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Deus - Existe - Antony - Flew, Notas de estudo de Filosofia

Filosofia e ateísmo

Tipologia: Notas de estudo

2014

Compartilhado em 16/03/2014

mario-jorge-oliveira-12
mario-jorge-oliveira-12 🇧🇷

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Um ateu garante:

Deus existe Deus existe

as provas incontestáveis de um filósofo que

não acreditava em nada

Antony Flew

com Roy Abraham Varghese

MultiBrasil - www.multibrasil.net

Índice

  • Prefácio..............................................................................................
  • Introdução.......................................................................................
  • Primeira Parte.................................................................................
  • Minha negação do Divino ..............................................................
      1. A Criação de um ateu....................................................................
      1. Para onde o argumento leva...........................................................
      1. O ateísmo calmamente examinado..................................................
  • Segunda Parte.................................................................................
  • Minha descoberta do Divino...........................................................
      1. Uma peregrinação da razão............................................................
      1. Quem escreveu as leis da natureza?................................................
      1. O Universo sabia que íamos chegar?................................................
      1. Como surgiu a vida?......................................................................
      1. Alguma coisa vem do nada?............................................................
      1. Abrindo espaço para Deus............................................................
      1. Aberto à onipotência..................................................................
  • Apêndices......................................................................................
    • Apêndice A.....................................................................................
    • Apêndice B.....................................................................................

PREFÁCIO

"Famoso ateísta agora acredita em Deus: um dos maiores ateístas do mundo agora acredita em Deus, mais ou menos baseado em provas científicas." Esse era o título de uma matéria da Associated Press publicada no dia 9 de novembro de 2004, que dizia: "Professor de filosofia inglês, um dos maiores defensores do ateísmo há mais de meio século, mudou de idéia. Ele agora acredita em Deus, mais ou menos baseado em provas científicas, como afirma em um vídeo exibido na quinta-feira". Quase imediatamente, o anúncio tornou-se um acontecimento da mídia, causando uma enxurrada de reportagens e comen- tários em todo o mundo, no rádio e na televisão, nos jornais e em sites da Internet. A matéria ganhou tal força que a Associated Press (AP) publicou dois anúncios subseqüentes relacionados ao original. O assunto da matéria e de muita especulação posterior era o professor Antony Flew, autor de mais de trinta obras filosóficas, que durante cinqüenta anos defendeu os princípios do ateísmo. Seu artigo, Theology and Falsification, apresentado em uma conferência no Socratic Club da Universidade de Oxford, em 1950, presidida por C. S. Lewis, tornou-se a publicação filosófica mais reimpressa do último século. E agora, pela primeira vez, ele faz um relato dos argumentos e das provas que o levaram a mudar de idéia. Em certo sentido, este livro representa o resto daquela matéria.

Tive uma pequena participação na matéria da AP porque ajudei a organizar o simpósio que resultou no vídeo em que Tony Flew anunciou o que ele mais tarde, com muito bom humor, chamou de sua "conversão". Na verdade, desde 1985, eu ajudara a organizar diversas conferências nas quais ele apresentava sua defesa do ateísmo, de modo que esta obra é, para mim pessoalmente, o fim de uma jornada iniciada duas décadas atrás. De modo curioso, a reação dos colegas ateístas de Flew à matéria da AP beirou a histeria. Um site dedicado ao ateísmo deu a um correspondente a tarefa de fazer relatos mensais sobre o afastamento de Flew da verdadeira crença. Insultos e

sistemas para acreditar em seu ateísmo. O mesmo pode ser dito de niilistas posteriores como Richard Rorty e Jacques Derrida. Claro, importantes filósofos da geração de Flew eram ateístas, e W. V. O. Quine e Gilbert Ryle são exemplos óbvios. No entanto, nenhum deles desenvolveu argumentos que ocupassem um livro todo para apoiar suas crenças pessoais. Por quê? Em muitos casos, os filósofos profissionais daquele tempo não gostavam de sujar as delicadas mãos lidando com discussões tão populares e até mesmo vulgares. Em outros casos, o motivo era a prudência. Mais tarde, apareceram filósofos ateístas que examinaram criticamente e rejeitaram os tradicionais argumentos a favor da existência de Deus. A lista é grande e vai de Paul Edwards, Wallace Matson, Kai Nielsen e Paul Kurtz até J. L. Mackie, Richard Galé e Michael Martin. Suas obras, porém, não mudaram a estrutura dessa discussão da maneira que fizeram as inovadoras publicações de Flew.

