Docsity
Docsity

Prepare-se para as provas
Prepare-se para as provas

Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity


Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos para baixar

Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium


Guias e Dicas
Guias e Dicas


Danahzohar - o-ser - quantico, Notas de estudo de Cultura

conhecimento cientifico

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 25/09/2012

rodrigo-davi-8
rodrigo-davi-8 🇧🇷

4.8

(22)

81 documentos

1 / 186

Toggle sidebar

Esta página não é visível na pré-visualização

Não perca as partes importantes!

bg1
Danah Zohar
(em colaboração com I. N. Marshall)
O SER QUÂNTICO
Uma visão revolucionária da natureza humana
E da consciência, baseada na nova física
Tradução de
Maria Antônia van Acker
Editora Best Seller
Copyriht 1990
pf3
pf4
pf5
pf8
pf9
pfa
pfd
pfe
pff
pf12
pf13
pf14
pf15
pf16
pf17
pf18
pf19
pf1a
pf1b
pf1c
pf1d
pf1e
pf1f
pf20
pf21
pf22
pf23
pf24
pf25
pf26
pf27
pf28
pf29
pf2a
pf2b
pf2c
pf2d
pf2e
pf2f
pf30
pf31
pf32
pf33
pf34
pf35
pf36
pf37
pf38
pf39
pf3a
pf3b
pf3c
pf3d
pf3e
pf3f
pf40
pf41
pf42
pf43
pf44
pf45
pf46
pf47
pf48
pf49
pf4a
pf4b
pf4c
pf4d
pf4e
pf4f
pf50
pf51
pf52
pf53
pf54
pf55
pf56
pf57
pf58
pf59
pf5a
pf5b
pf5c
pf5d
pf5e
pf5f
pf60
pf61
pf62
pf63
pf64

Pré-visualização parcial do texto

Baixe Danahzohar - o-ser - quantico e outras Notas de estudo em PDF para Cultura, somente na Docsity!

Danah Zohar

(em colaboração com I. N. Marshall)

O SER QUÂNTICO

Uma visão revolucionária da natureza humana E da consciência, baseada na nova física

Tradução de

Maria Antônia van Acker

Editora Best Seller

Copyriht 1990

Nota da Autora

Neste livro utilizei amplamente as idéias de meu marido, dr. I. N. Marshall — tanto as que me foram transmitidas em longas discussões mutuamente criativas como as que ele publicou ou está prestes a publicar em revistas científicas e acadêmicas. A demonstração formal e o rigor matemático destas, embora comumente inacessíveis ao leitor leigo, emprestam maior peso à tese central do livro e são mencionados nas notas de rodapé e nas notas finais sempre que forem relevantes. Faço menção especial a seu trabalho: Consciousness and Bose-Einstein Condensates [A Consciência e os Condensados de Bose-Einstein].

Introdução

Este livro teve um estranho início. Há três anos, uma equipe de televisão veio me entrevistar a respeito de um outro livro que eu havia escrito sobre precognição e física moderna.^1 Desculpando-me, expliquei-lhes que me era difícil falar sobre um assunto tão abstrato naquele momento, pois estava esperando um bebê. Quando o produtor me perguntou sobre o que poderia falar, respondi num impulso: "Sobre a maternidade".

Para minha grande surpresa e também deles, seguiu-se uma longa conversa sobre a maternidade e a física moderna. Vi-me descrevendo minha psique de mulher grávida, o nascimento de meu primeiro filho e a sensação de mim mesma como mãe em relação ao mundo freqüentemente fantástico das partículas subatômicas descritas pela física quântica. O estranho quadro da realidade pintado pela teoria quântica parecia oferecer, no mínimo, imagens muito ricas com as quais ilustrar o igualmente estranho estado de gravidez e os primeiros tempos de maternidade. Para minha maior surpresa ainda, essa conversa se transformou na base de um programa de televisão sobre física quântica e, pouco depois, em parte de um livro. 2 Reacendeu, também, alguma coisa em mim.

Descobri a teoria quântica aos 16 anos. Estou certa de que aquele contato precoce influenciou tanto minha vida como minha maneira de ver as implicações do que é geralmente chamado "nova física". No final da adolescência, tantas coisas se tornam incertas que somos empurrados com tremenda urgência a encontrar respostas para as "grandes questões" da vida: quem sou, por que estou aqui, qual é meu lugar no plano das coisas, por que o mundo é do jeito que é, o que significa um dia ter de morrer? Enquanto as respostas um tanto estereotipadas de meus pais e o metodismo simples de meus avós não conseguiam me oferecer uma luz, a nova física pareceu me trazer uma visão poética.

A emocionante equivalência entre matéria e energia, o fluxo sugerido pela dualidade onda—partícula, o nascimento e morte repentinos das partículas que eu observava nos rastros de vapor de minha câmara de Wilson caseira e a exasperante indeterminação da realidade sugerida pelo princípio da incerteza de Hei-senberg, tudo isso funcionou como uma poção, excitando minha imaginação e, confesso, dando-me a sensação um tanto mística de que o Universo estava "vivo". Meu domínio da matemática da teoria quântica na época não era suficiente para me fornecer uma explicação detalhada da natureza fundamental das coisas, mas encontrei então os rudimentos de uma fé em que "tudo aquilo significava alguma coisa".

