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Artigo sobre Meios de cultura - Profª Mirian
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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BACTERIOLOGICAL DIAGNOSTIC OF URINARY TRACT INFECTIONS - A TECHNICAL REVISION
Ilana L. Baratella da C. Camargo 1 ; Andresa Maschieto^1 ; Caio Salvino 2 & Ana Lúcia da Costa Darini 3
(^1) Pós-Graduandas – Curso de Pós Graduação em Ciências Farmacêuticas. Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto– USP. 2 Bioquímico – Microbiologista – Laboratório Saldanha – Lages/SC. 3 Docente do Departamento de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas. Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto–USP C ORRESPONDÊNCIA : Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto–USP. Av. Café s/ n°-CEP 14.040-903-Ribeirão Preto-SP. [email protected]
CAMARGO ILBC; MASCHIETO A; SALVINO C & DARINI ALC. Diagnóstico bacteriológico das infecções do trato urinário - Uma revisão técnica. Medicina, Ribeirão Preto, 34 : 70-78, jan./mar. 2001.
RESUMO: Entre as doenças mais comuns está a infecção do trato urinário, afetando mais de um sítio ou um único local como a uretra (uretrite), próstata (prostatite), bexiga (cistite) ou rins (pielonefrite). A urina é considerada estéril e pode sofrer contaminação de bactérias da pele, da roupa ou da genitália. Por isso, se não colhida, armazenada e transportada adequadamente, pode-se obter falsos resultados em exames bacteriológicos. Bactérias da famíliaEnterobacteriacea estão envolvidas em quase todas as uretrocistites não gonocócicas, sendo aEscherichia coli o agente causal de aproximadamente 80% dos casos entre mulheres na idade fértil, sem lesões do trato urinário. Outros microrganismos, incluindo Klebsiella sp.,Enterobacter sp.,Proteus sp.,Pseudomonas sp. eEnterococcus sp., são freqüen- temente encontrados em pacientes com lesões obstrutivas ou doenças paralíticas, afetando a função renal.Staphylococcus saprophyticus é um importante patógeno oportunista na infecção do trato urinário em humanos, especialmente em mulheres jovens, sexualmente ativas. O paciente deve ser informado quanto aos procedimentos recomendados, relacionados com o horário da colheita, modo de obtenção e toda a assepsia necessária, assim como o profissio- nal deve estar bem atualizado quanto às técnicas utilizadas para o isolamento, identificação e antibiograma. Atualmente, existem métodos químicos automatizados ekits excelentes para o diagnóstico presuntivo de infecções urinárias, auxiliando e agilizando os processos de identificação e de tratamento eficaz ao paciente infectado.
UNITERMOS: Infecções Urinárias. Diagnóstico Laboratorial. Bacteriúria.
Medicina, Ribeir„o Preto, 34: 70-78, jan./mar. 2001 REVIS√O
A infecção do trato urinário (ITU) é uma das doenças bacterianas mais comuns; a conduta clínica adequada exige o conhecimento do número e tipos de bactérias envolvidas. Assim, quando métodos quanti-
tativos ou semiquantitativos são usados, o exame bac- teriológico de urina pode ser uma ajuda valiosa no diag- nóstico e no controle terapêutico. A urina é um excelente meio de cultura para a maioria dos microrganismos que infectam o trato urinário e o crescimento bacteriano pode ocorrer na
Bacteriologia das infecções urinárias
urina “in natura”, resultando em contagens elevadas em infecções estabelecidas não tratadas, ou mesmo por contaminação da genitália externa (1)^. Mas, bacteriúria pode ocorrer em várias condições clínicas, envolvendo a invasão microbiana de qualquer tecido do trato urinário ou pode resultar de simples multipli- cação na urina, sem invasão do tecido. Como critérios de avaliação de bacteriúria con- siderável, utilizam-se, na prática, dois critérios: o de Kass(2,3)^ e o de Stamm et al. (4,5)^. Segundo Kass, são consideradas amostras com- patíveis com ITU aquelas com contagem de colônias igual ou maior a 100.000 UFC/mL (Unidades forma- doras de colônia por mililitro de urina). Já, segundo Stamm, são consideradas amostras compatíveis com ITU aquelas com contagem de co- lônias igual ou maior a 100 UFC/mL. A utilização deste ou daquele critério é de com- petência do clínico a cada situação isolada, já que o de Kass é mais específico, enquanto o de Stamm é mais sensível. Sendo a urina um