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são os principais temas da mitologia, sendo mais fácil para a compreensão pois vem comentado, ajuda muito para quem vai preparar aulas ou falar a respeito dos mitos
Tipologia: Notas de aula
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Paulo Sérgio de Vasconcellos Objetivo/ALPRO – São Paulo 1998 Editora SOL
Faetonte e o carro do Sol Orfeu e Eurídice Narciso Prometeu, o primeiro benfeitor da humanidade Teseu e o Minotauro, Dédalo e Ícaro As aventuras de Hércules
Os mitos gregos estão por toda parte ainda hoje. Estas narrativas, que um dia povoaram não só a imaginação como também a vida cotidiana de todo em povo, perduraram no tempo e ainda hoje fascinam escritores, cineastas, escultores, psicólogos, antropólogos, etc, etc. Pode-se fazer delas o uso mais variado, mas é curioso que guardam, em si mesmas e por si mesmas, um interesse inabalável para os leitores comuns, pessoas que sempre sentirão prazer em mergulhar na poesia de deuses nada perfeitos, cheios de defeitos muito humanos, ninfas que definham de amor por mortais, heróis que redimem a humanidade, vozes encantadoras de sereias, monstros brutos de um olho só, derrotados pela inteligência do homem. Os estudiosos podem tentar analisar os mitos como forma primitiva de explicação racional do universo, como ciência ingênua e rudimentar; outros podem vê- los como projeção de nossa vida inconsciente, etc. - o mito sobrevive a qualquer tentativa reducionista de enquadrá-lo em termos que não são os seus, reduzi-lo a alguma “chave” que supostamente o desvende – ele sobrevive inatingível, com o impacto de sua força narrativa. “O mito é o nada que é tudo”, já disse Fernando Pessoa, criador de mitos, como todo poeta. Este livro reconta alguns mitos do vasto repertório de histórias da Grécia antiga, pensando no leitor leigo das nossas escolas de ensino fundamental, em especial os da quinta à oitava série. Tentamos auxiliá-lo a se iniciar nesse universo, à primeira vista de difícil aproximação para os mais jovens, empregando linguagem mais simples, sem subestimar, porém, sua capacidade, acrescentando notas explicativas e exercícios de fixação dos conteúdos lidos. Sempre que possível, entretanto, fomos a alguma fonte da Antiguidade, por vezes quase traduzindo esse original: Ovídio, na história de Faetonte, Virgílio, na narrativa da queda de Tróia, etc. Assim, o leitor conhecerá, aqui, algumas versões que grandes poetas elegeram para contar mais uma vez a mesma história (já que o mito é sempre recontado, modificado, nunca exatamente o mesmo, a cada narrativa filtrado pela visão especial de cada artista). Como são pretendemos fazer obra de referência, geralmente evitamos acumular várias versões da mesma história ou aborrecer os jovens com eruditismos desnecessários. Se o leitor se sentir atraído por esse universo no que ele tem de mais fundamental, a beleza de cada conto, seja qual for o uso que se faça dele, estaremos satisfeitos. E quem sabe o nosso leitor passe, então, a perceber como seu dia-a-dia moderno está repleto de evocações daquele mundo que subsiste vivíssimo mesmo depois de sua civilização material se encontrar reduzida a pobres ruínas. Por fim, agradeço ao professor Francisco Achcar por muitas sugestões e correções; este livrinho certamente se enriqueceu com suas observações ou, pelo menos, livrou-se, com elas, de não poucas imperfeições. P.S.V.
