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Amor, Liberdade E Solidão - Osho, Notas de estudo de Filosofia

Osho explana ideias sobre os relacionamentos atuais e porque as coisas não andam bem nas relações.

Tipologia: Notas de estudo

2017

Compartilhado em 24/01/2017

milena-barbosa-6
milena-barbosa-6 🇧🇷

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AMOR, LIBERDADE E
SOLIDÃO
Uma Nova Visão dos Relacionamentos
SÍNTESE
Por que será que tantas pessoas vivem sozinhas hoje
em dia? O modelo da família tradicional está a
desfazer-se; os jovens iniciam a sua vida sexual cada
vez mais cedo, metade dos casamentos no mundo
ocidental acaba em divórcio. O que aconteceu ao
amor? Ao longo destas páginas, Osho analisa o
fenómeno do amor no Ocidente e explica como a
crescente tendência para a solidão pode ser vista
como um fator positivo no desenvolvimento
espiritual. É bem sabido que as pessoas que são
felizes sozinhas têm mais hipóteses de ser felizes num
relacionamento. Quem não souber aprender a viver
consigo mesmo e para si mesmo, não será capaz de
encontrar a felicidade com outra pessoa. Com o estilo
mordaz que o carateriza, Osho oferece, neste livro,
um guia sensato e divertido para encontrar o amor na
complexidade da vida moderna
Reptiliano Grey
Digitalizado e Adaptado
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AMOR, LIBERDADE E

SOLIDÃO

Uma Nova Visão dos Relacionamentos

SÍNTESE

Por que será que tantas pessoas vivem sozinhas hoje em dia? O modelo da família tradicional está a desfazer-se; os jovens iniciam a sua vida sexual cada vez mais cedo, metade dos casamentos no mundo ocidental acaba em divórcio. O que aconteceu ao amor? Ao longo destas páginas, Osho analisa o fenómeno do amor no Ocidente e explica como a crescente tendência para a solidão pode ser vista como um fator positivo no desenvolvimento espiritual. É bem sabido que as pessoas que são felizes sozinhas têm mais hipóteses de ser felizes num relacionamento. Quem não souber aprender a viver consigo mesmo e para si mesmo, não será capaz de encontrar a felicidade com outra pessoa. Com o estilo mordaz que o carateriza, Osho oferece, neste livro, um guia sensato e divertido para encontrar o amor na complexidade da vida moderna

Reptiliano Grey

Digitalizado e Adaptado

OSHO

Amor, Liberdade e Solidão

Uma Nova Visão dos Relacionamentos

PARTE TRÊS - Liberdade

Capítulo 9 - Tábua Rasa Capítulo 10 - A Escravidão Básica Capítulo 11 - Cuidado com os Papas Capítulo 12 - Existe Vida Depois do Sexo? Capítulo 13 - É Necessário uma Cidade

QUESTÕES
  • Amor e Apego
  • O Amor Pode Florescer sem Sexo
  • O Sexo tem de Desaparecer num Júbilo Calmo e Brincalhão
  • Distanciamento e Indiferença
  • Interdependência

PARTE QUATRO - Solidão

Capítulo 14 - A Solidão é a Sua Natureza Capítulo 15 - Estranhos a Nós Mesmos Capítulo 16 - Solitários e Eleitos Capítulo 17 - O Leão e a Ovelha

QUESTÕES
  • Não Pertencer é a Grande Experiência da Transcendência
  • Tristeza Profunda e Felicidade Superficial
  • Tornar-se Um Imperador

Uma Chamada de Atenção - Duas Mulheres e Um Monge Epílogo - Abarcar o Paradoxo

Amor, Liberdade e Solidão

Prefácio

No Banquete de Platão, Sócrates diz:

Um homem que pratica os mistérios do amor estará em contato não com um reflexo, mas

com a própria verdade. Para conhecer essa bênção da natureza humana, não se pode

encontrar melhor auxílio que o amor.

