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Texto completo de 'o juiz de paz da rocinha', uma peça de teatro de martins pena. Contém personagens, diálogos e ação desenvolvida em várias cenas.
Tipologia: Notas de estudo
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Comédia em 1 ato Personagens JUIZ DE PAZ ESCRIVÃO DO JUIZ DE PAZ MANUEL JOÃO, lavrador (guarda nacional).MARIA ROSA, sua mulher. ANINHA. sua filha. JOSÉ (DA FONSECA), amante de Aninha. Lavradores: INÁCIO JOSÉ JOSÉ DA SILVA FRANCISCO ANTÔNIO MANUEL ANDRÉ SAMPAIO TOMÁS JOSEFA. GREGÓRIO(Negros)
(A cena é na roça.) ATO ÚNICO
CENA 1 Sala com porta porta no fundo. No meio uma mesa, junto da qual estarão cosendo MariaAninha. Rosa e
MARIA ROSA — Teu pai hoje tarda muito. ANINHA — Ele disse que tinha hoje muito que fazer. MARIA ROSA — Pobre homem! Mata-se com tanto trabalho! É quase meio-dia e ainda não voltou. Desde as quatro horas da manhã que saiu; está só com uma xícara de café.
ANINHA —Agostinho. Meu pai quando principia um trabalho não gosta de o largar, e minha mãe bem sabe que ele tem só a
MARIA ROSA — É verdade. Os meias-caras^1 agora estão tão caros! Quando havia valongo^2 eram mais baratos. ANINHA — Meu pai disse que quando desmanchar o mandiocal grande há-de comprar uma negrinha para mim. MARIA ROSA — Também já me disse. ANINHA — Minha mãe já preparou a jacuba^3 para meu pai? MARIA ROSA – É verdade! De que ia me esquecendo! Vai aí fora e traz dois limões Se o Manuel João viesse e não achasse a jacuba pronta, tínhamos campanha velha. Do que me tinha (Aninha sai.) esquecido! (Entra Aninha.) ANINHA — Aqui estão os limões. MARIA ROSA — Fica tomando conta aqui, enquanto eu vou lá dentro. (Sai) ANINHA, só — Minha mãe já se ia demorando muito. Pensava que já não poderia falar com o senhor José, que está esperando-me debaixo dos cafezeiros. Mas corno minha mãe está lá dentro, e meu pai não entra nesta meia hora, posso fazê-lo entrar aqui. Ele aí vem. (Chega à porta e acena com o lenço)
CENA II
Entra José com calça e jaqueta branca. JOSÉ — Adeus, minha Aninha! (Quer abraçá-la.) ANINHA — Fique quieto! Não gosto destes brinquedos. Eu quero casar-me com o senhor, mas não quero que me abrace antes de nos casarmos. Esta gente quando vai à Corte, vem perdida. Ora diga-me, concluiu a venda do bananal que seu pai lhe deixou?
JOSÉ — Concluí. ANINHA — Se o senhor agora tem dinheiro, por que não me pede a meu pai? JOSÉ — Dinheiro? Nem vintém! ANINHA — Nem vintém! Então o que fez do dinheiro? É assim que me ama? (Chora.)
(^12) Denominam-se os escravos contrabandeados vendidos depois da proibição do tráfico. 3 Denominam-se os escravos vendidos legalmente do mercado da rua do Valongo.Bebiba feita de água, farinha de mandioca, açúcar e mel.
