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Pedologia e Morfodinâmica de Solos em Paisagens Naturais, Trabalhos de Gestão Ambiental

Este documento discute a importância da pedologia na caracterização morfodinâmica de unidades de paisagem natural, especialmente na indicação da maturidade dos solos. Além disso, ele aborda o papel da cobertura vegetal na proteção da paisagem e os efeitos da erosão hídrica. O texto também discute a fragilidade do ecossistema e os fatores que permitem a produtividade dos solos pobres na amazônia.

Tipologia: Trabalhos

2022

Compartilhado em 22/08/2022

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SENSORIAMENTO REMOTO E GEOPROCESSAMENTO
APLICADOS AO ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO E
AO ORDENAMENTO TERRITORIAL.
Edison Crepani
José Simeão de Medeiros
Pedro Hernandez Filho
Teresa Gallotti Florenzano
Valdete Duarte
Cláudio Clemente Faria Barbosa
(INPE-8454-RPQ/722)
São José dos Campos
Junho de 2001
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SENSORIAMENTO REMOTO E GEOPROCESSAMENTO

APLICADOS AO ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO E

AO ORDENAMENTO TERRITORIAL.

Edison Crepani José Simeão de Medeiros Pedro Hernandez Filho Teresa Gallotti Florenzano Valdete Duarte Cláudio Clemente Faria Barbosa

(INPE-8454-RPQ/722)

São José dos Campos Junho de 2001

REMOTE SENSING AND GEOPROCESSING APPLIED TO THE

ECOLOGICAL AND ECONOMICAL ZONING AND TO THE TERRITORIAL

ORDERING.

ABSTRACT

This paper presents a methodology to map the natural soil loss vulnerability. The objective of these maps is to support the Ecological and Economical Zoning of the Amazon. The methodology was developed based upon the Ecodynamic concept and on the reclassification of previous thematic data with the aid of satellite image interpretation, which aided the synoptic and holistic perception of the landscape. The analysis and interpretation of those images is based on photographic patterns such as color, texture, shape, drainage patterns and topography. The vulnerability of landscape units is based on empirical relative values according to the relationship between morphogenese/pedogenese for each of the main variables: geology, geomorphology, pedology, vegetation, land use and climate. The digital processing and the data base manipulation was performed with aid of the software SPRING developed by INPE.

SUMÁRIO

Pág.

LISTA DE FIGURAS......................................................................................................... LISTA DE TABELAS.........................................................................................................

1 INTRODUÇÃO ...............................................................................................................

2 A IMAGEM COMO “ÂNCORA” PARA O ZONEAMENTO ......................................

3 AS UNIDADES DE PAISAGEM NATURAL................................................................

4 OS POLÍGONOS DE INTERVENÇÃO ANTRÓPICA..................................................

5 ELABORAÇÃO DE UMA CARTA DE VULNERABILIDADE NATURAL À PERDA DE SOLO...................................................................................

5.1 - Análise e interpretação das imagens de satélite ......................................................... 5.2 - Escala de vulnerabilidade das unidades territoriais básicas........................................ 5.3 - A paisagem.................................................................................................................. 5.3.1 - A crosta superior...................................................................................................... 5.3.2 - O intemperismo........................................................................................................ 5.3.3 - O solo....................................................................................................................... 5.3.4 - A denudação............................................................................................................. 5.4 - Critérios para atribuição de valores na escala de vulnerabilidade para cada tema Geologia (G), Geomorfologia (R), Solos (S), Vegetação (V) e Clima (C)................................................................................................................. 5.4.1 - Geologia (G)............................................................................................................. 5.4.1.1 - A importância da história da evolução geológica................................................. 5.4.1.2 - Resistência das rochas à denudação (intemperismo e erosão).............................. 5.4.1.2.1 - Rochas Ígneas..................................................................................................... 5.4.1.2.2-Rochas Metamórficas........................................................................................... 5.4.1.2.3 -Rochas Sedimentares........................................................................................... 5.4.1.3 -Resistência das rochas à morfogênese................................................................... 5.4.2 - Geomorfologia (R)................................................................................................... 5.4.3 - Pedologia (S)............................................................................................................ 5.4.3.1 - Unidades de paisagem natural estáveis................................................................. 5.4.3.2 - Unidades de paisagem natural intermediárias....................................................... 5.4.3.3 - Unidades de paisagem natural vulneráveis........................................................... 5.4.3.4 - Relatório e os mapas de solos do projeto RADAMBRASIL................................ 5.4.4 - Vegetação (V) ......................................................................................................... 5.4.4.1 - cobertura vegetal estável....................................................................................... 5.4.4.2 - Cobertura vegetal moderadamente estável............................................................ 5.4.4.3 - cobertura vegetal medianamente estável ou vulnerável........................................ 5.4.4.4 - Cobertura vegetal moderadamente vulnerável......................................................

