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Controle da doença de chagas -27
Tipologia: Notas de estudo
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Controle da doença de chagas
João Carlos Pinto Dias
João Carlos Pinto Dias
SUMÁRIO: 1.Introdução. 2.Controle da transmissão do T.cruzi homem. 2.1.Controle do vetor. 2.2.Ação sobre os reservatórios vertebrados. 2.3.Controle da transmissão transfusional. 2.4.Controle da transmissão congênita. 2.5.Controle de transmissão em transplantes de ór- gãos com doador infectado. 2.6.Controle da transmissão acidental. 2.7.Vacinação e doença de Chagas. 2.8.Quimioprofilaxia. 3.Atenção ao chagásico. 3.1.Tratamento específico. 3.2.Tra- tamento sintomático na fase crônica. 3.2.1.Cardiopatia crônica. 3.2.2.Formas digestivas. 3.3.Atenção previdenciária e laboral. 3.4.Reintegração do chagásico na comunidade
J á nos primórdios de sua genial descoberta, Carlos Chagas enfatizou as perspectivas do controle como prioritárias, no âmbito do que vislumbrava como uma enorme tragédia latino-americana. Ao contextualizar a dimensão do problema, discernindo com extrema clareza os principais determinantes da endemia, Chagas colocava como fundamental a luta implacável contra o inseto vetor e a busca de moradia digna para os indivíduos expostos ao mal, tudo isto na dependência de uma firme vontade política, com base na dignidade humana e nos deveres e responsabilidades do Estado (Chagas, 1911).
Ainda hoje, frente a sérias limitações em seu tratamento, especialmente na fase crônica, é consenso que a doença de Chagas será em definitivo controlada mediante ampla reformulação social nas áreas endêmicas e através de ações preventivas espe- cíficas nos diversos níveis de atenção e promoção da saúde. Em outras palavras, a superação da doença de Chagas humana passa por mudanças sócio-políticas, de um lado, e por medidas pontuais e específicas, de outro, sendo ideal que estas duas vertentes se combinem (Dias, 1991).
Neste sentido, ao médico e ao profissional de saúde cabem as duas perspec- tivas, sem choques, discussões estéreis e ambigüidades: de um lado, como cidadãos e pela natural liderança, estudar as causas, denunciar os problemas e, mesmo, pro- por medidas de reformulação social vinculadas à endemia; de outro, como técni- cos, propor e executar a luta antichagásica específica, principalmente em termos do controle do vetor e da transmissão vetorial. Na prática, ambas as coisas têm aconte- cido, de forma mais ou menos simultânea, o que se pode avaliar em vários exem- plos. Melhorias evidentes no sistema de produção de algumas áreas de São Paulo, Brasil, com imediata repercussão na qualidade das casas rurais, indubitavelmente promoveram grande decréscimo na endemia chagásica, mesmo antes da implanta- ção definitiva do controle químico do vetor pelo Estado (Caldas Jr., 1980; Dias, 1978; Litvoc, 1985).
elementos e estratégias de controle da esquisotripanose, levando em conta as possibi- lidades e as indicações de cada um.
Compreende a medida básica contra a doença de Chagas na maioria das áreas endêmicas, sendo ainda hoje prioridade em várias regiões latino-americanas (Dias, 1993; Schmunis, 1991; WHO, 1991). Ao nível individual e familiar, a imensa maioria dos chagásicos existentes foi contaminada pelas fezes do triatomíneo infectado, no interior de uma vivenda humana. Neste quadro, o enfoque preventivo prevê o afasta- mento dos triatomíneos da moradia, e uma ação efetiva e constante para que estes insetos não voltem a colonizar a casa. De modo bastante prático, a luta anti-triatomínica usual envolve três bases igualmente importantes: a) Luta direta contra o vetor; b) Melhoria habitacional, e, c) Ações de educação e organização social. Numa perspectiva programática, estas bases se complementam e devem ser manejadas de forma integrada, inclusive contemplan- do outros problemas e agravos que abranjam a área e as populações em questão. Participação comunitária, envolvimento extensivo do setor educacional e acionamen- to das instâncias de controle e mobilização social (conselhos municipais e estaduais), assim como ação política específica integralizam esta proposta na perspectiva do SUS que se formata para o Brasil.
