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C I R C U I T O S
C I R C U I T O S
M A G N É T I C O S
M A G N É T I C O S
PEA 2290
P rof. D r. José R oberto Cardoso
VI – MAGNETOSTÁTICA
VI.1 INTRODUÇÃO
Talvez um dos dias mais importante da humanidade, foi aquele em que Hans
Christian Oersted, professor da Universidade de Copenhagen, descobriu em
1820, durante uma aula de laboratório de circuitos elétricos, a ligação entre o
Magnetismo e a Eletricidade, contrariando as previsões, muito convincentes
de Coulomb, que estas ciências não poderiam interagir.
A publicação de suas experiências, em latim clássico, provocou uma explosão
de atividades científicas na ocasião.
Outros pesquisadores, como Ampère e Henry perceberam que esta descoberta
colocava o Eletromagnetismo, nome dado a esta nova ciência, numa posição
tal que poderia mudar o mundo de forma tão abrangente como aquela
produzida pela máquina a vapor. Isto foi confirmado pouco tempo depois com
a invenção do motor elétrico.
O grande passo para aquele objetivo foram os estudos subseqüentes
envolvendo a produção de campos magnéticos em estruturas ferromagnéticas,
as quais, devido à alta permeabilidade daqueles materiais, possibilitaram o
estabelecimento de campos magnéticos elevados.
A primeira aplicação das estruturas ferromagnéticas foi à construção dos
eletroímãs, cuja primeira demonstração de seu funcionamento ocorreu em 23
de Maio de 1825 na Royal Society of Arts por seu criador William Sturgeon.
Utilizando uma barra cilíndrica de ferro curvada e envernizada, Sturgeon a
envolveu com uma bobina condutora de fios não isolados, conseguindo
levantar uma massa de 3600 gramas. Foi um feito brilhante para o seu tempo.
Para sua infelicidade, James Prescott Joule estava entre seus alunos, o qual
observando o trabalho do mestre, identificou alguns erros e reconstruiu o
eletroímã, conseguindo levantar, com a mesma estrutura, uma massa de 20 kg.
O erro de Sturgeon foi ter utilizado na confecção do eletroímã fios condutores
não isolados, diminuindo em muito a eficiência da bobina.
Inconformado em ter sido superado por um discípulo, Sturgeon construiu em
1830 um eletroímã capaz de levantar 550 kg, corrigindo os defeitos do
primeiro.
Mas nesta altura dos acontecimentos ele já tinha um rival do outro lado do
Atlântico, Joseph Henry da Universidade de Yale. Henry construiu um
eletroímã de apenas 300 kg capaz de levantar uma tonelada.
Em 1840, Joule novamente, construiu um novo tipo de eletroímã
completamente diferente dos anteriores, o qual possuía mais de dois pólos,
que aumentou em muito a capacidade de levantamento. Este eletroímã, de
proporcional ao campo impresso e varia inversamente com a temperatura
absoluta. Exemplos de substâncias ferromagnéticas: Fe, Co, Ni.
A propriedade física dos materiais que caracteriza o comportamento
magnético de uma substância é a sua permeabilidade magnética, representada
pela letra grega (mi), a qual no sistema internacional tem a dimensão
Henry/metro. Na engenharia elétrica, a menor permeabilidade é aquela
apresentada pelo ar (ou vácuo), cujo valor no SI é dado por ,
evidenciando a dificuldade do estabelecimento de campos magnéticos no ar,
como veremos a seguir.
μ
7 0 H m
− μ = π
A permeabilidade dos materiais diamagnéticos e paramagnéticos difere
muito pouco da permeabilidade do ar, de modo que para estes materiais
podemos considerar.
μ
μ = μ 0
Por outro lado, a permeabilidade magnética nem sempre é uma grandeza
escalar. Nos materiais ditos “ anisotrópicos” , nos quais o campo magnético B
ρ
não está alinhado com o vetor intensidade magnética H
ρ
esta grandeza é
representada por um tensor.
Materiais sólidos sob esforços, ferro ou aço que sofreram processos mecânicos
e também os cristais, apresentam esta propriedade.
ρ ρ
Num material ferromagnético, embora B e H tenham a mesma direção, não
são grandezas diretamente proporcionais, visto que a permeabilidade deste
material é função do campo magnético
μ
B
ρ
. Acrescenta-se ainda o fato de que
nos materiais ferromagnéticos os valores da permeabilidade relativa
μ R =μ/ μ 0 podem, dependendo do material, ser elevados.