LISTA DE FIGURAS

Pág.

1 - Fluxograma geral da metodologia do ZEE.................................................................... 2 - Padrão de resposta espectral dos principais alvos da superfície terrestre...................... 3 - Padrões de dissecação do relevo.................................................................................... 4 - Precipitação média anual do Brasil................................................................................ 5 - Média da duração do período chuvoso do Brasil........................................................... 6 - Mapa Índice Reduzido das Folhas da Carta do Brasil na escala 1:250.000...................

LISTA DE TABELAS

Pág.

1- Uso da terra e perda de solo............................................................................................ 2 - Avaliação da estabilidade das categorias morfodinâmicas............................................ 3 - Escala de vulnerabilidade das unidades territoriais básicas........................................... 4 - Valores de denudação em algumas bacias fluviais brasileiras....................................... 5 - Rochas mais importantes em proporção de cobertura da crosta superior...................... 6 - Proporção dos minerais expostos na superfície da crosta superior................................ 7 - Elemento químicos mais comuns na crosta da terra...................................................... 8 - Eletronegatividade dos principais elementos químicos formadores de rochas.............. 9 - Diferença de eletronegatividade e porcentagem do caráter iônico da ligação............... 10 - Classificação dos silicatos............................................................................................ 11 - Composição média das rochas ígneas extrusivas em porcentagem de peso dos principais óxidos......................................................................................... 12 - Composição média das rochas ígneas intrusivas em porcentagem de peso dos principais óxidos......................................................................................................... 13 - Composição química dos minerais das rochas metamórficas...................................... 14 - Composição química média das principais rochas sedimentares................................. 15 - Escala de vulnerabilidade à denudação das rochas mais comuns................................ 16 – Matriz do índices de dissecação do relevo.................................................................. 17 - Matriz do índices do dissecação do relevo................................................................... 18 - Classes de declividade com os respectivos valores da escala de vulnerabilidade............................................................................................................ 19- Valores de vulnerabilidade para a intensidade de dissecação do relevo....................... 20 - Valores de vulnerabilidade para a amplitude altimétrica............................................. 21 - Valores de vulnerabilidade para a declividade das encostas........................................ 22 - Taxas médias de formação e perda de solo.................................................................. 23- Valores de vulnerabilidade/estabilidade dos solos........................................................ 24 - Características fisicas das chuvas nas diversas regiões do Brasil................................ 25 - Escala de erosividade da chuva e valores de vulnerabilidade à perda de solo............. A.1 - Comparação entre a legenda inicial e atual do projeto radambrasil (mapa fitoecológico) e os respectivos valores na escala de vulnerabilidade........................ B.1 - Valores de intensidade pluviométrica para as cartas do mapa índice reduzido do brasil na escala de 1:250.000.....................................................................................

Adaptada de (Medeiros, 1999) Fig. 1 - Fluxograma geral da metodologia do ZEE. FONTE: Baseado em Becker e Egler (1996) e Crepani et al. (1996)

Segundo Becker e Egler (1996), as unidades territoriais básicas são as células elementares de informação e análise para um zoneamento ecológico - econômico. Como em um ser vivo, cada célula contém um conjunto de informações fundamentais à manutenção e à reprodução da vida e compõe um tecido que desempenha determinadas funções em seu desenvolvimento. Uma unidade territorial básica é uma entidade geográfica que contém atributos ambientais que permitem diferenciá-la de suas

CLIMA

GEOLOGIA

GEOMORFOLOGIA

PEDOLOGI A

VEGETAÇÃO

USO DA TERRA

PAISAGEM

SENS. REMOTO (âncora)

