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Aululária texto teatral, Manuais, Projetos, Pesquisas de Teatro

Peça de Plauto, autor romano de comédia/farsa

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2020

Compartilhado em 18/05/2020

susan-lopes
susan-lopes 🇧🇷

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AULULÁRIA
(Comédia da Panela)
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AULULÁRIA

(Comédia da Panela)

PERSONAGENS

O Deus Lar

Eucliao,^1 um velho

Estáfila,^2 escrava de Euclião

Megadoro,^3 um velho rico

Eunômia,^4 irmã de Megadoro

Licônidas,^5 filho de Eunômia

Fedra,^6 filha de Euclião

Estrobilo,^7 escravo de Megadoro

Antraz,^8 escravo cozinheiro Congrião,^9 escravo cozinheiro

Pitódico,^10 escravo

Dromão,^11 Macrião^12 A ação passa-se em Atenas

1. Euclião: “que tem glória (ou boa fama)”. 2. Estáfila: “que é uma vinha”. 3. Megadoro: “que possui grandes bens” ou “que tem muitas qualidades”. 4. Eunômia: "que tem boas leis (ou bom pensamento)”. 5. Licônidas: “que é como lobo”. 6. Fedra: “que é alegre (ou brilhante)”. 7. Estrobilo: “o pião”. 8. Antraz: “a brasa” ou “o antraz". 9. Congrião: “o grande congro”. 10. Pitódico: “que dá bons conselhos”. 11. Dromão: “que corre muito”. 12. Macrião: “que é muito magro”.

nho ou com qualquer outra coisa; oferece-me coroas; para lhe mostrar o meu agradecimento fiz que Euclião encontrasse o tesouro para que mais facilmente pu desse casá-la, se tal fosse seu desejo. Efetivamente seduziu-a um jovem de boa família; o moço sabe quem é aquela que ele seduziu; ela, porém, não o conhece e o pai também não sabe que ela foi seduzida. Vou hoje fazer que um velho seu vizinho (mostrando a casa de Megadoro) a peça em casamento e isto para que mais depressa se case com ela aquele que a seduziu. O velho que a pedirá por esposa é tio do moço que a desonrou de noite, durante as vigílias de Ceres. Mas já o velho está a gritar lá dentro, como de costume. Põe fora a velha para que ela não saiba de nada. Acho que está com vontade de ir ver se lhe não tiraram o ouro.

ATO I

EUCLIÃO, ESTÁFILA

Euclião: Já lá para fora, vamos! Lá para fora, já disse! Tens que ir mesmo lá para fora, minha espia, sempre de olho esbugalhado!

Estáfila: Ah, pobre de mim! Por que é que me bates?

Euclião: Para que sejas mesmo uma “pobre de mim!” e para que, por seres má, tenhas a má vida que é digna de ti.

Estáfila: Mas por que é que me puseste assim fora de casa?

Euclião: Terei eu que te dar alguma explicação, mi nha arca de pancada? Sai para longe da porta. Para ali, se quiseres. (Mostra-lhe o lado oposto à casa.) Ora vejam, como ela anda! E agora, sabes tu o que há? Por Hércules! se hoje pego num pau ou num chi cote, acho que te vou alargar esse passo de tartaru ga!

Estáfila (á parte): Era bem melhor que os deuses me enforcassem do que fazer-me servir-te a troco disto.

Euclião: Olha esta malvada, como resmunga lá consi go! Por Hércules, ainda te vou arrancar os olhos, mi

Euclião: Pois, como se agora por tua causa Júpiter fi zesse de mim um rei Filipe ou um Dario! Grande megera! Eu quero que me guardes as minhas ara nhas. Confesso que sou pobre: mas suporto a pobre za. Aceito o que os deuses me dão. Vai lá para den tro. Fecha a porta. Eu volto já. Cuidado, não deixes entrar nenhum estranho em casa.

Estáfila: E se vier alguém por brasas?