Infelizmente, este foi o máximo a que minha paixão pôde me levar durante vinte anos. Apesar, ou talvez por causa do curso de física, fui sendo conduzida por outros interesses, àquilo que chamamos "cuidar da vida."

Para a maior parte das pessoas, o mundo da física parece um mundo à parte. Suas complexas fórmulas matemáticas, seus resultados experimentais aparentemente insondáveis parecem não ter nenhuma relação com o mundo das experiências do senso

comum, nenhuma relação com nossas percepções e emoções, muito menos com os problemas pessoais e sociais que ocupam tão grande parte de nossas vidas. No entanto, a física, como toda ciência, começou no âmbito da experiência da vida diária. Começou com espanto e com perguntas de como e por que as coisas funcionam da forma como funcionam, com aquelas perguntas que todos nós fazemos sobre o mundo e nosso lugar dentro dele. E as respostas a essas perguntas afetam a todos igualmente, sejamos cientistas ou não.

Pessoalmente, estou de novo muito preocupada com essas questões — por exemplo, quando converso com meu marido (psiquiatra e psicoterapeuta) sobre seu trabalho, sobre a estrutura do cérebro e as vicissitudes da consciência humana, ou quando ouço o que o finado Krishnamurti disse sobre a inter-relação das coisas, proclamando "eu sou o mundo".

Desde aquela primeira conversa com o pessoal da televisão, cada vez mais me flagro usando meus conhecimentos de física quântica. Sua descrição da realidade no nível subatômico e as atividades verdadeiramente muito estranhas dos elétrons me proporcionaram um novo entendimento de certos problemas filosóficos comuns: a identidade pessoal (quanto de mim é realmente "eu"; quanto pesa este "eu"), o problema mente—corpo (o quanto minha mente consciente ou "alma" está relacionada com meu corpo material ou a outra matéria), o problema do livre-arbítrio versus determinismo e o problema do significado. A física quântica também me ofereceu compreensão sobre minha vida diária: dar à luz, pensar na morte, sentimentos de empatia ou mesmo telepatia com os outros, a maneira como o mundo material (por exemplo, cidadezinhas muito feias) se impõe sobre a consciência etc.

Por vezes a teoria quântica parece servir como uma metáfora útil, que ajuda a colocar essas reflexões num foco novo e mais preciso; outras vezes parece prometer ao menos uma explicação parcial de como realmente funciona a consciência e, portanto, a vida do dia-a-dia. Este livro começou originalmente como um exercício de metáfora, mas, ao se desenvolver, a metáfora cedeu cada vez mais lugar às evidências ou, ao menos, ao que se pode considerar uma especulação muito bem fundamentada a respeito da verdadeira física da psicologia humana e suas implicações morais e espirituais.

Ao escrever o livro, constatei com pesar o fato de que cada capítulo poderia — e em muitos aspectos deveria — ser uma obra completa. Contudo, como a idéia básica de nos vermos como pessoas quânticas já é em si tão radicalmente nova, achei melhor oferecer num primeiro passo uma visão geral bem ampla. Assim, espero, o leitor poderá apreciar seu significado de grande alcance. Talvez outros desenvolvam com maior detalhe seus muitos temas.

Muitos me ajudaram na elaboração deste livro. Gostaria de agradecer de forma especial aos membros do Grupo de Física e Filosofia de Oxford pelas horas de discussão altamente esclarecedora e à Sociedade Oxford de Psicoterapia pela assombrosa relevância de seu programa de palestras sobre os temas que eu estava procurando desenvolver. Tom Kenyon, do Oxford Daily Information, me ajudou a superar meus traumas com o processador de texto, e minha agente, Dinah Wiener, me apoiou o tempo todo com sua fé e seu estímulo. Ela deu início ao livro muito antes que uma de nós avaliasse seu escopo.

Já fiz menção (insuficiente) à contribuição intelectual de meu marido. Mas, além

Uma Física da Vida Diária

Várias descrições de excelente qualidade a respeito da física quântica foram publicadas para leigos nos últimos anos. Este livro não pretende ser mais uma delas. Em vez de se referir à física quântica em si, ele é mais um livro sobre como o conhecimento da nova física poderá iluminar nossa compreensão da vida diária, ajudar-nos a entender melhor nosso relacionamento com nós mesmos, com os outros e com o mundo como um todo.

Mais especificamente, é uma obra cujo tema central é o modo de se sobrepujar essa forma particular de alienação que infestou a vida deste século. Tal sentido de alienação vem da sensação de que nós, seres humanos, somos de certa forma estrangeiros no Universo, meros subprodutos acidentais de forças evolucionárias cegas, e sem nenhum papel especial a desempenhar no esquema das coisas; sem nenhuma relação significativa com as inexoráveis forças que impulsionam o mundo maior da matéria bruta e insensível. Para desenvolver este tema, estarei examinando bem de perto o relacionamento entre matéria e consciência dentro da teoria quântica, assim como propondo uma nova teoria mecânico-quântica da consciência que promete nos trazer de volta a uma associação com o universo.