UTB

CARTA DE VULNERABI LIDADE

VIAS DE CIRCULAÇÃO CIDADES, POVOADOS

DIVISÃO TERRITORIAL municípios, distritos, setores censitários

BANCO DE DADOS SÓCIO-ECONÔMICO

POTENCIAL NATURAL

POTENCIAL PRODUTIVO

POTENCIAL INSTITUCIONAL

POTENCIAL HUMANO

CARTA DE POTENCIALIDADE SOCIAL E ECONÔMICA

CARTA DE SUSTENTABILIDADE DO TERRITÓRIO

CARTA DE ÁREAS DE USO RESTRITO

LEGISL. ATUAL ORDEN. E USO DO TERRITÓRIO

CARTA SÍNTESE DE SUBSÍDIOS À GESTÃO DO TERRITÓRIO

vizinhas, ao mesmo tempo em que possui vínculos dinâmicos que a articulam à uma complexa rede integrada por outras unidades territoriais.

A delimitação das unidades territoriais básicas sobre uma imagem de satélite permite o acesso às relações de causa e efeito entre os elementos que a compõem, oferecido pelas diferentes resoluções (espacial, espectral, temporal e radiométrica) da imagem, ao contrário da simples justaposição de informações em SIGs gerada a partir de dados de diferentes escalas, épocas, e metodologias de trabalho, que nem sempre apresentam relações coerentes entre si.

A adoção das imagens de satélite como “âncora” para o Zoneamento Ecológico - Econômico traz consigo a possibilidade de se utilizar todo o potencial disponível no Sensoriamento Remoto e nos Sistemas de Informações Geográficas, além de desenvolver uma metodologia perfeitamente aplicável a novos produtos orbitais que estarão disponíveis no futuro.

3 AS UNIDADES DE PAISAGEM NATURAL

As unidades de paisagem natural, enquanto unidades territoriais básicas passíveis de georreferenciamento, contêm uma porção do terreno onde se inscreve uma combinação de eventos e interações, visíveis e invisíveis, cujo resultado é registrado e pode ser visto na forma de imagem fotográfica de um determinado momento, representando um elo de ligação entre a Geografia e a Ecologia.

As unidades de paisagem natural, definidas a partir de critérios de fotointerpretação sobre a “âncora” representada pelas imagens orbitais, devem ser analisadas à luz de suas características genéticas e daquelas relacionadas à sua interação com o meio ambiente, para que se possa conhecer e classificar sua capacidade de sustentação à ação humana.

Para se analisar uma unidade de paisagem natural é necessário conhecer sua gênese, constituição física, forma e estágio de evolução, bem como o tipo da cobertura vegetal que sobre ela se desenvolve. Estas informações são fornecidas pela Geologia, Geomorfologia, Pedologia e Fitogeografia e precisam ser integradas para que se tenha um retrato fiel do comportamento de cada unidade frente à sua ocupação. Finalmente, é necessário o auxílio da Climatologia para que se conheçam algumas características climáticas da região onde se localiza a unidade de paisagem, a fim de que se anteveja o seu comportamento frente às alterações impostas pela ocupação.

A análise morfodinâmica das unidades de paisagem natural pode ser feita a partir dos princípios da Ecodinâmica (Tricart, 1977) que estabelece diferentes categorias morfodinâmicas resultantes dos processos de morfogênese ou pedogênese. Nesta análise quando predomina a morfogênese prevalecem os processos erosivos, modificadores das formas de relevo, e quando predomina a pedogênese prevalecem os processos formadores de solos.

A contribuição da Geologia para a análise e definição da categoria morfodinâmica da unidade de paisagem natural compreende as informações relativas à história da evolução geológica do ambiente onde a unidade se encontra, e as informações relativas ao grau de coesão das rochas que a compõem. Por grau de coesão das rochas entende-se a intensidade da ligação entre os minerais ou partículas que as constituem.

drenagem, pelo aumento da capacidade de infiltração, pois o ingresso imediato provoca incremento do “runoff” (massas de água em movimento), com o conseqüente aumento na capacidade de erosão pela transformação de energia potencial em energia cinética.