ANINHA — Em pé? E não cai? JOSÉ — Não. Outros fingem-se bêbados, jogam os socos, fazem exercício — e tudo isto sem caírem. E há um macaco chamado o macaco Major, que é coisa de espantar. ANINHA — Há muitos macacos lá? JOSÉ — Há, e macacas também. ANINHA — Que vontade tenho eu de ver todas estas coisas! JOSÉ — Além disto há outros muitos divertimentos. Na Rua do Ouvidor há um cosmorama, na Ruade São Francisco de Paula outro, e no Largo uma casa aonde se vêem muitos bichos cheios, muitas conchas, cabritos com duas cabeças, porcos com cinco pernas, etc. ANINHA — Quando é que você pretende casar-se comigo? JOSÉ — O vigário está pronto para qualquer hora. ANINHA — Então, amanhã de manhã. JOSÉ — Pois sim. (Cantam dentro.) ANINHA — Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que ele te veja. JOSÉ — Adeus, até amanhã de manhã. ANINHA — Olhe lá, não falte! (Sai José)
CENA III
ANINHA,ouve senão os sapos e as entanhas cantarem. Teatros, mágicas, cavalos que dançam, cabeças com só — Como é bonita a Corte! Lá é que a gente se podo divertir, e não aqui, aonde não se dois cabritos, macaco major ....... Quanta coisa! Quero ir para a Corte!
CENA IV
Entra Manuel João com uma enxada no ombro, vestido de calças de gangapernas arregaçada, japona de baeta (^5) azul e descalço. Acompanha-os um negro com um cesto na^4 azul, com uma das cabeça e uma enxada no ombro, vestido de camisa e calça de algodão.
(^45) Tecido grosseiro de algodão. Tecido felpudo de lã.
ANINHA — Abença, meu pai. MANUEL JOÃO — Adeus, rapariga. Aonde está tua mãe? ANINHA — Está lá dentro preparando a jacuba. MANUEL JOÃO — negro:) Olá, Agostinho, leva estas enxadas l Vai dizer que traga, pois estou com muito calor.á para dentro e vai botar este café no sol. (Aninha sai. M. João, para o (O preto sai. Manuel João senta-se.) Estou que não posso comigo; tenho trabalhado como um burro!
CENA V
Entra Maria Rosa com uma tigela na mão, e Aninha a acompanha. MANOEL JOÃO — Adeus, Senhora Maria Rosa. MARIA ROSA — Adeus, meu amigo. Estás muito cansado? MANUEL JOÃO — Muito. Dá-me cá isso. MARIA ROSA — Pensando que você viria muito cansado, fiz a tigela cheia. MANUEL JOÃO — Obrigado.Fiz uma derrubada do lado de Francisco Antônio... Limpei a vala de Maria do Rosário, que estava muito suja e (Bebendo) Hoje trabalhei como gente... Limpei o mandiocal, que estava muito sujo... encharcada, e logo pertendo colher café. Aninha? ANINHA — Meu pai? MANUEL JOÃO — Quando acabares de jantar, pega em um samburá 6 e vai colher o café que está à roda da casa. ANINHA — Sim senhor. MANUEL JOÃO — Senhora, a janta está pronta? MARIA ROSA — Há muito tempo. MANUEL JOÃO — Pois traga. MARIA ROSA — Aninha, vai buscar a janta de teu pai. (Aninha sai) MANUEL JOÃO — Senhora, sabe que mais? É preciso casarmos esta rapariga. MARIA ROSA — Eu já tenho pensado nisto; mas nós somos pobres, e quem é pobre não casa.
(^6) Espécie de cesto de vime.
ESCRIVÃO — Mas, meu amigo, os rebeldes têm feito por lá horrores! MANUEL JOÃO — E que quer o senhor que se lhe faça? Ora é boa! ESCRIVÃO — Não diga isto, senhor Manuel João, a rebelião... MANUEL JOÃO, gritando — E que me importa eu com isso?... E o senhor a dar-lhe... ESCRIVÃO, zangado — O senhor juiz manda dizer-lhe que se não for, irá preso. MANUEL JOÃO — Pois diga com todos os diabos ao senhor juiz que lá irei. ESCRIVÃO, à parte – Em boa hora o digas. Apre! custou-me achar um guarda... Às vossas ordens. MANUEL JOÃO — Um seu criado. ESCRIVÃO — Sentido nos seus cães. MANUEL JOÃO — Não mordem. ESCRIVÃO — Senhora Dona, passe muito bem. (Sai o Escrivão.) MANUEL JOÃO — Mulher, arranja esta sala, enquanto me vou fardar. (Sai Manuel João)
CENA VI
MARIA ROSA — Pobre homem! Ir à cidade somente para levar um preso! Perder assim um dia de trabalho... ANINHA — Minha mãe, pra que é que mandam a gente presa para a cidade? MARIA ROSA — Pra irem à guerra. ANINHA — Coitados! MARIA ROSA — Não se dá maior injustiça! Manuel João está todos os dias vestindo a farda. Orapra levar presos. ora pra dar nos quilombos... É um nunca acabar.
