Docsity
Docsity

Prepare-se para as provas
Prepare-se para as provas

Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity


Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos para baixar

Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium


Guias e Dicas
Guias e Dicas


Algumas plantinhas, Notas de estudo de Ciências da Educação

Texto que aborda a educação inclusiva

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 24/01/2012

miryam-mager-5
miryam-mager-5 🇧🇷

1 documento

1 / 13

Toggle sidebar

Esta página não é visível na pré-visualização

Não perca as partes importantes!

bg1
As Crianças e a importância das
Redes de apoio
Profª Dra. Miryam Mager1
…”Algumas plantinhas assemelham-se estranhamente à salsa
e a cebolinhas mais que a flores. Todo o dia me vem a
tentação de podá-las um pouco para ajudar a crescer, mas
permaneço na dúvida entre as duas concepções…: se deixar
agir de acordo com Rousseau e deixar obrar a natureza que
nunca se equivoca… ou ser voluntarista e forçar a natureza
introduzindo na evolução a mão esperta do homem e o
princípio da autoridade”. (Gramsci, 1978, p.128)
Etimologicamente infantia é a dificuldade ou incapacidade de falar; criança é o
indivíduo na infância, criação; o que é novo, novidade. A infância é símbolo de
simplicidade natural, de espontaneidade. Mas diante dessas colocações, de que infância
estamos falando, a que tipo de criança estamos nos referindo? Num primeiro momento
estamos falando de uma criança idealizada: de nenhuma criança real. Num segundo
instante, quando muito, referimo-nos àquela criança com a qual estamos mais
familiarizados, com a qual convivemos no nosso cotidiano, que nos serve de ideal para
qualquer criança. Para falar das crianças, de todas, é necessário ampliar o perfil que
PAGE 8
1 Professora Associada Aposentada pela Universidade Estadual de
Maringá.
pf3
pf4
pf5
pf8
pf9
pfa
pfd

Pré-visualização parcial do texto

Baixe Algumas plantinhas e outras Notas de estudo em PDF para Ciências da Educação, somente na Docsity!

As Crianças e a importância das

Redes de apoio

Profª Dra. Miryam Mager^1

…”Algumas plantinhas assemelham-se estranhamente à salsa e a cebolinhas mais que a flores. Todo o dia me vem a tentação de podá-las um pouco para ajudar a crescer, mas permaneço na dúvida entre as duas concepções…: se deixar agir de acordo com Rousseau e deixar obrar a natureza que nunca se equivoca… ou ser voluntarista e forçar a natureza introduzindo na evolução a mão esperta do homem e o princípio da autoridade”. (Gramsci, 1978, p.128)

Etimologicamente infantia é a dificuldade ou incapacidade de falar; criança é o indivíduo na infância, criação; o que é novo, novidade. A infância é símbolo de simplicidade natural, de espontaneidade. Mas diante dessas colocações, de que infância estamos falando, a que tipo de criança estamos nos referindo? Num primeiro momento estamos falando de uma criança idealizada: de nenhuma criança real. Num segundo instante, quando muito, referimo-nos àquela criança com a qual estamos mais familiarizados, com a qual convivemos no nosso cotidiano, que nos serve de ideal para qualquer criança. Para falar das crianças, de todas, é necessário ampliar o perfil que

1 Professora Associada Aposentada pela Universidade Estadual de

Maringá.