Toda a minha vida tenho comentado o amor em milhares de modos diferentes, mas a mensagem mantém-se. Só um aspeto fundamental tem de ser lembrado: este não é o amor que você crê que é amor. Nem Sócrates se refere a esse amor nem eu estou aqui a analisá-lo.

O amor que você conhece não é mais do que um impulso biológico; depende da sua própria química e hormonas. É facilmente mutável - uma mudança na sua química e o amor que considerava uma “verdade absoluta” simplesmente desaparece. Você chamou “amor” ao desejo. Importa recordar esta distinção.

Sócrates diz: “Um homem que pratica os mistérios do amor… “ O desejo não tem mistérios. É um simples jogo biológico; cada animal, pássaro, árvore conhece-o. Certamente que o amor que contém em si mistérios será totalmente diferente do amor com que você lida normalmente.

Um homem que pratica os mistérios do amor estará em contato não com um reflexo, mas

com a própria verdade.

Este amor que pode permitir o contato com a verdade só pode emergir da sua consciência - não do seu corpo, mas do mais recôndito do seu ser. O desejo surge do seu corpo, o amor da sua consciência. Mas as pessoas não conhecem a sua consciência e o equívoco continua - o desejo físico é entendido como amor.

Muito pouca gente no mundo conheceu o amor. Esses são aqueles que se tornaram silenciosos, pacíficos… e nesse silêncio e nessa paz tocaram o âmago do seu ser, a sua alma. Uma vez tocada a sua alma, o seu amor torna-se não uma relação, mas simplesmente uma sombra. Para onde quer que vá, com quem quer que esteja, você ama.

Neste momento, você chama amor àquilo que é dirigido a alguém, limitado a alguém. E o amor não é um fenómeno que possa ser circunscrito. Pode tê-lo nas suas mãos abertas, mas não nos seus punhos fechados. No momento em que as suas mãos se fecham, elas ficam vazias. No momento em que se abrem, toda a existência está disponível para si.

Sócrates tem razão: quando se conhece o amor, conhece-se a verdade, porque ambos são dois nomes para uma mesma experiência. E, se nunca conheceu a verdade, lembre-se de que nunca conheceu o amor.

Parte 1

A M O R

É, com certeza, uma surpresa para si saber que a palavra inglesa love provém do

sânscrito lobha; lobha significa cobiça. Poderá ser somente uma coincidência o facto

de o inglês love ter a sua raiz numa palavra sânscrita que significa cobiça, mas

acredito que não se trata de uma mera coincidência. Deve existir algo misterioso

subjacente, deve existir um motivo alquímico por trás disso. De facto, a cobiça,

quando purificada, digerida, torna-se amor. É a cobiça, lobha, que, quando bem

assimilado, se torna amor.

Amor é partilhar, cobiça é arrecadar. A cobiça é avara e nunca oferece, o amor só

conhece a dádiva e nunca espera retorno, é a partilha incondicional. Deve existir uma

razão alquímica para que lobha se tenha tornado love no léxico inglês. Lobha torna-

se amor no que diz respeito a processos alquímicos internos.

Amor, Liberdade e Solidão

Capítulo 1

Amorzinho

Amor não significa o que, normalmente, entendemos como tal. O amor comum é um simples fingimento; há algo oculto por trás dele. O verdadeiro amor é um fenómeno totalmente diferente. O amor comum é exigente, o verdadeiro amor é partilha. Nada conhece de imposição; só a alegria da dádiva.

O amor comum vive de aparências. O verdadeiro amor é autêntico; simplesmente, é. O amor comum é quase doentio, adocicado, escorre, é o que chamamos "amorzinho". É enjoativo, nauseante. O verdadeiro amor é alimento, fortalece a alma. O amor comum só alimenta o seu ego – não o seu verdadeiro eu, mas o seu eu ilusório. Lembre-se de que o irreal alimenta sempre o ilusório, mas o autêntico alimenta o verdadeiro.

Torne-se um servidor do verdadeiro amor - e isto significa tornar-se um servo do amor na sua pureza última. Dê, distribua o que tem, reparta e goze a partilha. Não o faça como se fosse um dever - senão toda a alegria desaparece. E não se sinta obsequioso em relação aos outros, nunca, nem por um único momento. O amor nunca é constrangimento. Pelo contrário, quando alguém recebe o seu amor, você sente-se obsequiado. O amor é grato quando recebido.

