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Gerda Maisa Jensen.pdf, Esquemas de História

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO. PUC-SP. Gerda Maisa Jensen. Lazzaro Spallanzani (1729-1799) e o torpedo: um tipo de peixe elétrico?

Tipologia: Esquemas

2023

Compartilhado em 16/01/2023

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Gerda Maisa Jensen
Lazzaro Spallanzani (1729-1799) e o torpedo: um tipo de peixe elétrico?
MESTRADO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA
SÃO PAULO
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Gerda Maisa Jensen

Lazzaro Spallanzani (1729-1799) e o torpedo: um tipo de peixe elétrico?

MESTRADO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA

SÃO PAULO

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Gerda Maisa Jensen

Lazzaro Spallanzani (1729-1799) e o torpedo: um tipo de peixe elétrico?

MESTRADO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em História da Ciência sob a orientação da Prof.a^ Dr.a^ Lilian Al-Chuyer Pereira Martins e da Prof.a^ Dr.a^ Maria Elice B. Prestes.

SÃO PAULO

RESUMO

O naturalista italiano Lazzaro Spallanzani (1729-1799) dedicou-se ao estudo de diversos temas da História Natural, dentre os quais o do fenômeno de entorpecimento causado em presas ou em seres humanos, por peixes chamados torpedos. Conhecido pelos sábios da Antigüidade, o fenômeno chegou a ser considerado, posteriormente, uma fábula, até que filósofos naturais dos séculos XVII e XVIII tomaram-no como objeto de investigação. Atestaram não apenas a veracidade do fenômeno, como procederam a descrições morfológicas e anatômicas desses peixes, procurando explicar a origem e causa do fenômeno. Nesta Dissertação, apresentamos algumas das investigações sobre o tema realizadas por Spallanzani, objetivando averiguar se estavam baseadas nos conhecimentos disponíveis no período e se suas observações e experiências foram bem planejadas e executadas. Para isso, são apresentadas algumas das explicações fornecidas para o fenômeno, variando entre hipóteses mecânicas e elétricas, por alguns antecessores e contemporâneos de Spallanzani. Em seguida, a fim de contextualizar esse estudo no âmbito geral das pesquisas de Spallanzani, são indicados elementos de sua formação e atividades acadêmicas, com ênfase nas suas viagens naturalísticas e manutenção de museus de História Natural. Por fim, é detalhada uma fase de investigações que ele realizou sobre os torpedos, entre os anos de 1780 e 1782. O relato de suas observações e experiências e os resultados obtidos foram resumidos por Spallanzani em carta datada de 23 de fevereiro de 1783, endereçada ao Marchese Girolamo Lucchesini e publicada, no mesmo ano, em dois periódicos italianos voltados à divulgação científica, o Opuscoli scelti sulle Scienze e sulle Arti e o Giornale de’Letterati. Comparamos essa carta com trechos dos diários, apenas recentemente publicados, das viagens naturalísticas que propiciaram a Spallanzani o acesso e a possibilidade de realizar seus estudos sobre os torpedos. Nossa análise nos levou a concluir que Spallanzani levou em consideração os estudos anteriores e contemporâneos sobre o fenômeno, bem como guiou sua investigação pelas hipóteses (mecânica e elétrica) que subsidiavam esses estudos. Spallanzani concluiu que apesar do choque causado pelo peixe não produzir faísca nem manifestar fenômenos de atração e repulsão (como ocorria com a eletricidade estática estudada na época), o entorpecimento causado pelos torpedos nas presas, nas mãos dos pescadores e de estudiosos era um fenômeno elétrico, de mesma natureza que o manifesto na atmosfera ou na garrafa de Leyden.

Palavras chaves: Lazzaro Spallanzani, peixe elétrico, torpedo, entorpecimento, eletricidade animal.

