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fotografia e sertão, Notas de estudo de Sociologia Rural

Fotografia do sertão brasileiro.

Tipologia: Notas de estudo

2020

Compartilhado em 18/06/2020

luan-santos-iwy
luan-santos-iwy 🇧🇷

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SOBRE FOTOGRAFIA E SERTÃO
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SOBRE FOTOGRAFIA E SERTÃO

SOBRE FOTOGRAFIA E SERTÃO

Governador do Estado de Pernambuco Paulo Henrique Saraiva Câmara

Vice-governador do Estado de Pernambuco Raul Jean Louis Henry Junior

Secretária estadual de cultura Antonieta Trindade

Secretária executiva Silvana Meireles

Diretora-presidente da Fundarpe Márcia Souto

Superintendente da gestão do Funcultura Gustavo Duarte de Araújo

Concepção do projeto Juliana Andrade Leitão e Mivacyr Meira Lima Filho (Miva Filho)

Produção executiva Mivacyr Meira Lima Filho (Miva Filho)

Edição Mivacyr Meira Lima Filho (Miva Filho) Juliana Andrade Leitão

Coordenação de pesquisa Juliana Andrade Leitão

Edição e tratamento de imagens Gustavo Bettini Moura

Projeto gráfico Raul Kawamura

Edição e revisão de textos Mellynna Mohana

Sobre Fotografia e Sertão é um projeto cultural aprovado e financiado pelo edital de apoio à cultura do Governo de Pernambuco – Funcultura

CONSELHO EDITORIAL FICHA TÉCNICA

Maria Salett Tauk Santos – UFRPE Fabiana Moraes da Silva – UFPE Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão – UFRPE Daniel Rodrigo Meirinho de Souza - UFRN Daniela Bracchi – UFPE Maria do Carmo de Siqueira Nino - UFPE

SUMÁRIO

Apresentação

Introdução

Entrevistas José Afonso da Silva Júnior Allan Bastos Ana Lira Gustavo Bettini Isabella Valle Juliana Torezani Marina Feldhues Mila Souza Tiago Henrique

Fotografias Allan Bastos Ana Lira Gustavo Bettini e Lia Lubambo Marina Feldhues Mila Souza Tiago Henrique

Este livro traz as discussões resultantes de uma pesquisa desen- volvida com o intuito de mapear as relações existentes entre Imagem e Sertão. Observando a fotografia contemporânea e sua relação com o espaço imagético, discursivo e sensorial, que é a região do Sertão brasileiro. O estudo propõe dialogar com as pessoas que estão produzindo as imagens do Sertão de hoje em trabalhos reconhecidos, financiados, expostos ou por pes- soas renomadas no meio da fotografia e que estejam atuando na região do Nordeste. Assim é possível observar o que hoje está sendo construído na e sobre a região. A proposta central é a de pensar sobre a existência real e imaginária de ideias con- vergentes e contraditórias sobre um espaço que habita dentro de narrativas que combinam misticismos, lutas políticas, indús- tria da seca, desenvolvimento, agronegócio.

Entendemos a fotografia como um espaço de disputa, um dispositivo que serve a vários interesses e que construiu e constrói modelos de observação da região em questão. En- tão, se procuramos Sertão nos jornais ou até em um site de busca feito o google , aparece um amontoado de imagens quase idênticas.

A importância do conhecimento que está sendo gerado com esta pesquisa consiste na observação do contraponto às repre- sentações socialmente enraizadas na sociedade brasileira no que diz respeito ao Sertão. A representação do Nordeste pre- cisa ser questionada e reavaliada por aqueles que se colocam como vozes que falam para o Brasil e sobre este Brasil, que muitas vezes desconhecem.

INTRODUÇÃO

A ideia desse projeto surgiu a partir de desdobramentos do livro A Invenção do Nordeste, escrito por Durval Albuquer- que Júnior.

Um trecho chave para entender do que se trata essa obra é o seguinte:

O Nordeste é uma produção imagético-discursiva formada a partir de uma sensibilidade cada vez mais específica, gestada historicamente, em relação a uma dada área do país. E é tal a consistência desta formulação discursiva e imagética que dificul- ta, até hoje, a produção de uma nova configuração de ‘ verdades’ sobre este espaço […] Essas figuras, signos, temas que são des- tacados para preencher a imagem da região, impõem-se como verdades pela repetição, o que lhes dá consistência interna e faz com que tal arquivo de imagens e textos possa ser agenciado e vir a compor discursos que partem de paradigmas teóricos os mais diferenciados. Vamos encontrar as mesmas imagens e os mesmos enunciados sobre o Nordeste em formulações natura- listas, positivistas, culturalistas, marxistas, estruturalistas etc (AL- BUQUERQUE JÚNIOR, 2001 p.49, 50).

O autor coloca um pouco o dedo na ferida e torna-se polêmi- co quando diz que:

Os romances de Graciliano Ramos e Jorge Amado, da déca- da de trinta, a poesia de João Cabral de Melo Neto, a pintura de caráter social, da década de quarenta, e o Cinema Novo, do final dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta, tomaram

o Nordeste como exemplo privilegiado da miséria, da fome, do atraso, do subdesenvolvimento, da alienação do país (ALBU- QUERQUE JÚNIOR, 2001 p.192).

Completando essa ideia:

O romance de trinta instituiu uma série de imagens em torno da seca que se tornaram clássicas e produziram uma visibilidade da região à qual a produção cultural subseqüente não consegue fu- gir. Nordeste do fogo, da brasa, da cinza e do cinza, da galharia negra e morta, do céu transparente, da vegetação agressiva, espi- nhosa, onde só o mandacaru, o juazeiro e o papagaio são verdes. Nordeste das cobras, da luz que cega, da poeira, da terra gretada, das ossadas de boi espalhadas pelo chão, dos urubus, da loucura, da prostituição, dos retirantes puxando jumentos, das mulheres com trouxas na cabeça trazendo pela mão meninos magros e bar- rigudos. Nordeste da despedida dolorosa da terra, de seus animais de estimação, da antropofagia. Nordeste da miséria, da fome, da sede, da fuga para a detestada zona da cana ou para o Sul (AL- BUQUERQUE JÚNIOR, 2001 p.121).