temos de infância e considerar os vários contextos e situações nas quais as crianças vivem: Temos que falar da criança situada no seu mundo. Para garantir que abordemos a criança situada em seu mundo temos que levar em conta três perspectivas fortemente inter-relacionadas: A social, a política e a da linguagem. 1 - A dimensão social, fala da sociedade, da cultura e dos sistemas que suportam as formas de organização e abrangência dos espaços sociais coletivos. 2 - A dimensão política aponta para as relações coletivas e individuais de poder e respectivo sistema jurídico que perpassa todas as formas de relação. 3 - A dimensão da linguagem é aquela que permite o acompanhamento e o desenvolvimento histórico do significado cultural e social de cada conceito ou palavra organizadora de sentido. Em geral observamos o mundo pelos sistemas sociais , pois são eles que mais profundamente organizam nossas atividades cotiadianas e nossas relações com os outros. É a organização do sistema social que aponta para os diferentes setores e para as diferentes funções sociais que cada um pode ocupar. Entedemos por sistema social “um conjunto de coisas que ordenadamente entrelaçadas contribuem para determinado fim” ou de outra maneira: “um todo coerente cujos diferentes elementos são interdependentes e constituem uma unidade completa” (Dicionário de ciências sociais, p.1127). Dessa forma as relações, as observações, as interpretações acerca de uma pessoa, fenômeno ou relação estão inscritas nesse conjunto e nele fechadas. O sistema familiar, o sistema escolar, o sistema jurídico, o sistema social, o sistema cultural, etc. Esse tipo de organização do mundo requer que se leve algo mais em conta: a

considerando que esses papéis sejam parte das atividades de todos os membros de uma sociedade. Assim esses papéis, quando definem, definem apenas a criança genérica e abstrata e não uma criança específica e real. Enquanto os resultados das atividades forem medidos e avaliados de acordo apenas com os papéis definidos por cada sistema para cada sujeito/situação, são eles que organizam os padrões à sua adequação uma vez que não abordam a trajetória individual de cada criança mas sim trajetória institucional da criança. Os resultados desse tipo de enfoque sempre se pautam em critérios e finalidades dos sistemas: a criança aqui é um/a bom/boa filho/a ou um/a bom/boa aluno/a mas descontextualizada das justificativas pessoais e socias que, em última análise são os responsáveis pela sua adequação ou inadequação perante dado sistema. Pois, como já vimos, um sistema procura realizar seus proprios fins. Uma estratégia para escapar dos limites impostos pelo uso do conceito e das configurações estruturais e administrativas dos sistemas é usar o conceito de rede. Isso porque o conceito de rede social torna mais difícil organizar um padrão, uma vez que a conexão entre os diferentes setores sociais se dá pelo percurso que desenha o encontro das pessoas com pessoas, instituições e coisas do seu mundo. E é claro que esse percurso começa na infância de cada um. Ao utilizar conceito de redes sociais, para analisar, entender e finalmente avaliar ou julgar a competência de determinada pessoa não podemos mais nos pautar em padrões antes organizados pelos sistemas: o temos que levar em conta, agora, são realidades individuais e resultados também individuais que não podem ser facilmente generalizados. Mas o que são as redes? As redes são percursos sociais que se entrecruzam com os diferentes sistemas, com os espaços, com os lugares, com as pessoas e as coisas do e no mundo numa dinâmica de sincronia ou de diacronia. As redes são encontros pontuais

entre pessoas, estruturas, símbolos ou regras que não organizam a si, mas sim, trajetórias individuais. Usando o conceito de rede fica mais complexo descobrir o que é o sucesso ou o fracasso individual, pois ele nos força olhar para as trajetórias de vida que caminham cotidianamente entre uma infinidade de contatos e relações interligadas e, portanto, interdependentes de alguma forma. Somos obrigados olhar para as pessoas para descobrir o como são e o quê são. Já não basta o critério do “dever ser” imposto pelo sistema, mas as diferentes as formas de “poder ser”. Dessa forma, as possibilidades e com elas as oportunidades de fazer-se cidadão são criadas por um conjunto complexo e inter-relacionado de instituições, legislações, movimentos e trajetórias individuais que escapam ao controle de um só sistema. As contaminações e as conjugações são tantas que não temos respostas prontas: temos, isto sim, percursos múltiplos que se nutrem durante o seu desenrolar dos encontros ou desencontros com outras manifestações que se congregam ou se desagregam ao escrever os caminhos das biografias pessoais. As diferenças para cada uma das pessoas são tantas que o número de resultados não permite mais um referencial padrão. Dessa forma já aceitamos, por exemplo, que a família hoje não tem mais aquela forma padrão que organizava os papéis de cada um. Hoje temos casais não casados formalmente, temos mães que ocupam o papel de pai, temos crianças criadas pelos avós, temos pais e mães que não estão mais em convívio direto com seus filhos, temos filhos de proveta, temos filhos que tem dois pais ou duas mães, entre tantas outras formas possíveis de organização familiar. Ao apresentar essa variedade de possibilidades de relações familiares como definimos a família? Simplesmente não há mais uma definição de família e sim formas