As raízes desta alienação estão fundo em nossa cultura, chegando, no mínimo, até a filosofia de Platão e sua distinção entre o âmbito das idéias e o mundo da experiência dos sentidos, e passando pelo cristianismo, que denegriu o corpo em favor da alma.

No entanto, de comum acordo, as influências mais poderosas sobre nossa cultura moderna derivam da revolução filosófica e científica do século 17, do cultivo da dúvida cartesiana e do nascimento da física newtoniana ou clássica. Ambas mudaram radicalmente o modo como vemos a nós mesmos e nossa relação com o mundo. A filosofia cartesiana arrancou os seres humanos do contexto religioso, social e familiar e lançou-os de ponta-cabeça no que este livro chama de "cultura centrada no eu", uma cultura dominada pelo egocentrismo, por uma ênfase exagerada do "eu" e do "meu". A visão de Newton arrancou-nos da própria substância do Universo.

A física clássica transmutou o cosmo vivo dos gregos e da Idade Média, um cosmo cheio de sentido e inteligência e movido pelo amor de Deus em benefício do homem, numa máquina morta e previsível.

A revolução de Copérnico havia deslocado a Terra, e portanto os seres humanos, do centro das coisas; porém as três leis do movimento de Newton e seu modelo mecânico do sistema solar forneceram a planta para um projeto completamente despido de vida. As coisas se moviam porque obedeciam a leis fixas e determinadas. Um silêncio glacial invadiu os céus antes pululantes de vida. Os seres humanos e suas lutas, toda a consciência e a própria vida tornaram-se irrelevantes ao funcionamento da vasta

máquina universal.

Ao longo da História, temos retirado da teoria física corrente da época nossa concepção a respeito de nós mesmos e de nosso lugar no Universo. Assim, ao longo destes trezentos anos, físicos e não-físicos têm encontrado na coloração fria da visão newtoniana suas filosofias pessoais, seu sentido de identidade própria e suas noções de como se relacionam com o mundo e com as outras pessoas.

As imutáveis leis da História descritas por Marx, a luta desesperada pela sobrevivência de Darwin e as tempestuosas forças da sombria psique de Freud devem, em alguma medida, sua inspiração à teoria física de Newton. Todas, e mais a arquitetura de Le Corbusier e o completo arsenal da parafernália tecnológica que toca todos os aspectos de nossa vida diária, permearam tão profundamente nossas consciências, que todos e cada um de nós nos enxergamos refletidos no espelho da física newtoniana. Estamos mergulhados no que Bertrand Russell chamou de "desespero inarredável" ao qual ela deu origem.

"O mundo que a ciência nos apresenta para que acreditemos", escreveu Russell na virada do século, "nos diz":

Que o homem é produto de causas que não tinham nenhuma previsão do fim ao qual chegariam; que sua origem, seu crescimento, suas esperanças e temores, seus amores e crenças não passam do resultado do posicionamento acidental de átomos; que nenhum heroísmo, nenhum grau de pensamento ou de sentimento pode preservar a vida individual após a morte; que toda a labuta dos séculos, toda a devoção, toda a inspiração, todo o intenso brilho do gênio humano estão destinados à extinção na vasta morte do sistema solar; e que todo o templo da conquista humana deverá inevitavelmente ser soterrado sob os escombros de um Universo em ruínas...^1

"Como", pergunta-se Russell, "pode o homem, num mundo tão alienígena e desumano, manter suas aspirações imaculadas?" Em larga escala, não conseguimos.

A maioria dos relatos escritos sobre nosso século e a experiência de muitas pessoas que viveram ao longo dele mostram um quadro de considerável dissolução. De todos os lados — moral, espiritual e estético — nossa cultura parece estar sob tensão. Muitos dos "valores antigos" e crenças geralmente aceitas deixaram de ser inquestionáveis e nos vemos alicerçados apenas em nós mesmos. A grande massa das pessoas foi compulsoriamente obrigada a viver na era do herói existencial — audaciosamente indiferente ao Deus morto, tornando-se criador de seus próprios valores e guardião de sua própria consciência. Esta é a experiência do modernismo, e seu preço, tanto em termos pessoais como em termos de desenraizamento cultural, foi alto.

Em nosso relacionamento com nós mesmos e com os outros, a influência newtoniana vai muito fundo. Se não passamos de um subproduto acidental da criação e um joguete na mão de forças maiores totalmente fora de nosso controle, como podemos ter alguma responsabilidade significativa por nós mesmos ou pelos outros?

Como, dotados de existência temporária e de propósitos fúteis e jogados de um lado para outro pela dinâmica do id ou pela sub-corrente genética ou ainda pela luta de classes e pela História, como realmente podemos ser responsabilizados por qualquer coisa? Grande parte da moderna sociologia, da pedagogia e toda a psicologia da pessoa derivam desta linha de pensamento, assim como nossa violência característica do século

aplicação na vida diária. O princípio da incerteza de Heisenberg há muito invadiu a linguagem dos sociólogos e psicólogos; a idéia do salto quântico tornou-se o jargão comum para se discutir qualquer espécie de mudança rápida e, o que é ainda mais divertido, na cidade de Chicago, mecânicos de motocicleta andam vestindo camisetas com a expressão "mecânica quântica" estampada na frente, e em Londres a Sociedade Quântica é uma agência de publicidade.

