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Dialética do Concreto: Entendendo a Filosofia Marxista, Traduções de Sociologia

Este texto apresenta uma resenha de uma obra intitulada 'dialética do concreto', que explora conceitos centrais do marxismo, como a dialética da totalidade concreta, a pseudoconcreticidade, a destruição da pseudoconcreticidade e a compreensão da realidade como um todo estruturado. O autor destaca a importância de distinguir a representação da coisa em si, a análise da realidade como um todo e a necessidade de superar a pseudoconcreticidade para chegar à verdade.

Tipologia: Traduções

2020

Compartilhado em 24/01/2020

elaine-sallas
elaine-sallas 🇧🇷

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Revista Educação e Políticas em Debate - v. 1, n. 1, - jan./jul. 2012.
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RESENHA
KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Trad. NEVES, Célia; TORÍBIO, Alderico. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 2010.
CLÁSSICO MARXISTA: “DIALÉTICA DO CONCRETO”
Responsável pela Resenha:
Leonice Matilde Richter
1
Universidade Federal de Uberlândia
Nos últimos anos, observamos a retomada de muitas obras, desconsideradas por muitos
pesquisadores no final do século passado, quando o marxismo foi taxado de ultrapassado e
subjulgado a não mais atender às demandas do mundo atual. Ironicamente, a contradição ronda
essa afirmação e observamos a própria história apontar que parte da academia enterrou cedo
demais o marxismo, o qual continua necessário, atual e, ainda, insubstituível na crítica da
estrutura capitalista, assim como na indicação das possibilidades de sua superação. A demanda do
método marxista no estudo da realidade coloca em destaque a presente obra resenhada.
O autor do livro a Dialética do concreto, Karel Kosik, de origem tcheca, nasceu em
Praga no ano de 1926 e, ao longo da vida, participou como membro do Partido Comunista
Tcheco, no qual atuou na resistência clandestina e em diferentes frentes em busca do socialismo
humanista. O tomo, ainda que escrito no vigor dos trinta e poucos anos do autor, representa uma
densa e consistente obra filosófica marxista, que se propõe à análise do materialismo dialético,
retomando um problema fundamental que busca compreender o que é propriamente, no
marxismo, a práxis.
A necessidade prática do autor de retomar a exposição a partir da raiz, a impossibilidade
de tocar diretamente nos problemas fundamentais sem primeiro ter eliminado as falsas
colocações e o apreço de conceitos clássicos das obras de Marx dão a aparência de um livro
modesto, mas que se compõe complexo e essencial para aqueles que trilham a vertente marxista.
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Professora da s Faculdades Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia. Doutoranda do Programa de Pós-
Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia. E-mail: [email protected]
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RESENHA

KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Trad. NEVES, Célia; TORÍBIO, Alderico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.

CLÁSSICO MARXISTA: “DIALÉTICA DO CONCRETO”

Responsável pela Resenha: Leonice Matilde Richter^1 Universidade Federal de Uberlândia

Nos últimos anos, observamos a retomada de muitas obras, desconsideradas por muitos pesquisadores no final do século passado, quando o marxismo foi taxado de ultrapassado e subjulgado a não mais atender às demandas do mundo atual. Ironicamente, a contradição ronda essa afirmação e observamos a própria história apontar que parte da academia enterrou cedo demais o marxismo, o qual continua necessário, atual e, ainda, insubstituível na crítica da estrutura capitalista, assim como na indicação das possibilidades de sua superação. A demanda do método marxista no estudo da realidade coloca em destaque a presente obra resenhada. O autor do livro a “Dialética do concreto”, Karel Kosik, de origem tcheca, nasceu em Praga no ano de 1926 e, ao longo da vida, participou como membro do Partido Comunista Tcheco, no qual atuou na resistência clandestina e em diferentes frentes em busca do socialismo humanista. O tomo, ainda que escrito no vigor dos trinta e poucos anos do autor, representa uma densa e consistente obra filosófica marxista, que se propõe à análise do materialismo dialético, retomando um problema fundamental que busca compreender o que é propriamente, no marxismo, a práxis. A necessidade prática do autor de retomar a exposição a partir da raiz, a impossibilidade de tocar diretamente nos problemas fundamentais sem primeiro ter eliminado as falsas colocações e o apreço de conceitos clássicos das obras de Marx dão a aparência de um livro modesto, mas que se compõe complexo e essencial para aqueles que trilham a vertente marxista.