elemento estéril, a simples presença de bactérias, independente de sua quantida- de, deveria indicar ITU, o que, na prática, não se de- monstra. Deve-se considerar a possível contamina- ção da amostra através da microbiota vaginal, o que aumentaria muito o número de resultados falso-positi- vos, se o critério utilizado for o de Stamm. Porém, como veremos adiante, este critério se adequa melhor à realidade pediátrica, na qual, muitas vezes, os crité- rios de Kass são pouco sensíveis a determinadas situ- ações clínicas. O critério de Stamm auxilia a diferenciar casos de contaminação dos casos de ITU, porém, o critério não é, atualmente, muito apreciado pelos microbiolo- gistas devido ao elevado índice de resultados falso- negativos, demonstrando a alta especificidade, e, tam- bém, a baixa sensibilidade. Utilizando somente os critérios de Kass, o nú- mero de mulheres com cistite aguda e microbiota in- ferior a 100.000 UFC/mL foi altíssimo; sendo assim, foram interpretados como “não infectadas”, segundo tais critérios. Já no caso de utilização dos critérios de Stamm, para estes mesmos casos, o número de cultu- ras ditas positivas foi de 36%. Demonstra-se, através desta discussão, que ambos os critérios deverão ser utilizados, sempre acom- panhados de dados clínicos compatíveis para que se diagnostique ITU. Atualmente, os critérios de Stamm são utilizados para crianças e mulheres jovens.
Além dos casos citados, critérios de Stamm e o de Kass, outras preconizações são aceitas. Nos pa- cientes sem tratamento, sintomáticos ou assintomáti- cos, apresentando contagens maiores que 10^5 bacté- rias por mL, indicativas de infecção(6)^ e contagens menores que 10 4 bactérias por mL, podendo ser indi- víduos sadios, recomenda-se a identificação do mi- crorganismo (7)^. O emprego de um único espécime, provavel- mente, oferece uma precisão de 80%, entretanto, um único espécime obtido, por micção espontânea, de um paciente masculino adulto, deve ser considera- do diagnóstico, desde que tenha havido preparo ade- quado do paciente e cuidado na colheita e transporte do espécime. Em mulheres, segundo Kass (2,3)^ , se dois espé- cimes sucessivos de urina, colhidas por micção es- pontânea, contêm o mesmo microrganismo e uma concentração de, pelo menos, 10 5 bactérias por mL, a probabilidade de ter bacteriúria é de 95%. Em crianças, casos de ITU podem vir acompa- nhados de bacteriúria ao redor de 10 3 UFC/mL, pas- sando, muitas vezes, despercebida aos olhos dos bacteriologistas, que a consideram como contaminante dentro do contexto de bacteriúria considerável pro- posto por Kass (2,3)^. Coletas pediátricas podem ser problemáticas e devem contar com uma pequena série de cuida- dos, principalmente em casos de uso de coletores plásticos. A infecção pode afetar um único local, tal como a uretra (uretrite), próstata (prostatite), bexiga (cisti- te) ou rins (pielonefrite), embora, freqüentemente, mais de um sítio esteja envolvido. Infecção restrita à urina pode apresentar-se como bacteriúria assintomática, mas pode, subseqüentemente, levar à infecção clínica. To- das as porções do trato urinário podem correr risco, desde que algum de seus sítios torne-se infectado(8)^. Há duas vias de infecção dos rins: infecção he- matógena, pela corrente sanguínea, e infecção ascen- dente, a partir da via urinária. A infecção ascendente é, claramente, a via mais comum pela qual as bactérias têm acesso ao rim. O primeiro passo para a patogenia da infecção ascendente parece ser a colonização da uretra distal e intróito por coliformes, pela capacidade de adesão às células vaginais ou da uretra(8)^ , sendo que a via sanguínea é um dos maiores focos, também, para bacteremias causadas por enterobactérias. Os sítios mais comuns de infecção do trato urinário, na mulher, são a uretra e a bexiga. A mulher
Bacteriologia das infecções urinárias
cientes têm várias outras bactérias entéricas (por exemplo: Klebsiella sp., Enterobacter sp., Proteus sp. e Enterococcus sp.). S. aureus é raramente en- contrado na pielonefrite aguda. A incidência de E. coli , como agente etiológico na pielonefrite crônica, vem diminuindo, mas permanece ainda como o agente mais comum. Infecções mistas podem ocorrer, quando há obstrução do trato urinário ou o uso de cateteres. Embora ITU, geralmente, seja causada por ape- nas um agente etiológico, raros são casos de entero- bacilos gram-negativos, associados às bactérias do gênero Enterococcus , sendo que, nesses casos, a bacterioscopia de gota pode confundir o microbiolo- gista na análise prévia. Assim, a bacterioscopia pela coloração de Gram deve servir apenas como guia de raciocínio e não como triagem, como recomendavam alguns autores.