O amor nunca espera ser recompensado ou mesmo agradecido. Se o agradecimento surge do outro lado, o amor surpreende-se sempre – é uma surpresa agradável, visto não ter expectativas.

Não se pode frustrar o verdadeiro amor, visto não existirem quaisquer expectativas inicialmente. E não se pode satisfazer o amor irreal, porque este está tão enraizado em expectativas que, independentemente do que se faça, a sua realização fica sempre aquém do que se esperava. As expectativas são demasiado elevadas e ninguém as consegue satisfazer. Assim, o amor irreal traz consigo frustração e o verdadeiro amor, satisfação.

Quando digo “seja um servo do amor”, não pretendo que se torne um escravo de alguém que ame, não, nada disso. Não pretendo que seja cativo de um amor. O que quero dizer é que seja servo do amor. O conceito puro de amor deve ser venerado. O seu amado é somente uma das formas deste conceito e toda a existência contém milhões de formas desta ideia perfeita. A flor é uma ideia, uma forma, a Lua outra, o seu amado ainda outra… o seu filho, a sua mãe, o seu pai, todos são formas, ondas no oceano do amor. Mas nunca se torne servo de um amor. Lembre-se sempre de que o seu amado é só uma minúscula manifestação.

Sirva o amor através do amado, para que nunca fique prisioneiro dele. E quando alguém não é prisioneiro do amante, o amor atinge o seu auge. No

Amor, Liberdade e Solidão

Capítulo 2

Real e Irreal - O Primeiro Passo

Ama-te a ti mesmo e observa - hoje, amanhã, sempre.

Iniciamos com um dos mais profundos ensinamentos de Gautama, o Buda:

Ama-te a ti mesmo.

Precisamente o oposto do que lhe tem sido ensinado em todas as tradições do mundo todas as civilizações, todas as culturas, todas as Igrejas. Todas dizem: Ama os outros, não te ames a ti próprio. E existe uma certa estratégia astuciosa subjacente a este ensinamento.

O amor é alimento para a alma. Tal como a comida é para o corpo, assim o amor é para o espírito. Sem comida o corpo enfraquece, sem amor a alma enferma. E nenhum Estado, nenhuma Igreja, nenhum interesse investido quis gente com almas fortes, pois alguém com energia espiritual tem necessariamente de ser rebelde.

O amor torna-o rebelde, revolucionário. O amor dá-lhe asas para se elevar. O amor confere discernimento perante as situações, para que ninguém possa enganá-lo, explorá-lo, oprimi-lo. E os padres e os políticos sobrevivem unicamente à custa do seu sangue; sobrevivem unicamente explorando-o.

Todos os padres e políticos são parasitas. Para o enfraquecerem espiritualmente encontraram um método seguro, cem por cento eficaz, que é ensinar-lhe a não se amar a si mesmo. Se um homem não se amar a si mesmo, não poderá amar ninguém. A lição é ardilosa - dizem "ama os outros”... porque sabem que, se não se amar a si mesmo, nunca será capaz de amar. Mas prosseguem dizendo: ''Ama os outros, ama a Humanidade, ama Deus. Ama a Natureza, ama a tua mulher, ama o teu marido, ama os teus filhos, ama os teus pais." Mas nunca ama-te a ti mesmo - porque, na sua perspetiva, amar-se a si próprio é egoísmo. Condenam mais o amor-próprio do que qualquer outra coisa.

E souberam fazer o seu ensinamento parecer muito lógico. Dizem: "Se te amares a ti mesmo tornas-te egoísta, se te amares a ti mesmo comas-te narcisista." Isso não é verdade.