A relação entre B
ρ
e H
ρ
para um material ferromagnético é conhecida como
curva de magnetização, e será discutida nos próximos itens.
VI.3 CIRCUITO MAGNÉTICO
Para o entendimento do conceito de circuito magnético, vamos calcular o
fluxo magnético produzido no interior de um toróide por uma bobina de N
espiras percorrida por uma corrente contínua I, como mostrado na Fig. VI-1:
a
b
r
i
d
Fig. VI-1 Campo produzido no toróide
Na mesma figura, está mostrada também a geometria das linhas de campo
magnético, com seu respectivo sentido obtido a partir da aplicação da regra da
mão direita ao sentido da corrente elétrica.
A própria geometria do problema permite concluir que a amplitude do vetor
intensidade magnética , sobre qualquer linha de campo no interior do
toróide é constante, apenas sua direção é diferente ao longo da linha de
campo, na medida em que este vetor, em cada ponto desta linha de campo, é
tangente a ela.
→ H
A determinação da amplitude do vetor intensidade magnética é obtida a partir
da segunda equação de Maxwell, não considerando a presença da corrente de
deslocamento, na medida em que o enrolamento do toróide é alimentado por
corrente contínua, isto é:
∫ ∫
C S
H dl JdS
Escolhendo uma linha de campo de raio como sendo o contorno C da
do primeiro membro da equação 6.1, o segundo membro da mesma equação,
correspondente a corrente concatenada com o referido contorno, será igual ao
produto , denominado força magneto-motriz ( da bobina. Assim
podemos escrever:
a < r < b
Ni (^) Fmm )
Nestas condições, a variação do campo magnético no interior do toróide não é
sensível, e por esta razão o campo magnético pode ser considerado
“praticamente” constante no seu interior.
Podemos então tomar as seguintes decisões:
1. Considerar o campo magnético no interior do toróide constante e igual
ao seu valor máximo obtido em r = a , isto é:
a
Ni B π
μ
2
2. Considerar o campo magnético no interior do toróide constante e igual
ao seu valor mínimo obtido em r = b , isto é:
b
Ni B π
μ
2
= ou,
3. Considerar o campo magnético no interior do toróide constante e igual a
um valor intermediário entre seus valores máximo e mínimo.
Não resta dúvida que a última decisão é a mais razoável, na medida em que é
aquela que levará a um menor erro de aproximação.
É razoável também, escolher como constante o valor do campo magnético no
interior do toróide aquele obtido no raio médio do dispositivo, isto é,
B = B ( rMED ), no qual rMED =( a + b )/ 2.
Assim sendo, para todos os efeitos, o campo magnético na seção transversal
do toróide será constante é igual a:
r MED
Ni B π
μ
2
O fluxo magnético φ através da seção transversal do dispositivo é dado por:
BdS
S
∫
Como as linhas de campo magnético são perpendiculares à seção transversal e
o seu valor é constante nesta mesma seção, a equação (6.8) pode ser escrita
como segue:
φ = B. S (6.9)
Substituindo-se B pelo seu valor indicado em (6.7), resulta:
r MED
NiS
π
μ φ 2
Ou ainda,
S
l
Ni
μ
φ 1
Na qual l , representa o comprimento médio das linhas de campo
magnético e coincide com o comprimento médio do toróide.
= 2 π r MED
Neste ponto, é conveniente compararmos o resultado obtido em (6.10), com
aquele obtido no cálculo da corrente elétrica do circuito da Fig. VI.3.
