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depois da astrologia tem sua função proeminente. Lilith, em um certo sentido, sofre uma cisão; de um lado permanece como espírito maligno terrestre ...
Tipologia: Resumos
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Não perca as partes importantes!





























































































Roberto Sicuteri
Tradução: Norma Telles e J. Adolpho S. Gordo
3ª Edição
Paz e Terra
Desde o início de sua criação, foi somente um sonho. RABI SIMON BEN LAQISH
A ausência de satisfação faz com que os objetos de amor surjam aos nossos olhos como envoltos em um mágico véu, e tenham aquela aparência de periculosidade que constitui o seu fascínio.
TH. REIK
Na aurora do mundo, Jeová Deus pensou em criar o homem para que pudesse se tornar o coroamento da Criação. E Deus disse: "Façamos o homem, que seja a nossa imagem, segundo a nossa semelhança". Assim, Ele estendeu a sua mão sobre a superfície da Terra, talvez ali onde estava o monte Moriah e, apanhando poeira fina, misturou-a com outra terra das quatro partes do mundo, borrifada com água de cada rio e cada mar existente. Uma massa de epher , dam , marah (pó, sangue e bile) que deu vida a Adão, o primeiro homem vivente. Jeová Deus colocou Adão no Jardim do Éden para que lhe fizesse honra. Qual era a natureza do primeiro homem? Conheceu ele a aspereza da solidão e da própria singularidade? Talvez observasse tantos animais entre seus semelhantes — cavalos, cabras, pássaros, répteis e peixes — que se admirava de se ver só. Nós pensamos na primeira estrutura afetiva e sexual de Adão em termos antropológicos, mas existe um mistério ainda mais obscuro que devemos encarar, quando se fala da primeira companheira do homem, de sua primeira esposa. É a mitologia bíblica que nos ajuda a imaginar Adão — em sentido psíquico — como um verdadeiro e real androgginos , isto é, macho e fêmea. No Gênesis I, 27 é dito: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou". É a passagem mais densa de mistério, pois introduz o conceito da androginia no indivíduo segundo o supremo princípio da harmonia total do Uno que é feito de Dois; mas é também conceito que consente em perpetuar na terra — mediante a multiplicação da espécie na união do macho com a fêmea — a imagem de Deus, pois o homem lhe é semelhante. Adão trazia em si, fundidos, o princípio masculino e o princípio feminino e tais princípios só depois foram separados sucessivamente. Já está implícita a resposta: Adão teve duas naturezas femininas , duas companheiras. Mas procedamos com ordem ao analisar o mito da primeira esposa do homem. Muitas são as fontes que permitem ver, nas aparentes contradições dos vários capítulos do Gênesis , uma criação da mulher que respondia primeiro a motivações teológicas e, depois, a justificações antropológicas. Adão era em si andrógino. No Livro do Esplendor — o Sepher Ha-Zohar — é citada esta passagem:
Rabi Abba disse: O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança {Gên. I, 26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo.^1
O enigma está no versículo citado do Gênesis onde é dito "... o criou" e logo após é dito em vez "os criou". Adão teria sido, pois, para o Gênesis I, 26-27, dois em um, homem e mulher. Ainda o Rabi Simeão, no Zohar, fala assim: Está escrito — Os criou macho e fêmea — {Gên. V, 2). Estes dois versículos do início do quinto capítulo do Génesis encerram grandes
Na nota ao texto é explicado que o termo "orifícios" é escrito em hebraico com as mesmas letras do termo "fêmea". Não insistamos nas citações rabínicas e passemos a considerar que também em Platão, no Banquete (189d a 190d), é mencionado claramente o mito do primitivo homem hermafrodita. Para nós é interessante esta hipótese, porque em nosso estudo queremos ver como se separou o feminino do masculino. Fontes mais próximas de nós oferecem um estudo onde se atribuem também aos babilónicos opiniões relativas à androginía do primeiro homem.^5 Fílon de Alexandria teve uma intuição análoga, sobre um Adão bifronte ou hermafrodita com uma estrutura que evoca os "irmãos siameses". Também Benz segue o mito do andrógino, dos gnósticos até os místicos modernos.