Alguém que se ame a si mesmo descobre que não tem ego em si. É no amor aos outros, sem se amar a si próprio mas a tentar amar os outros, que o ego desperta. Os missionários, os reformadores sociais, os servidores públicos têm os maiores egos do mundo - naturalmente por acreditarem ser seres humanos

Amor, Liberdade e Solidão

superiores. Não são pessoas comuns – gente comum ama-se a si mesma. Eles amam os outros, amam grandes ideais, amam Deus.

E todo o seu amor é falso, porque todo o seu amor é desprovido de raízes. Alguém que se ame a si mesmo dá o primeiro passo na direção do amor verdadeiro. É como atirar um seixo num lago sereno: imediatamente se cria uma onda circular a partir da pedra, junto ao ponto de impacto - naturalmente, de onde poderia surgir? E, então, esta começa a espalhar-se atingindo as margens mais longínquas. Se interromper a onda de impacto junto ao seixo, deixa de haver agitação, deixa de haver ondulação. Então não pode esperar que as ondas atinjam margens distantes; é impossível.

Os sacerdotes e os políticos estão conscientes do fenómeno: impedindo as pessoas de ter amor-próprio, terão eliminado a sua capacidade de amar. Então, aquilo que acreditarem ser amor será um sucedâneo. Será um dever, mas não amor - e amor é uma palavra sórdida de quatro letras. Os pais cumprem o seu dever em relação aos filhos e estes, em compensação, cumprem os seus deveres em relação aos pais. A mulher é atenciosa com o marido e o marido atencioso com a mulher. E o amor onde fica?

O amor desconhece o dever. A obrigação é um fardo, uma formalidade. Amor é alegria, partilha; o amor é informal. O amante nunca sente ter feito o suficiente; o amante sente que poderia ter feito mais. O amante nunca sente "Ele é-me devedor". Pelo contrário, sente: "Visto o meu amor ter sido aceite, eu tenho responsabilidades. Ele favoreceu-me recebendo a minha dádiva, não a rejeitando.”

O homem respeitável pensa: "Eu sou mais elevado, espiritual, extraordinário. Vejam como sirvo os outros!" Estes servos da comunidade são os maiores mitómanos do mundo e, igualmente, os mais maldosos. Se nos conseguirmos livrar dos servidores públicos, a humanidade ficará livre da opressão, sentir-se-á mais leve, poderá dançar de novo, cantar uma vez mais.

Mas há séculos as suas raízes foram cortadas, envenenadas. Foi desenvolvendo o medo a cada ser com amor-próprio - que é o primeiro passo para o amor e a sua primeira experiência. Um homem com amor-próprio respeita-se a si mesmo. E aquele que se ama e respeita a si mesmo, respeita os outros porque sabe: "Tal como sou, também são os outros. Tal como desfruto do amor, respeito e dignidade, também os outros o fazem." Ele ganha consciência de que não divergimos no que diz respeito a aspetos fundamentais: somos unos. Estamos sob a mesma lei. Buda diz: Vivemos sob a mesma lei universal - aes dhammo sanantano. Se nos pormenores somos um pouco diferentes dos outros - o que traz em si diversidade, o que é belo -, na nossa génese fazemos parte de uma mesma natureza.

Amor, Liberdade e Solidão

envenenado. Foi envenenado com o leite materno - e assim foi todo o seu passado. A Humanidade tem vivido sobre uma nuvem escura, escura de autocondenação. Condenando-se a si mesmo, como pode crescer? Como pode amadurecer? E, condenando-se a si mesmo, como pode adorar existir? Se não conseguir adorar a existência dentro de si, tornar-se-á incapaz de adorar a existência nos outros; ser-lhe-á impossível.

Poderá tornar-se parte do todo se tiver grande respeito pelo Deus que habita em si. Você é o hospedeiro, Deus é o seu convidado. Ao amar-se a si mesmo, saberá isto: Deus escolheu-o como veículo. Escolhendo-o como veículo já o respeita, ama-o. Ao criá-lo já demonstra o Seu amor por si. Não o fez por acidente; fê-lo com um destino próprio, com um potencial determinado, com a promessa de uma glória que deverá alcançar. Sim, Deus criou o homem à Sua imagem. O homem tem de se tornar um Deus. Se o homem não se tornar um Deus, não se realizará, não terá satisfação.