ANINHA — Mas meu pai pra que vai? MARIA ROSA — Porque o Juiz de Paz o obriga. ANINHA — Ora, ele podia ficar em casa; e se o Juiz de Paz cá viesse buscá-lo, não tinha mais que iscar a Jibóia e aBoca-Negra.
MARIA ROSA — És uma tolinha! E a cadeia ao depois? ANINHA — Ah, eu não sabia.
CENA VII
Entra Manuel João com a mesma calça e jaqueta de chita, tamancos, barretina da Guarda Nacional, cinturão combaioneta e um grande pau na mão.
MANUEL JOÃO, entrando — Estou fardado. Adeus, senhora, até amanhã. (Dá um abraço.) ANINHA — Abença, meu pai. MANUEL JOÃO — Adeus, menina. ANINHA — Como meu pai vai à cidade, não se esqueça dos sapatos franceses que me prometeu. MANUEL JOÃO — Pois sim. MARIA ROSA — De caminho compre carne. MANUEL JOÃO — Sim. Adeus, minha gente, adeus. MARIA ROSA e ANINHA — Adeus! (Acompanham-no até a porta.) MANUEL JOÃO, à porta — Não se esqueça de mexer a farinha e de dar que comer às galinhas. MARIA ROSA — Não. Adeus! (Sai Manuel João.)
CENA VIII
MARIA ROSA — Menina, ajuda-me a levar estes pratos para dentro. São horas de tu ires colher o café e de eu ir mexera farinha... Vamos.
ANINHA — Vamos, minha mãe. CENA IX (Andando:) Tomara que meu pai não se esqueça dos meus sapatos... (Saem.)
Sala em casa do Juiz de Paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras. Entra o Juiz de Paz vestido decalça branca, rodaque (^7) de riscado, chinelas verdes e sem gravata.
JUIZ — Vamo-nos preparando para dar audiência. (Arranja os papéis.) O escrivão já tarda; sem dúvida está na venda do Manuel do Coqueiro... O último recruta que se fez já vai-me fazendo peso. (^7) Tipo de casaco.
GREGÓRIO — É mentira, Sr. Juiz de Paz, eu não dou umbigadas em bruxas. JOSEFAumbigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar. — Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma
JUIZ — Nada, nada, não é preciso; eu o creio. JOSEFAcontar a meu marido. — Sr. Juiz, não é a primeira umbigada que este homem me dá; eu é que não tenho querido
JUIZ — Está bom, senhora, sossegue. Sr. Inácio José, deixe-se destas asneiras, dar umbigadas não écrime classificado no Código. Sr. Gregório, faça o favor de não dar mais umbigadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queiram-se retirar. INÁCIO JOSÉ, para Gregório — Lá fora me pagarás. JUIZ — Estão conciliados. (Inácio José, Gregório e Josefa saem.) Sr. Escrivão, leia outro requerimento. ESCRIVÃO, lendo — “O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V.Sa. por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, Ilmo Sr. Juiz de Paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio,aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vem de encaixe, peço a V. Sa. o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi compradocom o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras coisas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, Sr. Juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V. Sa. para vir assistir à marcação do sítio.Manuel André. Espera receber mercê.”
JUIZ — Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão. MANUEL ANDRÉ — Mas, Sr. Juiz, ele também está ocupado com uma plantação. JUIZ — Você replica? Olhe que o mando para a cadeia. MANUEL ANDRÉ — Vossa Senhoria não pode prender-me à toa: a Cons tituição não manda. JUIZ — A Constituição!... Está bem!... Eu, o Juiz de Paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr.Escrivão, tome termo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender este homem.