^6 Theodor Reik, na sua Psicanálise da Bíblia , cita outros autores que seguiram esta hipótese: Judah Abravanel de 1525, depois o Misterium Magnum de Jacob Böhme (1630), o próprio Swedenborg, o russo Berdjaiev e o filósofo espanhol Leão Hebreu na sua obra Dialoghi d'Amore. Esta androginia de Adão é o semblante simbólico de Deus, mas o hermafroditismo, no que concerne à organização sexual e afetiva de Adão, faria pensar em uma completa harmonia do ser? Não havia ainda nenhuma negação possível? É uma coisa obscura. Aqui, em realidade, não se concilia o significado teológico rabínico do andrógino, como semelhança da totalidade do divino, com o fato de que o primeiro Adão tinha, evidentemente, uma sexualidade de todo indiferenciada. Mesmo no Génesis bíblico coloca-se em evidência um comportamento sexual que parte de uma perversão. Este Adão tinha os cabelos semelhantes aos de uma mulher, com espessas ondas: um esplêndido herói parecido a Enkidu, o épico homem do Poema de Gilgamesh. Como era este Adão? O Comentário ao Gênesis de Beresit-Rabba responde:
Mais uma confirmação da singularidade corpórea de Adão:
Disse R. Ahà: Eu sou o Senhor (Is. 42,8) e este é o meu Nome com o qual me chamo Adão. Tornou a lhe fazer passar à frente os animais em casais. Disse Adão: Cada um tem o seu companheiro, mas eu não tenho companheiros.^8
Eis a mais interessante indicação de uma natureza semi-animal do primeiro Adão. O Gênesis não é explícito sobre este particular, mas a sabedoria rabínica coloca um problema evolutivo bem claro. Para nós isto serve para demonstrar a originária harmonia psicosse-xual do homem, na medida em que Adão exprimia certamente uma sexualidade em estado primário, acasalando-se com os animais que encontrava. Não é possível que se trate somente de fantasias inconscientes removidas em germinação no folclore hebraico, porque os traços dessas experiências sexuais bestiais dos primeiros homens existem. Enkidu vivia com as gazelas e se acasalava com outros animais selvagens perto das margens dos rios. E é possível — como sustentou Morris Jastrow — que em Enkidu fosse projetada, pelos babilônicos, a imagem do primeiro Adão. Enkidu era certamente hirsuto, de proporções e força excepcionais, e vivia com os animais,
... comendo a relva com as gazelas bebendo nos córregos como os bois brincando com as criaturas da água,
e quando Enkidu encontra a companheira, a sua Eva, deita com ela por sete dias e sete noites:
... depois que saciou seu fascínio voltou o olhar para os animais. As gazelas que repousavam viram Enkidu os animais do campo se afastaram dele. Enkidu se prostrou, se sentiu desfalecer e seus membros se enrijeceram não apenas os animais se foram.^9
É claro que Adão-Enkidu — e nos parece justa a observação de Reik — se afastou das práticas sexuais indiferenciadas quando conseguiu reconhecer a mulher. De resto, o Adão bíblico pede uma companheira apenas porque estava insatisfeito. O Gênesis diz: "Não é bem que o homem esteja só" { Gên. II, 18). Por isto este estado de Adão aparece sucessivamente na primeira versão "E os criou macho e fêmea" (Gên. I, 27). Nesta fase, isto é, quando proclama sua solidão, Adão ainda é andrógino, talvez em sentido psíquico, mas ignora a alteridade sexual; é ainda animal. No Beresit-Rabba, como dissemos, há a revelação desta natureza animal. Reportemos do texto crítico:
Seguramente a narração rabínica faz uma metáfora quando diz que Adão "deixará pai e mãe" para unir-se à mulher. Assim fica velado o desinteresse da inferioridade animal em orientar-se para uma companheira mais digna. Jeová Deus não havia até então encontrado para Adão "Um ajudante que fosse semelhante a ele" ( Gên. II, 22). Como explicar de outra maneira o hábito dos primitivos de figurar deuses e heróis com critérios teriomorfos ou parcialmente monstruosos, híbridos, se não pela óbvia familiaridade natural que o primeiro homem tinha com a sexualidade animal? Sabemos que os pastores, das perdidas e desérticas terras do Oriente Médio, tinham seguramente a prática de se unir aos animais para descarregar o ímpeto arcaico de seu instinto sexual. E a prova destas práticas nos vem das repetidas prescrições repressivas das Escrituras cabalística e talmúdica. No Deuteronômio , XXVII, 21 os Levitas, entre outros, lançam também esta maldição:
Maldito aquele que deita com qualquer animal.