Ao longo deste livro estarei mostrando vários modos segundo os quais a teoria quântica pode nos oferecer uma compreensão radicalmente nova de vários aspectos de nossa experiência, e este é o tema geral do livro: como uma metáfora completamente nova para esta era, ou uma nova visão de mundo, deriva naturalmente daquilo que a física quântica nos conta sobre o mundo físico e humano. As características desta visão de mundo se tornarão claras à medida que discutirmos por que a nova física é nova e percebermos como, através de uma nova física da consciência, ela pode ser aplicada à filosofia da pessoa e à psicologia dos relacionamentos humanos.

Sob alguns aspectos importantes, o tema deste livro — como a física quântica se relaciona com nossa experiência da vida diária—vai direto ao coração do problema filosófico central da própria teoria quântica. Até agora, passados sessenta anos de sua jovem história, os físicos quânticos ainda se sentem absolutamente incapazes para explicar até mesmo como pode existir um mundo do cotidiano — o mundo de mesas e cadeiras, pedras e árvores etc. — ,quanto mais para explicar como sua ciência se relaciona com este mundo.

A teoria quântica é teoria física de maior sucesso até hoje. Ela pode prever corretamente resultados experimentais com um acerto de várias casas decimais. No entanto, sua inabilidade em explicar, quer as predições, quer os resultados, significa que nenhum quadro novo, uno da realidade, emergiu de todas as equações geradas, e menos ainda uma nova visão de mundo na qual as descobertas da física quântica se enraízem para instigar a imaginação das pessoas comuns.

Realmente, na maior parte dos sessenta anos passados desde que a teoria quântica se completou, o consenso entre os físicos quânticos tem sido o de que eles não podiam nem deveriam dizer coisa alguma sobre o mundo real e que sua única tarefa "segura" seria continuar prevendo resultados através de suas equações.

Essa posição "anti-realista", que ficou conhecida como a Interpretação Copenhagen da teoria quântica por causa do físico dinamarquês Niels Bohr, seu grande defensor, está influenciada pela natureza bizarra e indeterminada dos eventos no nível quântico, onde nada em particular pode ser declarado existente em um local determinado e tudo flutua num mar de possibilidades. Isso levou a conversas absurdas entre os físicos quânticos e seus seguidores filosóficos, incluindo-se aí a negação de uma realidade no nível subatômico ou mesmo, em alguns casos, a negação da existência de qualquer realidade.

Entretanto, há um mundo real onde as "coisas" existem. As cadeiras são corpos sólidos e identificáveis, sobre os quais podemos nos sentar. Quando meu filho chuta sua bola, ela cai ou no nosso jardim ou no do vizinho.

Para que a teoria quântica esteja realmente completa, e para que substitua não só a física newtoniana como também toda a cosmovisão newtoniana enquanto filosofia

central de nossa era, ela deve ser conduzida a um diálogo mais estreito com tais fatos do mundo cotidiano.

O argumento central deste livro é o de que nós, seres humanos conscientes, somos a ponte natural entre o mundo da experiência diária e o mundo da física quântica, e que um exame mais acurado da natureza e do papel da consciência no esquema das coisas conduzirá a uma compreensão filosófica mais profunda do dia-a-dia e a um quadro mais completo da teoria quântica.

A existência da consciência foi sempre um problema. O que ela é, por que ela existe no mundo e como, de fato, pode tal coisa existir? Algumas respostas a estas questões são necessárias a qualquer compreensão da vida ainda que em seu sentido mais primário, como a "vida" de uma ameba. Num sentido mais amplo, algumas respostas são necessárias para iluminar o significado e o propósito da vida, os porquês de nossa cultura e o lugar de um único indivíduo num universo maior. Elas também são necessárias para se obter alguma compreensão do universo em si.

Neste livro estarei considerando muito seriamente a possibilidade de que a consciência, assim como a matéria, emerge do mundo dos acontecimentos quânticos e que ambas, embora completamente diferentes uma da outra, têm uma "mãe" em comum na realidade quântica. Se assim for, nossos padrões de pensamento e, mais do que isto, nosso relacionamento com nós mesmos, com os outros e com o mundo como um todo poderão em alguns casos ser explicados pelas mesmas leis e padrões de comportamento que governam o mundo de prótons e elétrons, em outros casos podem refletir essas mesmas leis e padrões.

Se de fato nosso intelecto tira suas leis da natureza, segue-se que nossa percepção dessas leis deve, em alguma medida, refletir a realidade da própria natureza.

