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Dipirona e Paracetamol
Tipologia: Notas de estudo
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Rev Odontol UNESP. 2013 Mar-Apr; 42(2): 78-82 © 2013 - ISSN 1807-
aProfessora das Disciplinas de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial I e II, Terapêutica, Clínica Integrada e do Mestrado em Implantodontia da UNIARA – Centro Universitário de Araraquara, 14807-120 Araraquara - SP, Brasil bDisciplinas de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e Fisiologia I e II, USC – Universidade Sagrado Coração, 17011-160, Bauru – SP, Brasil cMestre em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Faculdade de Odontologia, UNESP – Univ Estadual Paulista, 14801-903 Araraquara - SP, Brasil dEspecialista em Implantodontia, Escola de Odontologia de Cuiabá, 78043-172 Cuiabá - MT, Brasil eCirurgiã-dentista, Faculdade de Odontologia, UNESP – Univ Estadual Paulista, 14801-903 Araraquara - SP, Brasil fDisciplina de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, UNIC – Universidade de Cuiabá, 78043-172 Cuiabá - MT, Brasil gDepartamento de Diagnóstico e Cirurgia, Faculdade de Odontologia, UNESP – Univ Estadual Paulista, 14801-903 Araraquara - SP, Brasil
Introdução: A dor é definida como uma experiência desagradável, sendo o controle da dor pós-operatória um grande desafio na área da saúde. Objetivo: Comparar a eficácia da dipirona e do paracetamol no controle da dor pós-operatória após exodontia de terceiros molares inclusos. Material e método: Foram selecionados 30 pacientes da Disciplina de Cirurgia da Faculdade de Odontologia de Araçatuba – UNESP, que necessitavam extrair os terceiros molares inclusos. Desses, 15 receberam dipirona (Grupo I) e outros 15 receberam paracetamol (Grupo II) no pós-operatório. Todos os pacientes foram tratados, no pré-operatório, uma hora antes do procedimento cirúrgico, com dexametasona 4 mg e amoxicilina 1 grama. A intensidade da dor foi avaliada pelos pacientes por meio de escala visual analógica, em um período pós-operatório de 48 horas, em intervalos de 6 horas. Os critérios de exclusão foram: presença de desordens sistêmicas, hipersensibilidade medicamentosa, gestação, lactação e contraindicações locais. Os escores obtidos foram submetidos ao teste de Mann-Whitney (α = 0,05) para comparação das intensidades de dor em intervalos de 6 horas, nas 24 horas iniciais, nas 24 horas finais e no período total de 48 horas. Resultado: Não houve diferença estatística entre os analgésicos estudados nos intervalos de 6 horas; entretanto, nas 24 horas finais e nas 48 horas totais de observação, o Grupo I apresentou valores médios menores, estatisticamente significantes, quando comparado ao Grupo II. Conclusão: A eficácia analgésica da dipirona foi superior à do paracetamol. Descritores: Analgesia; terceiro molar; acetaminofen; dipirona.
Introduction: The pain is defined as an unpleasant experience, and control of postoperative pain a great challenge in healthcare. Objective: To compare the efficacy of Dipyrone and acetaminophen in postoperative pain after third molar surgery. Material and method: Thirty patients of the Discipline of Surgery of School of Dentistry of Araçatuba - UNESP, that needed to extract their third included molars, were selected. Among these, 15 received Dipyrone (group I) and the other received acetaminophen (group II) in the postoperative. All patients were treated pre-operatively with dexamethasone 4 mg and amoxycillin 1 g, one hour before surgery. Pain intensity was evaluated by a visual analogue scale by forty eight hours postoperative period and in intervals of six hours. The exclusion criteria were: presence of systemic disorders, drugs hypersensitivity, pregnant, lactic and local contraindications. The scores obtained were submitted to the Mann-Whitney test (p < 0,05) for comparison of the pain intensity in the 6 hours intervals, in the initial 24 hours, in the last 24 hours and in the total period of 48 hours. Result: There was no statistical difference among the analgesics in the 6 hours intervals, however, in the last 24 hours and in the total period of 48 hours, the group I presented smaller medium values, significant statistically, when compared to group II. Conclusion: The analgesic efficacy of dipyrone was superior to paracetamol. Descriptors: Analgesia; molar, third; acetaminophen; dipyrone.
