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Coletânea Educadores
Tipologia: Notas de estudo
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Raquel Gandini
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Fundação Joaquim Nabuco. Biblioteca)
Gandini, Raquel. Almeida Júnior / Raquel Gandini. – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 148 p.: il. – (Coleção Educadores) Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7019-502-
ISBN 978-85-7019-502- © 2010 Coleção Educadores MEC | Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana Esta publicação tem a cooperação da UNESCO no âmbito do Acordo de Cooperação Técnica MEC/UNESCO, o qual tem o objetivo a contribuição para a formulação e implementação de políticas integradas de melhoria da equidade e qualidade da educação em todos os níveis de ensino formal e não formal. Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO, nem comprometem a Organização. As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo desta publicação não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região ou de suas autoridades, tampouco da delimitação de suas fronteiras ou limites.
A reprodução deste volume, em qualquer meio, sem autorização prévia, estará sujeita às penalidades da Lei nº 9.610 de 19/02/98. Editora Massangana Avenida 17 de Agosto, 2187 | Casa Forte | Recife | PE | CEP 52061- www.fundaj.gov.br Coleção Educadores Edição-geral Sidney Rocha Coordenação editorial Selma Corrêa Assessoria editorial Antonio Laurentino Patrícia Lima Revisão Sygma Comunicação Ilustrações Miguel Falcão Foi feito depósito legal Impresso no Brasil
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O propósito de organizar uma coleção de livros sobre educa- dores e pensadores da educação surgiu da necessidade de se colo- car à disposição dos professores e dirigentes da educação de todo o país obras de qualidade para mostrar o que pensaram e fizeram alguns dos principais expoentes da história educacional, nos pla- nos nacional e internacional. A disseminação de conhecimentos nessa área, seguida de debates públicos, constitui passo importante para o amadurecimento de ideias e de alternativas com vistas ao objetivo republicano de melhorar a qualidade das escolas e da prática pedagógica em nosso país. Para concretizar esse propósito, o Ministério da Educação insti- tuiu Comissão Técnica em 2006, composta por representantes do MEC, de instituições educacionais, de universidades e da Unesco que, após longas reuniões, chegou a uma lista de trinta brasileiros e trinta estrangeiros, cuja escolha teve por critérios o reconhecimento histórico e o alcance de suas reflexões e contribuições para o avanço da educação. No plano internacional, optou-se por aproveitar a co- leção Penseurs de l´éducation, organizada pelo International Bureau of Education (IBE) da Unesco em Genebra, que reúne alguns dos mai- ores pensadores da educação de todos os tempos e culturas. Para garantir o êxito e a qualidade deste ambicioso projeto editorial, o MEC recorreu aos pesquisadores do Instituto Paulo Freire e de diversas universidades, em condições de cumprir os objetivos previstos pelo projeto.
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Assim, pode-se dizer que, em certo sentido, o atual estágio da educação brasileira representa uma retomada dos ideais dos mani- festos de 1932 e de 1959, devidamente contextualizados com o tempo presente. Estou certo de que o lançamento, em 2007, do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), como mecanis- mo de estado para a implementação do Plano Nacional da Edu- cação começou a resgatar muitos dos objetivos da política educa- cional presentes em ambos os manifestos. Acredito que não será demais afirmar que o grande argumento do Manifesto de 1932 , cuja reedição consta da presente Coleção, juntamente com o Manifesto de 1959 , é de impressionante atualidade: “Na hierarquia dos pro- blemas de uma nação, nenhum sobreleva em importância, ao da educação”. Esse lema inspira e dá forças ao movimento de ideias e de ações a que hoje assistimos em todo o país para fazer da educação uma prioridade de estado.