(^1) Professora da s Faculdades Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia. Doutoranda do Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia. E-mail: [email protected]

O livro apresenta quatro capítulos que demandam ao leitor a visão completa da obra para a sua compreensão, visto que o próprio autor definiu o livro como um todo orgânico. Inicialmente, encontramos uma pequena nota sobre o autor, a qual destaca Kosik como “uma das mais eminentes figuras da cultura marxista” (p.07). Em seguida, encontramos uma “Advertência do autor”, redigida em 1961, dois anos antes da sua publicação original em tcheco no ano de 1963, na qual o autor enfatiza que os conceitos fundamentais do livro abarcam dois trabalhos apresentados por ele na década de 60, “Dialectique Du concret e Filosofické problémy strucktury a systému”.

O primeiro capítulo da obra é intitulado “Dialética da totalidade concreta”, no qual o

autor trabalha três pontos centrais: “O mundo da pseudoconcreticidade e a sua destruição”; “Reprodução espiritual e racional da realidade” e “A totalidade concreta”. Inicia a reflexão, destacando que a realidade não se apresenta imediatamente ao homem, por isso, na dialética, se distinguem a representação e o conceito da coisa em si, que são duas dimensões de conhecimento da realidade; mais do que isso, duas qualidades das práxis humana. Tal fato decorre porque o homem perante a realidade não se constitui como um abstrato sujeito cognoscente, e sim como ser que age objetiva e praticamente sobre a natureza diante de seus interesses/necessidades, permeado por um conjunto de relações sociais. Nesse sentido, o homem, inserido concretamente neste mundo, experimenta, inicialmente, uma atividade prático-utilitária por meio da qual ele cria as suas próprias representações das coisas, gerando as formas fenomênicas da realidade. Entretanto, essas formas fenomênicas são distintas e mesmo contrárias em relação ao núcleo interno essencial e seu conceito correspondente da coisa. Na vertente do autor, a práxis utilitária é, portanto, envolvida pelo senso comum e não pela compreensão consciente do real. Assim, é necessário avançarmos para além da pseudoconcreticidade, desnaturalizar o que se coloca como natural.

O complexo dos fenômenos que povoam o ambiente cotidiano e a atmosfera comum da vida humana, que, com a sua regularidade, imediatismo e evidência, penetram na consciência dos indivíduos agentes, assumindo um aspecto independente e natural, constitui o mundo da pseudoconcreticidade (KOSIK, 2010, p. 15) Como característico, nesse mundo da pseudoconcreticidade, permanecemos na superficialidade, ficamos distantes do que é realmente essencial, vivemos uma práxis fetichizada. Por conseguinte, é importante perceber que a essência não se apresenta imediatamente, ela é mediata ao fenômeno, o qual ao mesmo tempo a revela e a esconde. Para captarmos a essência, é necessário analisar o fenômeno, entender como a coisa em si se manifesta nele. Pela manifestação

a totalidade é um todo fechado) e a totalidade má (o autentico sujeito é substituído pelo sujeito mitologizado). Para Kosik, no exame da totalidade, não podemos nos limitar à análise do todo e das partes, mas garantir seu caráter dialético, assumindo a unidade das contradições e a dialética de fenômeno e da essência, da lei e da casualidade, do todo e da parte, da essência e dos aspectos fenomênicos (são, justamente, os elementos contrários que formam uma totalidade). Vale elucidar, por conseguinte, que totalidade não significa para ele que devemos abarcar todos os fatos da realidade investigada, não é essa a compreensão do que é a realidade, mas sim a análise da “realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fator qualquer (classes de fatos, conjunto de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK, 2010, p. 44). Esse processo é central se pretendemos a „destruição‟ da pseudoconcreticidade.