Esse livro nos ajudou a pensar nos primeiros questionamentos a serem feitos aos entrevistados. Nos chama a refletir sobre a fotografia dentro desse processo, o discurso sobre a região que tem sido construído pelos fotógrafos e fotógrafas. O fazer, o pensar sobre a própria prática, o imaginário e a imagem nesse embate.

Em uma obra póstuma de Graciliano Ramos, que recebe o

título: “A propósito da seca” encontramos críticas ao trabalho de importantes nomes da arte e da literatura brasileira que contribuiu muito aos nossos questionamentos. Esse texto está no livro Linhas Tortas (RAMOS,1962).

Os trechos que destacamos e que colocamos para o debate são os seguintes:

  1. “O estrangeiro que não conhecesse o Brasil e lesse um dos livros que a nossa literatura referente à seca tem produzi- do, literatura já bem vasta, graças a Deus, imaginaria que aquela parte de terra que vai da serra Ibiapaba a Sergipe, é deserta, uma espécie de Saara”.
  2. “Realmente, os nossos ficcionistas do século passado, se- guindo os bons costumes de uma época de exageros, con- taram tantos casos esquisitos, semearam no sertão resse- quido tantas ossadas, pintaram o sol e o céu com tintas tão vermelhas, que alguns políticos, sinceramente inquietos, pensaram em transferir da região maldita para zonas ame- nas os restos da gente flagelada”.
  3. “Afinal, se os nordestinos seguindo o preceito bíblico, se tinham multiplicado tanto, então é que não se alimentavam apenas de raiz de imbu, semente de mucunã, couro de mala e carne humana. Pois até a antropofagia serviu para drama- tizar a seca, em jornal e em livro”.
  4. “A figura do retirante, celebrado em prosa e verso, inspirou compaixão e algum desprezo, compaixão porque ele era evidentemente infeliz, desprezo por ser um indivíduo infe- rior, vagabundo e meio selvagem”.
  1. “Certamente há demasiada miséria no sertão, como em toda parte, mas não é indispensável que a chuva falte para que o camponês pobre se desfaça dos filhos inúteis. Não há dúvidas que de que a seca engrossou as correntes emigra- tórias que se dirigiram ao norte e ao sul do país, mas a seca é apenas uma das causas da fome, e de qualquer forma os nordestinos, em maior ou menor quantidade, teriam ido cortar seringa no Amazonas ou apanhar café no Espírito Santo ou em S. Paulo”.
  2. “Essa desorganização não é talvez efeito apenas da seca. Processos rotineiros na agricultura, indústria precária, ex- ploração horrível do trabalhador rural, carência de adminis- tração pública, devem ter contribuído, tanto como a seca, para o atraso em que vive a quinta parte da população do Brasil”.

Não tem como passar em branco essas observações, não são trechos banais de uma percepção sem precedentes.

As questões especificamente da imagem trazemos de dife- rentes fontes. A palavra polêmica e controversa, representa- ção, apareceu em muitas das discussões que tivemos sobre o cruzamento sertão e fotografia. “Representação não é o ato de produzir uma forma visível; é o ato de dar um equivalen- te, coisa que a palavra faz tanto quanto a fotografia” (RAN- CIÈRE, 2012, p.92). Dentro dessa possibilidade de a imagem e a palavra de produzirem esses equivalentes, constata-se que para que os/as fotógrafos/as proponham, os/as editores/as e curadores aceitem, os prêmios aplaudam e o público receba

esse material como o melhor existente, como a forma “certa” de discutir, ver, opinar e refletir sobre os acontecimentos, exis- te um termo bem específico que une todos esses atores: o con- senso: “acordo entre sentido e sentido, ou seja, entre um modo de apresentação sensível e um regime de interpretação de seus dados. Significa que, quaisquer que sejam nossas divergências de ideias e aspirações, percebemos as mesmas coisas e lhes damos o mesmo significado” (RANCIÈRE, 2012, p. 67).

O autor reflete que “O real é sempre objeto de uma ficção, ou seja, de uma construção do espaço no qual se entrelaçam o visível, o dizível e o factível. É a ficção dominante, a ficção consensual, que nega seu caráter de ficção fazendo-se passar por realidade e traçando uma linha de divisão simples entre o domínio desse real e o das representações e aparências, opini- ões e utopias” (RANCIÈRE, 2012, p. 75).

Após a percepção da existência de imagens, temas, narrativas e discursos consensuais, este trabalho avança na direção de detectar, na fotografia, o avesso do consenso, as imagens que desconstroem e que mostram como o campo da fotografia é um terreno de disputa.

O trabalho usa como base o que propôs Rancière de regimes de imagem, os três grandes regimes auxiliam a compreensão de que categorias semânticas fazem mais sentido para elabo- rar as entrevistas. Os regimes são os seguintes: Regime Ético das Imagens; Regime Poético ou Representativo das Artes e Regime Estético.

O Regime Ético é proposto no texto de Rancière (2008:29) que são pertencentes a este grupo as imagens que estão no campo da proibição e que se debate seu teor de verdade. Dentro deste regime inclui-se alguns momentos históricos de coberturas fotográficas em que se refletiu sobre a preservação ou não de certos personagens da história, o que abarca o de- bate sobre os anônimos, os heróis e as vítimas e o debate ético sobre o uso da imagem das pessoas para fins informativos.

Na definição do autor esse regime significa:

Há um tipo de seres, as imagens, que é objeto de uma dupla questão: quanto à sua origem e, por conseguinte, ao seu teor de verdade; e quanto ao seu destino: os usos que têm e os efeitos que induzem. Pertence a esse regime a questão das imagens da divindade, do direito ou proibição de produzir tais imagens, do estatuto e significado das que são produzidas. Como a ele per- tence também toda polêmica platônica contra os simulacros da pintura, do poema e da cena (RANCIÈRE, 2009 p.28).

O Regime Poético trata das imagens repetidas, as imagens que são feitas para os prêmios, com o intuito de saírem vencedoras. Imagens que por sua relação com as artes clássicas possuem seu lugar garantido. Todas as imagens que se aproximam de temas religiosos, com áurea cristã, imitações da Pietàs, assim como os formatos de dualidade, que mostram imagens de bem versus mal , e as imagens que são reconhecíveis em outras ima- gens fotográficas, que já se tornaram clássicas. Neste regime, a problematização recai sobre a proposta de consenso.