Em que reside a originalidade do ateísmo de Flew? Em Theology and Falsification, God and Philosophy e The Presumption of Atheism, ele desenvolveu novos argumentos contra o teísmo que, de certa maneira, criaram um mapa para a posterior filosofia da religião. Em Theology and Falsification, ele levantou a questão de como afirmações religiosas podem criar argumentos significativos, e sua muito citada expressão "morte por mil qualificações" capta isso de modo notável. Em God and Philosophy, ele afirma que nenhuma discussão sobre a existência de Deus pode começar se não for estabelecida a coerência do conceito de um espírito onipresente e onisciente. Em The Presumption of Atheism, ele defende que a carga da prova deve recair sobre o teísmo, e que o ateísmo deve ser a posição padrão. Ao longo do tempo, ele, naturalmente, analisou os argumentos que defendem a existência de Deus, mas foi o fato de ter reinventado os quadros de referência que mudou totalmente a natureza da discussão. No contexto de tudo o que foi comentado anteriormente, a recente rejeição de Flew ao ateísmo foi, de maneira inegável, um acontecimento histórico. Mas o que poucos sabem é que, mesmo em seus tempos de ateísta, Flew abrira, em certo sentido, a porta para um novo e revitalizado teísmo.

FLEW, O POSITIVISMO LÓGICO E O RENASCIMENTO DO TEÍSMO

RACIONAL Aqui está o paradoxo. Defendendo a legitimidade da discussão sobre alegações teológicas e desafiando os filósofos da religião a esclarecerem suas afirmações, Flew facilitou o renascimento do teísmo racional na filosofia analítica após os dias sombrios do positivismo lógico.

O positivismo lógico, como alguns devem lembrar, foi a filosofia introduzida por um grupo europeu, chamado de Círculo de Viena, no início da década de 1920, e que A. J. Ayer popularizou nos países de língua inglesa com seu livro Linguagem, verdade e lógica, publicado em 1936. De acordo com os positivistas lógicos, as únicas afirmações significativas eram aquelas cuja verdade podia ser confirmada através de experiência racional, simplesmente em virtude de sua forma e do significado das palavras usadas. Assim, uma afirmação era considerada significativa se sua verdade ou falsidade pudessem ser comprovadas pela observação empírica — por exemplo, estudo científico. As afirmações da lógica e da matemática pura eram tautologias, isto é, eram verdadeiras por definição, simples modos de usarem-se símbolos que não expressavam nenhuma verdade a respeito do mundo. Não havia mais nada que pudesse ser descoberto ou discutido coerentemente. O centro do positivismo lógico era o princípio da comprovação que estabelecia que a significação de uma proposição consiste de sua comprovação. Como resultado, as únicas afirmações significativas eram aquelas usadas na ciência, na lógica ou na matemática. Afirmações de metafísica, religião, estética e ética não tinham significação, literalmente, porque não podiam ser comprovadas por métodos empíricos. Não eram válidas, nem inválidas. Ayer disse que é tão absurdo ser ateísta quanto teísta, porque a afirmação "Deus existe" simplesmente não tem significado.

Hoje, muitas obras filosóficas associam a abordagem de Flew no artigo Theology and Falsification ao tipo de ataque positivista lógico que Ayer fazia à religião, porque ambos questionam a falta de significado das afirmações religiosas. O problema com esse modo de pensar é que não reflete, de maneira alguma, a compreensão que Flew tinha, ou tem agora, a

Club, Theology and Falsification, ofereceu o que eu, na época, considerava refutação suficiente. Eu acreditava que alcançara completa vitória e que não havia espaço para mais discussões.