Mas como poderá associar-se a Deus? Os seus sacerdotes dizem que você é um pecador. Os seus sacerdotes dizem que está condenado, destinado ao inferno. E fazem com que tenha muito medo de se amar a si mesmo. Este é o seu truque, cortar a própria raiz do amor. E são pessoas muito astutas. A profissão mais astuciosa do mundo é o sacerdócio. Então, dizem: "Ama os outros." Mas agora essa afirmação será plástica, sintética, uma pretensão, uma encenação.

Dizem: ''Ama a humanidade, a tua pátria, a tua terra, a vida, a existência, Deus." Belas palavras, mas completamente sem sentido. Alguma vez se cruzou com a humanidade? Sempre se cruzou com seres humanos - e condenou o primeiro ser humano que encontrou, ou seja, você.

Não se respeitou, não se amou. Agora toda a sua vida é desperdiçada condenando os outros. Por isso as pessoas são excelentes críticos das fraquezas alheias. Encontram falhas em si próprias - como podem evitar encontrar falhas nos outros? De facto, encontram-nas e ampliam-nas, tornam-nas o maior possível. Parece ser a única saída; o único modo para salvar a face, você tem de o fazer. Por isso há tanta crítica e tanta falta de amor.

Digo-lhe que este é um dos mais profundos sutras^1 de Buda, e só uma pessoa desperta pode dar-lhe este conhecimento.


1 Sutras – Termo sânscrito que define a unidade básica das escrituras budistas. Referência à reflexão de Buda acerca de um determinado tema. (N. do T.)

Ele diz Ama-te a ti mesmo... Isto pode ser o fundamento de uma transformação radical. Não receie amar-se a si mesmo. Ame-se totalmente, e ficará surpreendido: no dia em que se conseguir livrar de toda a

Amor, Liberdade e Solidão

autocondenação, de toda a autodesconsideração - no dia em que se livrar da ideia de pecado original, no dia em que se sentir digno e amado por existir - esse será um dia abençoado. A partir desse dia começará a ver os outros com a sua verdadeira luz e terá compaixão. E não será uma compaixão cultivada, será uma corrente natural e espontânea.

Uma pessoa com amor-próprio pode facilmente tornar-se meditativa, pois a meditação significa estar consigo próprio. Se não gostar de si - como agora, como lhe disseram para fazer e como tem feito religiosamente -, se se detestar, como pode estar bem consigo? E meditação nada mais é do que apreciar a sua maravilhosa solidão. Celebre-se; é sobre isso que é a meditação.

Meditação não é relação; o outro não é necessário, cada um é autossuficiente. Cada um envolve-se na sua própria glória, envolve-se na sua própria luz. É simplesmente feliz por estar vivo, porque é.

O maior milagre do mundo é o que você é, o que eu sou. Ser é o maior milagre - e a meditação abre as portas a este grande milagre. Mas só um homem que tenha amor-próprio pode meditar; de outro modo, estará sempre a escapar- se de si mesmo, a evitar-se. Quem quer encarar uma cara feia e quem quer assimilar um ser feio? Quem quer mergulhar profundamente na sua própria lama, na sua própria escuridão? Quem quer entrar no inferno que acredita ser ele próprio? Você quer manter tudo isto coberto com belas flores e escapar sempre de si mesmo.

Daí que as pessoas estejam sempre em busca de companhia. Como não conseguem estar consigo próprias, querem estar com os outros. As pessoas procuram qualquer tipo de companhia; se conseguirem evitar-se, qualquer um serve. Sentam-se em cinemas durante três horas, a ver qualquer coisa absolutamente estúpida. Leem um romance policial durante horas, desperdiçando o seu tempo. Leem o mesmo jornal várias vezes para se manterem ocupados. Jogam às cartas e ao xadrez só para matar o tempo - como se tivessem assim tanto tempo!

Temos pouco tempo. Temos muito pouco tempo para crescer, para ser, para nos regozijarmos.