Rev Odontol UNESP. 2013; 42(2): 78-82 Dipirona versus paracetamol no controle da dor pós-operatória 79
A dor é definida como uma experiência sensorial e emocional desagradável; no entanto, é fundamental para a espécie humana em razão do seu caráter defensivo, pois atua como sinalizadora de lesão iminente ou real de algum órgão ou tecido^1. O adequado controle da dor pós-operatória constitui um desafio entre as especialidades cirúrgicas, a despeito dos recentes avanços das técnicas de analgesia e dos analgésicos^2. Após a cirurgia de terceiros molares, a dor afeta praticamente todos os pacientes, atingindo intensidade máxima após 6 a 8 horas, e regredindo acentuadamente após as primeiras 24 horas^3 , sendo a medicação analgésica pós-operatória requerida pelos pacientes. Os fatores desencadeantes da dor pós-operatória são complexos e grande parte destes está relacionada ao processo inflamatório iniciado pelo trauma cirúrgico, que, em função da destruição celular e tecidual, desencadeia a produção e a liberação de mediadores bioquímicos, em particular histamina, bradicinina e prostaglandinas^4. Assim, ao controlar a extensão do processo inflamatório, ocorre redução da dor em intensidade e gravidade^5. Portanto, indica-se a administração de analgésicos e anti- inflamatórios não-esteroidais (AINES) a partir do pré-operatório. O mecanismo de ação dos analgésicos baseia-se, geralmente, na inibição da síntese de prostaglandinas, responsáveis pela dor leve e moderada, pela vasodilatação local e pelo aumento da permeabilidade vascular^6. O paracetamol (acetaminofen) é um analgésico não opioide com propriedade antipirética, eficaz no alívio da dor leve à moderada7,8. Seu mecanismo de ação baseia-se na ativação indireta de receptores CB1 do sistema canabioide, um complexo sistema de neurotransmissores relacionados a balanço energético, alterações emocionais, dor, hipertermia e hiperfagia^9. A dipirona (metamizol) é também um analgésico indicado no controle da dor de intensidade leve à moderada^8. Sua atividade analgésica, apesar de não ser completamente elucidada, é atribuída à depressão direta da atividade nociceptora; consegue diminuir o estado de hiperalgesia persistente por meio do bloqueio da entrada de cálcio e da diminuição dos níveis de AMP cíclico (AMPc) nas terminações nervosas^1. Um trabalho recente também tem evidenciado o mecanismo de ação da dipirona sobre receptores CB1 do sistema endocanabinoide em ratos^10. Atualmente, a dipirona e o paracetamol são os analgésicos mais prescritos no Brasil11,12; no entanto, a dipirona tem seu uso restrito nos EUA e em vários países da Europa, em razão da possibilidade de causar agranulocitose, complicações gastrointestinais, anemia aplástica e anafilaxia13,14. Em virtude dessa restrição, a literatura internacional é escassa em estudos clínicos atuais que demonstrem sua atividade analgésica pós-operatória em cirurgia oral. Assim, o propósito deste estudo foi avaliar o controle da dor pós-operatória, por 48 horas, em pacientes submetidos à cirurgia para exodontia de terceiros molares inclusos e que receberam como medicação analgésica a Dipirona sódica (DP) ou o paracetamol (PRT).
Trinta pacientes da Disciplina de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial da Faculdade de Odontologia de Araçatuba – UNESP, que necessitaram submeter-se à exodontia dos terceiros molares inferiores inclusos, foram selecionados para este estudo. Todos os pacientes receberam as devidas informações sobre a pesquisa e assinaram um termo de permissão para sua realização, sendo o trabalho submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa em Humanos da UNESP e aprovado, sob o protocolo número 2006-01083. A seleção dos pacientes incluiu aqueles que apresentavam bom estado geral de saúde, excluindo-se os que apresentaram desordens sistêmicas, hipersensibilidade a algum dos medicamentos usados, gestantes, lactantes e pacientes que fizeram uso de algum analgésico antes do ato cirúrgico, bem como os que apresentavam contraindicações locais à cirurgia. No pré-operatório, todos os pacientes fizeram uso de dexametasona 4 mg (Medicamento genérico - EMS) e amoxicilina 1 grama ( Medicamento genérico - Grupo CIMED), ambos administrados em uma dose por via oral (uma hora antes), com o objetivo de modular o edema pós-operatório e prevenir a infecção, respectivamente. O procedimento cirúrgico foi realizado pelo mesmo operador, previamente calibrado, de forma regrada e correta, cumprindo todos os princípios de técnica cirúrgica. Todos os pacientes receberam as instruções pós-operatórias adequadas com relação a dieta, higienização e cuidados gerais. Os pacientes foram randomicamente divididos em dois grupos de 15 pacientes: Grupo I - Dipirona sódica 500 mg de 6 em 6 horas (DP) (Medicamento genérico - Medley) e Grupo II - Paracetamol 750 mg de 6 em 6 horas (PRT) (Medicamento genérico - Medley). Os grupos definiram-se, em relação ao gênero e à idade, desta forma: no Grupo I, quatro pacientes pertencentes ao gênero masculino e 11 ao gênero feminino, com média de idade de 25,2 anos; no Grupo II, três pacientes do gênero masculino e 12 do gênero feminino, com média de idade de 26,8 anos. As cirurgias foram executadas dentro do tempo máximo de uma hora, sob anestesia local, com uma média de 3,6 mL de solução anestésica de Mepivacaína 2% com adrenalina 1:100.000 (Mepivalem, Dentsply Pharmaceutical^ ) por sítio cirúrgico; os pacientes que passaram por procedimentos que não se enquadraram neste perfil foram excluídos da pesquisa. Não houve complicações relevantes durante as cirurgias. No Grupo I, foram extraídos dez terceiros molares inferiores inclusos do lado esquerdo e cinco terceiros molares inferiores inclusos do lado direito. No Grupo II, foram extraídos 12 terceiros molares inferiores inclusos do lado esquerdo e três terceiros molares inferiores inclusos do lado direito. Durante as cirurgias, foi necessário realizar a ostectomia associada à odontossecção em todos os casos (Quadro 1). A intensidade da dor foi avaliada nos pacientes de acordo com uma escala visual analógica, que incluiu os seguintes escores: zero (SEM DOR); 1 (DOR DISCRETA); 2 (DOR MODERADA); 3 (DOR SEVERA), e 4 (DOR MUITO SEVERA). A escala visual analógica foi verbalmente explicada aos pacientes pelo pesquisador, que utilizou linguagem simples e acessível para que o paciente conscientemente se familiarizasse com o documento. As mensurações da intensidade dolorosa, amplamente utilizadas em estudos sobre a eficácia dos analgésicos15-18, foram
Rev Odontol UNESP. 2013; 42(2): 78-82 Dipirona versus paracetamol no controle da dor pós-operatória 81 A evolução da dor pós-operatória durante o período avaliado foi semelhante aos resultados obtidos por outros autores, em que o nível máximo de dor ocorreu durante as primeiras 24 horas após a cirurgia, com tendência à redução gradativa após esse período23,24. Essa fase inicial coincide com o pico de atividade inflamatória e a consequente secreção de mediadores que produzem hiperalgesia1,25. Durante as primeiras 24 horas, os pacientes de ambos os grupos apresentaram maior frequência de dor discreta. Neste ponto, o controle analgésico da dipirona e do paracetamol não demonstrou diferença estatisticamente significante; no entanto, o Grupo II apresentou maior número de relatos de dor discreta, moderada e severa. Já nas 24 horas finais, a análise estatística evidenciou diferença entre a atividade analgésica dos medicamentos, com vantagem da dipirona sobre o paracetamol, o que pode ser especialmente evidenciado pelo número reduzido de pacientes queixando-se de dor discreta e pelo número elevado de pacientes sem dor. Estes resultados corroboram estudos prévios que avaliaram os mesmos medicamentos21,22,26. Nos anos de 1969 a 1974, a droga foi retirada do mercado sueco, pois 50 pacientes com graves efeitos adversos da dipirona, na contagem de sangue, haviam sido identificados. Em 1999, 14 casos de agranulocitose foram relatados, sendo a taxa de mortalidade desses casos de 23%, motivo pelo qual, nos EUA, a dipirona não é indicada^27. Já no Brasil, a dipirona é indicada como primeira escolha para dores leves a moderadas26,28, pois sua eficácia analgésica é superior em relação ao paracetamol no controle da dor pós-operatória. De acordo com os resultados obtidos no presente estudo e nos trabalhos revisados, sugere-se que a diferença entre a dipirona e o paracetamol no controle da dor pode estar relacionada aos diferentes mecanismos de ação entre os fármacos.
A análise dos resultados obtidos no presente estudo permite inferir a superior eficácia analgésica da dipirona 500 mg em relação ao paracetamol 750 mg, no controle da dor pós-operatória em cirurgias para exodontia de terceiros molares inclusos. Este estudo clínico sugere o uso desse analgésico para proporcionar conforto ao paciente durante a fase de reparação tecidual do sítio cirúrgico. Figura 2. Mensuração de dor relatada com uso da Dipirona (Grupo I) e Paracetamol (Grupo II), no período total, nas 24 horas iniciais e finais do pós-operatório de cirurgia de remoção de terceiros molares inclusos. *Diferença estatisticamente significante entre os grupos (p < 0,05).
82 Queiroz, Santos, Esteves et al. Rev Odontol UNESP. 2013; 42(2): 78-
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Thallita Pereira Queiroz Av. José Bonifácio, 128, Centro, 14801-150 Araraquara - SP, Brasil e-mail: [email protected] Recebido: 21/11/ Aprovado: 12/03/