Fernando Haddad Ministro de Estado da Educação
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missão criada pelo ministro da Educação, Clemente Mariani, em 1948, para elaborar o anteprojeto da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Em 1959 assinou também o Manifesto dos educadores democratas em defesa do ensino público : mais uma vez convocados. Manifesto ao Povo e ao governo (1959). Com a vigên- cia da LDB de 1961, foi instituído o Conselho Federal de Educa- ção, o qual integrou por longo mandato, chegando a presidi-lo. Emitiu muitos pareceres com a competência que todos lhe reco- nhecem. A atuação de Almeida Júnior no campo da educação estende- se por um período muito longo: formou-se professor normalista em 1909, na Escola Normal da Praça da República, em São Paulo, e começou, em 1910, a sua carreira como professor em escola de ensino primário. Aposentou-se oficialmente em 1962, quando com- pletou 70 anos de idade e cinquenta anos de atuação no funciona- lismo público, tendo então recebido o título de Servidor Emérito do Estado. Concomitantemente à sua atuação como personalidade combativa no campo da educação, Almeida Júnior realizou uma brilhante carreira como professor do ensino superior. Quatro anos após a conclusão do curso normal passou a estudar medicina. Formou-se em 1921 e doutorou-se no ano seguinte, também pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, aos 30 anos. O tema de sua tese, defendida em 1922 – O saneamento pela educação – denotava a continuidade de seu interesse pela educação, pois havia iniciado sua carreira no magistério de escola primária. Nessa épo- ca, o título de professor normalista era o mais alto que se poderia obter na área educacional. Em 1927, aos 35 anos, obteve o título de livre-docente da cadeira de medicina legal da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da qual se tornou professor catedrático em 1941. Em todos os casos obteve os títulos defendendo teses acadêmicas
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em concursos públicos de títulos e provas. Coroando sua brilhan- te carreira acadêmica recebeu também os títulos de Professor Emérito da Escola Paulista de Medicina (1962), Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1962), importantíssimas instituições em que trabalhou. Como reconheci- mento de sua importante atuação na área da educação recebeu os seguintes prêmios e homenagens: Prêmio Educação Visconde de Porto Seguro, concedido pela Fundação Visconde de Porto Segu- ro (1957), Grande Oficial da Ordem Nacional do Mérito Educativo, concedido pelo governo federal em 1957 e Prêmio Moinho Santista, setor educação, em 1970. Autor de uma vasta obra acadêmica, Almeida Júnior escrevia também e muito sobre os fatos que estava vivenciando. Registrava os acontecimentos, pronunciava-se sobre as questões que se apre- sentavam nas diferentes fases de sua carreira: como professor e paraninfo de normalistas, professor da Faculdade de Direito, atuante defensor da democracia durante a ditadura do Estado Novo, relator de comissões e responsável por cargos públicos. Muitos de seus escritos esparsos foram por ele reunidos e publicados em livros, como por exemplo A escola pitoresca e outros estudos, que foi editado três vezes: em 1934, 1951 e 1966. O seu livro Biologia Edu- cacional: noções fundamentais teve 22 edições no período de 1931 a 1969 e relaciona-se à própria condição de professor de biologia educacional no Instituto de Educação Caetano de Campos. Uma de suas obras mais importantes, Lições de Medicina Legal: para médicos e juristas, já teve pelo menos vinte edições, depois da primeira, publicada pela Companhia Editora Nacional em 1948, e não pode ser mencionada sem a lembrança de que Almeida Júnior tornou- se professor de medicina legal da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1928. Lá ficou conhecido por “Almeidinha”, apelido afetuoso, mas que não fazia jus à sua estatura física, à ex- tensão de sua obra e à sua importância.
