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Volume 9, Notas de estudo de Biologia

Tras diversos assuntos sobre adubação organica, a Lazzaro Spallanzani e a geração espontânea: os experimentos e a controvérsia entre outros artigos

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 05/03/2013

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Volume 9(1)

ib.usp.br/revista

Dezembro 2012

Expediente

Editor Executivo

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Editor científico

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Editores gráficos

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Leonardo M. Borges

Revista da Biologia

Publica textos de todas as áreas da

Biologia, abordando questões gerais

(ensaios e revisões) e específicas (artigos

experimentais originais, descrição de

técnicas e resumos expandidos).

Há espaço também para perspectivas

pessoais sobre questões biológicas com

relevância social e politica (opinião).

A Revista da Biologia é gratuita e

exclusivamente on-line. Sua reprodução é

permitida para fins não comerciais.

ISSN1984-

www.ib.usp.br/revista

Foto da capa: Neurônio em cultura, autor Gerry Shaw.

Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Neuron_in_tissue_culture.jpg

Contato

[email protected]

Revista da Biologia

Rua do Matão, trav. 14, 321

Cidade Universitária, São Paulo

São Paulo, SP Brasil

CEP 05508-

Volume 9(1) Publicado em dezembro de 2012

Artigo

Revista da Biologia (2012) 9(1): 1-

DOI: 10.7594/revbio.09.01.

Adubação orgânica e teores de nutrientes

no capim-limão

Organic fertilization and accumulation of nutrients in lemon grass

Elisangela de Souza Cunha1, Denise da Silva Martins*^2 , Geizi Jane Alves de Carvalho 3 , José Antonio Azevedo Espindola^4

1 Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ

2 Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia, IFRJ

3 Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro, FAETEC

4 Embrapa Agrobiologia

Recebido 11out Aceito 27jun Publicado 27dez

Resumo. O capim-limão (Cymbopogon citratus (D.C.) Stapf ) é uma gramínea utilizada para fins medicinais. O estudo teve como objetivo avaliar o efeito da adubação orgânica no teor e acúmulos de nutrientes (Potássio, Nitrogênio, Fósforo, Cálcio e Magnésio) pelo capim-limão. Foram testadas quatro doses de adubo de esterco bovino (5, 10, 15, 20 t/ha), em dois períodos (chuvoso e seco). A análise de variância demonstrou diferenças significativas quanto aos teores e acúmulos de alguns nutrientes durante os dois períodos avaliados. Palavras-chave. Fertilização; Minerais; Plantas medicinais.

Abstract. Lemon grass (Cymbopogon citratus (D.C.) Stapf ) is an important plant used for medicinal purposes. The present study aimed to evaluate the effect of the organic fertilization on the contents and accumulations of nutrients (K, N, P, Ca and Mg), possibilitating better knowledge about the cultivation of lemon grass in Brazil. Four doses of organic fertilizer were tested (5, 10, 15, and 20 t/ha), in two different periods (rainy and dry seasons). The analysis of the variance demonstrated significant differences in relation to the contents and accumulation of some nutrients during the two evaluated periods. Keywords. Fertilization; Minerals; Medicinal plants.

Contato do autor: [email protected]

Introdução

O capim-limão (Cymbopogon citratus (D.C.) Stapf) é uma planta medicinal e aromática, originária da Índia e perten- cente à família Poaceae. Em virtude das condições climá- ticas do Brasil serem semelhantes as da Índia essa espécie dispersou e aclimatou por todo o território (Gomes e Ne- grelle, 2003). Em geral, o estado nutricional de uma planta é bem refletido pelo teor de nutrientes minerais nas folhas de forma mais evidente do que em outros órgãos e assim, a análise foliar pode ser utilizada como uma ferramen- ta para o diagnóstico do estado nutricional das plantas (Borges e Caldas, 2003; Espelho et al., 2007). Além disso, a análise foliar tem sido bastante útil nas recomendações de adubação, devido ao fato do teor do nutriente na planta ser resultante da ação e interação de fatores que afetam a sua disponibilidade no solo e na absorção pela planta (Portz et al., 2006). A adubação orgânica foi muito utilizada no passado, mas com o advento dos adubos químicos o interesse pelos fertilizantes orgânicos diminuiu. Atualmente, a preocupa- ção com a degradação ambiental renovou o interesse pelo

uso da matéria orgânica, buscando atender os princípios da agricultura sustentável (Silva et al., 2004). Permitiu-se desta forma a melhoria de certas propriedades do solo, tais como: aumento da atividade biológica do solo, favorecen- do a ciclagem de nutrientes; o controle de pragas e doen- ças; a retenção de água; e os controles mais eficientes da erosão, evitando o desperdício de fertilizantes ou deficiên- cias nutricionais ao longo do seu ciclo (Silva et al., 2003). O cultivo do capim-limão é mundialmente estuda- do, entretanto, poucas são as informações disponíveis re- lativas aos aspectos agronômicos. Há necessidade de estu- dos que revelem o comportamento dessa espécie medici- nal quando submetida às técnicas de produção sem afetar o valor terapêutico da planta, considerando-se o fato que os princípios ativos podem sofrer alterações conforme as técnicas de cultivo (Duarte e Zaneti, 2004). As pesquisas no âmbito nacional acerca da adubação orgânica e teor de nutrientes do capim-limão são ainda insuficientes. Diante deste quadro, o presente estudo teve como objetivo avaliar o efeito da adubação orgânica no teor de nutrientes fornecendo subsídio para um melhor conhecimento do cultivo do capim-limão no Brasil.