No cap. XV do Comentário do Beresit-Rabba existem outras indicações que excluem a hipótese de um equívoco semântico, onde "animal" pudesse ser entendido também como "vivente", porque aqui se fala de homem e de animal: Observa como está escrito:
Se uma mulher se encostar em um animal para acasalar-se com ele, matarás a mulher e o animal (Lev. XX, 16). Se o homem pecou, que
O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se coloca lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes. Sabemos que tais versões do Gênesis — e particularmente o mito do nascimento da mulher — são ricas de contradições e enigmas que se anulam. Nós deduzimos que a lenda de Lilith, primeira companheira de Adão, foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, que logo após sofre as modificações dos Pais da Igreja. No Zohar, nos escritos sumérios e acadianos, nos testemunhos orais dos rabinos sobre o Gênesis , encontramos tesouros preciosos e sugestões de extraordinário vigor para estimular o nosso mundo imaginário. Quem abre pela primeira vez o Livro do Esplendor, ou aquele precioso afresco que é o Beresit-Rabba, se sente repentinamente dominado por uma violenta emoção e invadido de inquietude fascinante: é como se achar diante do testemunho ignoto da verdade e da sabedoria, diante daquele que sabe dentro de cada um de nós, jacente no inconsciente e que se reaviva e nos fala através de uma linguagem arcaica e potente escandida na palavra hebraica. Estes grandes testemunhos depositários da Torah (o Ensinamento) e dos Midrash (a Procura) contidos na Misnach (coleção de Códigos) são certamente dos Rabis iluminados pelo carisma e pela fé, mas são também os testemunhos de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos populares, que os Rabis usavam como reflexão viva baseada em analogias para estabelecer a verdade hermenêutica sobre as origens do mundo e do Homem. Nós acreditamos poder dizer, hoje, que a sabedoria dos jeovistas e a leitura dos textos muito remotos nos suscitam maiores energias e incitam à reativação dos arquétipos e mitos do inconsciente coletivo, ao contrário do que o faz o depoimento sacerdotal. A Torah assírio-babilônica e hebraica nos permite um jogo mais livre na interpretação latente, nos restitui mundos imaginários que mais facilmente se subtraem à desconfiança ditada pelo ceticismo racional, produto da sabedoria cristã e católica em particular. Não nos interessa aqui, por exemplo, tentar a solução ou a sistematização da secular controvérsia entre as duas versões ou criticar a destruição e as alterações consumadas nas Sagradas Escrituras dos cristãos; o que nos guia não é o interesse teológico, mas o psicológico, pela redescoberta da lenda de Lilith para agregá-la, como energia psíquica formadora do mito e do arquétipo, ao núcleo concernente à história da relação entre Anima e Animus e para entender as origens endo-psíquicas da cisão entre "instintivo" e "pensamento", para esclarecer, finalmente, o grande equívoco do primado masculino sobre a mulher sentida como inferior. Toda a história psicológica da relação homem-mulher, como diz James Hillman, é uma série de notas de rodapé à história de Adão e Eva.^13 Nada pode ser demonstrado racionalmente: a verdade sobre a tradição primitiva e arcaica germinada na aurora do mundo não pode se achar nos pontos de vista divergentes das duas escolas ou dos alinhamentos; a verdade está, para nós, além deles, muito além, e num plano totalmente diferente. "Desde o início de sua criação, foi somente um sonho", disse uma vez o Rabi Simon ben Laqish: e o sonho, para o homem, é a voz potente de seu espírito e de sua profundidade interior. No sonho não existe espaço para verdade ou inverdade, para a lógica ou a fantasia. No sonho está o homem inteiro , com tudo aquilo que ele sabe conscientemente e com tudo aquilo que ele não sabe e talvez possa não saber jamais. Se a criação e o próprio homem não são nunca outra coisa que um sonho, então esta é
mas: no lugar deles ;^17 isto não se refere de modo manifesto ao osso ou às costelas, ainda que seja simbólico. "No lugar dele" refere-se, ao contrário, a Adão como singular, e a correção do rabino é no plural, aparece deles. Por isso a parte que foi tomada devia ser a resultante dos dois, isto é, "dois em uma carne só." A costela (ou o osso) aqui é o símbolo da nova entidade que nasce deles , isto é, o casal. É evidente que isto quer dizer que o casal já existia antes do "nascimento" de Eva! A prova está implícita no Gênesis V, 2 que — se necessário — complica ainda mais o enigma:
No dia em que Deus criou Adão o fez à semelhança de Deus; e macho e fêmea os criou, os abençoou e os chamou homens no dia em que os criou.