O autor define esse regime da seguinte forma:

Ele desenvolve em formas de normatividade que definem as condições segundo as quais as imitações podem ser reconhe- cidas como pertencendo propriamente a uma arte e aprecia- das, nos limites dessa arte, como boas ou ruins, adequadas ou inadequadas: separação do representável e do irrepresentável, distinção de gêneros em função do que é representado, princí- pios de adaptação das formas de expressão aos gêneros, logo, aos temas representados, distribuição das semelhanças segundo princípios de verossimilhança, conveniência ou correspondên- cia, critérios de distinção e de comparação entre artes etc. [...] Denomino esse regime poético no sentido em que identifica as artes- que a idade clássica chamará de “belas-artes”- no interior de uma classificação de maneiras de fazer, e consequentemen- te define maneiras de fazer e de apreciar imitações bem feitas. Chamo-o representativo, porquanto é a noção de representação ou mimese que organiza essas maneiras de fazer, ver e julgar. (RANCIÈRE, 2009 p.31)

O Regime Estético trabalha com os conceitos de Rancière que observa “as estratégias dos artistas que se propõem a mudar os referenciais do que é visível e enunciável, mostrar o que não era visto, correlacionar o que não estava correla- cionado, com o objetivo de produzir rupturas no tecido sen- sível das percepções e na dinâmica dos afetos” (RANCIÈRE, 2012, p. 64). São trabalhos que se propõem realizar dissensos, ou seja, “que muda os modos de apresentação sensível e as formas de emancipação, mudando quadros, escalas ou ritmos,

ENTREVISTAS

“Durante muito tempo, desde o século 19, existia essa manei- ra de descrever a realidade do sertão como sendo uma terra isolada, sem cultura, desconhecida, empobrecida. Geralmen- te colocando uma oposição entre as condições geográficas, climáticas, de ambiente, em uma luta contra o sujeito que ali habita. Então fica o sertanejo contra o ambiente, numa eterna forma de sobrevivência, uma luta constante. Mas não dá mais pra ficar abordando visualmente o sertão dentro desse conjun- to de imagens de caveira de boi, lama seca de açude, menino buchudo cheio de vermes, pessoas com a cara enrugada, sem contextualizar com um conjunto de forças ou elementos que geram essas imagens.

Isso se reflete na dualidade entre tipificação ou generalização de certo tipo de imagem. E pra que finalidade e intencionalida- de essa imagem está respondendo. A ética entra aí como um ajuste do olhar do fotógrafo ou do processo que o fotógrafo está envolvido em contato com a realidade que ele se depara. Eu acho que existem formatos éticos ou antiéticos para retra- tar o sertão. Estabelecer uma construção de imagens sem um conhecimento prévio, sem um envolvimento, sem empatia, é o que coloca essas predisposições ao trabalho ser antiético ou superando isso estabelecer um trabalho ético.

E o que seria um trabalho ético? Seria um trabalho que devolva para essas pessoas essas imagens, que permita que elas proble- matizem e que entendam aquilo dali como sendo um extrato da representação e que possa ter validade pra elas. A impren- sa, especificamente a fotografia de imprensa, o fotojornalismo,

JOSÉ AFONSO DA SILVA JÚNIOR

tem um problema sério com isso, porque a forma como es- sas imagens voltam para essas pessoas, voltam já depois de um processo de filtragem, de mediação muito grande, muito complexo que nem sempre condiz com o entendimento mais profundo dessa realidade. Por outro lado, existem projetos do- cumentais que entendem melhor essa cilada e procuram esta- belecer relações mais criativas.

Para se fotografar o sertão é importante uma proposta esté- tica. Porque eu acho que não há relação de fotografia social sem produzir uma estética. Obviamente, tratando da estética no sentido de conjunto de relações visuais, sociais, de perten- cimento, de envolvimento, que de alguma forma geram um sentido a partir da imagem. Um sentido, um afeto, uma rejei- ção, uma identificação. Então eu acho que dentro do grande campo visual que o sertão emana, das imagens que ele suscita, eu acho que não é possível você não ter uma proposta estética. Mesmo que seja uma proposta estética distorcida, tipificada (por falta de conhecimento) ou um resultado estético con- sistente, forte, com musculatura. Então de alguma maneira o sertão se faz presente dentro dessa relação, do que ele emana, mas de uma necessidade de verificação e com a bagagem do fotógrafo e, sobretudo, com a intencionalidade. Esses campos vão pressionar uma situação que de alguma maneira um sertão vai surgir visualmente e, dentro desse sertão, certamente um processo de construção estética vai estar presente.

O problemático dessas imagens recorrentes, clichês e este- reotipadas é que seria mais interessante mostrar esse choque

entre a relação dessa imagem do sertão e a tradução dela dian- te dos novos choques, diante dos novos atritos, dos novos en- frentamentos culturais, sociais e políticos - político da relação entre o homem e o que o cerca. É problemática essa repetição de clichês, que alinhem essa relação visual entre ambiente, po- breza, atraso, subnutrição, precariedade. Isso já foi explorado e continua sendo explorado e quando a gente se depara com esse tipo de imagem clichê percebe a persistência desse olhar estereotipado, generalizado. Partindo para um espectro mais amplo, falando de Nordeste: são 09 estados, 30% da área geo- gráfica da união, 54 milhões de habitantes. Então quando pen- samos o sertão não só com uma área geográfica, mas como um sentido visual que atravessa esses espaços você tem outras realidades, você tem todo um sertão novo que se desenvolve, se atualiza, aborda questões novas, questionando frontalmente esses aspectos.

Na maioria das vezes as coberturas oficiais erram no olhar que lançam sobre essa região porque já vem com olhares muito pré-formatados, pré-fabricados. Essas coberturas são como teses que já saem das reuniões de pauta do jornal prontas, elas já saem tipificadas. Então quando o fotógrafo vai, ele não tem uma dimensão de com o que está mexendo, se ele não conhe- ce a região, ele já vai com imagens prontas na cabeça. Isso é problemático sob ponto de vista de entender qualquer cober- tura visual como campo de pesquisa. Pesquisar visualmente as questões e, sobretudo, tentar entender que aquele olhar que vai ser construído ali vai gerar algum tipo de conhecimento, entendimento, sobre a situação, o projeto.