2 Cunha et al.: Teor de nutrientes no capim-limão

Métodos

Este estudo foi conduzido na área experimental da Esco- la Técnica Estadual Agrícola Antônio Sarlo, em Campos dos Goytacazes, RJ (21º45’S, 41º20’W e aproximadamente 11m de altitude), cujo clima é tropical chuvoso com pre- cipitação média anual de 1023 mm e temperatura média anual de 23ºC (Oliveira Júnior et al., 2006). O solo da área experimental é classificado como Argissolo Vermelho Amarelo Distrófico (Embrapa, 1979). A análise quími- ca na profundidade de 0-20 cm apresentou os seguintes resultados: pH em água=5,2; Alumínio=0,2 cmolc/dm 3 ; Cálcio=1,8 cmolc/dm 3 ; Magnésio=1,1 cmolc/dm 3 ; Fósfo- ro= 5mg/dm^3 ; Potássio= 36mg/dm^3. Foram coletadas 30 mudas de capim-limão (Cym- bopogon citratus) de uma única touceira em abril de

  1. O plantio foi feito no mesmo mês da coleta (abril de 2001), sendo as mudas submetidas a quatro doses de adubo orgânico (5, 10, 15, 20 t/ha) e o controle sem adição de adubo orgânico (seis mudas por tratamento). Na área experimental foram abertas covas de 20 cm de profundi- dade, com espaçamento de 0,70 x 0,70 m para o plantio. O adubo orgânico em estudo foi esterco bovino com a seguinte composição química: matéria orgânica=56,8%; Nitrogênio=1,72%; Fósforo=0,42%; Potássio=1,17%. O capim-limão foi coletado no período de novembro de 2001 (período seco) e janeiro de 2002 (período chuvoso). O experimento, delineado em blocos ao acaso com seis repetições, consistiu de quatro tratamentos: quatro formas de adubação orgânica, além do controle sem adu- bação, e em dois períodos. A adubação ocorreu no mo- mento do plantio e outra, cerca de três meses depois com as mesmas doses anteriormente utilizadas. As mudas foram irrigadas diariamente com aproximadamente três litros de água até o mês de novembro de 2001, quando se realizou a coleta do período seco. Em todas as coletas o corte foi feito na altura aproximada de 20 cm acima do solo. As folhas coletadas em cada período foram secas em estufa, à temperatura de 60ºC, durante 72h. Depois de seco, o material vegetal foi triturado em moinho de facas, para posteriormente determinar a massa seca e o teor dos nutrientes. Para análise de Potássio e Fósforo nas amostras da parte aérea utilizou-se digestão nitro-perclórica (Bata- glia et al., 1983). A determinação de Nitrogênio foi feita em analisador Kjeltec Auto Sampler (Tecator) de acordo com as recomendações de Bremner e Mulvaney (1982), a do Potássio foi realizada por fotometria de chama. O procedi- mento para a análise do Fósforo foi feito por colorimetria a partir da formação da cor azul no complexo fosfato-moli- bdato em presença de ácido ascórbico. Já as determinações de Cálcio e Magnésio foram feitas por espectrofotometria de absorção atômica (Bataglia et al., 1983). Os resultados foram submetidos à análise de variân- cia e comparados pelo teste de média de Tukey a p<0,05. Foram realizados testes de significância de regressão po- linomial entre coletas e correlação linear entre as caracte- rísticas, utilizando o programa SAS System para Windows 6.12 (1998).

Resultados

O teor de Nitrogênio na parte aérea das plantas de capim- -limão aumentou na época seca comparado com a época chuvosa, enquanto os teores de Potássio, Fósforo e Mag- nésio se mantiveram estáveis nas duas épocas (Figura 1).

Figura 1. Teores de nutrientes na parte aérea das plantas de ca- pim-limão no período seco e chuvoso (média de todas as doses de adubação).

Verificamos que na época seca o teor do nutriente Nitrogênio na parte aérea do capim limão apresentou-se mais elevado em relação aos outros nutrientes. Foram comparados os nutrientes entre si em cada dose de adu- bo, mostramos que na época chuvosa, somente o teor de nutriente Potássio apresentou um aumento significativo em resposta à adubação, comparado aos teores dos outros nutrientes que não apresentaram alterações significativas (Tabela 1). Em relação ao acúmulo de nutrientes não houve efeito das diferentes doses de adubo orgânico, exceto para o Nitrogênio no período chuvoso (Tabela 2). A partir da equação de regressão entre dose de ester- co aplicada (X) e o Nitrogênio acumulado na parte aérea (y = -0,2857x 2 + 7,6903x + 80,734r^2 = 0,7094; p ≤ 0,05), é possível verificar que a dose de esterco capaz de propor- cionar maior acúmulo de Nitrogênio na parte aérea do capim limão foi 12,8 t/ha (Figura 2).

Discussão

Não houve diferenças (p<0,05), nos teores de nutrientes, com exceção de Nitrogênio, entre as doses de adubo orgâ- nico (0, 5, 10, 15 e 20 t/ha), das partes aéreas de capim-li- mão nos períodos seco e chuvoso. No entanto, em média, o período seco foi o que proporcionou os maiores teores de nutrientes. Estes teores de nutrientes são considerados adequados para algumas gramíneas e, os resultados cor- roboram com as afirmativas de Espelho et al. (2007), ao indicar que as faixas adequadas dos teores (g/kg) em gra- míneas são: Nitrogênio (12-15), Potássio (10-15), Cálcio (3-6), P (0,8-1,2) e Magnésio (1-2). Em relação às doses de adubo orgânico foi possível verificar que a dose 15 t/ha foi capaz de proporcionar maior teor do nutriente Nitrogênio (21,4g/kg) na parte aérea do capim-limão, no período seco. A dose 10 t/ha no período