Mas este é um dos problemas básicos criados por uma educação errada: evitar-se a si mesmo. As pessoas sentam-se em frente ao televisor, coladas às suas cadeiras, durante quatro, cinco, mesmo seis horas. O americano médio vê televisão durante cinco horas diariamente e esta doença tem-se vindo a espalhar pelo mundo. E o que vemos? O que estamos a conseguir? Queimar os olhos...

Mas isto foi sempre assim; mesmo que não existisse televisão, existiriam outras coisas. O problema é o mesmo: como evitar-se por se sentir tão feio. E o que o tornou tão feio? A sua autodenominada gente de religião, os seus papas,

Amor, Liberdade e Solidão

Então ele leu o sutra de novo e disse, com um olhar desconcertado: "Tenho lido o Dhammapada toda a minha vida e devo ter lido este sutra milhares de vezes. É a minha oração diária ler o Dhammapada, posso repeti-lo de memória, mas nunca pensei que ‘ama-te a ti mesmo’ fosse o primeiro passo para a meditação e que observar fosse a segunda parte."

E o mesmo se passa com milhares de budistas por todo o mundo – e o mesmo acontece com os neobudistas, porque no Ocidente o budismo está a disseminar-se. O tempo de Buda chegou ao Ocidente - agora o Ocidente está pronto para compreender Buda, e o mesmo erro aconteceu aqui. Ninguém pensa que amar-se a si mesmo tem de ser o fundamento de conhecer-se a si mesmo, de estar atento a si mesmo... porque, a menos que tenha amor-próprio, não pode enfrentá-lo. Evitá-lo-á. A observação pode ser um meio de se evitar.

Primeiro: Ame-se a si mesmo e observe - hoje, amanhã, sempre.

Crie uma energia de amor à sua volta. Ame o seu corpo, ame a sua mente. Ame todo o seu mecanismo, todo o seu organismo. Por "amor" entenda aceitar- se como é. Não se reprima. Só nos reprimimos quando detestamos algo, só nos reprimimos quando estamos contra algo. Não se reprima, porque, reprimindo- se, como irá observar? E não podemos olhar nos olhos do nosso inimigo; só conseguimos olhar nos olhos dos nossos amados. Se não se amar a si mesmo, não poderá olhar-se nos seus próprios olhos, no seu próprio rosto, na sua própria realidade.

Observar é meditar, esta é a palavra de Buda para meditação. Observa é o lema de Buda. Ele diz: acautela-te, está alerta, não sejas inconsciente. Não te comportes como um sonâmbulo. Não funciones como uma máquina, como um robot. É assim que as pessoas estão a funcionar.

Mike tinha-se mudado para um apartamento e decidiu que devia travar conhecimento com o vizinho da frente. Quando a porta se abriu, teve a agradável surpresa de ver uma jovem loura lindíssima cujas curvas se distinguiam num robe curto, transparente.

Mike olhou-a de frente e titubeou: "Olá! Sou o seu novo açúcar da frente - pode emprestar-me uma chávena de vizinha?"

As pessoas vivem de modo inconsciente. Não têm consciência do que estão a dizer, do que estão a fazer - não estão atentas. As pessoas procuram adivinhar, não procuram ver; não têm qualquer discernimento, não podem ter. O discernimento surge unicamente através de uma grande vigilância; então poderá ver com os olhos fechados. Neste momento você nem consegue ver com eles abertos. Você adivinha, você infere, você ilude-se, você projeta.

Grace está deitada no divã do psiquiatra.

Amor, Liberdade e Solidão

"Feche os olhos, relaxe", diz o psiquiatra, "e tentarei uma experiência”. Ele tira um chaveiro de couro do bolso, abre-o e agita as chaves. "O que é que este som lhe lembra?", pergunta. "Sexo", murmura ela. Então ele fecha o chaveiro e toca na palma da mão da rapariga. O seu corpo fica rígido. "E isto?", pergunta o psiquiatra. "Sexo", murmura Grace, agitadamente. "Agora abra os olhos", instrui o médico, "e diga-me o que fiz que fosse sexualmente evocativo para si." Hesitante, com as pálpebras abertas e trémulas, Grace viu o chaveiro na mão do psiquiatra e corou profundamente. "Bom... aah... para começar", gaguejou, "pensei que o primeiro som era o abrir do fecho das suas calças..."