A participação da cobertura vegetal na caracterização morfodinâmica das unidades de paisagem natural está, portanto, diretamente ligada à sua capacidade de proteção. Assim aos processos morfogenéticos relacionam-se as coberturas vegetais de densidade (cobertura do terreno) mais baixa, enquanto que os processos pedogenéticos ocorrem em situações onde a cobertura vegetal mais densa permite o desenvolvimento e maturação do solo.

As informações climatológicas necessárias à caracterização morfodinâmica das unidades de paisagem natural representam o contraponto ao papel de defesa desempenhado pela cobertura vegetal. Estas informações, relativas à pluviosidade anual e à duração do período chuvoso, que definem a intensidade pluviométrica , permitem a quantificação empírica do grau de risco a que está submetida uma unidade de paisagem, pois situações de intensidade pluviométrica elevada, isto é, alta pluviosidade anual e curta duração do período chuvoso, podem ser traduzidas como situações onde a quantidade de água disponível para o “runoff” é muito grande, e portanto é maior a capacidade de erosão. Estas situações reúnem as melhores condições para o desenvolvimento dos processos morfogenéticos cujo vetor principal, para nossas condições climáticas, é o “runoff”. De forma inversa, a baixa pluviosidade anual distribuída em um maior período de tempo, caracterizando intensidade pluviométrica reduzida, leva a situações de menor risco para a integridade da unidade de paisagem, pois é menor a disponibilidade de água para o “runoff”.

4 - OS POLÍGONOS DE INTERVENÇÃO ANTRÓPICA

Como representantes nas imagens da área física onde se dá a atuação humana que modifica as condições naturais, os polígonos de intervenção antrópica podem localizar- se sobre uma única, ou várias unidades de paisagem natural, dependendo exclusivamente de suas dimensões.

Esta simples constatação a respeito dos polígonos de ação antrópica demonstra a necessidade de se conhecer previamente as unidades de paisagem natural. A atuação do homem sobre o meio ambiente, sem o prévio conhecimento do equilíbrio dinâmico existente entre os diversos componentes que permitiram a “construção” das diferentes unidades de paisagem natural pode levar a situações desastrosas do ponto de vista ecológico e econômico. Portanto, antecedendo qualquer ocupação, deve-se conhecer os componentes físicos - bióticos (Geologia, Geomorfologia, Pedologia, Fitogeografia e Clima) que interagindo levaram ao estabelecimento das unidades de paisagem natural.

O conhecimento dos mecanismos que atuam nas unidades de paisagem natural permite orientar as atividades a serem desenvolvidas dentro do polígono de intervenção antrópica, de maneira a evitar agressões irreversíveis e obter maior produtividade, além de dirigir ações corretivas dentro daqueles polígonos onde o uso inadequado provoca conseqüências desastrosas.

Os materiais que compõem as unidades de paisagem natural, os processos que nela atuam e a sua geometria, fazem parte de um conjunto auto - regulador em que toda forma é resultado do ajustamento entre materiais e processos. O equilíbrio deste sistema, presente em cada unidade de paisagem natural, mostra o ajustamento completo das suas variáveis internas às condições externas, e como estes sistemas são abertos eles mantêm-se estabilizados na medida em que as forças atuantes, provindas do meio ambiente, possam ser absorvidas pela flexibilidade existente na estrutura do sistema. Quando a introdução de novas forças gera processos que ultrapassem o grau de absorção há um reajuste em busca de um novo estado de equilíbrio.

As unidades de paisagem natural apresentam diferentes graus de absorção aos estímulos exteriores, assim como seus componentes (formas de relevo, solos, vegetação etc.) apresentam escalas diferentes para o reajustamento frente às modificações provocadas externamente até que se restaure o equilíbrio perdido, podendo oscilar da escala medida em anos até milhões de anos.

As atividades desenvolvidas dentro dos polígonos de intervenção antrópica introduzem novas forças que podem alterar, em escala variável, as condições de equilíbrio do sistema representado pela unidade de paisagem natural. A agricultura, a pecuária, a silvicultura, a mineração e as obras de engenharia civil são exemplos de atividades que, em maior ou menor escala, introduzem estímulos externos ao sistema.