A compreensão dialética da totalidade significa não só que as partes se encontram em relação de interna interação e conexão entre si e com o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interação das partes. (KISIK, 2010, p. 50, destaque do autor) Portanto, seguindo o materialismo, compreende-se que é possível chegar à verdade, mas não de forma perpétua, já que essa é historicamente datada. A verdade não se apresenta imediatamente ao homem, é necessário desvio para chegar a ela, esse processo demanda explicações com base na própria realidade, buscando os movimentos que a compõem a fim de compreender o que está obscuro e confuso para chegar ao conceito do todo, agora abarcando as suas determinações e relações. É, nesse sentido, que Kosik destaca que o concreto se torna compreensível por meio da mediação do abstrato, o todo por meio da mediação da parte, pois o caminho da verdade envolve o desvio, já que o todo não é imediatamente cognoscível. O método do pensamento que vai do abstrato ao concreto é, segundo o autor, um movimento do e no pensamento, não significa desse modo o caminho de um plano sensível para o racional, ou seja, é um movimento que ocorre no plano abstrato, cuja base é a negação da imediatidade que envolve os homens de forma sensível na representação, na opinião e na experiência. Esse caminho percorrido do abstrato ao concreto tem na dialética a possibilidade da superação da abstratividade, a dialética do concreto reproduz idealmente a realidade em sua totalidade concreta.

No segundo capítulo , “Economia e Filosofia”, o autor explora a “Metafísica da vida

cotidiana”, “Metafísica da ciência e da razão” e a “Metafísica da cultura”. Nesse tópico, o autor enfatiza os problemas quanto à própria legitimidade da investigação, quando, de antemão, define

o que é essencial e o que é secundário sem submetê-la à própria investigação científica. Essa que está fadada à dúvida quanto a sua licitude, pois nesse caminho se deseja chegar à realidade por meio de um salto que coloca a investigação acima das aparências fenomênicas, mesmo sem examinar tais aparências, ou seja, sem o complicado processo regressivo-progressivo. “É profundamente errônea a hipótese de que a realidade no seu aspecto fenomênico seja secundária e desprezível para o conhecimento filosófico e para o homem: deixar de parte a aparência fenomênica significa barrar o cominho ao conhecimento real” (KOSIK, 2010, p. 68). A metafísica da vida cotidiana é empreendida pelo autor em relação aos conceitos: “preocupação”, cotidianidade e a história. “Preocupação” não é um estado psíquico ou um estado negativo do espírito que se alterna com outro positivo, é sim a transposição subjetiva da realidade do homem como sujeito objetivo. A “preocupação” é o enredamento do indivíduo no conjunto das relações que se apresentam a ele como mundo prático-utilitário, assim, ao viver, o homem pertence à preocupação. Nessa vertente, ela é o mundo no sujeito, é: 1. inserimento do indivíduo social no sistema de relações sociais sob o fundamento de seu engagement e da sua práxis^2 utilitária; 2. o agir desse mesmo indivíduo, agir que – no seu aspecto elementar – se manifesta como solicitude e preocupação; 3. sujeito de ação (preocupação e solicitude) que se manifesta como indiferenciação e anonimidade” (KOSIK, 2010, p.73). A preocupação é o aspecto fenomênico do trabalho abstrato. A substituição do “trabalho” pela “preocupação” exprime a modificação da própria realidade objetiva, reflete de maneira mistificada o processo da fetichização das relações humanas, em que o mundo se manifesta à consciência diária como um mundo já pronto, no qual o movimento social do indivíduo se desenvolve como empreendimento, ocupação, como “preocupação”. Homem perde a consciência de que o mundo é criação do homem, pois a “preocupação” invade toda a vida.

O preocupar-se é a práxis no seu aspecto fenomênico alienado, que já não alude à gênese do mundo humano (o mundo dos homens, da cultura humana e da humanização da natureza), mas exprime a práxis das operações diárias, em que o homem é empregado no sistema de “coisas” já prontas , isto é, dos aparelhos, sistemas em que o próprio homem se torna objeto de manipulação. (KOSIK, 2010, p.74, destaques do autor) Para Kosik, a “preocupação” é a manipulação na qual as ações, repetidas todos os dias, se transformaram em hábito e assim são executadas mecanicamente. Gera o caráter coisificado da práxis (preocupar-se), no qual a manipulação não se trata mais da obra que se cria, mas do

(^2) Nota técnica: na obra resenhada a palavra práxis é grafada como “praxis”. No presente trabalho redigimos com acento, mesmo as palavras presentes nas citações diretas.

