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filariose_linfatica_manual
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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Resumo Este trabalho propõe mostrar a importância psicossocial e política da filariose bancroftiana levando em consideração tam- bém a experiência dos autores em assistir pacientes crônicos em hospital terciário universitário com um serviço especializado em filariose (Núcleo de Ensino, Pesquisa e Assistência em Filariose
Abstract The political and psychosocial importance of bancroftian fila- riasis were reviewed and also examined based upon the authors’ own experiences in assisting patients at the Center for Teaching, Research and Tertiary Referral for Bancroftian Filariasis (NEPAF
Denise Mattos^1 Gerusa Dreyer^2
(^1) Assistente social do Hospital das Clínicas
- UFPE; Pesquisadora Social do NEPAF. (^2) Médica, PhD em Biologia celular e molecular;
Professora adjunta de Doenças Infecciosas e Parasitárias da UFPE; Pesquisadora Titular do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães – FIOCRUZ, Brasil.
Rev Panam Infectol 2006;8(2):35-
Recibido en 6/4/2006. Aceptado para publicación en 18/5/2006.
Mattos, D. A filariose bancroftiana: uma perspectiva psicossocial e política para os profissionais da saúd
Introdução Conceitualmente, a filariose bancroftiana é uma doença parasitária exclusiva dos seres humanos, causada pela Wuchereria bancrofti e transmitida pelo Culex quinquefasciatus , na maioria das regiões endêmicas. A infecção está geralmente limitada às populações de baixa renda que têm características sociais e ambientais particulares, vivendo em condi- ções sanitárias extremamente precárias, geralmente em ocupações urbanas desordenadas e, como tais, permanecem à margem de uma política pública eficaz e eficiente. Há uma estimativa de 100 milhões de pes- soas infectadas nos 80 países endêmicos do mundo e de 900 milhões vivendo sob o risco de contrair a infec- ção(1). Embora a distribuição da doença pareça global, aproximadamente um terço dos indivíduos infectados reside na Índia, outro terço na África e o restante se encontra, predominantemente, na região ocidental do Pacífico e no sudeste da Ásia. As Américas têm a menor representação da prevalência mundial (0,3%), sendo o Haiti o país com o maior número de casos, seguindo-se a República Dominicana, a Guiana e o Brasil. No território brasileiro a transmissão é focal, sendo consideradas endêmicas algumas cidades da Região Metropolitana de Recife (Jaboatão, Recife e Olinda), em Pernambuco (2,3), e a cidade de Maceió, em Alagoas (4)^. Belém do Pará, que na década de 1950 era a área brasileira de maior prevalência, hoje é considerada um foco sob controle(5,6).
A apresentação clínica A apresentação clínica da filariose bancroftiana é diversificada, dependendo da idade e gênero em que as formas crônicas se manifestam(7). Estima-se que exis- tam cerca de 40 milhões de portadores crônicos (1). Nas mulheres, a doença é predominante nos membros inferiores que, em sua fase crônica, lembram a pata de um elefante, daí ser conhecida mundialmente como elefantíase. Nos homens, a hidrocele (aumento do volume da bolsa escrotal por acúmulo de líquido) é a mais prevalente apresentação clínica da doença e, entre as formas desfigurantes masculinas, é seguida pelo edema e a elefantíase de pênis e de bolsa escrotal. A quilúria (presença de linfa na urina), por sua vez, não parece ter predominância de gênero, parecendo, entretanto, poupar as crianças.
O programa global de eliminação da filariose lin- fática Em 1993, a Força Tarefa para Erradicação de Doenças elegeu a filariose linfática (causada pela Wuchereria bancrofti e pelas Brugias ) como uma das seis doenças potencialmente elimináveis(8). Em maio de 1997, a Assembléia Mundial da Saúde consolidou
essa resolução, anunciando a eliminação global da filariose como um problema de saúde pública (9). Em julho de 1997, em Townsville, Queensland, Austrá- lia, representantes da OMS, de seus centros colabo- radores, de ministérios de saúde, de organizações não-governamentais, de academias científicas e de indústrias, principalmente farmacêuticas, estabelece- ram que o controle da filariose seria feito baseado em dois grandes pilares(10): a interrupção da transmissão e o controle da morbidade. A interrupção da trans- missão no planeta está planejada para o ano 2020, com a estratégia do tratamento em massa anual por um período de 4-6 anos e do controle da morbidade com a implementação de programas de prevenção dos episódios agudos bacterianos através da higiene nos portadores de linfedema, e da hidrocelectomia(11).