Abstract

The Italian naturalist Lazzaro Spallanzani (1729-1799) took up the study of several issues of Natural History amongst which, the numbness phenomenon caused by fish called torpedoes in their preys or in human beings. Well known since the Ancient times once a fable, it became subsequently the object of inquiry of the natural philosophers from XVII and XVIII centuries. They witnessed the veracity of the phenomenon and described the morphology and the anatomic of these fish, trying to explain it origin and cause of the numbness. In this Dissertation, we present some of the inquiries on the subject conducted by Spallanzani, to ascertain whether they were based on the knowledge available in the period and if his observations and experiments were well planned and executed. To do so, we present some of the explanations for the phenomenon, ranging from mechanical and electrical hypotheses, for some predecessors and contemporaries of Spallanzani. Then, in order to contextualize the study in the general scope of the investigations of Spallanzani, details of his training and academic activities are given, with emphasis on his naturalistics travels and maintenance of museums of Natural History. Finally, the process of investigation that he conducted on the torpedoes, between the years 1780 and 1782 is detailed. The report of his observations and experiences as well as the results were summarized by Spallanzani in a letter dated February 23 of 1783, addressed to the Marchis Girolamo Lucchesini and published in the same year, in two journals aimed at disseminating scientific Italians, the Opuscoli scelti sulle Scienze e sulle Arti and the Giornale de’ Letterati. We compared this letter with to excerpts of the diaries, published only recently, about his naturalistic journeys that provided Spallanzani access and opportunity to conduct their studies on the torpedoes. Our analysis led us to conclude that Spallanzani took into account the past and contemporary studies on the phenomenon, his guided through their research hypotheses (mechanical and electrical) that subsidized these studies. Spallanzani concluded that although the shock caused by the fish does not produce sparks or express phenomena of attraction and repulsion (as occurred with static electricity studied at the time), the numbness caused by torpedoes in their preys, in the hands of fishermen and scholars was an electrical phenomenon of the same nature as manifest in the atmosphere or the bottle of Leyden.

Key words: Lazzaro Spallanzani, electric fish, torpedo, animal electricity, numbness.

Capítulo 3 As investigações de Lazzaro Spallanzani acerca do fenômeno do entorpecimento causado pelos torpedos ................................................................

3.1 As viagens naturalísticas entre 1780 e 1781 ....................................................................................................................

3.2 A viagem ao Mar Adriático em 1782 ....................................................................................................................

3.3 A carta endereçada ao Marquês de Lucchesini ..................................... 74

Conclusão. ....... .......................................................................................................... 82

Bibliografia ............................................................................................................... 87

Anexo ......................................................................................................................... 95

Introdução

O entorpecimento causado por certos tipos de peixes nas suas presas, nas mãos dos pescadores e dos estudiosos era conhecido desde a Antigüidade. A palavra torpedo deriva do latim torpidus e significa torpor ou dormência^1. No entanto, estudos mais sistemáticos acerca do fenômeno são encontrados entre os textos publicados no século XVII e XVIII^2. No século XVIII, além do torpedo conhecido também em português por tremelga, foram estudados, no mesmo período, outros tipos de peixes que igualmente causavam entorpecimento como a enguia torporífica também conhecida como enguia do Suriname, encontrada no Suriname, América do Sul e o peixe trêmulo, um tipo de bagre de água doce encontrado no Senegal, África Ocidental Desta forma, no cenário do final do século XVIII, principalmente na Europa, havia uma rede complexa de participantes no debate sobre eletricidade. Cenário onde a ciência (eletricidade que gera faísca, luz, choque, atração e repulsão), a política (ideologia das luzes) e a sociedade (Londres, por exemplo, era iluminada por lanternas à noite) encontravam-se intimamente ligadas. Luzes e trevas percorriam todos os segmentos^3. Foi nesse clima de grande interesse pelo tema da eletricidade, pelo estudo da eletricidade dos seres vivos, em especial, nos peixes elétricos, que percorria as universidades na segunda metade do século XVIII, que Lazzaro Spallanzani (1729-1799), filósofo natural italiano, dedicou-se também ao estudo do fenômeno do entorpecimento com torpedos.

(^1) “Florida Museum of Natural History,” Online [home Page on-line]; disponível em http://www.flmnh.ufl.edu/fish/Gallery/ (^2) Sérgio Luiz Bragatto Boss e João José Caluzi, “Os conceitos de eletricidade vítrea e eletricidade resinosa; Internet; acessado em 20 de novembro de 2008. segundosbfisica.org.br/rbef/pdf/070404.pdf (acessado em 20 de novembro de 2008). Du Fay,” Revista Brasileira de Ensino de Física 20, no. 4 (2007), 635, http:// (^3) Patrícia Fara, An entertainment for Angels: Electricity and Enlightenment (New York: Columbia University Press, 2002), 11.