λ
E S
I
Fig. VI.3 Circuito Elétrico
No circuito da Fig. VI.3, obtemos, a partir da Lei de Ohm:
S
l
E
I
σ
Comparando (6.10) com (6.11), identificamos as seguintes relações:
Circuito Elétrico Circuito Magnético
I :Corrente Elétrica (A) φ : Fluxo Magnético (Wb)
E :Força eletromotriz (V) F = Ni :Força magnetomotriz (Aesp)
σ :Condutividade (S/m) μ :Permeabilidade (H/m)
Tabela VI.1 – Identificação de grandezas
Dessa forma, podemos associar ao problema do cálculo do campo magnético
no interior do toróide, o seguinte circuito elétrico análogo:
S
R
λ
μ
1
φ
ℑ= N i
Fig. VI.4 Circuito Elétrico Análogo
Outras grandezas podem ser associadas entre o circuito elétrico e o circuito
magnético, são elas:
Circuito Elétrico Circuito Magnético
S
I
J = : Densidade de
Corrente Elétrica (A/m
2
S
B
φ
= : Densidade de Fluxo
Magnético (Wb/m
2
S
l R σ
= : Resistência ( Ω )
S
l
μ
ℜ = :Relutância (Aesp/Wb)
G = 1 / R :Condutância (S) Ρ = 1 / ℜ:Permeância (Wb/Aesp)
Tabela VI.2 – Identificação de grandezas
Isovalues Quantity : Equi Line/ Value 1 / -2, 2 / -2, 3 / -2, 4 / -1, 5 / -1, 6 / -1, 7 / -862, 8 / -525,
Results flux Weber 88512E- 54799E- 21086E- 87373E- 53659E- 19946E- 33066E- 19864E- 664E- 537E-
9 / -188, 10 / 149,
IsovaluesResults Quantity : Equi flux Weber Line/ Value 1 / -101,58527E- 2 / -91,47266E- 3 / -81,36006E- 4 / -71,24745E- 5 / -61,13485E- 6 / -51,02224E- 7 / -40,90963E- 8 / -30,79703E- 9 / -20,68442E- 10 / -10,57182E- 11 / 486,19739E-6 11 /^ -459,21127E-
(a) (b)
Fig. VI.6 – Linhas de campo magnético num reator
(a) Permeabilidade magnética do núcleo baixa (b) Permeabilidade magnética do núcleo elevada
Vamos admitir, até manifestações contrárias, que a permeabilidade magnética
dos núcleos é suficientemente elevada para que possamos desprezar os fluxos
de dispersão.
Dessa forma, o circuito elétrico análogo para o reator mostrado na Fig. VI-
será idêntico àquele mostrado na Fig. VI.4, sendo que para o cálculo da
relutância são utilizadas as seguintes grandezas, como mostra a Fig.VI.7:
l : Comprimento médio da estrutura;
S : Área da seção transversal de passagem do fluxo.
i
N espiras S
λ
Fig. VI.7 – Grandezas para cálculo da relutância
EXERCÍCIO 6.1: O reator mostrado na Fig. VI.8 foi construído com um
material magnético de permeabilidade relativa. A bobina de
excitação possui 200 espiras. Vamos calcular a corrente na bobina de
excitação necessária para estabelecer uma densidade de fluxo magnético
1,2Wb/m
μ R = 3000
7 H m
− π
2
. É dada a permeabilidade do vácuo μ 0 = 4 ).
i
200 espiras
5 20 5 10
20
5
5
Fig. VI.8 – Exercício 6.1 – Dimensões em cm
Solução:
A solução do problema se resume em montar o circuito elétrico análogo do
problema magnético.
Assim, para este caso temos:
l=2.(2,5+20+2,5)+2.(20-2.2,5)=80 cm ou 0,8m
S=5.10=50 cm
2
ou 50.
-
m
2
Como conseqüência resulta:
7 4 Aesp Wb S
l ℜ = = − − = μ π
Sendo , obtém-se.
2 B = 1 , 2 Wb / m B S Wb
4 4
. 1 , 2. 50. 10 60. 10
− − φ= = =
Dessa forma, o circuito elétrico análogo é dado por:
R = 42. 44 × 103 ( Aesp / ws )
wb
4 60 10
− φ= ×
ℑ= 200 i
Fig. VI.9 – Circuito elétrico análogo
Da análise do circuito da Fig. VI.9, obtemos:
Ni =ℜ φ
Substituindo pelos seus valores, obtém-se:
3 4 200 42 , 44. 10. 60. 10
− i =
ou ainda:
i = 1 , 27 A
A solução do problema, isto é, a obtenção dos fluxos magnéticos em cada
braço e a f.m.m. da bobina é obtida aplicando-se técnicas clássicas de
resolução de circuitos elétricos.
EXERCÍCIO 6.2 – A estrutura magnética da Fig. VI.12 é confeccionada de
material magnético de permeabilidade relativa. O número de espiras
da bobina de excitação é 400 espiras. Determine a f.m.m. e a corrente da
bobina para estabelecer uma densidade de fluxo magnético no braço
direito da estrutura. Obs.: todas as dimensões são expressas em cm.
μ R = 4000
2 0 , 5 Wb / m
i
400 espiras
5 20 10 5
40
5
5
30 5
φ 3
Fig. VI.12 – Estrutura magnética
Solução:
O primeiro passo na resolução do problema, consiste em montar o circuito
elétrico análogo, o qual possui a mesma geometria que a estrutura magnética.