E, para esclarecimento, seguindo passo a passo a citação bíblica:
Jeová Deus construiu com a costela que havia tirado do homem formando uma mulher, e a conduziu ao homem. Então o homem disse: — Desta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne! ( Gênesis II, 22-25).
Como não perceber o assombro e a alegria de Adão, como se fosse, finalmente, reanimado e se reconciliasse com Deus porque "desta vez" o presente de uma fêmea é certo e belo! Há nesta exclamação a confirmação de uma "primeira vez", referindo-se a uma mulher precedente. Ou indicaria que "desta vez" se trata de uma fêmea humana e não de uma fêmea animal que Adão já havia repudiado? De qualquer modo somente o Comentário do Beresit-Rabba nos ajuda a compreender:
R. Jehudah em nome de Rabi disse: No princípio a criou, mas quando o homem a viu cheia de saliva e de sangue afastou-se dela, tornou a criá-la uma segunda vez, como está escrito: " Desta vez. Esta e aquela da primeira vez".^18
E então, quem era esta mulher da primeira vez, descrita de maneira a provocar o desgosto de Adão? Quem era esta primeira obra de Deus, cheia de saliva e sangue? Nós pensamos em Lilith. A primeira companheira foi Lilith, cheia de sangue e saliva. Detenhamo-nos neste momento particular porque é fundamental. Deus a criou no princípio , isto é, no início da criação; mas como era esta fêmea? Era tal que provocava em Adão uma sensação desagradável ou angustiante. O que significa este sangue? O que significa esta saliva? Se associarmos, deixando livre a imaginação, pensamos no sangue menstrual, aqui, talvez, usado como metáfora alegórica, para fazer perceber o caráter carnal, fisiológico, vital, instintivo da mulher. "... a viu cheia de sangue": pode-se pensar na experiência sexual livre de tabus e proibições (pensa-se na repressão do desejo sexual e, em consequência, do coito durante o ciclo menstrual, que vigora como tabu ainda em nossos dias) ou também aqui é dissimulada a visão da mulher "lasciva". ..? A saliva que enchia ou cobria esta fêmea é um símbolo ainda mais indicativo. A associação com um equivalente mágico da libido é evídentíssima. A saliva é um componente claramente sexual possivelmente reconduzível, por via psicanalítica, à secreção erótica ou ao transvasamento mágico da saliva no beijo profundo. Sangue e saliva pertencem à mulher da primeira vez. Adão se afasta desgostoso, isto é, amedrontado — como veremos mais à frente — com a realidade da primeira companheira. Tanto que Deus teve que fazê-la uma segunda vez, e esta foi Eva. A verdade é que aqui as interpretações abundam. Alguns dizem que a mulher
da primeira vez era aquela que Adão sonhou eroticamente, enquanto Eva é a materialização do sonho. Mas a palavra "vez" significa também perturbação, paam em hebraico. Então pode-se também inferir que a primeira mulher era capaz de instigar em Adão uma insustentável perturbação. Outras fontes apresentam com mais clareza a criação de Lilith e de outras companheiras antes de Eva. Os comentários cabalísticos sobre o Pentateuco reunidos pelo Rabi Reuben ben Hoshke Cohen citam uma nítida lenda do nascimento de Lilith. Reproduziremos o resumo que nos dá Graves em seu texto:
Deus então criou Lilith, a primeira mulher, assim como havia criado Adão, mas usando fezes e imundície ao invés de pó puro.^19
A afirmação de que Lilith havia sido criada com pó negro e excrementos nos faz refletir. Sabemos que em hebraico o verbo "criar" é semelhante ao verbo "meditar", por isso é de se supor que Jeová Deus tivesse em mente a criação da mulher como uma criatura predestinada a ser inferior ao homem. Seguramente aqui interveio a agressividade masculina inserida na sociedade hebraica estruturada rigidamente em sentido patriarcal com acentuação dos valores patrilineares. Na criação de Lilith está implícita a perda da unidade mágico-religiosa dos dois sexos na pessoa única do "homem". A mulher, evidentemente, enquanto reprimida e comprimida sob a autoridade do macho, tentava reconquistar, então, a paridade. Lilith nasceu das mãos de Jeová Deus, impura, humana: um Adão, portanto. Mas quando nasce Lilith? E qual a sua natureza? A fonte de Yalqut Reubeni diz textualmente:
Da união de Adão com este demónio (isto é, Lilith) e com outro chamado Naamah, irmã de Tubal Cain, nasceram Asmodeo e inumeráveis demónios que ainda martirizam a humanidade.^20 .
