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Lingüística e comunicação, Resumos de Português (Gramática - Literatura)

linguística e comunicação para o ensino médio

Tipologia: Resumos

2022

Compartilhado em 06/09/2023

tereza-santos-5
tereza-santos-5 🇧🇷

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ROMAN JAKOBSON

L LIINNGGÜÜÍÍSSTTIICCAA

E E

C COOMMUUNNIICCAAÇÇÃÃOO

Prefácio de

IZIDORO BLIKSTEIN

(da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e da Escola de Comunicações e Artes da USP)

Tradução de

IZIDORO BLIKSTEIN e JOSÉ PAULO PAES

EDITORA CULTRIX

SÃO PAULO

ÍNDICE

PREFÁCIO 7

A LINGUAGEM COMUM DOS LINGÜISTAS E DOS ANTROPÓLOGOS 15

DOIS ASPECTOS DA LINGUAGEM E DOIS TIPOS DE AFASIA 34

ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DA TRADUÇÃO 63

LINGÜÍSTICA E TEORIA DA COMUNICAÇÃO 73

A CONCEPÇÃO DE SIGNIFICAÇÃO GRAMATICAL SEGUNDO BOAS 87

À PROCURA DA ESSÊNCIA DA LINGUAGEM 98

LINGÜÍSTICA E POÉTICA 118

  • A Numeração de páginas do Índice corresponde ao original impresso. PS: As páginas estão numeradas de acordo com o documento original, indicando sempre o final de cada uma, entre colchetes.

I

O presente volume, que reúne textos básicos de Roman Jakobson acerca dos principais problemas e campos de interesse da Lingüística, visa primordialmente familiarizar o leitor com o pensamento do eminente lingüista cuja recente visita ao Brasil teve o dom de recolocar na ordem do dia o papel nuclear da Lingüística no quadro das ciências humanas e da cultura em geral. Assim é que aqui figuram ensaios nos quais é percucientemente estudada e avaliada a contribuição da Linguística estrutural para a teoria da comunicação, a Antropologia, a literatura (sobretudo a Poética), a Gramática, a arte da tradução e as pesquisas acerca dos distúrbios da fala. Como se vê, uma gama de assuntos que, pela sua amplitude, alcançará certamente interessar não apenas aos estudiosos de Lingüística propriamente dita como também aos de outras disciplinas com as quais ela tem relações mais ou menos próximas. Acreditamos ser útil fazer preceder esta tradução de alguns dos principais ensaios de Roman Jakobson de uma breve notícia acerca de sua vida e de sua obra, notícia de caráter meramente informativo, sem qualquer pretensão analítica ou crítica. De resto, nem teria cabimento aqui semelhante pretensão; acreditamos seja muito mais lucrativo para o leitor ir diretamente aos textos de Jakobson parei conhecer-lhe as idéias do que demorar-se a ler glosas ou frases mais ou menos infiéis delas. [pág.7]

II

A biografia intelectual de Roman Jakobson espelha, de certo modo, o próprio encaminhar-se da Lingüística contemporânea para a Arte e a Antropologia. Nasceu ele em Mascou em 1896 e - fez seus estudos no Instituto Lazarev de Línguas Orientais, da Universidade de sua cidade natal; doutorou-se, porém, pela Universidade de Praga (1930). Desde cedo, deixou ele bem patente a variedade e a amplidão dos seus interesses intelectuais, dedicando-se ao estudo da dialectologia e do folclore de sua pátria, e acompanhando de perto as manifestações de arte de vanguarda, notadamente do cubismo e do futurismo russo. Foi amigo pessoal de Maiacóvski e Khlebnikov e essa sua vinculação pessoal à poesia exerceu papel decisivo na gênese de suas idéias lingüísticas, como o demonstra sua participação nas atividades do Círculo Lingüístico de Moscou (1915-1920), de que foi um dos

de Minuit, 1963 ) , traduzido e prefaciado por Nicolas Ruwet.**^ [pág.9] Jakobson anuncia para breve o tratado Sound and Meaning , que será uma espécie de summa do seu pensamento lingüístico e quiçá a sua obra mais importante e mais significativa.

