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Lógica Proposicional
Tipologia: Notas de estudo
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O Cálculo Proposicional Clássico (CPC) consiste num sistema simbólico de Lógica Clássica. E como todos os sistemas de lógica clássica, segue os seguintes princípios:
Proposições são estruturas lingüísticas passíveis de serem julgadas verdadeiras ou falsas, tais como “Todos homens são mortais”, “Sócrates é homem”, “A água sob uma atmosfera ferve a 100°C”, “Siegfrid matou Fafnir”, “2 + 2 = 4” etc. Não são proposições as estruturas lingüísticas interrogativas (ex: “Quem é você?”) ou imperativas (ex: “Faça isto”), pois elas não são passíveis de serem julgadas verdadeiras ou falsas.
No CPC, fórmulas atômicas representam proposições de uma linguagem. Para escrevê-las, são usadas letras do alfabeto latino maiúsculas (A, B, C, D, E etc.). Os operadores alteram os valores das fórmulas, constituindo assim fórmulas moleculares. Os conectivos são operadores que relacionam duas fórmulas. Os 5 operadores mais usuais são: a negação (¬), a conjunção (∧), a disjunção (∨), a implicação (→) e a bi-implicação (↔).
Fórmulas atômicas são fórmulas bem formuladas. Se e são fórmulas bem formuladas, então , , , e são fórmulas bem formuladas. Se é uma fórmula bem formulada, então é subfórmula de. Se e são fórmulas bem formuladas, então e são subfórmulas de , , e.
Seja uma linguagem que contenha as proposições , e. O que podemos dizer sobre proposição? Para começar, segundo o princípio de bivalência, ela ou é verdadeira ou é falsa. Isto representamos assim: A V F Agora, o que podemos dizer sobre as proposições e? Oras, ou ambas são verdadeiras, ou a primeira é verdadeira e a segunda é falsa, ou a primeira é falsa e a segunda é verdadeira, ou ambas são falsas. Isto representamos assim:
e um caso no qual ambos termos são falsos (F F). Se a fórmula contiver 3 termos, o número de linhas que expressam a permutações entre estes será 8: um caso de todos termos serem verdadeiros (V V V), três casos de apenas dois termos serem verdadeiros (V V F , V F V , F V V), três casos de apenas um dos termos ser verdadeiro (V F F , F V F , F F V) e um caso no qual todos termos são falsos (F F F). Então, para a fórmula , temos: A B C A B ∧ (A B)→C ∧ ¬((A B)→C) ∧ V V V V V F V F V V F F F V V F V F F F V F F F Para completar esta tabela precisamos definir os operadores lógicos. Ao fazê-lo, vamos aproveitar para explicar como interpretá-los. Negação A negação tem o valor inverso da fórmula negada. A saber: A ¬A V F F V
significa " Sócrates é mortal", pode ser interpretada como " Sócrates é imortal". Por outro lado, em uma linguagem na qual significa " João é bom jogador", a proposição " João é mau jogador" não é a melhor interpretação para (João poderia ser apenas um jogador mediano). Pode-se adicionar indefinidamente o operador de negação: A ¬A ¬¬A ¬¬¬A V F V F F V F V “ ” significa “‘ ’ é falsa”. “ ” significa “‘ ’ é falsa”. E assim por diante. Repare que é equivalente a , assim como é equivalente a. A negação múltipla trás alguns problemas de interpretação. Interpretando mais uma vez por " Sócrates é mortal", podemos perfeitamente interpretar de diversar formas: " Não é o caso de que Sócrates não é mortal", " Não é o caso de que Sócrates é imortal", " É falso que Sócrates não é mortal", " É falso que Sócrates é imortal" etc. Contudo, nem sempre na língua portuguesa a dupla negação de uma proposição equivale à afirmação desta. Muitas vezes a dupla negação é uma ênfase na negação. Exemplos: " Não veio ninguém", "Não fiz nada hoje" etc. Conjunção A conjunção entre duas fórmulas só é verdadeira quando ambas são verdadeiras. A saber: A B A B ∧ V V V V F F F V F F F F