com os cabelos em chamas, tomba do céu, deixando no ar um traço de fogo, como uma estrela cadente. Ninfas (ninfas=divindades dos bosques, das águas e dos montes) recolheram seu corpo e o sepultaram. Como epitáfio (Epitáfio=inscrição posta em túmulo), escreveram estas palavras:
Fugindo de um homem que a perseguia, a ninfa Eurídice pisou numa serpente venenosa oculta na relva. O réptil a picou no calcanhar, e ela desceu ao reino dos mortos, deixando inconsolável seu marido. Orfeu, poeta, músico e cantor, sempre empunhando a lira ou a cítara, era um artista insuperável. Com seu canto, os animais ferozes se tornavam pacíficos e o seguiam, as rochas se moviam, as árvores inclinavam as copas (copa=a folhagem da parte superior das árvores) em sua direção, os homens se acalmavam. Mas a dor pela perda da esposa foi tal que ele, fugindo do convívio humano, na solidão, só conseguia pensar em Eurídice. Sua música, agora triste, só cantava o amor por Eurídice. Por fim, resolveu descer ao sombrio Hades (Hades=o reino dos mortos; era também o nome do deus que reinava sobre essas regiões) para tentar trazê-la de volta. Em meio às sombras e deuses das regiões subterrâneas, Orfeu fez ecoar a música de sua lira. Nos infernos, Sísifo tinha sido condenado a rolar montanha acima uma pedra que, no alto, voltava a cair, obrigando-o a recomeçar a tarefa eternamente. Mas, com aquela música, como que por encanto a pedra de repente ficou parada, sem ninguém a segurar. Tântalo, como punição dos deuses, sedento e faminto, tinha sempre diante de si água e comida, que, porém, nunca conseguia alcançar. Mas, ao som da lira de Orfeu, esqueceu-se da fome e sede eterna. As Danaides tentavam encher de água um tonel furado; a música encantadora as fez descuidar da tarefa ingrata. Cantando o amor a Eurídice e a perda da esposa, comoveu a todos os habitantes do mundo infernal. Até mesmo de Hades, que tinha um coração de ferro, arrancou lágrimas. Hades e Perséfone, os deuses infernais, concederam, então, que Orfeu levasse Eurídice volta à vida, com uma condição: na ida em direção à luz do dia, ele não deveria, de maneira nenhuma, olhar para trás antes de deixar o mundo das sombras. Eis que Eurídice acompanha silenciosa Orfeu, rumo à superfície da terra. Vão regressando daquelas regiões escuras, povoadas pelas dos mortos. Percorrem um caminho abrupto (abrupto=ingrime, difícil), em meio a trevas e uma névoa espessa. E a luz já se aproximava, quando, tomado de intenso amor e esquecido da condição que lhe impuseram, Orfeu resolveu olhar para a sua Eurídice...Ouve-se um estrondo espantoso, e Eurídice diz ao esposo:
o s final; quanto ao u, representa um som intermediário entre /u/ e /i/ ). Este último filme, uma produção de 1959, foi rodado no Rio de Janeiro e é baseado em texto de Vinícius de Moraes, que também compôs, com Tom Jobim e Luís Bonfá, a trilha sonora. Aqui, Orfeu é um sambista carioca. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Quando Narciso nasceu, sua mãe, uma ninfa belíssima, consultou o adivinho Tirésias para saber se aquele filho de extraordinária beleza viveria até o fim de uma longa velhice. Pareceram sem sentido as suas palavras:
tarefas femininas, Hermes (Hermes=na mitologia latina, Mercúrio, o mensageiro dos deuses), astúcia, o fingimento e a mentira, além do dom da palavra. Foi este último quem a chamou Pandora, que foi enviada à terra como se fosse um presente para os homens. Essa primeira mulher levava consigo uma jarra tampada, na qual os deuses haviam colocado todos os males e desgraças imagináveis. Na terra, Pandora não conseguiu conter a curiosidade e destampou a jarra. Imediatamente, males e desgraças espalharam-se por todos os lados. Até então, os homens tinham vivido em paz, sem doenças, fome ou guerras. Pandora precipitadamente voltou a tampar a jarra, mas já todos os males tinham escapado, com exceção da esperança. Foi assim que a justiça de Zeus puniu os homens. Quanto a Prometeu, foi acorrentado a um rochedo. Uma águia vinha de dia roer-lhe o fígado; à noite, a parte que faltava renascia milagrosamente, tornando eterno o seu suplício. Muito tempo depois, Hércules, um outro benfeitor da humanidade, mataria a águia e libertaria Prometeu.