Hoje, essas fotografias de caveiras, terra rachada e lata d’água na cabeça exercem um desserviço sim. Hoje a situação do ser- tão é muito mais complexa e não se resume a isso, a pesar de que isso também continua existindo. O problema é quando você reduz toda essa diversidade, uma área geográfica imen- sa, uma população imensa, uma série de micro arranjos cul- turais, de pertencimento, de contextos culturais diferenciados, pequenos, singulares. Você cria uma imagem dessa e diz no Nordeste é assim, no sertão está assim, então isso é altamente complicado. Você estabelecer uma relação que é uma falácia, você parte de pressupostos verdadeiros, afinal o problema da seca existe, mas você chega a uma conclusão falsa, que é dizer que tudo é isso. E essas situações acabam sendo regularmente retroalimentadas.

No começo da minha vida de fotógrafo eu tive a oportunidade de fazer esse tipo de presença no sertão e não tinha esse tipo de leitura. Então eu já produzi fotografias clichês, sim. E hoje eu me arrependo profundamente de ter feito isso. Mas isso é coisa que vem com a idade, a gente tem essa leitura mais problematizada a partir do momento que consegue ler os có- digos de uma maneira diferente. Eu já produzi sim, mas hoje eu procuro escapar, procuro ver relações diferenciadas. Hoje, eu procuro olhar para o sertão e para essas modificações que ele passa. Procuro entender um sertão não nessa atualização para o novo, mas tampouco na permanência do antigo. Eu procu- ro entender o sertão na tensão, na existência de choque entre essa tradição que é superada, mas que dá uma contribuição para a singularidade do sertão, e também olhando para o que

ALLAN BASTOS

“ Eu encontro o Sertão aqui no Crato, no Cariri, e não me refi- ro a esse Sertão que o Brasil conhece, que o mundo conhece, mas o Sertão festivo, das festas populares, das festas folclóri- cas, das romarias, é onde vem a cara do Sertão, vem o povo, vem o gosto, vem a cor do Sertão, vem as verdades. É onde eu consigo encontrar aqui nos meus ensaios “O meu Sertão”, que tenta seguir o calendário de manifestações da cultura da região e é onde eu vejo o Sertão acontecer. Então, o Sertão que está nos meus retratos é o Sertão celebrado, desde as romarias de Padre Cícero até as danças de Reisado, as Lapinhas nas procis- sões, as renovações aqui pela zona rural, é o Sertão tão bonito de se ver, e não é um Sertão sofrido, é um Sertão feliz.

O Sertão vem mudando, não é lugar só de sofrimento, aqui se festeja uma vivência simples. Tem a falta d’água, mas quando chove tem festa, o que muitos fotógrafos não percebem é isso, porque chegam em busca de um estereótipo. O Sertão multi- plicado, principalmente na fotografia, é o Sertão do sofrimen- to, esqueceram de mostrar o da celebração. A gente tem que dar uma instigada na galera para vir celebrar o Sertão, buscar felicidade, que aqui também tem muita.

Ai é onde entra a ética de você ter que repetir o personagem que já foi feito, seja o pagador de promessa ou seja o pedin- te de esmola na romaria, que por sinal, são personagens que quase não estão no meu trabalho. Eu quase não miro minha câmera para alguns figurantes que estão ali, principalmente na romaria do Juazeiro. Eu fico olhando e parecem que essas fotos foram feitas há 50 anos atrás, que é uma romaria que eu

não encontro, que não vem mais na minha foto. É um olhar que foi criado e vem se repetindo, aí sim é que vem esse po- der ou político ou ético de você repetir e procurar as mesmas pessoas, de procurar os mesmos personagens e ir só repetindo a tragédia.

É como as primeiras imagens que foram vistas, eram tão im- pactantes para o resto da história do Brasil que aquilo ficou como verdade, ficou como único. O Brasil, que é tão praia e litoral, quando chegou para o interior, que é diferente do interior do resto do Brasil, o interior aqui do Nordeste, aqui- lo chamou atenção, foi tão forte que até hoje buscam essas mesmas imagens. Que são imagens boas, são bacanas e que são imagens que são mais pra denúncia, para que acontecesse alguma coisa em relação à seca ou tantos problemas que tem no Sertão. Eu acho que os primeiros, os pioneiros, que foto- grafaram aqui, buscaram essas imagens fortes para denunciar e essas imagens viraram ícones e estão repletos de símbolos que foram entranhados e que até hoje são procurados e que quem chega acha, até hoje quem chegar aqui acha facílimo essas mesmas fotos.

Mas há muito tempo que o Crato se descaracterizou, até a zona rural aqui da Chapada já está mais moderninha, ela des- configura esse Sertão fotografado, o Sertão imaginado que traz algumas das pessoas até aqui. Saindo do Crato, já indo para Juazeiro, aí sim a gente encontra esse clima. O clima não de terra e calor, mas esse ambiente de quem vem buscar principalmente sofrimento. Aqui já é mais difícil encontrar essa

cena, mas saindo da Chapada do Araripe e indo 30km para umas cidades próximas isso já é bem mais forte.

Eu já fui em busca do penitente, do estereótipo, e as vezes não achava, ou quando achava não era bem executado. E hoje, me interessa fotografar de onde sai o dinheiro das pessoas. Então eu fico ali naquela banquinha de santo, aí vem uma senhora que tira o dinheiro do sutiã, outra que tira de dentro de um saco, tem outra que tira de um bolso. Então eu começo a bus- car novas histórias, dentro da fé e do que acontece na romaria hoje nessa parte comercial.

Eu quero saber para onde aquele Padre Cícero vai ser levado, eu fotografo muito Padre Cícero “o pacote”, não mais a cara dele, nem a imagem, mas ele todo empacotado indo pra Ara- caju, indo pra Sergipe. Eu procuro saber de onde aquele di- nheiro está saindo, porque é muito bacana ver, é uma romaria de pobre para pobre. Até na romaria eu já não venho atrás do pagador de promessa, eu venho em busca de quem está com- prando, do que é que o romeiro compra. Se é chinelo, se é ba- cia, se é comida. Eu sei que eles vêm pagar uma promessa, mas levam feira, eles deixam para comprar tudo aqui. Hoje o meu olhar voltou para essa parte comercial na romaria. É isso que eu digo, tem tantas histórias a serem contadas e ainda muitas pessoas que vem passam alguns dias buscam o estereótipo.