Disjunção A disjunção entre duas fórmulas só é verdadeira quando ao menos uma delas é verdadeira. A saber: A B A B ∨ V V V V F V F V V F F F Repare que a disjunção também é comutativa: A B A B ∨ B A ∨ V V V V V F V V F V V V F F F F
Implicação A implicação entre duas fórmulas só é falsa se a da esquerda (antecedente) for verdadeira e da direita (conseqüente) for falsa. A saber: A B A → B V V V V F F F V V F F V Repare que a implicação não é comutativa: A B A → B B → A V V V V V F F V F V V F F F V V
Outros conectivos Ainda há outros conectivos interessantes, mas, por motivos explicados mais para frente, não trabalharemos com eles. Vamos apenas nos familiarizar com alguns deles agora. Adaga de Quine é verdadeiro somente se ambos, e , forem falsos. Trata-se, portanto, da negação da disjunção: A B A B ∨ A ↓ B V V V F V F V F F V V F F F F V Disjunção Exclusiva A disjunção exclusiva entre duas fórmulas é verdadeira somente se apenas uma delas for verdadeira. Trata-se, portanto, da negação da bi-implicação: A B A ↔ B A ∨ B V V V F V F F V F V F V F F V F Traço de Sheffer só é falsa se ambos e forem verdadeiros. Trata-se, portanto, da negação da conjunção. A B A ∧ B A|B V V V F V F F V F V F V F F F V
Assim como na aritmética e algebra, os parênteses na lógica indicam o que considerar primeiro. Portanto, a fórmula consiste na negação da conjunção entre e , enquanto a fórmula consiste na conjunção entre a negação de e. A diferença entre as fórmulas fica clara na tabela de verdade: A B ¬A A B ∧ ¬(A B) ∧ ¬A B ∧ V V F V F F V F F F V F F V V F V V F F V F V F Da mesma forma, é distinta de. A saber: A B C A → B B → C (A → B) → C A → (B → C) V V V V V V V V V F V F F F V F V F V V V V F F F V V F F V V V V V V F V F V F F V F F V V V V V F F F V F V V Contudo, tem-se que a fórmula é equivalente à , pois ambas só serão verdadeiras se , e forem verdadeiras. Da mesma forma, é equivalente à (ambas só são falsas quando todos termos são falsos), e é equivalente à . Devido a isto, vale como convenção informal as construções , e.
Por fim, resta a coluna da fórmula. Pela definição de negação, em cada linha na qual for verdadeira, será falsa; e em cada linha na qual for falsa, será verdadeira: A B C A B ∧ (A B)→C ∧ ¬((A B)→C) ∧ V V V V V F V V F V F V V F V F V F V F F F V F F V V F V F F V F F V F F F V F V F F F F F V F Por meio desta tabela podemos ver que a fórmula só é verdadeira em um único caso: o qual e são verdadeiras enquanto é falsa. Esta é uma das aplicações da tabela de verdade: determinar em quais valorações de suas subfórmulas uma fórmula é verdadeira ou falsa.
Seja uma linguagem na qual: significa "Russell desenvolveu a teoria das descrições". significa "Gödel é matemático". significa "Está chovendo". Formalize no CPC as seguintes proposições e faça a tabela de verdade de cada uma delas:
Fórmulas contingentes são aquelas cuja valoração pode ser verdadeira ou falsa, dependendo da valoração de suas fórmulas atômicas. Todas fórmulas descritas na seção anterior são contingentes: A B ¬A A B ∧ A B ∨ A → B A ↔ B V V F V V V V V F F F V F F F V V F V V F F F V F F V V Contradições são fórmulas que, independente da valoração de suas fórmulas atômicas, sua valoração é “Falso”. Um exemplo de contradição é : A ¬A A ¬A ∧ V F F F V F Tautologias são fórmulas que, independente da valoração de suas fórmulas atômicas, sua valoração é “Verdadeiro”. Bons exemplos de tautologia são , e. A ¬A A → A ¬(A ¬A) ∧ A ¬A ∨ V F V V V F V V V V Nota: Toda negação de uma contradição consiste numa tautologia e toda negação de uma tautologia consiste numa contradição. Exercício Faça a tabela de verdade das seguintes fórmulas e determine se elas são contingentes, contraditórias ou tautológicas.