Lilith é então apontada não como mulher, mas como demônio, desde o início da relação com Adão. E por quê? Há uma clara explicação, a nosso ver, que deriva do cômputo do calendário hebraico que foi considerado pela tradição jeovística quando se tratou de fixar os sete dias da criação. É em relação aos dias da Gênese que nós devemos indagar sobre o "nascimento" de Lilith; e é neste lapso das Escrituras que se oculta a remoção patriarcal da natureza de Lilith, primeira mulher! Em um certo sentido, é Lilith o produto simbólico de uma distração formidável do Deus hebraico? Por isto — nos perguntamos — foi condenada a partir? Eis a resposta, no Beresit- Rabba:
5... E fez Deus os animais selvagens da terra ( Gên. I, 25)... Disse o Rabi Hamah b. Oshajjh. Seres viventes nomeia quatro, mas quando foram criados eram três: Animais domésticos segundo sua espécie; animais selvagens segundo sua espécie e todos os répteis da terra segundo a sua espécie. O Rabi disse: O quarto(ser) se refere aos demônios , dos quais o Senhor, Ele seja abençoado, criou a alma, mas quando ia criar o corpo, estava para começar o Sábado, e por isso não o criou, para ensinar os bons usos aos demônios [... ] Aquele que falou, e existiu o mundo, se ocupava da criação do universo, criou as almas dos demónios, mas quando ia criar seus corpos, chegou o Sábado e não os criou.^21
Então Lilith nasce com Adão, logo após Adão: répteis, demônios e Lilith foram as últimas criações de Deus no sexto dia, exatamente nas horas do entardecer
testemunhos da Torah temos a descrição da primeira mulher que, subentendida no Gênesis , deveria ser Eva. Mas há aquela passagem do Beresit-Rabba onde se fala de uma outra mulher, aquela cheia de saliva e sangue, que perturba Adão; de Eva, ao contrário, se descrevem as belezas e os ornamentos. Somos da opinião de que a descoberta de Lilith, com a reação que conhecemos, de recusa, e a segunda exclamação ("Desta vez são ossos dos meus ossos", etc.) são uma só experiência psicológica de aproximação onde poderíamos ver uma condensação de duas experiências : a primeira — o conhecimento carnal — é censurada e removida; a segunda, ao contrário, exprime a aceitação da imagem "boa", externa, da companheira, aquela que é mais agradável ao Pai e à Lei, mas que será, também esta, inexoravelmente fonte de pecado. Tratar-se-ia, pois, de uma experiência libídica profunda distinta em duas fases, com um princípio implícito de ambivalência. Assim, tentamos interpretar a figura de Lilith respeitando a condensação: o vivido com Lilith é também o vivido com Eva. Na similaridade dos dois mitos pode- se descobrir a contradição dos comportamentos de Adão, como também a complexidade das reações emotivas e sexuais diante da mulher em relação ao Deus pai. Será que a censura sobre a feminilidade erótica "coberta de sangue e saliva" encontra sua superação por meio da feminilidade que faz exclamar: "desta vez"? De definitivo, temos a soma de duas imagens, porque o Rabi Jehudah comenta:
Esta e aquela da primeira vez, porque é aquela que soará para mim como uma campainha... , parece mesmo que se trata de duas fases: esta e aquela da primeira vez. Lilith é coberta de sangue e saliva, símbolo do desejo: "No momento em que foi criada a mulher foi criado também Satã com ela".24 Este demónio também é mulher. Aquela que perturbou a noite toda o sono de Adão. Dizem as Escrituras: "ele se perturbou todo", e o sonho erótico emerge do inconsciente, apresenta a Adão toda a potência da energia vital. É Lilith que lhe produz o sonho. "Perguntaram ao Rabi Simon b. Laqish: — Por que nenhum sonho cansa? Respondeu: — No início da sua criação não foi senão um sonho."23 Eis portanto o primeiro tormento: o sonho erótico, o desejo de Lilith. Foi criada bela como um sonho, a primeira de seu sexo, a tanto desejada. Aparece-lhe no Jardim do Éden à sombra de uma alfarrobeira ou de um sicômoro, ornamentada com preciosos colares, tantos quantos aqueles citados em Isaías. Jeová Deus a havia criado não da cabeça para que não se assoberbasse; não do olho para que não fosse ansiosa de ver; não da orelha para que não fosse curiosa em ouvir; não da boca para que não fosse faladeira; não do coração para que não fosse ciumenta; não da mão para que não tocasse no que estivesse ao alcance da mão; nem do pé para que não fosse andarilha: mas do lugar em que o homem está escondido e quando o homem está nu, aquele lugar ainda está coberto.2" Lilith se une ao homem; nenhuma criatura se acasalou antes, mas o Homem conhece e faz conhecer pela primeira vez a relação sexual sentida como tal. Como podemos imaginar o amor entre estas duas criaturas? Possivelmente total e intenso como nós sentimos o eros que inunda o Cântico dos Cânticos (I, 15-17): Como és bela, minha amiga, como és bela!