Eu acho que ainda tem muita história bacana para ser contada. E atualmente venho procurando pelo mundo onde essas ima- gens do Padre Cícero foram parar, já achei ele na Argentina,

no Rio de Janeiro e em Barcelona. Sempre faço um díptico, uma foto da imagem e outra do que o Padre Cícero está ven- do naquele lugar, está ficando bonito.

E saindo desse projeto documental, eu tenho produzido um trabalho mais de ficção, que acontece na floresta. Eu venho contando histórias da minha vida, coisas que aconteceram co- migo ou perto de mim ou que eu ouvi falar daqui da região. E venho criando essas imagens, de uma maneira mais moderna, mais lúdica em fotografia fingida, meio mentira. Eu brinco que meu estúdio é a floresta e toda ideia que vem, toda história que vem no meu cenário já é o verde daqui da floresta do Araripe, onde ainda tem muita água, uma vida muito bacana de vegeta- ção e de clima. É Sertão, só que não tem a cara do Sertão, não tem o povo do Sertão, não tem o sofrimento do Sertão. Eu vou representando com novas imagens, seja com uma performan- ce ou um ensaio ou uma foto única.

O projeto Seiva Bruta nasceu com uma performance, que tem a pretensão sentimental, homem e natureza, buscando uma escala, uma dependência. O Cariri, por ter muitos banhos, muitas fontes, nascentes e balneários, tem uma sexualidade muito aflorada, o mato é viril, a mata é fetiche. O Seiva Bru- ta veio representar isso, nasceu pra mostrar a cena erótica do Cariri. Eu tenho tirado todo erotismo do trabalho, eu o trans- formei num sentimento. Então eu faço com que as fotos hoje sejam mais sentimentais, num abraço, num gesto, num cari- nho que vem quando a pessoa se entrega mesmo e passa lá um tempo dedicando um abraço àquela árvore. Então o Seiva

Bruta nasceu erótico e está se transformando num ensaio de sentimento, ensaio da saudade.

Fotografei também para o Coletivo Café com Gelo, eles abri- ram muito a minha mente, pensando, poetizando, criticando. Foi um coletivo formado por Rafael Vilaroca, Yasmine Morais, dois jovens fotógrafos aqui do Cariri, também fizeram parte como modelos o Pedro Henrique “Dukk” e Ramon Kesllen

. Então eles muito jovens, eu mais velho, eles abriram muito a minha cabeça em relação a pensar bem diferente de como se fotografa aqui, provocando imagens. Fizemos exposição no Theória do Museu do Homem do Nordeste, Foto Rio e Mos- tra SESC em 2013, o coletivo apareceu pro Brasil”.

Diferente dos outros fotógrafos o trabalho principal de Allan é desenvol- vido no Cariri, já morou em Recife Pernambuco, onde atuou de 1998 a 2003 na Escola de Fotografia do Momento Pro - Criança, lá editou com fotos dos seus alunos o “Livro Recife debaixo das Pontes”, e fez parte da equipe da assessoria de imprensa da Fundação Joaquim Nabuco, tam- bém trabalhou com fotos de moda, publicidade e hoje mora no Crato, Sertão Cearense.

lugar, que certamente influenciou esteticamente o meu traba- lho. Se no momento em que você vai fotografar esse Sertão a tua mente ou o teu processo criativo está filiado à ideia de uma indústria de premiação, muito provavelmente você vai seguir uma estética que está conectada ao que esse prêmio pode te trazer. Se ela está conectada com o teu processo de descober- ta na vivência daquele lugar, ela vai obedecer a esse processo de descoberta que você tem. Se ela está conectada com o ima- ginário que você criou daquele espaço, e isso é mais forte do que a experiência que você está tendo lá, isso vai obedecer a esse imaginário.

Eu não acho que as fotografias de caveira, terra rachada, lata d’água na cabeça exerceram um desserviço para região, o dis- curso que se criou com elas é que criou esse desserviço. O uso político disso na imprensa, o uso político disso nos programas sociais assistencialistas, que foram gerados pelo governo. O uso político disso na imagem que se construiu do Nordeste para o Brasil, que é uma coisa que até hoje pesa na gente. Existe uma coisa que é muito delicada, principalmente quando você pensa nessa relação norte e sul, e que ajudou a criar a jornada do herói no entorno de alguns personagens, figuras que viraram icônicas na cultura brasileira por causa desses pro- cessos como um todo.

Agora, o que eu acho que a gente pode dizer é que essas ima- gens podem virar um desserviço se elas incentivam um pro- cesso de produção de um discurso que visa observar aquele espaço enquanto um espaço somente de vulnerabilidade. Até

hoje você tem uma quantidade enorme de fotógrafos viajando para o Sertão, indo construir imagens a partir desse norte da vulnerabilidade das pessoas. Se houve um desserviço presta- do por esses ícones, foi no sentido de que isso acabou sendo apropriado por pessoas que tinham interesse nisso aí e acabou, na verdade, a partir de todas essas indústrias que a gente está vendo de premiações, sendo colocadas a serviço de um tipo de fórmula que, no meu entender, mais prejudicou do que apoiou as pessoas que estão na região. O que eu penso é como a gen- te está lidando com uma relação de poder de comunicação, ou seja, quanto mais a gente se esforça para desconstruir essa imagem, mais você pode colaborar para construir outras for- mas de visibilidade, de visualidade, daquele lugar. A questão não é a imagem da terra rachada, os ícones da terra rachada, da caveira, o problema é quando esses ícones viram história única. Quando não existem outras possibilidades de pensar aquele lugar que não seja a partir desse viés de uma fragilidade que é quase comercial.

Quando eu vejo o meu trabalho do Sertão, percebo que ele tem uma determinada pegada, que ele fala de um Sertão es- pecífico com o qual eu me conectei. Que é esse Sertão da po- tencialidade, dos agricultores experimentadores, que tem uma relação com a ancestralidade, com essa sabedoria ancestral de dividir conhecimentos para pensar em possibilidades de convi- ver com aquele espaço.