Como qualquer história da filosofia mostrará, o positivismo lógico de fato arruinou-se na década de 1950 por causa de suas inconsistências internas. O próprio Sir Alfred Ayer, em uma contribuição que fez a uma antologia que editei, declarou: "O positivismo lógico morreu muito tempo atrás. Acho que uma grande parte de Linguagem, verdade e lógica não é verdadeira. Penso que o livro está cheio de erros. Penso que foi um livro importante em seu tempo porque teve um tipo de efeito catártico. Mas, analisando os detalhes, vejo que está cheio de erros que passei os últimos cinqüenta anos corrigindo ou tentando corrigir".

Seja como for, a morte do positivismo lógico e as novas regras trazidas por Flew deram um novo impulso ao teísmo filosófico. Numerosas e importantes obras sobre o teísmo, na tradição analítica, têm sido escritas nas últimas três décadas, por Richard Swinburne, Alvin Plantinga, Peter Geach, William P. Alston, George Mavrodes, Norman Kretzmann, James F. Ross, Peter Van Inwagen, Eleonore Stump, Brian Leftow, John Haldane e muitos outros. Dessas obras, não são poucas as que abordam assuntos como a falta de significação das afirmações sobre Deus, a coerência lógica dos atributos divinos, e indagam se acreditar em Deus é uma qualidade inerente básica — precisamente os assuntos abordados por Flew na discussão que ele buscava estimular. A matéria sobre a virada para o teísmo foi destaque na revista Time, em abril de 1980: "Numa silenciosa revolução de pensamento e argumentos que dificilmente seria prevista apenas duas décadas atrás, Deus está de volta. O mais intrigante é que isso está acontecendo nos círculos intelectuais de filósofos acadêmicos".

O "Novo Ateísmo", ou o positivismo trazido de volta À luz dessa progressão histórica, a súbita aparição do que tem sido chamado de "novo ateísmo" é de particular interesse. O ano do "novo ateísmo" foi o de 2006 (o termo foi primeiramente

usado pela revista Wired em novembro desse mesmo ano). De Quebrando o encanto, de Daniel Dennett, e Deus: um delírio, de Richard Dawkins, o Six Impossible Things Before Breakfast, de Lewis Wolpert, The Comprehensible Cosmos, de Victor Stenger, e The End of Faith, de Sam Harris (publicado em 2004, cuja seqüência, Letter to a Christian Nation, saiu em 2006), os expoentes do tipo de ateísmo "lembre com raiva" estavam em vigor. O importante, sobre esses livros, não foi seu nível de argumentação — que era, para usar de eufemismo, modesto —, mas a atenção que receberam, tanto como best sellers, como uma "nova" matéria descoberta pela mídia. A "matéria" ainda foi ajudada pelo fato de que os autores eram loquazes e vigorosos, tanto quanto seus livros eram inflamados.

O principal alvo desses livros é, inquestionavelmente, a religião organizada de qualquer tipo, época ou lugar. De modo paradoxal, os livros pareciam, eles próprios, sermões fundamentalistas. Os autores, na maioria, falavam como esses pregadores que nos ameaçam com fogo e enxofre, alertando-nos a respeito do terrível castigo que sofreremos se não nos arrependermos de nossas crenças obstinadas e suas práticas. Não há lugar para ambigüidade ou sutileza. É preto e branco. Ou estamos com eles totalmente, ou com o inimigo. Até mesmo pensadores respeitados, que expressam simpatia pelo outro lado, são denunciados como traidores. Os próprios "evangeliza- dores" são almas corajosas que pregam sua mensagem em face de iminente martírio.

Mas como essas obras e seus autores encaixam-se na ampla discussão filosófica que tem havido sobre Deus nas últimas décadas? A resposta é: não se encaixam.

Em primeiro lugar, recusam-se a se ocupar dos reais pontos de debate na questão da existência de Deus. Nenhum deles nem mesmo refere-se aos fundamentos centrais da proposição para uma realidade divina — Dennett usa sete páginas para expor argumentos a favor da existência de Deus, e Harris, nenhuma. Não tratam do assunto das origens da racionalidade entrelaçada no tecido do universo, da vida compreendida como ação autônoma, da consciência, do pensamento conceituai e do ser. Dawkins fala das origens da vida e da consciência como de "acontecimentos únicos", causados por um "inicial golpe de sorte". Wolpert escreve: "Tenho, propositalmente (!), evitado

o "grande filósofo" Russell e a desrespeitosa referência à "velhice" de Flew são comuns nas epístolas de Dawkins aos iluminados. Mas o mais interessante aqui são as palavras que Dawkins escolheu, e pelas quais ele, de modo não muito inteligente, revela a maneira como sua mente funciona.