4 Cunha et al.: Teor de nutrientes no capim-limão

Fósforo (chuvoso). Os resultados de Primavesi et al. (2006) corroboram com os resultados obtidos à sequência de teor de nutrientes em espécies de gramínea, porém utilizando adição de doses de Nitrogênio no solo. Em relação ao acúmulo do Nitrogênio na análise de variância, evidenciou-se diferenças significativas (p>0,05) entre as doses de adubo orgânico (0, 5, 10, 15 e 20 t/ha) das partes aéreas de capim-limão no período chuvoso. (Tabela 2). Comparando o acúmulo de nutrientes, pode- mos observar diferenças entre os períodos. No presente estudo, encontramos que os maiores acúmulos (kg/ha) de nutrientes na época seca e chuvosa, respectivamente, foram do Nitrogênio e Potássio, sendo o Fósforo e Magnésio os nutrientes que apresentaram os menores acúmulos. Braz et al. (2004) verificaram, em três espécies de gramíneas: milheto (Pennisetum glaucum), capim braquiária (Brachiaria brizantha) e mombaça (Pa- nicum maximum), o acúmulo dos nutrientes Nitrogênio, Potássio, Cálcio, Fósforo e Magnésio nas folhas em fun- ção dos dias após a emergência da planta. Para o capim mombaça os acúmulos máximos também foram de Nitro- gênio, Fósforo e Potássio e ocorreram entre 71 e 77 dias de cultivo, atingindo valores de 180 kg/ha, 16 kg/ha e 164 kg/ha, respectivamente, superiores aos encontrados para milheto. Silva et al. (2003) encontraram valores de 221, kg/ha para Nitrogênio e 274,6 kg/ha para Potássio, como as quantidades desses nutrientes restituídas ao solo pelo milheto coletado aos 55 dias de cultivo. Na época chuvosa, observamos que o acúmulo de Nitrogênio na parte aérea das plantas de capim-limão aplicadas com esterco bovino de 15 t/ha apresentou maior resposta. Quando a aplicação foi de 20 t/ha, verificou-se queda na quantidade de Nitrogênio acumulado. Encon- trou-se aumento significativo de Potássio e Nitrogênio acumulados na parte aérea de capim-limão. A diminuição do acúmulo de Nitrogênio observado na adubação de 20 t/ha pode ser ocasionada pela elevação na concentração de sais dissolvidos no solo, levando uma menor disponi- bilidade de água para a planta. É importante ressaltar que o Nitrogênio é o cons- tituído de aminoácidos e nucleotídeos, sendo o principal nutriente para a obtenção de produtividades elevadas em culturas anuais. Nas oleaginosas, o Nitrogênio determina o equilíbrio nos teores de proteínas acumuladas e produ- ção de óleo, já que influencia o metabolismo de síntese de compostos de reserva nas sementes. Quando adubado com Nitrogênio em grandes quantidades, eleva os teores do nutriente nos tecidos e reduz a síntese de óleos, favo- recendo a rota metabólica de acúmulo de proteínas nos aquênios (Castro et al., 1999). A baixa disponibilidade de Potássio no solo pode causar redução da produtividade e diminuição gradativa na taxa de crescimento das plantas. Quando a deficiência é mais severa, os sintomas se iniciam com mosqueado ama- relado nas bordas das folhas da parte inferior da planta, essas áreas cloróticas avançam para o centro das folhas, tornando-se necrótica nas bordas, perdendo rigidez na planta e prostrando-se facilmente em casos mais severos (Castro e Oliveira, 2005).

Conclusões

Os valores apresentados podem estar relacionados a di- versos fatores tais como: as condições de temperatura e precipitação pluviométrica que são mais favoráveis ao de- senvolvimento do vegetal. A análise foliar é uma ferramenta adequada para avaliar o estado nutricional da cultura do capim-limão. Dentre os nutrientes, os maiores teores e acúmulos ocor- reram para o Nitrogênio e o Potássio, e os menores, para o Fósforo e o Magnésio. Os teores e acúmulos dos nutrientes não apresenta- ram diferenças significativas, em relação às diferentes do- ses de adubos orgânicos comparando com os valores dos controles, exceto para o teor de Potássio e o acúmulo de Nitrogênio. Foi observado maior teor de nutrientes na parte área do capim-limão no período seco e maior acúmulo no pe- ríodo chuvoso.

Agradecimentos

Laboratório de Plantas Medicinais da Universidade Esta- dual do Norte Fluminense, Laboratório de Solos da Em- brapa Agrobiologia e Escola Técnica Estadual Antônio Sarlo/FAETEC.

Referências

Bataglia OC, Furlani AMC, Teixeira JPF, Gallo JR. 1983. Métodos de análise química de plantas - Boletim técnico

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Dimorphandra mollis Benth., é usada para a extração da rutina (Cunha, 2009; Gonçalves et al, 2010). Nos últimos dez anos, árvores de fava d’anta (D. gardneriana) apresentaram inibição do crescimento da vassoura-de-bruxa, redução das folhas e amarelamento nos Estados do Ceará e do Maranhão, o mesmo foi verifi- cado com D. Mollis (Montano et al, 2007). Devido à ameaça de extinção, existe preocupação com a sobrevivência e manutenção de D. mollis e D. gard- neriana, uma vez que são utilizadas comercialmente ape- nas através do extrativismo (Souza e Martins, 2004). A fim de tomar medidas adequadas para ajudar na conservação de germoplasma de Dimorphandra gardne- riana, é necessário dispor de informações sobre a estru- tura genética das populações, bem como a variabilidade entre populações. Uma das ferramentas utilizadas para esse fim são marcadores moleculares que permitem in- ferências sobre a diversidade genética entre e dentro das populações (Schötterer, 2004; Schulman, 2007; Huang et al, 2009). Uma das principais propostas para a conservação é o envolvimento direto da comunidade no uso sustentável, não unicamente pelo seu conhecimento local, que repre- senta um forte elo nos debates a respeito da utilização dos recursos naturais, mas pelas técnicas de plantio, manejo e proteção das espécies de seu meio, e também pela herança cultural de cada comunidade que foi construída ao longo de muitos anos (Martin, 1994; Ramamurthy, 1998; Van Staden, 1999; Diegues, 2000; Rai et al, 2000; Maikhuri et al, 2003; Hamilton, 2004). O presente levantamento bibliográfico, contemplan- do uma abordagem ampla de Dimorphandra gardneriana, foi realizado baseado na sua importância para a chapada do Araripe como fonte de renda para população local e diante dos riscos de extinção dessa espécie devido ao ex- trativismo desenfreado.

Métodos

Este estudo constitui-se de uma revisão de literatura espe- cializada, em que se utilizou sites de busca Scielo, Biomed Central, Domínio Público, Portal de periódicos da CAPES e da URCA, PubMED Central e Biblioteca Digital Brasi- leira de Teses e Dissertações, utilizando os seguintes des- critores: Dimorphandra, Dimorphandra gardneriana, Fava d’anta.

