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mel de abelhas sem ferrão, Manuais, Projetos, Pesquisas de Agroflorestal

Como produzir mel de abelhas sem ferrão em sistemas agroflorestais.

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2020

Compartilhado em 18/03/2020

leticia-martineli-6
leticia-martineli-6 🇧🇷

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Manual Tecnológico
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Jerônimo Villas-Bôas
Mel
de Abelhas sem Ferrão
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Manual Tecnológico

Jerônimo Villas-Bôas

Mel

de Abelhas sem Ferrão

Autor: Jerônimo Villas-Bôas

Comissão Editorial: Luis Carrazza, Fábio Vaz e Donald Sawyer

Revisão: Rodrigo Noleto e Lara Montenegro

Fotografia: Jerônimo Villas-Bôas. Colaboraram com fotografias: Ayrton Vollet (pág. 32), Carlos Alfredo Lopes de Carvalho (pág. 76), Cristiano Menezes (pág. 32), Elisângela Rego (pág. 68), Giorgio Venturieri (pág 68), Murilo Drummond (pág. 64) e Rafael Malta Clazen (pág. 83)

Colaboraram com o conteúdo: Ayrton Vollet, Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, Celso Feitosa Martins, Cristiano Menezes, Fernando Oliveira e Murilo Drummond

Agradecimentos: Adriana Lucena, Ana Laura Mantovani, Antonilson Oliveira Rodrigues, Antonio Ilson Bezerra Constantino, Ayrton Vollet, Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, Celso Feitosa Martins, Chadawá Juruna, Cristiano Menezes, Fátima Carvalho, Fernando Oliveira, Fransisco Melo Medeiros, Giorgio Ven- turieri, Junior Câmara, Luca Fanelli, Mairatá Kaiabi, Maria José dos Anjos Costa, Marilda Cortopassi Laurino, Marina da Silva Kahn, Murilo Drummond, Rafael Malta Clazen, Richardson Frazão e Sandra Sousa.

Projeto gráfico e diagramação: Masanori Ohashy [Idade da Pedra Produções Gráficas Ltda]

Apoio: Carolina Gomes, Cristiane Azevedo, Isabel Figueiredo, Lara Montenegro, Luciano Fernando, Lucelma Santos, Márcia Braga, Renato Araújo e Rodrigo Noleto

Esta publicação foi elaborada pelo Instituto Sociedade, População e Natureza por meio do Projeto FLORELOS: Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras, financiado pela Comissão Européia. Teve apoio também do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS), apoiado pelo Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Este documento é de responsabilidade do ISPN e não reflete a posição de seus doadores. Ao apresentarem seus produtos, as comunidades e organizações de forma alguma abrem mão de seus direitos sobre os recursos genéticos que utilizam ou sobre o conhecimento tradicional associado. Ao mesmo tempo, as diversas entidades que apóiam a divulgação dos produtos defendem que o acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais deve respeitar as comunidades, a legislação brasileira e a Convenção da Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário.

Villas-Bôas, Jerônimo Manual Tecnológico: Mel de Abelhas sem Ferrão. Brasília – DF. Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). Brasil, 2012.

96 p.; il. - (Série Manual Tecnológico)

ISBN: 978-85-63288-08-

1.Mel 2. Abelhas sem ferrão. 3. Meliponicultura 4. Tecnologia Social. 5. Cadeia Produtiva.

Sumário

5 Apresentação 7 Prefácio

11 As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 11 Introdução 11 Importância 12 Classificação e distribuição 13 Biologia

27 Criação de Abelhas sem Ferrão 29 A escolha das espécies 31 Aquisição de colônias 33 Modelos de colmeias 41 Meliponários 44 Captura ou transferência 46 Divisão de colônias 52 Monitoramento de colônias 57 Inimigos naturais

61 Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 62 Considerações sobre boas práticas de manipulação 63 Métodos de coleta 74 Técnicas de beneficiamento para conservação