"Tergiversar" também significa "virar as costas", ou "apostatar-se", de modo que o principal pecado de Flew foi apostatar-se da fé de seus antecessores. O próprio Dawkins confessa, em outro de seus escritos, que sua visão ateísta do universo é baseada na fé. Quando membros da Edge Foundation perguntaram-lhe: "Aquilo em que você acredita é verdadeiro, mesmo que não possa provar?", a isso Dawkins replicou: "Acredito que toda vida, toda inteligência, toda criatividade e todo desígnio, em qualquer parte do universo, são produtos diretos ou indiretos da seleção natural de Darwin. Acontece que o desígnio chegou mais tarde ao universo, depois de um período de evolução darwiniana. O desígnio não pode preceder a evolução e, assim, não pode ser a base do universo". Na verdade, então, a rejeição de Dawkins a uma suprema Inteligência é uma questão de crença sem prova. E como muitos outros, cujas crenças baseiam-se em fé cega, ele não tolera que discordem delas ou as abandonem.

A respeito da abordagem de Dawkins a uma racionalidade como base do universo, o físico John Barrow observou durante uma discussão entre os dois: "Seu problema com essas idéias, Richard, é que você não é cientista. Você é biólogo". Júlia Vittulo- Martin comenta que, para Barrow, a biologia era pouco mais do que um ramo da história natural. "Biólogos", diz Barrow, "têm uma compreensão limitada, intuitiva do que é complexidade. Estão presos a um conflito herdado do século XIX e interessam- se apenas por resultados, por aquilo em que uns superam os outros. Mas resultados não nos dizem quase nada a respeito das leis que governam o universo".

Bertrand Russell parece ser o pai intelectual de Dawkins. Ele fala de como foi "inspirado, à idade de mais ou menos dezesseis anos", pelo ensaio que Russell escreveu em 1925, No que acredito. Russell era oponente inabalável da religião organizada, e isso fez dele um modelo para Harris e Dawkins que, estilisticamente, copiaram também sua propensão para o sarcasmo, o caricato, a zombaria e o exagero. Mas a rejeição de

Russell a Deus não foi motivada apenas por fatores intelectuais. Em My Father, Bertrand Russell, sua filha, Katharine Tait, escreve que ele não entrava em nenhuma discussão séria sobre a existência de Deus: "Eu não podia nem mesmo falar com ele sobre religião". O desgosto de Russell por esse assunto era, aparentemente, causado pelo tipo de crentes religiosos que ele conhecera. "Gostaria de ter podido convencer meu pai de que eu encontrara o que ele estivera procurando, aquele algo inefável pelo qual, por toda a vida, ele nunca deixou de ansiar. Eu gostaria de ter podido persuadi-lo de que a busca por Deus não precisa ser em vão. Mas era impossível. Ele conhecera um número grande demais de cristãos cegos, sombrios moralistas que tiravam a alegria da vida e perseguiam seus opositores. Nunca seria capaz de ver a verdade que eles escondiam."

Tait, no entanto, acredita que toda a vida de Russell foi uma busca por Deus. "Em algum lugar, no fundo da mente de meu pai, nas profundezas de sua alma, havia um espaço vazio, que um dia fora preenchido por Deus, e ele nunca encontrou alguma coisa que pudesse voltar a preenchê-lo." Ele tinha "a sensação de não ter lugar neste mundo". Em um trecho pungente, Russell uma vez escreveu: "Nada pode penetrar a solidão do coração humano, a não ser a alta intensidade do tipo de amor que os mestres religiosos têm pregado". Teríamos muita dificuldade para encontrar nos escritos de Dawkins qualquer coisa que mesmo remotamente se assemelhasse a essa frase.