Euclião: Para que ninguém tas venha pedir, apaga já o lume. Se ficar aceso és tu que te apagas logo. Se alguém vier pedir água dizes que se derramou. Se vierem pedir facas ou machado ou pilão ou almofariz, dessas coisas de que os vizinhos sempre precisam, dirás que vieram os ladrões e que roubaram tudo. Mas principalmente o que eu não quero é que entre alguém em minha casa enquanto eu estou ausente. E até te digo mais: mesmo que a Sorte venha não a deixes entrar.

Estáfila: Por Pólux, acho que ela tomará cuidado em não vir; nunca se aproximou da nossa casa, embora more na vizinhança.

Euclião: Cala-te e vai lá para dentro.

Estáfila: Calo-me e vou lá para dentro.

Euclião: Vê lá se fechas a porta com os dois ferrolhos. Eu volto já. (Estáfila sai.) Estou inquietíssimo por me ter de afastar de casa. Por Hércules, vou mesmo contra vontade. Mas sei que tenho que fazer. O chefe da nossa cúria^2 disse que ia distribuir dinheiro pelos homens. Se eu não for lá e não reclamar a minha parte, todos vão julgar, creio eu, que tenho ouro em

  1. Cúria: uma das divisões civis do povo romano.

casa. Não é verossímil que um homem pobre des preze o que lhe dão, mesmo que seja pouco. E mesmo agora, quando faço o possível por ocultá-lo a todos, parece que todos o sabem, e que todos me saúdam com mais amabilidade do que dantes. Aproximam-se, param, estendem a mão. Per guntam-me como vou de saúde, de que ando a tratar e como vão as minhas coisas. Mas deixa-me ir aonde tenho de ir. Depois, voltarei para casa o mais depressa que puder. (Sai.)

Megadoro: Se disseres que não, eu digo também que não!

Eunômia: O que é decente é que digas a verdade. Realmente não há nenhuma que se possa chamar de admirável: olha, meu irmão, cada uma é pior que as outras.

Megadoro: Eu acho o mesmo. E não é nisso, minha irmã, que eu te vou contrariar.

Eunômia: Então, farás favor de me escutar.

Megadoro: O que tu quiseres. Deixa-te estar à von tade e ordena o que te apetecer.

Eunômia: Eu vim para te dar um conselho que acho que será o melhor para os teus interesses.

Megadoro: Foi sempre esse o teu costume, minha ir mã.

Eunômia: O que eu quero...

Megadoro: Então que é, minha irmã?

Eunômia: Uma coisa que assegure para sempre a tua vida, teres filhos, se os deuses quiserem... Quero arranjar-te um casamento.

Megadoro: Ai de mim! Estou perdido!

Eunômia: Então que é isso?

Megadoro: As tuas palavras, minha irmã, rebentam- me a cabeça: o que falas é como pedra.

Eunômia: Vamos, faz aquilo que te manda tua irmã.

Megadoro: Se me agradar, faço.

Megadoro: Só morrendo antes de me casar. Mas se tu queres que eu me case, estou disposto também a fazê-lo, com esta condição: ela chega amanhã e no dia seguinte levam-na para fora de casa. Se é com estas condições que tu achas bem, então podes vir e preparar o casamento.

Eunômia: Eu posso arranjar-te, mano, um dote enorme. Que ela é mais velha, mas é uma mulher de meia- idade. Se quiseres que eu ta peço em casamento, eu peço.

Megadoro: Tu deixas que eu te faça uma pergunta?

Eunômia: Podes perguntar o que quiseres.

Megadoro: Quem depois de certa idade casa com mu lher de meia-idade, e já velho emprenha a velha, só pode ter um nome para a criança. Sabes qual é? Pós tumo. Ora, eu estou disposto a poupar, e evitar-te esse trabalho. Graças aos deuses e aos nossos ante passados, sou já bastante rico. E por isso não me im porto nada com os grandes luxos, as honras, os dotes faustosos, as aclamações, o poder, os carros de grande pompa, o vestuário, a púrpura, que levam os outros homens à servidão por aquilo que custam.