Se tal possibilidade existe, então, como diz Michel Serres, podemos retirar dela uma visão similar àquela dos antigos gregos:

Quando o homem está no mundo, é do mundo, está na matéria, é da matéria, ele não é um estranho mas um amigo, um membro da família, um igual... Os gregos viviam num Universo conciliado. Onde a ciência das coisas e a ciência do homem coincidem. 4

Estou convicta de que temos hoje na física quântica os fundamentos de uma física sobre a qual podemos basear nossa ciência e nossa psicologia, e que através de uma comunhão da física e da psicologia também poderemos viver num Universo conciliado, um Universo em que nós e nossa cultura seremos plena e significativamente parte do esquema das coisas.

armadilha comum de tentar colocar pinos redondos em buracos quadrados. A radical novidade de tudo ficará instantaneamente evidente quando examinarmos as noções básicas de ser, movimento e relacionamento no contexto da nova física, e espero que nossa capacidade de assimilação dessas noções como parte integrante de nossa experiência pessoal cresça nos capítulos posteriores.

Ser

A mais revolucionária e, para nossos fins, a mais importante afirmação que a física quântica faz acerca da natureza da matéria, e talvez do próprio ser, provém de sua descrição da dualidade onda—partícula — a afirmativa de que todo ser, no nível subatômico, pode ser igualmente bem descrito como partículas sólidas, como um certo número de minúsculas bolas de bilhar, ou como ondas, como as ondulações na superfície do oceano. Mais que isto, a física quântica prossegue dizendo que nenhuma das duas descrições tem real precisão quando isolada e que tanto o aspecto onda como o aspecto partícula do ser devem ser levados em conta quando se procura compreender a natureza das coisas. É a própria dualidade o aspecto mais básico. A "substância" quântica é, essencialmente, ambos: o aspecto onda e o aspecto partícula simultaneamente.

Esta natureza tipo Jano do ser quântico está condensada numa das colocações mais fundamentais da teoria quântica, o princípio da complementaridade, que declara que cada modo de descrever o ser, como onda ou como partícula, complementa o outro e que o quadro completo surge somente do "pacote". Como os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, cada uma das descrições fornece um tipo de informação que feita à outra. Se, num dado momento, o ser elementar se mostra como uma ou como a outra, isso depende das condições gerais — o crucial nisso, como veremos mais adiante, pode ser que qualquer uma das duas ou que nenhuma esteja observando, ou, quando elas estão, o que estão procurando! "As partículas elementares", disse Sir William Bragg, "parecem ser ondas nas segundas, quartas e sextas-feiras e partículas nas terças, quintas e sábados."^2

Tal dualidade e o conceito um tanto etéreo de matéria que isso representa não poderiam estar mais distantes da noção corriqueiramente sustentada pela física newtoniana ou clássica.

Na física de Newton, como em nossa percepção comum de questões maiores, presumia-se que o ser, em seu nível mais básico e indivisível, consistia em partículas pequeninas e distintas entre si, os átomos que colidem, se atraem e se repelem uns aos outros. Eram sólidos e separados, cada qual ocupando um lugar próprio e definido no espaço e no tempo. Em contrapartida, os movimentos de onda (como ondas de luz) eram considerados vibrações que ocorriam numa espécie de "gelatina" subjacente (o éter), não sendo coisas fundamentais por si mesmas. Assim, tanto ondas como partículas tinham seu papel dentro da física newtoniana, mas as partículas eram consideradas mais básicas, e delas é que a matéria se formava.

Para a física quântica, porém, tanto ondas como partículas são igualmente fundamentais. Uma e outra são modos pelos quais a matéria se manifesta, e as duas juntas são o que a matéria é. E, ainda que nenhum dos "estados" seja completo em si mesmo e ambos sejam necessários para nos dar um quadro completo da realidade, na verdade só conseguimos focalizar um de cada vez. Esta é a essência do princípio da

incerteza de Heisenberg, que, como o da complementaridade, é um dos princípios mais fundamentais do ser na teoria quântica.

Segundo o princípio da incerteza, as descrições do ser como onda e como partícula se excluem mutuamente. Embora ambas sejam necessárias à compreensão integral do que o ser é, somente uma está disponível num determinado momento do tempo. Consegue-se medir ou a exata posição de algo (como um elétron) quando ele se manifesta como partícula, ou seu momentum (sua velocidade) quando ele se expressa como onda, mas nunca se consegue uma medida exata de ambos a um só tempo.

A charada da medição dos elétrons é um pouco como a dinâmica de uma primeira entrevista psiquiátrica na qual, idealmente, o psiquiatra gostaria de saber tanto os fatos relevantes do histórico do paciente como também estabelecer algum tipo de relação com ele. O problema é que, se o psiquiatra faz perguntas factuais para conseguir o histórico, recebe respostas factuais, e o paciente em si, seu modo de ser naquele momento, fica em segundo plano. Em contrapartida, se o psiquiatra decide abandonar as perguntas para ouvir de forma mais criativa e receptiva, conseguirá "sentir" o paciente muito bem, porém chegará ao fim da entrevista sabendo muito pouco do histórico. Colheita de fatos e criação de um relacionamento parecem se excluir e, no entanto, ambos são necessários para formar um quadro completo do estado do paciente.