Eu fotografo o sertão há quatro anos. E aí, quando eu penso nisso, isso é diferente do que o Gilvan Barreto fotografou. Mas

quando você junta o Sertão que eu estou gerando enquanto imagem, com o Sertão que ele gerou enquanto imagem, com os sertões que vários fotógrafos geraram enquanto imagem, são variadas formas de olhar para o Sertão. E isso pode con- viver, inclusive, com a foto reportagem que o meu amigo di- namarquês fez e que trata sobre a seca, porque você não está com a história única. Não existe só a versão dele ou a minha, você tem múltiplos olhares sobre o mesmo lugar e muitos ou- tros ainda a se descobrir e você fala para as pessoas que esse lugar é tudo isso, que foi feito até aqui, e podem existir milhões de outros caminhos de se pensar esse espaço. Mas ele não é somente a terra rachada, a caveirinha.

Fotógrafa. Integrante do coletivo Publicações Impossíveis (PI), do gru- po Direitos Urbanos | Recife, do selo Papelote e do projeto Cidades Visuais. Participa de projetos audiovisuais em um coletivo aberto e ri- zomático criado em Recife e que tem sido responsável por filmes co- letivos como [projetotorresgêmeas], Eleições: crise de representação, entre outros. É também especialista em Teoria e Crítica de Cultura e pesquisadora independente. Participou dos coletivos 7Fotografia, Tro- tamundos, Boivoador, Paspatu e Vacatussa. Editou durante cinco anos a extinta revista Rabisco, além de integrar projetos independentes espa- lhados pelo país.

GUSTAVO BETTINI

“A gente começou a fotografar em 2013 e o primeiro lugar foi o Vale do Catimbau. A primeira etapa do projeto foi a produção de uma exposição, que foi montada com umas 30 imagens. No ano seguinte estávamos com muita vontade de voltar e aprofundar mais, então fomos contemplados pelo Funcultura, assim a gente conseguiu estender a pesquisa para outras áreas do Sertão, que a gente ainda não tinha conseguido visitar para fazer o livro. A primeira conversa que aconteceu entre eu e Lia Lubambo, sobre esse projeto, foi justamente em uma pauta que a gente foi fazer no Vale do Catimbau para uma revista, aí eu falei sobre como me impressionavam as belezas do Sertão.

A gente comungava da mesma ideia, nós estávamos acostu- mados a fazer pautas no Sertão, não especificamente a pau- ta que estávamos fazendo, mas as que já havíamos feito no fotojornalismo. Nunca tivemos a oportunidade de fazer um trabalho mostrando as belezas do Sertão, a força do sertanejo. Eram sempre retratando um sertão de mais miséria, sofrimen- to, aqueles problemas todos que a gente está acostumado a ver nos jornais, na TV.

E isso é uma ideia pré-definida do Sertão, uma coisa que já é estereotipada, e que é uma grande armadilha, porque as pes- soas acabam caindo nessa de sempre repetir isso, de reforçar isso, de ressaltar que é isso. E essa tecla é tão apertada que começam a achar que só isso é o Sertão. Eu acho que é fun- damental as pessoas conhecerem o Sertão e irem com o olhar descondicionado. É você tirar essa carapuça de coisas que já são inseridas na nossa mente com essas reportagens, com

fotos, com tudo. E começar a olhar com menos pretensão, mais despreocupado, aí você vai conseguir ver que o Sertão é lindo, é surpreendente. É tão importante para mim ter essa imagem do Sertão belo, do sertão poético, é importantíssimo conhecer.

A minha primeira viagem para o Sertão foi impactante, porque eu fui com essa ideia pré-concebida de Sertão. Em umas das primeiras viagens eu fiquei bastante no Sertão, foi para foto- grafar as tribos indígenas. Então eu fui com duas coisas pré- -concebidas, índio e Sertão. Quebrei a cara e foi ótimo, por- que quando eu me deparei com o que realmente era, deu para fazer um trabalho muito mais agradável, mais despretensioso. Porque você sai daqui com uma pretensão e o perigo está em você querer forçar uma barra na realidade, no que você está vendo e no que você imaginou. Eu não gosto disso, não fiz isso, eu procurei chegar e mostrar da maneira mais legal pos- sível, mas dentro do que eu realmente vi, do que eu realmente senti do Sertão.

Eu vou pelo meu encantamento, uma coisa que me apaixonou. Nessas grandes coberturas é difícil falar de ética, se as pes- soas estão fazendo esse retrato intencionalmente. Porque eu acho que ética vai muito da intenção, se a pessoa está fazen- do isso com a intenção de ressaltar uma coisa que não condiz com a verdade, ela está sendo antiética. A gente sabe que isso acontece, que algumas pessoas não estão preocupadas com a verdade, mas também é aquela questão: o que é verdade? A partir do momento em que você escolhe um enquadramento,

que você define uma composição com a objetiva que você vai usar, você está ressaltando algumas coisas e está omitindo outras. Então ali é sempre a sua verdade, então eu quero ter a consciência de que eu mostrei a minha verdade, o que me tocou, o que me encantou. Então se a pessoa está mostrando uma coisa, exagerando ou querendo induzir a alguma interpre- tação, espero que ela tenha uma noite tranquila de sono.

Eu não acredito que existe um modelo certo de fotografar o Sertão, a terra ou o sertanejo. O Sertão, como qualquer outro lugar, está em constante mudança. Passou por mudanças pro- fundas nos últimos anos e as pessoas têm outras condições de vida lá. E eu acho que isso fez o sertanejo ficar mais forte, a gente observa que hoje já não existe tanto êxodo como existia.

Eu estive no Sertão em períodos de grande estiagem e en- contrei muito menos casas abandonadas do que quando eu fui pela primeira vez ao Sertão, há 15 anos. Por exemplo, não se escuta falar tanto em saque. É perceptível que o sertanejo não quer sair do sertão que ele se viu obrigado a fugir por um período. As chuvas voltavam, eles voltavam junto. A música de Luiz Gonzaga, a volta da Asa Branca retrata bem isso. Eles se viam obrigados a sair do Sertão porque não tinham condições de continuar vivendo ali, mas na primeira chuva, quando o ver- de voltava, eles voltavam junto.