Na ilha de Creta reinava Minos. Um dia, Possêidon (Possêidon=Netuno, na mitologia latina) enviou-lhe, surgido do mar, um touro, que o rei lhe deveria sacrificar. Minos, porém, guardou para si o animal. A esposa de Minos, Pasífae, apaixonou-se pelo animal. Essa paixão deve ter sido uma vingança de Possêidon, o rei do mar, ou de Afrodite (Afrodite=Vênus na mitologia latina), a deusa do amor, de cujo culto a rainha tinha descuidado. Vivia em Creta um célebre arquiteto, escultor e inventor, Dédalo. Foi esse homem quem construiu para Pasífae uma novilha (novilha=bezerra) de bronze, oca, para que a rainha, pondo-se em seu interior, pudesse atrair o touro. Assim Pasífae se uniu àquele animal. Da união nasceria um monstruoso homem com cabeça de touro – o Minotauro. Quando nasceu o filho de Pasífae e do touro, Minos, envergonhado, fez com que Dédalo construísse um labirinto para aí deixar aquela criança monstruosa. Com seus inúmeros corredores, salas e galerias, criados de maneira a fazer perder a direção e confundir até o mais astuto dos homens, o labirinto só era dominado pelo próprio Dédalo: quem ali entrasse, não conseguiria mais sair. Com o passar dos anos, o Minotauro foi crescendo no labirinto, longe dos olhares das pessoas. Ora, Minos, tendo derrotado os atenienses em batalha, exigiu deles um tributo sinistro: todos os anos, Atenas deveria enviar sete rapazes e sete moças para serem devorados pelo Minotauro. Pode-se imaginar o terror que deveria se apossar de quem, perdido na confusão dos caminhos tortuosos, sentia aproximar-se de si aquela criatura grotesca que habitava o labirinto...Disposto a pôr um fim a essa situação, o herói ateniense Teseu foi um dia a Creta, junto com os outros jovens destinados à morte certa. Quando Teseu chegou à ilha, Ariadne, filha de Minos e Pasífae, apaixonou-se pelo jovem. Desejando salvá-lo da morte no labirinto, a moça lhe deu um novelo com um fio: Teseu deveria desenrolá-lo à medida que penetrasse naquele emaranhado. Quem tivera a idéia fora Dédalo. Foi assim que o herói, depois de matar o Minotauro, encontrou facilmente a saída, seguindo o caminho criado pelo fio de Ariadne. Ao saber do que ocorrera, Minos, enfurecido, aprisionou Dédalo e seu filho Ícaro no labirinto, pois julgava que o arquiteto tinha sido cúmplice daquela traição. Haveria de ser a morte para os dois, se Dédalo, sempre astucioso e inventivo, não tivesse encontrado um meio de escapar. Fez, com penas de aves coladas com cera, um par de asas para si e outro para o filho. Antes de saírem por uma das altas janelas do labirinto, Dédalo fez uma recomendação a Ícaro. Que ele sob hipótese alguma, se aproximasse do sol; deveria voar nem muito alto nem muito baixo, entre o céu e a terra. Partiram. Mas Ícaro não obedeceu ao conselho paterno. Chegando demasiado perto do sol, a cera das
asas derreteu, e as penas dispersaram-se nos ares. De repente o moço se viu agitando braços nus. Chamando em vão pelo pai, Ícaro caiu nas águas azuis do mar Egeu.
O nascimento e a primeira façanha do herói Em Tebas, cidade grega, vivia uma mulher de rara beleza, Alcmena, esposa do general Anfitrião. Zeus decidiu pôr em prática um plano astucioso para a ter em seus braços. Aproveitou-se da partida de Anfitrião para a guerra e tornou-lhe a aparência; ao mesmo tempo, seu filho Hermes (Hermes=Mercúrio, na mitologia latina) tomou a forma de Sósia, escravo do general. E lá foram os dois deuses, metamorfoseados (metamorfoseados=transformados) em mortais, para a cidade de Tebas. Zeus, então, ordenou que a Noite se prolongasse como nunca antes e, fazendo-se passar por Anfitrião voltando da guerra, foi ao encontro de Alcmena. Hermes ficou na porta da casa, para impedir que seu pai fosse perturbado. A esposa de Anfitrião, que de nada desconfiava, deitou-se com o pai dos deuses naquela longuíssima noite. Quando Anfitrião retornou da batalha, criou-se grande confusão, afinal sua esposa lhe falava dos momentos que tinham passado juntos...E Alcmena já sabia, em detalhes, de tudo o que tinha acontecido no campo de batalha antes de o general lhe contar. Foi preciso a intervenção de Zeus para esclarecer tudo. Meses depois, Alcmena deu à luz dois filhos: um mortal, Íficles, filho gerado com Anfitrião, e um semideus, Hércules, cujo pai era Zeus. Hera, a ciumenta mulher do pai dos deuses, haveria de perseguir aquele menino desde os seus primeiros dias. No entanto, Hércules chegou um dia a mamar do seio de sua terrível inimiga. Foi Hermes quem colocou a criança para mamar no seio de Hera quando a deusa dormia. Hércules sugou tão forte ela, despertando, afastou rudemente o menino. Gotas de leite escorreram pelo céu, formando o turbilhão de estrelas da Via Láctea, o “caminho de leite”. Vingativa como de costume, Hera tramou a morte daquela prova do adultério de seu marido Zeus. Um dia mandou ao