De cerca das 120 espécies reconhecidas de triatomíneos, apenas pouco mais de meia dúzia apresenta hoje importância em Saúde Pública, já que são as únicas que colonizam o domicílio humano e se acercam o suficiente do homem suscetível para transmitir-lhe o T.cruzi (Schofield & Dias, 1991, WHO, 1991). As demais espécies permanecem restritas ao âmbito silvestre, eventualmente invadindo casas e muito raramente formando pequenas e transitórias colônias em seu interior. Desta forma, o alvo básico da luta anti-chagásica é o triatomíneo domiciliado, constituindo aquelas espécies "secundárias" objeto de ações principalmente de vigilância epidemiológica.
Historicamente, e por influência dos grandes programas contra a malária e a febre amarela que se desenvolveram de forma heróica em toda a América neste século, a luta contra a doença de Chagas sempre assumiu caráter de programa nacio- nal e priorizou o combate ao vetor, em especial nos quatro países em que esteve mais presente: Argentina, Brasil, Venezuela e Uruguai (Dias, 1993; WHO, 1991). Nestes países deu-se primazia à luta química em três, ficando a Venezuela com um programa misto de vivenda e inseticida. A opção brasileira foi tomada desde os anos 50, enca- beçada pelo Estado de São Paulo, que sempre teve programa próprio. Tudo indica que a luta química contra o vetor era a mais acessível aos órgãos de Saúde encarrega- dos do controle das grandes endemias, isolados orgânica e administrativamente de possíveis programas habitacionais e sem recursos para enveredar nesta área. Acresce ainda o momento histórico da época, quando o País se definia por um modelo desen¬ volvimentista de tipo urbano-industrial, com isto penalizando as atividades rurais e agrícolas: o problema era a habitação urbana, não a rural, praticamente inviabilizando um programa mais significativo de melhoria de habitações em zonas rurais, em espe- cial as mais pobres (observe-se que nunca se logrou, no Brasil, a implantação de um BNH rural).
De modo geral, a seqüência programática das ações anti-vetoriais com insetici- das abrange as três fases clássicas da luta anti-anofelínica: a) preparatória (reconheci- mento e planejamento), b) ataque e, c) vigilância. Estas etapas devem ser seguidas de forma contínua, em áreas geográficas contíguas, sendo estes os pressupostos funda- mentais para um programa eficaz (Dias, 1958). Na primeira, faz-se o reconhecimento geográfico e o mapeamento da área, ao lado de um levantamento triatomínico (casa por casa) e, sempre que possível, um inquérito sorológico para definir-se a prevalência da doença de Chagas na área. No Brasil estas programações são feitas por regiões (geralmente chamadas "Distritos") e particularizadas por municípios, onde se identificam as localidades e, finalmente, cada casa. No "ataque" são realizadas as ações maciças de aplicação racionalizada de inseticida, se possível acompanhadas de melhoria habitacional, programadas municí- pio por município. Até aqui, reconhecimento e ataque têm sido realizados por equi- pes federais ou estaduais (provinciais, na Argentina), funcionando o esquema com a rapidez e a boa capacidade de ação que caracteriza os programas verticais. Pouco a pouco, no entanto, caminha-se para uma descentralização dessas atividades, que podem ser assumidas por Estados e Municípios, especialmente na etapa final que é a de vigilância. Na prática, o trabalho de desinsetização contempla cada unidade domiciliar como um conjunto formado pela "casa" (intradomicílio) e seus "anexos" (peridomicí¬ lio). Via de regra, na fase inicial do "ataque" são borrifadas todas as unidades domici- liares de uma localidade positiva para triatomíneos, sendo que na vigilância o são apenas aquelas unidades que apresentarem captura de triatomíneos. O "ataque" se consolida através de avaliações subseqüentes ao primeiro rociado em cada localida- de, que podem ser anuais ou semestrais, provendo-se com isto os dados para novos expurgos ou para implantação da fase e da estratégia de vigilância (Dias, 1987). Em geral, a vigilância se implanta quando as taxas de infestação domiciliar (casas positi- vas/pesquisadas χ 100) descem abaixo de 5%, sabendo-se que no Brasil, em 1992, mais de 86% dos Municípios se encontravam abaixo deste limiar (Dias, 1991; Dias, 1993).