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Apresentação

Donald Sawyer, Rodrigo Noleto e Luis Carrazza

As informações contidas neste manual retratam o universo pouco conhecido da meliponicultura, ou criação de abelhas nativas sem ferrão. O Instituto Socie- dade, População e Natureza - ISPN, por meio do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS/Small Grants Programme), do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), tem apoiado centenas de iniciativas de agricultores familiares e comunidades tra- dicionais, que buscam não apenas a produtividade, mas a inter-relação de espécies nativas com benefícios para os ecossistemas e as comunidades locais. Nesse sentido, foi realizado um amplo diagnóstico da situação da meliponicul- tura em todo território nacional, além de um seminário entre diversas comunida- des produtoras de mel de abelhas nativas, com o apoio do Projeto FLORELOS: Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras, financiado pela Comissão Européia, e BIO. COM, financiado pelo PNUD. Esse seminário foi uma oportunidade para que pesquisadores como Murilo Drummond, Marilda Cortopassi-Laurino e Jerônimo Villas-Bôas promovessem uma rica troca de conhecimento técnico e tradicional com representantes de comuni- dades do Parque Indígena do Xingu, dos produtores associados ao Projeto Abelhas Nativas (PAN) do estado do Maranhão, dos Jovens Agroecologistas de Jandaíra do Rio Grande do Norte, da equipe do Instituto Iraquara do estado do Amazonas, dos produtores de mel do Baixo Amazonas no Pará e de comunidades do Amapá apoiadas pelo Instituto Peabiru. A reunião desses diversos conhecimentos deu ori- gem ao Manual Tecnológico – Mel de Abelhas sem Ferrão. Importante salientar que tanto a produção como a comercialização de mel de abelhas nativas sem ferrão ainda não são regulamentadas. Este manual, como os demais publicados pelo ISPN, não tem a pretensão de apresentar um modelo definitivo de produção, mas alternativas, a partir das experiências de manejo exis- tentes no Brasil. Como tal, poderá ser um documento norteador e catalisador da regulamentação da cadeia produtiva.

Abelha Tiúba ( Melipona fasciculata ) – Maranhão

8 Manual Tecnológico

o olhar voltado para o que e como se faz na sua região. Embora muito da cultura de criação dessas abelhas tenha se perdido com o tempo, ainda há uma chance de conseguir com os mais velhos resgatar parte da memória que se perdeu, o que pode ajudá-lo no aprimoramento do manejo em sua região e com as espécies da sua região. Finalmente, para quem quer investir na produção, jamais, mas jamais mesmo, inicie qualquer criação trazendo espécies de outras regiões, seduzido pelo canto da sereia de que são mais produtivas. E sempre sustente suas criações com a divi- são das colônias existentes e jamais com a captura de enxames (a não ser quando iniciando uma criação) ou colmeias. A tendência do mercado é a diversificação e a valorização de produtos de espécies nativas regionais, e com um bom manejo sustentável, você conseguirá uma ótima produtividade. Boa leitura e bom proveito.

Murilo Sérgio Drummond Coordenador do Projeto Abelhas Nativas Professor da Universidade Federal do Maranhão

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 9

Abelha Uruçu-Nordestina ( Melipona scutellaris ) – Paraíba

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Introdução

O conhecimento sobre as abelhas sem ferrão e a meliponicultura nas Américas é muito antigo quando comparado com as atividades envolvendo, nesse continen- te, as abelhas Apis mellifera (popularmente conhecidas como européias, italianas ou africanas). Há muito tempo, povos indígenas de diversos territórios se relacio- nam com os meliponíneos de muitas formas, seja estudando-os, criando-os de forma rústica ou explorando-os de forma predatória. Antes da chegada da abelha Apis mellifera no continente americano, ou da exploração da cana para fabricação de açúcar, o mel das abelhas nativas carac- terizava-se como principal adoçante natural, fonte de energia indispensável em longas caçadas e caminhadas que esses povos realizavam na busca por alimento. Muito do conhecimento tradicional acumulado pela população nativa foi gra- dativamente assimilado pelas diferentes sociedades pós-colonização, tornando a domesticação das abelhas sem ferrão uma tradição popular que se difundiu prin- cipalmente nas regiões norte e nordeste do Brasil. A herança indígena presente na atual lida com as abelhas é evidenciada pelos nomes populares de muitas espécies, como Jataí, Uruçu, Tiúba, Mombuca, Irapuá, Tataíra, Jandaíra, Guarupu, Manduri e tantas outras. A diversidade de saberes e práticas aplicadas na meliponicultura atual é direta- mente proporcional à diversidade de abelhas, culturas e ambientes onde a ativida- de se manifesta. Inspirado nesta diversidade, este manual não pretende defender uma forma única e padronizada de manejar as abelhas, mas sim apresentar aos que desejam se aventurar na meliponicultura uma variedade de técnicas que têm sido utilizadas com sucesso no Brasil.