III

O germe do pensamento lingüístico de Roman Jakobson já pode ser rastreado na sua participação nas atividades do Círculo Lingüístico de Moscou, o qual nasceu sobretudo da preocupação de jovens intelectuais russos da década de 1910- com o aspecto simbólico do som na poesia. Voltavam-se eles com especial atenção para a substancialidade do poema, para a sua arquitetura formal, por assim dizer, razão por que foram depreciativamente chamados de "formalistas" pelos que defendiam um rígido sociologismo no campo dos estudos literários. O epíteto foi aceito desafiadoramente pelos integrantes do Círculo, que todavia nada tinham de "formalistas" no sentido pejorativo da palavra: malgrado sua preocupação com o elemento sonoro na estrutura poética, jamais aceitaram eles a velha dicotomia entre forma e conteúdo: bem ao contrário, viam no poema uma hierarquia una de funções, dentro da qual o som se vinculava ao sentido. Não se tratava, portanto, de atentar para a fonética, e sim para a fonologia.* Daí decorre um dos leit-motiv da obra de Jakobson: a preocupação com a relação entre sound (som) e meaning (significado). O seu ponto de partida é o caráter simbólico da arquitetura fônica do sistema lingüístico. Dessa arquitetura, pode-se depreender uma meta-estrutura significativa, válida em outros níveis que não o do simples fonema, isto é, ao nível da palavra, da frase, do período. Por sua [pág.10] vez, o nexo sound/meaning decorre da superposição do principio da similaridade sabre o da contigüidade, princípios que constituem os dois pólos básicos da linguagem humana. O objetivo último de Jakobson é, pois, a semântica. Tal visada semântica avulta com particular nitidez em dois dos ensaios aqui incluídos, a saber: "A Linguagem Comum dos Lingüistas e dos Antropólogos" e "Lingüística e Teoria da Comunicação". Ambos têm por base a constatação de que "o instrumento principal de comunicação portadora de toda a informação é a

****** (^) Foi da introdução de N. Ruwet que extraímos os dados biográficos acima Valemo-nos igualmente

de sua versão francesa como texto de cotejo para a nossa tradução, feita a partir do original inglês, de que nos foi enviada fotocópia pelo próprio Prof. Jakobson. Somente no caso de "À Procura da Essência da Linguagem" fez-se a tradução do francês. ***** (^) No que respeita à Fonologia, o leitor brasileiro poderá consultar:

Roman Jakobson, Fonema e Fonologia , trad. e pref. de Matoso Câmara Jr. (Rio de Janeiro, Livraria Acadêmica, 1967).

língua". Não tanto a língua dos intelectuais, dos escritores, das pessoas doutas, opressivamente controlada pela gramática, como o falar de todos os dias, cujos trocadilhos, cujas invenções verbais, notadamente suas figuras de linguagem, nos revelam as estruturas subliminares (patterns) a que recorre o povo. No processo da comunicação, o destinatário da mensagem a decodifica amiúde através de um signo interpretante, ocorrendo então o fenômeno conhecido por comutação de código ( Code switching ) , que teve em C. S. Peirce (para cuja alma pioneira Jakobson não se cansa de chamar a atenção) , o seu mais ilustre estudioso, aquele que deu uma nova visão do caráter supostamente "arbitrário" do signo. A noção de code switching é tratada mais detidamente em outro ensaio deste volume, "Aspectos Lingüísticos da Tradução", visto ser a comutação de código uma operação essencial na tradução dentro de um mesmo idioma (intralingual), de um idioma para outro (interlingual) ou de um sistema semiótico para outro (intersemiótíco). No mesmo ensaio, insiste Jakobson em quão precária é a noção de indissolubilidade do signo lingüístico: a noção de que haja um elo indissolúvel entre significante e significado e o significado ( meaning ) implique vivência — não se podendo compreender a palavra queijo sem ter tido uma experiência não-língüística do queijo. Tais conceitos reaparecem também no ensaio "À Procura da Essência da Linguagem", em que, passando em revista as bases teóricas da Lingüística contemporânea. Jakobson nela situa, com o devido e justo destaque, a obra inovadora de Peirce. [pág.11] O ensaio "A Concepção de Significação Gramatical Segundo Boas" versa o caráter de obrigatoriedade das categorias gramaticais. Assim, as frases "O homem matou o touro" e "O touro foi morto pelo homem" revelam não apenas a oposição ativo / passivo como manifestam dois pontos de vista diferentes por parte do destinador ou codificador. O significado das duas frases é, pois, diferente. Outras funções gramaticais, como o gênero, têm igualmente função significativa. Em suma, o que caracteriza a comunicação lingüística não é a possibilidade e sim a obrigatoriedade no emprego dos recursos gramaticais. A noção fundamental de conotação avulta com particular nitidez num dos mais importantes ensaios de Jakobson, "Lingüística e Poética", no qual, após referir o caráter abrangente da Lingüística, mostra a legitimidade de sua adjudicação da Poética. Finalmente, em "Dois Aspectos da Linguagem e Dois Tipos de Afasia", encontraremos o que de mais original produziu talvez o pensamento lingüístico de Jakobson: o seu notável aprofundamento dos conceitos de metáfora e metonímia. Partindo da observação dos distúrbios da fala nos afásicos, estabelece ele uma nova distinção entre os diferentes tipos de afasia. À distinção clínica de afasia de emissão e afasia de recepção, Jakobson contrapõe as afasias de substituição e associação. Na dissolução da linguagem nos afásicos, vai ele encontrar o próprio mecanismo formativo da linguagem. Dessarte, a criança, após possuir o signo (significante/significado), só chega realmente à fala quando se mostra capaz de