Eu percebo que o Sertão passou por grandes transformações sociais. Uma coisa que a gente conversou muito foi sobre a chegada da energia elétrica, o que mudou muito a vida do

sertanejo. E não dá para gente julgar se melhorou ou piorou, mudou. Hoje eles falam que se encontram menos a noite para festejos, conversas, coisas assim, porque eles estão assistindo a novela, vendo filmes. Uma das pessoas com as quais con- versei disse que agora tinha dia no qual ele assistia 5 filmes, porque ele agora tinha 180 canais em casa, imagina a janela que se abriu pra ele. A praça da cidade agora tem wi-fi, então as pessoas continuam indo para praça, mas elas sentam lá pra interagirem através de redes sociais. É uma mudança grande, por isso eu acho que não saturou, o Sertão está passando por mudanças profundas e cabe a gente acompanhar isso.

No nosso trabalho tentamos englobar o máximo possível. A gente fez a região do Araripe, Exu, Tabocas. Muitas cidades pautadas pelas músicas que a gente ouvia, tanto do Cordel do Fogo Encantado, Luiz Gonzaga, Antonio Carlos Nóbrega, coisas que a gente vai ouvindo nas músicas e que despertou a curiosidade. A gente foi paro o Pajeú, visitou Flores, a gente foi pra Serra Talhada, Floresta, pegou a parte de Petrolândia, já pegando o São Francisco, Itacuruba, São José do Egito. A gente rodou 6.500km no total, em quase três anos.

Decidimos mostrar coisas que tocavam, o critério era esse. É bonito? Achei interessante? Quero mostrar! Acho que foi mui- to mais referências literárias, musicais, do que referências de fotojornalismo.

Na hora de fotografar a gente fotografou tudo que para a gente era interessante, tomando o cuidado para que na edição

ISABELLA VALLE

“Para se retratar o sertão não existe um formato que seja anti- ético por si só, mas existem visões que são perigosas, fórmu- las prontas que são desonestas. Métodos e visibilidades que não contemplam a sensibilidade ampla que o sertão oferece enquanto experiência vivida e enquanto lugar mesmo. Sendo o sertão uma realidade rica e complexa, tanto em termos de paisagens humanas/sociais, como naturais/ambientais, é sem- pre redutor tentar dar conta de simplesmente mostrá-lo, mais ainda de supor representá-lo. O que é o sertão? Que unidade une esta identidade e nomeia as relações que ela atravessa? Eu parto do pressuposto que se deve assumir sempre este “não dar conta”, ao mesmo tempo em que se deve buscar linhas de fuga, pontos de vista fora dos clichês, justamente para ex- pandir e somar a complexidade do sertão às visibilidades que almejam partilhá-lo. É preciso atenção e escuta, para reduzir os perigos da desonestidade.

Um fotógrafo finaliza seu trabalho em imagens, mas o proces- so vai além da experiência apenas visual. Acredito na pesquisa, no tempo, nas relações. Hoje se fala muito em lugar de fala. Então, mais do que ver imagens feitas por aqueles que visitam o sertão, tenho me interessado muito por imagens produzidas por aqueles que o habitam. Acredito na ética do mergulho. E nada mais profundo do que ser sertanejo e fotografar o sertão. Me interesso pela ética que a sertaneja e o sertanejo contem- porâneos (o que inclui, mas vai muito além do estereótipo do vaqueiro) tem para mostrar e reivindicar enquanto sua. Estou cansada das imagens da miséria vista de fora, do jogo com contrastes de beleza e feiura e da fácil compreensão rápida

de quem não se mistura de verdade, de quem não se envolve, de quem não é, de quem não vive. Assim, a falta de ética não está no formato, mas nos riscos de uma prática pobre, limitan- te e sem propriedade. Quero que me apresentem diferentes sertões.

Não existe a possibilidade de fotografar o sertão ou o que quer que seja sem uma proposta estética. Imagem é experiência es- tética. O sertão também é uma experiência estética. Viver é uma experiência estética. A vida cotidiana é uma experiência estética. Estética, sensível, e, necessariamente, política. Se o fotógrafo não dá a proposta conscientemente, ela será in- conscientemente, a partir do lugar de fala de quem fotografa e por outros dispositivos e sujeitos que atravessarem aquela imagem-experiência.

O difícil é encontrar novos caminhos, novas maneiras, outros métodos, outros olhares. Nunca algo será esgotado, mostra- do em sua complexidade. Sempre cabe apresentar uma faceta diferente de algo, mesmo que pareça que já o vimos de todos os jeitos. Também não acredito que exista algo que deva obri- gatoriamente ser mostrado no sertão. Por outro lado, creio que seja impossível conseguir fugir do sertanejo, deste ser humano que habita este espaço, mesmo que ele não se encontre visível nas imagens. Falar do sertão é falar da sertaneja e do sertanejo, das pessoas que ocupam este lugar. É uma simbiose. Da mes- ma forma que falar das pessoas é também mostrar o lugar. É preciso mais afeto e envolvimento atravessando a prática foto- gráfica e o nosso olhar sobre as coisas, só isso.

É importante o fotógrafo alimentar o imaginário das pesso- as, adicionar novas formas de ver e de existir do sertão. Existe sempre o clichê, mas não acredito que seja para caber no ima- ginário dos outros, mas pra se encaixar no próprio imaginário pré-formatado… O que é uma pena. Para mim, um fazedor de imagens é, antes de tudo, um instigador de novos imaginários.

Normalmente as coberturas oficiais erram no olhar que lançam sobre essa região porque reduzem e repetem. Porque não dão tempo e nem fazem pesquisa. Porque não acessam o mergu- lho. Mas gosto de acreditar que há exceções. Apesar do pa- drão da seca, da miséria, da morte, da fome, do sol escaldante, da falta, do homem-bicho e do bicho sofrido. É um padrão cansado. A repetição dessas imagens de caveiras, terra racha- da e lata de água na cabeça talvez não exerçam um desserviço para a região, mas a repetição delas, sim, provavelmente. E o silenciamento dos outros sertões que existem também. Porque reduz, limita. Mas esta não deixa de ser também uma imagem do sertão, contendo suas denúncias e razões, seu papel social. Não acredito que algo deva ser escondido. Mas é importante entender que se trata de uma realidade ínfima diante do verde quando chove, diante da cultura (tradicional e pop) que vibra na região, diante de tanta riqueza. O problema não é mostrar a seca, mas reforçá-la, reiterá-la, como um discurso uníssono, um imaginário único, repetido e cansado. Mas ainda bem que existem respiros mais honestos.

