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Contos do irmãos Grimm, Notas de estudo de Comunicação

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Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 19/11/2007

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CONTOS DE GRIMM: ANIMAIS ENCANTADOS
Grimm: Jakob & Wilhelm
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CONTOS DE GRIMM: ANIMAIS ENCANTADOS

Grimm: Jakob & Wilhelm

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

A SERPENTE BRANCA

O GANSO DE OURO

A RAPOSA E O GATO

OS DOIS IRMÃOS

OS SETE CORVOS

APRESENTAÇÃO

"No tempo em que os bichos falavam..." é uma das fórmulas mais comuns de se começar um conto popular, também muitas vezes chamado de conto de fadas, embora muitas vezes não tenha fada alguma. De qualquer forma, essas histórias tradicionais estão entre os maiores clássicos da literatura universal. São amplamente conhecidos pelos mais variados povos, por gente de todas as idades em todo canto. Muitos deles são muito antigos, já existiam havia séculos na boca do povo. Em determinado momento, foram recolhidos por algum grande escritor, que lhes deu uma forma definitiva. Foi o que fizeram os irmãos Wilhelm e Jakob Grimm na Alemanha, no século XIX. Já houve um tempo em que se achava que contos de fadas eram coisa de criança. Mas quando eles surgiram, não era assim. É que antigamente não havia televisão e as pessoas se reuniam toda noite para contar histórias, com a participação de todas as gerações. Hoje em dia, essas histórias também atraem as atenções de adultos, que, além de se divertirem muito com os relatos, aprenderam a ver neles algumas verdades profundas sobre nós mesmos, de uma forma simbólica. Bem parecidas, às vezes, com o que sonhamos: que podemos voar, que somos ameaçados por monstros, que conseguimos coisas impossíveis como conversar com os animais ou ficar invisíveis. Esta coletânea reúne alguns contos que apresentam entre seus personagens alguns animais encantados. Mas esse é apenas um de seus temas. Como todo bom conto popular, eles tratam de muita coisa mais, e é um prazer descobri-las. O amor entre irmãos, por exemplo. E a rivalidade entre eles. A impaciência dos mais velhos. A gratidão pelas boas ações. A esperteza e coragem dos pequeninos e fracos. Com toda certeza, o leitor atento saberá identificar tudo isso e muito mais. Perceberá que esses contos insistem em reforçar idéias fundamentais para a sociedade. Como a de que a gente aprende com a experiência. Ou a noção de que deve haver justiça recompensando o bem e punindo o mal. Mas o mais maravilhoso é que tudo isso se passa de forma divertida e fascinante, sem jeito de lição. E no fim, quem fica cheio de encantamento é o leitor.

A SERPENTE BRANCA

Há muitos e muitos anos, vivia um rei muito celebrado por sua sabedoria. Nada era oculto para ele. Era como se o conhecimento das coisas mais secretas chegasse até ele pelo ar. Mas tinha um estranho costume. Quando a refeição do meio-dia acabava, a mesa era tirada e não havia mais ninguém presente, um criado de confiança lhe trazia um prato a mais. Esse prato era coberto. Nem mesmo o criado sabia o que havia ali dentro. Nem ele nem mais ninguém, porque o rei só tirava a tampa e comia depois que ficava sozinho. Um dia, depois que isso já acontecia há algum tempo, o criado não agüentou mais de curiosidade na hora de levar o prato embora. Secretamente o carregou para seu quarto, trancou a porta com cuidado e, quando levantou a tampa, viu que dentro havia uma serpente branca. Depois de ver a cobra, não agüentou ficar sem dar uma provadinha. Cortou um pedaço bem pequeno dela e o pôs na boca. Assim que o pedacinho da serpente tocou a língua dele, o criado começou a ouvir sussurros suaves e estranhos do lado de fora da janela. Quando se debruçou para ver o que era, descobriu que as vozes que murmuravam eram de pardais conversando, que contavam uns aos outros tudo o que tinham visto pelos bosques e campos. Provar a serpente tinha lhe dado o poder de entender a linguagem das aves e dos animais. Ora, aconteceu que justamente naquele dia desapareceu o melhor anel da rainha. Como o criado de confiança tinha toda a liberdade para ir onde bem entendesse no palácio, suspeitaram que o tivesse roubado. O rei mandou chamá-lo e brigou com ele, dizendo que, a não ser que ele desse o nome do ladrão até o dia seguinte, seria considerado culpado e decapitado. Não adiantou jurar inocência. O rei mandou-o embora sem uma palavra de consolo. Com medo e se sentindo desgraçado, ele foi até o quintal e ficou pensando, vendo se encontrava um jeito para sair daquela situação. Alguns patos estavam calmamente sentados na beira de um riacho, à vontade, se alisando com o bico e batendo papo. O criado parou e escutou. Cada um dizia aos outros o que tinha acontecido em todos os lugares por onde tinha nadado naquela manhã, e toda a comida gostosa que tinha comido. Mas um deles disse, queixoso:

