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insetos do brasil, Notas de estudo de Ciências Biologicas

Catedrático de Entomologia

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 24/02/2010

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ESCOLA NACIONAL DE AGRONOMIA
SÉRIE DIDÁTICA N.º 2 - 1938
1.º TOMO
CAPÍTULO I - XXI
INSETOS DO BRASIL
Catedrático de Entomologia Agrícola da Escola Nacional de Agronomia
Ex-Chefe de Laboratório do Instituto Oswaldo Cruz
DA COSTA LIMA
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ESCOLA NACIONAL DE AGRONOMIA

SÉRIE DIDÁTICA N.º 2 - 1938

1 .º TOMO

CAPÍTULO I - XXI

INSETOS DO BRASIL

Catedrático de Entomologia Agrícola da Escola Nacional de Agronomia

Ex-Chefe de Laboratório do Instituto Oswaldo Cruz

DA COSTA LIMA

CAPÍTULO XI

Ordem PHASMIDA

  1. Caracteres. - I n s e t o s , e m s u a m a i o r i a , de f o r m a b a - cilar, a p t e r o s o u a l a d o s , q u e se c o n f u n d e m , n u m a p e r f e i t a h o - m o c r o m i a , c o m g a l h o s v e r d e s o u s e c o s. D a í a d e s i g n a ç ã o de b i c h o s - p á u p e l a q u a l s ã o v u l g a r m e n t e c o n h e c i d o s e m n o s s o p a í s. No B r a s i l n ã o h a a s c u r i o s a s f o r m a s d a f a m í l i a P h y l l i - dae, o b s e r v a d a s n a s r e g i õ e s I n d o - M a l a i a e E t i o p i c a , de c o r p o deprimido e alargado, que se parecem extraordinariamente c o m f o l h a s. H a , t o d a v i a , a s e s p e c i e s d e Prisopus, que, pelo as- p e c t o e c o l o r a ç ã o , p o d e m s e r c o n f u n d i d a s c o m os l i q u e n s q u e v e g e t a m s o b r e o t r o n c o d a s a r v o r e s.

É a e s t a o r d e m q u e p e r t e n c e m os i n s e t o s m a i s l o n g o s q u e se c o n h e c e.

As n o s s a s m a i o r e s e s p e c i e s são: B a c t r i d i u m grande R e h n , 1920, c u j o t i p o ( f e m e a ) t e m 265 rum., Otocrania aurita

(Bruto., 1839), cuja femea pode apresentar até 245 mm., e

P h i b a l o s o m a p h y l l i n u m ( G r a y , 1835) c o m f e m e a s q u e a t i n - g e m a 220 r u m. de c o m p r i m e n t o. T o d a v i a , é n a r e g i ã o O r i e n - t a l q u e v i v e m os v e r d a d e i r o s g i g a n t e s d e s t a o r d e m e a l i á s de t o d a a c l a s s e de i n s e t o s , c o m o s e j a m P h o b a e t i c u s kirbyi B r u n n e r & R e d t e n b a c h e r , 1907, e P h a r n a c i a serratipes ( G r a y ,

  1. ambos de Borneo, que podem apresentar até 330 mm. de c o m p r i m e n t o.

Se ha nesta ordem insetos tão grandes, nela tambem se encontram algumas especies relativamente pequenas, com

pouco mais de 1 cm. de comprimento, do genero Abrosoma, t a m b e m d a r e g i ã o O r i e n t a l.

  1. Anatomia externa. - Cabeça livre, obliquamente di- rigida para baixo. Olhos ,em geral, bem desenvolvidos. Oce- los, quando presentes, em numero de 2 ou 3, Antenas filifor- mes ou setiformes, de 8 a 100 segmentos. Aparelho bucal de tipo mandibulado e conformado como nos demais insetos or- t o p t e r o i d e s. Torax cilindrico, de superfície lisa, granulosa ou espi- nhosa. Protorax, em geral, pequeno, mais curto que a cabeça. Mesotorax, pelo menos 3 ou 4 vezes mais comprido que o pro- torax; em Anisomorpha e generos afins relativamente curto. Metatorax semelhante ao mesotorax, geralmente mais curto que este, em algumas especies, porém, mais longo. Tegmi- nas atrofiadas ou ausentes na maioria das especies, mesmo nas que tem asas bem desenvolvidas. Entretanto, nas femeas de Phyllium tais orgãos são bem mais desenvolvidos que as asas e se apresentam com o as- pecto de verdadeiras folhas. Nas especies de Prisopus, con- quanto as tegminas não sejam tão desenvolvidas como em Phyllium, são relativamente alongadas e cobrem quasi com- pletamente as asas, quando estas se acham dobradas. As asas dos Fasmideos, em repouso e como nos demais insetos or- topteroides, dobram-se radialmente e se dispõem sobre o ab- domen, ficando apenas exposta a parte anterior, em relação com o bordo costal, aliás de estructura mais consistente que a do resto da asa. Geralmente as asas são hialinas; algumas especies, porém, apresentam-nas com areas ou maculas es-

