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Traumatização Secundária: Impacto da PTSD do Ex-Combatente na Família, Esquemas de Traumatologia

O impacto da síndrome de stress pós-traumático (ptsd) em ex-combatentes nas suas famílias, focando-se na traumatização secundária nas esposas e filhos. Aborda a distinção entre ptsd e perturbação secundária de stress traumático (stsd), explorando a sintomatologia e os fatores preditores de stsd em familiares de ex-combatentes. O estudo destaca a importância da ptsd parcial e a necessidade de pesquisas adicionais sobre o impacto da ptsd em famílias de ex-combatentes portugueses.

Tipologia: Esquemas

2024

Compartilhado em 25/11/2024

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antonio-mesquita-6 🇵🇹

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UNIVERSIDADE DE LISBOA
FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO
TRAUMAS DA GUERRA:
TRAUMATIZAÇÃO SECUNDÁRIA DAS FAMÍLIAS DOS
EX-COMBATENTES DA GUERRA COLONIAL COM PTSD
Susana Martinho de Oliveira
MESTRADO EM PSICOLOGIA
Área de Especialização em Stress e Bem-Estar
2008
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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

TRAUMAS DA GUERRA: TRAUMATIZAÇÃO SECUNDÁRIA DAS FAMÍLIAS DOS EX-COMBATENTES DA GUERRA COLONIAL COM PTSD

Susana Martinho de Oliveira

MESTRADO EM PSICOLOGIA

Área de Especialização em Stress e Bem-Estar

UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

TRAUMAS DA GUERRA: TRAUMATIZAÇÃO SECUNDÁRIA DAS FAMÍLIAS DOS EX-COMBATENTES DA GUERRA COLONIAL COM PTSD

Susana Martinho de Oliveira

MESTRADO EM PSICOLOGIA

Área de Especialização em Stress e Bem-Estar

Dissertação orientada pela Professora Doutora Alexandra Marques Pinto

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AGRADECIMENTOS

À Professora Doutora Alexandra Marques Pinto, por me ter acompanhado neste percurso, sempre com uma disponibilidade extraordinária e única. Agradeço todos os incentivos, o encorajamento, a reflexão crítica e o carinho com que me apoiou e abraçou este projecto!

À Dra. Fani Lopes, pela inspiração, pelos sábios ensinamentos, pela oportunidade de aprendizagem e reconhecimento. A minha profunda gratidão por me ter acompanhado desde o início no meu percurso pelo mundo da Psicologia!

À Direcção da APOIAR, particularmente ao Dr. Armindo Roque, pela confiança e pelo carinho como apoiou desde o ínicio este estudo!

Aos meus caros e estimados colegas, Dra. Carla Santos, Dr. Nuno Duarte, Dra. Sofia Pires e Dra. Lucília Bravo pela amizade, disponibilidade e cooperação!

Às minhas grandes amigas, Marina, Luciana, Elsa, Sofia, Andreia e Rita, pela eterna amizade, pela partilha e por terem compreendido as minhas “ausências e stress”, nos períodos mais difíceis deste percurso!

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Aos meus colegas de mestrado, pela aprendizagem e caminho partilhado e pelos momentos previligiados de Bem- Estar. O meu agradecimento particular às minhas colegas e amigas, Ana Beato e Susana Ramalho pelo companheirismo, pela amizade sincera e pelo encorajamento estimulante, principalmente na última fase desta etapa, quando a insegurança e a ansiedade começavam a emergir!

À minha mãe pelos ensinamentos valiosos de coragem e persistência!

Ao meu pai por me fazer acreditar na vontade da mudança!

À minha irmã pelo seu amor genuíno e inigualável. O meu profundo agradecimento pela sua disponibilidade e ajuda preciosa durante o decorrer deste projecto!

Ao meu cunhado pelo carinho, amizade e por fazer parte da minha família!

Aos ex-combatentes da Guerra Colonial, sócios da APOIAR, e seus familiares, pela sua disponibilidade, coragem e colaboração e por permitirem a existência do presente estudo o meu MUITO OBRIGADA!