berço dos filhos de Alcmena, que então tinham só oito meses, duas serpentes gigantescas. Enquanto Íficles chorava e gritava, Hércules agarrou os répteis e os estrangulou sem dificuldade. Provava que era, de fato, filho de um deus. À medida que o tempo passava, Hércules crescia incrivelmente; com dezoito anos, sua altura chegou a três metros. Em sua vida de herói, metade humano, metade divino, cumpriria as façanhas mais difíceis, impossíveis para um simples mortal. Um trecho de comédia (A história dos amores de Zeus, ou Júpiter, seu correspondente na mitologia romana, e Alcmena, a esposa de Anfitrião, foi narrada muitas vezes através dos tempos e nos mais diversos países, geralmente de forma cômica. O escritor português Luís de Camões, por exemplo, escreveu uma comédia chamada Anfitriães. Você lerá abaixo uma pequena amostra de uma comédia muito divertida de Plauto, um escritor latino que viveu no século III antes de Cristo! A peça chama-se Anfitrião e mostra as confusões criadas com o aparecimento de dois Anfitriões e dois Sósias no mesmo espaço, a cidade de Tebas. No trecho que selecionamos e adaptamos ligeiramente, Hermes, aqui com seu nome latino de Mercúrio, com a aparência de Sósia, está à porta da casa de Anfitrião e faz gestos ameaçadores para o verdadeiro Sósia, que chegou há pouco da guerra com seu patrão. Note que Mercúrio finge não ver Sósia, e os dois falam à parte, sem se dirigir diretamente um ao outro.) MERCÚRIO (fazendo o gesto de dar socos no ar): Seja quem for o sujeito que vier aqui, comerá
com esse ataque. Depois, deu-lhe, com sua clava (clava=pedaço de pau mais grosso na parte de cima, usado como arma), fortes golpes e sufocou-o entre seus braços. Morto o leão, Hércules tirou- lhe a pele e se cobriu com ela. Finalmente, Zeus transformou o animal em constelação. Como segundo trabalho, Hércules teve de matar a Hidra de Lerna, uma serpente com várias cabeças (humanas, segundo alguns!) que devastava as terras por onde passava. Seu hálito era mortífero (mortífero=mortal, que causa a morte), e suas cabeças renasciam em dobro quando cortadas. Além disso, a cabeça do centro era imortal. Mas, com a ajuda de seu sobrinho Iolau, o herói venceu o monstro. De fato, enquanto ia cortando as cabeças da Hidra, Iolau queimava as feridas, impedindo, assim, que da carne machucada nascessem novas. Por fim, Hércules cortou a cabeça do meio, enterrou-a e pôs-lhe por cima um enorme rochedo. Morto o monstro, o herói embebeu suas flechas no seu sangue venenoso, tornando-as também envenenadas. A terceira tarefa de Hércules foi trazer vivo um enorme javali que vivia na montanha chamada Erimanto, na Arcádia, um região da Grécia. O herói o fez com facilidade, atraindo o javali para fora de sua toca e fazendo-o caminhar pela neve até se cansar. Aí, capturou-o e levou-o nos ombros até a cidade de seu primo, que lhe ordenara aquele trabalho. Quando chegou com o animal, Euristeu, apavorado, saiu correndo e se escondeu dentro de um jarro de bronze... Trazer viva a corça do monte Cerinia foi o quarto dever imposto a Hércules. Era, também, um animal gigantesco, mais forte que um touro, e devastava as colheitas. Tinha chifres dourados, pés de bronze e era velocíssima. O herói não podia matá-la, pois era um animal consagrado à deusa Ártemis (Ártemis=Diana, na mitologia latina, a deusa das florestas, dos animais e vegetais). Hércules perseguiu-a durante todo um ano, em vão. Um dia, porém, quando ela, já cansada, foi atravessar um rio, Hércules conseguiu feri-la com uma flecha e capturá-la. E levou-a Euristeu, cumprindo mais uma tarefa impossível a um mortal qualquer. Matar as gigantescas aves do lago Estínfalo foi o quinto trabalho de Hércules. Eram em grande quantidade e devastavam colheitas e pomares. Diziam alguns que eram antropófagas, com penas de aço que feriam o inimigo como se fossem setas. Para liquidá-las, Hércules tinha de as fazer sair da espessa floresta, perto do lago Estínfalo, em que se ocultavam. Teve uma grande idéia: com castanholas de bronze, fez um barulho tal, que as aves saíram daquele esconderijo. Então, usando as setas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna, Hércules as matou uma por uma. O sexto trabalho consistiu em limpar os estábulos do rei Augias, que tinha um imenso rebanho, com milhares de cabeças. Esse homem não limpava as instalações havia trinta anos. O estrume não era aproveitado como fertilizante nas lavouras, e as terras iam ficando estéreis com o passar do tempo. Hércules fez uma aposta com Augias: receberia uma parte de seu rebanho se conseguisse limpar os estábulos em apenas um dia. Julgando que aquilo era impossível, o rei prontamente aceitou a aposta. Hércules, então, desviou a corrente de dois rios para os estábulos e, com a maior rapidez, conseguiu limpar toda a sujeira acumulada ao longo dos anos.