c u r a s , o u m e s m o b r i l h a n t e m e n t e c o l o r i d a s , c o m o a s a s a s d a s

b o r b o l e t a s e m a r i p o s a s. Q u a n d o n u m a e s p e c i e u m d o s s e x o s é a p t e r o e o o u t r o a l a d o , este é s e m p r e o m a c h o. P e r n a s do t i p o a m b u l a t o r i o , g e r a l m e n t e l o n g a s e r e l a t i - v a m e n t e d e l g a d a s , p r i s m a t i c a s o u s u b - c i l i n d r i c a s , p r o v i d a s de d e n t e s o u s a l i e n c i a s f o l i a c e a s , q u e m a i s c o n t r i b u e m p a r a a u - m e n t a r a s e m e l h a n ç a d e s t e s i n s e t o s c o m g a l h o s. P e r n a s pos- t e r i o r e s do m e s m o t i p o d a s m e d i a s ; e x c e p c i o n a l m e n t e p o d e m apresentar os femures consideravelmente dilatados. Pernas anteriores tão ou mais longas que as outras, com os femures

PHASMIDA 191

Fig. 90 - Acanthoderus 20-spinosus (Redtenbacher,

  1. (Subfam. Pygirhynchinae) (um pouco aumenta- do; tamanho natural: cerca de 70 mm.).

192 INSETOS DO BRASIL

nogenetico dos Fasmideos tem a aptidão de evoluir por si mesmo no sentido de uma ou de outra sexualidade.

  1. Postura. - Ensinam os manuais de entomologia que os Fasmideos são pouco prolificos. Entretanto LING ROTH

(1916) verificou que o Carausius morosus, num periodo de

postura de 225 dias, poz, em media, 480 ovos, tendo tambem o b s e r v a d o u m m a x i m o de 712 o v o s. No Rio de Janeiro o Sr. CARLOS ALBERTO SEABRA , tendo apanhado a 27 de Setembro, em postura, uma femea de Phi-

Fig. 91 - Ovos de Fasmideos: 1 , de Phi- balosoma phyllinum, X 5; 2, de Pseudol- cyphides tithonus (Gray, 1835) (sub-fab. Pseudophasminae), X 10; 3 , de Prisopus ohrtmanni (Lichtenstein 1802), X 3,5 (sub- fam. Pseudophasminae).

balosoma phyllinum e alimentando-a com folhas de Ficus, ob- teve da mesma 152 ovos. As primeiras formas jovens nasce-

194 INSETOS DO BRASIL

rama 18 de Janeiro do ano seguinte. Por esta observação, ve- rifica-se quão lento é o desenvolvimento embrionario nesta es- pecie (103 dias para os primeiros ovos colhidos).

As femeas, em geral, não escolhem um lugar especial para a postura; como se acham quasi sempre pousadas sobre as plantas, deixam cair os ovos no solo. Ha mesmo algumas. especies que os projetam a alguns metros de distancia. Os ovos dos Fasmideos são os que me parecem mais curio- sos, lembrando sempre uma produção vegetal.

Assim os ovos de Phyllium bioculatum Gray, 1832, da re- gião O r i e n t a l , s e g u n d o HENNEGUY, t ê m a f o r m a d e u m a q u e -

nio de Umbelifera. Em geral, porém, sâo muito semelhantes

a sementes, apresentando, além do operculo num dos pólos, p o r o n d e s a e a f o r m a j o v e n , u m a d e p r e s s ã o l a t e r a l a n a l o g a a uma micropila. O interessante é que, em alguns desses ovos, a estructura do corium, observada ao microscopio, tambem o f e r e c e g r a n d e s e m e l h a n ç a c o m a de u m t e c i d o v e g e t a l ,

" d e telle s o r t e q u e le m i m e t i s m e si i n t e r e s s a n t de l ' i n s e c t

a d u l t e et de s o n o e u f se r e t r o u v e d a n s la s t r u c t u r e m ê m e de

l ' e n v e l o p p e de c e t o e u f " (HENNEGUY, 1904).