fundamentassem sua posição final frente ao fenômeno do entorpecimento causado pelos torpedos. Um último objetivo, se Spallanzani estabeleceu relação direta do fenômeno com o movimento e a locomoção ou com a economia desses animais. Apresentaremos, no capítulo 1, as explicações sobre o fenômeno do entorpecimento causado por certos tipos de peixes nos seres vivos, dando ênfase aos estudos que surgiram no início do século XVIII. Em seguida, descreveremos as investigações acerca da eletricidade que atualmente referem-se à eletricidade estática e que estavam sendo realizadas quase na mesma época, para verificarmos quais eram os argumentos utilizados por alguns dos autores que buscavam similaridades entre os dois fenômenos,, o elétrico e do dos peixes. Finalizaremos apresentando os principais autores que buscavam semelhanças e diferenças entre o fenômeno dos peixes e o fenômeno elétrico e os seus principais argumentos. Para demonstrarmos a importância dessa carta publicada por Lazzaro Spallanzani, faremos, no capítulo 2, um estudo procurando focalizar, dentro de sua obra, as atividades realizadas à época da publicação a fim de destacarmos a sua compreensão, como professor de História Natural da Universidade de Pavia e responsável pelo já famoso e muito visitado Museu de História Natural, a respeito do estudo de história natural, nesse momento de sua carreira. Apresentaremos os estudos de Lazzaro Spallanzani à respeito do tema no capítulo 3, onde faremos a análise do relato da suas viagens naturalísticas na região do Mar Mediterrâneo nos anos de 1780 e 1781; de sua viagem ao Mar Adriático, em 1782^7 e da carta publicada em 1783, dirigida ao Marquês de Lucchesini. Na conclusão, explicitaremos a nossa análise e responderemos a questão proposta no título, ou seja, apresentaremos as noções de Lazzaro Spallanzani sobre eletricidade e

(^7) Lazzaro Spallanzani, “Storia naturale del maré,” I e II in Opere edite non direttamente dall’Autore (1999) , Parte Quinta (Modena, Mucchi Editore, 2005). , ed. Paola Manzini e Paolo Tongiorgi, Edizione Nazionale delle opere di Lazzaro Spallanzani

eletricidade no estudo dos seres vivos; os fundamentos e a sua posição final em relação ao fenômeno do torpedo; o diálogo que travou com os seus contemporâneos a partir de suas próprias observações e experiências para responder se o torpedo era um peixe elétrico.

1.1 Histórico das explicações sobre o entorpecimento causado por certos tipos de peixes

No diálogo entre a personagem Ménon, o discípulo, e o filósofo grego Sócrates (469 - 399 a.C), o filósofo grego Platão (428-348) nos mostra que, desde a Antigüidade, já havia o conhecimento da existência de peixes que causam entorpecimento. Ménon compara Sócrates com o torpedo porque ele, assim como o peixe elétrico, entorpece e paralisa o adversário com suas perguntas e comentários:

Sócrates, eu que havia dito, antes mesmo de reencontrá-lo, que tu não fazes nada mais do que confundir-me e confundir aos demais. E digo agora, a impressão que tu me dás, tu me enfeitiças, tu me drogas; eu sou, simplesmente, vítima de teus encantamentos, e fico completamente confuso! Aliás, tu causas em mim o efeito, para brincar um pouco, por parecer tanto pelo teu aspecto exterior quanto pelo restante, a uma raia torpedo, o peixe achatado do mar. Tu sabes bem que a cada vez que nos aproximamos de uma raia e a tocamos quando mergulhamos, por causa dela, entramos num estado de torpor! Ora, eu tenho a impressão que tu me pões em tal estado. Visto que, eu estou tão entorpecido quanto a minha boca, que eu não consigo te responder^10.

Claudius Galenus notou que havia uma similaridade entre o efeito do peixe e o caráter frio do animal e aconselhava o consumo da sua carne para esfriar o organismo de acordo com a lógica terapêutica que se inseria na doutrina médica clássica, baseada nos quatro humores (sangue, bile amarela, negra e fleugma) 11 que por sua vez estavam relacionados aos quatro elementos (fogo, ar, terra e água) de que era constituída a matéria dos seres (^10) Platão, Oeuvres Completes, Gorgias-Ménon Tomo III, 2ª parte, trad. Alfred Groiset e Louis Bodin (Paris: Societé d‟édition “Les Belles Lettres”, 1923), 248 (^11) Marco Piccolino, The – 80b. taming of the Ray , (2003), http://web.unife.it/utenti/marco.piccolino/Epistem2007/Engl/texts/Walsh_Volta.pdf2008). (acessado em 21 de maio de

físicos segundo Aristóteles (384-322 a. C), filósofo grego, e cada qual com os dois pares de qualidades opostas (seco e frio para terra, seco e quente para o fogo, úmido e frio para água e quente e úmido para o ar). Mais tarde, citado por Claudius Galenus, um outro médico romano, do tempo do imperador Claudius chamado Scribonius Largus em seu livro Compositiones , escrito provavelmente antes do ano 48 d. C, prescrevia o uso de certa raia negra com ferrão para o tratamento da gota^12. Apesar dos estudos empíricos desenvolvidos na Antiguidade, por muito tempo ainda, pode-se falar que o fenômeno foi tido como fabuloso. Até que os naturalistas do século XVII ofereceram testemunhos da sua veracidade e passaram a observar, descrever e ilustrar tanto a anatomia externa quanto a anatomia interna dos peixes elétricos, em particular, dos torpedos. Mais do que isso, começaram também a procurar a origem e a explicação para o fenômeno. Em 1671, Francesco Redi (1626-1697), naturalista italiano, escreveu ao jesuíta Atanásio Kircher (1601-1680):

