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MONITORAMENTO DA FAUNA E FLORA
As florestas do extremo sul da Bahia, assim como no norte do Espírito
Santo, apresentam elevada riqueza e endemismos, correspondendo há um
centro de diversidade. O sul da Bahia é uma das áreas mais importantes para o
estabelecimento do Corredor Central da Mata Atlântica, dada estas
características de alta diversidade, endemismo e ameaças. Esta formação
florestal ainda apresenta algumas correspondências em nível específico com a
floresta amazônica.
Estas florestas são classificadas como floresta ombrófila densa baixo-
montana, mas são conhecidas como matas de tabuleiros, devido ao relevo
típico da região. E, também por apresentar certo grau de deciduidade de
algumas espécies e/ou indivíduos que a compõe. Outros fatores estão
relacionados com a deciduidade como os fatores edafo-climáticos.
Nas áreas da Veracel Celulose S/A já foram amostradas outras
fisionomias, como a muçununga, uma vegetação mais baixa e de menor
diversidade que ocorre em solos com textura arenosa, geralmente ao redor de
alguns remanescentes de floresta de tabuleiros. A floresta encontrada nas
propriedades da Veracel encontra-se em trechos planos, ou em platôs, e nos
fundos de vale percorrendo áreas com alta declividade e com maior influência
de cursos d’água.
Em 2008 e 2009 foram amostrados 5 remanescentes de floresta de
tabuleiros (Santa Maria, Taquara, Imbiriba, Ipê e Sucupira)(Figura 1),
abrangendo diferentes ambientes e estádios sucessionais com objetivo de
iniciar o monitoramento nestes remanescentes através de parcelas
permanentes, propiciando o conhecendo da composição florística, estrutural e a
dinâmica (ao longo dos monitoramentos), relacionando-as com a matriz da
cultura do eucalipto.
umas das outras em 100m, seguindo o caminhamento dos transectos. Nelas
foram amostrados os indivíduos arbustivos e arbóreos que apresentaram a
circunferência à altura do peito, ou seja, a 1,30m do solo (CAP) igual ou
superior a 10,0cm. Os indivíduos foram marcados com plaquetas de alumínio
numeradas sequencialmente (com uso de pregos galvanizados), identificados
em morfoespécies e medidos o CAP e altura total (m).
A classificação das espécies nos grupos de família seguiu o sistema
Angiosperm Phyllogeny Group II, com auxílio da obra de Souza e Lorenzi
Para o monitoramento da fauna foram amostrados três grupos
indicadores: avifauna e mirmecofauna (2008 e 2009) e mastofauna (2009). A
inclusão da mastofauna nos monitoramentos em 2009 é devido a ao importante
papel ecológico que os mamíferos desempenham para o ecossistema ao qual
são inseridos. Dentre estes destacamos as interações com plantas que podem
envolver herbivoria, predação de sementes, polinização e dispersão de
propágulos. Entre animais destaca-se a predação. Devido a isto, a mastofauna
é importante para a manutenção de ecossistemas e conservação da
biodiversidade local e regional. A ocorrência desses animais em áreas de
vegetação nativa são um diagnóstico positivo do nível de conservação dessas
áreas.
O monitoramento de avifauna foi realizado através de dois métodos:
pontos fixos e transecção. Para o levantamento de mamíferos, foram utilizados
registros diretos e indiretos. São considerados registros diretos, quando o
indivíduo é avistado ou através de vocalização, evidenciando a presença do
animal no momento da visita. Registros indiretos incluem pegadas, fezes,
carcaças, arranhados ou outros rastros.
Os levantamentos de formigas foram conduzidos utilizando-se amostras
de um metro quadrado de folhiço. Este método é a base principal do que hoje
tem sido conhecido como Protocolo ALL ( Ants from Leaf Litter, ou seja,
Formigas de Folhiço), método padronizado de coletas de formigas do folhiço
sugerido como o mais eficaz. Esse grupo de inseto foi escolhido por ser muito
sensível a mudanças ambientais, sendo recomendável como bioindicador.
Além disso, uma uniformização no método de coleta é altamente recomendável
porque favorece a comparação da diversidade desse grupo em diferentes
ambientes do globo.
As características florísticas amostradas nas áreas encontram-se na
tabela 1. Os dados referentes a AAVC Taquara foram divididos Taquara A (sítio
em vale, solo úmido) e Taquara B (sítio em platô, solo seco). A diversidade
encontrada não mostrou muita variação, apesar de diferentes ambientes
amostrados. A alta diversidade deste tipo de formação florestal é característica,
além disto, foram amostradas diferentes situações, como áreas mais úmidas
próximas à cursos d’água, áreas com alta declividade e áreas planas,
abrangendo uma heterogeneidade de ambientes.