MANUEL ANDRÉ — Isto é uma injustiça! JUIZ — Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias... MANUEL ANDRÉ — É desaforo...
JUIZ, levantando-se — Brejeiro!... ( Manuel André corre; o Juiz vai atrás. ) Pega... Pega... Lá se foi... Que o leve o diabo. (Assenta-se.) Vamos às outras partes. ESCRIVÃO,porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás lendo — Diz João de Sampaio que, sendo ele “senhor absoluto de um leitão que teve a pela parte de trás, e com a sem-ceremônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa. porque nunca vium porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V. Sa. não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquelamesma que escapou de morder a V. Sa. naquela noite, depois que lhe dei uma tunda, nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V. Sa. quemande entregar-me o leitão. Espero receber mercê.”
JUIZ — É verdade, Sr. Tomás, o que o Sr. Sampaio diz? TOMÁS — É verdade que o leitão era dele, porém agora é meu. SAMPAIO — Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu? TOMÁS — É meu, tenho dito. SAMPAIO — Pois não é, não senhor_. (Agarram ambos no leitão e puxam, cada um para sua banda.)_ JUIZ, levantando-se — Larguem o pobre animal, não o matem! TOMÁS — Deixe-me, senhor! JUIZ — Sr. Escrivão, chame o meirinho. (Os dois apartam-se) Espere. Sr. Escrivão, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem. TOMÁS — Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer. JUIZ — Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas. E que diz o Sr. Sampaio? SAMPAIO — Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceita, fico contente. JUIZ — Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatrodedos! Com efeito! Ora. Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilha!
TOMÁS — Se Vossa Senhoria quer, posso mandar algumas. JUIZ — Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é? TOMÁS , tomando o leitão — Sim senhor. JUIZ — Podem se retirar, estão conciliados.
JOSE DA SILVA — Eu lhe mostrarei, deixe estar. JUIZ — Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado. JOSÉ DA SILVA, com humildade — Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o piquira.^9 JUIZ — Pois bem, retirem-se; estão conciliados. (Saem os dois.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me! MANUEL JOÃO, dentro — Dá licença? JUIZ — Quem é? Pode entrar. MANUEL JOÃO, entrando — Um criado de Vossa Senhoria. JUIZ — Oh, é o senhor? Queira ter a bondade de esperar um pouco, enquanto vou buscar o preso. (Abre uma porta do lado.) Queira sair para fora.
CENA XII
Entra José. JUIZ — Aqui está o recruta; queira levar para a cidade. Deixe-o no quartel do Campo de Santana e vá levar esta parte ao general. (Dá-lhe um papel.) MANUEL JOÃO — Sim senhor. Mas, Sr. Juiz, isto não podia ficar para amanhã? Hoje já é tarde, pode anoitecer no caminho e o sujeitinho fugir. JUIZ — Mas aonde há de ele ficar? Bem sabe que não temos cadeias. MANUEL JOÃO — Isto é o diabo! JUIZ — Só se o senhor quiser levá-lo para sua casa e prendê-lo até amanhã, ou num quarto, ou na casa da farinha. MANUEL JOÃO — Pois bem, levarei. JUIZ — Sentido que não fuja. MANUEL JOÃO — Sim senhor. Rapaz, acompanha-me. (Saem Manuel João e José.)
CENA XIII
(^9) Cavalo pequeno.
JUIZ — Agora vamos nós jantar.gentes pensam que um juiz é de ferro! Entre quem é! (Quando se dispõem para sair, batem à porta.) Mais um! Estas
CENA XIV
Entra Josefa com três galinhas penduradas na mão e uma cuia com ovos. JUIZ — Ordena alguma coisa? JOSEFA — Trazia este presente para o Sr. Juiz. Queira perdoar não ser coisa capaz. Não trouxe mais porque a peste deu lá em casa, que só ficaram estas que trago, e a carijó que ficou chocando. JUIZ — Está bom; muito obrigado pela sua lembrança. Quer jantar? JOSEFA — Vossa Senhoria faça o seu gosto, que este é o meu que já fiz em casa. JUIZ — Então, com sua licença. JOSEFA — Uma sua criada. (Sai.)