Assim, para o problema em questão, o circuito elétrico análogo é dado por:
R 1
R 2 R 3
400 i
Fig. VI.13 – Circuito elétrico análogo
Em seguida calculamos as relutâncias de cada trecho utilizando a expressão
(6.12). Para o problema em questão resultam:
[ 2 .( 2 , 5 20 5 ) ( 40 2. 2 , 5 )]. 10
4
2
7 1
1 1 Aesp Wb S
l
−
− μ π
[( 40 2. 2 , 5 )]. 10
4
2
7 2
2 2 Aesp Wb S
l
−
− μ π
[ 2 .( 5 30 2 , 5 ) ( 40 2. 2 , 5 )]. 10
4
2
7 3
3 3 Aesp Wb S
l
−
− μ π
No braço direito da estrutura é dado , de modo que:
2 B 3 (^) = 0 , 5 Wb / m
B S Wb
4 4 3 3.^30 ,^5.^25.^1012 ,^5.^10
− − φ = = =
Da malha direita do circuito obtemos:
ℜ 2 φ 2 =ℜ 3 φ 3
De modo que:
Wb
4 3
3 4
2 78 ,^7.^10 13 , 9. 10
− φ = =
Aplicando-se a lei de Kirchoff para as correntes obtém-se:
Wb
4 1 2 3 91 ,^2.^10
− φ =φ +φ =
Aplicando-se agora a lei de Kirchoff das tensões para a malha da esquerda,
podemos escrever:
Ni =ℜ 1 φ 1 +ℜ 2 φ 2
Resultando:
fmm Ni 71 , 6. 10. 91 , 2. 10 13 , 9. 10. 78 , 7. 10 762 Aesp
3 4 3 4 = = + =
− −
e também:
A
N
fmm i 1 , 9 400
VI.5 ENTREFERROS EM ESTRUTURAS MAGNÉTICAS
Todas as estruturas magnéticas apresentam um entreferro (espaço de ar
inserido entre duas porções magnéticas) em seu circuito magnético. Este
entreferro pode ser inserido propositalmente, como ocorre nos motores e
geradores elétricos como mostrado na Fig. VI.14, ou involuntariamente devido
ao processo construtivo, como indicado na Fig. VI.15.
Fig. VI.14 – Entreferro de um motor elétrico
Neste caso, a área efetiva de passagem do fluxo magnético no entreferro é
dada por:
S g = ( X +λ g ).( Y +λ g ) (6.13)
B. Entreferro com faces paralelas e diferentes
X
Y
g
λ
Fig. VI.18 –Entreferro com faces paralelas e diferentes
Nesta condição, a área efetiva de passagem do fluxo magnético é estimada a
partir da expressão:
S g = ( X + 2 lg ).( Y + 2 lg )(6.14)
EXERCÍCIO 6.3 – A Fig. VI.19 mostra uma estrutura magnética
confeccionada com material magnético de permeabilidade relativa ,
na qual foi introduzido um entreferro de comprimento 1 mm. Todas as demais
dimensões estão em cm. Vamos calcular a corrente na bobina de excitação, a
qual possui 500 espiras, necessária para estabelecer um fluxo magnético no
entreferro de 5.
μ R = 2000
Wb
4
. 10
−
i
500 espiras
1mm
2
2
12
(^2 )
Fig. VI.19 – Estrutura magnética
Solução:
No circuito elétrico análogo desta estrutura, além da fonte de f.m.m. que
produz o campo magnético devemos inserir duas relutâncias em série; uma
relativa à porção do núcleo magnético e outra devido ao entreferro, como
mostra a Fig. VI.20.
R 1
R 2
φ
500 i
Fig. VI.20 – Circuito elétrico análogo
A partir da análise de malhas obtém-se:
Ni =( ℜ 1 +ℜ 2 ) φ (6.15)
Na qual:
Aesp Wb S
l 35 , 8. 10 /
- 10
[ 2 ( 1 6 1 ) 2 ( 12 2. 1 )]. 10
4
2
7 1
1 1 =
−
− μ π
é a relutância do núcleo e:
Aesp Wb S
l
- 10 / ( 2 0 , 1 )( 2 0 , 1 ). 10
4
3
7 2
2
0
−
− μ π
é a relutância do entreferro.
Observe que apesar do entreferro ter apenas 1 mm , sua relutância, neste caso, é
algo em torno de 5 vezes maior que a relutância do núcleo.
Sendo Wb obtemos, a partir de (6.15):
4
- 10
− φ = 4 4 500 ( 35 , 8 180 ) 10. 5. 10
− i = +
Resultando:
i = 2 , 16 A.