A LINGUAGEM COMUM DOS LINGUISTAS E DOS ANTROPÓLOGOS*

(RESULTADOS DE UMA CONFÊNCIA INTERDISCIPLINAR)

Eu poderia dizer que apreciei tudo nesta Conferência. O único ponto negativo para mim é que devo recapitular seus resultados sob o ponto de vista lingüístico. Poderia começar por dizer que a Conferência foi extremamente bem sucedida. Mas como estudei a teoria da comunicação, sei que um enunciado só contém informação no caso de uma situação de escolha binária: nunca se ouvirá dizer que a Conferência não foi bem sucedida. Gostaria de apresentar todos os resultados lingüísticos desta Conferência tal como os vejo. É claro que os interpretarei e não serei uma máquina de tradução que, como o mostrou de modo excelente nosso amigo Y. Bar-Hillel, não compreende e por conseguinte traduz literalmente. Desde que haja interpretação, emerge o princípio da complementaridade, promovendo a interação do instrumento de observação e da coisa observada. Tentarei, no entanto, ser o mais objetivo possível. Qual é, na minha opinião, o resultado mais importante desta Conferência? O que mais me impressionou? Antes de tudo, a unanimidade. Houve espantosa unanimidade. [pág.15] É claro que quando falo de unanimidade, não quero dizer uniformidade. Era como se fosse uma estrutura polifônica. Cada um de nós aqui — posso dizer — emitia uma nota diferente, mas éramos todos como tantas variantes de um mesmo e único fonema. Evidentemente, o fato mais sintomático foi a nítida liquidação de qualquer espécie de isolacionanismo, esse isolacionanismo que é tão odioso na vida científica quanto na vida política. Quantos slogans não houve que opunham a Lingüística à Antropologia, a Lingüística do Hemisfério Ocidental à do Hemisfério Oriental, a Análise Formal à Semântica, a Lingüística Descritiva à Lingüística Histórica, o Mecanismo ao Mentalismo e assim por diante. Isto não quer dizer que recusemos a importância da especialização, a necessidade de enfocar problemas limitados; mas sabemos que se trata de diferentes modos de experimentação e não de pontos de vista exclusivos. Como foi muito bem expresso aqui, não podemos verdadeiramente isolar os elementos, mas tão somente distingui-los. Se os tratarmos separadamente no processo de análise lingüística, deveremos sempre lembrar-nos do caráter artificial de uma tal separação. Pode-se estudar o nível morfológico da linguagem fazendo abstração do nível fonológico, Pode-se estudar o nível formal sem referência ao nível semântico, e assim por diante. Mas entendemos que, agindo assim, tudo se passa

***** (^) Informe final apresentado à Conferência de Antropólogos e Lingüistas, realizada na Universidade

de Indiana, E .U. A., de 21 a 30 de julho de 1952. Publicado no Suplemento do Int. Journal of American Linguistics , XIX, N.° 2, abril, 1953.