Os teus olhos são como pombas. Como és belo, meu dileto, como és suave. Nosso leito é a relva, paredes de nossa casa os cedros, teto para nós os ciprestes. Lilith é certamente a sedutora, aquela que mais tarde, nas épocas vindouras, como Eva Mãe dos Homens e mulher, será considerada o instrumentum diaboli. Lilith é aquela que sussurra e geme {Cânt. 1,5): porque ferida de amor eu estou, e é a mulher que oferece ao homem o fruto suave; e ele está perturbado, está abatido. Um ofuscamento que nos fará recordar Eros e Thanatos; Ponha-me como sinete em teu coração, como sinete em teu braço, porque potente como a morte é o amor (Cânt. VIII, 6). Como se amam o primeiro homem e a primeira mulher? Foi ensinado: Todos os seres praticam o ato sexual com a cara de um voltada para as costas do outro, afora dois que se unem dorso a dorso: camelo e cão, e afora três, que se unem cara a cara, porque a Presença divina lhes falou, e são o homem, a serpente e o peixe. Os seus ímpetos são um incêndio as suas são chamas divinas. Águas copiosas não sabem apagar o amor nem enchente arrastá-lo (Cânt. VIII, 6-7). Podemos imaginar a intensidade deste amor na dimensão divina, onde tudo isto era muito bom, ajudando-nos com o esplendor dos versos do Cântico dos Cânticos, ou de outros textos bíblicos que
fazem compreender como a tradição hebraica não tinha preconceitos particulares contra a sexualidade. O Adão do paraíso terrestre canta as belezas de sua mulher: Como és bela, minha amiga como és bela. Os teus olhos são como pombas atrás de teu véu; a tua é coma de um rebanho de cabras que desce do monte de Galaad. Os teus dentes são como ovelhas a tosar, quando saem do banho: vão todas emparelhadas e ninguém está sem companheiro. Como nastro de púrpura os teus lábios a tua boca é um convite; gomo de romã são as tuas faces atrás de teu véu. O teu colo é como torre de David construída para dominar o vale: mil escudos estão pendurados em ti, todos armaduras de valentes. Os teus seios são como dois veados dois gémeos de gazela que pastam entre as anémonas. Quando expirar o dia e se difundirem as sombras, irei de novo ao monte da mirra
abandono. É a hora em que o Sol se põe e estão descendo as primeiras trevas da noite de Sábado. Lilith se afastou. O homem havia oposto um "não" à sua mulher. E vêm as trevas; pela segunda noite vem o escuro, o mesmo escuro da Sexta-feira na qual Jeová Deus criou os demónios. É o momento do sono profundo, mais uma vez. O sono é o princípio da queda. "Ninguém viu, ninguém soube, ninguém acordou" {Sam. I, XXVI, 12). Que tipo de sono era aquele? Que sopor invade Adão que se obstina na recusa, em não ver Lilith? É o sopor da profecia, ou o sopor da loucura? Diz o Rabi Nezirah: Trinta e seis horas serviu aquela luz, 12 da vigília do Sábado, 12 da noite do Sábado e 12 do Sábado. Quando o Sol se pôs na saída do Sábado, a escuridão começou a aumentar." Adão tem medo, sente que a escuridão o oprime. Sente que as coisas, todas as coisas boas, se estragam. Acorda, certamente olha em torno, e não acha Lilith na enxerga. Adão pensa que a companheira desobedecera mais uma vez seu mandamento. Dirige-se a Jeová Deus, como filho que confia na experiência e na autoridade paterna. "Procurei em meu leito, à noite, aquela que é o amor de minha alma; procurei e não a encontrei" (Cant. III, 1). Agora há o desespero, o amargor por haver perdido Lilith. Pergunta ao Pai e o Pai quer saber a causa do litígio e compreende que a mulher desafiou o homem e, portanto, o divino.