Voltando ao assunto da "tergiversação" de Flew, talvez nunca tenha ocorrido a Dawkins que um filósofo, grande ou menos conhecido, jovem ou velho, pudesse mudar de idéia com base em evidências. Ele ficaria desapontado ao descobrir que os filósofos são "por demais ansiosos por desiludirem-se, se a lógica parecer exigir isso", mas que são guiados pela lógica, não pelo medo da tergiversação.

Russell, em particular, gostava tanto de tergiversar, que outro célebre filósofo inglês, C. D. Broad, uma vez disse: "Como todos sabemos, o sr. Russell produz um sistema diferente de filosofia a cada período de alguns anos". Há outros exemplos de filósofos que mudaram de idéia com base em evidências. Já observamos que Ayer repudiou o positivismo de sua juventude. Outro filósofo que passou por mudança radical foi J. N. Findlay, que argumentou no livro de Flew, de 1955, New Essays in

apenas como escritores, mas como sumo sacerdotes. Assim como Dawkins, tomaram para si não só a tarefa de educar o público sobre as descobertas da ciência, como a de decidir o que os fiéis científicos têm permissão para acreditar quando se trata de assuntos metafísicos. Mas vamos esclarecer as coisas. Muitos dos grandes cientistas viam uma conexão direta entre seu trabalho científico e sua afirmação de que existe uma "mente superior", a Mente de Deus. Expliquem isso como quiserem, mas é fato evidente que não se pode deixar que os autores populares, com suas pretensões, continuem disfarçados. Sobre positivismo, Einstein de fato disse: "Não sou positivista. O positivismo afirma que o que não pode ser observado não existe. Essa concepção é cientificamente indefensável, porque é impossível tornar válidas afirmações sobre o que as pessoas podem, ou não podem, observar. Seria preciso dizer que apenas o que observamos existe, o que é obviamente falso".

Se querem desencorajar a crença em Deus, os autores populares devem fornecer argumentos que sustentem suas opiniões ateístas. Os evangelizadores ateístas de hoje nem tentam argumentar em defesa de suas idéias. Em vez disso, voltam seus canhões para as conhecidas crueldades cometidas ao longo da história das principais religiões. Mas os excessos e as atrocidades da religião organizada não têm nenhuma relação com a questão da existência de Deus, assim como a ameaça de proliferação nuclear não tem relação com a questão E = mc^2.

E então, Deus existe? O que dizer dos argumentos de velhos e novos ateístas? Que relação a ciência moderna tem com esse assunto? Por notável coincidência, neste momento da história intelectual, quando o antigo positivismo voltou à moda, o mesmo pensador que ajudou a destroná-lo, meio século atrás, volta ao campo de batalha das idéias para responder a essas perguntas.

INTRODUÇÃO

Desde que minha "conversão" ao deísmo foi anunciada, sempre me pedem para falar dos fatores que me levaram a mudar de idéia. Em alguns artigos e nesta nova introdução à edição de 2005 de meu livro God and Philosophy, chamei atenção para obras recentes que são importantes para a atual discussão sobre Deus, mas não me estendi em novos comentários sobre minhas opiniões. E agora fui persuadido a apresentar aqui o que pode ser chamado de meu testamento final. Em resumo, como diz o título, agora acredito que existe um Deus!

O subtítulo, As provas incontestáveis de um filósofo que não acreditava em nada, não foi invenção minha. Mas eu o emprego com satisfação, porque a invenção e o uso de títulos arriscados, mas atraentes, são para os Flew algo como uma tradição familiar. Meu pai, que era teólogo, uma vez publicou uma coletânea de ensaios de sua autoria e de alguns de seus ex- alunos e deu a essa polêmica brochura o título paradoxal, embora perfeitamente apropriado e informativo, de The Catholicity of Protestantism. No que diz respeito à forma e apresentação, se não à doutrina, segui seu exemplo e publiquei artigos a que dei títulos como Do-gooders Doing No Good? e Is PascaVs Wager the Only Safe Bet?.

