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Museus do século xxi, Notas de estudo de Urbanismo

MUSEUS DO SÉCULO XXI

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 30/10/2010

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helio-lago-8 🇧🇷

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MUSEUS DO SÉCULO XXI
COnCEItOS, prOjECtOS, EDIfíCIOS
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MUSEUS DO SÉCULO XXI

COnCEItOS, prOjECtOS, EDIfíCIOS

A arquitectura de museus: um tema fundamental da arquitectura contemporânea Werner Oechslin

  1. Catedrais No século XIX, o orgulho cívico transformou grandes aglomera- dos urbanos em cidades, enriquecendo-as com as instituições que reforçaram o seu papel como foco da vida e da sociedade. Na sua maioria o fenómeno envolveu os edifícios públicos. Esta evolu- ção atingiu o seu auge por volta de 1900, altura em que a arqui- tectura enfrentou a sua maior crise até então – o encontro com o moderno. A “arquitectura industrial”, afirmou Gropius, em 1913, deveria decorrer da nova “exigência da beleza na forma exterior”. A Deutscher Werkbund adoptou as estações, as fábricas e os arma- zéns como o novo padrão de referência para os grandes edifícios, celebrando os “edifícios dos engenheiros” pelo modo como eram concebidos “a partir do seu interior, ou seja, livres do trabalho de máscara do arquitecto”, tal como referia Hermann Muthesius nes- se mesmo ano. A nova dimensão metropolitana e uma nova ade- quação de estilos pareciam preparados para avançar – aquilo a que Karl Scheffer chamou de “moderna monumentalidade utilitária” em Die Architektur der Grossstadt (1913). Mais tarde encontrou as palavras certas para tal – as fábricas eram as “novas catedrais”. Do seu ponto de vista, “pode encontrar-se arte mais amadurecida nos edifícios industriais que em quase todos os novos e monumentais edifícios públicos”. 1 Assim, a história monumental da arquitectura continuou a ser escrita apesar de todas as mudanças de forma e de estilo. Ainda hoje se ouve a expressão “novas catedrais”, geralmente quando um novo edifício público provoca comoção. “Uma luxuosa catedral da

aprendizagem” foi o título escolhido por um jornal de Zurique para se referir à inauguração da nova biblioteca de direito projectada por Calatrava, em 2004. Outros optam por um discurso mais “objecti- vo” em torno da importância dos edifícios públicos que captam a atenção. Porém, as opiniões variam. Para alguns, é dada demasiada atenção à “arquitectura espectacular”, em comparação com o que acontece com projectos urbanísticos. Outros, como o Centro de Arquitectura de Hamburgo, são-lhe claramente favoráveis defen- dendo que “os grandes edifícios provocam grandes ondas” e “projec- tos culturais como força motriz para o desenvolvimento urbano”. Comum às duas visões é o velho panem et circenses. Os edifícios de- vem ser pontos de atracção para o público, abrindo caminho e expri- mindo o urbanismo moderno. Quando a Chile Haus de Höger abriu as portas em Hamburgo, em 1924, a lista de grandes monumentos (as Pirâmides, o Farol de Alexandria, o Mausoléu de Halicarnasso, etc.) já tinha sido ampliada para passar a incluir a Torre Eiffel e os Silos de Trigo da América do Norte referidos por Le Corbusier. Vista a partir desta perspectiva, a história das maravilhas arquitec- tónicas do mundo continua suave e ininterrupta. Os museus têm, sem dúvida, um papel de destaque nesta lista. Pode discutir-se se há mais pessoas a visitar os estádios de futebol ou os museus – mas existirá de facto essa maré de pessoas e uma sede insaciável de arte? Instala-se a suspeita de que o fenómeno dos museus enquanto edifícios de arte se reduz à sua – espectacular – concha arquitectónica que, de acordo com uma moda recente, é tratada como arte, como uma escultura. Teremos regressado à psi- cofísica, que Ozenfant e Jeanneret usaram como ponto de partida, sob o título Sur la Plastique , em que as estruturas arquitectónicas actuam sobre a alma humana com uma precisão mecânica? E onde fica a arte?

sublinhar o facto de que os museus – tanto o edifício como o res- pectivo conteúdo – têm de se modificar e evoluir por essa mesma razão. Se hoje consideramos que os museus mostram o estado de desenvolvimento da arquitectura com maior clareza do que outros edifícios, teremos de tomar em consideração esse aspecto de “ins- trumento de medida do nível cultural”. Não podemos ignorar que, actualmente, a estrutura física do museu serve com frequência essa função melhor do que o seu conteúdo, o que lisonjeia a arquitec- tura. Independentemente de como os resultados são avaliados, é claro que os museus enquanto encomendas arquitectónicas conti- nuarão a ter um papel importante como leitmotivs culturais.