relações entre as pessoas e suas instituições estão pautas em princípios justos ou não? Sãão as resposta a essas interrogações que permitem avaliar se estamos envoltos de uma realidade onde a organização social se dá pelo “poder sobre os espaços” ou se se organiza pelos “espaços de poder”. À partir de um ou outro resultado estamos diante de um mundo social de organização mais vertical e concentrada de poder (espaços de poder) ou de organização mais horizontal e distributiva de poder (poder sobre os espaços). Novy, 2002 considera que, “no sentido tradicional do termo, o poder pessoal é localizado ‘bem acima’, na esteira do Leviatã de Hobbes. O soberano, o poderoso impõe às outras pessoas na sua área de influência a sua vontade…”. Mas ao mesmo tempo o autor, para ressaltar a diferença na forma de distribuição de poder, contrapõem ao Leviatã de Hobbes o Panopticon de Jerimy Bentham como imagem orientadora “… o poder atua por meio de campos e estruturas que normatizam a vida cotidiana” (p.27). Com esse contraponto os campos do poder, acredita ele, representam de forma sensorialmente compreensível dois enfoques opostos para a compreensão do poder. Para melhor enteder as diferenças entre essas duas configurações de organização social vamos apresentar a Tabela abaixo estraída do próprio texto do acima citado autor:

Tabela: O dualismo Clássico de espaço e poder em Hobbes e Foucault

Espaços de poder Poder sobre o espaço Hobbes Foucault

Pergunta Quem tem poder onde? Como o poder atua onde?

Concepções fundamentais da teoria do espaço

Território Receptáculo

Espaço de entrelaçamento de redes

Lugar do conflito “Palco” “Campo” Concepções fundamentais da teoria do poder

Leviatã como corpo Mecânica do poder Atores

Panopticon como estrutura Campo de poder Estrutura/prática Metódica Quantitativa Pluralismo de métodos

Fonte: Sistema desenvolvido por Andréas Novy (2002, p.28), apoiado na esteira de Clegg, (1989, p.34)

Além disso, como já vimos, o mundo social (onde habita o homem) também é construção histórica, ou seja, é a organização social feita pelas pessoas ao longo dos tempos. E nesse sentido a construção de significados (a linguagem) estabelece os lugares ou os espaços (a geografia) apropriados para a expressão de determinada prática social. Essa dinâmica que conjuga a forma social com os espaços para a expressão da ação é mantida pelos discursos ordenadores de poder que suportam essas práticas. Adotando essa referência entendemos porque a criança ou o jovem mais idealizados , globalizados, bem alimentados, limpos e educados, membros de famílias tradicionais (com mãe, pai, irmãos) são a referência mais geral. Nesse tipo de colocação não há espaço para a observância da realidade social, nem essa conclusão de deve ao fato de referenciar-se à maioria das crianças ou jovens, expressa apenas aquilo que é veiculado por aquele sentido do conceito criança adotado por um grupo de pessoas que, não só

criança genérica não se torne uma camisa de força para a criança de fato referida. Ao mesmo tempo em que se constata essa multiplicidade de ser criança fica ressaltado o paradoxo da infância: nunca existiu uma época onde tantos direitos expressos em declarações internacionais ou em legislações nacionais convivem em contexto sociais com tantas crianças sem a garantia mínima de seus direitos. SARMENTO (2001), em outro estudo, ressalta ainda que “a consciência pública já sabe que a criança é sujeito de direitos, mas ao colocar a responsabilidade na família e na sociedade, se omite na execução das políticas públicas pertinentes que, deveriam estar à mão para que a família e a sociedade, de fato, pudessem realizar adequadamente sua função. Diante da fragmentação dos sistemas referenciais importa desenvolver uma nova abordagem para entender como as novas configurações e as novas alternativas produzem o campo e a expressão da vida social real. Mas isso só pode funcionar em sintonia com os recursos e a condição social de cada País. Ou seja, não só a inserção de cada um deve ser resgatada e resguardada como também a ordem política do País exige de cada um de seus membros um tipo de atitude condizente com as suas leis. Nas sociedades atuais a observância dos procedimentos legais é condição obrigatória e não apenas coadjuvante casual das relações sociais possíveis. Os critérios das garantias aos direitos fundamentais de cada pessoa devem estabelecer não só as formas, mas também as práticas que os membros de uma sociedade devem adotar e tolerar, indiferente da posição na qual se encontra cada um dentro da estrutura social. O olhar e a prática que se exige é, a partir dessa observância, modificada radicalmente. Não se pode mais falar o agir com a criança como se ela fosse uma construção universal indiferenciada. O que se tornou universal é que todas as abordagens