Tabela 1 : Características florísticas amostradas nas AAVCs da Veracel Celulose S/A, considerando as morfoespécies indeterminadas. nº ind.= número de indivíduos. nº esp.= número de espécies. nº fam.= número de famílias. H’= índice de diversidade de Shannon (nats/ind). nº esp. ameaçadas= número de espécies arbustivas e arbóreas ameaçadas, considerando IBAMA, 2008 e IUCN, 2006.
AAVC Área(ha) nº ind. nº esp. nº fam. H’ nº esp. ameaçadas Imbiriba 0,2 663 216 49 4,938 18 Ipê 0,2 363 133 39 4,510 10 Sucupira 0,2 907 214 49 4,850 18 **Santa Maria ***^ 0,1 179 96 38 4,342 14 Taquara A 0,1 178 79 30 4,058 08 Taquara B 0,1 202 85 31 4,217 12
As tabelas 2, 3 e 4 mostram os números da biodiversidade encontrados
nas AAVCs Imbiriba, Ipê, Sucupira, Taquara, Santa Maria e Estação Veracel
durante as atividades de diagnóstico e monitoramento realizadas pela Casa da
Floresta no período de 2008 a 2009. As espécies ameaçadas são apontadas,
sendo mencionado onde foram encontradas e seu grau de ameaça, sendo:
-“criticamente em perigo” (CR): espécies que apresentam um risco
extremamente alto de extinção na natureza em futuro muito próximo, sendo
que esta situação é decorrente de profundas alterações ambientais ou de
alta redução populacional ou, ainda, de intensa diminuição da área de
distribuição do táxon em questão;
Monitoramento de Fauna e Flora – 2008 e 2009
Tabela 4:
Espécies de plantas ameaçadas de extinção com indicação da Área de Alto Valor de Conservação em que foi registrada (Ip: Ipê, Imb: Imbiriba, S:
Sucupira, SM: Santa Maria, T: Taquara ), 2008-2009. Espécies indicadas por MA são endêmicas da Mata Atlântica.
Nome Científico
Nome Popular
Área de Alto Valorde Conservação
Endemismo
Grau deAmeaça IUCN
IBAMA
Arapatiella psilophylla
(Harms) Cowan
arapati
Ip, S, SM, T
MA
VU
Banara brasiliensis
(Schott) Benth.
natalina
Imb, Ip, S
MA
VU
Brosimum glaucun
Taub.
leiteira
Imb, Ip, S
MA
AM
Brosimum glaziovii
Taub.
sally
Imb
MA
EN
Buchenavia pabstii
Marquete & C. Valente
pequi-izaías
S
MA
EN
AM
Chrysophyllum splendens
Spreng.
bapeba-pedrin
Imb, S, SM, T
MA
VU
Couepia schottii
Fritsh
milho-torrado-de-folha-larga
Ip,S, SM
MA
VU
Eugenia prasina
O.Berg
guruçú
Imb, S, T
MA
VU
Euterpe edulis
Mart.
juçara
Imb, Ip, S, SM T
MA
AM
Inga exfoliata
T. D. Penn. & F. C. P. Garcia
ingá-miúdo
SM
MA
EN
Inga hispida
Schott. ex Benth.
ingá-de-linhares
S
MA
VU
Manilkara bella
Monach.
paraju
Imb, Ip, S, T
MA
EN
Melanopsidium nigrum
Colla
coroa-de-sapo
Imb, T
MA
AM
Melanoxylon brauna
Schott.
braúna-preta
S, T
MA
AM
Mollinedia marquetiana
A.L. Peixoto
orelha-de-boi
Imb, S, SM, T
MA
VU
Myrcia grandiflora
(Berg.) D. Legrand
orelha-de-burro
T
MA
VU
Myrcia isaiana
G. M. Barroso et Peixoto
luizinho
Imb
MA
AM
Myrcia lineata
(Berg) G.M. Barroso
araçá-branco
Imb, T
MA
VU
Neomitranthes langsdorffii
(O.Berg) J.R. Mattos
araçá-coco
S, T
MA
VU
Ocotea odorifera
(Vell.) Rohwer
canela-sassafrás
Imb, S, SM
MA
AM
Pouteria coelomatica
Rizzini
acá-preto
Imb
MA
EN
Sclerolobium striatum
Dwyer
ingá-louro
Imb, SM, T
MA
VU
Sorocea guilleminiana
Gaudich.
folha-de-serra
Ip
MA
VU
Trichilia casaretti
C.DC.
matheus
Imb, S
MA
VU
TOTAL
Estudando-se as espécies vegetais amostradas pode-se inferir que
algumas espécies da fauna utilizam os talhões de Eucalyptus sp., em especial
as aves. Já que a maioria das plantas registradas produz frutos pequenos
tipicamente consumidos por aves. Isso ocorreu principalmente nos talhões com
idade de 5 a 7 anos, onde foram observados maior densidade e número de
espécies no sub-bosque.
Tabela 5: Número de indivíduos, espécies e famílias para as 3 diferentes idades para os talhões observados. nº ind.=número de indivíduos. nº esp.= número de espécies. nº fam.= número de famílias.