A sua mente está constantemente a projetar - a projetar-se. A sua mente está constantemente a interferir com a realidade, colorindo-a, moldando-a e formando-a de modo próprio. A sua mente nunca lhe permite ver a realidade; permite-lhe ver somente o que você quer ver.

Os cientistas pensavam que os olhos, os ouvidos, o nariz e os outros sentidos, bem como a nossa mente, não eram mais do que portais para a realidade, pontes para o real. Mas hoje já não pensam assim. Hoje dizem que todos os nossos sentidos e mente não se encontram abertos ao real, ao invés defendem-nos dele. Somente dois por cento da realidade consegue ultrapassar estas defesas; noventa e oito por cento do real é mantido de fora. E os dois por cento que atingem a sua mente e o seu ser não são o mesmo real. Ao passar por tantas defesas, tem de se confrontar com tantos processos mentais que, quando finalmente o atingem, já não é o mesmo.

Meditação significa pôr a mente de lado para que não interfira com a realidade e para que você possa ver as coisas como elas são.

Mas por que é que a mente interfere? Porque a mente foi criada pela sociedade. É um agente da sociedade dentro de si; lembre-se de que não está ao seu serviço! É a sua mente, mas não está ao seu serviço, ela conspira contra si. Foi condicionada pela sociedade; a sociedade inculcou muitas coisas nela. É a sua mente, mas já não funciona para o servir, funciona como um agente da sociedade. Se for cristão, funciona como um agente da Igreja cristã, se for hindu, a sua mente é hindu, se for budista, a sua mente é budista. E a realidade nunca é cristã, hindu ou budista; a realidade é simplesmente ela própria.

Tem de colocar estas mentes de lado: a mente comunista, a mente fascista, a mente católica, a mente protestante... Existem trezentas religiões na Terra - grandes religiões e pequenas religiões e pequeníssimas seitas e seitas dentro de seitas - trezentas ao todo. Assim, existem trezentas mentes, trezentas mentalidades - e a realidade é só uma, a existência é única, a verdade é única!

Amor, Liberdade e Solidão

Capítulo 3

As Virtudes do Egoísmo

Lembre-se: se você não for egoísta não poderá ser altruísta. Lembre-se: se você não for egoísta nunca poderá ser generoso. Só uma pessoa profundamente egoísta pode ser altruísta. Mas isto tem de ser clarificado, pois parece um paradoxo.

Qual é o significado de ser egoísta? A forma mais básica é ser egocêntrico. A segunda é procurar sempre a sua felicidade pessoal. Se você for egocêntrico, será egoísta, independentemente do que faça. Poderá servir os outros, mas fá- lo-á porque lhe dá prazer, porque gosta de o fazer, porque se sente feliz e afortunado por o fazer - porque se sente você próprio fazendo-o. Não está a cumprir nenhum dever; não está a servir a humanidade. Não é um grande mártir; não está a fazer um grande sacrifício. Estes são termos absurdos. Você é feliz à sua maneira - é-lhe agradável. Vai para um hospital e auxilia os doentes aí internados, ou procura os pobres para os auxiliar, mas você ama o que faz. É assim que cresce. No seu interior sente-se afortunado e silencioso, feliz consigo próprio.

Uma pessoa egocêntrica procura sempre a sua própria felicidade. E aqui está a beleza, quanto mais procurar a sua felicidade mais facilmente poderá auxiliar os outros a serem felizes. Porque esta é a única forma de ser feliz no mundo. Se todos à sua volta forem infelizes, você não pode ser feliz, porque um homem não é uma ilha. É parte de um vasto continente. Se deseja ser feliz, deverá ajudar os que o rodeiam a serem felizes. Então - e só então -, você poderá ser feliz.