e práticas possíveis devem ser ajuizadas apenas pelos direitos individuais e sociais. Dessa forma o conceito de cidadania – outra construção social ou conquista social, se quisermos – se define “como estatuto oriundo do relacionamento existente entre uma pessoa natural e uma sociedade política, conhecida como Estado, pelo qual a pessoa deve a esta obediência e a sociedade lhe deve proteção” (Dicionário de Ciências Sociais, p. 177). Aquele que exerce a cidadania é o cidadão/ã. O cidadão/ã, portanto, é um ser ativo, participativo, consciente, cumpridor de seus dever, guardião/ã de seus direitos e totalmente co-responsável pelo tipo de vida das comunidades humanas. Todos os outros lugares e formas onde a cidadania não pode ser expressa devem ser declarados lugares e formas inadequadas para a vida humana. Muitos dos conflitos de hoje não residem nos lugares que cada sociedade adota para desenvolver e manter a pertença de seus membros a uma cultura especifica e sim nas formas que são utilizadas nesse propósito. Toda vez que no espaço público ou no espaço privado como, por exemplo, dentro da família, dentro da escola, dentro de qualquer instituição que abriga, por algum tipo de vínculo, uma pessoa, as formas expressas na relação humana violarem os direitos das pessoas, estamos diante de uma situação ou de um local social impróprio para a expressão e manutenção adequada da cidadania. Para evitar que os sistemas organizem a vida humana apenas de acordo com os papéis-fins que cada um está desempenhando dentro daquela rotina particular, o conceito de rede é útil. Não só porque a rede representa os pontos de contato entre os diferentes serviços que os sistemas oferecem, mas porque o conceito de rede amplia o espaço social relacionando os espaços públicos com os privados, as políticas públicas com a atividade individuais, comunitárias, solidárias, etc. de tantas formas interdependentes que aumenta

Petrópolis, 1978.

GRAMSCI, A. Cartas do cárcere, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1978.

PINTO, M. e SARMENTO, M. J. (Org). As Crianças e a Infância: definindo conceitos, delimitando campos. In: As crianças: contexto e identidades. Braga, Portugal: Centro de Estudos da Criança, 1997.

SARMENTO, Manoel. A Globalização e a Infância: impactos na condição social e na escolarização. In: GARCIA, Regina Leite & LEITE Aristeo Filho (orgs.). Em defesa da educação infantil. Rio de Janeiro: DPEA, 2001, P. 13 – 28.•

CASTELLO,etimológico de A.;términos MÁRCICO, usuales (^) enC. laGlosario praxis docente. Buenos Aires: 1998. Mimeografado.

GOLDEN, M. Child and childhood in classical Athens. Baltimore: John Hopkins University Press, 1990.

QUINTEIRO, J. Infância e Escola: uma relação marcada por preconceitos. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação (Tese de Doutorado), 2000.

MARQUES DA SILVA, Z. “O sistema criançaa de rua” uma ferramenta conceitualpara a compreensão e para a intervenção. Assessora do jornal “Terre des Hommes” (TDH), 2005 NOVY, A. A des-ordem da periferia: 500 anos de espaço e poder no Brasil. EditoraVozes, Petrópolis, 2002.

SOUZA. Maria Adélia A. Fome. Texto elaborado para o I ENCONTRO NACIONAL DA ANPEGE - Globalização e efeitos perversos: Relendo a Geografia da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, Aracaju, setembro de 1995.