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glomerulonefrite aguda
Tipologia: Notas de estudo
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Manual de Condutas Médicas www.ids-saude.org.br/medicina 265
Jaqueline Christiane Lanaro 1 Márcia Melo Campos Pahl 1
A glomerulonefrite difusa aguda (GNDA) é uma doença inflamatória não-supurativa que acomete difusamente os glomérulos de ambos os rins. O processo inflamatório glomerular é imunologicamente mediado e resulta na instalação de uma síndrome nefrítica aguda. Esta síndrome caracteriza-se pelo aparecimento abrupto de edema, hipertensão arterial e hematúria, acompanhada, geralmente, de proteinúria e azotemia em graus variáveis. A glomerulonefrite aguda em crianças aparece, na maioria das vezes, após doenças infecciosas. Um grande número de infecções virais e bacterianas têm sido incriminadas. Entre as bactérias, a mais freqüentemente associada tem sido o estreptococo beta-hemolítico do grupo A, embora outros estreptococos (como o pneumococo), estafilococos, meningococos e até Mycoplasma já tenham sido relacionados à glomerulonefrite aguda. Em crianças, a GNDA pós-estreptocócica (GNDAPE) é a mais comum. A infecção de pele ou orofaringe pelo Streptococcus beta-hemolítico do grupo A determina a produção de anticorpos. Admite- se que o antígeno estreptocócico se deposite na membrana basal glomerular e, posteriormente, recebe os anticorpos circulantes com conseqüente formação de imunocomplexos e ativação do sistema do complemento. O processo inflamatório gerado produz oclusão dos capilares glomerulares, bem como lesão de suas paredes, reduzindo, assim, a superfície filtrante e determinando redução da taxa de filtração glomerular. A queda na filtração glomerular resulta na retenção renal de sódio e água, produzindo edema. A hipertensão arterial provavelmente tem origem multifatorial, não sendo somente uma conseqüência da retenção hidro-salina e da hipervolemia subseqüente. A diurese induzida por diuréticos não necessariamente determina redução nos níveis pressóricos, sugerindo o envolvimento de outros fatores patogênicos. Vários estudos demonstram que,
no início do quadro, o sistema renina-angiotensina está acentuadamente inibido. A hematúria e proteinúria são decorrentes do processo inflamatório dos capilares glomerulares que permite a passagem de hemácias e proteina para a urina. A probabilidade de um indivíduo desenvolver GNDA na presença de um estreptococo nefritogênico é de 15%, independentemente do foco primário infeccioso. A doença é mais freqüente em crianças e adolescentes, sobretudo na faixa etária dos 3 aos 12 anos de idade. Menos de 5% dos casos são vistos em crianças abaixo dos dois anos de idade e 5 a 10% ocorrem em adultos com mais de 40 anos de idade. Estudos mostram que crianças que desenvolvem GNDA a partir de piodermites são, geralmente, mais jovens que aquelas com faringites. Raramente a doença se repete em um mesmo indivíduo. O sexo masculino é mais acometido que o sexo feminino, na proporção de 2:1. O prognóstico dos pacientes que se apresentam com a forma típica de GNDAPE é muito bom e isto é particularmente verdade nas crianças, onde a recuperação se aproxima de 100% dos casos. A mortalidadde na fase aguda é inferior a 1% e deve-se, em geral, a sepse, insuficiência cardíaca e encefalopatia hipertensiva. As manifestações clínicas da GNDA surgem após um período de latência que varia de uma a três semanas (média de 10 dias) após a infecção de orofaringe, e de duas a quatro semanas, média de 21 dias, após as infecções de pele. Durante este período, a criança é assintomática, contudo, é possível identificar hematúria microscópica e proteinúria em cerca de 30% dos pacientes. O início de uma glomerulonefrite coincidindo com uma infecção, portanto sem período de latência, deve alertar para a possibilidade de exacerbação de doença crônica. O quadro clínico caracteriza-se por instalação abrupta e abrange os seguintes sinais e sintomas: edema (presente em 85% dos casos, é leve e restringe-se à face); hipertensão arterial (presente em 60 a 80%
(^1) Médica Assistente do Hospital Universitário da USP 1 Professora livre docente pela Faculdade de Medicina da USP; coordenadora do Centro de Referência Nacional da Saúde da Criança – Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (^2) Médico assistente do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Centro de Saúde Escola Samuel B. Pessoa - Butantã
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dos casos, em geral, moderada); hematúria (presente em 25-50% dos casos, desaparece em duas semanas, mas há casos com duração superior a quatro semanas); oligúria (diurese menor que 1 ml/kg de peso/hora em crianças até 10 kg ou abaixo de 600 ml/m
2 de superfície corpórea/dia nas maiores é freqüente).
Diagnóstico
Sedimento urinário : a análise da urina é de fundamental importância para o diagnóstico da GNDA, pois uma série de alterações podem ser encontradas. O volume da urina encontra-se freqüentemente reduzido; seu aspecto, em geral, é turvo; com coloração castanho-avermelhada devido à liberação de hemoglobina e formação de hematina ácida; o pH é baixo e sua concentração está elevada. Ocasionalmente, ocorre glicosúria, porém a presença de cetonúria é rara. A proteinúria em geral é inferior a 2g/m
2 /24 h. Porém, em 20% dos casos, é maciça, podendo atingir níveis nefróticos. Costuma desaparecer nos primeiros dois a três meses na maioria dos casos; pode estender-se até seis meses. A hematúria pode ser macro ou microscópica e há predomínio de hemácias dismórficas, caracterizando a origem glomerular. Os cilindros hemáticos são encontrados na urina de 60 a 85% das crianças hospitalizadas com GNDA, se o sedimento for adequadamente tratado. A hematúria microscópica tende a desaparecer em até seis meses; porém, em alguns casos, pode durar até um ano. A presença de leucócitos na urina é freqüente nas fases iniciais da doença, quando podem ultrapassar em número as hemácias. Esta situação, no entanto, reverte-se em poucos dias. Dosagem do complemento sérico: o complemento total (CH50) e a fração C3 encontram- se diminuídos em mais de 90% dos pacientes. Outras frações do complemento também podem estar diminuídas. A queda do complemento é transitória e seus níveis retornam ao normal em seis a oito semanas. Testes sorológicos: são úteis para comprovação de infecção estreptocócica precedente. Pacientes não submetidos à antibioticoterapia antiestreptocócica apresentam níveis séricos de anticorpos antiestreptolisina-O (ASLO) elevados três a cinco semanas após o episódio de faringite, em 80 a 90% dos casos. Estes títulos permanecem elevados por
vários meses. Nos pacientes que receberam antimicrobianos para tratamento da infecção de vias aéreas superiores, a porcentagem de positividade deste exame reduz-se para 20%. Os títulos do ASLO podem ser pouco elevados quando a infecção estreptocócica é cutânea. Bacteriologia: a cultura do estreptococo a partir de secreções de orofaringe ou pele pode ser útil na tentativa de isolar o agente. A positividade deste exame, porém, é baixa, uma vez que o intervalo entre a infecção e o início da glomerulonefrite pode ser suficientemente longo para que estas secreções tenham se tornado estéreis. A função tubular renal, em geral, está preservada e a expansão do volume vascular é isonatrêmica. Quando a queda do ritmo de filtração gromerular (RFG) é importante, instala-se hiponatremia dilucional, acidose metabólica e hiperpotassemia.
Tratamento
O tratamento da GNDA é de suporte, pois, uma vez instalada a doença, não se pode influenciar o seu curso. Entretanto, a morbidade e a mortalidade precoce são altamente influenciadas por medidas terapêuticas adequadas, dirigidas às situações mais comuns presentes nestes pacientes. O volume de diurese e pressão arterial devem ser monitorizados diariamente. A hospitalização do paciente está indicada quando houver: hipertensão arterial – pressão arterial consistentemente acima do percentil 95 para idade, sexo e altura; sinais de encefalopatia e/ou de congestão circulatória; oligoanúria (diurese inferior a 1 ml/kg/hora ou < 400 ml/m
2 /dia nos maiores). Os pacientes não hospitalizados devem ser acompanhados diariamente no início e também submetidos aos exames laboratoriais recomendados anteriormente. Na maioria das crianças com GNDA, a terapia mais efetiva é a restrição da ingestão hídrica e de sal. Os líquidos, administrados preferencialmente por via oral, devem ser limitados, inicialmente, à reposição da perdas insensíveis (400 ml/m
2 /dia). Especialmente nos pacientes em uso de diuréticos potentes, a monitorização do peso, pressão arterial e volume de diurese devem ser avaliadas cuidadosa e freqüentemente (às vezes antes de 24 horas) com o