Você tem de criar a atmosfera de felicidade à sua volta. Se todos estão infelizes, como consegue ser feliz? Ficará afetado. Você não é uma pedra, você é um ser muito delicado, muito sensível. Se todos à sua volta forem infelizes, a sua infelicidade afetá-lo-á. A infelicidade é tão infeciosa como qualquer doença. A felicidade é tão infeciosa como qualquer doença. Se ajudar os outros a serem felizes, em última análise está a ajudar-se a ser feliz. Alguém que esteja interessado na sua felicidade está sempre interessado na felicidade alheia - mas não por eles. Bem no fundo está interessado em si, é por isso que auxilia. Se no mundo todos forem ensinados a ser egoístas, todos serão felizes. Não haverá espaço para a infelicidade.

Se deseja ser saudável não poderá viver entre pessoas doentes. Como poderá ser saudável? Será impossível, é contra as leis da natureza. Você tem de ajudar os outros a serem saudáveis. Na saúde, a sua saúde será possível.

Ensine todas as pessoas a serem egoístas - a generosidade desenvolver- se-á depois. A generosidade é, em última análise, egoísmo – pode parecer

Amor, Liberdade e Solidão

altruísmo, inicialmente, mas finalmente irá preenchê-lo. E então a felicidade pode multiplicar-se; quanto mais pessoas felizes o rodearem, maior felicidade cairá sobre si. Poderá tornar-se supremamente feliz.

E uma pessoa feliz é tão feliz que quer ficar só para ser feliz. Quer preservar a sua privacidade. Quer viver com as flores, a poesia, a música. Para que haveria de maçar-se a ir para guerras, ser morto e matar? Para quê ser homicida ou suicida? Só pessoas generosas fazem isto, porque nunca conheceram a felicidade que podem alcançar. Nunca tiveram nenhuma experiência do que é ser , do que é celebrar. Nunca dançaram, nunca respiraram vida. Nunca tiveram nenhum vislumbre do divino; esses vislumbres provêm de uma profunda felicidade, de uma profunda saciedade, de felicidade.

Uma pessoa generosa está desenraizada, desconcentrada. Está numa neurose profunda. É contra a natureza; não pode ser saudável e una. Luta contra a corrente da vida, do ser, da existência- tenta ser generosa.

Quando se é feliz pode-se partilhar; quando não se tem, como se partilha? Em primeiro lugar, para partilhar, deve-se ter. Uma pessoa altruísta é sempre séria, profundamente doente, angustiada. Perdeu-se da sua própria vida. Lembre-se: sempre que se perde da sua vida, você torna-se homicida, suicida. Sempre que alguém vive na infelicidade, gostará de destruir.

A infelicidade é destrutiva, a felicidade é criativa. Só existe uma criatividade e essa provém da bem-aventurança, da alegria, do encantamento. Quando se está encantado quer-se criar algo - talvez um brinquedo para crianças, talvez um poema, um quadro, algo. Sempre que está muito encantado com a vida, como o deve exprimir? Criando algo – uma coisa ou outra. Mas, quando está infeliz, quer esmagar, destruir algo. Você quer ser político, quer ser soldado – quererá criar uma situação onde possa ser destrutivo.

Daqui provêm todas as guerras que eclodem algures no planeta. É uma grave doença. E todos os políticos que continuam a falar de paz preparam-se para a guerra e falam de paz. De facto, dizem: "Estamos a preparar-nos para a guerra para preservar a paz." Irracional! Se você se preparar para a guerra, como pode preservar a paz? Para preservar a paz, devemos preparar-nos para a paz.

Por isso, em todo o mundo, a nova geração é um perigo tão grande para o sistema. Estão unicamente interessados em ser felizes. Estão interessados no amor, estão interessados na meditação, estão interessados na música, na dança... Os políticos estão alerta em todo o mundo. A nova geração não se interessa por política - esquerda ou direita. Não, estão completamente desinteressados. Não são comunistas; não pertencem a nenhum ismo.

Uma pessoa feliz pertence a si própria. Por que há-de pertencer a alguma organização? Esse é o caminho de alguém infeliz: pertencer a uma organização,