Princípio de identidade α → α α ↔ α Princípio de não-contradição ¬(α ∧¬α) Princípio do terceiro excluído α ∨¬α α ∨ ¬α Dupla negação α ↔ ¬¬α Idempotência da conjunção (α ∧α) ↔ α Idempotência da disjunção (α ∨α) ↔ α Comutatividade da conjunção (α ∧ β) ↔ (β ∧α) Comutatividade da disjunção (α ∨ β) ↔ (β ∨α) Comutatividade da equivalência (α ↔ β) ↔ (β ↔ α) Associatividade da conjunção ((α ∧ β) ∧ γ) ↔ (α ∧ (β ∧γ)) Associatividade da disjunção (( α ∨ β) ∨ γ) ↔ (α ∨ (β ∨γ)) Associatividade da equivalência ((α ↔ β) ↔ γ) ↔ (α ↔ (β ↔ γ)) Leis de DeMorgan ¬(α ∧ β) ↔ (¬α ∨¬β) ¬(α ∨ β) ↔ (¬α ∧ ¬β) Contraposição (α → β) ↔ (¬β → ¬α) Distributividade (α ∧ (β ∨ γ)) ↔ ((α ∧ β) ∨ ( α ∧γ)) (α ∨ (β ∧ γ)) ↔ ((α ∨ β) ∧ (α ∨ γ)) Modus ponens (α ∧(α → β)) → β Modus tollens (¬β ∧(α→β)) → ¬α Silogismo disjuntivo ((α ∨ β) ∧¬α) → β Silogismo hipotético ((α → β) ∧(β → γ)) → (α → γ) Lei de Peirce ((α → β) → α) → α Lei de Dun Scot ¬α → (α → β) Prefixação α → (β → α) Antilogismo ((α ∧ β) → γ) ↔ ((α ∧¬γ) → ¬β) Exportação/Importação ((α ∧β) → γ) ↔ (α → (β → γ)) Princípio da Explosão (α ∧¬α) → β
Um conjunto de fórmulas implica semanticamente - ou "materialmente" - numa fórmula , , sempre quando todas as fórmulas de forem verdadeiras, seja verdadeira. Por exemplo, digamos que ( Gama é o conjunto unitário da fórmula alfa ). Se é verdadeira, então é verdadeira. Assim: ( alfa implica semanticamente em alfa ) Ainda utilizando o conjunto , podemos dizer que: ( alfa implica na negação da negação de alfa ). Afinal, sempre que uma fórmula é verdadeira, a negação de sua negação também é verdadeira. Como está ilustrado na tabela adiante: α ¬α ¬¬α V F V Agora digamos que ( Gama é o conjunto binário das fórmulas alfa e beta ). Revejamos algumas tabelas de verdade, apenas a linha que representa o caso de e serem ambas verdadeiras: α β α β ∧ α β ∨ α → β α ↔ β V V V V V V Podemos ver que, sempre que duas fórmulas são verdadeiras, a conjunção, disjunção, implicação e bi-implicação entre elas também são verdadeiras. Assim sendo: No caso da conjunção, é válido o seguinte: Afinal, sempre que a conjunção entre duas fórmulas é verdadeira, ambas as fórmulas são verdadeiras. Isto não acontece com as outras operações lógicas (reveja as tabelas de verdade).
Agora passemos para casos de implicação semântica mais interessantes. Vejamos o seguinte conjunto de fórmulas: Podemos dizer que: O que fica evidente na tabela: A B A → B V V V V F F F V V F F V Na única linha na qual as fórmulas e são ambas verdadeiras, a fórmula também é verdadeira. Agora podemos usar o CPC para verificar a validade lógica de uma infinidade de raciocínios ou argumentos. Como acabamos de ver, é válido todo raciocínio com a seguinte estrutura: Por exemplo: Se choveu, então o chão está molhado. Oras, choveu. Logo, o chão está molhado. Se ele estudou muito, então conseguiu uma boa nota. Ele estudou muito. Logo, ele conseguiu uma boa nota. Também podemos apontar que um raciocínio é logicamente inválido, ou seja, falacioso. Por exemplo: Se ele estudou muito, então conseguiu uma boa nota. Ele conseguiu uma boa nota. Logo, ele estudou muito. Consideremos que significa “Ele estudou muito” e significa “Ele conseguiu uma boa nota”. A estrutura do argumento então é esta:
Agora façamos uma tabela de verdade para verificar se sempre que e são verdades, também é verdade: A B A → B V V V V F F F V V F F V Como podemos ver, existe uma valoração na qual e são verdades e é uma falsidade. Portanto, o raciocínio é invalido. Lista de argumentos válidos usuais Modus ponens Ex: Se choveu, então o chão está molhado. Oras, choveu. Logo, o chão está molhado. Modus tollens Ex: Se ele estudou, então ele tirou uma boa nota. Ele não tirou uma boa nota. Logo, ele não estudou. A B ¬A ¬B A → B V V F F V V F F V F F V V F V F F V V V