As tabelas 6 e 7 apresentam os dados referentes as espécies de
avifauna e mastofauna ameaçadas de extinção com indicação de ocorrência.
Tabela 6: Espécies de aves ameaçadas de extinção com indicação da Área de Alto Valor de Conservação em que foi registrada (Ip: Ipê, Imb: Imbiriba, S: Sucupira, SM: Santa Maria, T: Taquara e EV: Estação Veracel), 2008-2009. Espécies indicadas por MA são endêmicas da Mata Atlântica
Nome Científico Nome Popular AAVC¹ Endemismo
Grau de Ameaça IUCN IBAMA
Cotinga maculata crejoá EV MA EN EN
Glaucis dorhnii balança-rabo-canela Ip MA^ EN^ EN
Herpsilochmus pileatus chorozinho-de-boné Imb, SM VU VU
Neopelma aurifrons fruxu-baiano SM, T MA^ VU
Myrmotherula urosticta
choquinha-de-rabo- cintado SM, T MA^ VU VU
Platyrinchus leucoryphus patinho-gigante SM, S, T MA^ VU
Pyrrhura cruentata tiriba-grande T MA^ VU^ VU
Pyrrhura leucotis tiriba-de-orelha-branca EV, T MA VU
Procnias nudicollis araponga Imb, Ip, S, T MA^ VU
Thripophaga macroura rabo-amarelo T MA^ VU VU
TOTAL 9 9 7
nº ind. nº esp. nº fam.
Ipê
7 anos 164 23 16 5 anos 21 13 8 6 meses 16 8 6 Total 201 39 22
Sucupira
7 anos 278 33 17 5 anos 42 11 9
Total 320 34 18
Figura 8 : Distribuição das espécies por subfamília de formigas nas seis áreas estudadas pertencentes a Veracel e existente no sul do estado da Bahia.
As vegetações florestais chamam a atenção pelo estado geral de
conservação, com porte alto e evidências apenas localizadas de perturbação
natural ou corte de árvores. Essas vegetações mostraram alta diversidade, seja
no platô ou no vale, diversidade essa característica de cada tipo de vegetação.
A amostragem da regeneração em áreas de talhões de Eucalipto apresenta
alta densidade e diversidade. Desse modo, a regeneração mostra-se
potencialmente promissora mesmo que temporariamente para o trânsito, abrigo
e até mesmo alimentação de animais.
A avifauna brasileira é extremamente rica, destacando-se no cenário
mundial da biodiversidade, possuindo 1825 espécies. Na Bahia, esse número
chega a 775, havendo diversas espécies típicas da Mata Atlântica, do Cerrado e
da Caatinga, perfazendo, portanto, 42,5% da avifauna brasileira. Nas Áreas de
Alto Valor de Conservação da Veracel e na RPPN Estação Veracel já foram
registradas, 238 espécies (entre essas, duas a confirmar), das quais 10 são
ameaçadas de extinção. Tal fato ressalta a importância dessas áreas na
conservação da biodiversidade. Destaca-se que muitas dessas espécies
ameaçadas, senão todas, são ameaçadas pela perda e destruição de habitat.
Outra ameaça é a caça, em especial para as espécies de grande porte (por
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
AAVCI AAVCS AAVC IM Plantio IpeI Plantio Suc Plantio IpeII
Espécies/Subfamília (%)
Dolichoderinae Ectatomminae Formicinae Myrmicinae Ponerinae Pseudomyrmecinae
exemplo, mutuns, jacus, inhambus e macucos) e para aquelas que são
procuradas como animais de estimação (por exemplo, periquitos, papagaios e
araponga).
Alguns mamíferos possuem uma capacidade limitada de usar matrizes
antrópicas. No entanto, diversas espécies são registradas em áreas de plantios
de eucalipto ou agroecossistemas, como cabrucas (produção de cacau) ou
cana-de-açúcar, demonstrando que a permeabilidade das espécies é
dependente da matriz e das capacidades espécies-específicas de
deslocamento e de suprimento das necessidades que cada espécie possui.
O levantamento da mirmecofauna representa um importante passo para
o melhor conhecimento das espécies de formigas encontradas na Floresta
Atlântica do Sul da Bahia. A manutenção do monitoramento nas áreas
estudadas é uma ferramenta importante para observação da fauna de formigas
e para análise do comportamento, ao longo do tempo, desses insetos com as
diferentes formas de perturbações ocorridas a partir do corte; e principalmente
como as áreas consideradas como preservadas (Alto Valor de Conservação da
biodiversidade) vem auxiliando na conservação e manutenção da diversidade
local.
A Veracel continuará realizando o monitoramento da fauna e flora em
suas áreas, visando acompanhar a influência das atividades silviculturais na
biodiversidade do extremo sul da BA. Além disto, pretende contribuir gerando
dados científicos sobre a riqueza e principalmente propondo medidas
diferenciadas para a conservação dos recursos naturais presentes na Mata
Atlântica.