Espécimes matinais são recomendados, pois as contagens bacterianas são mais altas devido à incu- bação noturna na urina contida na bexiga. A urina de pacientes que estão recebendo líquidos diuréticos pode estar diluída, reduzindo a contagem de colônias. Os cuidados na colheita, preservação e trans- porte dos espécimes de urina são da maior importân- cia. As melhores técnicas de laboratório para contar e identificar bactérias são de pouco valor, se o espéci- me não é colhido adequadamente e levado ao labora- tório, sem demora ou sob refrigeração adequada. A urina a ser pesquisada bacteriologicamente não deve ser colhida em urinol ou “comadre”, deve ser coletada diretamente em frasco estéril, identificada e examinada ou refrigerada, o mais rapidamente pos- sível, entre 4 – 6 °C, pois, sob refrigeração, as conta- gens bacterianas permanecem em ritmo lento de replicação por (pelo menos) 24 horas nessas condi- ções (8)^ , embora não parem totalmente a replicação. Bactérias contaminantes, provenientes do perí- neo, podem multiplicar-se nos espécimes mantidos à temperatura ambiente e invalidar os resultados dos exames. Espécimes de urina podem ser colhidos por cateterização, aspiração suprapúbica ou jato médio de micção espontânea. A aspiração suprapúbica da bexiga pode ser necessária para diagnosticar uma infecção. Esse pro- cedimento é realizado pelo médico e envolve a pun- ção direta da bexiga através da parede abdominal, usando-se agulha e seringa. A técnica é utilizada quan-
do os resultados de culturas repetidas de urina, forne- cem números conflitantes de microrganismos e mi- crobiota bacteriana, mista. Também, quando na pre- sença de bacteriúria e a cultura é negativa, existe a possibilidade de infecção por anaeróbios. Espécimes colhidos durante cistoscopia ou por punção suprapúbica da bexiga têm menor probabili- dade de estarem contaminados e, assim, mesmo um pequeno número de microrganismos pode ser repre- sentativo na amostra. A cateterização uretral já foi considerada o melhor recurso de colheita de urina na bexiga, mas pode favorecer infecção, particularmente, em pacien- tes idosos, confinados ao leito, por ser extremamente invasiva. Durante a cateterização, a urina não deve ser colhida do saco de drenagem, porque o crescimento das bactérias pode ter ocorrido fora do corpo. O cate- ter deve ser limpo com álcool 70 o, diretamente perfu- rado, em local apropriado, com agulha e seringa para aspirar a urina. A prática de realizar a cultura da pon- ta do cateter, após sua remoção, não tem sentido, por- que a ponta contamina-se, quando ele é removido da uretra (1)^. Nunca se deve coletar a urina do saco coletor devido à possibilidade de contaminação e ao fato de estar em temperatura ambiente, proporcionando re- sultados falso-positivos. A cateterização foi amplamente substituída pela técnica de micção espontânea, coletando-se o jato médio que elimina o risco de causar infecção. Atual- mente, é a técnica utilizada, pois, com o primeiro jato de urina, são eliminadas as bactérias encontradas na uretra, diminuindo a possibilidade de contaminação da amostra. A obtenção de espécime de urina por micção espontânea varia muito, dependendo da idade, sexo e da capacidade de cooperação do paciente. As instru- ções adequadas para colher uma urina por micção espontânea devem ser passadas para todos os pacien- tes, de forma que as bactérias encontradas na urina possam ser consideradas como provenientes apenas da bexiga e uretra. Nos adultos, a higiene genital deve ser feita com clorexidina. O homem deve retrair o prepúcio e lim- par o meato uretral e a glande. Na mulher, a assepsia deve ser da uretra para o ânus. Em ambos, desprezar o início da micção e coletar apenas o segundo jato. O frasco deve ser seguro de tal maneira que se evite o contato com as pernas, vulva ou roupa. Os dedos de- vem ser mantidos afastados da boca ou superfície externa do frasco.