Um touro enlouquecido, que soltava fogo pelas ventas, devastava a ilha de Creta. O sétimo trabalho de Hércules consistiu em capturá-lo e trazê-lo vivo a seu primo Euristeu. Esse, por sua vez, quis consagrá-lo a Hera, mas a deusa, ainda colérica contra Hércules, recusou, e o animal foi solto. A oitava proeza do herói consistiu em capturar as éguas de Diomedes, o rei da Trácia. Diomedes aprisionava os estrangeiros que vinham ter a seu país e com sua carne alimentava os quatro animais. Hércules matou o rei e deu seu corpo às éguas para ser devorado por elas. A filha de Eristeu, Admeta, desejava para si o cinto da rainha das amazonas, Hipólita; obtê- lo foi o nono trabalho de Hércules. As amazonas eram mulheres guerreiras, descendentes de Ares, o deus da guerra, e tinham uma comunidade formada apenas de mulheres. Lutavam com grande bravura. Para se apoderar do cinto d rainha, Hércules teve de lutar com aquelas mulheres e matar Hipólita. Trazer os bois do imenso rebanho de Gerião, um gigante de três cabeças, foi a décima
proeza do herói. Para isso, Hércules teve de ir até a ilha de Eritia, atravessando o Oceano. Como conseguiria isso? Foi preciso empregar a enorme taça do Sol; nela, todos os dias o Sol embarcava de volta para seu palácio no Oriente depois de ter, ao cair da noite, chegado ao Oceano. O Sol só lhe emprestou sua taça quando Hércules, irritado com o calor ao atravessar um deserto, ameaçou atingi- lo com suas flechas. No Oceano, tão agitadas estavam as ondas, que Hércules teve de fazer também a mesma ameaça a ele para que se acalmasse. Em Eritia, nos confins do Ocidente, Hércules matou, com sua clava, o cão Ortro, um animal monstruoso, e o pastor Eritíon, que guardavam o rebanho. Gerião tentou resistir, mas as setas de Hércules o venceram. Os animais que o herói conseguiu fazer chegar até Euristeu foram sacrificados a Hera. O décimo primeiro trabalho parecia realmente impossível: descer ao reino dos mortos, ao sombrio Hades, e capturar o cão Cérbero. Esse animal aterrorizante, com três cabeças e as costas e o pescoço cobertos de serpentes, impedia a entrada de vivos naquelas regiões bem como a saída dos mortos. O deus Hades consentiu que Hércules levasse Cérbero com a condição de que não usasse armas. Hércules, então, atacou o cão, segurou-o pelo pescoço e , com a cauda do animal, que tinha um ferrão, deu-lhe várias picadas. E pôde sair dos Infernos e levar a Euristeu a estranha presa. O primo, à vista daquele ser monstruoso, saiu correndo, apavorado e foi se esconder em seu jarro de bronze... O herói devolveu Cérbero a Hades. O último dos doze trabalhos foi trazer maçãs de ouro do jardim das Hespérides. Essas maçãs tinham sido o presente de casamento oferecido pela Terra, nas bodas de Zeus e Hera. A deusa as plantara no jardim dos deuses e, para proteger a árvore e os frutos, deixara-os sob a guarda de um dragão de cem cabeças e das três ninfas do Poente, as Hespérides. No caminho para o jardim, Hércules, dentre outras façanhas, libertou Prometeu do rochedo a que estava encadeado. Prometeu, em reconhecimento, advertiu-lhe que a única maneira de conseguir colher os frutos era através do gigante Atlas, que sustentava o céu sobre os ombros. Ao encontrar Atlas, Hércules fez-lhe uma proposta: seguraria o céu em seu lugar por algum tempo, enquanto o gigante iria colher três maçãs do jardim das Hespérides, que ficava perto. E assim aconteceu. Atlas, porém, queria levar pessoalmente as maçãs a Euristeu, enquanto o herói ficaria suportando o peso do céu. Hércules fingiu concordar, mas usou de esperteza para escapar a essa situação: pediu ao gigante que segurasse aquele fardo por alguns momentos para que ele pudesse colocar uma almofada sobre os ombros. Atlas voltou a segurar o céu – para sempre...enquanto Hércules partia, de volta à pátria de Euristeu. Levadas ao rei, as frutas foram oferecidas a Hera, que as pôs de volta em seu jardim. Assim se cumpriram os doze trabalhos de Hércules, doze proezas impossíveis para os mortais comuns.