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bém, no que fosse pertinente, na rede particular de ensino. Luta- vam para que a educação – de boa qualidade – fosse um direito igual para todos e não um privilégio de alguns. O professor doutor João Baptista de Oliveira e Costa Júnior, que foi seu colega na Faculdade de Direito e também coautor do livro Lições de Medicina Legal (a partir da 7ª edição) ressalta a integri- dade de Almeida Júnior, que se evidenciava em suas posições e atitudes relacionadas à vida acadêmica: as participações de seu co- lega em bancas examinadoras e sua aprovação se tornavam moti- vo de honra para aqueles que a ela eram submetidos. O seu rigor derivava de sua concepção sobre a vida universitária e a sua recusa a fazer concessões. Segundo Costa Júnior (1971, pp. 14-15), essa conduta era motivo de respeito e admiração por parte dos alunos. Almeida Júnior também participou da política partidária, ten- do sido presidente da União Democrática Nacional (UDN) nos biênios de 1951-52 e 1952-54. Esse aspecto de sua vida é conside- rado por seus familiares e amigos como dissonante e frustrante em sua trajetória. A prova disso seria o fato de ter ele se candidatado a deputado federal em 1950 e não ter sido eleito. Apesar de não ser nosso objetivo no presente trabalho estudar aspectos da inser- ção de Almeida Júnior na política partidária, também não pode- mos omiti-la ao esboçar seus traços pessoais e de caráter. Fernando de Azevedo insere a participação política de Almeida Júnior em uma situação mais ampla, sugerindo nas entrelinhas o aspecto episódico, uma “tentação” e quase um desvio, que repre- sentou essa inserção na política partidária. O texto merece ser cita- do, por ser uma síntese muito bem redigida e um ótimo depoi- mento fundado em longa convivência com Almeida Júnior: Sua história individual mistura-se, toda ela, como se viu, à história da educação nacional nestes últimos quarenta anos, a essa história coletiva que evoca a da comunidade paulista desde São Paulo antigo, das famílias patriarcais que floresceram nas fazendas de café, até o São Paulo de hoje, com suas grandes concentrações urbanas e industriais.
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Nesse largo período, de atividades contínuas no terreno da educação, muitas tentações deve ter sofrido, – e algumas bastante fortes, – para se desviar da linha de suas ocupações dominantes. Desde a vida acadêmica, em que participou de campanhas eleitorais através da Liga Nacionalista, até a sua atuação política no Partido Constitucionalista, na ‘Resistência ao Estado Novo’ e, a partir de 1945, na União Demo- crática Nacional, de cuja seção paulista foi presidente em dois biênios sucessivos (1951-52; 1952-54), passando pelas lutas que resultou a Revolução de 32, na qual tomou parte saliente, Almeida Júnior so- freu a atração da vida política, e muitas vezes lhe cedeu às seduções, dominado pelo sentimento de bem público, a que sempre procurou servir dentro de suas convicções políticas. Mas, por maiores que tenham sido esses apelos, em nenhum momento foram bastantes (sic) para o absorverem nem o afastarem das suas atividades no plano do magistério e da educação. Todos esses fatos intercorrentes, altamente significativos, não passam, no entanto, de episódios em sua vida austera de trabalho – a de um líder autêntico de educação, mestre, guia e conselheiro. (Azevedo, 1973, p. 150). Na citação acima, Fernando de Azevedo destacou com pro- priedade, como lhe era peculiar, a prioridade que a educação teve para Almeida Júnior, durante toda sua vida. Também a esse respeito, um relato de Costa Júnior é altamente significativo e comovente: Qual não foi o seu contentamento ao ser inscrito, pelo governo brasileiro, na Ordem do Mérito Educativo. O diploma foi, desde logo, emoldurado e posto em sua residência, por representar-lhe, penso eu, um dos maiores prêmios que poderia almejar. E quando já bastante enfraquecido pela enfermidade que o tirou do nosso convívio, com receio de que alguém pudesse, sorrateiramente, sub- trair-lhe o precioso documento, levava-o, todas as noites, para o quarto de dormir, julgando que assim estivesse em local mais seguro e mais diretamente sob a sua guarda. Que síntese de uma vida admi- rável, de uma vida dedicada inteiramente aos problemas educacio- nais pelo amor ao Brasil e à mocidade de sua terra! Senti profundamente a sua morte como poucos, talvez, sentiram. (Costa Jr., 1971, pp. 17-18).