No Brasil, e particularmente na Amazônia, a agricultura e a pecuária são as atividades mais importantes na introdução de estímulos externos, devido a seu caráter extensivo que envolve grandes áreas e busca sempre novas fronteiras.

A primeira intervenção destas atividades no sistema representado pelas unidades de paisagem natural é a alteração da cobertura vegetal, que acontece na forma de retirada de matéria orgânica pelo desmatamento seguido de queimadas. A exposição da superfície do solo ao Sol e a chuva em conseqüência da alteração da cobertura vegetal, desencadeia processos que, dependendo do grau de absorção do sistema, podem não ser completamente absorvidos, iniciando um reajustamento em busca de uma nova situação de equilíbrio cujos efeitos são extremamente danosos aos seres vivos.

A vida vegetal depende de boas condições de porosidade e permeabilidade do solo para respirar e se abastecer corretamente de água e de nutrientes, e estas condições dependem da “grumosidade” do solo. O solo exposto, sem poder contar com a proteção da densa cobertura vegetal, tem seus grumos desmanchados pelo impacto direto das gotas de chuva, ao mesmo tempo em que a diminuição da microvida devido à retirada de matéria orgânica e a exposição ao Sol, inibe a formação de substâncias agregantes pela decomposição da matéria orgânica, como ácidos poliurônicos, que permitiriam a formação de novos grumos.

O resultado dessa mudança nas condições da bioestrutura do solo é a compactação da superfície e a formação de adensamentos ou “pans” em subsuperfície devido ao carreamento da parte fina solo adentro (argila eluviada de grumos destruídos), constituindo-se em barreiras que dificultam a correta circulação de água, nutrientes e ar e impedem o livre desenvolvimento radicular, que implicam na perda de qualidade dos solos para o suporte da vida vegetal, base da cadeia trófica.

Modificada de Lepsch, 1976, p.142).

permanente. O sustento da vegetação nativa vem da delgada camada de matéria orgânica da superfície, onde a maior parte das raízes se desenvolve.

A mata da Amazônia, em parte exuberante, baseia-se num equilíbrio delicado entre a matéria orgânica, a estrutura do solo, a umidade do ar e o nível freático. É um ecossistema extremamente frágil que depende das árvores para ausência de vento na paisagem e para a proteção de seus solos contra o Sol e o impacto das chuvas equatoriais, (que ocorrem graças à mata densamente fechada), além da água transpirada que garante a umidade do ar, e depende também da distribuição equilibrada das chuvas durante todo o decorrer do ano, devido à reduzida capacidade de retenção de água da maioria dos solos.

O clima da região amazônica equatorial úmida se mostra extremamente favorável à produção vegetal, como prova a “hiléia” (floresta pluvial amazônica), mas não se pode esquecer que o clima interage com a mata, que como imenso termostato evita os extremos de temperatura. Pastagens não agem como termostato, portanto não se pode esperar a manutenção do clima amazônico após a modificação total da paisagem, com a troca indiscriminada de mata por pastagens.

A queima anual dos solos amazônicos cria “terra queimada” que em pouco tempo não é mais capaz de suportar nenhuma colheita, sendo tomada por plantas silvestres adaptadas ao fogo (capins fibrosos e cespitosos). A superfície desses solos se torna impermeável às precipitações, que oscilam entre 1300 e 4000 mm anuais, e as águas escorrem turvas pelo material em suspensão, acumulando-se nas baixadas onde causam a morte por asfixia das árvores ali existentes.

Nas áreas que não sofreram desmatamento o ciclo da água é perfeito: a chuva cai, infiltra-se lentamente no solo até atingir o lençol freático de onde abastece os rios vagarosamente, é absorvida pelas raízes e transpirada pelas folhas, formam-se nuvens e chove novamente. Nas áreas desmatadas o vento sopra e a umidade evaporada é levada para longe, criando um ambiente seco. As chuvas atingem diretamente o chão desnudo e escorrem rapidamente causando cheias nunca antes conhecidas em igarapés e rios. A erosão devasta o solo e as doenças aparecem com incrível rapidez e intensidade quase incontrolável.