As origens da guerra de Tróia Um dia, Hécuba, a esposa do rei de Tróia, teve um sonho pavoroso; ela que estava grávida e em breve daria à luz, acordou de repente no meio da noite. Logo contou a seu marido Príamo o pesadelo: sonhara que o filho esperado finalmente parecia querer sair de seu ventre, mas, ao invés de uma criança, paria uma tocha. O mais inquietante era que o fogo acabava por se espalhar pela cidade inteira, consumindo tudo. O rei tentou em vão acalmá-la e minimizar aqueles terríveis presságios; por fim, para não restar dúvidas, dirigiu-se a um de seus filhos, que sabia como ninguém a arte de interpretar os sonhos. A resposta que os pais receberam foi uma horrível notícia e um conselho tétrico (tétrico=terrível, medonho):
da Discórdia arruinaria a cidade de Príamo e levaria a gregos e troianos muitas desgraças, lágrimas e dores sem conta. As deusas perdedoras, Hera e Palas Atena, ajudariam, na medida de suas forças, os inimigos dos troianos na longa guerra entre exércitos da Europa e da Ásia. Um dia Páris, acompanhado de um de seus irmãos, viajou para a cidade de Esparta, pátria de Menelau, com o objetivo de raptar-lhe a esposa, que deveria ser sua, segundo a promessa de Afrodite. Foi recebido com uma hospitalidade digna dos gregos, numa recepção que unia anfitrião e hóspede em fortes laços de direitos e deveres mútuos. O marido, que de nada desconfiava, teve, pouco depois, de viajar para a ilha de Creta e, acreditando no pacto de hospitalidade, deixou sua própria esposa encarregada de tratar bem os troianos. Helena, diante daquele jovem ainda mais belo por obra de Afrodite, apaixonou-se e, sabendo dos planos de Páris, longe de precisar ser levada à força (segundo outra versão da mesma história, Helena teria sido, de fato, raptada), resolveu com ele fugir levando seus tesouros. Foi bem recebida pelo rei Príamo, que não podia imaginar que desgraça acolhia em seus muros junto com aquela mulher que a todos encantava. No futuro, também um cavalo de madeira seria recebido com alegria e dele nasceria um rastro de destruição e morte. Ao saber do que ocorrera, Menelau reclama de Tróia a esposa, em vão. Furioso e decidido a se vingar, conclama todos os seus aliados a marchar contra a cidade, sob o comando de seu irmão Agamêmnon. Naquele exército, iam heróis que o mundo jamais esqueceria: o jovem e impetuoso Aquiles, o arguto (arguto=esperto, perspicaz, sutil) Odisseu, ou Ulisses, tão hábil na ação quanto nas palavras, e tantos outros. Tróia, também chamada Ílion, assistiria a dez anos de batalhas em que combateriam os mais notáveis dentre os gregos e os troianos, em duelos que tinham muitas vezes alguma participação divina. Poetas e artistas praticamente do mundo todo, e em quase todas as épocas, recordariam inúmeras vezes aquele conflito terrível entre Europa e Ásia, que até hoje atiça a nossa imaginação. () Olimpo:* Monte da Grécia considerado como morada dos deuses celestes. Veremos como esse nome comparece num poema do português Fernando Pessoa, escrito com o heterônimo de Ricardo Reis. Mas antes é preciso falar um pouco sobre o poeta. Fernando Pessoa, além e escrever poemas e prosa em seu próprio nome, escrevia também adotando “heterônimos”, nomes como de Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Não são propriamente pseudônimos (isto é, “nomes falsos”) porque por detrás deles não está simplesmente a figura de Fernando Pessoa. Cada heterônimo tem sua biografia, inventada pelo poeta, sua maneira de escrever, seus temas prediletos, como se se tratassem de pessoas reais, diferentes de Fernando Pessoa. O poeta em suas cartas, dizia que desde criança se dedicava a criar seres imaginários com os quais como que convivia; ao crescer, julgou-se vítima de uma doença psicológica, uma espécie de neurose. Como escritor, é como se Pessoa se desdobrasse em vários ou criasse, como um autor de teatro, personagens que assumissem a responsabilidade pelo que expressam; assim, essas várias “vozes” chegam mesmo a comentar os poemas uns dos outros. Imagine esta situação: você pode inventar, digamos, dois personagens, que têm uma biografia diferente da sua, um rosto diferente do seu, uma maneira de falar que não é a sua etc.; mais: quando escreverem, cada um dos...três terá algo especial na sua maneira de expressar! Você vai ler, agora, um poema do heterônimo Ricardo Reis, cuja poesia fala do mundo pagão (isto é, pré-cristão), com seus deuses, sua filosofia, idéias e preferências artísticas. Há pouco tempo, Maria Bethânia gravou, no seu disco Imitação da Vida, uma música de Sueli Costa cuja letra é o poema de Ricardo Reis que vai abaixo. Grife os elementos do mundo antigo que você consegue identificar: Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas O resto é a sombra
De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós próprios. Suave é viver só. Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses. Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além dos deuses. Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração. Os deuses são deuses porque não se pensam. (ara=altar, ex-voto=na Antiguidade, como hoje, as pessoas pediam curas aos deuses e faziam promessas; quando atendidas, cumpriam-nas e, muitas vezes, isso significava colocar no templo uma oferenda: no caso do doente, poderia ser uma imagem do órgão do corpo afetado. A essa imagem de agradecimento chamamos ex-voto).