O controle químico dos triatomíneos tem-se mostrado factível e eficaz, quando executado com um mínimo de apuro técnico e com a continuidade operativa neces- sária. O impacto ambiental e humano é bastante discreto, em especial com o emprego dos piretroides, que são biodegradáveis e não têm apresentado toxicidade aguda importante. Também não se tem registrado resistência dos "barbeiros", depósitos na natureza e casos de toxicidade crônica (Dias, 1993 e 1994). Naturalmente há um custo ecológico e social para o uso de inseticidas em larga escala, que deve ser contempla- do no planejamento das ações de Saúde Pública; não resta dúvida, entretanto, que o mesmo é altamente compensador no controle da doença de Chagas, até porque o custo e o volume de pesticida dos primeiros ciclos sempre deve decrescer rapidamen- te nos ciclos subseqüentes, em particular na etapa de vigilância (Schofield & Dias, 1991). Pode-se afirmar que o inseticida não é a medida única ou ideal contra os "barbeiros", e que sempre deve ser complementada por outras de maior alcance social, como a melhoria da habitação e a educação sanitária. Não resta dúvida, entre- tanto, que, mesmo quando aplicado isoladamente, o inseticida pode ser altamente benéfico e produzir em curto prazo o controle da transmissão vetorial do T.cruzi ao homem (Dias, 1957, Rocha e Silva, 1979, Caldas Jr., 1980). Como aplicar: A aplicação destes inseticidas se faz geralmente com bombas manuais de capacidade entre 10 e 20 litros - tipo "Hudson", de pressão constante (a mesma do DDT da malária) ou costais de agitação interna e menor pressão ("Jacto", "Excelsior" etc). A média de consumo do inseticida preparado - em água - varia, no Brasil, entre 15 e 30 litros por unidade domiciliar, nas aplicações da Fundação Nacio- nal de Saúde. O inseticida vem em geral dentro de pequenos "containers", com a medida padrão para sua preparação em 10 litros de água, devendo ser aspergido com técnica padronizada de tempo e distância da superfície, para que se obtenha a quan- tidade estipulada do princípio ativo por m^2. Segurança n a aplicação: Os cuidados necessários à aplicação dos piretroides envolvem a segurança do borrifador - uso de manga comprida, luvas e máscara - , a proteção dos moradores - não borrifar pessoas, alimentos e roupas, inclusive de
cama: rociar a casa com os moradores e alimentos retirados, voltando à casa 2 horas depois - , e o ambiente - não rociar mananciais, não lavar bombas e baldes em águas correntes, dispor adequadamente os "containers" usados - etc. Cuidados médicos o c o r r e r intoxicação: normalmente os piretroides usados contra os "barbeiros" são bastante menos tóxicos que os antigos pesticidas: por exem- plo, em experimentos com abelhas, a deltametrina e a cipermetrina mostraram-se 2.500 vezes menos tóxicas que o lindane (isômero gama do BHC) e 4.800 vezes menos que o fosforado malathion (Roussel Pharmaceuticals, 1986). Limitam-se os acidentes a irritações dolorosas, superficiais e passageiras, de pele, mucosas e olhos, quando o contato é direto. Uma situação particular envolve rociadores que, se conta- minam suas mãos - este contato geralmente é indolor - , ao manipularem sua genitalia para micção acabam irritando bastante a glande, o prepúcio e o tegumento escrotal. Em geral é suficiente uma lavagem imediata com água e abundante e sabonete neu- tro. Havendo lesão dérmica, lavar com soro fisiológico e proteger com cremes eva¬ nescentes neutros, usando anestésicos cutâneos se necessário. Caso sejam ingeridos os piretroides em pequenas quantidades, deve-se hidratar e aquecer o paciente; se em grande quantidade, fazer lavagem gástrica logo que possível e usar produtos na base de carvão ativado ou atapulgita. Havendo convulsões, transferir o paciente para unidade de terapia intensiva, assistir sua respiração e empregar barbitúricos por via intramuscular (Roussel Pharmaceuticals, 1986). Com o ataque maciço inicial já ocorre drástica redução da população triatomí- nica, em especial a intra-domiciliar: geralmente, em áreas muito infestadas, este ata- que promove o desaparecimento dos casos agudos da doença de Chagas e, a médio prazo, além da redução do número de insetos capturados, sua taxa de infecção natu- ral por T.cruzi também decresce. Quando a área apresenta maior proporção de veto- res domiciliados (caso típico de Triatoma infestans), o rociado é muito mais eficaz e de efeito mais duradouro; se, ao contrário, prevalecem espécies ubiquistas e muito dispersas no meio ambiente natural (caso de Triatoma sordida e Triatoma brasilien- sis), as reinfestações tornam-se uma regra e o peri-domicílio fica sendo um grande problema (Dias, 1957, Dias, 1987, Rocha e Silva, 1979).