Importância

Entre os insetos, existem dois grupos que ocupam uma posição destacada de valor econômico para o homem: o bicho-da-seda, por produzir uma fibra de alto valor comercial, e as abelhas pelo mel. Apesar de serem predominantemente conhecidas como produtoras de mel, as abelhas também fornecem cera, própo- lis, pólen, geleia real, entre outros, e podem ser criadas para a exploração destes produtos. Economicamente, não são importantes somente pelos produtos que nos fornecem. Estima-se que um terço da alimentação humana dependa direta ou indiretamente da polinização realizada por abelhas.

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a

Meliponicultura

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POLINIZAÇÃO é o ato da transferência de células reprodutivas masculinas – ou seja, grãos de pólen que estão localiza- dos nas anteras de uma flor – para o re- ceptor feminino (ou estigma) de outra flor. Pode-se dizer que a polinização é o ato sexual das plantas. Este processo, em especial o transporte de pólen, é re- alizado durante as visitas das abelhas às flores para coleta de alimento. Sem polinização, as plantas não produziriam sementes e frutos, e não se reproduziriam para garantir o cresci- mento e a sobrevivência da vegetação nativa, ou a produção de alimentos. Se por um lado as abelhas são fundamen-

Abelha uruçu-nordestina ( Melipona scutellaris ) na flor de cosmos

tais para a sobrevivência das plantas, estas são imprescindíveis para a sobrevivência das abelhas, já que lhes oferecem alimentação e moradia. O pólen e o néctar são os alimentos oferecidos pelas flores. O pólen é a principal fonte de proteínas, lipídios e vitaminas para as abelhas, enquanto o néctar – trans- formado em mel – é a principal fonte de carboidratos e energia.

Classificação e distribuição

As abelhas sem ferrão são insetos sociais de grande diversidade e ampla dis- tribuição geográfica. Nas últimas décadas, diversas propostas de classificação zo- ológica destas abelhas foram propostas. A classificação utilizada neste manual (que não adota uma linguagem estritamente científica), embora não seja a mais atualizada, é a mais didática, e separa essas abelhas em dois grupos distintos: os Meliponini e os Trigonini. Essa separação é importante para o entendimento de características específicas do manejo que serão apresentadas mais adiante. As abelhas sem ferrão, ou meliponíneos, ocorrem em grande parte das regiões tropicais da Terra, ocupando praticamente toda a América Latina e África, além do sudeste asiático e norte da Austrália. Entretanto, é nas Américas que grande parte da diversidade de espécies ocorre – são aproximadamente 400 tipos descritos, con- forme catalogação recente – e que a cultura de criação destes insetos se manifesta de forma mais intensa.

14 Manual Tecnológico

O mecanismo de formação das rainhas é a principal diferença entre os

Meliponini e os Trigonini

Entre os cientistas, existem diferentes conceitos sobre o processo biológico que determina o nascimento de rainhas em colônias de meliponíneos. Entre as diferentes espécies, inclusive da mesma tribo, também há pequenas variações. Entretanto, exis- te um parâmetro básico que define a formação de rainhas e determina a principal diferença entre os grupos Meliponini e Trigonini. Nas espécies da tribo Meliponini, não há construção de células reais. Todas as células de cria (pág. 18) são iguais. A determinação do número de rainhas que nas- ce, entre todos os ovos disponíveis, é definida por uma proporção genética. Já as abelhas da tribo Trigonini constroem células reais, que possuem tamanho bem maior que as células comuns. Por conta deste tamanho, as larvas que se desenvolvem nesse tipo de célula recebem mais alimento, o que determina a formação de uma nova rainha virgem. Essa diferença deve ser assimilada pelo meliponicultor principalmente na apli- cação dos métodos de divisão artificial de colônias, os quais serão detalhados na página 46.