É uma coisa muito comentada pelos escritores que os peixes marinhos chamados de torpedos causam entorpecimento ao serem tocados; eu fiz a prova mais de uma vez, só para certificar-me de tal verdade e depois poder falar com certeza da ciência. Alguns pescadores trouxeram-me um peixe fresco e ao tocá-lo e apertá-lo, a minha mão começou a formigar, depois o braço e todas as costas com um tremor incômodo e uma dor aflitiva no cotovelo que foi necessário que eu retirasse a mão, embora quisesse obstinadamente continuar a tocá-lo por mais tempo^13.

(^12) Barry Baldwin, “The career and work of Scribonius Largus,” http://rhm.koeln.de/pdf/135_RhM/04_RhM135- 1_Baldwin,pdf (^13) Francesco Redi, (acessado em 26 de novembro de 2008). Esperienze intorno a diverse cose naturali e particolarmente a quelle che son portate dall’Indie, scritte em uma Lettera Al Padre Atanasio Chircher della Compagnia di Gesú 1671), 15, www.francescoredi.it, editor responsável Walter Bernardi (acessado em 06-setembro de 2008). (Firenze: All‟Insegna

Como se sabia, os pescadores sofriam com o entorpecimento e dor causados pelos peixes. Sobre o fato, Lorenzini explicitou:

Suponho por princípio que o nosso corpo não possa ser alterado pelo prazer ou pela dor, se não por meio de outro corpo que o toque externamente, ou se infiltre dentro dele; e esta suposição é bem comentada e tida como verdadeira pelos seguidores da melhor filosofia^17.

Este autor afirmou, então que, no momento da comoção. o peixe emitiria inúmeros corpúsculos diminutos com grande violência, os quais seriam responsáveis pela produção do entorpecimento e da dor, na medida em que penetravam profundamente nos tecidos da presa, dos pescadores ou dos experimentadores: “Suponho ainda que o entorpecimento, ou a dor, ocasionada pelos torpedos são provenientes de muitos corpúsculos, os quais saem do torpedo e entram na mão daqueles que o tocam^18 ”. Em 1714, alguns anos mais tarde, Réaumur interessou-se por saber sobre a veracidade do fenômeno; assim, começou lendo tudo o que foi publicado a esse respeito e assim descreveu as explicações de Redi, Perrault^19 , Lorenzini e de Borelli:

Há duas interpretações diferentes [...] que o efeito produzido pelo torpedo , depende de uma infinidade de corpúsculos que fluem continuamente do peixe, mas que fluem mais abundantemente em certas circunstâncias do que em outras. É, geralmente, a opinião mais aceita e adotada por Redi, Perrault e Lorenzini^20.

(^1718) Ibid_._ , 113. 19 Ibid., 113.Claude Perrault (1613-1688), médico, naturalista e arquiteto francês. (^20) René Antoine Ferchault Réaumur. “Des effets que produit le Poisson appelé em François Torpille, ou Tremble, sur ceux qui le touchent; Et de la cause dont ils dependent,”novembro de1714), 349. Mémoires de l’Academie Royale , (14 de

A segunda explicação é de Boreilli [...] ela está mais ao gosto dos mecanicistas; para ele a emissão de corpúsculos é imaginária: ele diz que quando se toca o peixe, ele se agita e desfere um golpe violento, que causa sobre a mão que o toca um entorpecimento doloroso 21. Réaumur também realizou diversas experiências sobre o fenômeno e não adotou nem a idéia corpuscularista e nem a idéia das vibrações ou concussão. Atribuiu a propriedade do peixe em causar entorpecimento a um fenômeno mecânico: ao apertar o corpo do peixe, seria o rapidíssimo movimento dos músculos em forma de foice, mostrados na figura 1, que provocariam o abalo ou golpe e assim, os efeitos na presa ou na mão dos pescadores e dos experimentadores: Depois de bem observar o Torpedo, eu pude conhecer precisamente o instante em que ele iniciava a produção do entorpecimento [...]. Pareceu-me que, ao mesmo tempo, eu havia adivinhado todo o mistério de onde provinha sua virtude [...] eu notei que enquanto ele não se prepara para produzir entorpecimento naqueles que o tocam, seu dorso mantém a convexidade que lhe é natural; mas quando ele se dispõe a agir [...] ele aplaina essas partes; algumas vezes até, de convexas elas se tornam côncavas.[...] o golpe está próximo; o braço se entorpece; os dedos que pressionavam o Peixe são obrigados a soltá-lo; toda a parte do animal que estava plana, volta a ser convexa. [...] ele se torna convexo tão subitamente que não se percebe de modo algum a passagem de um estado a outro. Talvez o movimento de uma bala de um mosquete seja tão rápido que o das carnes que retornam à sua primeira situação [...] É desse golpe súbito que nasce o entorpecimento que abala o braço^22.