É professora, pesquisadora e fotógrafa. Atua como docente no De- partamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba; pesquisadora convidada na Université Paris 8/ França; é doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Graduada em Comunicação Social/Jornalismo pela Universida- de Federal de Pernambuco, fez também intercâmbio em Comunicación Audiovisual na Universidad de Sevilla (Espanha). Foi repórter fotográfi- ca e é integrante-fundadora do coletivo 7Fotografia.

JULIANNA TOREZANI

“Quando se fala de ética no modo de retratar o Sertão é como se a gente estivesse pensando se existe um formato certo ou errado. Um olhar ou um tipo de visão que o fotógrafo teria de imprimir nesse espaço. Eu não sei se existe isso, eu acho que em geral, os trabalhos fotográficos ou vídeográficos, imagéti- cos em geral, que retratam o Sertão tem esse ponto de retratar muito o estigma de seca. Em um lugar de escassez, onde a escassez de água acaba se tornando também de alimento e de outros recursos. E que deixa a desejar no que diz respeito a mostrar o outro lado do Sertão, como a beleza, a vegeta- ção em si. Acho que atualmente têm bons trabalhos, pessoas que vem desenvolvendo, principalmente na fotografia. Tem o trabalho de ir lá, observar a noite, olhar essa vegetação, olhar essas pessoas, e sempre tem uma beleza.

O que eu acho que está faltando nessas retratações do Sertão é acirrar o olhar plural. Quem são essas pessoas? Como vivem? Porque a beleza, a alegria, ou o motivo dessas pessoas não deixarem esse lugar. O sertanejo tem orgulho do lugar onde ele mora e ele quer continuar morando lá. Eu conheço uma cidade do Sertão baiano, que é Conceição de Coité, é lindo lá. É uma cidade pequena, tem um pólo de uma universidade federal e tem um curso de rádio e televisão. Eu fui lá dar uma oficina de fotografia e os alunos fazem trabalhos fotográficos, ou de qualquer outra coisa como vídeo, falando sobre os ar- tistas locais, e quando você pergunta se ele quer sair daquele local de moradia ele diz não. Ele quer continuar lá, quer produ- zir material daquele lugar onde ele vive e ele também enxerga uma beleza sobre aquele lugar.

Acho que as coberturas de jornais e revistas oficiais minimizam muito no olhar que lançam sobre o Sertão. Dão atenção a um aspecto e deixam outros. Essa coisa do jornalismo me traz uma experiência muito interessante. Eu nasci no sudeste, no estado do Espírito Santo, vivi quase toda a minha vida na Bahia e há 4 anos eu estou em Pernambuco. E sempre que eu vou ao sudes- te surge uma pergunta muito interessante que é assim: Como é morar num lugar que não tem água? Num lugar de seca? É difícil explicar para as pessoas que o Nordeste tem vários bio- mas, tem a Mata Atlântica, o Agreste, o Sertão, a Caatinga. A pessoa não consegue entender, ela generaliza e acha que o Nordeste inteiro é o Sertão. Talvez esse olhar venha desse fator jornalístico, o que é que a mídia em geral mostrou por décadas sobre o que é o Nordeste brasileiro. A mídia minimiza, tem um problema dela ao retratar a região, mas também tem o problema da própria pessoa. Eu também fico curiosa para entender qual é a sua fonte de informação sobre o Nordeste, dá vontade de perguntar que jornal lê, que revista ou emissora de TV, porque o Nordeste é muito mais do que isso.

Tem uma parcela de como a mídia cobre e estigmatiza a seca. Tiveram muitas matérias sobre a transposição do Rio São Francisco, então para quem está de fora parece que é o único rio e que ele que vai salvar todo mundo, veja que a gente tem diversas pautas jornalísticas que já cobriram isso ou coisas des- sa natureza. O que acaba criando um olhar mínimo e também tem o interesse da pessoa de vir conhecer o Sertão, o Nordeste como um todo, ir nessas cidades e conhecer essas pessoas, a beleza dessas pessoas.

Mas esse tipo de retratação não é específico do Sertão, eu acho que isso acontece também em outras realidades. O que é que se mostra da Amazônia? Que mesmo com a abundância da água tem o desmatamento e também a questão indígena. Mas não é só isso, eu gosto de fazer a comparação um pou- co mais distante. O que é que a gente sabe sobre o Oriente Médio? É talvez muito o discurso que a mídia produziu, então na cabeça de muita gente é talvez um lugar árido, com pouca vegetação, pelo o que a gente vê numa cobertura jornalística. Todo mundo é mulçumano, mesmo sendo a grande maioria dos povos, e o jornalismo endossa e reforça. A mídia conta aquela dor e vai trabalhar isso dentro daquela pauta, que vai realizar no trabalho que está investigando. Não sei se existe o perfil editorial do local onde se trabalha, isso já pode estar direta ou indiretamente pautado, a própria observação da rea- lidade ou talvez o conhecimento prévio que se tenha do lugar leva a isso. E isso é muito forte, as vezes até desmontar deter- minados conceitos, isso para qualquer profissional, não só o jornalista, que quando ele chega lá presume de que forma e com que ponto de vista ele vai abordar a coisa. Eu posso pegar uma pauta sobre o Sertão hoje com diferentes objetivos e lá mostrar o lado mais dolorido dos problemas da seca ou o povo feliz ou uma série de outras questões que o jornalismo mesmo pode pautar. Acho que talvez a mídia colabora, mas talvez fal- ta um olhar mais amplo, vê os outros lados também.

Por isso eu acho isso importantíssimo esses novos trabalhos que estão surgindo e acho que eles precisam ter uma difusão ainda maior. Primeiro ter mais gente interessada no tema,