  • Estou com um peso no estômago... Estava comendo tão depressa que engoli um anel
  • Fora, seus marmanjões! - gritavam. - Não podemos mais encher as barrigas de vocês. Já estão bem grandinhos para buscarem sua própria comida. Os pobres filhotes batiam as asas desajeitados e não conseguiam levantar-se do chão.
  • Ainda somos filhotes indefesos... - gritavam. - Como é que podemos arranjar comida se ainda nem sabemos voar? Vocês vão nos fazer morrer de fome! Ouvindo isso, o bom jovem apeou, matou o cavalo com a espada e deu sua carne para alimentar os filhotes de corvo. Eles vieram saltitando, comeram até se fartar, e disseram:
  • Vamos lembrar disso e recompensar você. Daí para a frente, ele teve que usar as pernas. Depois de muito caminhar, chegou a uma grande cidade. As ruas estavam cheias de barulho e movimento. Um homem a cavalo anunciava que a filha do rei estava procurando marido, mas que quem quisesse pedir a mão dela precisava primeiro cumprir uma tarefa muito difícil e, se falhasse, perderia a vida. Muitos já tinham tentado, mas arriscaram a vida à toa. Quando o jovem viu a filha do rei, ficou tão estonteado com a beleza dela que se esqueceu do perigo, foi até o rei e se apresentou como pretendente. Foi levado diretamente à beira do mar. Lá, diante de seus olhos, jogaram n'água um anel de ouro. Depois, o rei lhe disse que ele precisaria ir buscar o anel lá no fundo. E acrescentou:
  • Se você sair da água sem ele, será jogado de volta, tantas vezes quantas necessário, até morrer nas ondas. Os cortesãos todos ficaram com pena do jovem e lamentaram sua sorte, tão bonito. Depois, deixaram-no sozinho na praia. Ele ficou um pouco ali parado, pensando no que ia fazer. De repente, viu três peixes nadando em sua direção - justamente os três cujas vidas ele tinha salvo. O do meio tinha uma concha na boca. Depositou-a na praia, junto aos pés do rapaz. Quando ele pegou a concha e abriu, viu que dentro estava o anel de ouro. Todo contente, levou o anel até o rei, esperando receber a recompensa prometida. Mas a princesa era muito prosa e, quando viu que ele era inferior a ela em nascimento, desprezou-o e disse que ele ia precisar cumprir uma segunda tarefa. Desceu até o jardim e espalhou dez sacos cheios de farelo pelo meio da grama.
  • Você vai ter que recolher tudo isso até amanhã, antes do sol nascer - disse ela -, sem faltar nem um grãozinho. O rapaz sentou no jardim e começou a pensar em um jeito de cumprir a tarefa, mas não lhe ocorria nada. E lá ficou ele, tristíssimo, esperando que o levassem para a morte quando o dia nascesse. Mas quando os primeiros raios do sol chegaram ao jardim, ele viu que os dez sacos estavam de pé, cheios até a borda, sem faltar nem um grãozinho. O rei das formigas tinha vindo durante a noite, com milhares e milhares de formigas, e os bichinhos agradecidos tinham juntado todos os grãos de farelo dentro dos sacos outra vez. A filha do rei veio em pessoa até o jardim e ficou espantadíssima de ver que a tarefa tinha sido cumprida. Mas seu coração prosa ainda se recusava a se render. Por isso, ela disse:
  • Ele cumpriu as duas tarefas. Mas não será meu marido enquanto não me trouxer um fruto da árvore da vida. O rapaz nem sabia onde ficava essa árvore da vida. Partiu procurando, resolvido a andar até onde as pernas o levassem, mas sem qualquer esperança de encontrar. Uma noite, depois de procurar por três reinos, ele chegou a uma floresta. Sentou-se debaixo de uma árvore e estava quase adormecendo quando ouviu um barulho nos galhos e uma fruta de ouro caiu em suas mãos. Ao mesmo tempo, três corvos desceram voando da árvore, pousaram em seus joelhos e disseram:
  • Nós somos os filhotes de corvo que você não deixou morrer de fome. Quando crescemos e ouvimos dizer que você estava procurando a fruta de ouro, voamos por cima do mar até o fim do mundo, onde cresce a árvore da vida, e pegamos a fruta. Muito contente, o rapaz voltou para casa. Deu a fruta de ouro para a princesa e, depois disso, ela não tinha mais desculpa. Dividiram a maçã da vida e a comeram juntos. Aí o coração dela se encheu de amor por ele, e os dois viveram até a velhice numa felicidade perfeita.
  • Seus irmãos bem que tentaram e não conseguiram. É melhor você deixar isso pra lá... Afinal, você não entende nada de cortar lenha. Mas João Bobo pediu e implorou até que o pai acabou dizendo:
  • Muito bem, vá em frente. Se você se machucar, talvez aprenda a lição. A mãe deu a ele um bolo feito de água e cinzas, e uma garrafa de cerveja choca. Quando ele chegou à floresta, também encontrou o homenzinho cinzento que lhe disse:
  • Estou com tanta fome, e com tanta sede... Por favor, me dê um pedaço de bolo e um pouco de vinho. João Bobo respondeu:
  • Eu só tenho bolo de cinzas e uma cerveja choca. Se você não se incomodar, sente aqui comigo e coma e beba à vontade. Eles se sentaram, mas quando João Bobo pegou o bolo de cinzas, viu que ele tinha virado um bolo finíssimo e muito gostoso, e que a cerveja choca agora era um vinho delicioso. Comeram e beberam e, quando acabaram, o homenzinho disse:
  • Como você tem bom coração e divide alegremente com os outros o que tem, vou lhe dar sorte. Está vendo aquela árvore velha lá adiante? Se você a derrubar, vai encontrar uma coisa no meio das raizes. E foi embora. João Bobo derrubou a árvore. Quando ela caiu, havia no meio das raizes um ganso com penas de ouro puro. Ele pegou o ganso no colo e foi passar a noite numa hospedaria. O hospedeiro tinha três filhas que, assim que viram o ganso de ouro, ficaram curiosíssimas para saber mais coisas de um animal tão estranho. Todas cobiçavam as penas de ouro, e a mais velha pensou: na certa eu vou conseguir arrancar uma para mim. Quando João Bobo foi dormir, ela agarrou a asa do ganso, mas ficou com o dedo e a mão presos, sem conseguir soltar. Pouco depois, chegou a segunda irmã e também só pensou em arrancar uma pena de ouro, mas, assim que tocou sua irmã, ficou presa também. Finalmente, chegou a terceira, com o mesmo objetivo. As outras duas gritaram:
  • Fique longe daqui, pelo amor de Deus! Longe daqui!