Aspectos Botânicos

O gênero Dimorphandra Schott (Fabaceae) pertence à tribo Caesalpinieae e é formado por três subgêneros: (1) Dimorphandra com onze espécies; (2) Phaneropsia com cinco espécies e (3) Pocillum com dez espécies e quatro subespécies (Silva, 1986). As espécies do gênero são todas lenhosas, em geral de porte arbóreo, incluindo desde árvores de médio porte de 3 a 7 m de altura até árvores gigantescas de 30 a 50 m de altura. O caule é em geral cilíndrico, ereto, podendo ser delgado e tortuoso nas espécies do cerrado e em algumas

típicas das campinas ou caatingas da Amazônia. A casca do fuste em geral é lisa, finamente escamosa e persistente, em contraste com as espécies do cerrado como D. gardne- riana e D. mollis que apresentam casca grossa. As folhas são alternas, bipinadas ou multipinadas, pecioladas, com as margens menos revolutas ou, na maioria das vezes, pla- na e com menor número de pinas nas folhas, como en- contradas em D. gardneriana (Silva, 1986); as formas dos folíolos são variáveis, podendo ser oblongas, ovadas ou arredondadas ou, ainda, como em D. gardneriana, cujos folíolos são maiores e menos pilosos que em D. mollis (Sil- va, 1986). A inflorescência é uma panícula com espigas curtas. O fruto é um legume indeiscente como observado em D. mollis (Ferreira et al, 2001) e D. gardneriana, sen- do achatado, com coloração variando de marrom-escuro a quase negro, opaco, de superfície irregular, rugoso, com ápice e base arredondados, bordo irregular, lenhosos (seco), com 9,2 a 18,5 cm de comprimento e 2,4 a 3,5 cm de largura e espessura variando de 0,8 a 1,3 cm; pedúnculo persistente de consistência lenhosa. Apresenta pericarpo bem distinto quando aberto, epicarpo fino e mesocarpo de consistência farinácea, macia, marrom-escuro; endocarpo esbranquiçado amarelado. Tem odor forte e adocicado (Ferreira et al, 2001). Dimorphandra gardneriana apresenta folhas bipina- das, compostas, com 5-8 jugas formadas de 10-20 jugos de folíolos largos-ovados, medindo cada uma de 3 a 4 cm, glabros na face superior e mais ou menos ferrugíneo-to- mentosos na inferior. Flores sésseis dispostas em espigas corimbiformes; os frutos são vagens que contêm glicosí- deos flavônicos, principalmente a rutina, compridos, me- dindo até 15 cm de comprimento, muito procurado pelo gado (Corrêa, 1984). D. gardneriana Tul. e D. mollis Benth., popular- mente conhecidas como faveira ou fava d’anta, perten- centes à família Leguminosae, são árvores pequenas que habitam os cerrados. D. mollis é encontrada em Minas Gerais, São Paulo e Goiás, enquanto que D. gardneriana é uma espécie regional dos Estados do Maranhão, Bahia, Piauí e Ceará (Cunha et al, 2009; Vieira, 2003). No esta- do do Ceará, D. gardneriana foi registrada na Unidade de Conservação Floresta Nacional do Araripe (CE) por Cos- ta et al(2004) e Costa et al(2007).

Estudos fitoquímicos e farmacológicos

Os flavonóides, biossintetizados a partir da via dos fenil- propanóides, constituem uma importante classe de poli- fenóis, presentes em relativa abundância entre os meta- bólitos secundários de vegetais(Carvalho et al, 2003). São encontrados em maior quantidade nas famílias Legumi- nosae e Compositae (Martins et al, 1994). Esse é o caso das espécies do gênero Dimorphandra (fava d’anta), cujos frutos tem concentrações considerá- veis de flavonóides, principalmente rutina e quercetina. (Sudré et al, 2011). De acordo com Hubinger et al, (2009), o teor de flavonóides pode atingir cerca de 10,25% no fru- to seco. Santos et al (2006), na caracterização de classes quí-

8 Landim & Costa: Uma revisão sobre a Fava D’anta (Dimorphandra gardneriana)

dos municípios de Crato, Barbalha, Missão Velha, Santana do Cariri, Nova Olinda e Jardim, foram identificados 768 extratores (ACB, 2005). Para extração deste flavonóide, cerca de 600 t/ano de sementes são descartadas (Cunha et al, 2009). O preço do quilo da faveira vendida pelos coletores (primeiro elemento da cadeia) é variável. Na região do Araripe, a maioria dos extrativistas vende o quilo a um preço de R$ 0,15 (quinze centavos), porém outros vendem a R$ 0,10 (dez centavos), R$ 0,12 (doze centavos) e R$ 0, (vinte centavos). É variável também entre os elementos da cadeia. Por exemplo, os atravessadores (segundo elemento da cadeia) chegam a vender o quilo a R$ 0,60 centavos. De acordo com cada coletor, a produção média por plan- ta pode variar de 21 a 40 kg por safra (quando trata de um indivíduo com grande quantidade de frutos), 10 a 20 kg (quantidade mais comumente encontrada por planta de acordo com os extratores), 41 a 80 kg e acima de 100 kg. A maioria coleta entre 1000 e 1500 kg por safra. A renda familiar em consequência da colheita de frutos de D.gardneriana pode alcançar no ano mais de 0,5 salários mínimos (ACB, 2005). As faveiras são exploradas há anos no Cerrado brasi- leiro. Apesar disso, são escassas as informações ecológicas disponíveis sobre as espécies. Essas informações concilia- das com estudos de avaliação de impacto da extração, os quais são inexistentes, sobre as populações de faveira são necessários para orientar estratégias de manejo. O mane- jo e a conservação de Dimorphandra gardneriana depen- dem, portanto, de um melhor entendimento das implica- ções ecológicas da extração de seus frutos (Silva, 2007). Segundo Gomes (1998) e Gomes e Gomes (2000), metade da produção mundial de rutina tem sido extraí- da dos frutos da fava d’anta (D. mollis e D. gardneriana) que vem sendo seriamente devastada, correndo risco de extinção. A extração desses produtos, no entanto, pode ter consequências de curto e longo prazo sobre a estrutura e função das florestas, podendo afetar a fisiologia e taxas vitais dos indivíduos, mudanças demográficas e padrões genéticos das populações, assim como alterar os processos nos níveis de comunidades e ecossistemas (Nepstad et al, 1992; Murali et al, 1996; Witjowski et al, 1996). Para determinar os possíveis impactos do extrati- vismo, é importante que sejam avaliadas não só aspectos socioeconômicos envolvidos, como também acompanhar a sobrevivência, o crescimento e a produção de ramos e de estrutura reprodutiva (Silva, 2007). Devido ao interesse pela fitoterapia em todo o glo- bo, a conservação de plantas medicinais tem recebido uma maior atenção (Dhar et al, 2000; Ministério da Saúde, 2006; Ministério da Saúde, 2007). Os problemas ligados à conservação de plantas medicinais são geralmente vistos como uma parte da estratégia de conservação da biodiver- sidade total, embora devessem receber uma maior atenção pelo fato de que diversas plantas medicinais também são oriundas de ambientes florestais, onde as comunidades lo- cais dependem diretamente das mesmas para a sua subsis- tência (Jha, 1995 ; Gera et al, 2003).

micas no extrato etanólico dos frutos de Dimorphandra gardneriana, observaram o aparecimento e a intensifi- cação de cores diversas, indicativo da presença de várias subclasses de flavonóides. Principalmente de cor verme- lha, que é indicativo da presença de flavonóis, flavanonas, flavononóis e/ou xantanas, livres ou seus heterosídeos. A principal importância econômica da faveira está relacionada ao interesse da indústria farmacêutica pelo flavonóide rutina (6 a 10%), presente nos frutos dessas espécies (Sousa et al, 1991). A rutina foi descoberta em 1936 pelo bioquímico Szent-Gyorgi e seus colaboradores (Bentsath et al, 1936). A rutina aumenta a resistência dos capilares, con- sequentemente reduzindo a permeabilidade às células sanguíneas vermelhas (Tomassini e Mors, 1966; Sousa et al, 1991; Alonso, 1998). Apresenta-se sob a forma de um pó de cor amarelo- esverdeado e tem ação benéfica diminuindo a concentração do colesterol LDL (Rodrigues et al, 2003): atuando no fortalecimento da estrutura da parede dos vasos sanguíneos; sendo usada em tratamen- to e prevenção de pequenas varizes. Essa substância, por estimular a circulação, é também usada em mesoterapia ou intradermoterapia nos tratamentos contra celulite. É empregada ainda para o preparo de cirurgias em pacien- tes afetados com icterícia. A rutina exerce uma influência benéfica sobre as hemorragias produzidas no tratamento profilático de trombose (Silva, 2007). A rutina aumenta o tônus venoso, e acredita-se que tenha associada uma ação “impermeabilizante capilar”, se- melhante à vitamina P, devido à inibição da hialuronidase. Tal ação impediria a passagem de proteínas que contribui- riam para a formação do edema (Araújo, 2003). A quercetina é outra substância extraída da faveira e de grande interesse da indústria farmacêutica. É um antio- xidante polifenólico natural, presente nos vegetais, frutas e sucos. Quimicamente, a quercetina é uma aglucona da rutina e de outros glicosídeos. É um poderoso antioxidan- te e anti-radicais livres (Filho et al, 2001). Tem atividade cardiovascular, reduzindo o risco de morte por doenças das coronárias e diminuindo a incidência de enfarte do miocárdio. Apresenta várias propriedades farmacológicas, como atividades anti-inflamatória e anti-carcinogênica, atua no sistema imunológico, tem atividade anti-viral, reduz o efeito da formação de cataratas nos diabéticos, é hepatoprotetora e gastroprotetora. Enfim, há inúmeras aplicações na medicina, principalmente nos tratamentos de problemas circulatórios e capilares (Silva, 2007).

Extrativismo versus riscos de extinção

Em 2010, a quercetina representou o sexto produto far- macêutico mais importante que foi exportado pelo Brasil, equivalente a 8,3 milhões de dólares e, nesse mesmo ano, a rutina representou cerca de 1 milhão de dólares de expor- tações (ABIQUIFI, 2010). Na região do Araripe-Ceará, a cadeia de comercia- lização de Dimorphandra gardneriana é caracterizada por extratores, corretores, atravessadores e empresa proces- sadora e exportadora (ACB, 2005). Em 22 comunidades

10 Landim & Costa: Uma revisão sobre a Fava D’anta (Dimorphandra gardneriana)

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Revista da Biologia (2012) 9(1) 13

Potência Capacidade de desenvolvimento celular Totipotentes Capazes de se dividir e produzir todas as células diferenciadas no organismo, in- cluindo os tecidos extraembrionários Pluripotentes Conseguem se diferenciar em todos os teci- dos humanos, exceto a placenta e os anexos embrionários. Multipotentes Capacidade das CT adultas para formar vá- rios tipos de células de uma linhagem. Unipotentes Capacidade de formar apenas um tipo de célula (o tecido a que pertencem) Reprogramadas CT somáticas que têm sua potência aumen- tada através de reprogramação molecular

Brasil e os primeiros passos

O Brasil tem integrado esta rede de pesquisas de forma ativa ao longo dos anos. Na América Latina, o Brasil foi pioneiro, tendo realizado em 1979 o primeiro transplante de medula óssea no país (Dóro e Pasquini, 2000). Em 2001, foi inaugurado o Primeiro Banco Privado de Células de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário do Brasil, para uso autólogo (o doador é o próprio recep- tor), sendo esta data marcante nas pesquisas com células- -tronco no Brasil, por meio da criação dos Institutos do Milênio. A importância desta data é refletida pela imple- mentação dos recursos direcionados às pesquisas. Estes institutos correspondem a uma rede virtual, patrocinada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Deste então, deu-se início às investigações de bioengenharia te- cidual, com a finalidade de desenvolver pesquisas a nível pré-clínico (com animais) no tratamento de doenças de- generativas do sistema cardiovascular, do sistema nervoso, dos ossos e das cartilagens. A partir desta iniciativa, diver- sas outras foram realizadas no intuito de inserir cada vez mais o Brasil no campo de pesquisas com células-tronco. Os acontecimentos e datas citados a seguir foram obtidos do informe técnico institucional, divulgado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia, Secretaria de Ci- ência, Tecnologia e Insumos Estratégicos e Ministério da Saúde em 2010. Em 2002, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) foi pioneiro na criação de um banco público de sangue de cordão umbilical. Em 2003 foram realizados estudos clínicos utilizan- do CT em cardiologia, nos quais 21 pacientes foram trata- dos por esta metodologia, que se baseava na injeção de cé- lulas-tronco oriundas da medula óssea (Carvalho, 2005). Desde 2004 o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia e, por intermédio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientí- fico e Tecnológico) e FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), publicou editais que previam investimentos de R$ 24 milhões em pesquisas na área. Entre as ações esti- muladas na ocasião estavam o fomento a pesquisas clíni- cas e pré-clínicas em terapia celular.

Também em 2004, o Ministério da Saúde inaugurou uma rede nacional de bancos de sangue de cordão umbili- cal (Rede BrasilCord), composta inicialmente por quatro institutos, cujo objetivo era facilitar as chances de locali- zação de doadores para os pacientes que necessitassem de transplante de medula óssea (Silva Junior et al, 2009). A Rede BrasilCord realiza tanto pesquisas pré-clíni- cas quanto clínicas, sendo estas atividades reguladas pela Portaria nº 931 de Maio de 2006 da ANVISA (BRASIL, 2006). Esta portaria regulamenta o transplante de células- -tronco hematopoiéticas (medula óssea e outros precurso- res hematopoiéticos) e estabelece os critérios técnicos de indicação desses transplantes. As doações para transplantes são voluntárias e os pacientes receptores são tratados de doenças como leu- cemias, linfomas, anemias graves, doenças congênitas, imunodeficiências, melanomas, doenças do sistema san- guíneo e da imunidade e na medicina regenerativa de di- ferentes órgãos. Em 2005 foi lançado um edital que visava à formação e o fortalecimento de grupos de pesquisa que promoves- sem o desenvolvimento de metodologias terapêuticas uti- lizando CT. Dentre os 45 projetos de pesquisa aprovados na ocasião, 11 (24%) correspondiam a pesquisas clínicas, 13 (29%) a pesquisas pré-clínicas e 21 (47%) a pesquisas básicas (conhecimentos sem a aplicação prática prevista). Quanto ao tipo celular, 87% dos projetos utilizaram CT adultas e 13%, CT embrionárias.

Cenário jurídico

Assim como os demais países, o Brasil, por questões éticas e jurídicas, tinha suas pesquisas limitadas ao uso de CT adul- tas. De 2005 a 2008, antes da liberação das pesquisas, as in- vestigações realizadas aqui faziam uso de CT embrionárias (CTE) humanas advindas de laboratórios norte-americanos. Em 2005, este cenário mudou com o artigo da Lei de Biossegurança (11.105/05), aprovada pelo Congresso Nacional, que autorizou a utilização de CTE oriundas de embriões humanos armazenados há mais de três anos em clínicas de fertilização para fins de pesquisa. Os embriões a serem utilizados eram ”inviáveis”, que por interpretação da lei, correspondiam àqueles com alterações genéticas comprovadas. Portanto, seriam aproveitados somente os que não seriam usados para fins reprodutivos, após os procedimentos de diagnóstico (Avelino e Diniz, 2009). Em maio de 2008 o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou a liberação das pesquisas com CTE humanas, considerando constitucional e legalizando, assim, as pes- quisas (Del Cerlo, et al, 2009). Neste atual contexto de li- beração das pesquisas, o Sistema Nacional de Embriões (SisEmbrio) tem um importante papel no censo de embri- ões congelados em clínicas reprodutivas no Brasil (Diniz e Avelino, 2009). Com a aprovação do STF, os grupos de pesquisa bra- sileiros nessa área têm aumentado. Segundo censo reali- zado pelo CNPq no ano de 2008 existiam, na ocasião, 102 linhas de pesquisa e 91 grupos de investigação em células- -tronco. A partir destes estudos, até o referido ano, foram

Tabela 1. Graus de potência das células-tronco (Jaenisch e Young, 2008).

14 Aragão & Bezerra: Brasil e as células-tronco

produzidos 1.525 artigos científicos sobre o assunto. Até então, existiam 276 pesquisadores cadastrados nesta linha de pesquisa e 314 estudantes envolvidos. Em 2009 foi criada a Rede Nacional de Terapia Celu- lar (RNTC), formada por oito Centros de Terapia Celular (CTC) localizados em cinco estados. O objetivo principal da RNTC é aumentar a integração entre os pesquisadores brasileiros e facilitar a troca de informações relacionadas à medicina regenerativa.

Avanços técnicos

É fato o valor das pesquisas brasileiras e, podem-se desta- car como marcos dos últimos anos dois avanços ocorridos em 2008: a produção da primeira linhagem de células- -tronco embrionárias humanas no Brasil (batizada de BR-

  1. e a produção da primeira linhagem de CT obtidas sem o uso de embriões - CT pluripotentes induzidas (ou células iPS - do inglês Induced pluripotent stem cells) (Leite, 2009). BR-1: produzida a partir de embriões recolhidos de clínicas particulares de fertilização, tornou o Brasil inde- pendente da necessidade de importação de culturas pri- márias de CTE, facilitando o desenvolvimento de novas pesquisas no país. Entretanto, a primeira linhagem de CT embrionárias, após análises de compatibilidade realizadas, revelou-se não representativa da população brasileira. A BR-1 foi avaliada, comparando-se a amostras obtidas do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redo- me), que possui um banco de dados com registros de mais de um milhão de pessoas oferecendo, assim, uma boa idéia da variabilidade genética no país (Fraga et al, 2011). A comparação foi feita baseando-se na análise do perfil proteico do antígeno leucocitário humano (HLA - do in- glês Human Leukocyte Antigen), presente na superfície de

células humanas, e que indica uma identidade celular

entre indivíduos que apresentam proteínas similares. Com isto é possível afirmar que, quanto mais semelhantes, me- nores são as chances de rejeição nos casos de transplantes alogênicos (doador e receptor geneticamente diferentes) (Fraga et al, 2011). Segundo as análises realizadas, a BR-1 apresentou maior identidade com linhagens oriundas dos Estados Unidos e da Europa (98,4%), revelando, assim, certo li- mite no que tange ao uso de embriões disponíveis para pesquisa no Brasil. Uma explicação para esta discrepância pode ser o fato de estes embriões terem sido coletados de clínicas particulares que possuem como clientes pessoas de elevado padrão e que, em sua maioria, apresentam uma ascendência estrangeira. iPS - assim como as CT embrionárias genuínas são capazes de gerar qualquer tecido do corpo de um indivíduo adulto, a diferença é que não são provenientes de embriões. No Brasil, foram desenvolvidas duas linhagens que foram denominadas Rio-1 (gerada a partir de fibroblastos da pele de camundongos) e a iPS293 (gerada pela repro- gramação de células de uma linhagem celular de rim de embrião humano). A produção, pela primeira vez no país, de CT repro- gramadas inseriu o Brasil num seleto grupo, sendo o quin-

to país do mundo a dominar esta técnica (Del Cerlo et al, 2009). Até então os únicos países detentores do protocolo eram o Japão, os Estados Unidos, a Alemanha e a China. Células reprogramadas são geneticamente idênticas ao doador, potencialmente eliminando os riscos de incom- patibilidade e rejeição no caso de serem transplantadas. Por se tratarem de células paciente-específicas, pode-se, neste ponto, prever a criação de uma medicina persona- lizada, bem como oferecer suporte e possibilidades técni- cas de reduzir as extensas listas de pacientes que esperam na fila por um transplante. Embora seja considerada uma panaceia para as questões éticas, vale destacar que ainda existem vieses técnicos a considerar, como exemplo a uti- lização de vetores retrovirais para a inserção dos genes nas células, que podem ser mutagênicos (Montoliu, 2009). O mais recente trabalho publicado sobre as iPS, no Brasil relata uma nova metodologia (Beltrão-Braga et al, 2011), baseada na utilização de células extraídas da polpa do dente de crianças brasileiras e não de células da pele (método mais utilizado).

Terapias celulares no Brasil

O sucesso alcançado em ensaios pré-clínicos tem ofere- cido a justificativa para o uso dessas células para ensaios clínicos em humanos. Embora ainda em andamento, os resultados preliminares indicam que, até o momento, não há efeitos adversos em transplante autólogo de CT da me- dula óssea. Entretanto, a cautela diante destes resultados ainda é importante, pois serão necessários muitos estudos clínicos para se afirmar, com clareza, a verdadeira influên- cia dessas células sobre o homem (Del Cerlo et al, 2009). Atualmente há um grande número de testes clínicos em humanos, que avaliam o uso terapêutico em diferentes pa- tologias (Tabela 2). Apesar do entusiasmo dos pesquisadores e das espe- ranças da população em geral, vale destacar que mesmo com os resultados animadores, as pesquisas desenvolvidas ainda não são aplicadas em larga escala para terapias das massas populacionais.

Considerações Finais

O Brasil tem apresentado grande potencial em suas pes- quisas e, certamente, ainda há muito a ser conquistado. O grande desafio é manter o nível das investigações e contro- lar o excesso de expectativas que pode encurtar o caminho entre experimentação e aplicabilidade destas técnicas em terapias de rotina. É importante salientar que ainda serão necessários mais de estudos para poder garantir a verdadeira eficácia das CT sobre as mais diversas patologias tratáveis pela te- rapia celular. Além disso, ainda é necessário ter em mente a possibilidade de algum efeito colateral na saúde huma- na. E para garantir total segurança no uso destas meto- dologias, serão necessários mais alguns anos de pesquisa. Anseia-se, contudo, que no futuro ocorra a incor- poração destas terapias nos serviços de saúde (públicos e particulares), da população mundial.

Ensaio

Revista da Biologia (2012) 9(1) : 16-

DOI: 10.7594/revbio.09.01.

biológico e o social, visando uma compreensão conjunta das duas áreas.

Contextualizando um embate

Desde as últimas décadas, as ciências humanas têm trava- do intensas disputas com as ciências biológicas pelo fim das chamadas afirmações determinísticas ou “biologicis- mos” (Henning, 2008). Se havia, por um lado, um inte- resse acadêmico na formulação de interpretações que não levassem em conta apenas aspectos biológicos, tidos como naturais e imutáveis, havia também uma crescente articu- lação das ciências sociais com movimentos sociais – entre eles o movimento feminista e o das “minorias sexuais” e de gênero – que gradativamente reivindicavam posturas científicas a serviço de uma sociedade mais justa e igua- litária (Keller, 2006), o que necessariamente passava pela desnaturalização de hierarquias e desigualdades sociais, presentes tanto nos trabalhos de importantes pesquisado- res quanto no senso comum. Embora os exemplos dessa visão determinista sejam numerosos, consideramos mais proveitoso compreender quais são e como se estruturam as concepções de sexo e gênero que estão na base do pensamento científico mo- derno a sistematizar uma crítica detalhada a uma determi-

Corpo, gênero e ciência: na interface entre

biologia e sociedade

Body, gender and science: on the interface between biology and society

Adriano Souza Senkevics1,, Juliano Zequini Polidoro*^2

1 Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

2 Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Recebido 10abr Aceito 25set Publicado 27dez

Resumo. A procura por qualidades que possam diferenciar os corpos e os sexos masculino e feminino na biologia tem levado a uma série de interpretações enviesadas a respeito do que entendemos por homens e mulheres ou por masculino e feminino na sociedade, as quais historicamente sustentaram posições conservadoras do ponto de vista social e político. Com o objetivo de introduzir novos elementos em um debate fundamentalmente interdisciplinar, procuramos desenvolver uma análise que se centre sobre a interface entre a biologia e os estudos sociais, a fim de reconceituar a construção do corpo, do sexo e do gênero. Palavras-chave. Relações de gênero; Determinismo biológico; Sociobiologia; Feminismo.

Abstract. The search for qualities which can differentiate the masculine and feminine bodies and sexes on biology have led to many misconceptions about what we understand as men and women or masculine and feminine on society, which have historically supported both social and political conservative positions. Aiming to introduce new elements on a fundamentally interdisciplinary debate, we tried to develop an analysis centered on the interface between biology and social studies, in order to reconceptualize the construction of body, sex and gender. Keywords. Gender relations; Biological determinism; Sociobiology; Feminism.

*Contato do autor: [email protected]

Estudos sobre sexo e reprodução são extremamente im- portantes para uma ciência que estuda a vida, uma vez que muitas das espécies de seres vivos dependem da repro- dução sexuada para a sua perpetuação. Em grande parte dessas populações, ocorre dimorfismo sexual e uma série de características, desde a anatomia dos órgãos genitais a comportamentos, são diferentemente atribuídos aos sexos masculino e feminino. Entretanto, na busca de qualida- des que possam diferenciar os sexos, especialmente na es- pécie humana, certos aspectos são naturalizados por um discurso que tende a colocar sobre a biologia a respon- sabilidade pelas diferenças atualmente percebidas entre o que entendemos por homem e mulher ou por masculino e feminino, prescrevendo uma concepção do corpo fun- damentalmente pautada pelas explicações biológicas, sem que aspectos sociais, culturais e políticos sejam considera- dos em sua devida relevância. Neste ensaio, nosso objetivo é apresentar alguns elementos do pensamento científico que historicamente sustentaram posições conservadoras, do ponto de vista político e social, a respeito do corpo, do sexo e do gêne- ro. Com auxílio dos estudos de gênero, especialmente no que se refere às construções sociais sobre masculinidade e feminilidade e o conceito de gênero propriamente dito, pretendemos tecer um diálogo interdisciplinar entre o

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nada obra, tendo em vista que, nesse último caso, criar-se- -ia uma falsa impressão de haver um ou alguns “responsá- veis” pelo determinismo biológico corrente. Na realidade, a tendência determinística, na biologia, tem amplamente se sustentado muito mais por um “senso comum” do fa- zer científico que, a seu modo, repercute na sociedade e é também influenciado por concepções que circulam social e culturalmente (Connell, 2009). Neste sentido, entender alguns elementos da base de um pensamento moderno, o qual atribui à ciência e à comunidade científica a autoridade enquanto produtora de “verdades” sobre os corpos masculino e feminino, re- mete ao próprio desenvolvimento da ciência que, paulati- namente, substitui a religião, notadamente o catolicismo apostólico romano, como a principal provedora de expli- cações sobre o ser humano, a vida e o universo. Não é à toa que, de forma paralela ao crescimento hegemônico do racionalismo científico moderno, em meados dos séculos XVIII e XIX, nascem diversas noções sobre sexo e gênero que até hoje influenciam nossa forma de compreender as relações de gênero e a sexualidade (Corbin, 2008). Tais concepções científicas a respeito do corpo e do sexo nunca estiveram isentas de juízos de valor. As ciên- cias médicas no século XIX, por exemplo, representavam o corpo feminino como incompleto, doente e instável. Em clássico estudo, Laqueur (1990) descreve que foi a partir dessa época que se constituiu a noção de uma espécie bis- sexuada, dicotomizada entre os dois sexos que conhece- mos atualmente; antes disso, as mulheres eram entendidas como “homens invertidos”, explicação a qual encontrava ressonância em estudos que descreviam, com detalhes, como a genitália feminina era uma versão invertida, e im- perfeita, do aparelho genital masculino. Ou seja, as dife- renças anatômicas entre homens e mulheres justificavam uma suposta inferioridade feminina, e mesmo os estudos sobre os gametas (que atestavam o espermatozóide como ativo, ágil e forte, e o óvulo como passivo, à espera de um espermatozóide) resultavam em interpretações acerca do homem e da mulher (Fernandes, 2009; Keller, 2006). Como bem observa Rohden (2003), a visão predominante apoiava-se na ideia de que a natureza, por si só, já havia determinado uma ordem baseada no sexo, a qual poderia ser acessada por meio da razão científica, e caberia à socie- dade respeitá-la na esfera social e política. Para completar, a visão determinista está ampla- mente difundida no senso comum. Pesquisas sobre es- cola (Carvalho, 2009), mídia (Fischer, 2001) ou espaços de sociabilidade infanto-juvenil (Ribeiro, 2006; Souza,

  1. denunciam formas tradicionais de enunciar o mas- culino e o feminino, pautadas por um determinismo que não só valoriza apenas um perfil masculino e feminino, como estigmatiza perfis desviantes (Welzer-Lang, 2001). Em suma, herdamos, nos mais variados meios de relações sociais, um discurso que naturaliza uma essência, tanto masculina quanto feminina, eterna e universal, por con- sequência, inquestionável (Kehl, 1998). Torna-se patente, em decorrência, o esforço de bus- car uma teorização que caminhe na fronteira entre a bio- logia, entendida como uma ciência que produz enuncia-

ções sobre o corpo, o sexo e a reprodução, e a sociedade, pensando-a no contexto de novos olhares que têm ques- tionado valores tradicionais e desigualdades sobre mulhe- res, homens e as ditas “minorias sexuais”. Tal esforço de- manda um exercício de reflexão, que procure reconceituar certas “verdades”, rediscutindo a biologia à luz dos estudos sociais. Em vista disso, nosso foco reside nesta interface.

Novos elementos em debate

Para avançar na reflexão, devemos introduzir elementos e conceitos de uma abordagem do chamado “construcio- nismo social” para, em seguida, retomar a construção do corpo, do sexo e do gênero.

Homens e mulheres: sexo ou gênero?

Em célebre frase para o feminismo, Simone de Beau- voir afirmou, na sua principal obra, que “ninguém nasce mulher; torna-se mulher” (Beauvoir, 2009, p. 361). Essa frase traduz, de forma sintética, a importância de se insis- tir na qualidade fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. Foi com esse intuito que o conceito de gênero foi desenvolvido, conforme preconiza a historiado- ra Joan Scott (1995). Em um primeiro momento, havia uma dicotomia entre sexo e gênero. O primeiro referia-se às qualidades biológicas (o corpo) e o segundo às qualidades sócio-cul- turais (caráter, comportamento) dos indivíduos (Nichol- son, 2000). Embora este ainda seja o uso mais frequente no senso comum, não é o sentido atualmente adotado por parte dos estudos feministas (Carvalho, 2011; Scott, 2010). Nicholson (2000) destaca as diferentes formas de se entender as construções sociais sobre o masculino e o fe- minino, sobretudo os corpos. A autora argumenta que

“se o próprio corpo é sempre visto através de uma interpretação social, então o ‘sexo’ não pode ser indepen- dente do ‘gênero’; antes, sexo nesse sentido deve ser algo que possa ser subsumido pelo gênero (Nicholson, 2000).”

Gênero, nessa concepção, torna-se uma forma de organizar socialmente os sexos, mais do que uma mera in- terpretação cultural dos mesmos. Partindo dessa perspec- tiva, se a própria percepção do corpo e do sexo é tomada como cultural, o conceito de sexo é apropriado pelo con- ceito de gênero, como define Judith Butler (2010a). Man- ter uma rígida dicotomia entre sexo e gênero faz transpa- recer a ideia de que apenas um deles é construído (o gêne- ro), relegando o sexo a uma posição segura e confortável da “natureza”, isto é, como se fosse possível compreender a “natureza” à parte de um conhecimento produzido sobre ela (Scott, 1988). Isso não significa que o gênero “produza” ou “reflita” diferenças fixas e naturais entre os homens e mulheres, e sim que é um saber que estabelece significados para tais diferenças (Scott, 1988). É como se o corpo, ao ser incor- porado à cultura, passasse por um filtro, podendo apenas ser entendido a partir de uma perspectiva histórica, a qual dê conta dos aspectos socioculturais que marcam tal cons-