Os filhos apresentam menor perturbação psicológica que as mães (Hipótese 5)? 138 Efeitos de mediação e moderação da sintomatologia de STSD e comórbida das

  • RESUMO Índice
  • ABSTRACT
  • INTRODUÇÃO
  • PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
  • Capítulo I – Stress de Guerra: PTSD
    • Conceito de Trauma e de Acontecimento Traumático
    • Diagnóstico, Efeitos e Prevalência
    • Evolução, Prognóstico e Diagnóstico Diferencial
    • PTSD Com Início Dilatado
    • A Emergência da Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD)
    • Conceptualização Teórica
    • Factores de Risco e Protectores
    • A Realidade Portuguesa
  • Capítulo II – Impacto da PTSD do ex-combatente na família: STSD
    • O conceito de Traumatização Secundária
    • Modelos do Stress e Crise Familiar
    • Modelo de transmissão do trauma
    • Fenomenologia da STSD
    • Impacto da PTSD na família
    • Traumatização Secundária nas esposas
    • Traumatização Secundária nos filhos
    • Realidade Portuguesa
  • Capítulo III – Trauma primário, secundário e comorbilidade
    • Traumatização primária (PTSD) ou traumatização secundária (STSD)?
    • PTSD e sintomatologia comórbida
    • Depressão e Ansiedade
    • O Problema de Investigação e formulação de hipóteses
  • PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO x
  • Capítulo IV – Objectivos e Metodologia
    • Identificação dos Objectivos
    • Método
      • Procedimento
      • Participantes
      • Instrumentos de Avaliação
        • TEQ
        • PTSD e STSD
        • Depressão
        • Ansiedade
        • Dados sócio-demográficas
  • PARTE III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
  • Capítulo V – Apresentação dos Resultados
    • Resultados das variáveis em estudo
      • Incidência de PTSD/ STSD nos ex-combatentes e seus familiares
      • Incidência da Depressão nos ex-combatentes e seus familiares
      • familiares Incidência da Ansiedade Estado e da Ansiedade Traço nos ex-combatentes e seus
        • Ansiedade Estado (STAI Form Y-1)
        • Ansiedade Traço (STAI Form Y-2)
    • Caracterização do TEQ e correlações entre as variáveis em estudo
      • Caracterização das experiências traumáticas
      • Correlações entre as variáveis
        • Correlação entre STSD e variáveis sócio-demográficas
        • Correlação entre PTSD e sintomatologia comórbida
    • Teste das Hipóteses e Predições
      • STSD e comórbida das esposas (Hipótese 1)? A sintomatologia de PTSD dos Ex-combatentes é preditora da sintomatologia de
      • STSD e comórbida dos filhos (Hipótese 2)? A sintomatologia de PTSD dos ex-combatentes é preditora da sintomatologia de
      • de STSD e comórbida dos filhos (Hipótese 3)? A sintomatologia de STSD e comórbida das esposas é preditora da sintomatologia
      • com PTSD, embora menos severo (Hipótese 4)? O perfil de sintomas das esposas é semelhante ao observado nos Ex-Combatentes
      • STSD e comórbida dos filhos (Hipóteses 6 e 7) esposas entre a sintomatologia de PTSD dos ex-combatentes e a sintomatologia de
  • Capítulo VI – Discussão dos Resultados xi
    • Discussão dos Resultados
      • A evidência de STSD e de sintomatologia comórbida nas esposas
      • O papel do género na explicação da sintomatologia traumática dos filhos
      • filhos A predição da ansiedade traço do ex-combatente na sintomatologia comórbida dos
      • A influência da sintomatologia das mães sobre a dos filhos
      • Reflexão sobre a análise do Grupo 1 (sem PTSD) e do Grupo 2 (com PTSD)
  • Capítulo VII – Conclusões
    • Conclusões Gerais
      • Contributos
      • Limitações
      • Implicações Futuras
  • BIBLIOGRAFIA
  • ANEXOS

ABSTRACT

The Secondary Traumatic Stress Disorder (STSD) has been described in specialized literature as a condition observed in spouses and children of Holocaust survivors, rescue and medical emergency team members, therapists of traumatized individuals as well as in the wives and offspring of war veterans. Being aware of the problematic connected to the suffering affecting the families of Portuguese Colonial War Veterans (1961-1975) and the gap in terms of empirical and theoretical studies in this area in Portugal, we aim to give a contribution to the study of the impact of the Posttraumatic Stress Disorder (PTSD) of war on the families of former Portuguese combatants. Using quantitative, correlative and comparative methods of study we have thus researched into the impact of the PTSD symptomatology and of the comorbid symptomatology of former combatants on their wives and children and the effect of the STSD and comorbid symptomatology of their wives on the children. For this purpose four instruments were used for evaluation: the Traumatic Events Questionnaire (TEQ), the PTSD Checklist (PCL), the Beck Depression Inventory (BDI) and State-Trait Anxiety Inventory (STAI). The total sample consists of 66 families (198 individuals) and was initially divided into two groups: Group 1 made up of former combatants not suffering from PTSD and Group 2 consisting of individuals who do suffer from this disorder. This study corroborates the existence of the STSD in the wives of former combatants diagnosed with PTSD and the effect of these mothers’ comorbid symptomatolo gy on their children’s. It also made possible to arrive at the conclusion that the traumatic symptoms present in the offspring are neither related to their father’s PTSD nor to their mother’s STSD, but rather to the gender variable of the children.