No décimo ano do cerco à cidade de Tróia, os gregos foram surpreendidos por uma terrível peste, enviada pelas setas do deus Apolo. Os animais foram os primeiros a serem atingidos, mas logo a doença contaminava os homens, multiplicando pelo acampamento as piras erguidas para incinerar (incinerar=queimar) os mortos. Condoído (condoído=com dó) pela sorte dos seus, Aquiles reuniu o exército. Conhecedor do presente, passado e futuro, o adivinho Calcas tomou a palavra perante a assembléia dos gregos:
de Aquiles. Depois de assim falar, a alma lhe voou dos membros e desceu ao reino dos mortos, o sombrio Hades, lamentando sua sorte (sorte=destino), já que deixava um corpo há pouco cheio de vigor e juventude. Heitor dirigiu ao morto estas palavras:
Após fazer as pazes com Agamêmnon, Aquiles retornou ao campo de batalha, onde guerreava com fúria. Rápido por causa de seus pés ligeiros, parecia um corcel galopando a toda velocidade ou uma estrela brilhando através da planície. Tomado por um mau pressentimento, o rei Príamo suplicou a seu filho Heitor que não o enfrentasse. Hécuba, sua mãe, em lágrimas, fez-lhe a mesma súplica. O troiano, porém, estava decidido a não ceder ao apelo dos pais. No entanto, quando Heitor avistou Aquiles, com sua armadura de bronze brilhando como um fogo ou o sol nascente, teve medo e fugiu. Aquiles voou atrás dele, perseguindo-o sem descanso. Estava em jogo, naquela corrida, a vida de Heitor. Assistiam a esse espetáculo não só gregos e troianos mas também os deuses; Zeus sentiu piedade do filho de Príamo. Os heróis corriam sem que um conseguisse alcançar o outro. O pai e rei dos deuses, então, pesou numa balança de ouro os destinos dos dois: o resultado indicou claramente que a vida do troiano estava por um fio. Diante disso, Apolo, que até então o vinha protegendo, abandonou-o. Para precipitar a morte de Heitor, Atena se transformou no mais querido dentre seus irmãos, Deífobo, e o estimulou a ir ao encontro de Aquiles. Heitor disse ao grego estas palavras:
irritado, de repente percebeu que o falso Deífobo não estava mais do seu lado; compreendendo que fora vítima dos deuses, deu-se conta de que sua morte já estava próxima. Resolveu morrer lutando: desembainhou a espada e se precipitou contra Aquiles. No entanto, o grego fere o pescoço de Heitor, num ponto deixado descoberto pela armadura que o troiano portava, a mesma que tomara de Pátroclo. Ao vê-lo tombar na poeira, Aquiles lhe diz palavras duras; Heitor ainda lhe dirige um pedido:
uma vida breve e gloriosa, ao invés de envelhecer na terra natal, como um desconhecido qualquer.