como no caso de uma filtragem acústica podem-se excluir, por exemplo, as altas freqüências ou, pelo contrário, as baixas freqüências — num caso e noutro, sabemos que se trata simplesmente de um método de experimentação científica. De igual maneira, é muito interessante observar um jogo de cabra-cega: como se comporta uma pessoa de olhos vendados? Que podemos dizer da linguagem quando nada sabemos das significações? É muito instrutivo ver correr uma pessoa com os movimentos embaraçados, como nas corridas de sacos. Ninguém, entretanto, pretenderá que se corre melhor e mais depressa dom as pernas presas em um saco do que com elas livres. Assim, nós nos damos conta, cada vez mais, do fato de que nosso objetivo supremo é a observação da linguagem em toda a [pág.16] sua complexidade. Eu diria, parafraseando Terêncio: Linguista sum: linguistici nihil a me alienum puto. Se, agora, estudamos a linguagem juntamente com os antropólogos devemo- nos regozijar com a ajuda que eles nos trazem. Com efeito, os antropólogos têm sempre afirmado e provado que a linguagem e a cultura se implicam mutuamente, que a linguagem deve ser concebida como uma parte integrante da vida social, que a Lingüística está estreitamente ligada à Antropologia Cultural. É inútil insistir nesse problema que C. Lévi-Strauss apresentou de modo tão esclarecedor. Gostaria, antes, de voltar ao que dizia D. Bidney, durante a discussão da tarde: um gênero mais próximo ainda que o gênero cultura engloba a espécie linguagem. A linguagem é um caso particular dessa subclasse de signos que, sob o nome de símbolos , nos foi descrita de modo tão penetrante por Chao que, diga-se de passagem, encarna simbolicamente o que há de melhor tanto no pensamento ocidental como no pensamento oriental. É por isso que, quando determinamos o que seja linguagem, devemos, com H. L. Smith, compará-la aos outros sistemas simbólicos, por exemplo, o sistema de gestos, a cujo estudo Kuleshov, M. Critchley, e agora R. Birdwhistell, se dedicaram de modo tão estimulante. Esse sistema de gestos oferece — estou de acordo — semelhanças instrutivas com a linguagem e também — é bom acrescentar — diferenças não menos notáveis. Em face da iminente tarefa de analisar e comparar os diferentes sistemas semiológicos, devemos lembrar-nos não somente da divisa de F. de Saussure de que a Lingüística é parte integrante da ciência dos signos, mas também, e antes de tudo, da obra monumental de seu eminente contemporâneo, um dos maiores precursores da análise estrutural lingüística, Charles Sanders Peirce. Peirce não só estabeleceu a necessidade da Semiótica como esboçou-lhe também as grandes linhas. Quando se estudarem cuidadosamente as idéias de Peirce a respeito das teorias dos signos, dos signos lingüísticos em particular, ver-se-á o precioso auxílio que trazem às pesquisas sobre as relações entre a linguagem e os outros sistemas de signos. Seremos então capazes de discernir os traços próprios do signo lingüístico. [pág.17] No mais, só se pode concordar com nosso amigo N. McQuown, que compreendeu perfeitamente que não há igualdade entre os diferentes sistemas de signos e que o sistema semiótico mais importante, a base de todo o restante, é a linguagem: a linguagem é de fato o próprio fundamento da cultura. Em relação à linguagem, todos os outros sistemas de símbolos são acessórios ou derivados. O instrumento principal da comunicação informativa é a linguagem.

neologismos e depois, por acaso, livrei-me dessa doença terminológica. Quando eu estava na Suécia, B. Collinder, que detesta a Fonologia, disse-me que gostaria que eu escrevesse um livro para a Sociedade Lingüística de Upsala: "mas, por favor, nada de Fonologia!". Eu estava justamente terminando meu livro sobre a fonologia da linguagem infantil e da afasia; contentei-me em eliminar os termos fonológicos, diante do que ele disse: "Agora está ótimo O livro foi, de fato. [pág.19] bem acolhido e compreendido num vasto círculo, e eu, por minha vez, entendi que era possível, mesmo ao discutir problemas totalmente novos, livrar o trabalho de termos novos. Pouco importa que eu diga "Lingüística" e os senhores "Microlingüística". Para designar as diferentes seções da Lingüística, sirvo-me de termos tradicionais — os senhores preferem os compostos "Microlingüística" e "Metalingüística". Embora os termos tradicionais sejam perfeitamente satisfatórios, "Microlingüística" é inofensivo, O neologismo "Metalingüística" — e nisso estou de acordo com Chao e outros — é um pouco perigoso, porque "Metalingüística" e "metalinguagem" querem dizer algo completamente diferente em Lógica simbólica. Como é melhor ter relações desanuviadas com os lógicos, seria preferível evitar tais ambigüidades. Além disso, os senhores se espantariam se um zoólogo, ao descrever o que um determinado animal come, e em que parte do mundo o encontramos, chamasse tais questões de Metazoologia. Mas não insistirei; continuo a seguir o conselho de meu falecido mestre A. M. Pechkovsky: "Não nos atormentemos com a terminologia", dizia ele; "se você tem um fraco pelos neologismos, empregue-os, Você pode até chamar a isto "Ivan Ivanovich", desde que todos saibamos o que você quer dizer." Voltemos às funções lingüísticas. Mencionei a ênfase no tema ( topic ), no emissor e no receptor; vemos quantas coisas novas podemos descobrir ao analisar esse problema fundamental do emissor e do receptor. Além disso, é ainda possível dar ênfase ou ao código ou à mensagem. Esta ênfase na mensagem propriamente dita constitui a chamada função poética. Estou contente em saber que, se não nesta conferência, pelo menos na próxima, essa função será colocada no programa de debates, O bem sucedido seminário que A Hill e H. Whitehall mantêm sobre a linguagem poética, neste Instituto de Lingüística, é uma prova eloqüente de que os problemas da linguagem poética estão no primeiro plano das preocupações dos lingüistas norte-americanos. Estou satisfeito com o fato de que — como o proclama Whitehall no excelente panfleto, publicado recentemente pelo Foreign Service Institute — uma ponte entre a Lingüística e a crítica literária tenha sido finalmente edificada neste país. O tema [pág.20] próprio das pesquisas sobre poesia não é outro senão a linguagem, considerada do ponto de vista de sua função predominante: a ênfase na mensagem. Essa função poética, entretanto, não se confina à poesia. Há s uma diferença na hierarquia: tal função pode estar subordinada e outras funções ou, ao contrário, aparecer como a função central, organizadora, da mensagem. A concepção da linguagem poética como uma forma de linguagem onde a função poética é predominante ajudar-nos-á a compreender melhor a linguagem prosaica de todos os dias, em que a hierarquia de funções é diferente mas em que tal função poética (ou estética) tem necessariamente um lugar e desempenha um papel tangível