A importância social A doença de Bancroft é um duro encargo social, na mais ampla acepção. O impacto socioeconômico que acarreta é de extrema importância e, para fazê-lo parte de uma conceituação global, torna-se necessá- rio ultrapassar as fronteiras estritamente médicas da doença. Sua importância social tem sido estudada através da contabilização de custos diretos e indiretos, quando os parâmetros podem ainda ser mensurados(12). Em 1957, Kessel(13), acompanhando por um ano um grupo de seringueiros na Malásia, identificou a exis- tência de 150 episódios agudos acarretando a perda de 450 dias de trabalho. Em 1996, na Índia, Murray & Lopez (14)^ consideraram a doença como o principal responsável pelo absenteísmo ao trabalho. Em 2003, Babu & Nayak(15), estudando comunidades rurais da Índia, observaram que a duração média dos episódios agudos variava de 01 a 11 dias e acarretava uma média de 3,9 dias de faltas ao trabalho. Na Índia, a média dos custos anuais com o tratamento de casos agudos e crônicos, em dólares americanos, foi calculada em cerca de 23 milhões para homens e 8 para mulheres. Sessenta por cento do total desses custos eram dirigi- dos para os casos crônicos(16). Ainda nos custos diretos com a doença, em 1995, a filariose ocupou o 2 o^ lugar no ranking mundial das doenças incapacitantes (17)^ e, em 1998, o 4º lugar em doenças incapacitantes de longa duração(18).
As repercussões sociais Essa incapacidade, que produz as perdas econô- micas mais facilmente mensuradas, também produz uma carga de perdas nem sempre percebidas e difíceis de ser quantificadas, que são os sofrimentos físico, emocional e segregacional que a bancroftose impõe. Portanto, para se falar em filariose sob um ângulo de visão mais abrangente, que não inclua apenas o as-
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médica. Na verdade, ele precisa ser retroalimentado por toda a cadeia de saúde que o assiste. O médico, o enfermeiro, o assistente social, o agente de saúde, o fisioterapeuta, o psicólogo, o nutricionista, todos têm de reforçar o seu comportamento com carinho, mas de forma firme, para que não haja o risco de o paciente apresentar novamente os episódios agudos. O diagnóstico do porquê da “desmotivação” do pa- ciente precisa ser feito. Muitas vezes, está além do plano físico e alcança as estruturas do sentimento, da dor e da baixa auto-estima, as quais nem sempre conseguem ser verbalizadas devido a uma trajetória de vida por demais sofrida. A ajuda do psicólogo é imprescindível. Terá o paciente acesso à água para a sua higiene diária? Que saídas podem ser vislum- bradas através do apoio dos assistentes sociais que o atendem? Conhecer a organização da comunidade, saber das lideranças, criar meios de incluí-las nas discussões ajuda a encontrar os caminhos decisórios. Haverá apoio da família para a tarefa quando ele não consegue mais se abaixar e alcançar os próprios pés, seja pela doença avançada, pela idade, pela obesidade que tanto acompanha o paciente do sexo feminino portador de linfedema? Identificar um membro da família ou até um vizinho que possa ser treinado e assim ajudar o paciente, extrapola a prescrição médica e pode ser concretizado em um trabalho de equipe. No treinamento do cuidador (21), a ação profissional do fisioterapeuta se reveste de grande importância para ensinar e esclarecer acerca dos exercícios necessários à melhora da drenagem linfática.Terá ele sandálias confortáveis para abrigar seus pés deformados? O portador de elefantíase dos membros inferiores não pode usar calçados comuns sob pena de criar mais portas de entrada para as infecções bacterianas de repetição, provocando o edema residual somatório a cada episódio agudo (22,23). Apenas o paciente sabe a quantidade de energia, de motivação e o tempo gasto para encontrar os sapateiros da periferia que tenham a criatividade de adaptar o calçado à sua deformidade. Precisa, então, de ajuda extra nesse sentido, inclusive para ser esclarecido de como deve informar as suas necessidades, tão pessoais, ao sapateiro local. A ação do agente de saúde, que conhece a comunidade, é de fundamental importância para catalogar e estimu- lar os profissionais que podem ajudar. Geralmente o portador de pernas e pés elefantiásicos reside em locais com acesso apenas por íngremes ladeiras ou escadarias com grande número de degraus ou em locais planos, cujas ruas não são pavimentadas nem oferecem drenagem adequada. Os riscos de acidente físico e o alagamento em época de chuvas propiciam as infecções bacterianas de repetição. É grande o nú- mero de pacientes com episódios agudos, na estação