Da mesma forma, a maioria dos elétrons e outras entidades subatômicas não são nem totalmente partículas nem totalmente ondas, mas, antes, uma confusa espécie de mistura das duas conhecida como "pacote de onda", e é aqui que a dualidade onda— partícula e o mistério quântico se revelam plenamente. Embora possamos medir propriedades das ondas e propriedades das partículas, as propriedades exatas da dualidade sempre escapam a qualquer medição. O máximo que se pode pretender em relação a qualquer pacote de onda é uma leitura nublada de sua posição e uma leitura igualmente nublada de seu momentum.

Este "nublamento" essencial é a incerteza à qual se refere o princípio da incerteza, e ele substitui o velho determinismo newtoniano, em que tudo da realidade física é fixo, determinado e mensurável, por um vasto "mingau" de ser onde nada é fixo nem totalmente mensurável, onde tudo permanece indeterminado, algo fantasmagórico e sempre um pouco além de nossa compreensão.

Assim como muitas vezes sentimos que nunca compreendemos inteiramente uma outra pessoa, nunca realmente conseguimos determinar sua natureza essencial, é uma verdade indubitável que nunca conhecemos plenamente uma partícula elementar. É como se estivéssemos eternamente condenados a enxergar apenas sombras em meio à neblina. A natureza total dessa indeterminação quântica vai direto ao coração do problema filosófico central levantado pela mecânica quântica — a natureza da própria realidade.

Alguns teóricos quânticos, e em primeiro lugar dentre eles Niels Bohr, bem como o próprio Heisenberg, argumentam que a realidade fundamental em si é essencialmente indeterminada, que não há um "algo" nítido e fixo subjacente a nossa existência diária que possa ser conhecido. Tudo da realidade é e continua sendo uma questão de probabilidades. Um elétron pode ser uma partícula, pode ser uma onda, pode estar nesta órbita, pode estar naquela — de fato, tudo pode acontecer. Só podemos prever essas coisas com base no que é mais provável dadas as condições gerais de determinada

morto e silencioso de Newton, dando-nos um quadro vivido do fluxo dinâmico que repousa no coração de um ser indeterminado. Ali, mesmo aquelas partículas que chegam a se manifestar como seres individuais o fazem apenas rapidamente.

Em níveis de energia suficientemente elevados, partículas podem surgir de um fundo de pura energia (ondas), existir por um tempo ínfimo e então dissolver-se novamente para formar outras partículas ou voltar àquele profundo oceano de energia — como os pequenos rastros de vapor vistos numa simples câmara de Wilson, que aparentemente surgem do nada, atravessam um pequeno espaço na neblina e então desaparecem novamente. Algumas das propriedades dessas partículas individuais transitórias são conservadas — sua massa, carga e spin (movimento angular intrínseco) —, porém, para o número e tipo da população de uma nação ou a construção e declínio de suas cidades e prédios distintos, tal constância se restringe ao balanço geral do sistema como um todo.

Este quadro gráfico de surgimento e desaparecimento, ou início e cessação de partículas subatômicas isoladas no nível quântico da realidade, traz profundas implicações para nossa maneira de enxergar a natureza e a função das personalidades individuais, ou a sobrevivência do ser individual.

Movimento

Na física clássica o movimento parece um conceito bastante simples, familiar à nossa percepção diária, do modo como as coisas se deslocam. Um objeto, digamos, uma bola, viaja sem interrupção do ponto A ao ponto B, leva determinada quantidade de tempo para transitar de um ponto ao outro e só começa sua viagem porque alguém a jogou. Portanto, ela se move suavemente pelo tempo e pelo espaço como resultado de uma relação de causa e efeito. Todos sabemos que esta é a forma básica pela qual os acontecimentos de nosso mundo são estruturados.

No entanto, ao nível quântico da realidade, todo esse quadro de movimento contínuo pelo tempo e pelo espaço se desfaz. A física quântica, conforme coloca um físico de Oxford, é uma física de "pacotes" e "pulos".^3

Os "pacotes" apareceram nos primeiros tempos da física quântica quando Max Planck provou que toda energia é irradiada em pacotes individuais chamados "quanta", em vez de em correntes fluindo sobre um espectro contínuo. Os "pulos" ou "saltos" surgiram alguns anos depois quando Niels Bohr demonstrou que os elétrons pulam de um estado energético a outro por meio de saltos quânticos descontínuos, cujo tamanho depende de quantos quanta de energia os elétrons absorveram ou liberaram.

O átomo de Bohr original, atualmente um tanto obsoleto, mas ainda útil para demonstrar o efeito dos saltos quânticos, se assemelhava a um minúsculo sistema solar. Ele tinha um núcleo comparativamente grande no centro, fazendo o papel do Sol, e vários elétrons o circundavam, cada qual em sua órbita individual cada órbita representando um determinado estado de energia que o elétron pode ocupar. No final das contas não havia nenhuma regra ou razão para um átomo pular de uma órbita a outra, ou para o tamanho do salto que ele daria. Tudo o que se podia prever era que seu caminho não seria suave e que a "distância" (diferença energética) percorrida poderia ser medida em tantos quanta inteiros.