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proprietário, diretor e redator do jornal A cidade de Bragança, tesou- reiro do Clube Literário, flautista amador e 1º suplente do Juiz de Paz. Era conhecido como “Tonico” de Almeida e “Major”. Foi também escritor (historiador) e jornalista e sobre ele foi escrito um verbete no Dicionário de Autores Paulistas (Melo, 1954). Manteve dois periódicos: um em Joanópolis, ( O Curralinhense ) e outro em Bragança Paulista ( Cidade de Bragança ) e entre suas obras encontra- mos dois livros muito importantes: Fundação da Vila de São João do Curralinho (1902) e História do Município e Comarca de Piracaia (1912); e dois manuscritos: História da Vila e Município de Santa Rita de Extrema de 1800 a 1910 – e História do Contestado de Palmeiras. Em Piracaia foi colaborador do jornal O Piracaiense e foi aponta- do no obituário publicado no citado jornal como um dos fundado- res de Joanópolis, onde ocupou diversos cargos: “vereador da pri- meira câmara, intendente municipal, subdelegado de polícia, diretor e maestro da Banda Municipal” e fundador do Jornal Curralinhense.
Antonio Ferreira de Almeida ficou viúvo em 1896, quando Almeida Júnior tinha 4 anos. Casou-se em segundas núpcias com Josefina Cardoso Pinto, com quem teve oito filhos: Áurea Ferreira de Almeida, Valdomiro Ferreira de Almeida, Oscar Ferreira de Almeida, Iracy de Almeida Nogueira, Deoclides Ferreira de Almeida, Jersey Simoneti, Sebastião Ferreira de Almeida e Diva de Almeida. Durante o período de 1915 a 1945, Antonio Ferreira de Almeida residiu na cidade de Extrema, Minas Gerais; retornou a Joanópolis em 1945 e faleceu em São Paulo em 19 de outubro de 1955. Othilia Caparica de Almeida, mãe de Almeida Júnior, era filha de Bruna Figueiredo e Anselmo Gonçalves Caparica. Era neta de Luiz Antonio Figueiredo, um dos fundadores de Joanópolis. Nas- ceu em 1875 e faleceu muito jovem, aos 21 anos, em 28 de outu- bro de 1896, de síncope cardíaca, após o terceiro parto. Deixou três filhos: Adília, com 5 anos, Almeida Júnior, com 4 anos e Se- bastião, que viria a morrer 52 dias depois de seu nascimento.
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Adília e Almeida Júnior, órfãos de mãe, cresceram na fazenda Lage, dos avós maternos, “recebendo esmerada educação e as primeiras letras através de sua tia dona Bruna Caparica Filha, a qual foi a primeira professora joanopolense” (Cassalho, 2005). Anselmo Caparica faleceu em 30 de junho de 1902, aos 62 anos, vitima de gastrite. Nessa data Almeida Júnior. tinha 10 anos. Almeida Júnior estudou inicialmente em Joanópolis, na escola da tia, Bruna Caparica Filha, e posteriormente no segundo grupo escolar, em São Paulo, no Brás, hoje Grupo Escolar Eduardo Pra- do. Segundo informação verbal de suas primas, Maria do Rosário Pereira e Elisa Pereira, em São Paulo ele morou com sua tia por parte de pai, Etelvina Ferreira de Almeida Candelária. Formou-se professor normalista pela Escola Normal da Praça da República, em 1909, aos 17 anos. Ainda segundo a mesma fonte, foi dele a iniciativa de levar sua irmã Adília para São Paulo.
Em uma das poucas referências que Almeida Júnior faz sobre sua vida particular, relata que recebeu do pai a sua parte da herança de sua mãe (Othilia Caparica) e, com esses recursos, aos 21 anos fez uma viagem de seis meses à Europa. Cabe agora uma referência a outra mulher muito importante, e não somente na vida de Almeida Júnior. Trata-se de sua tia, Bruna Caparica Filha (1885-1908), que pode ser considerada uma intelec- tual, por sua formação e seus escritos, e pioneira em seu tempo, por seu empenho na extensão do ensino primário, especialmente para as meninas. Bruna foi a sua primeira professora em Curralinho (Joanópolis). Uma “escola particular mista” foi criada por ela e era frequentada por mais de trinta alunos, predominando a presença de meninas. A excelente formação que recebera, incluindo-se aí o apren- dizado de francês, se deve, em grande parte, aos estudos realizados no Colégio do Bom Conselho, em Taubaté, segundo Cassalho (2001) e informação verbal das sobrinhas de Almeida Júnior, Maria do Rosário Pereira e Elisa Pereira. Bruna faleceu, vítima de tuberculose,