da (Dias, 1993, Zeledón, 1981). Outro dos pilares da luta anti-triatomínica sem dúvida é a e d u c a ç ã o p a r a a saúde, a ser realizada de modo permanente nas áreas endêmicas: reconhecer a doença e suas formas de transmissão, organizar da casa, manejar de forma adequada o peri-domicílio, reconhecer, capturar e notificar triatomíneos etc. são objetivos importantes a serem perseguidos nas práticas escolares e comunitárias (Briceño-León, 1993, Dias, 1987, WHO, 1991). A luta básica contra os triatomíneos ocorre, e apenas faz sentido, no ambiente domiciliar. Ao nível do ciclo silvestre do parasito, a intervenção humana praticamente não se justifica, seja através de desmatamentos ou, principalmente, por meios quími- cos. Quando muito, o manejo ambiental racionalizado, afastando da periferia do domicílio possíveis criadouros silvestres, como montes de pedras, árvores ocas, pe- quenos matagais. A filosofia e a racionalidade da vigilância justamente se escudam na avaliação específica de cada caso e na atenção permanente sobre o panorama epide- miológico. Podemos no Brasil erradicar o T.infestans, espécie introduzida e essencial- mente domiciliar. Já para as espécies nativas, como T.sordida, T.vitticeps, T.brasiliensis, T.pseudomaculata, Panstrongylus megistus e Rhodnius sp, por exemplo, devemos pau- tar-nos por ações de controle para impedir sua domicialização (Dias, 1994, Schofield, 1994). Como alternativas aos inseticidas usuais, vários produtos naturais (em par- ticular, extratos de plantas) vêm sendo experimentados, lamentavelmente sem resul- tados convincentes ao nível de Saúde Pública. Hormônios juvenilizantes e precoce¬ nos podem produzir importantes câmbios na biologia dos triatomíneos, resultando indivíduos estéreis, mas sua aplicação é destituída de eficiência e praticidade. O controle biológico tem sido tentado com nematóides e algumas vespas parasitas, assim como através de fungos entomófogos, mas ainda sem conseguir impacto em maior escala (Dias, 1993, Schofield, 1994). Em larga experiência contra o T.infestans, na Argentina, há alguns anos vêm sendo usados produtos que exalam uma fumaça inseticida ("potes fumígenos") na base de piretroides, fosforados e DDVP. São práti- cos e de fácil uso. Embora sem efeito residual, sua melhor indicação é para o intra- domicílio, onde a fumaça penetra facilmente em frestas e outros abrigos dos insetos. No Brasil teriam menor aplicabilidade, desde que nos dias atuais, em sua maioria, os focos são peri-domiciliares (Dias, 1993-A).
Outra alternativa, também em experiência, são as pinturas inseticidas, em que um inseticida convencional (lindane, malathion) é incorporado a uma matriz de látex (PVA), para aplicação em paredes. Esta formulação apresenta a vantagem de longo efeito residual, que alcança 2 anos ou mais, assim protegendo a casa de uma colonização intra-domiciliar por triatomíneos por longo tempo, o que economizaria trabalhos de pesquisa e borrifações em períodos menores (WHO, 1991). Profilaxia anti-vetorial defensiva. Trata-se de usar substâncias ou artefatos que previnam o contato do indivíduo suscetível com o vetor. Os mais efetivos são a boa limpeza da habitação e o uso adequado de cortinados individuais, em regiões infestadas. O emprego de substâncias repelentes, seja na pele, seja no ambiente (fu- maças e aerossóis químicos), tem valor apenas relativo, segundo várias experiências realizadas (Dias, 1990).