A nova descrição do movimento como uma série de saltos descontínuos foi uma das mudanças conceituais mais fundamentais que emergiram da teoria quântica. Foi como substituir o suave fluir da vida real por fotogramas como os que compõem as unidades individuais de um filme. De fato, a teoria mostrava que todo movimento — mesmo o que percebemos como suave e contínuo — está estruturado da mesma forma que a sucessiva apresentação dos fotogramas. E assim como ocasionalmente um filme pode "saltar" dentro do projetor, também as partículas subatômicas podem saltar "vários fotogramas para frente" pulando os estágios intermediários que pareceriam o caminho mais natural. As analogias que se pode fazer com processos mentais e culturais são inumeráveis.

Como já vimos na discussão sobre o "ser" na teoria quântica, o princípio da incerteza de Heisenberg surgiu do problema de se tentar seguir e descrever o verdadeiro movimento de uma partícula subatômica ao longo de seu caminho descontínuo. Numa região onde a realidade parece constituir-se não de realidades fixas que podemos conhecer mas sim de probabilidades que talvez conheçamos, quanto mais se procura analisar os movimentos de qualquer partícula, mais enganosa ela se torna. Esta qualidade enganosa é o maior problema levantado pela teoria quântica. O outro grande problema é o destino de todas aquelas probabilidades não aproveitadas.

Se a realidade, no nível do cotidiano, em que normalmente a experimentamos, consiste de fato de coisas reais como corpos e escrivaninhas e cadeiras, ao passo que no nível quântico não existem "coisas" reais mas somente uma miríade de possibilidades de incontáveis realidades, o que é feito de todo este potencial? Em que estágio e por que uma das muitas possibilidades da natureza se fixa no mundo das "coisas reais", e que papel desempenham todas essas possibilidades não aproveitadas (se é que desempenham algum papel) na realização desse estado final das coisas? A resposta a estas perguntas será de nosso interesse mais tarde, quando discutirmos a natureza e função da consciência.

Até agora não há nenhuma boa resposta para o porquê da realidade presente — e teremos boas razões para entender isso mais tarde —, mas já se compreende melhor o papel espantoso da possibilidade na sua fixação ou mesmo na sua criação. Isto pode ser visualizado de forma impressionante nos saltos de elétrons.

Quando um elétron faz uma transição de um estado de energia a outro dentro do átomo, vimos que ele o faz de forma completamente espontânea e aleatória. Subitamente, sem aviso prévio e certamente sem "causa", um átomo antes "quieto" poderá experimentar o caos em suas camadas de energia eletrônica. Tudo depende muito de sorte. E os elétrons podem, com igual probabilidade, fazer uma transição de um estado de energia mais alto para um mais baixo, ou de um mais baixo para um mais alto. Por isso se diz que há reversibilidade do tempo no nível quântico: as coisas podem acontecer em qualquer direção.

Nesse átomo perturbado não há nenhuma sucessão conhecida de acontecimentos, com uma coisa causando a outra. As coisas simplesmente "acontecem porque acontecem", assim como as imagens livremente reunidas num poema, onde se sucedem, uma após outra, sem obedecer a nenhuma ordem necessária. E, pior do que isso, elas acontecem simultaneamente em todas as direções, o que nos leva à questão das "possibilidades perdidas".

realização de múltipla escolha de fato acontece sempre que há um ponto de decisão a respeito do meio pelo qual um processo físico indeterminado poderá se resolver. Chamada "teoria dos muitos mundos", ela sugere que há um número infinito de mundos, em cada um dos quais poderemos encontrar uma versão de nós mesmos, cada qual diferente da outra, na medida em que cada uma seguiu uma diferente corrente de acontecimentos. Segundo essa visão, não há possibilidades perdidas — podemos viver todas.

Por mais sedutor que isto seja, não continuarei explorando a interpretação literal dos muitos mundos. No entanto, haverá razão para empregar de vez em quando as muitas analogias entre os processos psicológicos e o papel das transições virtuais quânticas.

Na natureza, por exemplo, David Bohm já sugeriu que, "sob muitos aspectos, o conceito da transição virtual assemelha-se à idéia da evolução na biologia, que sugere que todas as espécies podem aparecer como resultado de mutações, mas que somente algumas espécies podem sobreviver indefinidamente, a saber, aquelas que satisfazem certas exigências de sobrevivência do meio ambiente específico daquela espécie".^7

As muitas espécies criadas por mutações podem ser vistas como várias possibilidades (estados virtuais) sendo exploradas pela natureza como novas formas por intermédio das quais ela procura expressar seu potencial. As possibilidades menos inviáveis acabam morrendo, como diz Bohm, mas freqüentemente não sem antes deixar algum traço de si, que perdura, tornando-se parte da trama da vida. Dois mutantes inviáveis poderão, por exemplo, cruzar e formar uma terceira espécie capaz de sobreviver por longo tempo (uma transição real). É muito provável que os seres humanos sejam resultado de tal cruzamento entre duas "espécies virtuais", uma mutação secundária que deu certo, vinda de obscuras formas de vida conhecidas apenas como o elo perdido.