ILBC Ca margo; A Maschieto; C Salvino & ALC Darini
Nas crianças, é necessário coletor infantil. An- tes, coloca-se a criança em posição ginecológica e faz-se a assepsia com clorexidina. Na primeira hora, o coletor deve ser trocado a cada 30 minutos. Daí em diante, a cada 60, mas sempre após a higiene genital. Observação: em estudos realizados com amos- tras de recém-nascidos, obtidas através de saco coletor e com o diagnóstico comprovado por aspiração su- prapúbica, pode-se concluir que o saco coletor forne- ce resultados confiáveis somente quando utilizado em crianças com mais de sete dias de vida, visto que, em crianças mais novas, há maior probabilidade de ocor- rência de resultados falso-positivos (10)^ por contamina- ção fecal.
Além da identificação usual do paciente, o laboratório precisa de informações sobre o diagnós- tico clínico, o método e hora exata em que foi colhida, se o paciente estava sob tratamento com diuréticos, ou se foi administrado algum agente antimicrobiano específico.
Os espécimes recebidos com mais de duas ho- ras após a coleta, sem evidência de refrigeração, de- vem ser devolvidos e solicitada nova colheita. Se isso não for possível, o material deve ser refrigerado e nova requisição deve ser feita. Quando não houver informa- ção, quanto à hora da colheita ou à técnica utilizada, o mesmo procedimento deve ser obedecido. Nenhum espécime deve ser descartado sem o contato prévio com o médico que fez a requisição, porque há possibi- lidade de ser inviável a obtenção de outro espécime.
O procedimento básico deve permitir uma esti- mativa do número total de microrganismos viáveis por mililitro de urina (UFC/mL) e, ao mesmo tempo, per- mitir isolamento de colônias em meios nutritivos, enri- quecidos e diferenciais, para possibilitar o reisolamento e identificação dos microrganismos predominantes.
O exame de esfregaço de urina não centrifu- gada, corada pelo Gram, é recomendado como parte
do procedimento básico. Colocar 10μL de urina não centrifugada em uma lâmina, deixar secar sem espa- lhar, fixar e, então, corar pelo método de Gram. Em objetiva de imersão, uma ou mais células bacterianas observadas, por campo, é indicativo de infecção uri- nária. É sempre bom lembrar que este é um procedi- mento de triagem, e não diagnóstico. Deve servir ape- nas como guia para o microbiologista. A presença de várias células epiteliais esca- mativas é típica de contaminação pelo conteúdo vagi- nal, sendo recomendável nova amostra (independente do número total de bactérias). O exame microscópico também serve como medida de controle de qualidade, pois, uma bacterioscopia positiva, com a cultura sem crescimento bacteriano, alerta o microbiologista para a possibilidade de uma troca de espécime, a presença de aeróbios de crescimento lento, bactérias exigentes nutricionalmente ou uso de antibiótico antes da co- lheita da amostra.