KEY WORDS: PTSD, Portuguese Colonial War, STSD, Comorbidity.

INTRODUÇÃO

Introdução

Manual. Numa revisão do manual (DSM-IV-TR, 2002, pp. 464), começa-se a contemplar outras situações traumáticas como “observar um acontecimento que envolva morte, ferimento ou ameaça à integridade física de outra pessoa; ou ter conhecimento acerca da morte violenta ou inesperada, ferimento grave ou ameaça de morte ou ferimento vivido por um familiar ou amigo íntimo (Critério A1). (...) A probabilidade de desenvolver esta perturbação pode aumentar proporcionalmente à intensidade e proximidade física do agente stressor”.

Catherall (2004, citado por Matsakis 1996) reforça igualmente que uma das características da relação entre família, stress e trauma é a sua natureza bidireccional. O suporte familiar pode moderar o impacto do trauma no familiar traumatizado, tal como o impacto do membro traumatizado também pode traumatizar a família.

Investigação mais recente tem revelado que indivíduos com PTSD têm três vezes mais probabilidade de terem familiares com queixas de ansiedade, depressão, psicoses e comportamento anti-social.

Embora seja reconhecido que é frequente existir história de psicopatologia familiar (normalmente de depressão) nos indivíduos que sofrem de PTSD, não existem estudos actualmente que avaliem especificamente se os seus pais também sofrem de PTSD (Yehuda et al., 2001).

Considerando os estudos que referem que os familiares de um doente com PTSD, podem sofrer de traumatização secundária, dada a proximidade emocional e a exposição às reacções emocionais e comportamentais do traumatizado (Figley, 1998; McCann & Pearlman, 1990; Pearlman & Saakvitne, 1995), o presente estudo procura avaliar o impacto da PTSD dos ex-combatentes portugueses da Guerra Colonial (1961-

Introdução

  1. nas suas esposas e nos seus filhos, bem como a influência da sintomatologia evidenciada pelas mães sobre a sintomatologia dos filhos.

Deste modo, este estudo ao nível científico procura contribuir para a construção de conhecimento sobre a traumatização secundária nas famílias de indivíduos traumatizados, área caracterizada por parca conceptualização específica e sustentada, e em particular nas famílias de ex-combatentes da Guerra Colonial Portuguesa, as quais têm sido muito negligenciadas ao longo destes últimos 34 anos.

A compreensão de variáveis e processos envolvidos na traumatização secundária de familiares de ex-combatentes, que o presente estudo visa, poderá igualmente dar um contributo para a construção de guias de acção, a adoptar na prevenção ou intervenção com os ex-combatentes e seus familiares, contributo este que se reveste de algum relevo social: apesar de não se saber quantos ex-combatentes estiveram expostos ao combate, estima-se que estiveram cerca de 800.000 homens portugueses nas ex-províncias Ultramarinas (Albuquerque, Soares, Jesus & Alves, 2003). Através do primeiro estudo epidemiológico, e único realizado até à data sobre a população portuguesa, Albuquerque et al. (2003) verificaram que a PTSD de guerra ao longo da vida corresponderia a 66 475 casos. Sendo uma doença crónica e incapacitante nas esferas interpessoal, social e profissional do ex-combatente, com um impacto significativo e traumatizante nas suas famílias, são consideráveis todas as consequências e custos, ao nível económico e social, que esta perturbação acarreta.

Na primeira parte do trabalho, faze mos um enquadramento teórico sobre os conceitos e as conceptualizações teóricas relevantes para a compreensão da nossa questão de investigação. No capítulo I, apresentamos o conceito de trauma e de acontecimento traumático, abordando as questões relativas ao diagnóstico clínico de

Introdução

demográficas, e descrevendo os instrumentos que utilizámos e o procedimento de recolha de dados.