CENA XV
JUIZ,mão abaixo. Então, que diz? com as galinhas nas mãos — Ao menos com esta visita lucrei. Sr. Escrivão, veja como estão gordas! Levam a
ESCRIVÃO — Parecem uns perus. JUIZ — Vamos jantar. Traga estes ovos. (Saem.)
CENA XVI
Casa de Manuel João. Entram Maria Rosa e Aninha com um samburá na mão. MARIA ROSA — Estou moída! Já mexi dois alqueires de farinha. ANINHA — Minha mãe, aqui está o café. MARIA ROSA — Bota aí. Aonde estará aquele maldito negro?
CENA XVII
ANINHA — Pois vamos, antes que meu pai venha. JOSÉ — Vamos. (Saem correndo.)
CENA XIX
MARIA ROSA, entrando — Ó Aninha! Aninha! Aonde está esta maldita? Aninha! Mas o que é isto? Esta porta aberta? Ah! Sr. Manuel João! Sr. Manuel João! MANUEL JOÃO, dentro — O que é lá? MARIA ROSA — Venha cá depressa. (Entra Manuel João em mangas de camisa). MANUEL JOÃO — Então, o que é? MARIA ROSA — O soldado fugiu! MANUEL JOÃO — O que dizes, mulher?! MARIA ROSA, apontando para a porta — Olhe! MANUEL JOÃO — Ó diabo!à cidade. (Chega-se para o quarto.) É verdade, fugiu! Tanto melhor, não terei o trabalho de o levar
MANIA ROSA — Mas ele não fugiu só... MANUEL JOÃO — Hein?! MARIA ROSA — Aninha fugiu com ele MANUEL JOÃO — Aninha?! MARIA ROSA — Sim. MANUEL JOÃO — Minha filha fugir com uso vadio daqueles! Eis aqui o que fazem as guerras do Rio Grande! MARIA ROSA — Ingrata! Filha ingrata! MANUEL JOÃO — Dê-me lá minha jaqueta e meu chapéu, que quero ir à casa do Juiz de Paz fazer queixa do que nos sucede. Hei de mostrar àquele mequetrefe quem é Manuel João... Vá, senhora, não esteja a choramingar.
CENA XX
Entram José e Aninha e ajoelham-se aos pés de Manuel João. AMBOS — Senhor! MANUEL JOÃO — O que é lá isso? ANINHA — Meu pai, aqui está o meu marido. MANUEL JOÃO — Teu marido?! JOSÉ — Sim senhor, seu marido. Há muito tempo que nos amamos, e sabendo que não nos daríeis o vosso consentimento, fugimos e casamos na freguesia. MANUEL JOÃO — E então? Agora peguem com um trapo quente. Está bom, levantem-se; já agoranão há remédio. (Aninha e José levantam-se. Aninha vai abraçar a mãe.) ANINHA — E minha mãe, me perdoa? MARIA ROSA — E quando é que eu não hei de perdoar-te? Não sou tua mãe? (Abraçam-se.) MANUEL JOÃO — É preciso agora irmos dar parte ao Juiz de Paz que você já não pode ser soldado, pois está casado. Senhora, vá buscar minha jaqueta_. (Sai Maria Rosa.)_ Então o senhor conta viver à minha custa, e com o meu trabalho? JOSÉ — Não senhor, também tenho braços para ajudar; e se o senhor não quer que eu aqui viva, irei para a Corte. MANUEL JOÃO — E que vai ser lá? JOSÉ — Quando não possa ser outra coisa, serei ganhador da Guarda Nacional. Cada ronda rende um mil-réis e cada guarda três mil-réis. MANUEL JOÃO — Ora, vá-se com os diabos, não seja tolo. (Entra Maria Rosa com a jaqueta e chapéu, e de xale.) MANIA ROSA — Aqui está. MANUEL JOÃO, depois de vestir a jaqueta — Vamos pra casa do juiz. TODOS — Vamos. (Saem.)