Após dez anos de luta, sem que Tróia parecesse ceder, os gregos resolveram finalmente dar o golpe decisivo contra a cidade. Empregaram o que seria muitas vezes reconhecido como seu maior talento: a inteligência e a astúcia. Quem teve a idéia decisiva foi o preferido da deusa da sabedoria, Odisseu, ou Ulisses, um homenzinho atarracado, dotado de uma sagacidade (sagacidade=astúcia) que o tornava indispensável ao exército. Seguindo instruções desse homem astucioso, Epeu construiu um grande cavalo de madeira e em seu enorme ventre entraram os maiores guerreiros da Grécia. Os gregos fingiram que tinham partido de Tróia e que finalmente retornavam para casa, cansados da longa e inútil guerra. Na verdade, esconderam-se na ilha de Tênedos, que ficava próxima. Antes da partida, fizeram chegar aos troianos o rumor de que o enorme cavalo de madeira que haviam construído era uma oferenda à deusa Palas Atena, para que ela assegurasse um bom retorno a todos. Aliviados, os troianos saem dos muros que os protegiam e visitam o campo de tantas batalhas. Diante da alegria despreocupada dos seus, o sacerdote de Netuno, Laocoonte, se revolta:
então, traz o adivinho Calcas e o obriga a dizer que os altares estavam destinando à morte...Sinão, a mim, que aquele velhaco queria há tanto tempo pôr a perder! Todo mundo, aliviado de escapar à morte, aprova as palavras de Calcas. Chega o dia do sacrifício; amarram- me e colocam fitas em volta da minha cabeça, polvilhada (polvilhado=salpicado) com cevada e sal, como é costume fazer com os animais oferecidos aos deuses em sacrifício. Fugi, confesso a vocês, mas já não tenho esperança de rever meus queridos filhos e meu saudoso pai. Pelos deuses do alto e pelos numes (numes=divindades) da verdade, suplico-lhes, tenham compaixão de uma alma que suportou tamanhos sofrimentos sem merecer! Sinão terminou esse discurso em lágrimas, comovendo o coração dos troianos. Por fim, com a mesma habilidade, contou como o cavalo fora construído para obter as boas graças de Palas Atena. Por recomendação de Calcas, tinham feito algo enorme, que fosse impossível de penetrar nos muros de Tróia, afinal a posse do cavalo significaria a proteção da deusa para seu povo. Se o recebessem na cidade, um dia Tróia haveria de fazer uma guerra vitoriosa aos gregos; porém, se maltratassem o dom de Palas, grande mal adviria para o Império de Príamo. Mas eis que de repente um prodígio aterrador veio perturbar a mente e o coração dos troianos ainda mais. Quando Laocoonte, que atingira com a lança o cavalo deixado pelos gregos, estava sacrificando um touro na praia, da ilha de Tênedos, através das águas tranquilas, duas serpentes gigantescas começaram a vir em sua direção. Tinham enormes anéis e seus peitos erguidos e suas cristas cor de sangue se sobressaíam sobre as ondas. Faz-se um estrondo no mar espumante. E eis que logo chegam à praia e se dirigem ao sacerdote com os olhos ardentes injetados de sangue e fogo e vibrando as línguas sibilantes (sibilantes=que sibilam, isto é, fazem ruído semelhante a um assobio, como acontece com as cobras). A esse espetáculo horrendo, os troianos fogem em disparada, brancos como cera. Os monstros do mar buscam Laocoonte e envolvem em seus anéis gigantescos o sacerdote e seus dois filhos. O pai estava armado, mas as serpentes o prendem com nós apertados em volta do seu corpo, impedindo qualquer reação Laocoonte tenta em vão afrouxar os nós, ainda segurando nas mãos as fitas do sacrifício, agora tingidas de sangue e do negro veneno dos montros. Ao mesmo tempo solta em direção aos astros horrendos berros. Pareciam os mugidos de um boi que foge do altar, depois que recebeu um golpe de machadinha no pescoço não forte o bastante para derrubá-lo em sacrifício aos deuses. Os dragões então se dirigem ao santuário da deusa Palas e se escondem sob o escudo aos pés da deusa. Esse acontecimento pareceu aos troianos uma severa advertência da deusa, afinal Palas Atena punira com as serpentes do mar o sacerdote que tinha atirado uma lança contra o cavalo a ela dedicado. Mais que depressa, eles transportaram aquele objeto gigantesco para dentro de suas muralhas. Ao som de hinos religiosos, com festas e alegres cânticos, o cavalo foi introduzido na cidade. Nessa noite, enquanto os troianos dormiam, como que sepultados no sono e no vinho, a esquadra grega deixou Tênedos e se dirigiu a Tróia, encoberta pelas trevas que pareciam abraçar todo o mundo, cúmplices da estratégia de Odisseu. Sem ser visto, Sinão caminhou até o cavalo e chamou os guerreiros para fora. É sobre uma Tróia despreocupada e desarmada que se precipitaria o inimigo, sedento de vingança depois de tantos anos de luta inútil. E aquela foi a última noite da outrora próspera cidade asiática, vítima dos deuses, da esperteza de um grego, de palavras e lágrimas mentirosas, mas também da sua própria boa-fé e compaixão. Muitos dos guerreiros gregos que praticaram naquela ocasião toda espécie de crime seriam castigados depois, ao passo que os troianos que conseguiram escapar da cidade em chamas haveriam de lançar as sementes de uma outra e muito mais poderosa Tróia, a futura Roma, como se os deuses se divertissem em erguer hoje às alturas da glória os que amanhã tombariam na mais dura ruína e vice-versa. Mas essa já é uma outra história. Em pouco tempo, uma cidade próspera e rica tombava em ruínas junto com seu velho rei, Príamo, logo reduzido a um mísero corpo decapitado, sem ninguém que lhe desse sepultura. Em pouco tempo, toda a cidade se enchia de lágrimas de mulheres e crianças logo escravizadas para servir aos senhores gregos. As trevas que haviam dissimulado a irrupção (irrupção=invasão súbita e