tanto do ponto de vista sincrônico como sob o ponto de vista diacrônico. Há casos fronteiriços instrutivos: a mais alta unidade lingüística codificada funciona, ao mesmo tempo, como o menor todo poético nessa área marginal, as pesquisas de nosso amigo D. B. Shinkin sobre os provérbios constituem um tema fascinante, já que o provérbio é, ao mesmo tempo, uma unidade fraseológica e uma obra poética. Mencionamos os fatores implicados no ato da fala mas nada dissemos das interações e permutações possíveis entre esses fatores — por exemplo, os papéis de emissor e de receptor podem confundir-se ou alternar-se, o emissor e o receptor podem tornar-se o tema da mensagem etc, Mas o problema essencial para a análise do discurso é o do código comum ao emissor e ao receptor e subjacente à troca de mensagens. Qualquer comunicação seria impossível na ausência de um certo repertório de "possibilidades preconcebidas" ou de "representações pré-fabricadas" como dizem os engenheiros, e notadamente D. M. MacKay, um dos mais próximos dos lingüistas, entre eles. Quando li tudo o que escreveram os engenheiros de comunicações — sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra (em particular E. C. Cherry, D. Gabor e MacKay) — sobre código e mensagem. dei-me conta, é claro, de que desde há muito esses dois aspectos complementares são familiares às teorias lingüísticas e lógicas da linguagem, tanto aqui como alhures; é a mesma dicotomia que encontramos sob denominações diversas tais como langue-parole (língua-fala), Sistema Lingüístico Enunciado, [pág.21] Legisigns-Sinsigns , Type-Token (tipo-caso particular), Sign-de-sign , Sign-event etc., (modelo semiótico-processo semiótico.) mas devo confessar que os conceitos de código e mensagem introduzidos pela teoria da comunicação são muito mais claros, muito menos ambíguos, muito mais operacionais do que tudo o que nos oferece a teoria tradicional da linguagem para exprimir essa dicotomia. Creio ser preferível trabalhar agora com esses conceitos bem definidos, mensuráveis e analisáveis, a substituí-los por termos novos, e ademais um tanto vagos, tais como common core ("fundo comum"). A teoria da comunicação parece-me uma boa escola para a Lingüística estrutural, assim como a Lingüística estrutural é uma escola útil para os engenheiros de comunicações. Penso que a realidade fundamental com que se tem de haver o lingüista é a interlocução — a troca de mensagens entre emissor e receptor, entre remetente e destinatário, entre codificador e decodificador. Ora, verificamos atualmente uma tendência para a volta a um estágio muito antigo, eu diria mesmo um estágio pre-whiteyano, de nossa disciplina: falo da tendência a considerar o discurso individual como a única realidade. Como já mencionei, qualquer discurso individual supõe uma troca. Não há emissor sem receptor — exceto, é claro, quando o emissor é um doente mental ou um bêbado. Quanto ao discurso não-exteriorizado, não- pronunciado, a chamada linguagem interior, trata-se apenas de um substituto elíptico e alusivo do discurso explícito e exteriorizado. O diálogo, aliás, subentende mesmo o diálogo interior, como uma série de observações o demonstraram, de Pierce a L. S. Vygotsky. Foi com o costumeiro grande interesse que li o artigo sobre o idioleto , distribuído por meu velho amigo C. F. Hockett. Esse artigo confina o idioleto aos