Na terceira parte, no capítulo V, apresentamos os resultados obtidos, descrevendo a incidência de sintomatologia traumática, de depressão e de ansiedade nos ex-combatentes, nas suas esposas e nos filhos. É apresentada uma caracterização sobre a vivência de diversos acontecimentos traumáticos experienciados pelas esposas e pelos filhos dos ex-combatentes, e uma descrição dos resultados do teste das nossas hipóteses de investigação.

Por fim, nos capítulos VI e VII, procedemos à discussão dos resultados encontrados na nossa amostra e às conclusões deste estudo.

PARTE I – ENQUADRAMENTO

TEÓRICO

Capítulo I – Stress de Guerra: PTSD

Conceito de Trauma e de Acontecimento Traumático

O termo trauma provém do étimo grego que significa “ferida, choque contra o sistema”. Surge definido no dicionário como “qualquer experiência dolorosa que causa dano grave e duradouro ao próprio ou à personalidade” (Chaplin, 1981, p.601), “resultado de um acontecimento doloroso, físico ou mental, causando imediatamente dano ao corpo ou choque à mente” (Corsini, 1999, p.1019).

Por sua vez, a Associação Americana de Psiquiatria (APA, 2002) define actualmente o conceito de trauma como “ (…) a experiência pessoal directa com um acontecimento que envolva morte, ameaça de morte ou ferimento grave, ou outra ameaça à integridade física; ou observar um acontecimento que envolva morte, ferimento ou ameaça à integridade de outra pessoa; ou ter conhecimento de uma morte violenta ou inesperada, ferimento grave ou ameaça de morte ou ferimento vivido por um familiar ou amigo íntimo” (p. 463). Em 1987, no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM III-R) o acontecimento traumático foi caracterizado como um evento que ultrapassa a experiência humana normal. Posteriormente, ao verificar-se que os episódios de ameaça à vida não são uma experiência rara procedeu-se à exclusão do critério de raridade na definição de trauma. Segundo a revisão do manual (DSM-IV-TR, 2002), os acontecimentos traumáticos compreendem eventos como combates em guerra, assaltos pessoais violentos (ataque sexual, ataque físico, roubo, estrangulamento), ser raptado, ser refém, ataque terrorista, tortura, ser prisioneiro de guerra ou de campos de concentração, desastres naturais ou provocados pelo homem, acidentes graves de

Capítulo I – Stress de Guerra: PTSD

automóvel e diagnóstico de doença ameaçadora de vida. Alguns autores como Moore (citado por Vaz Serra, 2003) incluem também os abortos, fracturas ósseas, intervenções cirúrgicas, grandes perdas, ataques de animais, overdoses, quase afogamentos, maus- tratos e intimidação. Os acontecimentos traumá ticos distinguem-se dos restantes pela sua gravidade, pela ameaça que representam para a vida e segurança de uma pessoa e pelas consequências psicológicas que podem provocar a longo prazo. Após estas experiências extremas a pessoa costuma sentir que não tem aptidões nem recursos pessoais e/ou sociais para fazer face às exigências estabelecidas pela situação, desenvolvendo a percepção de não ter controlo sobre os acontecimentos (Vaz Serra, 2003). De acordo com Vaz Serra (2003), são várias as características descritas na literatura que definem e distinguem um acontecimento traumático de outras situações de stress, como: diminui o equilíbrio da vítima, deixando-a em sofrimento; altera o sentimento de segurança e auto-suficiência das pessoas e a sua susceptibilidade de ligação aos outros; aniquila os mecanismos de adaptação; questiona os pressupostos básicos de vida; questiona pressupostos como a justiça e a previsibilidade; altera a experiência emocional, cognitiva e o comportamento de qualquer pessoa; confronta a pessoa com a sua vulnerabilidade e altera- lhe a concepção que tem do mundo como um lugar seguro; retira- lhe o sentido de predictabilidade e de controlabilidade das ocorrências e; empobrece-lhe a auto-estima.

Com efeito, o autor acrescenta que o trauma é tanto mais grave quanto mais se verifica que: é determinado por outro ser humano com crueldade intencional (pode levar a desejo interno de vingança e reparação do dano); é impredictível e incontrolável (aumenta o desespero da pessoa e a intensidade do stress); é de duração prolongada (exposição a traumas múltiplos e sucessivos); decorre na infância (pode ter repercussões