cotidianas, nas simples enumerações e nos quadros documentários da vida imediata” (KOSIK, 2010, p.84). Nessa reflexão, o leitor encontra a análise acerca do sujeito social, falsa coletividade e a relação entre sujeito e objeto. Destaca-se, ainda, que originalmente o que se procura não é o sentido da cotidianidade, mas sim da realidade. Portanto, para que se possa descobrir a verdade da cotidianidade alienada, o homem deve conseguir dela se desligar, liberá-la da familiaridade, exercer sobre ela uma “violência”. É, nesse ponto, que o autor trabalha a arte moderna como elemento capaz de gerar essa “violência” sobre a cotidianidade, a destruição da pseudoconcreticidade. Retoma a obra de Franz Kafka como exemplo da destruição artística da pseudoconcreticidade. Entretanto, não basta que se represente a verdade da realidade ao homem, essa tem de ser praticada pelo próprio homem. A autenticidade é uma opção histórica, com um conteúdo social e de classe, precisamente determinado. Em relação à “Metafísica da ciência e da razão”, Kosik se propõe à retomada do sentido da ciência dos novos tempos. O que é a realidade e como conhecê-la? Considerando essa questão, o autor destaca a influência de Galileu sobre a ciência da economia, sujeita-se assim a leis de maneira análoga às leis da natureza física. Na concepção dos fisiocratas, a economia se identifica com a forma burguesa de produção, leis que são vistas como independentes da vontade e da política. A forma de visão da teoria da sociedade como sistema e homo oeconomicus como parte do sistema, segundo o autor, é apreendida com aparência natural e espontânea. A economia é vista como sistema de leis e aponta ao homem características para o seu funcionamento como a racionalidade do comportamento e o egoísmo. Kosik destaca, ainda, a teoria do interesse de Helvetiuns e a teoria da economia de Ricardo, salientando o ensejo dos equívocos. Apoiado em Gramsci, o autor assinala a conexão do “homem econômico” com a problemática e a realidade da estrutura econômica, em que se produziu a abstratividade do homem. Abstração que se dá ao acentuar certas qualidades do homem e prescindir outras. A economia é a esfera que transforma o homem em homem econômico. É, nesse sentido, que o homem econômico liga-se ao capitalismo como sistema e, como elemento desse sistema, é uma realidade. Na economia clássica, tudo é passível de cálculo, desde o valor dos homens às questões sutilmente morais. O homem na economia clássica é irreal fora do sistema, no sistema é definido de acordo com as suas demandas (como homo oeconomicus ).

Desde que a realidade social foi entendida como natureza em sentido físico e a ciência econômica como física social, a realidade social se transformara de realidade objetiva em realidade objetual, no mundo dos

objetos. A realidade que a economia clássica descreve com base no próprio método não é realidade objetiva. A economia clássica não descreve o mundo humano no seu aspecto alienado e não mostra como as relações histórico-sociais dos homens são marcadas pela relação e pelo movimento das coisas; ela descreve a legalidade imanente deste mundo reificado como mundo autenticamente humano, porque não conhece nenhum outro mundo humano, a não ser o mundo humano reificado. (KOSIK, 2010, p.98, destaques do autor) Por fim, o autor propõe neste tópico a análise histórica da razão a fim de definir como se dá a inversão na qual a racionalização gera o irracionalismo. Destaca a razão cartesiana, a razão da moderna sociedade capitalista, a divisão do mundo da objetividade e da subjetividade, o moderno “racionalismo radical” dos empiristas lógicos; o cientificismo racionalista, a concepção metafísica que petrifica o racional e o irracional e a razão dialética. Para o autor, a razão dialética não existe fora da realidade e tampouco concebe a realidade fora de si mesma. Como características da razão dialética Kosik apresenta quatro pontos:

  1. O historicismo da razão em oposição à supra-historicidade da razão racionalista; 2. Ao contrário [...] da razão racionalista, que parte do simples para o complexo, que parte dos portos de partida fixados de uma vez por todas para realizar a suma do saber humano; a razão dialética parte dos fenômenos para a essência, da parte para o todo e assim por diante; e concebe o progresso do conhecimento como processo dialético de totalização, que inclui a eventualidade da revisão dos princípios fundamentais. 3. A razão dialética, não apenas capacidade de pensar e de conhecer racionalmente, é ao mesmo tempo o processo de formação racional da realidade, portanto realização da liberdade. 4. A razão dialética é negatividade que situa historicamente os graus de conhecimento já atingidos e a realização da liberdade humana [...]. Não confunde o relativo com o absoluto, mas compreende e realiza a dialética de relativo e absoluto no processo histórico. (KOSIK, 2010, p.108-109) Em relação à “Metafísica da cultura”, Kosik explora um dos conceitos fundamentais do materialismo marxista, a estrutura econômica, diferenciando-a de fator econômico, que é um conceito recorrente nas teorias sociológicas vulgares. Retomando os conflitos ideológicos travados com a burguesia, Kosik apresenta que o primado do fator econômico constatado por pensadores burgueses, anteriormente a Marx, requer ele mesmo uma explicação materialista; portanto deve ser interpretada com base na estrutura econômica capitalista. Nesse debate, o autor perpassa por diferentes grupos críticos ao marxismo (teorias pluralísticas, teoria atomística dos fatores, etc.) até chegar à definição marxista da estrutura econômica e respectiva diferenciação da teoria dos fatores.

verdade objetiva” (p.145). Para o autor, a realidade humana não é apenas produção do novo, mas também reprodução (crítica e dialética) do passado. A realidade humana não é uma substância imutável, anterior ou superior à história, ela se cria na história.

A sociedade em que brotou a genial intuição de Heráclito, o tempo em que surgiu a arte de Shakespeare, a classe em cujo “espírito” se formou a filosofia de Hegel desapareceram no passado sem retorno, mas o “mundo de Heráclito”, o mundo de Shaskespeare”, o “mundo de Hegel” vivem e existem como monumento vital do presente porque enriquecem continuamente o sujeito humano (KOSIK, 2010, p.150). Portanto, no segundo capítulo, Kosik trilha reflexões sobre a metafísica. Na cultura, destaca a fé no fator econômico, fruto da investigação analítico-metafísica que transforma cada aspecto do complexo social em categorias particulares e em forças independentes (transformado em abstrações metafísicas) e a conexão entre os “fatores” abstratos é apenas formal ou mecanicamente causal. Na metafísica da ciência e da razão, se transforma o homem em suma unidade abstrata, inserida em um sistema cientificamente analisável e matematicamente descritível. Na metafísica da vida cotidiana, o homem, visto com “preocupação”, é a subjetividade fora de si, assim a transcendência do homem significa que esse com a sua atividade é suprassubjetivo e supraindividual (passagem do idealismo objetivo de Hegel para idealismo subjetivo de Heidegger). O trabalho de tão subdividido e despersonalizado já se apresenta apenas como ocupar-se, essa passagem do “trabalho” para a “preocupação” reflete de maneira mistificada o processo de fetichização das relações humanas em um mundo visto como já pronto.

É a crítica análise da metafísica que dá base para o terceiro capítulo “Filosofia e

Economia”, no qual o autor trabalha dois subtítulos: “A problemática de „O Capital‟ de Marx” e “O homem e a coisa ou a natureza da economia”. No primeiro tópico, o tema de reflexão é o significado da obra “O Capital”, mas não os conceitos particulares, e sim o significado total da obra de Marx. Explora os problemas que normalmente ocorrem na leitura da obra de Marx, em especial, dos manuais que, com seus limites podem alterar o próprio texto de Marx, pois eliminam, normalmente, a análise dos dados envelhecidos; eliminam trechos que avaliam não estarem diretamente associados à problemática da economia, vulgarizam com a justificativa de tornar o texto acessível(...). Tais questões o levam a uma análise intensa sobre o sentido histórico do texto e como as releitoras são influenciadas e ocultam concepções. Define que a autêntica interpretação garante a especificidade do texto, ou seja, o princípio específico da estrutura da abra. Em “O Capital”, tivemos muitas exposições que não sabiam como proceder aos seus “trechos filosóficos”, gerando a impossível compreensão da natureza do texto. E um único texto