(^2122) Ibid. touchent; Et de la cause dont ils dependent,” 350.Réaumur, “Des effets que produit le Poisson appelé em François Torpille, ou Tremble, sur ceux qui le

mais adiante, quem contestou a hipótese de Réaumur. Além dele, apenas Spallanzani, na carta publicada, afirmou que investigava a explicação de Réaumur. A fim de analisarmos os estudos e possíveis contestações à hipótese de Réaumur do terço final do século XVIII, passamos a descrever, a seguir, o que se sabia acerca dos fenômenos elétricos.

1.2. Histórico das investigações acerca do fenômeno elétrico

Todo o desenvolvimento do conhecimento sobre os fenômenos elétricos do século XVIII revela-se importante e significativo de tal forma que não poderia ser estudado em poucas páginas. Por isso, foi necessário que escrevêssemos apontamentos de caráter mais breve que servissem para descrever aqueles que podiam ser comparados com o fenômeno dos peixes. O trabalho intelectual desenvolvido no século XVIII também não prescindiu das observações acerca da virtude elétrica que ocorreu em períodos anteriores. Neste capítulo, serão mencionados aqueles que estiveram, de alguma forma, relacionados ao fenômeno dos peixes. Por exemplo, além do choque estiveram relacionadas as seguintes propriedades elétricas: atração e repulsão de outros corpos, produção de faíscas, estalos ou cheiro característico e condução ou não através de diferentes materiais. Os antigos gregos já conheciam a propriedade de atração de alguns corpos sobre outros corpos que era manifestada pelo âmbar e pela magnetita. O elektron ou âmbar foi citado por Platão: “ a maravilhosa atração que possuem o âmbar e a pedra de Herácles^23 ”. A magnetita era um mineral de ferro, encontrado na Magnésia, Ásia Menor. Segundo Aristóteles (384-322), Tales de Mileto (624-548) teria tido conhecimento do magneto: “E também Tales, (^23) Platão, Timeu – Crítias – O Segundo Alcebíades – Hípias Menor , trad. Carlos Alberto Nunes (Belém, EDUFPA, 2001), 130, XXXVII – 80-c.

segundo o que dele se lembra, parece supor que a alma é algo capaz de mover, se é que disse que magneto tem alma porque move o ferro^24 ”. A explicação para esse fenômeno era que a alma causava o movimento espontâneo que estes corpos imprimiam a outros corpos. Essas idéias perduraram até que o estudo dessas virtudes [elétricas] dos corpos começou a se sistematizar no século XVII. Em 1600, William Gilbert (1540-1603), médico da rainha da Inglaterra, Elisabeth I, publicou o tratado Do imã, dos corpos magnéticos e do grande imã onde comparou a Terra a um grande ímã^25. Para verificar se grandes massas podiam mesmo atrair como um ímã, Otto Von Guericke (1602-1686), filósofo natural alemão, construiu uma máquina descrita na obra Experimenta Nova, publicada em 1672. Tratava-se de uma esfera feita de certos minerais fundidos para imitar o que ele julgava ser a composição do planeta Terra. Para imitar o movimento de rotação, fixou essa esfera que, mais tarde, seria de enxofre puro, num eixo horizontal provido de manivela como se vê na figura 2. Ao rodá-la, a esfera podia ser atritada com as mãos e assim podia repelir uma pena^26.

(^2425) Aristóteles, De Anima , trad.Cecília Gomes dos Reis (São Paulo, Ed. 34, 2006), 405a13, 53. cap1.pdfEwaldo L. M. Mehl, “Fundamentos da Eletricidade,” (acessado em 27 de novembro de 2008).^ http://www.eletrica.ufpr.br/mehl/downloads/circuitos- (^26) Ibid.