Preciso deixar uma coisa bem clara. Quando a notícia de que eu havia mudado de idéia sobre Deus foi divulgada pela mídia e a ubíqua Internet, alguns comentaristas foram rápidos em dizer que minha "conversão" tinha algo que ver com minha idade avançada. Dizem que o medo torna a mente mais densa, e esses críticos concluíram que foi a probabilidade de uma próxima entrada na vida após a morte que provocou minha conversão. É óbvio que essas pessoas não conheciam meus escritos sobre a inexistência de uma vida após a morte, nem minha atual opinião sobre o assunto. Durante mais de cinqüenta anos, neguei não só a existência de Deus, como também a de uma vida após a morte. Minhas Palestras Gifford, na Universidade de St. Andrews, publicadas como The Logic of

Falsification. Esse artigo mais tarde foi reimpresso em New Essays in Philosofical Theology (1955), uma antologia que co- editei com Alasdair Maclntyre. New Essays foi uma tentativa de avaliar o impacto do que chamavam de "revolução na filosofia" sobre assuntos teológicos. Minha segunda obra importante foi God and Philosophy, publicada pela primeira vez em 1966 e novamente em 1975, 1984 e 2005. Na introdução da edição de 2005, Paul Kurtz, um dos líderes do ateísmo em nossa época e autor de Humanist Manifesto II, escreveu: "A editora Prometheus Books tem a grande satisfação de apresentar o que agora tornou-se um clássico da filosofia da religião". The Presumption of God foi publicado na Inglaterra em 1976 e nos Estados Unidos em 1984 com o título de God, Freedom and Immortality. Outras obras relevantes foram Hum e's Philosophy of Belief, Logic and Language (primeira e segunda séries), An Introduction to Western Phüosophy: Ideas and Arguments from Plato to Sartre, Darwinian Evolution e The Logic of Mortality.

É de fato um paradoxo que meu primeiro argumento em favor do ateísmo tenha sido originalmente apresentado em uma reunião do Socratic Club presidida por um dos maiores defensores do cristianismo do século passado, C. S. Lewis. Outro paradoxo é que meu pai foi um dos autores e pregadores metodistas mais importantes da Inglaterra. E mais, no início da carreira, eu não tinha nenhum especial interesse em me tornar filósofo profissional.

Mas como todas as coisas boas, na verdade todas as coisas, sem exceção, devem ter um fim, acabarei minha introdução aqui. Deixarei que os leitores decidam o que pensar de minhas razões para mudar de idéia na questão de Deus.

PRIMEIRA PARTE

MINHA NEGAÇÃO DO DIVINO

1. A Criação de um ateu

Nem sempre fui ateu. Comecei a vida de modo bastante religioso. Fui criado num lar cristão e estudei em uma escola particular cristã. Na verdade, sou filho de um pregador do Evangelho.

Meu pai era produto do Merton College, de Oxford, pastor da igreja metodista criada por Wesley, não da igreja da Inglaterra, que era a estabelecida. Embora ele dedicasse seu coração ao evangelismo e, como diriam os anglicanos, ao trabalho paroquial, a primeira lembrança que tenho dele é como orientador de estudos do Novo Testamento na escola de teologia metodista de Cambridge. Mais tarde, ele sucedeu o diretor dessa escola e foi em Cambridge que se aposentou e faleceu. Além de suas obrigações acadêmicas básicas, meu pai assumiu a tarefa de representar a igreja metodista em várias organizações formadas por diferentes denominações religiosas. Serviu também, durante um ano, como presidente da Conferência Metodista e do Conselho Federal da Igreja Metodista Livre.

Na infância, eu me esforçava para isolar ou identificar qualquer sinal de minhas posteriores convicções ateístas. Na juventude, estudei na Kingswood School em Bath, conhecida informalmente com K. S., que era, e felizmente ainda é, um internato público — uma instituição de um tipo que, em qualquer outro país de língua inglesa, seria descrita, de modo paradoxal, como internato particular, A escola foi criada por John Wesley, fundador da igreja metodista, para a educação de rapazes, filhos de pastores. A escola Queenswood foi fundada um século mais tarde para, de maneira apropriadamente igualitária, educar moças, filhas de pastores metodistas.