Relacionamento

Talvez, mais do que qualquer outra coisa, a física quântica prometa transformar nossas noções sobre relacionamento. Tanto o conceito do ser enquanto dualidade indeterminada de onda— partícula como o conceito de movimento que deriva das transições virtuais pressagiam uma revolução em nossa percepção de como as coisas se relacionam. Coisas e acontecimentos que antes eram concebidos como entidades separadas pelo espaço e pelo tempo agora são vistos pelo teórico quântico como tão integralmente ligados que sua ligação faz as vezes de ambos, espaço e tempo. Eles se comportam como aspectos múltiplos de um todo maior, sendo que suas existências "individuais" ganham definição e sentido através do contato com esse todo. A nova noção mecânico-quântica de relacionamento vem co mo conseqüência direta da dualidade onda—partícula e da tendência de que uma "onda de matéria" (ou "onda de probabilidades") deve se comportar como se estivesse espalhada por todo espaço e tempo. Mas, se todas as "coisas" potenciais se estendem indefinidamente em todas as direções, como se poderá falar em alguma distância entre elas ou conceber alguma separação? Toda as coisas e todos os momentos tocam uns nos outros em todos os pontos; a unidade do sistema completo é suprema. Segue-se disto que a noção antigamente fantasmagórica do "movimento a distância", em que um corpo influencia o outro instantaneamente apesar de inexistir troca aparente de força ou de energia, é um fato banal e corriqueiro para o físico quântico — um fato tão estranho a qualquer

estrutura de tempo e espaço que permanece um dos maiores desafios conceituais levantados pela teoria quântica.

Uma visão da realidade que aceita o movimento instantâneo a distância ou a não- localidade, como é mais adequadamente chamada (princípio que diz que algo pode ser afetado mesmo na ausência de uma causa local), tem uma coloração obviamente mística. Na verdade, ela afronta violentamente o bom senso e a física clássica. Ambos repousam no princípio intuitivo de que, em algum nível, a realidade é composta de componentes básicos, indivisíveis, inerentemente distintos entre si e que qualquer efeito experimentado por uma parte tem uma causa que a explique em outra parte. Além disso, segundo a teoria da relatividade, nenhuma causa (digamos, sinal) é capaz de viajar de um pedaço de realidade para afetar outro mais rapidamente que a velocidade da luz. Assim, quaisquer idéias de influências instantâneas deveriam estar fora de cogitação. Todo o problema da não-localidade é tão difícil que nem sequer foi levantado nos primórdios da teoria quântica, e somente nos últimos anos é que os físicos vêm tentando entender-se com ele.

Foi Einstein quem primeiro demonstrou que as equações da teoria quântica prediziam a necessidade de não-localidade instantânea. Para ele, isto era impossível ("fantasmagórico e absurdo", como disse) e jamais sentiu-se à vontade com as implicações metafísicas mais amplas da física quântica. A previsão da não-localidade era a prova clara de que ele precisava para dizer que a teoria quântica estava "incompleta e mal pensada", e ele se empenhou para que isso fosse reconhecido. Num dos famosos paradoxos da física — o Paradoxo de Einstein, Podolsky e Rosen ou E.P.R. — ele demonstrou, de uma vez por todas, como supôs, que a presumida existência das influências não-locais levava a uma contradição.

O teor do Paradoxo de E.P.R. pode ser compreendido se imaginarmos o destino de um hipotético par de gêmeos idênticos,•^ nascidos em Londres, mas separados desde o nascimento. Um deles continua morando em Londres. O outro foi viver na Califórnia. Ao longo dos anos não há contato entre os gêmeos; na verdade, um ignora a existência do outro. O bom senso dirá que os gêmeos vêm levando vidas completamente distintas. Mas, apesar de sua separação e da ausência de comunicação entre eles, um psicólogo que vem estudando a vida dos gêmeos observou uma impressionante correlação em seus estilos de vida. Ambos adotaram o apelido de "Badger", ambos trabalham como advogados no escritório de um procurador da prefeitura, ambos se vestem quase exclusivamente em tons de marrom e ambos casaram-se com loiras de nome Jane na idade de 24 anos. Como se explica tudo isso?

O físico quântico não teria nenhuma dificuldade em acreditar na correlação das vidas dos gêmeos. Ele diria que suas equações sempre previram isto e que todas as ligações entre eles são satisfatoriamente explicada pelo fato de suas existências individuais serem aspectos de um todo maior. Mas Einstein achava que isto não bastava. Em sua teoria das variáveis escondidas sugeriu como alternativa (continuarei utilizando a analogia dos gêmeos, que é minha e não de Einstein) que devia haver algum fator

  • (^) Na realidade, o Paradoxo de E.P.R. diz respeito a um experimento mental proposto por Einstein,

Podolsky e Rosen no qual um físico tentaria medir posição e momento linear de dois prótons que se projetam em direções opostas partindo de uma fonte comum. David Bohm revisou isto mais tarde sugerindo que o físico medisse o spin de dois prótons, e sua sugestão tornou-se a base para experimentos de real correlação, realizados na década de 70, com fótons ou "partículas de luz".