continuidade espacial, encontrar e estabelecer uma linguagem comum "através das ondas". Evidentemente, de vez que a distância entra em jogo, vemos aparecerem diferenças dialetais cada vez mais pronunciadas e numerosas. Consideremos duas comunidades lingüísticas vizinhas: o código não é mais o mesmo, mas nenhuma das duas comunidades se acha de fato isolada hermeticamente; quando isso acontece, é sempre um caso anormal e patológico. Via de regra, há uma tendência para compreender os membros da outra comunidade — ouvimos a comunicação esclarecedora de meu amigo Twaddell, que nos mostrou como funciona esse gênero de mecanismo. É o que os engenheiros de comunicações chamam de "mudança de código" ( code-switching ). W. H. Twaddell sempre compreende não somente o problema da Lingüística de hoje, mas também o problema de amanhã. Assim como sua monografia acerca da definição de fonema foi um acicate para o estabelecimento de uma análise fonética estritamente científica, sua nova comunicação reclama total atenção para o problema lingüístico fundamental da "mudança de código". Passemos agora aos enigmas do bilingüismo, que Mary R. Haas e J. B. Casagrande nos expuseram graficamente. Trata-se ainda do mesmo problema de abolir a distância. Aqui, o common core (fundo comum) é por assim dizer inexistente. Os códigos são cada vez mais diferentes. Mas subsiste sempre uma certa correspondência, uma certa relação [pág.24] entre os dois códigos. Continua sendo possível chegar-se a uma compreensão ao menos parcial, e intervêm no caso media dores lingüísticos, intérpretes — os bilíngües. Tocamos aqui num ponto importantíssimo, decisivo. O bilingüismo é para mim o problema fundamental da Lingüística — e a divisão em seções separadas, a seção de Francês, a seção de Italiano, etc., pareceu-me sempre algo artificial. Há uma segregação completa entre línguas contíguas? Se existe uma cortina de ferro, sabemos como as várias formas de comunicação a atravessam facilmente. Sabemos que existem áreas bilíngües ou grupos bilíngües de pessoas — a sociologia da linguagem nos oferece interessantes testemunhos disso. Como visivelmente as pessoas bilíngües podem falar a, e influenciar, um maior número de ouvintes, isso significa para elas mais poder, mais prestígio. Que resulta daí? Os bilíngües adaptam uma língua a outra e por conseguinte estimulam a difusão de certos fenômenos entre os não-bilingües. Tocamos na questão que A. Sommerfelt abordava na sua importantíssima comunicação: a da difusão das estruturas ( patterns ) — das estruturas fonológicas, das categorias gramaticais, daquilo que Sapir chama de processos gramaticais. Poderemos fazer um juízo da vastidão dos fenômenos de difusão quando dispusermos do atlas iniciado em Oslo antes da última guerra e consagrado a esses fenômenos, que foram cartografados sem levar em conta as fronteiras e as relações entre as línguas que os manifestam. Discuti essa questão com um lingüista dos mais prudentes, Haas, e com um antropólogo dos mais prudente, Ray. A extensão da difusão fonológica e gramatical entre línguas vizinhas, de origens visivelmente diferentes, pareceu-nos tão surpreendente, tão difícil de explicar, que concordamos unanimemente na urgência de um estudo sistemático, em escala internacional, desses fenômenos. Tal empreendimento não elimina de maneira alguma os problemas de parentesco