Praticamente não faz sentido uma ação específica neste sentido, seja sobre os reservatórios domésticos (cão, gato, roedores, coelhos), seja sobre os silvestres (gam- bás, roedores, primatas, morcegos, canídeos, felídeos etc.). O q u e se deve, objetiva- mente, é impedir ou dificultar a presença desses animais dentro da casa, o q u e dimi- nui o risco de circulação d o parasito e também reduz a quantidade de alimento disponível para eventuais triatomíneos. Esta segunda assertiva vale também para as aves, q u e m e s m o não s e n d o reservatórios, constituem-se nas principais fontes ali- mentares dos triatomíneos na natureza (Dias, 1990, Rocha e Silva; 1979, Schofield, 1994).
Este tópico, desenvolvido em outra parte deste livro, poderia ser aqui sumari- ado conforme as estratégias básicas disponíveis: a) a correta e contínua seleção de todos os doadores d e sangue d o País, através de dupla sorologia dotada d e alta sensibilidade e, b) o emprego de violeta de genciana a 1:4.000 e m bolsas de sangue estocado, por u m período mínimo de 24 horas. Ambas são muito eficazes e já de larga experiência, s e n d o mais indicada a quimioprofilaxia para aquelas situações em que a sorologia n ã o for viável (ou confiável), ou em q u e a prevalência de d o a d o r e s chagá- sicos for muito alta, sobrepassando os 20 % (Dias, 1993, Schmunis; 1991, WHO, 1991). Complementam-se estas medidas com outras de caráter mais geral e da maior importância, c o m o a cobertura total de exames dos doadores, a correta indicação d o procedimento hemoterápico, a cobertura d e lei para transfusões d e boa qualidade, ampla disponibilidade de hemoderivados, ablação da figura de doadores remunera- dos, estimulação de práticas c o m o a auto-hemo-transfusão, correta notificação de acidentes transfusionais etc.
Também este é u m tópico tratado em capítulo à parte, cujo resumo seria: não há presentemente medida preventiva para a transmissão d o parasito a o feto d e ges- tante chagásica, s e n d o inadmissíveis as indicações de tratamento específico da ges- tante ou abortamento profilático. O q u e cabe é o diagnóstico precoce da infecção em recém nascidos de mães infectadas, com o tratamento específico imediato das crian- ças contaminadas (ver os capítulos "Doença de Chagas congênita" e "Tratamento específico").
Fazer a sorologia d o doador e d o receptor. Sendo imperioso o transplante, estando aquele infectado e este suscetível, o ideal é tratar-se especificamente o doa- dor com os fármacos disponíveis durante os 10 dias imediatamente anteriores ao ato cirúrgico e o receptor nos 10 dias imediatamente subseqüentes, com isto baixando-se
da América), restará u m horizonte de 16 a 18 milhões d e pessoas já contaminadas a requerer atenção e tratamento, trabalho considerável para as próximas 3 ou 4 décadas (Dias, 1993; WHO, 1991). Em termos sumários, os parágrafos seguintes servirão c o m o roteiro inicial ao profissional de saúde, d e v e n d o ser complementa- dos nos capítulos correspondentes deste livro, assim c o m o na bibliografia específica anotada em cada capítulo.
Indicado basicamente para os casos agudos, congênitos e recentes, persegue a cura parasitológica radical, com isto evitando a morte na fase aguda e o desenvolvi- mento das lesões crônicas. A grande pergunta é sobre a validade d o tratamento nos casos de forma crônica indeterminada, com o objetivo de cortar ou minimizar sua progressão para as "patias" crônicas. Hoje há alguns indícios de q u e tal procedimento p o d e apresentar alguns benefícios, mas a questão p e r m a n e c e e m aberto e deve ser avaliada pelo médico, conjuntamente com o paciente, e m cada caso em particular (Dias, 1990; WHO, 1991).
Faz sentido, em especial para a prevenção d o agravamento das principais le- sões, assim c o m o na prevenção de eventos graves c o m o a morte súbita, as trombo- embolias e os volvos da sigmóide. Pressupõe atenção médica contínua, c o m a perio- dicidade q u e indica cada estágio da moléstia. Em princípio, indivíduos e m forma crônica indeterminada necessitam não mais q u e uma ou duas visitas ao médico por ano, regime q u e aumentará na conformidade d o agravamento da doença. Pode-se afirmar q u e uma rede básica de saúde bem estruturada e competente absorverá entre 80 e 85% dos casos de doença de Chagas, q u e d a n d o os demais para níveis superiores de complexidade (Dias, 1990).