As rainhas virgens são poedeiras em potencial e estão sempre disponíveis nas colônias para uma eventual substituição da rainha poedeira em caso de morte ou enxameagem (pág. 22). Podem chegar a representar 25% dos indivíduos de uma colônia. Os machos são indivíduos reprodutores e vivem basicamente para acasalar com rainhas virgens. Entretanto, diferentemente das abelhas Apis mellifera, po- dem realizar alguns pequenos trabalhos, como a desidratação de néctar e a mani- pulação de cera.

Rainha da abelha uruçu-nordestina Rainha da abelha jandaíra (Melipona subnitida)

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 15

Materiais de construção

Uma colônia de abelhas sem ferrão é cons- truída com diversos materiais. Alguns deles são retirados da natureza – como o barro e o pró- polis – e outros são produzidos ou processados dentro da colônia, como a cera, o cerume e o geoprópolis. A maior parte das estruturas internas de uma colônia é construída com cerume, mate- rial formado pela mistura da cera branca (pura) com o própolis. Sua cor pode variar de um amarelo bem claro a uma cor quase negra, de acordo com a quantidade e a qualidade do pró- polis utilizado na mistura.

As operárias são responsáveis pela grande força de trabalho da colônia. Elas cuidam da defesa, manipulam os materiais de construção, coletam e processam o alimento. Representam a maior parte das abelhas de uma colô- nia, podendo chegar a mais de 80% dos indivíduos.

Geoprópolis avermelhado produzido pela abelha jandaíra ( Melipona fulva ) no estado do Amazonas

Entrada de colônia da abelha cupira (Partamona sp.), construída com barro

Operárias de uruçu-nordestina (Melipona scutellaris)

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 17

(abandonados ou ativos), em ninhos de pássaros desativados ou cavidades de construções feitas pelo Homem. Outras constroem ninhos expostos ou semi-ex- postos em galhos de árvores ou fendas em rochas. Entretanto, a maior parte das espécies constrói seus ninhos em cavidades de troncos de árvores vivas, de espé- cies e dimensões diversificadas. Uma colônia de abelhas sem ferrão é constituída por dois elementos principais: o ninho e os potes de alimento; além de estruturas auxiliares, como o invólucro, o batume, a entrada e o túnel de ingresso. Os potes de alimento geralmente são elipsóides (em formato de ovo), construí- dos de cerume, e podem apresentar tamanhos variados conforme a espécie. Pólen e mel são armazenados separadamente. Portanto, em uma colônia de abelhas sem ferrão, podemos encontrar dois tipos de potes de alimento: potes de pólen e potes de mel.

Potes de pólen Pólen coletado para consumo

Alguns tipos de potes de mel Potes de mel

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A estrutura do ninho das abelhas sem ferrão é constituída de cerume e possui características diferentes conforme a espécie. Pode ser formada por células agru- padas, formando favos horizontais, ou em cachos, quando as células são esparsas e conectadas entre si por pequenos pilares de cerume.

Células de cria agrupadas em favos

Os favos e os cachos são formados pelo conjunto das células de cria. Em cada célula de cria a rainha deposita um ovo que dá origem a uma nova abelha. Os ovos são alojados nessas células com uma porção de alimento (mistura de mel, pólen e secreções das operárias) suficiente para a alimentação durante todo o período de desenvolvi- mento. Depois de nascer, as abelhas se alimentam predominantemente de mel. Para auxiliar a manutenção da tem- peratura do ninho, as operárias produ- zem lâminas de cerume, chamadas de invólucro. Como o nome diz, ele en- volve o ninho, funcionando como um tipo de cobertor. Essas lâminas também auxiliam o trânsito das abelhas ao redor do ninho. Uma colônia de abelhas sem ferrão é conectada com o ambiente exterior por meio de uma “porta” de entrada. Diversamente associada a mecanismos de proteção e orientação das abelhas, a entrada pode ser construída com ge- oprópolis, barro ou cera. Sua aparência é específica para cada tipo de abelha e, portanto, apresenta-se na natureza em variadas formas, diretamente pro- porcionais à diversidade de espécies existentes. A entrada é conectada ao interior da colônia por um túnel de ingresso, geralmente ligado ao ninho através do invólucro. Trata-se de um corredor re- pleto de abelhas guarda. Se algum ini- migo natural (pág. 57) conseguir passar

Organização das células de cria

Células de cria unidas por pilares formando um “cacho” – típicas de espécies do gênero Frieseomelitta