Nas áreas não desmatadas cada hectare abriga centenas de espécies vegetais diferentes, e apenas de 3 a 5 exemplares de uma mesma espécie, controlando assim eficazmente a multiplicação de pragas. A monocultura comercial, praticada em outras regiões do país, modifica completamente esta distribuição e causa situações como de Fordlândia, falida pela perda de suas seringueiras, do projeto Jari que perdeu milhões de pés de Gmelina, e da pimenta do reino próximo a Belém dizimada por fungos e nematóides. Até plantas nativas da região, como o cajueiro, são atacadas por pragas quando plantadas em monocultura.

Quando se compara a constituição dos solos dos cerrados com a dos solos da Amazônia constata-se que aqueles apresentam maior quantidade de cátions disponíveis e menor teor de alumínio trocável, não sendo, portanto, a maior riqueza do solo nem o menor teor de alumínio responsáveis pela vegetação luxuriante da floresta. Mas há outros três fatores, presentes nos cerrados e responsáveis pela sua vegetação raquítica e xeromorfa, que aos poucos chegam à floresta trazidos pelo desmatamento indiscriminado: o vento, o fogo e a camada adensada do solo.

A ausência de vento e a conseqüente conservação da umidade; o impedimento do fogo e o conseqüente retorno de matéria orgânica ao solo, além da inexistência da camada adensada no solo que o protege dos efeitos negativos das chuvas, parecem ser os fatores que permitem a extraordinária produtividade dos solos pobres da Amazônia. Alterar indiscriminadamente esses fatores pode levar a um desequilíbrio que leve à formação de cerrados, ou pior ainda, de desertos. As evidências de ocupação humana no deserto do Saara, obtidas através da descoberta de antigas aldeias e estradas, são intrigantes e devem servir para reflexão.

5 - ELABORAÇÃO DE UMA CARTA DE VULNERABILIDADE NATURAL À PERDA DE SOLO

Para a elaboração da Carta de Vulnerabilidade Natural à Perda de Solo de uma determinada área há a necessidade mínima dos seguintes materiais: imagens de satélite, relatórios do Projeto RADAM e os respectivos mapas temáticos na escala de 1: 1.000.000 (Geologia, Geomorfologia, Solos e Vegetação), carta topográfica na escala de 1: 100.000 (ou em sua ausência, 1: 250.000) e dados históricos de pluviometria obtidos em postos pluviométricos da ANEEL, por exemplo. Havendo disponibilidade de outros dados em escalas maiores, que possam contribuir para o conhecimento da área em questão, eles serão evidentemente considerados.

5.1 - ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DAS IMAGENS DE SATÉLITE

Sobre as imagens de satélite que podem ser, por exemplo, TM/ETM+^ Landsat 5 ou 7 na composição 5R4G3B (banda 5 no vermelho; banda 4 no verde e banda 3 no azul) ou 7R4G2B (banda 7 no vermelho; banda 4 no verde e banda 2 no azul) diretamente na tela do monitor, desenvolve-se o trabalho de análise e reinterpretação das informações temáticas por meio de edição vetorial, o que permite a construção dos diversos PI (Geologia, Geomorfologia, Pedologia, Vegetação e Uso).

O motivo de escolha desta composição se prende ao fato de que nela os matizes de cores relacionados à vegetação apresentam-se mais “amigáveis” ao intérprete, uma vez que a cor verde é atribuída à banda 4 onde é muito mais evidente a resposta refletida pela vegetação, e assim o fotointérprete faz uma associação direta dos matizes do verde com áreas providas de diferentes densidades de cobertura vegetal. Os matizes do magenta, resultado da resposta refletida pelo solo arenoso em porcentagem maior nas bandas 3 e 5 ou 2 e 7 (azul + vermelho = magenta), identificam áreas com exposição de solo, ou rocha, com reduzida cobertura vegetal. Os matizes do azul se relacionam à água e seu

unidades de paisagem natural pela mudança da litologia, da declividade, do tipo de solo e muitas vezes da cobertura vegetal.