Controle das arritmias e de seus fatores de risco, através de diagnóstico correto e precoce, a d e q u a ç ã o de vida, uso judicioso de modernos anti-arrítmicos, implante de marcapassos etc. A prevenção da insuficiência cardíaca é fundamental, d e v e n d o ser feita já aos primeiros sinais e sintomas de agravo cardíaco. ICC instalada é sinal de cardiopatia grave, a exigir muito maior cuidado n o sentido d e prevenir sua evolução para as formas finais e refratárias. Em particular, os casos d e ICC e d e grandes cardi¬ omegalias sempre envolvem maior risco de fenômenos trombo-embólicos, o q u e leva o médico a agir preventivamente através da administração rotineira d e aspirina ou dicumarínicos. Depois d e outros recursos mais simples e factíveis, restará o d o trans- plante cardíaco para corações já totalmente insuficientes e tomados pela fibrose avan- çada. Embora sua grande evolução técnica, os transplantes cardíacos na doença de Chagas, por problemas de custo e de doadores, devem apenas ser entendidos c o m o recurso extremo e d e mui difícil acesso aos pacientes em geral.
O tratamento deve ser conservador nas fases iniciais da esôfago ou colopatia. Os procedimentos cirúrgicos reservam-se para os casos mais avançados, lembrando- se que, especialmente nas cirurgias de megacólon, a mortalidade não é desprezível. Nos casos de volvos da sigmóide, a assistência deve ser a mais precoce possível, objetivando-se prevenir a necrose da alça e a morte do paciente.
Aqui despontam dois aspectos capitais, ambos enraizados na pobreza e na costumeira marginalidade social da grande maioria dos chagásicos: o primeiro é o direito (e a necessidade) ao trabalho que tem o infectado e que, freqüentemente lhe é negado por empresas e instituições, frente a uma simples sorologia positiva; o segundo é a necessidade imperiosa de atenção social (em particular a aposentadoria) àqueles chagásicos com cardiopatia já avançada. Ambos estes aspectos passam pelo médico, contemplando as questões básicas de acesso, competência e a necessária criteriologia. Trata-se de definir, frente a um chagásico, sua perspectiva de vida e de capacidade laborativa, especialmente levando em conta o perfil da sua profissão e o contexto psicossocial de cada caso. Como regra geral, o caso deve ser avaliado muito objetivamente, evitando-se desesperar o paciente ou dar-lhe esperanças falsas ou irreais. Mais detalhadas no capítulo específico, os dois aspectos acima envolvem, de um lado a grande massa de chagásicos que migram para os espaços urbanos justa- mente à busca de trabalho. Em sua maioria são indivíduos na forma crônica indeter- minada (ou nas formas cardíaca e digestivas iniciais), portanto aptos à realização da imensa maioria das profissões. No outro lado estão aqueles indivíduos cuja cardiopa- tia instalada e progressiva pressupõe, entre outras medidas, uma redução objetiva de esforço físico como forma de prevenção da morte súbita e da evolução da ICC; como, em sua maioria, estes chagásicos vivem de seus braços e não têm nenhuma outra perspectiva de trabalho, o benefício previdenciário é justo e necessário, cabendo ao médico sua viabilização. Em contrapartida, o mesmo médico deve ser capaz de negar a aposentadoria em casos desnecessários, assim evitando ônus indevidos para a Pre- vidência Social.
Ao saber-se infectado, o paciente muitas vezes entra em pânico ou em profun- da depressão, seja porque pensa que está contaminado por doença fatal e sem cura, seja porque tem parentes ou conhecidos que já morreram com a mesma. Trata-se de uma visão fatalista da doença, na verdade incorporada na população de forma insidi¬ osa através apenas das informações restritas aos casos mais graves (que não são a maioria). O infectado em geral necessita saber do resultado de sua sorologia, princi- palmente para não doar sangue e para cuidar-se de modo adequado. O médico, a escola e os meios de comunicação devem passar às populações das áreas endêmicas
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