CENA XXI
Casa do Juiz. Entra o Juiz de Paz e o Escrivão. JUIZ — Agora que estamos com a pança cheia, vamos trabalhar um pouco. (Assentam-se à mesa.) ESCRIVÃO — Vossa Senhoria vai amanhã à cidade?
MANUEL JOÃO — Tinha-o preso no meu quarto para levá-lo amanhã para a cidade; porém a menina, que foi maisesperta, furtou a chave e fugiu com ele.
ANINHA — Sim senhor, Sr. Juiz. Há muito tempo que o amo, e como achei ocasião, aproveitei. JUIZ — A menina não perde ocasião! Agora, o que está feito, está feito. O senhor não irá mais para a cidade, pois está casado. Assim, não falemos mais nisso. Já que estão aqui, hão de fazer o favor de tomar uma xícara de café comigo, e dançarmos antes disto uma tirana. Vou mandar chamar maisalgumas pessoas para fazerem a roda maior. (Chega à porta.) Ó Antônio! Vai à vend a do Sr. Manuel do Coqueiro e dize aos senhores que há pouco saíram daqui que façam o favor de chegarem até cá. (Para José:) O senhor queira perdoar se o chamei de biltre; já aqui não está quem falou. JOSÉemendarei. — Eu não me escandalizo; Vossa Senhoria tinha da algum modo razão, porém, eu me
MANUEL JOÃO — E se não se emendar, tenho um relho. JUIZ — Senhora Dona, queira perdoar se ainda a não cortejei. (Cumprimenta) MARIA ROSA, cumprimentando — Uma criada de Sua Excelência. JUIZ — Obrigado, minha senhora... Aí chegam os amigos.
CENA ÚLTIMA
Os mesmos e os que estiveram em cena.
JUIZtomarem uma xícara de café comigo e dançarmos um fado em obséquio ao Sr. Manuel João, — Sejam bem-vindos, meus senhores. (Cumprimentam-se ) Eu os mandei chamar para que casou sua filha hoje. TODOS — Obrigado a Vossa Senhoria. INÁCIO JOSÉ, para Manuel João — Estimarei que sua filha seja feliz. OS OUTROS — Da mesma sorte. MANUEL JOÃO — Obrigado. JUIZ — Sr. Escrivão, faça o favor de ir buscar a viola.suas casas...Haja liberdade. Esta casa não é agora do Juiz de Paz — é de João Rodrigues. Sr. Tomás, faz-me o favor? (Sai o Escrivão.) Não façam cerimônia; suponham que estão em (Tomás chega-se para o Juiz e este o leva para um canto.) O leitão ficou no chiqueiro? TOMÁS — Ficou, sim senhor.
JUIZ — Bom.Manuel João, arranje outra roda... Vamos, vamos! (Para os outros:) Vamos arranjar a roda. A noiva dançará comigo, e o noivo com sua sogra. Ó Sr. (Arranjam as rodas; o Escrivão entra com uma viola.) Os outros senhores abanquem-se... Sr. Escrivão, ou toque, ou dê a viola a algum dos senhores. Um fado bem rasgadinho... bemchoradinho...
MANUEL JOÃO — Agora sou eu gente! JUIZ — Bravo, minha gente! Toque, toque! caquinhos, e os mais dançam.) (Um dos atores toca a tirana na viola; os outros batem palmas e
TOCADOR, cantando — Ganinha, minha senhora, Da maior veneração; Passarinho foi-se embora,Me deixou penas na mão.
TODOS — Se me dás que comê, Se me dás que bebê, Se me pagas as casas,Vou morar com você. (Dançam.)
JUIZ — Assim, meu povo! Esquenta, esquenta!... MANUEL JOÃO — Aferventa!... TOCADOR, cantando — Em cima daquele morro Há um pé de ananás; Não há homem neste mundoComo o nosso Juiz de Paz.
TODOS — Se me dás que comêSe me dás que bebê Se me pagas as casas Vou morar com você
JUIZ — Aferventa, aferventa!
FIM