A contagem de colônias deve ser feita através da técnica de espalhamento em superfície. Ágar Müeller-Hinton suplementado com sangue de carnei- ro a 5% ou, preferencialmente, um meio rico diferen- cial (Cled ou Brolacin) é normalmente usado para a quantificação e isolamento. Em todos os métodos, a urina deve ser bem homogeneizada antes de semeada.
7.1. Procedimento de semeadura em superfície. Técnica da alça calibrada Uma alça calibrada de 1μL (0,001 mL)(1)^ é usa- da para inocular a urina nos meios de cultura em pla- cas. A alça é mantida verticalmente e imersa logo abaixo da superfície da urina homogeneizada, deven- do ser movimentada para cima e para baixo. Uma al- çada de urina é, então, depositada e espalhada na su- perfície de cada meio. Este procedimento proporcio- na, invariavelmente, uma separação que permite a contagem de colônias na faixa de importância clínica e a seleção de colônias isoladas para estudos subse- qüentes. O volume dispensado pela alça calibrada ma- nualmente pode mudar com o uso repetido, devido à deformação, corrosão, ou acúmulo de material incine- rado, portanto, a alça deve ser inspecionada, pelo menos, uma vez ao mês. A alça não deve ser usada para semeaduras de rotina ou para outros espécimes
ILBC Ca margo; A Maschieto; C Salvino & ALC Darini
Deve-se identificar, pelo menos, o gênero de patógenos potenciais, embora com o advento dos equi- pamentos de automação, a identificação em gênero e espécie tenha se transformado em prática diária. A identificação de espécies deve ser feita em todos os casos nos quais espécies do mesmo gênero diferem, em sua susceptibilidade, dos agentes antimicrobianos. Procedimentos definidos para a identificação de bactérias estão descritos no Manual of Clinical Microbiology(1)^ , mas a maioria dos patogênicos co- muns, na urina, podem ser identificados pelo uso de testes de triagem de leitura rápida ou com poucos tes- tes convencionais. As colônias repicadas para identi- ficação devem ser testadas quanto à susceptibilidade antimicrobiana, quando isso for requisitado. A inocu- lação direta de placas com espécimes de urina para testes de susceptibilidade não é recomendada, e colô- nias individuais devem sempre ser testadas sob condi- ções padronizadas. Recomendam-se os testes para avaliar a susceptibilidade antimicrobiana, descritos em manuais de referência (1,12)^.
Ocasionalmente, como em infecções por Cân- dida sp , infecções em desenvolvimento e em fase de resolução, pacientes pediátricos e imunodeprimidos, o agente etiológico pode estar presente em números menores. Nesses casos, culturas negativas devem ser registradas como contendo “< 10^3 microrganismos/mL”, levando, muitas vezes, o clínico a entrar em contato com o microbiologista para discutir caso a caso. A cultura para anaeróbios deve ser feita, so- mente quando houver evidência clínica ou radiológica de infecção anaeróbia, ou quando houver presença de bactéria no esfregaço corado pelo Gram e cultura negativa, sugerindo a presença de anaeróbios. A as- piração suprapúbica é indicada na coleta de espéci- mes para a cultura de anaeróbios.
O laboratório clínico microbiológico pode sub- sidiar o clínico, no acompanhamento do paciente com infecção recorrente do trato urinário, com informações
adicionais valiosas, ajudando no diagnóstico diferen- cial entre a recorrência devido à reinfecção com uma nova amostra ou recaída devida à supressão terapêu- tica inadequada do foco de infecção. Isso é melhor acompanhado pela determinação precisa das espécies envolvidas e, em casos necessários, por métodos de tipagem epidemiológica do microrganismo infectante e pode determinar seu exato relacionamento com a amostra da mesma espécie isolada anteriormente.