As formas singulares de alguns desses ovos podem ser apreciadas no trabalho de KAUP (1871). Das especies brasi- leiras este autor apenas descreveu os ovos de Phibalosoma p h y l l i n u m , de H e r p u n a n e p t u n u s ( K a u p , 1871) e de P r i s o p u s s p i n i c e p s B u r m , 1839. M a i s t a r d e GOELDI (1886) d e s c r e v e u e figurou os ovos de Phibalosoma phyllinum e de Ceroys per- foliatus ( G r a y , 1835). H a t e m p o s tive o e n s e j o de a p r e s e n t a r os d e s e n h o s q u e a q u i r e p r o d u z o , f e i t o s p o r C. LACERDA, d e ovos de P h i b a l o s o - m a p h y l l i n u m , de Pseudolcyphides t i t h o n u s ( G r a y , 1835) e d e

Prisopus o h r t m a n n i ( L i c h t e n s t e i n , 1802). Os ovos d e s t a u l -

t i m a especie s ã o i n t e r e s s a n t i s s i m o s , pois, a o c o n t r a r i o do q u e s u c e d e c o m os d e m a i s F a s m i d e o s , s ã o colados, e m serie l i n e a r , n u m s u p o r t e q u a l q u e r.

  1. Desenvolvimento post-embrionario. - Dos ovos ori- ginam-se formas jovens semelhantes ás adultas, realisando-

PHASMIDA 195

as 3 primeiras formas jovens. No dia seguinte saíram outras,

bem como 2 dias depois. As formas jovens conservaram-se

vivas por alguns dias, porém, depois, foram sucessivamente

morrendo, até ficar uma só, que continúa a se alimentar e

c r e s c e r a t é a p r e s e n t e d a t a (7 de M a r ç o de 1 9 3 2 ) "

  1. Habitos. - Os Fasmideos vivem sobre as plantas e se alimentam exclusivamente de folhas e brotos. As formas apteras deslocam-se lentamente; as aladas voam mal, funcio- n a n d o a s a s a s p r i n c i p a l m e n t e c o m o p a r a - q u é d a s.

É interessante ver as atitudes curiosas e ás vezes grotes- cas, que alguns Fasmideos apteros exibem, quando em repouso ou prestes a se mover.

Habitualmente ficam, horas a fio, completamente imo- veis, com as pernas dianteiras projetadas para diante, cobrin- do a cabeça e as antenas, e as outras pernas distendidas para trás. E mesmo quando elevam o corpo sobre as pernas, podem fazer movimentos, ou assumir atitudes, que ás vezes os tornam irreconhecíveis no meio em que se acham.

Ainda como especies que se confundem perfeitamente

com o local em que se assestam, devo citar especialmente os nossos Prisopi, dificilmente descobertos quando pousam num tronco revestido de liquens. Estes insetos, dizem alguns tra- tadistas, são aquaticos, pelo menos em parte. Esta noção se originou da informação contida num trabalho de MURRAY

(Ann. Mag. Nat. Hist., 1866) sobre os habitos aquaticos de

Prisopus flabelliformis (Stoll, 1815). A informação foi co- municada a MURRAY por FRY, que, por sua vez, a colhera de uma pessoa que observara o inseto, durante o dia, mergulha- do e agarrado á pedras de um riacho, numa montanha do Brasil. Bem que tal observação nunca mais fosse confirma- da, pois os Prisopi apanhados desde então têm sido sempre encontrados sobre o tronco das arvores, adquiriu, entretanto, fóros de verdade cientifica. GAHAN (1912), porém, demonstrou não haver o menor fundamento cientifico para se acreditar em habitos tão extranhos desses Fasmideos. Convem ler-se a respeito o recente trabalho de UVAROV (1935).

P H A S M I D A 197

Ainda como f e n o m e n o s curiosos a assinalar, relativos á biologia dos Fasmideos, d e v e m ser r e f e r i d a s a a u t o t o m i a e a a u t o f a g i a e c o n s e q u e n t e r e g e n e r a ç ã o h i p o t i p i c a dos segmen- tos ou a p e n d i c e s a m p u t a d o s , f e n o m e n o s estes b e m e s t u d a d o s p o r BORDAGE (1910). Deve ser t a m b e m l e m b r a d a a c a t a l e p s i a observada em algumas especies por PIÉRON (1913), SCHMIDT

(1913), e o u t r o s.

  1. Importancia economica. - Sendo os Fasmideos g r a n d e s devoradores de folhas, t o r n a r - s e - i a m p r a g a s se pro- liferassem em m a i o r a b u n d a n c i a. F e l i z m e n t e , porém, r a r a - m e n t e a p a r e c e m nas areas cultivadas, e n c o n t r a n d o - s e - o s e m m a i o r q u a n t i d a d e n a s m a t a s de v e g e t a ç ã o l u x u r i a n t e.

Talvez s e j a m os m i c r o i m e n o p t e r o s p a r a s i t o s dos ovos que mais contribuam para reduzir consideravelmente a prolifera- ção destes insetos. Ha tempos descrevi um Crysidideo- Duckeia cyanea, n. g., n. sp., que se cria em ovos de Prisopus o h r t m a n n i.

  1. Classificação. - Ha nesta ordem cerca de 2.300 es- pecies descritas, das quais perto de 800 pertencem á região n e o t r o p i c a.

De acôrdo com o sistema proposto por KARNY (1923) com as devidas modificações feitas por HEBARD, a ordem Phasmida compreende 2 grandes familias (elevadas por alguns autores a categoria de superfamilias): Phyniidae ( Areolatae Redt., superfam. Phasmatoidea Brues & Melander) e Phasmidae

( AnareoIatae Redt., superfam. Bacterioidea ).

A família Phyniidae compreende as seguintes subfami- lias: Bacillinae, Therameninae ( Obriminae ) , Pygirhynchinae, Aschiphasminae ( Aschiphasmatinae ), Anisomorphinae, Pseu- dophasminae ( Phasminae, Phasmatinae, Prisopinae ), Hete- ropteryginae e Phylliinae.

A familia Phasmidae compreende as seguintes subfami- lias: Pachymorphinae ( Clitumninae ) , Prisomerinae ( Loncho- dinae ) , Heteroneminae ( Diapheromerinae, Bacunculinae ) , Phibalosominae ( Bacteriinae, Cladoxerinae ), Phasminae

( Acrophyllinae ) e Necrosciinae.

198 INSETOS DO BRASIL

As 4 tibias posteriores com uma area triangular no apice,

(lado inferior) ............................................................................... Phylliidae^84

As 4 tibias posteriores sem area triangular no apice (lado,

inferior) .......................................................................................... Phasmidae^85

Segmento mediano distinto do metanotum, geralmente mais

curto que este; especies sempre apteras ...............................

............................................................................................... Pygirhynchinae^86

Segmento mediano tão ou mais longo que o metanotum;

especies frequentemente aladas, com as tegminas redu-

zidas .................................................................................................................... 3

6 º segmento abdominal quadrado (macho) ou transverso

(femea), raramente alongado; pernas inermes, femures

nem comprimidos, nem com dilatações foliaceas; especies

apteras .............................................................................. Anisomorphinae^87

6° segmento abdominal mais alongado, muito mais longo

que (macho) ou quadrado (femea); femures anteriores

comprimidos ou com dilatações foliaceas .....................................................

.................................................................................................. Pseudophasminae

Segmento mediano curto, transverso ou apenas um pouco

mais longo que largo, muito mais curto que o metanotum;

especies apteras ................................................................... Heteroneminae^88

Segmento mediano tão ou mais longo que o metanotum,

pelo menos muito mais longo que largo; especies frequen-

temente aladas .............................................................. Phibalosominae^89

Na figura 92, á direita, vê-se a Paradoxomorpha crassa

(Blanchard, 1852), da subfamilia Anisomorphinae, que não

se encontra no Brasil. O exemplar foi-me enviado de Jujuy,

para determinação pelo Prof. SALVADOR MAZZA, Rep. Argen-

t i n a. S e g u n d o PORTER ( 1 9 2 8 ) , e s t e i n s e t o s e c r e t a u m f l u i d o

q u e , m e s m o a u m a c e r t a d i s t a n c i a , p r o d u z f o r t e a r d o r n a

vista, semelhante ao que se experimenta com emanações de

f o r m o l ( v e r á r e s p e i t o o t r a b a l h o d e SCHNEIDER ( 1 9 3 4 ) ).

84 G r. p h y l l o n , f o l h a. 85 G r. p h a s m a , e s p e c t r o. 86 G r. p y g e , p o d i c e , p a r t e p o s t e r i o r d o c o r p o , r h y n e o s , t r o m b a. 87 G r. a n i s o s , d e s i g u a l ; m o r p h e , f o r m a. 88 G r. h e t e r o s , o u t r o ; h e m a , f i o. 89 G r p h i b a l o s , f i g o ; s o m a , c o r p o.

200 INSETOS DO BRASIL

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