, é mais um desejo de ser dissolvido e absorvido; passivamente nos deixamos levar, mergulhamos no pleroma, nos fundimos nesse oceano de prazer – uma Liebestod. A grande Mãe carrega a criança para o seu interior, e sempre sobre o incesto urobórico paira a insígnia da morte significando a dissolução final na união com a Mãe...” (Erich Neumann, The Origins and History of Conscionsness, citado no artigo de Edward Edinger – Solutio, da Junguiana – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de 1985)
Um incesto urobórico com a mãe é a revivência de um oceano de prazer e ausência de dor, numa relação de Dependência.
Haylton Farias Dez/
Esta é uma hipótese baseada na minha própria observação, no tratamento de alcoólatras e outros aditos na clinica de Terapia Familiar do NEPAD /UERJ – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao uso de Drogas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, durante o período de 2000 a 2006. e pela experiência clinica particular ao longo de 22 anos de atividade.Assista a participação de Haylton Farias no Programa Opinião Nacional (da TV Itararé/Cultura) do dia 6/12/2007 sobre Alcoolismo, com a participação de vários especialistas. Para assistir ao programa clique no link abaixo:
mms://143.108.254.82/fpavideos/opiniaonacional/20071206-opiniaonacional-alcoolismo-150k-300k.wmv
O programa reuniu psiquiatras, psicólogos e terapeutas para discutir o problema que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Acidentes de trânsito que deixam milhares de vítimas a cada ano, a destruição da vida pessoal, familiar e profissional e o distanciamento dos amigos são apenas alguns dos males causados pelo alcoolismo. O primeiro passo para enfrentar o problema, segundo os especialistas, é reconhecer que se trata de uma doença e tratá-la como tal.
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