genético, mas deve-se dizer que o problema da afinidade não é menos importante — e sem um conhecimento exato do que seja afinidade, nunca conseguiremos descobrir os elementos pertinentes do ponto de vista genético. Isto basta no que respeita às questões de espaço. Vamos agora ao fator tempo. Não se falou dele nesta Conferência, [pág.25] mas Hill o abordava no brilhante informe mimeografado que nos foi distribuído, Habituaram-nos aos manuais que preconizam uma separação completa entre a Lingüística sincrônica e a Lingüística diacrônica. Apresentavam-nas como duas metodologias inteiramente diferentes, como dois tipos de problemas fundamentalmente diferentes. Essa concepção está, ao meu ver, ultrapassada, e estamos de pleno acordo com as opiniões de Hill: a história de uma língua só pode ser a história de um sistema lingüístico que sofre diferentes mutações. Cada mutação deve ser analisada do ponto de vista do sistema como este era antes e como ficou depois da mutação. Isto nos leva a um ponto importante. Formulo-o em termos diferentes dos de Hill, mas espero que continuemos de acordo. Parece-me que o grande erro e a grande confusão, a separação acentuada entre sincronia e diacronia, foi em grande medida de à confusão entre duas dicotomias. Uma é a dicotomia entre sincronia e diacronia, outra a dicotomia entre estático e dinâmico. Sincrônico não é igual a estático. Se, no cinema, eu lhes perguntar o que estão vendo num dado momento na tela, os senhores não verão algo estático verão cavalos a correr, pessoas a andar e outros movimentos. Onde vêem o estático? Somente nos painéis de cartazes. Nos cartazes, há o estático, mas não necessariamente o sincrônico. Vamos supor que um cartaz permaneça imutável durante um ano: eis o estático. E é perfeitamente legítimo perguntar-se o que é estático na Lingüística diacrônica. Estou certo que interessaria a Hahn se eu tentasse definir o que é estático, imutável, em eslavo, desde a alta Idade Média ou desde o indo-europeu comum até nossos dias. É um problema estático, mas ao mesmo tempo um problema diacrônico. Passemos aos problemas de dinâmica. Tomarei como exemplo uma mudança que pude observar já em minha infância: trata-se de uma mudança notável ocorrida no sistema vocálico do russo corrente. Em posição inacentuada especialmente pretônica, os dois fonemas /e/ e /i/ eram distinguidos pela geração de nossos avós em Moscou. No linguajar de nossa geração e no de nossos filhos, esses dois [pág.26] fonemas fundiram-se num /i/ Para a geração intermediária, a de nossos pais, a distinção era facultativa. O que quer isto dizer? O seguinte: a geração intermediária tem um código que contém essa distinção. Quando se tem necessidade de fazer a discriminação para evitar ambigüidades ou para tornar o discurso particularmente claro, distinguem-se os dois fonemas na pronúncia. Mas num estilo negligente, despreocupado, elíptico por assim dizer, esta distinção, ao mesmo tempo que certas outras, pode ser omitida: o discurso se torna menos explícito. Assim, durante certo tempo. o ponto de partida e o remate da mutação coexistem sob a forma de duas camadas estilísticas diferentes; além disso, quando o fator temporal entra em jogo num sistema de valores simbólicos como a linguagem, ele próprio se torna um símbolo e pode ser utilizado como recurso estilístico. Por exemplo, quando falamos

Lingüística. Em outros domínios, o desenvolvimento das ciências modernas conduz às mesmas conclusões. É assim que aprendemos — cito — que a mecânica quântica é determinista do ponto de vista mórfico, ao passo que os processos temporais, as passagens de um estado estacionário a outro, são regidos por leis estatísticas: [pág.28] comparada à mecânica clássica, a mecânica quântica ganha em determinismo mórfico o que perde em determinismo temporal. Aqueles a quem as analogias arriscadas apavorem facilmente, replicarei que eu também detesto as analogias perigosas, mas gosto das analogias fecundas. Só o futuro dirá se tais analogias entre disciplinas diferentes são perigosas ou fecundas. Finalmente, um dos traços mais sintomáticos desta Conferência terá sido este: debatemos longa e apaixonadamente questões de sentido. Certos oradores notaram que, há somente alguns anos atrás, isso teria sido inimaginável. Pois bem, o fato de não terem sido elas discutidas mais cedo também se demonstrou útil. Os problemas impõem seu próprio calendário. Não podemos abordá-los todos ao mesmo tempo. Ainda há pessoas que dizem que as questões de sentido não têm sentido para elas, mas, quando dizem "não tem sentido", de duas, uma: ou sabem o que querem dizer, e eo ipso a questão do sentido adquire sentido, ou então não sabem, e sua fórmula se torna sem sentido. Acho excelente a expressão de Smith, differential meaning , "significação diferencial". Gostaria somente de acrescentar que toda significação lingüística é diferencial. As significações lingüísticas são diferenciais no mesmo sentido em que os fonemas são unidades fônicas diferenciais. Os lingüistas sabem que os sons da fala apresentam, além dos fonemas, variantes contextuais e variantes facultativas, situacionais (ou, em outros termos, "alofones" e "metafones"). Do mesmo modo, no nível semântico, encontram-se significações contextuais e significações situacionais. Mas só a existência de elementos invariantes permite reconhecer as variações. Tanto no nível do sentido como no nível do som, o problema dos invariantes é um problema crucial para a análise de um determinado estágio de uma língua dada. Esses invariantes, embaraçosos para o criptanalista, são familiares ao decodificador aborígine que, diante de um enunciado novo, sabe de antemão o que as palavras querem dizer, desde que pertença à mesma comunidade lingüística e não seja um caso patológico. É graças aos fonemas que o decodificador normal reconhece os sons pronunciados, e é [pág.29] graças aos modelos lexicais e morfológicos existentes no código que ele capta o sentido das palavras e dos morfemas presentes na mensagem. Se, todavia, os senhores não gostarem da palavra "significado" ( meaning ), por causa de sua ambigüidade. podemos falar simplesmente de invariantes semânticos — e estes não são menos importantes para a análise lingüística que os invariantes fonológicos. Smith. que tem o raro dom de apresentar e exemplificar bem concretamente as coisas, e utiliza tão tangivelmente o "significado diferencial" quanto o tio rico da encantadora anedota que nos contou, dizia que nos cumpre descobrir se as significações são idênticas ou diferentes. Certamente ele compreende tão bem quanto nós que é mais fácil proclamar o princípio de Identidade e de Alteridade do que