5.2 - ESCALA DE VULNERABILIDADE DAS UNIDADES TERRITORIAIS BÁSICAS

A escala de vulnerabilidade das unidades territoriais básicas, a partir de sua caracterização morfodinâmica, é feita segundo critérios desenvolvidos a partir dos princípios da Ecodinâmica de Tricart (1977) que estabelece as seguintes categorias morfodinâmicas :

  • Meios estáveis:
    • cobertura vegetal densa;
    • dissecação moderada; e
    • ausência de manifestações vulcânicas
  • Meios intergrades:
    • balanço entre as interferências morfogenéticas e pedogenéticas
  • Meios fortemente instáveis:
    • condições bioclimáticas agressivas, com ocorrências de variações fortes e irregulares de ventos e chuvas;
    • relevo com vigorosa dissecação;
    • presença de solos rasos;
    • inexistência de cobertura vegetal densa;
    • planícies e fundos de vales sujeitos a inundações; e
    • geodinâmica interna intensa.

Os critérios desenvolvidos a partir desses princípios permitiram a criação de um modelo onde se buscou a avaliação, de forma relativa e empírica , do estágio de evolução morfodinâmica das unidades territoriais básicas, atribuindo valores de estabilidade às categorias morfodinâmicas conforme pode ser visto na Tabela 2.

A partir dessa primeira aproximação procurou-se contemplar maior variedade de categorias morfodinâmicas, de forma a se construir uma escala de vulnerabilidade para situações que ocorram naturalmente. Desenvolveu-se então o modelo mostrado na Tabela 3, que estabelece 21 classes de vulnerabilidade à perda de solo, distribuídas entre as situações onde há o predomínio dos processos de pedogênese (às quais se atribuem TABELA 2 - AVALIAÇÃO DA ESTABILIDADE DAS CATEGORIAS MORFODINÂMICAS

Categoria morfodinâmica Relação Pedogênese/Morfogênese Valor

Estável Prevalece a Pedogênese 1, Intermediária Equilíbrio Pedogênese/Morfogênese 2, Instável Prevalece a Morfogênese 3,

TABELA 3 - ESCALA DE VULNERABILIDADE DAS UNIDADES

TERRITORIAIS BÁSICAS

UNIDADE DE PAISAGEM MÉDIA^

GRAU DE VULNERAB.

GRAU DE SATURAÇÃO VERM. VERDE AZUL CORES U1 3,0 255 0 0 U2 2,9 255 51 0 U3 2,8 VULNERÁVEL 255 102 0 U4 V 2,7 255 153 0 U5 U 2,6 255 204 0 U6 L 2,5 E MODERADAM. 255 255 0 U7 N 2,4 S VULNERÁVEL 204 255 0 U8 E 2,3 T 153 255 0 U9 R 2,2 A 102 255 0 U10 A 2,1 B MEDIANAM. 51 255 0 U11 B 2,0 I ESTÁVEL/ 0 255 0 U12 I 1,9 L VULNERÁVEL 0 255 51 U13 L 1,8 I 0 255 102 U14 I 1,7 D 0 255 153 U15 D 1,6 A MODERADAM. 0 255 204 U16 A 1,5 D ESTÁVEL 0 255 255 U17 D 1,4 E 0 204 255 U18 E 1,3 0 153 255 U19 1,2 0 102 255 U20 1,1 ESTÁVEL 0 51 255 U21 1,0 0 0 255

valores próximos de 1,0), passando por situações intermediárias (às quais se atribuem valores ao redor de 2,0) e situações de predomínio dos processos de morfogênese (às quais se atribuem valores próximos de 3,0).

O modelo é aplicado individualmente aos temas (Geologia, Geomorfologia, Solos, Vegetação e Clima) que compõem cada unidade territorial básica, que recebe posteriormente um valor final, resultante da média aritmética dos valores individuais segundo uma equação empírica (Equação 1), que busca representar a posição desta unidade dentro da escala de vulnerabilidade natural à perda de solo:

V =

( G + R + S + Vg + C ) (1 )

onde: V = Vulnerabilidade G = vulnerabilidade para o tema Geologia R = vulnerabilidade para o tema Geomorfologia S = vulnerabilidade para o tema Solos Vg = vulnerabilidade para o tema Vegetação C = vulnerabilidade para o tema Clima

Dentro desta escala de vulnerabilidade as unidades que apresentam maior estabilidade são representadas por valores mais próximos de 1,0, as unidades de estabilidade