Eunômia: Dize-me lá, que mulher é essa com quem tu queres casar?

Megadoro: Vou dizer-te. Conheces tu Euclião, esse ve lho pobre que mora perto de nós?

Eunômia: Conheço. É um homem bem simpático, por Castor.

Eunômia: É para teu bem.

Euclião: Por Pólux, fora o dinheiro, tudo vai bem.

Megadoro: Ora, se tiveres sossego, tens tudo quanto precisas para passar bem a vida.

Euclião (à parte): Por Hércules! A velha já andou a falar do dinheiro! É tudo quanto há de mais eviden te. Quando chegar a casa vou-lhe cortar a língua e arrancar-lhe os olhos.

Megadoro: Por que é que estás aí a falar sozinho?

Euclião: Estou lamentando a minha miséria. Tenho uma filha grande, sem dote, e que não há maneira de casar. Não consigo casá-la com ninguém.

Megadoro: Cala-te. Ganha ânimo, Euclião, o que não tiveres arranja-se. Eu ajudo-te. Dize lá se é preciso alguma coisa. É só mandares.

Euclião (à parte): Isto parece promessa, mas é pedi do. Está ardendo por me devorar o dinheiro. Dum lado trás a pedra e do outro lado me mostra pão. Não creio em nenhum rico que venha com tanta ge nerosidade e tanta delicadeza para um pobre. Quando estende a mão com bondade é porque nela traz alguma rede. Eu bem conheço estes polvos que prendem tudo aquilo que tocam.

Megadoro: Escuta-me um pouco. Eu quero nalgumas palavras, Euclião, falar-te duma coisa que interessa a mim e a ti.

Euclião (à parte): Ai, pobre de mim! Com certeza me deitaram a unha ao tesouro e agora vem ter comigo para ver se chegamos a algum arranjo. Vou já ver a casa.

Megadoro: Então, de saúde mesmo?

Euclião (retirando-se): Eu volto já. Tenho que ir logo a casa.

Megadoro ( s ó ) : Por Pólux! Eu creio que quando lhe falar da filha, a ver se casa comigo, vai achar que es tou a fazer troça dele. Não há ninguém que a pobreza tenha feito mais avarento do que ele.

Euclião (à parte): Graças aos deuses, tudo está salvo. Não falta nada. Foi um susto sem motivo. Mas antes de ir lá ver estava mesmo sem pinga de sangue: (A Megadoro.) Eis-me de volta, Megadoro. vamos lá ver então o que me queres.

Megadoro: Muito obrigado. Vais fazer favor de me responder àquilo que eu te perguntar.

Euclião: Contanto que não me perguntes nada a que não me agrade responder.

Megadoro: Dize-me lá, que tal te parece a minha fami lia?

Euclião: Boa. Megadoro: E o meu caráter? Euclião: Bom. Megadoro: E os meus atos? Euclião: Nem maus, nem desonestos. Megadoro: Sabes a minha idade? Euclião: Sei que é bastante grande, exatamente como a fortuna. Megadoro: Pois eu realmente, por Pólux, sempre achei e ainda acho que tu és um cidadão sem malícia nenhuma. Euclião (à parte): Já cheirou o dinheiro. (Alto.) Que me queres tu agora?

Megadoro: Mas onde é que tu vais?

Megadoro: Não dês. Se ela tiver juízo já é dote bas tante.

Euclião: Eu digo-te isto para que não vás julgar que encontrei algum tesouro.

Megadoro: Já sei, escusas de dizer mais. Casa-a, anda.

Euclião: Está bem. (Ouve pancadas de picareta.) Mas, por Júpiter, não será que estou perdido?

Megadoro: Que tens tu?

Euclião: Que barulho foi este? Parecia um ferro! (Sai correndo.)

Megadoro: Fui eu que mandei cavar no jardim. Para onde é que foi o homem? Fugiu e não me disse nada! Trata-me de resto porque vê que eu lhe procuro a amizade. Homens são assim! Se um rico vai pedir al guma coisa ao pobre, o pobre tem medo de se com prometer e, por medo, procede mal. E só depois de perder a oportunidade é que ele se arrepende. (Eu clião reaparece.)