é praticamente dividido em dois textos, por isso “O Capital” provocou confusões entre os intérpretes desde o início. “Confusão na qual só um ponto era completamente certo: não se trata de uma obra econômica no sentido comum da palavra, nessa obra a economia é concebida de maneira particular, a economia se entrelaça de maneira particular com a sociologia, a filosofia da história e a filosofia” (KOSIK, 2010, p.160). Assim, o autor apresenta ao leitor análises sobre a história das interpretações da obra de Marx, com suas diferentes concepções (interpretações logicizantes e metodologicizantes; tomista (...)). Kosik também busca compreender de que modo Marx concebeu e formulou a relação entre filosofia e economia em cada fase do seu pensamento. Por isso, lança análise sobre as diferentes interpretações realizadas sobre esse processo de Marx. Ao explorar a relação entre o princípio estrutural e a expressão literária da obra “O Capital”, Kosik faz importantes apontamentos ao campo da pesquisa e sobre os desdobramentos do método. “A arquitetura de „O Capital‟ como „todo artístico‟ ou „articulação dialética‟ está, sim, em conexão tanto com a elaboração literária da matéria, quanto com o método da exposição científica” (KOSIK, 2010, p.179, destaques do autor). Dessa maneira, o leitor da obra de Kosik tem acesso à análise que o autor faz dos caminhos desenvolvidos por Marx para a chegada à teoria crítica do capital.

O sistema é descrito na sua totalidade e concreticidade quanto se descobrem as leis imanentes do seu movimento e da sua destruição. O conhecimento ou a tomada de consciência da natureza do próprio sistema, como sistema de exploração, são a conditio sine qua non para que a odisseia da forma histórica da práxis chegue a termo na práxis revolucionária. (KOSIK, 2010, p.185-186)

Por fim, no quarto capítulo intitulado “„Práxis‟ e Totalidade”, o foco do autor é “A

„práxis‟”; “História e liberdade” e “O homem”. A práxis é o grande conceito da filosofia materialista segundo Kosik, o que soa contraditório para a consciência ingênua, que se sustenta na ilusão da certeza. Tal questão aponta o papel da filosofia em abalar a certeza do mundo comum e da realidade fetichizada. “A consciência comum toma como óbvio aquilo que a filosofia descobriu, tirando-o da ocultação, do esquecimento e da mistificação e tornando-o evidente”. (KOSIK, 2010, p. 218) Nessa obviedade, esse esforço filosófico volta a cair no anonimato e na obscuridade. Esse processo aponta para o autor o percurso do conceito de práxis seguiu, visto que permaneceu na consideração acrítica apenas a ideia de que a “práxis é algo incomensuravelmente importante e que a unidade de teoria e prática tem o valor de postulado supremo” (218) levando, muitas vezes, à modificação histórica do próprio conceito.

sentido de que o homem não começa sempre de novo e do princípio, mas é marcada pelo trabalho e pelos resultados obtidos pelas gerações precedentes. Portanto, “O homem” é foco final do livro e, como o próprio Kosik analisa, toda obra apresenta relação entre o princípio estrutural e a sua expressão literária. Assim, ao explorar a “Dialética do concreto”, o autor busca ao longo do livro compreender de que se trata a dialética, para ele trata-se da “coisa em si”, mas essa coisa não é uma coisa qualquer, ou melhor, não é nem mesmo um coisa, a “coisa em si” de que se trata a filosofia “é o homem e o seu lugar no universo [...] a totalidade do mundo revelada pelo homem na história e o homem que existe na totalidade do mundo” (KOSIK, 2010, p.248). Finalizamos o convite à leitura de “Dialética do concreto”, destacando que a obra apresentada pode contribuir significativamente para o entendimento da filosofia marxista; da metodologia materialista-histórico-dialética e das bases de seu desenvolvimento, o que muitas vezes parece tão distante e complexo daqueles que buscam a pesquisa nessa vertente teórica, pois a mesma colabora com a análise do método do estudo da realidade e da destruição da pseudoconcreticidade, assim como assume o entendimento de que é possível conhecer a “coisa em si” e que a dialética permite-nos conhecê-la.

A dialética não atinge o pensamento de fora para dentro, nem de imediato, nem tampouco constitui uma de suas qualidades; o conhecimento é que é a própria dialética em uma das suas formas; o conhecimento é a decomposição do todo. O “conceito” e a “abstração”, em uma concepção dialética, têm o significado de método que decompõe o todo para poder reproduzir espiritualmente a estrutura da coisa, e, portanto, compreender a coisa. (KOSIK, 2010, p. 18).

Ao longo do livro, Kosik enfrenta as mistificações do mundo da pseudoconcreticidade, marcado pelas aparências enganosas, da práxis fetichizada, ou seja, o mundo reificado. Nesse caminho, defende a necessidade do alicerce da autêntica práxis.