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Este documento discute a essência de ambientes confortáveis, abordando questões sobre a ausência de desconforto, o prazer e a emoção positiva associada a conforto. O autor explora as perspectivas acadêmica e profissional, bem como a história cultural do conceito. Além disso, ele aborda a relação entre conforto e funcionalidade, e explora as dimensões corporal, ambiental, socio-cultural e psico-espiritual do conforto.
Tipologia: Notas de estudo
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resenhas online ISSN 2175-
058.01ano 05, out 2006
Texturas deixadas nas dunas pelo vento, Prainha CE Foto divulgação
SCHMID, Aloísio Leoni. Ambientes que confortam: qual sua essência?. Resenhas Online, São Paulo, 05.058, Vitruvius, out 2006 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/ resenhasonline/05.058/3128>.
Este livro fala de olfato, de sensações táteis e térmicas, dos sons, da luz e das cores nos ambientes. Embora utilizadas freqüentemente, as expressões conforto e conforto ambiental são de significado bastante variável, dependendo de quem as emprega.
Todavia, há unanimidade com respeito à necessidade de conforto, e isto é observado para todos os ambientes.
Uma questão básica, tratada pelo livro, é se conforto é apenas a ausência de desconforto, ou se ele também significa prazer, ou alguma emoção positiva.
No meio acadêmico, predomina o conforto como simples proibição do desconforto. Mensura-se variáveis do ambiente e se as compara com valores-limite estabelecidos em normas. Logo, um significado bastante quantitativo. Em outubro de 2005, ocorreu em Maceió o VIII Encontro de Conforto no Ambiente Construído. Em cerca de 300 trabalhos de pesquisa apresentados, comprovou-se a nítida tendência de se buscar “conforto” mediante o simples cuidado com as condições físicas e mensuráveis (como temperatura e umidade) adequadas ao corpo humano.
Já no meio profissional de Arquitetura de interiores, predomina um conceito de conforto mais abrangente. Comumente reúne requinte, bom gosto e alguma emoção. Mas também existem os ambientes rústicos que parecem muito confortáveis. Ou seja, conforto não é simplesmente algo que o dinheiro pode comprar.
A origem de “conforto” se explica pelo verbo “confortar”: este vem do latim confortare e tem a mesma origem que “força”; levar força significava consolar. O arquiteto canadense Witold Rybczynski descreve em Casa: pequena história de uma idéia o momento aproximado em que o termo comfort passa a referir-se ao ambiente da casa. Isto ocorre na Inglaterra rural do início do séc. XIX. É quando Jane Austen, em seus populares romances (como Emma e Orgulho e preconceito ), retrata donzelas casamenteiras em meio a desilusões e intrigas amorosas. Elas vão encontrar conforto entre amigas, mediante leituras e, enfim, no aconchego do lar. No Brasil, a palavra conforto ganhou tal significado somente muito mais tarde. José de Alencar – que seria contemporâneo de Austen – raramente fala em conforto; não mostra sequer a casa com conotação de prazer. Na polaridade casa e rua, é nesta última que o personagem masculino vai encontrar deleite, no final da tarde, sob vento e à sombra dos morros do Rio de Janeiro. A mulher em geral está em casa, e a visão sensual de Alencar perpassa muitas cortinas translúcidas. O conceito proposto por Austen não aparece em Machado de Assis; um dos primeiros registros aparece na obra O mulato (1881), de Aluízio de Azevedo. Entre nós, portanto, conforto é um produto importado. Uma idéia cultural (insiste Rybczynski) relacionada à casa. E com origem nos climas mais frios. Mas antes que conforto tivesse nome, alguns elementos já eram objeto de nossa busca.
Rybczynski identifica muitos valores que foram surgindo ao longo da história: intimidade e privacidade, domesticidade, deleite, leveza, eficiência, estilo e consistência, austeridade. Fala ainda da paz, e esta é tratada por importantes filósofos. Gaston Bachelard, autor de A poética do espaço , por exemplo. Para ele, a maior virtude da casa é abrigar o sono de quem dorme e sonha, não somente recupera-se para o dia seguinte, mas medita sobre sua origem.
Já no campo aparentemente distante da Enfermagem, a pesquisadora Katherine Kolcaba e o marido, filósofo, procuraram formular teoricamente o que seria conforto – pensando em quem mais necessita conforto: o enfermo. Nele, identifica diferentes contextos. A um deles chama corporal (ausência de dor), a outro ambiental (luz tênue, ar fresco e outras variáveis bem controladas), a outro sócio-cultural (como a regalia do quarto privativo num hospital) e, enfim, a outro ainda psico-espiritual (um telefonema amigo). E para ela o conforto tem três níveis: o alívio (imediatamente depois que cessa o desconforto, como um sapato apertado), a liberdade (que permanece, depois do alívio) e a transcendência, que é a compensação de um desconforto inevitável mediante um valor destacadamente positivo noutro aspecto ou outro contexto. Logo, conforto é um complexo, e não pode depender somente daquilo que é mensurável.
Prêmio Nobel de Medicina de 2004), os aromas são processados, no cérebro, junto com a memória das emoções. É por este motivo que podem nos transportar no tempo e nos emocionar. Como na trilogia de Marcel Proust: À procura do tempo perdido, o odor a chá com madeleine o fez relembrar toda sua infância. E os interiores de arquitetura poderiam ser planejados de modo a conter referências olfativas, de flores ou de madeira, ou do que for, para que as pessoas cultivem o afeto às suas às vezes muitas moradas do passado.
O capítulo sobre som, explorando a expressividade acústica dos ambientes: tudo o que eles têm a dizer com suas propriedades acústicas, e ainda sua musicalidade. Como já estou mais da metade de minha vida tentando tocar violino, tento buscar explicação no ambiente, não para meu fraco desempenho, mas para o desempenho mais ou menos brilhante dos mestres no espaço. Procuro saber o que é ideal para a música de cada época – da Idade Média até o século XX – e cada gênero, desde o canto a capela ou o piano sozinho até o coral com orquestra sinfônica.
Enfim, o capítulo sobre luz procura explorar aquilo do que menos se fala: a estética do escuro, objeto da obra Elogio da sombra do escritor japonês Junichiro Tanizaki, que já foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
O ambiente construído é, enfim, fonte força interior, consolo, conforto. Logo, é de importante demais para ser ignorado. É também complexo demais para ser deixado de lado, e ao mesmo tempo tão presente na vida das pessoas que não o deveriam terceirizar por completo. O cliente precisa conhecê-lo para revelar ao profissional de Arquitetura e Urbanismo suas vontades mais íntimas. E aqui reside a maior utilidade deste livro.
sobre o autor
Aloísio Leoni Schmid é Engenheiro Mecânico pela UFPR. Cursou mestrado no Japão (Universidade de Utsunomiya) e doutorou-se pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Karlsruhe, Alemanha. Desde 1997 leciona Conforto Ambiental no Curso de Arquitetura e Urbanismo e no Programa de Pós-Graduação em Construção Civil da UFPR.