Euclião (à parte): Por Hércules! Se eu não te mando tirar a língua lá mesmo da raiz, então dou ordem, e tomo a responsabilidade, de que me mandes castrar.

Megadoro: Por Hércules! Vejo, Euclião, que tu julgas que eu sou um velho de que podes zombar por causa da idade. Mas olha que eu não o mereço.

Euclião: Por Pólux, Megadoro! Não faço nada disso. Nem mesmo poderia se quisesse.

Megadoro: E então, ainda estás disposto a dar-me tua filha?

Euclião: Nas condições e com aquele dote de que falei.

Megadoro: Então dás mesmo?

Euclião: Dou.

Megadoro: Que os deuses nos sejam propícios.

Euclião: Assim o queiram os deuses. Mas faze por te lembrar de que ficou combinado que minha filha não levaria nenhum dote.

Megadoro: Lembro-me, sim.

Euclião: É que eu sei que vós continuais a complicar o que se combinou. O que se combinou não se combi nou e combinou-se o que não se combinou. Enfim, à vossa vontade.

Megadoro: Entre nós não haverá discussão nenhuma. Mas há algum motivo para que não façamos hoje o casamento?

Euclião: Ah, por Pólux! Isso seria ótimo!

Megadoro: Então vamos preparar já tudo. Queres mais alguma coisa?

Euclião: Eu, nada mais.

Megadoro: Então pronto, adeus. Olá Estrobilo! Anda depressinha comigo ao mercado. (Sai.)

Euclião (só): Já lá foi. Ó deuses imortais! Realmente! A força que o dinheiro tem! Com certeza já ouviu di zer alguma coisa, a respeito do tesouro que eu tenho lá em casa. Está morto por apanhá-lo. E claro que é por isso que ele me veio com esta proposta.

ATO III

ESTROBILO, CONGRIÃO, ANTRAZ

Estrobilo. Meu amo, depois de ter feito as suas con tas e de ter levado da praça os cozinheiros e estas tocadoras, ordenou-me que repartisse tudo em duas porções.

Congrião: Por Hércules! Vou dizê-lo já: a mim é que tu não partes ao meio. Se quiseres que eu vá inteiro para qualquer parte, estou pronto.

Antraz: Olha que bonitinho! Que delicadinho, que é este menino de toda a gente! Então, se alguém qui sesse tu não te deixavas abrir pelo meio?

Congrião: O que eu disse, Antraz, tinha um sentido muito diferente do que aquele que tu queres insi nuar!

Estrobilo: Meu amo casa-se hoje.

Congrião: Com a filha de quem?

Estrobilo: Desse Euclião, nosso vizinho. E mandou- lhe dar metade dos mantimentos, um cozinheiro e uma flautista.

Congrião: Então é metade para ele (mostrando a casa de Euclião) e metade para casa?

Estrobilo: Exatamente como dizes.

Congrião: O quê? Então esse velho não podia pagar a comida do casamento da filha?

Estrobilo: Ora!

Congrião: Mas então por que é que não paga?

Estrobilo: Por que é que não paga? perguntas tu? Só te digo que a pedra-pomes não é tão seca como aquele velho.

Congrião: Mas é realmente assim como dizes?

Estrobilo: Vê só! Anda sempre a clamar por deuses e por homens e a dizer que perde tudo e que está li quidado se lhe sai dos tições um bocadinho assim de fumo. E quando vai dormir tapa sempre o fole.

Congrião: Mas por que razão?

Estrobilo: Para que, enquanto dorme, não se perca nem um bocadinho de vento.

Congrião: E ele também tapa o buraco debaixo para não perder nenhum bocadinho de vento enquanto dorme?

Estrobilo: O que tu deves é acreditar em mim como eu acredito em ti.

Congrião: Mas eu acredito.

Estrobilo: E sabes mais? Palavra que, quando se la va, até lamenta a água que está a estragar.