Há uma variedade de kits ou dispositivos dis- poníveis comercialmente para o diagnóstico presuntivo de infecções do trato urinário. Eles se baseiam em procedimentos bacteriológicos ou químicos. Um exemplo de kit para cultura bacteriológica, quantitativa é o laminocultivo que consistem numa lâ- mina coberta de meio sobre cada lado, sendo um sele- tivo e outro não seletivo. A lâmina é mergulhada na urina, removida, recolocada na embalagem estéril, e incubada. Os laminocultivos são destinados ao isola- mento e à identificação presuntiva de determinadas bactérias, freqüentes na urocultura, reduzindo a mão- de-obra, custos e tempo de semeadura e identifica- ção. Os laminocultivos substituem, com segurança e qualidade, os métodos tradicionais de isolamento, mas nunca os de identificação de gênero e espécie, embo- ra a urocultura quantitativa seja prejudicada pela falta de padronização do inóculo. Recomendamos o uso de laminocultivos apenas para laboratórios de pequeno porte (desde que usados criteriosamente), plantões (já que normalmente o plantonista não é microbiologista), tornando-se mais fácil a padronização da técnica. Não são recomendados os kits bacteriológicos que visam, também, à diferenciação de microrganis- mos em relação a gêneros ou grupos, pelo emprego de múltiplos meios diferenciais e seletivos para a cul- tura direta de urina. Os kits químicos detectam a redução de nitrato a nitrito, a redução de corantes derivados do tetrazólio resultante do metabolismo bacteriano, a medida da redução dos níveis de glicose na urina, a presença de esterase leucocitária, indicando piúria(1)^. A pesquisa de nitritos deve ser realizada com a primeira urina da manhã e não em espécimes colhidos em qualquer tempo. Ele pode também fornecer resul- tados falso - negativos em pacientes com dieta pobre
Bacteriologia das infecções urinárias
em nitrato, pode sofrer o bloqueio ou interferência pelo cloreto de fenzapiridina ou qualquer droga que seja ativa sobre bactérias e requer grandes populações bacterianas para dar resultados positivos. Portanto, deve-se ressaltar que uma urina sem refrigeração permite a multiplicação de bactérias, aumentando con- sideravelmente sua quantidade, resultando em resul- tado falso-positivo na pesquisa de nitritos (6)^. Adicio- nalmente, o teste não detecta microrganismos incapa- zes de reduzir nitrato a nitrito. A fidelidade do teste da glicose é questionada devido à elevada porcentagem de resultados falso-positivos. A medida de piúria pela padronização microscópica pode atrasar todo o pro- cesso de isolamento, por isso uma alternativa aceitá- vel é a medida de esterase leucocitária, uma enzima presente nos leucócitos. Um teste rápido (dois minu- tos) e fácil, disponível em fitas. Os kits podem ser apropriados como métodos de triagem. Somente quando as infecções exigem tra- tamento de urgência, é que o diagnóstico deve ser baseado apenas em um dos testes, mas, mesmo nes- sas circunstâncias, a cultura quantitativa de urina deve ser realizada para confirmação e identificação preci- sa do agente causal, além da realização dos testes de susceptibilidade antimicrobiana, quando indicados.
Algumas vezes são empregados certos proce- dimentos inaceitáveis ou parte de procedimentos con- siderados inadequados.
antimicrobianos, exceto em suspeita de falhas tera- pêuticas.
14.1 Conseqüências da não refrigeração da amostra
Atualmente, são utilizados muitos instrumentos para identificação microbiana e realização de testes de susceptibilidade, além de sistemas que permitem a detecção de antígenos e produtos do metabolismo microbiano diretamente em espécimes clínicos huma- nos, entre eles, a urina (13)^. A automação, que também é utilizada no diag- nóstico das ITU, é de grande importância oferecendo benefícios e facilidades tanto para o paciente quanto para o laboratório. Alguns exemplos podem ser cita- dos pela redução do tempo de internação e de riscos de contrair infecção hospitalar, rapidez nos resultados, identificação de espécies raras e de difícil identifica- ção; monitorização das infecções nosocomiais e de cepas multirresistentes e a facilidade de obtenção de estatísticas. Os princípios básicos para a detecção e iden- tificação de microrganismos viáveis podem ser atra- vés da turbidez, análise do metabolismo microbiano, medição de metabólitos e detecção colorimétrica de partículas.