Mas ela não entendia por que tinha que ficar longe dali, pensando: por que não devo ir aonde elas estão? Correu até elas, tocou a irmã e ficou bem presa. Acabaram tendo todas que passar a noite com o ganso. Na manhã seguinte, João Bobo pegou o ganso no colo e foi-se embora. Nem reparou nas três moças que estavam penduradas nele, e lá se foram elas correndo atrás dele, ora para a esquerda, ora para a direita, por qualquer caminho que ele cismasse de seguir. Quando passaram correndo por uma estradinha no campo, cruzaram com o padre. Ao ver a tal procissão, ele disse:

  • Que horror, garotas! Vocês deviam ter vergonha! Por que vocês estão perseguindo esse rapaz? Acham que isso é bonito? Dizendo isso, agarrou a mão da mais nova e tentou puxá-la, mas, no momento em que fez isso, também ficou preso e teve que sair correndo junto com os outros. Daí a pouco, encontraram o sacristão. Quando viu o padre correndo atrás das três moças, gritou espantadíssimo:
  • Ei, reverendo, aonde é que o senhor está indo com tanta pressa? Não se esqueça: temos um batizado hoje! Correu atrás dele, agarrou-o pela manga e ficou preso também. Enquanto os cinco seguiam apressados pela estrada, encontraram dois camponeses que vinham dos campos com suas enxadas. O padre pediu ajuda, mas assim que eles encostaram no sacristão também ficaram presos, e a esta altura já eram sete pessoas correndo atrás de João Bobo e de seu ganso.
  • Bem mais tarde, chegaram a uma cidade onde havia um rei cuja filha era tão séria que ninguém conseguia fazê-la rir. Por isso, o rei tinha decretado que o primeiro homem que conseguisse fazer a princesa rir casaria com ela. Quando João Bobo ouviu isso, foi até a presença do rei - com seu ganso e todo o cortejo. Na hora em que a princesa viu aquelas sete pessoas correndo enfileiradas, teve um ataque de riso tão forte que parecia que nunca mais ia parar de dar gargalhadas. Então João Bobo disse que tinha o direito de casar com ela, mas o rei não queria um genro como ele e começou a fazer todo tipo de objeção. Até que acabou dizendo que, para casar com sua filha, João Bobo ia ter que trazer um homem que fosse capaz de beber uma adega inteirinha cheia de vinho.
  • Mas assim que me trouxer o navio, terá minha filha - garantiu. João Bobo foi direto à floresta, onde encontrou o homenzinho cinzento a quem tinha dado seu bolo.
  • Bebi e comi por você - disse ele - e também vou lhe dar seu navio. Tudo isso porque você foi bom para mim. E deu a ele o navio que velejava na terra e na água. Quando o rei viu isso, não pôde mais continuar negando a mão de sua filha, e o casamento foi celebrado. Mais tarde, quando o rei morreu, João Bobo herdou o reino e viveu feliz com a mulher por muitos e muitos anos.

A RAPOSA E O GATO

Um dia, o gato encontrou a raposa no bosque e disse para si mesmo: vou cumprimentá-la. Ela é tão inteligente, tão experiente, tão respeitada por todo mundo... E fez uma saudação amigável:

  • Bom dia, querida Dona Raposa! Como tem passado? Como tem levado a vida, agora que as coisas andam tão caras? A raposa ficou inchada de orgulho. Olhou o gato de alto a baixo e levou algum tempo para resolver se respondia ou não. Finalmente disse:
  • Dobre a língua, seu patife lambedor de bigodes, seu palhaço de meia-tigela, seu pilantra caçador de ratos, você não se enxerga? Quem você pensa que é? Como ousa me perguntar como eu tenho passado? Quem é você? Que é que você sabe? O que aprendeu? Que artes domina?
  • Só uma - respondeu o gato, modestamente.
  • E qual é, se mal pergunto?
  • Quando os cachorros correm atrás de mim, consigo escapar, subindo numa árvore.
  • Só isso? - disse a raposa. - Pois eu sou senhora de mil artes e além disso tenho um monte de truques que dariam para encher um baú... Fico de coração apertado só de pensar como você é indefeso. Venha comigo, vou lhe ensinar a escapar dos cachorros. Justamente nesse momento, apareceu um caçador com quatro cachorros. O gato deu um pulo rápido para o tronco de uma árvore e foi lá para cima, para o meio da copa, onde as folhas e os galhos o esconderam por completo.
  • Abra o baú, Dona Raposa, abra o baú! - gritava o gato. Mas não adiantou nada. Os cachorros já tinham agarrado a raposa, que estava bem presa e imóvel nas patas deles.
  • Que pena, Dona Raposa! - disse o gato. - Veja a encrenca em que a senhora está,

OS DOIS IRMÃOS

Era uma vez dois irmãos, um rico e outro pobre. O rico era ourives, e malvado até não poder mais. O pobre ganhava a vida fabricando vassouras, e era bom e honesto. O pobre tinha dois filhos, dois gêmeos iguaizinhos como duas gotas d'água. De vez em quando, eles iam até à casa do rico e, às vezes, ganhavam umas sobras de comida. Um dia, o fabricante de vassouras foi até o bosque apanhar uns gravetos de bétula e viu um pássaro todo dourado, mais bonito do que qualquer outra ave que ele jamais tivesse visto. Pegou uma pedra, jogou nele, e atingiu o pássaro, mas de raspão. Uma pena caiu no chão e o animal voou e foi embora. O homem pegou a pena e a levou até o irmão, que olhou para ela e disse:

  • Mas é ouro puro! E deu muito dinheiro por ela. No dia seguinte, o fabricante de vassouras subiu numa bétula, para arrancar alguns galhos. De repente, viu o mesmo pássaro sair voando da árvore. Olhou em volta e acabou encontrando um ninho com um ovo dentro, um ovo de ouro. Ele pegou o ovo, levou para casa e o mostrou ao irmão, que mais uma vez disse:
  • É ouro puro! E deu a ele tudo o que o ovo valia. Finalmente, o ourives disse:
  • Gostaria de ter esse pássaro. Pela terceira vez, o fabricante de vassouras foi até o bosque. Novamente, viu o pássaro dourado, desta vez pousado num galho, e jogou uma pedra nele, que caiu. Levou o pássaro para o irmão, que lhe deu um dinheirão. Agora vou poder dar um jeito em minha vida - pensou o fabricante de vassouras. E foi para casa. Acontece que o ourives era esperto e sabia uma porção de coisas. Sabia que tipo de pássaro era aquele. Chamou a mulher e disse:
  • Quero que você asse este pássaro com todo cuidado e não deixe se perder nem um pedacinho dele. Quero comer ele todo, sozinho. Fique sabendo que esse pássaro não era como os outros. Tinha uma coisa maravilhosa: quem comesse o coração e o fígado dele passaria a achar, todas as manhãs, uma moeda de ouro debaixo do travesseiro. A mulher limpou o pássaro e o pôs num espeto para assar. Enquanto ele estava assando, ela teve que sair da cozinha por causa de algum outro trabalho, e bem nessa hora os filhos do fabricante de vassouras entraram correndo. Pararam do lado do fogo, rodaram o espeto algumas vezes e, quando dois pedacinhos pequenos caíram na panela, um dos dois meninos disse:
  • Vamos comer esses pedacinhos? Estou com tanta fome... E ninguém vai reparar. E puseram os dois pedacinhos na boca. Quando a mulher voltou, viu que eles tinham comido alguma coisa e perguntou:
  • O que é que vocês andaram comendo?
  • Uns pedacinhos que caíram dessa ave - disseram eles. --Eram o coração e o fígado! - gritou a mulher, aflita. Como ela não queria que o marido desse falta e ficasse zangado, rapidamente matou um frango, tirou o coração e o fígado e os pôs dentro do pássaro dourado. Quando a ave ficou pronta, ela a serviu ao ourives, que comeu tudo sozinho. Mas na manhã seguinte, quando ele pôs a mão debaixo do travesseiro, esperando encontrar uma moeda de ouro, não havia nada diferente de todos os outros dias. Os dois meninos nem desconfiavam de sua boa fortuna. Quando se levantaram no dia seguinte, alguma coisa caiu no chão, tilitando. Quando olharam, viram que eram duas moedas de ouro. Mostraram ao pai, que ficou muito espantado:
  • Que será isso? - perguntou. Mas, no dia seguinte, quando acharam mais duas, e mais duas na outra manhã, e assim por diante, ele resolveu ir procurar o irmão e contar aquele caso estranho. Imediatamente, o ourives descobriu que as crianças tinham comido o fígado e o coração do pássaro dourado. Mas ele era um homem invejoso e sem piedade e, para se
  • Abata um em cada ponta. O rapaz acertou e passou no teste. Daí a pouco, outro bando veio chegando, desta vez voando na forma do número dois. O caçador disse ao outro irmão que acertasse um ganso em cada canto, e ele também passou no teste. Diante disso, o pai de criação exclamou:
  • Muito bem! Vocês agora são mestres-caçadores. Então os dois irmãos foram juntos para a floresta, pensaram, conversaram muito e combinaram um plano. De noite, disseram ao pai de criação:
  • Resolvemos que não vamos tocar em um único bocado da comida enquanto o senhor não nos fizer um favor.
  • E qual é esse favor? - perguntou ele.
  • Já aprendemos bem nosso ofício - replicaram. - Agora devemos nos por à prova, nós mesmos. Queremos sair para correr mundo. O velho ficou feliz e respondeu:
  • Vocês falam como caçadores de verdade. Era isso mesmo o que eu esperava. Podem ir. Tenho certeza de que vão se dar muito bem. E então eles comeram e beberam juntos, muito alegres. Quando chegou o dia em que tinham resolvido partir, o pai de criação deu a cada um uma boa arma e um cachorro, e disse que eles levassem consigo todas as moedas de ouro que quisessem, daquelas que estavam guardadas. Seguiu com eles por uma parte do caminho e, na despedida, deu aos dois uma faca com a lâmina muito brilhante.
  • Se algum dia vocês se separarem - recomendou -, enfiem esta faca numa árvore na encruzilhada. Dessa maneira, se um de vocês voltar, vai poder saber como está passando o irmão ausente, porque o lado da lâmina que estiver na direção em que ele foi vai enferrujar se ele morrer. Mas, enquanto ele estiver vivo, continuará brilhante. Os dois irmãos continuaram, indo cada vez mais para longe, e chegaram a uma floresta tão grande que não foi possível atravessá-la em um único dia. Pararam para passar a noite e comeram o que tinham em suas sacolas de caça. Depois, caminharam o outro dia inteiro, mas ainda não conseguiram chegar ao fim da floresta. Não tinham mais nada para

comer e um dos irmãos disse:

  • Vamos ter que abater alguma caça ou ficar com fome. Carregou a arma e olhou em volta. Quando uma velha lebre apareceu, ele fez pontaria, mas a lebre gritou:
  • Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você. Saiu correndo para dentro de uma moita e voltou com dois filhotes de lebre. As lebrinhas brincavam tão alegres e eram tão engraçadinhas que os caçadores não tiveram coragem de matá-las. Então, resolveram poupá-las e elas começaram a segui-los. Daí a pouco, apareceu uma raposa. Eles iam atirar, mas a raposa gritou:
  • Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você. É claro que, em seguida, trouxe duas raposinhas. De novo, os caçadores não tiveram coragem de matá-las e disseram que elas podiam fazer companhia às lebres. Não tinha se passado muito tempo e um lobo saiu do mato. Os caçadores apontaram a arma, mas o lobo gritou:
  • Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos