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Informações embrapa sobre leite.
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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Uma edição com 104 páginas e 35 artigos abordando um único tema: o leite produzido no Brasil e no mundo
NOVOS PRODUTOS E NOVAS ESTRATÉGIAS DA CADEIA DO LEITE PARA GANHAR COMPETITIVIDADE E CONQUISTAR OS CLIENTES FINAIS
Preços, custos, margens, produção e tendências do setor
Destaques do leite por regiões, estados e países produtores
Novas normas de qualidade exigem mais, visando o consumidor
Raça Girolando: dos cruzamentos aleatórios até a seleção genômica
CARTA AO LEITOR
O
Nelson Rentero, editor Anuário Leite 2019
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Pesquisa aponta prioridades
Arquivo Embrapa
Consulta envolvendo os diferentes elos do setor leiteiro destacou e avalizou os rumos atuais e futuros das pesquisas realizadas pela Embrapa Gado de Leite
ENTREVISTA PEDRO ARCURI
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P
edro Arcuri é o atual chefe-ad- junto de Pesquisa & Desenvolvi- mento da Embrapa Gado de Leite, cargo que ocupa desde o início de 2015. É graduado em Agronomia pela Univer- sidade Federal de Viçosa e tem MBA em Negócios e Empreendimentos pela Uni- versidade Federal de Juiz de Fora. Acom- panhou de forma direta a elaboração de uma recente pesquisa junto ao setor lei- teiro, cujos resultados foram divulgados em novembro último e servem de pauta para esta entrevista exclusiva ao Anuário Leite 2019. Aqui, Arcuri discorre sobre os indicado- res mais sinalizados, os quais traduzem as principais demandas do setor e deverão nortear os trabalhos de pesquisa na uni- dade que atua nos próximos anos. Entre os vários temas citados, foram confirma- dos como prioritários: nutrição animal e forrageiras e sistemas de produção, ges- tão e mercado. Confira o que já vem sen- do feito nesse sentido e os estudos volta- dos para tornar a produção de leite mais eficiente, dinâmica e profissional no país.
Recentemente, a Embrapa Gado de Leite fez uma pesquisa para ouvir a cadeia produtiva de leite. Qual o pro- pósito desta ação?
PA - O objetivo dessa consulta, realiza- da em novembro de 2018, foi o de atu- alizar e identificar prioridades para as nossas pesquisas a partir de demandas das pessoas e entidades que atuam nos diversos elos da cadeia leiteira. O levan- tamento periódico desse tipo de ação é parte da nossa estratégia para poder en- tregar soluções inovadoras, que de fato venham a ser adotadas pelo setor.
Quem respondeu às perguntas desta pesquisa? PA - O questionário foi publicado na internet e tivemos 381 respostas válidas. A maioria dos que responderam vive e trabalha nas duas principais regiões produtoras de leite no país, as regiões Sudeste e Sul, de diferentes segmentos da cadeia produtiva. Participaram 34% produtores de leite, dos quais 26% até 200 litros, mais da metade produz entre 200 e 2.000 litros e 21% acima de 2. litros. Participaram também técnicos de assistência técnica, extensão rural e consultores (36%), pesquisa e ensino (12%), estudantes (8%), indústria de la- ticínios, de insumos, sindicatos, coope- rativas e órgãos de fiscalização (10%). A maioria dos respondentes tem entre 25 a 54 anos.
Quais temas foram mais sugeridos? PA - Dois temas ligados diretamente aos custos de produção foram confirmados como prioritários: nutrição animal e for- rageiras (71%) e gestão, sistemas de pro- dução e mercado (68%). Estes assuntos compõem linhas de pesquisa importan- tes e de longo prazo da Embrapa Gado de Leite, que recentemente entregou as novas forrageiras capim-elefante Capia- çu, Canará e Kurumi e o azevém Integra- ção, assim como os aplicativos GepLeite, voltado para avaliação de desempenho econômico-financeiro, e GisLeite, sobre monitoramento e indicadores zootécni- cos. Informações sobre essas tecnologias estão no site da Embrapa Gado de Leite. Outros temas, como bem-estar animal, foram apontados por 61% dos entrevis- tados; qualidade do leite e derivados, por 58%; saúde animal, por 52%, e melho- ramento e reprodução animal, por 49%. Todos fazem parte da programação de pesquisa atual e foram validados pelos respondentes como prioritários para a cadeia produtiva.
Na área de nutrição animal e forra- geiras quais são as grandes preocu- pações? PA - As demandas por soluções que mais se destacaram foi a formulação de dietas para gado de leite, com recomendações do uso de forrageiras (63%), seguida por técnicas de manejo das pastagens com ajustes da taxa de lotação animal e perío- dos de pastejo (58%) e aperfeiçoamento das técnicas de ensilagem de forragens tropicais, abordando o uso de inocu- lantes, aditivos, tamanho de partículas e ácidos orgânicos (56%). Adicionalmente, comentários espontâneos sugeriram o desenvolvimento de recomendações para preparo e uso de silagens, especialmen- te de gramíneas e, em menor proporção, para o uso de leguminosas e de palma forrageira para o semiárido. Realizamos experimentos compartilhados com uni- versidades e empresas de nutrição, a fim de recomendar com segurança o uso de
misturas de alimentos disponíveis regio- nalmente. Já finalizamos a tabela de com- posição de alimentos para ruminantes para a região Nordeste e caminhamos para entregar produto semelhante para a região Sul.
No tema “Gestão da atividade leitei- ra”, quais foram as pesquisas conside- radas prioritárias? PA - Desenvolvimento de ferramentas para a gestão de propriedades e reco- mendações para a tomada de decisão tiveram 68% das indicações, cujos apli- cativos citados, quando avaliados por produtores, demonstraram sua capaci- dade de apoiar produtores e técnicos na tomada de decisões. Em seguida, foram consideradas prioritárias a elaboração de indicadores de sustentabilidade para sistemas de produção de leite (65%) e estudos sobre a inserção do Brasil no mercado mundial de leite e derivados e competitividade (60%). Esses temas permitem que a Embrapa Gado de Lei- te possa apoiar a formulação de políticas públicas e outros instrumentos de forta- lecimento da cadeia produtiva como, por exemplo, sua organização para se tornar exportadora regular de lácteos. Temos atuado em diversos fóruns de discussão, a começar pela Câmara Setorial do Lei- te do Ministério da Agricultura, contri- buindo com artigos, palestras e dados do mercado do leite e derivados publicados e disponíveis no nosso Centro de Inteli- gência do Leite (www.cileite.com.br).
Qual é o espaço reservado às inova- ções que envolvem o setor leiteiro? PA - Estamos empenhados em promo- ver o desenvolvimento de soluções que incluam automação, robótica e instru- mentação na pecuária de leite, como recomendado por 38% dos entrevista- dos. O sucesso das três edições da ini- ciativa Ideas for Milk, um ambiente de startup com empresas muito inovadoras disputando a preferência de investido- res e agentes tradicionais da cadeia do leite, é prova disso. Constituem hoje o primeiro ecossistema de inovação da cadeia do leite, demonstrando que o mercado leiteiro está preparado para embarcar na indústria 4.0, a partir de soluções com tecnologia digital. Nesse sentido, estamos preparados para atu-
ar com novos parceiros, no formato de inovação aberta, para entregar de modo mais rápido as tecnologias digitais de- mandadas para um novo contexto da produção leiteira no país.
O bem-estar animal também foi abor- dado pelos atores da cadeia? PA - Destaco dois pontos em relação ao bem-estar animal: indicadores e práticas de manejo para gado de leite a pasto, 58% das indicações, e resfriamento de vacas de alta produção, com 46%. Este último está relacionado a indicadores e práticas de manejo para gado de leite em sistemas compost barn (39%) e em siste- mas de confinamento free-stall (26%). A produção de leite a pasto vem sendo pes- quisada pelas equipes da Embrapa Gado de Leite e parceiros desde sua criação em 1976. Realizamos durante 30 anos
diversas pesquisas no modelo free-stall. Recentemente, finalizamos o acompa- nhamento de várias propriedades que utilizam o modelo compost barn, que nos permitiu, em meados de 2019, iniciar a montagem de uma instalação desse tipo, com o objetivo de gerar informações e indicadores confiáveis, além de desenvol- ver ferramentas de pecuária de precisão, automação e “Internet das coisas”, co- nectando diversos equipamentos e sen- sores para facilitar a tomada de decisão e aumentar indicadores de produtividade e de qualidade de vida dos produtores.
A qualidade do leite e derivados per- manece como preocupação constante para diversos setores da cadeia do lei- te, não? PA - Como esperávamos, a grande prio- ridade mencionada é a redução dos níveis das contagens bacteriana e de células somáticas (77%). Como somos depositários da coleção de milhares de microrganismos causadores de masti- te, trabalhamos com linhas de pesquisa muito sofisticadas, conhecendo em de- talhes estes organismos e os meios para combatê-los, tanto a partir da reação do animal, sua imunologia e suas defesas na- turais, quanto desenvolvendo fórmulas de antibióticos que usem técnicas de nano- tecnologia para aumentar a eficiência do tratamento. Fazemos estas pesquisas em parceria e queremos receber mais par- ceiros. Contamos com equipamentos so- fisticados e uma das equipes de pesqui- sadores e analistas mais jovens e melhor qualificados da unidade. Também fez parte das demandas a criação de métodos para identificar leite adulterado ou fraudes? PA - O monitoramento e o controle de resíduos químicos no leite, incluindo o leite adulterado e as fraudes, também se mostraram uma preocupação para 74% dos que responderam o nosso questio- nário. Constatamos ainda a necessidade de pesquisas para oferecer ao mercado métodos simples e baratos para análise da qualidade do leite e para detecção de resíduo e adulteração no leite. Estas prioridades de pesquisa serão amplia- das no futuro próximo, na medida em que possamos nos associar a empresas interessadas no desenvolvimento com- partilhado de produtos inovadores. Da
REALIZAMOS
EXPERIMENTOS
COM UNIVERSIDADES
E EMPRESAS DE
NUTRIÇÃO, A FIM
DE RECOMENDAR O
USO DE MISTURAS
DE ALIMENTOS
DISPONÍVEIS
REGIONALMENTE
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mesma forma, constatamos a convergên- cia da preocupação com contaminantes e fraude com a opinião de outros 54% dos respondentes, que indicam a necessida- de do desenvolvimento de soluções para a cadeia de valor do leite e derivados, como os produtos orgânicos, funcionais, certificados, rastreados, artesanais, pre- bióticos e probióticos. Para ampliarmos nossas entregas de soluções que tragam satisfação para produtores e consumido- res, deveremos buscar a interação com a rede Embrapa de Inovação, universi- dades e outras instituições de ensino, promovendo cada vez mais e nos apro- ximando do ecossistema de inovação da cadeia do leite, trabalhando próximos a empresas startups.
Com relação à saúde animal, quais fo- ram as maiores prioridades? PA - Além do controle e prevenção da mastite, citado por 84% dos partici- pantes, foram citados (69%) o controle de carrapatos, moscas e bernes, segui-
do pela prevenção e controle da diar- reia em bezerros, a tristeza parasitária e a rinotraqueíte (65%). Outros temas sugeridos foram a prevenção e o con- trole de doenças da reprodução (61%) e o desenvolvimento de novas vacinas, planos de vacinação e medicamentos (56%). É importante registrar que todos esses temas são linhas de pesquisas pe- renes na Embrapa Gado de Leite, sempre atuando com a contribuição imprescin- dível de parceiros. Portanto, todos eles serão mantidos em nossa programação de P&D com abordagens cada vez mais inovadoras, repito, usando nanotecnolo- gia, imunologia associada com estudos da genômica dos animais e também dos patógenos e ainda desenvolvendo solu- ções originais, como o controle biológi- co tanto dos causadores da mastite via bacteriófagos quanto de parasitas, algo que após muitos anos de pesquisas vem demonstrando ótimo potencial como prá- tica associada ao uso de pesticidas.
Quais foram as prioridades elencadas para os temas melhoramento genético e reprodução animal? PA - A escolha de raças/cruzamentos para diferentes ambientes e/ou sistemas de produção representa preocupação para 53% dos participantes do questio- nário. Porém, a seleção genética e ge- nômica para características produtivas, estresse térmico, resistência a carrapatos e doenças e teores de sólidos no leite fo- ram as questões elencadas como de mais alta prioridade (68%), o desenvolvimento de soluções que otimizem a cria e recria de bezerras (66%) e a definição de es- tratégias para melhoria do desempenho reprodutivo como otimização de proto- colos de IATF, para aumento da taxa de prenhez e manejo de vacas de transição, foram também ranqueadas como prioritá- rias. A Embrapa Gado de Leite coordena programas de melhoramento genético e de reprodução das raças leiteiras há mais de 35 anos, dada a importância da gené- tica para o aumento do potencial produ- tivo dos animais e o impacto econômico para toda a cadeia, incluindo o aumento de sólidos no leite. As pesquisas serão mantidas e ampliadas, novamente em parceria com empresas e associações de criadores e universidades tendo em vista que o uso de ferramentas de genômica e
de bioinformática permitem a seleção em tempo reduzido e com alto grau de con- fiabilidade.
E qual foi a percepção dos participan- tes a respeito das pesquisas sobre ge- otecnologias e soluções que envolvem meio ambiente? PA - O uso de imagens e tecnologias associadas para auxiliar a identificação das condições das pastagens e a toma- da de decisão foi indicado por 43% dos participantes, demonstrando a tendência crescente deste tipo de tecnologia no apoio à tomada de decisões, ao passo que a avaliação de impactos ambientais da atividade foi destacada em 39% das respostas. Maior frequência de respos- tas esteve direcionada ao uso eficien- te da água, nos aspectos de reciclagem e reutilização para a pecuária de leite (66%). Em seguida, elegeram a geração de energia a partir de fontes renováveis em propriedades leiteiras, como o biogás, no contexto do tratamento de resíduos da pecuária de leite e a fotovoltaica.
O sr. se surpreendeu com as respostas da pesquisa? PA - Sim. A Embrapa Gado de Leite está positivamente surpresa com a afinidade entre as pesquisas atuais e as expecta- tivas dos diversos setores da cadeia do leite. Vivemos momentos de dificuldades econômicas no país e a Embrapa não é uma exceção. Por isso, para acelerar o processo de produção das soluções, es- tamos buscando novas parcerias com empresas privadas e diversos segmentos da indústria, para trabalharmos no de- senvolvimento de soluções em inovação aberta. Temos na Embrapa Gado de Leite equipamentos e facilidades sofisticadas para a pesquisa com ruminantes e mes- mo outras espécies domésticas, como o laboratório multiusuário CMB, pronto para atender interessados em desenvol- vimento de soluções para a pecuária tro- pical. Convido empresas e pesquisadores interessados a virem conhecê-lo, com a facilidade de estar a cerca de 20 km do Aeroporto Regional da Zona da Mata. Mais informações deste e dos outros 15 laboratórios da Embrapa Gado de Leite e dos nossos dois campos experimentais estão disponíveis no site www.embrapa. br/gado-de-leite.
A EMBRAPA GADO
DE LEITE ESTÁ
POSITIVAMENTE
SURPRESA COM
A AFINIDADE
ENTRE AS PESQUISAS
ATUAIS E AS
EXPECTATIVAS DOS
DIVERSOS SETORES DA
CADEIA DO LEITE
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a subir e os preços do leite recuaram acentuada- mente. Os aumentos dos preços de itens ligados à alimentação do rebanho (concentrado, produção de volumosos e sal mineral) e de energia e combustível foram os principais responsáveis pela elevação dos custos de produção na atividade. Nesse cenário, o ano de 2018 iniciou com pre- ços do leite em patamares historicamente baixos associados a custos de produção crescentes, fa- zendo com que a relação de troca ao pecuarista, medida pela quantidade de litros de leite necessá- ria para compra uma saca de 60 kg de concentrado atingisse 45 litros em março: alta de 41% em um ano, comprometendo a rentabilidade do produtor. No segundo trimestre de 2018, os preços do lei- te apresentaram recuperação mais acentuada em função da entressafra, potencializada pelos efeitos da greve dos caminhoneiros ocorrida no final de maio. Essa greve afetou a produção primária com perdas de produção e comprometimento da ali- mentação dos animais, paralisou as atividades da indústria e consumiu os estoques dos laticínios e dos varejistas. Isso fez com que os preços do lei- te UHT no atacado saltassem de R$ 2,40 em maio para R$ 3,14 em junho, alta de 31% na média nacio- nal segundo dados do Cepea. No mesmo período, os preços do leite UHT ao consumidor registraram aumento de 15,6%, segun- do o IBGE. Essas valorizações também se refleti- ram nos preços do leite ao produtor, com aumento de 13% entre junho e julho. Entretanto, esse movi- mento de alta mais expressiva perdeu força rapida- mente com os preços na indústria e no varejo co- meçando a recuar já em agosto, enquanto o preço ao produtor começou a cair em setembro (figura 2). Um fator que não afetou muito o mercado in- terno em 2018 foi a importação de produtos lácte- os, que ficou abaixo dos anos anteriores. Em 2018, o Brasil importou, em média, 99 milhões de litros por mês. Em 2017, essa média mensal foi de 106 milhões de litros. No geral, as importações brasi- leiras de leite e derivados somaram US$ 485 mi- lhões no ano, queda de 13,6% em relação a 2017, sendo leite em pó e queijos os principais produtos internalizados. Além da demanda interna enfraquecida, a des- valorização da taxa de câmbio e o alinhamento do preço brasileiro ao internacional no período mais recente estão contribuindo para um menor volume de importação. As exportações, por sua vez, tam- bém estão menores que no ano anterior, totalizando US$ 58 milhões em 2018, redução de 48,2%. Leite condensado, queijos e creme de leite foram os prin- cipais produtos exportados pelo Brasil, sendo res- ponsáveis por 83% dos embarques (tabela 1).
O mercado brasileiro de leite mostra-se mais equilibrado em termos de oferta e demanda do produto. Isso porque a expansão da produção nacional ficou relativamente estável em 2018 na comparação com o ano anterior, o volume de im- portação foi menor e, apesar do consumo fraco, não houve excedente de produção. Nesse cenário, o ano iniciou com preços do leite ao produtor em patamares mais elevados que os valores recebidos no começo de 2018. Outro fator positivo para os produtores é a pre- visão de boa produção de grãos na safra 2018/2019, contribuindo para recuo nos custos de alimentação das vacas, sobretudo concentrados à base de milho e soja. Esse preço do leite ao produtor mais alto as- sociado à redução no preço de importantes insumos deve melhorar a rentabilidade das fazendas e cul- minar em expansão da produção de leite em 2019. Mas é preciso racionalidade na formação de pre- ços do leite. Movimentos muito acentuados de alta e baixa nos preços, com ocorreu nos anos anterior, gera problemas de gestão e confiança em toda a ca- deia produtiva. E o consumidor não deverá absorver altas acentuadas. As principais incertezas sobre o desempenho do setor lácteo em 2019 encontram-se no consumo. O crescimento da demanda por leite e derivados é fortemente influenciado pela economia. Com o fraco desempenho econômico do Brasil nos últimos anos é difícil que tenhamos crescimento muito forte na de- manda no curto prazo. Mas há espaço para expan- são do consumo, pois existe demanda reprimida que se arrasta dos anos recentes e algum crescimento econômico ajuda nas vendas de lácteos. As previsões iniciais de PIB para 2019 estão em torno de 2,0%, o que ainda é baixo, mas é o maior crescimento desde 2013 quando o PIB avançou 3,0%. Dessa forma, o cenário para 2019 sugere li- geira recuperação da oferta e da demanda propor- cionando inclusive alguma melhoria nas margens dos laticínios, que se encontram baixas desde me- ados de 2016. O que falta de fato para melhorar o desempe- nho econômico brasileiro e alavancar a demanda de alimentos e lácteos é confiança, que virá apenas com medidas concretas em relação às reformas, ao papel do Estado, ao ambiente de negócios e à es- tabilidade institucional. São questões que podem ajudar o crescimento econômico via investimentos e consumo das famílias. O desempenho econômico está muito atrelado às expectativas dos empresários e dos consumidores. Veremos como a equipe de go- verno avança nessa agenda.
Glauco Rodrigues Carvalho, pesquisador; Denis Teixeira da Rocha, analista. Ambos da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora-MG
Mercado do leite: fatores
que afetam os indicadores
A
s variações de preços do leite ao longo da cadeia estão constantemente na mídia, sen- do um ponto de atenção para os diferentes atores envolvidos. Entre os produtores, são comuns as discussões sobre o preço pago pelas indústrias, visto ser esse o indicador mais fácil de ser acompa- nhado na gestão da atividade e afetar diretamente sua renda bruta. Na indústria, há sempre os debates sobre o pre- ço a ser pago aos produtores pela matéria-prima fornecida, em função das duras negociações de
preços de seus produtos finais com os varejistas. Já os varejistas aproveitam-se de seu maior poder de barganha e da diversidade de fornecedores em busca de oferecer produtos a preços atraentes aos consumidores, sem afetar suas margens. Por fim, os consumidores, que têm o leite e os seus derivados como produtos essenciais de consu- mo e que apresentam grande peso na composição dos gastos com alimentação, estão sempre em busca de alimentos de qualidade e preços baixos. Apesar de todo esse destaque, o preço do leite
ANÁLISE
Denis Teixeira da Rocha e Glauco Rodrigues Carvalho
Nos últimos cinco anos, uma diversidade de fatores vem afetando os indicadores do setor leiteiro no país, do produtor ao consumidor
Preço a ser pago pelo leite é fator de constante debate na relação produtor e indústria
N. Rentero
FIGURA 1 - PRODUÇÃO BRASILEIRA DE LEITE SOB INSPEÇÃO NO PERÍODO DE 1997 A 2018 – EM BILHÕES DE LITROS
1997
10,
1999
11,
1998
11,
2000
12,
2001
13,
2002
13,
2003
13,
2004
14,
2005
16,
2006
16,
2007
17,
2008
19,
2009
19,
2010
20,
2011
21,
2012
22,
2013
23,
2014
27,
2015
24,
2016
23,
2018
24,
2017
24,
Fonte: IBGE (Pesquisa Trimestral do Leite)
FIGURA 2 - PREÇO REAL DO LEITE PAGO AO PRODUTOR, DEFLACIONADO PELO ICPLEITE/EMBRAPA: MÉDIA SEMESTRAL E MÉDIA DO PERÍODO DE 2014 A 2018
1º SEM 2014
2º SEM 2014
1º SEM 2015
2º SEM 2015
1º SEM 2016
2º SEM 2016
1º SEM 2017
2º SEM 2017
1º SEM 2018
2º SEM 2018
Fonte: Cepea e Embrapa, elaborado pelos autores
Nível de eficiência determina
lucro ou prejuízo no leite
A
nualmente, a Scot Consultoria calcula as ren- tabilidades médias das atividades agrope- cuárias e de outras opções de investimento de capital. Para este cálculo são utilizados modelos econômicos que levam em consideração fatores esti- mados para cada negócio agropecuário (índices téc- nicos, localização e estrutura produtiva), conforme o nível tecnológico. Neste sentido, ressalta-se que os resultados apre- sentados podem ter significativa variação, conforme alteração dos índices produtivos do seu negócio ou atividade. No caso da pecuária leiteira, os números mostram que 2018 foi um ano difícil. Aliás, os últimos anos foram complicados para o setor, que sofreu com a queda da demanda interna, a crise econômica e o aumento dos custos de produção. A rentabilidade média da atividade leiteira de alta tecnologia (25.000 litros/ha/ano) caiu pelo segundo ano consecutivo, passando de 2,08% em 2017 para 0,15% em 2018. Para os sistemas com produtivida- de média de 1.500 litros/ha/ano (baixa tecnologia) a rentabilidade foi negativa em 9,45%. Veja na tabela 1 as rentabilidades agropecuárias em 2017 e 2018. Apesar de, no cenário geral, 2018 ter sido um ano de valorização do preço do leite, quando o preço mé- dio pago ao produtor subiu 4,5% frente a 2017 (isso significa uma pequena valorização real se conside-
rar a inflação do ano passado, de 3,75%, segundo o IPCA [Índice de Preços ao Consumidor]), o indicador de custo de produção da atividade leiteira também apresentou incremento de 4,5% em relação a 2017. Ou seja, a margem do produtor foi prejudicada no ano passado, inclusive com prejuízos em diversos ca- sos. No caso da pecuária leiteira de baixa tecnologia, este foi o sétimo ano consecutivo de rentabilidade negativa. Foi o pior resu ltado dentre as atividades agropecuárias analisadas em 2018. Em termos práticos, isso significa perda de capital, do poder de compra e/ou de investimentos, que mui- tas vezes resultam na necessidade de venda de ativos por parte do produtor de leite. Por exemplo, venden- do parte da terra, para ir se “mantendo” na ativida- de. Este produtor, no entanto, está fadado a deixar o negócio no longo prazo. É o que se tem visto nos últimos anos na pecuária de leite nacional.
EXPECTATIVAS POSITIVAS DEVEM SE CONFIRMAR Em 2019, o cenário em termos de preços rece- bidos pelo produtor deve ser melhor no primeiro semestre, comparativamente com 2018. A aposta está na recuperação da demanda interna em con- junto com um cenário de oferta ajustada. A expec- tativa é de continuidade do crescimento do consu-
ANÁLISE
Rafael Ribeiro de Lima Filho e Juliana Pila
2018 foi difícil para o leite. Em 2019, o cenário deve ser melhor, com recuperação da rentabilidade, principalmente, pelos produtores eficientes
Rentabilidade deve ser maior, especialmente para os produtores mais tecnificados
Divulgação
Fonte: Scot Consultoria
TABELA 1 - RENTABILIDADES AGROPECUÁRIAS EM 2017 E 2018
ATIVIDADE 2017 2018 COMPARAÇÃO ARRENDAMENTO EM REGIÕES DE CANA 7,85% 7,44% PRODUÇÃO E FORNECIMENTO DE CANA 7,75% 7,11% AGRICULTURA ANUAL - SOJA E MILHO 2,92% 4,70% CICLO COMPLETO - COM APLICAÇÃO CRESCENTE DE TECNOLOGIA 5,04% 4,51% RECRIA E ENGORDA - COM APLICAÇÃO CRESCENTE DE TECNOLOGIA 5,02% 3,59% ARRENDAMENTOS GERAIS (MELHORES OPÇÕES) 3,08% 3,12% CRIA - COM APLICAÇÃO CRESCENTE DE TECNOLOGIA 2,41% 2,19% CICLO COMPLETO - BAIXA TECNOLOGIA 1,83% 1,59% LEITE ALTA TECNOLOGIA - 25.000 LITROS/HA/ANO 2,08% 0,15% RECRIA E ENGORDA - BAIXA TECNOLOGIA 0,10% -0,23% CRIA - BAIXA TECNOLOGIA -1,62% -1,80% LEITE DE BAIXA TECNOLOGIA - 1.500 LITROS/HA/ANO -8,47% -9,45%
FIGURA 1 - EVOLUÇÃO DAS RENTABILIDADES MÉDIAS DA ATIVIDADE LEITEIRA DE ALTA E BAIXA TECNOLOGIA, EM PORCENTAGEM
Fonte: ANBIMA / BC / B3 / FGV / Scot Consultoria
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
-1,
7,
12, 11,
8,07 (^) 7,
10, 7,
1,
3,
2, 0,
-0,
-0,
1,
-2,
-3, -3,
-7, -8,
-8,
-9,
mo interno, porém ainda abaixo de antes da crise. Do lado dos custos de produção, as perspecti- vas são de valores menores. No caso do milho, por exemplo, a maior disponibilidade nesta temporada deve manter o preço do cereal em patamares mais baixos que no ano passado. Também devemos ter um câmbio pesando menos sobre os preços dos in- sumos, como farelo de soja e fertilizantes. Em resumo, a rentabilidade do produtor deve- rá melhorar este ano, principalmente para os mais tecnificados e que fazem o planejamento no mo-
mento da compra dos itens que compõe os cus- tos de produção da atividade. No entanto, des- tacamos sempre a necessidade de melhoria dos indicadores zootécnicos, buscando o aumento da produtividade. Com margens cada vez mais estreitas, o ganho em escala produtiva é fundamental para bons re- sultados e manutenção dos investimentos na ativi- dade. Para isso, gestão, planejamento, eficiência na compra de insumos e melhoria na produtividade e na qualidade do leite são fundamentais.
Rafael Ribeiro de Lima Filho é zootecnista, MSC; Juliana Pila é zootecnista. Ambos são analistas de mercado da Scot Consultoria
Crescimento tímido na
captação dos principais
laticínios do país
O
tradicional levantamento anual realiza- do pela Leite Brasil, que compõe o 22º Ranking das Maiores Empresas de Lati- cínios do Brasil, edição 2018, apresentou cresci- mento em captação de apenas 1,2% em relação a
Em relação ao ranqueamento das empresas, poucas variações ocorreram na classificação ge- ral. O levantamento mais uma vez trouxe a Nestlé como primeira colocada, mesmo com a redução de 4,6% em sua captação no ano passado, caindo para 1,6 bilhão de litros. A queda também envol- veu o número de produtores contratados: 3. em 2018 contra 3.898 do ano anterior, queda de 22,9%. Em contrapartida, a média em volume de leite entregue por produtor apresentou aumento expressivo: 12,6%, com 829 litros/dia.
MENOS PRODUTORES, MAIOR PRODUÇÃO “Constatamos aumento da capacidade de pro- dução de leite de nossos parceiros. Estão mais profissionais e produtivos”, disse Rene Machado, gerente da multinacional suíça, ao jornal Valor Econômico. Nessa operação, a Nestlé elevou o nú- mero de produtores terceirizados e reduziu o de produtores associados, trabalhando em 2018 com 894 fornecedores a menos, o que representou ao todo 3.004. No comparativo volume de leite/pro- dutor entre 2008 e 2007, a empresa teve variação de -4,6% em captação e -22,9% em produtores. O mesmo ocorreu com a Unium (Frísia, Castro- landa e Capal), terceira colocada no ranking, que teve queda de 12,1% no número de produtores, mas o volume de leite por produtor/dia expan- diu 22,3%, e com a Embaré, quarta colocada, que captou 542,7 milhões de litros. O laticínio mineiro reduziu os fornecedores em 9,2%, mas teve a cap- tação aumentada em 6%. Na realidade, trata-se de uma tendência que está ocorrendo agora no setor por aqui e há muito tempo lá fora. No sentido quase inverso, o Laticínios Bela Vista (Piracanjuba), segundo colocado, apresen- tou 21,1% de produtores a mais para um aumento de captação de apenas 4,9%. Hoje possui 8. fornecedores, o maior número entre as empresas do levantamento. Além da Bela Vista, os únicos la- ticínios que apresentaram crescimento no número de produtores no ranking deste ano foram Danone (23,9%), Cativa (15,5%) e DPA Brasil (11,5%).
O ranking da Leite Brasil aponta que o grupo das 13 maiores empresas de laticínios do país apresentou expansão de 1,2% na captação comparada dos dois últimos anos
CLASS (1)
EMPRESAS MARCAS
RECEPÇÃO LEITE (MIL LITROS) NÚMERO PRODUTORES LEITE LITROS DE LEITE PORPRODUTOR/DIA
2017 2018 VAR.% TOTAL 2018/
2.017 2018
VAR.% TOTAL 2018/
2.017 2018
VAR.% TOTAL PRODUTORES TERCEIROS TOTAL PRODUTORES TERCEIROS TOTAL 2018/
1ª NESTLÉ 1.048.000 646.400 1.694.400 911.500 705.000 1.616.500 -4,6 3.898 3.004 -22,9 737 829 12,
2ª LATIC. BELA VISTA 869.357 452.971 1.322.328 1.109.157 278.002 1.387.159 4,9 6.633 8.030 21,1 359 377 5,
3ª UNIUM (3) 679.654 460.003 1.139.657 732.509 410.098 1.142.607 0,3 1.520 1.336 -12,1 1.225 1.498 22,
4ª EMBARÉ 382.813 186.472 569.285 369.465 173.305 542.770 -4,7 1.667 1.514 -9,2 629 667 6,
5ª AURORA 475.000 13.000 488.000 509.900 12.600 522.500 7,1 5.520 4.900 -11,2 236 284 20,
6ª CCGL 437.203 1.870 439.073 456.425 0 456.425 4,0 4.302 4.123 -4,2 278 302 8,
7ª JUSSARA 297.186 97.546 394.732 297.223 102.006 399.229 1,1 3.495 3.359 -3,9 233 242 3,
8ª DANONE 178.837 199.814 378.651 159.895 178.113 338.008 -10,7 213 264 23,9 2.300 1.655 -28,
9ª VIGOR 254.802 57.873 312.675 244.006 92.427 336.433 7,6 1.184 939 -20,7 590 710 20,
10ª CATIVA 180.293 11.811 192.104 221.717 78.548 300.265 56,3 2.036 2.351 15,5 243 258 6,
11ª DPA BRASIL 39.495 206.943 246.438 42.580 204.967 247.547 0,5 131 146 11,5 826 797 -3,
12ª CENTROLEITE 217.851 0 217.851 205.347 0 205.347 -5,7 3.832 3.624 -5,4 156 144 -7,
13ª FRIMESA 204.945 9.368 214.313 178.719 21.726 200.445 -6,5 2.859 2.524 -11,7 196 193 -1,
TOTAL DO RANKING (2) 5.265.436 2.217.222 7.482.658 5.438.443 2.135.944 7.574.387 1,2 37.290 36.114 -3,2 387 411 6,
ESTIMATIVA DA CAPACIDADE INSTALADA DE PROCESSAMENTO DE LEITE DAS EMPRESAS DO RANKING 2018 (MIL LITROS/ANO) = 10.429.
TABELA 1 - 22º RANKING MAIORES EMPRESAS DE LATICÍNIOS DO BRASIL - 2018
(1) Classificação base recepção (produtores + terceiros) no ano de 2018 (2) O total de terceiros não inclui o leite recebido de participantes do ranking devido à duplicidade (3) Intercooperação de Lácteos das Cooperativas Frisia, Castrolanda e Capal Fonte: LEITE BRASIL, CNA, OCB, CBCL, VIVA LÁCTEOS, EMBRAPA/Gado de Leite e G
ANÁLISE
O maior crescimento na recepção de leite, de 56,3% em relação ao volume verificado em 2017, ficou com a Cativa (Cooperativa Agro-Industrial de Londrina), 10ª colocada no ranking em 2018, que anunciou no ano passado a aquisição da Confepar, à qual anteriormente pertencia. Além da Cativa, in- tegravam a Confepar outras quatro cooperativas: Colari, Copagra, Cofercatu e Coopleite. Todas foram fundidas e agora integram a Cativa. Daí a principal razão para sua expansão na classificação geral. A Danone, por sua vez, continua à frente no
quesito quantidade de litros captados por produ- tor. Apresentou em 2018 a maior média, com 1. litros/produtor/dia, um volume 28,1% inferior ao ano de 2017, mas 10,5% superior ao segundo colo- cado, a Unium, que teve média de 1.498 litros/pro- dutor/dia e significou o maior crescimento neste item dentre as outras empresas, de 22,3%. A Dano- ne é a empresa que trabalha com o menor número de produtores no ranking, 264. A incorporação de 51 fornecedores a mais em 2018 explicou a queda de produtividade.
Consumo de leite e
derivados no Brasil
A
tualmente, 816 milhões de toneladas de lei- te são produzidas por ano no mundo e, em média, 116,5 equivalentes kg de leite são consumidos por habitante. E esses números têm au- mentado a cada ano, a taxas anuais médias de 1,2%, desde 1999, segundo o IFCN-Dairy Research Cen- ter. No Brasil, as taxas de crescimento anual do con- sumo de leite nos últimos dez anos são superiores ao crescimento mundial: média 2,7% ao ano. Em valores totais, o consumo de leite brasileiro só apresentou queda em 2001, 2003, 2015 e 2017. Mas, se for considerado o consumo per capita, este
vem caindo desde 2014, chegando ao nível de 166 litros de leite/habitante em 2017, valor que corres- ponde ao nível de consumo de 2012. De acordo com a Pesquisa Industrial Anual do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apresentada este ano, o leite longa vida é o derivado lácteo que apresentou o maior valor de vendas no setor em 2016, seguido de perto pelos queijos (figu- ra 1). O leite UHT foi o 27º produto industrializado mais vendido no Brasil em 2016. Dentre os alimen- tos, ele perdeu apenas para carnes, açúcar, cervejas e refrigerantes.
Kennya B. Siqueira
As taxas de crescimento anual do consumo de leite no Brasil são superiores ao crescimento mundial, mas vem caindo desde 2014
No entanto, apesar de ser o lácteo mais vendido no Brasil, são os queijos os produtos que têm apre- sentado maiores taxas de crescimento nos últimos anos (figura 2). Enquanto o valor de vendas de leite UHT cresceu 138% entre 2005 e 2016, o valor de venda dos queijos expandiu-se 509%, ultrapas- sando as vendas de leite longa vida no último ano. Em volume de vendas, o leite longa vida ainda lidera, com crescimento de 24% no período ana- lisado, chegando a 4,8 milhões de toneladas ven- didas em 2016. Já os queijos tiveram crescimento de 124% no volume total vendido no período de
2005 a 2016, atingindo a marca de 785 mil tonela- das vendidas em 2016. Com isso, o leite UHT teve sua participação re- duzida de 48% para 33% do valor total de vendas do setor. Os queijos saltaram de 12,8% para 23,7%. Isso mostra diversificação no padrão de compra de lácteos dos brasileiros em busca de produtos de maior valor agregado. Além de apresentar uma grande variedade de tipos, sabores e tamanhos, os queijos atendem às novas tendências de consumo de alimentos nutritivos e, ao mesmo tempo, práti- cos no consumo.
Kennya B. Siqueira é pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora-MG
FIGURA 1 - PARTICIPAÇÃO POR CATEGORIAS DE PRODUTOS LÁCTEOS NO VALOR DE VENDAS EM 2016
Fonte: MAGYP / Elaborado por Scot Consultoria
LEITE UHT
LEITE RESFRIADO
QUEIJOS
OUTROS
LEITE EM PÓ
BEBIDAS LÁCTEAS
MANTEIGA
IOGURTE
LEITE PASTEURIZADO
LEITES FERMENTADOS
LEITE CONDENSADO
CREME DE LEITE
DOCE DE LEITE
1,02%
1,46% 2,35% 2,84%
3,25%
4,21%
5,30%
6,51%
6,67%
7,50%
9,18%
24,84%
24,86%
Fonte: IBGE 2019
FIGURA 2 - EVOLUÇÃO DO VALOR DE VENDAS (R$) PARA OS DOIS PRINCIPAIS PRODUTOS LÁCTEOS BRASILEIROS NO PERÍODO DE 2005 A 2016
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
ANÁLISE
O leite tipo longa vida representa um terço do volume total do leite processado no país
Arquivo Piá
Desempenho do mercado
brasileiro de lácteos
D
e importador líquido nos anos 70, o Brasil está prestes a se tornar o maior produtor mundial de alimentos. Esse magnífico fei- to é atribuído aos seguintes fatores: existência de terras aráveis; políticas públicas de suporte à pro- dução e proteção ao risco; assistência técnica es- pecializada; forte empreendedorismo dos agentes econômicos, notadamente produtores; existência de retaguarda de dedicados cientistas em institui- ções de pesquisa aplicada, a exemplo da Embrapa e universidades, que adaptaram e desenvolveram tecnologias tropicais altamente competitivas. Certo é que o Brasil possui um grande potencial exportador de lácteos. Isso se deve pela abundân- cia dos principais fatores de produção (terra, capi- tal, trabalho e tecnologia) e por dispor de agrone- gócio pujante e altamente dinâmico. São notórios os ganhos de produtividade, de escala e de com- petitividade, que vêm acontecendo em importantes cadeias produtivas, a exemplo da soja, do milho, do algodão, da carne bovina, suína e frango. Infelizmente, esse desempenho não pode ser
encontrado na cadeia produtiva do leite. Quarto maior produtor mundial de leite em 2017, o Brasil ainda é importador de lácteos (figura 1). Observa-se que nos anos em que a produção (linha verde) foi maior que o consumo (linha azul), a produção per capita foi superior ao consumo apa- rente per capita indicando superávit no comércio internacional. O único período em que esse fato ocorre foi entre 2004 e 2008, quando o Brasil ex- portou mais do que importou. Antes de 2004, a diferença entre produção e consumo foi bastante acentuada, mostrando um país com elevadas importações de lácteos. Após 2008, o Brasil voltou à condição histórica de im- portador líquido de lácteos, mas em um patamar menor que no período anterior. Se analisarmos todo o período, de 1990 a 2019, pode-se afirmar que houve grandes avanços e que o padrão de importador líquido, em termos de volume, vem re- duzindo e esta parece uma tendência que está se consolidando. Dados do IBGE/Pesquisa Pecuária Municipal e
José Luiz Bellini Leite, João Cesar Resende e Lorildo Aldo Stock
É grande o potencial exportador de lácteos do Brasil, pela abundância dos fatores de produção e por dispor de um agronegócio pujante e dinâmico
do MDIC/Aliceweb mostram que a produção de leite no Brasil teve crescimento médio de 3,16% (1990 a 2000), 4,32% (2001 a 2013) e decrésci- mo médio de 0,56% (2013 a 2017). A produção manteve-se com crescimento firme desde a des- regulamentação do mercado em 1990 até a forte crise econômica e política que se instalou no país a partir de 2013. Os indicadores mostram ainda que as importa- ções tiveram crescimento médio de 7,1% de 1990 a 2000, decréscimo médio de 3,9% de 2001 a 2013 e voltou a crescer 4,5% de 2013 a 2017. O crescimen- to das importações no primeiro período estudado deveu-se à forte abertura comercial realizada pelo Plano Real, o que fazia parte da estratégia de im- portação e da estabilidade de preços internacionais.
PROJEÇÕES APONTAM PARA RECUPERAÇÃO NO CONSUMO Contudo, com a estabilidade econômica e o au- mento do poder de compra da população, o con- sumo aparente acompanhou o aumento de renda, apresentando expansão de 1,6% de 1990 a 2000 e de 2,7% de 2000 a 2013, com resposta positiva do setor produtivo, que chegou a um expressivo aumento de 12,4% somente em 1996. A redução de 1,2% no consumo no período sub- sequente foi em resposta à crise econômica e ao forte desemprego que se instalou no país. Para 2019, as projeções de consumo aparente mostram recupera- ção, mas ainda devem se manter no patamar de 2012. As importações brasileiras de lácteos não se- guem um padrão estável, tendo em certo período
grandes volumes de importação seguido de outros com baixa importação. As importações seguem uma dinâmica conjuntural, no que se refere a preço internacional, câmbio e necessidade de composi- ção de estoques e preço doméstico. Maiores volumes são internalizados principal- mente no período seco do ano, quando os preços do leite estão mais altos, sendo nossos principais fornecedores a Argentina e o Uruguai. Os princi- pais produtos importados são leite em pó integral e desnatado, queijos e soro de leite. Também sem um padrão bem definido, as ex- portações brasileiras de lácteos são oportunistas e eventuais, não criando condições de continuidade ou fidelidade com clientes, o que para o mercado é de alta relevância. Ainda se pode destacar que a qualidade dos produtos brasileiros, somada às questões de escala de produção e processamento, eficiência industrial e “Custo Brasil” (ligados à questão logística, tri- butária, regulamentação e burocracia), está entre os principais entraves à participação brasileira, de forma efetiva, no mercado mundial de lácteos na condição de exportador líquido. O Brasil possui grande potencial exportador de lácteos. Isso pela abundância dos principais fatores de produção (terra, capital, trabalho e tec- nologia) e por estar inserido em um agronegócio pujante e altamente dinâmico, com capacidade de prover insumos, empreendedores e mercado para que o setor lácteo brasileiro ganhe maior robustez e possa assumir papel protagonista no mercado mundial de lácteos.
José Luiz Bellini Leite, João Cesar Resende e Lorildo Aldo Stock, todos pesquisadores/analistas da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora-MG
FIGURA 1 - CONSUMO E PRODUÇÃO PER CAPITA DE LEITE NO BRASIL DE 1990 A 2019
FIGURA 2 - IMPORTAÇÕES BRASILEIRAS DE LÁCTEOS DE 1980 A 2019 (MILHÕES DE LITROS EQUIVALENTE)
Dados de 2018 estimados e de 2019 previsão
ANÁLISE
TABELA 5 - AUTOSSUFICIÊNCIA NO CONSUMO DE LÁCTEOS EM RELAÇÃO À PRODUÇÃO DE LEITE
TABELA 6 - EVOLUÇÃO DA MÉDIA ANUAL DO PREÇO DO LEITE AO PRODUTOR
TABELA 4 - CRESCIMENTO MÉDIO ANUAL DO CONSUMO PER CAPITA DE LÁCTEOS
TABELA 7 - EVOLUÇÃO DA MÉDIA ANUAL DO CONCENTRADO PARA A PRODUÇÃO DE LEITE
TABELA 8 - EVOLUÇÃO DA MÉDIA ANUAL DA MARGEM SOBRE O ALIMENTO CONCENTRADO NA PRODUÇÃO DE LEITE*
_ 1 kg de concentrado para cada litro de leite_*
C M Y CM MY CY CMY K
TrouwNutrition210x99.pdf 1 03/06/19 18:
Estagnação marca
economia e o leite
O
s números que recheiam o mais recente relatório anual da ABLV (Associação Brasi- leira do Leite Longa Vida) comprovam que 2018 foi de quase estagnação para a economia bra- sileira, que apresentou um PIB per capita crescendo apenas 0,3%. Do lado do setor leiteiro, a consequ- ência deste cenário foi refletida em vários indicado- res, como o consumo de lácteos, que teve variação negativa, caindo de 166 para 165 litros/hab/ano, en- quanto o leite UHT quebrou sua tendência anual de crescimento pela primeira vez em dez anos, recuan- do 145 milhões de litros em 2018 em relação a 2017. Outro exemplo nesse sentido foi observado na recepção do leite inspecionado, que cresceu apenas 0,5% no período comparado, continuando com um volume inferior ao captado em 2014. “Para se ter uma ideia do impacto no setor lácteo do de- sarranjo da economia pós 2014, basta mencionar que de 2008 a 2013 o leite inspecionado cresceu à taxa anual de 4,1%, acumulando de 22,1% no perí- odo, enquanto de 2013 a 2018 essa taxa caiu para 0,8%, acumulando apenas 3,8%”, observa Nilson Muniz, diretor executivo da ABLV.
A balança comercial de produtos lácteos do ano passado praticamente não se mexeu, manten- do déficit de pouco mais de 1 bilhão de litros de 2017, segundo o relatório da ABLV. Com isso, a chamada disponibilidade líquida formal do leite a ser processado pela indústria cresceu apenas 0,4%. “A participação no agregado entre os seg- mentos pouco se alterou, com o leite de consumo perdendo participação em relação aos produtos processados, ainda que com mudanças pouco ex- pressivas”, diz, lembrando que a contribuição do produto importado em 2018 ficou igual ao ano an- terior, 4,2%. Com esse resultado da balança comercial, o processo de substituição de importações de produtos lácteos, que parecia ter se recuperado em 2017, não se confirmou. E o produtor de leite tampouco foi estimulado a produzir, o que tam- bém não teria feito sentido num mercado de fraca demanda. “Mas o maior impacto no mercado foi provocado pela greve dos caminhoneiros ocorrida no mês de maio, que contribuiu para que o desem- penho da produção primária sofresse uma grande
A paralisia que marcou a economia brasileira em 2018 contagiou o setor leiteiro, que manteve captação estável e ligeira retração no consumo de leite fluido
queda adicional, gerando consequências nos me- ses seguintes e comprometesse o desempenho da produção formal”, analisa Muniz. Sobre o consumo de leite, as estimativas apon- tam que depois de 10 anos de crescimento ininter- rupto o leite de consumo formal registrou queda de 1,4%. Consumiu-se em 2018, nas suas diversas formas, 151 milhões de litros a menos. “Uma vez que o leite em pó de consumo cresceu, ainda que apenas 0,8%, os leites fluidos – pasteurizado e longa vida – foram os responsáveis por esse de- créscimo”, cita o dirigente, observando que o leite de consumo vem perdendo espaço para os produ-
tos processados no mundo inteiro. “Em razão dos percalços que têm vivenciado o país no seu processo de desenvolvimento, esta transferência entre segmentos tem sido mais len- ta. Mas tem acontecido, pois de 2009 para 2018 a participação dos produtos processados na desti- nação do leite disponível formal subiu de 52,4% para 56,7%. Mas já havia alcançado 57% em 2014, ano que marcou o início do retrocesso econômico do país. Embora não muito significativos, os leites fluidos achocolatados, aromatizados e especiais explicam uma parte dessa transferência para os processados”, avalia.
Depois de 10 anos de crescimento, o leite de consumo formal apresentou queda de 1,4% em 2018
N.Rentero
TABELA 1 - BRASIL - BALANÇO DO SETOR LÁCTEO(1)^ - 2009 - 2018 - EM MILHÕES DE LITROS
(1) Estimativas da ABLV, que tomou pro base várias fontes de informação (2) Produção total de Leite menos o Leite Inspecionado (3) De 209 a 2017 - IBGE - Ano de 2018 - Estimativa Fonte: Leite Inspecionado - (IBGE) - Balança Comercial de Lácteos (TerraViva)
Descrição 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 Leite Inspecionado 19.601 20.974 21.795 22.339 23.553 24.747 24.062 23.170 24.333 24. Destinação do Leite Inspecionado Leite Pasteurizado 1.790 1.690 1.625 1.430 1.340 1.220 1.094 1.105 1.120 1. Leite UHT 5.252 5.450 5.810 6.120 6.365 6.597 6.729 6.831 7.025 6. Leite em Pó 4.955 5.210 5.210 5.350 5.457 5.812 6.210 5.946 5.464 5. Queijos 5.700 6.465 6.722 6.980 7.466 7.983 8.000 7.830 8.105 8. Demais Produtos 1.904 2.159 2.288 2.352 2.570 2.737 2.293 1.940 2.216 2. Importação Total 1.086 1.178 1.279 1.247 1.052 722 1.057 1.845 1.257 1. Leite UHT 10 5 14 12 20 3 0,61 2,45 1 0 Leite em Pó 565 446 795 900 678 477 814 1.363 889 831 Queijos 160 219 372 299 327 218 225 444 338 314 Demais Produtos 351 508 98 36 27 24 17 35 29 25 Exportação Total -394 -300 -180 -158 -174 -488 -470 -274 -180 - Leite UHT -6 -0,03 -1,2 -0,07 -0, Leite em Pó -113 -41 -46 -105 -120 -427 -420 -220 -118 - Queijos -58 -43 -35 -26 -30 -28 -26,5 -32 -37 - Demais Produtos -223 -216 -93 -27 -24 -33 -23 -22 -25 - Balança Comercial - Superávit/Déficit 692 878 1.099 1.089 878 234 587 1.571 1.077 1. Disponibilidade Líquida Formal 20.293 21.852 22.894 23.428 24.431 24.981 24.650 24.741 25.410 25. População 188,5 190,7 193,0 195,2 201,0 202,8 204,5 206,1 207,7 208, Consumo Aparente Per Capita Formal 108 115 119 120 122 123 212 120 122 122 Leite Informal (2)^ 9.511 9.739 10.301 10.077 10.702 10.427 10.938 10.455 9.158 8. Disponibilidade Líquida Total 29.804 31.591 33.195 33.505 35.133 35.408 35.588 35.196 34.568 34. Consumo Aparente Per Capita Total 158 166 172 172 175 175 1741 171 166 165 Produção Total de Leite (3)^ 29.112 30.713 32.096 32.096 34.255 35.174 35.000 33.625 33.491 33.
ANÁLISE
Girolando: dos cruzamentos
aleatórios até a seleção genômica
O
s primeiros cruzamentos da raça Holan- desa com a raça Gir no Brasil surgiram na década de 1940 com o intuito de permitir que os animais nascidos a partir dessas duas raças aliassem a alta capacidade de produção de leite das vacas da raça europeia à rusticidade da gené- tica Gir. Os produtos desse cruzamento passaram a se destacar pela excelente produtividade, pela alta fertilidade e pelo bom vigor. Em virtude dessas virtudes, a prática desse tipo de cruzamento espalhou-se rapidamente por todo o país e, em pouco tempo, já era o gado predomi- nante na maioria dos currais brasileiros. Segundo os mais antigos criadores e produtores de leite, este cruzamento surgiu por acaso, quando um tou- ro Gir invadiu as pastagens vizinhas e acabou se acasalando com vacas da raça Holandesa. Com o passar dos anos, os cruzamentos para a produção de leite tomaram tamanha importância que muitas instituições de pesquisas e extensão rural passaram a estudar e a explorar esse recurso visando a melhoraria da qualidade dos produtos.
Nesse sentido, foi criado em 1978 o Programa de Cruzamento Dirigido (Procruza) com o objetivo de selecionar gado de leite e de corte em todos os graus de sangue. Por subdelegação da ABC (Associação Brasilei- ra de Criadores), a Associação dos Criadores de Gado de Leite do Triângulo Mineiro e Alto Para- naíba (Assoleite) se tornou a entidade encarregada de executar o Procruza. Em 1988, o Ministério da Agricultura determinou o fim do programa. No ano seguinte, a Assoleite obteve registro junto ao Ministério e se tornou responsável pelo programa de formação da raça Girolando, tendo a denominação modificada para Associação Nacio- nal dos Criadores de Girolando. Em 1996, com a oficialização da raça, a entidade passou a ser cha- mada Associação Brasileira dos Criadores de Giro- lando, com sede localizada em Uberaba-MG.
RAÇA PARA PRODUZIR COM SUSTENTABILIDADE A raça Girolando foi criada objetivando a for-
GIROLANDO 40 ANOS
Marcos Vinicius G. Barbosa da Silva, Joao Cláudio do Carmo Panetto, Marta Fonseca Martins e Marco Antonio Machado
O primeiro cruzamento de Holandês com Gir foi por acaso, mas hoje a seleção genômica garante precisão e evolução na melhoria genética da raça
Touros da raça são avaliados e selecionados de rebanhos Girolando de qualidade comprovada
Divulgação
TABELA 1 - NÚMERO DE REBANHOS E DE LACTAÇÕES, MÉDIAS DE PRODUÇÃO DE LEITE EM 305 DIAS E TOTAL DAS TRÊS PRIMEIRAS LACTAÇÕES, DURAÇÃO DA LACTAÇÃO, INTERVALO DE PARTOS (IP) E IDADE AO PRIMEIRO PARTO (IPP) DE VACAS DA RAÇA GIROLANDO NO PERÍODO DE 2000 A 2017
1Dados de IP incompletos, 2Incluídas apenas as lactações encerradas até outubro/
Marcos Vinicius G. Barbosa da Silva, Joao Cláudio do Carmo Panetto, Marta Fonseca Martins e Marco Antonio Machado. Todos pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora-MG
mação de um grupamento étnico capaz de produzir leite de modo sustentável nas regiões tropicais e subtropicais. Ela é fundamentada no cruzamento das raças Holandesa (hol) e Gir (gir), passando pe- las composições raciais, desde 1/4 hol + 3/4 gir até 7/8 hol + 1/8 gir. No entanto, o direcionamento dos acasalamen- tos busca a fixação do padrão racial na composi- ção racial 5/8 hol + 3/8 gir, com o objetivo de ter um gado produtivo e padronizado que atenda às necessidades dos produtores de leite. Os animais advindos do acasalamento entre in- divíduos 5/8 são considerados como Puro Sintético (PS) da raça Girolando, ou seja, a raça propriamen- te dita. Os requisitos exigidos pelo regulamento do Serviço de Registro Genealógico da Raça Girolan- do estão disponíveis no site da Girolando (www. girolando.com.br). O teste de progênie da raça Girolando começou a ser realizado em 1997, resultado de uma parceria da Girolando com a Embrapa Gado de Leite. No ano de 2007, foi implantado o Programa de Me- lhoramento Genético do Girolando (PMGG), o que permitiu não somente a interação com os progra- mas já existentes na Associação, como o serviço de registro genealógico, o teste de progênie e o serviço de controle leiteiro, mas também a criação do sistema de avaliação linear (SALG). O PMGG tem como objetivos principais a identificação de indivíduos superiores, a multi- plicação genética de forma orientada, a avalia- ção de características econômicas e a promo- ção da sustentabilidade da atividade leiteira. Os resultados do programa têm sido ex- pressivos. A raça Girolando é a que mais cres- ce na produção de sêmen no Brasil, chegando à marca de 579.438 doses produzidas no ano de 2017, o que representa aumento de mais que 8% em relação ao ano de 2016. Somente no primeiro semestre de 2018, mais de 265. doses de sêmen de touros Girolando foram produzidas. Segundo o relatório divulgado em fevereiro de 2019 pela Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial), em 2018, o Brasil ex- portou 418.988 doses de sêmen. As raças lei- teiras foram as mais procuradas, sendo que a raça Girolando foi a líder de vendas. Outro dado importante a ser ressaltado é o crescente aumento na produção de leite das va- cas Girolando, considerando as três primeiras lactações: enquanto em 2000 a produção era 3.599 kg em até 305 dias no ano, em 2016 esta
produção passou a ser de 5.445 kg no mesmo período, o que representa um incremento de 51,29% na produção leiteira (tabela 1). SELEÇÃO GENÔMICA COM DIFERENTES FINALIDADES Visando a redução do intervalo de gerações e a diminuição do custo do teste de progênie por meio do aumento da confiabilidade na seleção dos ani- mais, desde 2017 a seleção genômica vem sendo utilizada na raça Girolando de diferentes maneiras. Com o desenvolvimento do Clarifide Girolando, ferramenta genômica gerada a partir de parceria entre a Embrapa Gado de Leite, a Associação Bra- sileira de Criadores de Girolando, a CRV Lagoa e a Zoetis, tornou-se possível selecionar com segu- rança as fêmeas jovens que se tornarão vacas de produção e mães de touros. Ainda, na seleção de touros, o Clarifide Girolan- do é usado para identificação dos melhores animais em cada propriedade para inclusão na pré-sele- ção. É importante ressaltar que a pré-seleção foi implantada de modo a evitar a inclusão de touros com baixa qualidade de sêmen, o que se reflete negativamente na distribuição para os rebanhos colaboradores. Durante a pré-seleção são realizados três tipos de avaliação: andrológica, morfológica (ligada ao tipo funcional) e de temperamento. Ao final da pré- -seleção, os valores genômicos são também usa- dos em um índice, juntamente com desempenho re- produtivo, morfologia e medidas de temperamento, para classificação final dos animais e entrada dos melhores no programa de teste de progênie. Essa informação também pode ser utilizada para anteci- pação da publicação da prova dos touros. A implantação do teste de progênie, em 1997, foi um marco importante para a implementação de um programa de seleção de sucesso, o qual tem mos- trado ganhos genéticos expressivos ao longo dos anos. Entretanto, um programa de melhoramento precisa ser dinâmico, tendo de ser aperfeiçoado e redirecionado constantemente, a fim de acomodar novos objetivos de seleção, mais características e metodologias precisas para a predição dos valores genéticos, o que tem sido feito pela Embrapa e pela Girolando e configura-se exemplo de sucesso em parceria público-privada. Espera-se que, em pouco tempo, com o uso massivo da seleção genômica, o PMMG tomará mais um impulso, reduzindo os gastos com o teste de progênie e aumentando a eficiência do proces- so, refletindo-se de modo muito positivo para o aumento da produção de leite no Brasil.
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