decidir se dois processos semiológicos ( Sign-event s) encarnam efetivamente o mesmo modelo ( design ), ou se as duas instâncias ( tokens ) devem ser atribuídas a tipos semiológicos ( sign-types ) diferentes. A identificação e a diferenciação não passam das duas faces de um mesmo e único problema que é o problema principal de toda a Lingüística, nos dois níveis do significante e do significado, do signans e do signatum — para nos servirmos dos bons e velhos termos de Santo Agostinho — ou da "expressão" e do "conteúdo", como os batiza Hjelmslev na sua grande obra de glossemática. Este problema da identificação e da diferenciação, nos dois níveis da "expressão" e do "conteúdo", é, para nós lingüistas, uma questão intrinsecamente lingüística. Certos teóricos afirmam, é verdade, que a sintaxe se ocupa das relações dos signos entre si e a semântica das relações entre os signos e as coisas. Limitemo-nos entre tanto, no quadro da Lingüística sincrônica, a examinar qual a diferença entre sintaxe e semântica. A linguagem implica dois eixos. A sintaxe se ocupa do eixo dos encadeamentos (concatenação), a semântica do eixo das substituições. Suponhamos que eu diga, por exemplo, "o pai tem um filho": as relações entre "o", "pai", "tem", "um". e "filho" se situam no nível da cadeia verbal, são relações sintáticas. Quando comparo os contextos — "o pai tem um filho", "a mãe tem um filho", "o pai tem uma filha", "o [pág.30] pai tem dois filhos", substituo certos signos por outros e as relações semânticas com que nos havemos são relações tanto lingüísticas quanto sintáticas. A concatenação implica a substituição. Será novidade insistir no caráter intrinsecamente lingüístico da semântica? Não, trata-se de algo que já havia sido dito muito claramente; mas acontece que as coisas que são ditas muito claramente caem por vezes em esquecimento total. Desde 1867, C. S. Peirce, que, repito, deve ser considerado como o autêntico e intrépido precursor da Lingüística estrutural, estabelecera nitidamente o caráter lingüístico da semântica. Como dizia ele, o signo — e em particular o signo lingüístico — para ser compreendido exige não só dois protagonistas que participem do ato da fala, mas, além disso, de um "interpretante". Segundo Peirce, a função desse interpretante é realizada por outro signo ou conjunto de signos, que são dados juntamente com o signo em questão ou que lhe poderiam ser substituídos. Eis, sem dúvida nenhuma, algo que deveria ser o ponto de partida de todas as nossas discussões futuras sobre o tratamento lingüístico das significações — problema que estará certamente no centro de nossas preocupações no futuro imediato. Não há dúvida de que haverá discussões quanto à terminologia, aos processos técnicos e a algumas facetas da teoria — mas os marcos fundamentais já se vislumbram. Sabemos cada. vez melhor como incorporar as significações gramaticais à análise estrutural, como o revelou a viva discussão conduzida por nossos amigos de Yale, F. G. Lounsbury e R. S. Wells. Mas mesmo na interpretação das significações lexicais menos nitidamente estruturadas, podemos e devemos continuar dentro do quadro da metodologia lingüística. A significação lexical seria sempre de sua competência, mesmo que nos limitássemos ao estudo dos diferentes contextos e restringíssemos esse estudo à análise distribucional: um enunciado que tenha a forma