chuvosa, por causa da exposição dos pés à lama (G. Dreyer, comunicação pessoal). Sabendo das condições em que vive o paciente e das mudanças sazonais, um reforço pode ser necessário, com algumas alternativas: não somente no lavar e enxugar os pés após atravessar as condições insalubres do local onde reside, como também na ajuda de medicação tópica mais intensiva ou até na prescrição da antibioticoterapia profilática, feita com a penicilina benzatina (21)^. O portador de quilúria, ao contrário de um aumento grotesco de volume de parte do seu corpo, pode apresentar uma imagem de magreza exagerada, como conseqüência da grande perda protéica e lipídica pela urina. Aos olhos do leigo, é suspeito de ser um portador do HIV ou de uma tuberculose, doenças também marcadas por um forte estigma. O posicionamento do agente de saúde na sua comunidade é importante, explicando que a doença quilúria não é contagiosa, para diminuir o preconceito ao qual o paciente está exposto. Outro aspecto importante nos portadores de quilúria é que a resolução de seu problema ultrapassa os cuidados mé- dicos, uma vez que à sua vida tem que ser incorporada uma dieta pobre em gorduras e rica em proteínas. Para muitos, isso é, praticamente, impossível, uma vez que o seu alimento está restrito ao que têm em casa, ao que conseguem comprar ou ao que lhes ofertam. Isso representa, portanto, um grande desafio para a saúde pública das áreas endêmicas e para os profissionais que assistem o paciente diretamente, pois da sua “dieta” tem que ser retirada a gordura, o item mais barato e que lhe fornece mais calorias no jogo delicado do custo-benefício de suas refeições diárias, na luta pela sobrevivência. O assistente social e o nutricio- nista são parceiros muito importantes para esse tipo de paciente e para a inclusão da família na discussão sobre as diversas formas de tornar possível a dieta. Assim, há uma magnitude médico-social e política difícil de ser estruturada, muitas vezes pela falta de um conhecimento mais detalhado do que acontece com o paciente portador de formas crônicas da filariose, que, muitas vezes ou na maioria das vezes, fica circunscrito às entrelinhas do prontuário médico. Como o vetor da infecção na América Latina é o Culex quinquefasciatus , a ocorrência da filariose serve de termômetro para medir as condições sanitárias em que se vive. Reflete as condições de moradia subuma- na, que fazem os seus habitantes conviverem com as próprias excretas. Espelha a dificuldade de acesso aos bens públicos, como a água e o saneamento básico. A permanência da filariose linfática entre nós é um indi- cador do abandono social retratado pela fragilidade do poder decisório de ações, que não é somente médico, social, mas também, principalmente, político. Talvez a reflexão sobre como essas determinações interagem
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e se expressam no cotidiano é que deva ser o norte de qualquer ação de promoção da saúde e da melhoria da qualidade de vida. Nenhuma categoria profissional que, direta ou indiretamente, lida com os pacientes crônicos pode, isoladamente, empreender as ações que dêem respostas factíveis às suas necessidades. O exercício da transdisciplinaridade com os pa- cientes assistidos pelo NEPAF redirecionou o olhar cidadão para perceber a realidade dos mesmos de maneira holística. Deu à equipe as possibilidades de recriar o mesmo sentimento de plenitude de quando foi deslumbrada a esperança de um dia se evitar a elefantíase em áreas endêmicas de bancroftose através da profilaxia dos episódios agudos bacterianos através da higiene(21-23,25,26).
Agradecimentos Os autores agradecem aos pacientes e aos seus familiares pela oportunidade que lhes deram de apren- der a olhar além da técnica e da ciência; ao Professor Joaquim Norões, urologista, pelo suporte humano e médico aos portadores de edemas de genitália externa masculina e aos demais profissionais da saúde que ajudaram a integrar a equipe NEPAF; à Organização Não-Governamental Amaury Coutinho pelo aporte financeiro em todas as etapas do conhecimento e da ação junto à população, podendo através do NEPAF assisti-la de forma transdisciplinar.
Referências
Fifitieth World Health Assembly, Geneva, 5-14 May 1997: resolutions and decisions; annexes (WHA50/1997/REC/1). Geneva.
Correspondência: Dra. Gerusa Dreyer ONG Amaury Coutinho R. Conselheiro Portela, N–665, sala 120 Graças – CEP 52020- Recife – PE – Brasil. e-mail [email protected]
Mattos, D. A filariose bancroftiana: uma perspectiva psicossocial e política para os profissionais da saúd