  1. O “bem-estar” e os museus Os museus enquanto instituições reformularam a sua postura tra- dicional que se definia pelo seu papel educativo e adaptaram-se aos hábitos contemporâneos que encaram a cultura como bem de consumo. Os cafés e as lojas expandiram-se exponencialmente e adquiriram um estatuto próprio. Por outro lado, a série dos Rubens dos Medici no Louvre, por exemplo, que, como as obras de outros grandes artistas que constituíam o cânone educacional, costuma- vam ser expostas em grandes salas, foram agora remetidas para um estatuto que lhe oferece um espaço de gabinete para especialistas. Os museus mudaram, mas o classicismo indisputado das colec- ções permanentes continua a ser a justificação actual, o fundamen- tum in re, para os museus e a cultura museológica. Simultaneamente, tornou-se evidente que as tendências estão a mudar de novo e que a clareza dos menosprezados “museus de província” voltou a surpre- ender e a impressionar. Não há escassez na arte e tomam-se medidas para que esta seja mostrada ou armazenada em novos edifícios de museus. Mas o que Diller Scofidio + Renfro · Eyebeam Museum of Art and Technology, Nova Iorque, EUA · 2001 (construção suspensa) · simulação por computador © Diller Scofidio + Renfro

é um Schaulager (armazém de arte)? Quando Herzog & de Meuron apresentaram esta nova variação de arquitectura “instrumento do nível cultural” em Maio de 2003, os dois jornais diários de Zurique deram os seguintes títulos aos respectivos artigos: “A forma luxuo- sa de arquivar arte” ( Tagesanzeiger ) 4 e “Ginásio substitui café” ( Neue Zürcher Zeitung ).^5 Este facto documenta apenas a dinâmica da ar- quitectura de museus, mantida e estimulada pela arte e pelos ar- tistas, quando estes exigem “lugar para espaços” e agitam palavras como open space e off space , ou, tal como recentemente fez Nedko Solakov na Kunsthaus de Zurique, enchem o museu simplesmente de “restos” de exposições realizadas em galerias tratando-o como um “depósito museológico de sobras.” 6 O excesso de produção ar- tística e a manifesta paixão pelo coleccionismo são as razões fun- damentais pelas quais os museus existentes estão tão cheios que não chegam para guardar todas as obras o que leva á criação de no- vos museus. Mas há muito que deixámos de ficar satisfeitos com a disposição tradicional das obras de arte. No Frankfurter Allgemeine Zeitung , um crítico recusou-se a aceitar o conceito (dinâmico) de um “sistema de circulação de curiosidade visual”, exigindo em vez disso um novo “corpo ressonante de experiência estética”.^7 Deste modo, agrada-nos olhar para cada museu como um todo. Tentamos incorporar a experiência da arte na “catedral” ou, pelo contrário, colar a impressionante catedral à emoção. Por que razão não se alteraria a percepção da arte em consequência das formas do museu e vice-versa? Quando o museu J. Paul Getty começou a disponibilizar aos visitantes não só os já familiares guias áudio, mas também dispositivos que mostram imagens da pintura em questão (com o objectivo de assegurar que os utilizadores identifi- cam a obra descrita), houve uma chuva de protestos. E com razão! Ou nem por isso! Há muito que se aceitou a importância do efeito

de reconhecimento na percepção e apreciação. O déja vu é a força motriz e o ingrediente activo da educação! No fundo, esperamos que o original, e apenas o original, tenha um papel a desempenhar e cative o observador. Não fora assim e os museus estariam vazios. Mas a corrida aos museus prova que as obras de artenão têm con- correntes, porque as pessoas não gostam de ser enganadas naquilo que vêem e apreendem. As pessoas procuram a verdade na arte. E, no fundo, o que sabemos nós sobre qual seja o tipo de experiência que o visitante individual leva para casa a partir de um meio que utiliza o dispositivo imagem + texto? Perante a contínua prolifera- ção de museus, podemos pelo menos dizer que existem boas proba- bilidades de continuar a existir arte. Podemos até ter a presunção de declarar que a arte finalmente chegou às massas. De qualquer modo, a arte continua no centro de tudo isto. Se observarmos mais de perto, reparamos que muito do que é consi- derado fundamental na construção de museus diz respeito a uma

Gehry Partners, LLP · Corcoran Gallery of Art, Washington, DC, EUA · Maqueta do projecto final · 2005 © Gehry Partners, LLP

Annette Gigon / Mike Guyer · Archäologisches Museum und Park Kalkriese, Osnabrück, Alemanha · 1998- Pavilhão “Ouvir” · 2005 © Heinrich Helfenstein

e o bem-estar. O arquitecto viu-se confrontado com uma tarefa que deve ser abordada de um modo tão cuidadoso quanto um museu. Resumindo, não se deve subestimar a arquitectura nestes proces- sos. Novas formas de consumo e de comércio são procurados! Se os arquitectos não lhes conseguirem conferir uma forma compre- ensível com efeito de reconhecimento, o edifício até poderá alcan- çar sucesso comercial, mas o mesmo não acontecerá do ponto de vista cultural. Este aspecto não é quantificável estatisticamente, mas não deve ser subestimado como aconteceu, por exemplo, com a Samaritaine, em Paris, ou com a loja Messels Wertheim, em Berlim. Acima de tudo, não se deve minimizar o público, conside- rando apenas o seu papel de consumidor no acto de pagar a conta. A exigência de Libeskind, de que os edifícios não museológicos sejam projectados com igual cuidado, é absolutamente certeira. O valor acrescentado do ponto de vista cultural pode e deve ter um papel muito mais importante na arquitectura. Poderíamos per- guntar-nos se bastará a fórmula actual – Libeskind fala de “formas

expressivas” e “sentimentais” 8 – ou se fará falta uma abordagem muito mais fundamental. Acrescentando imediatamente, de uma forma crítica, que aquilo que é meramente “espectacular” não é suficiente para um efeito a longo prazo. O resultado é um crítico chamar ao museu MARTa, em Herford, de Frank O. Gehry, “um pe- queno Guggenheim”.^9 Um sistema de referências interno pode fazer parte da receita de um ícone de sucesso, mas os edifícios públicos devem conseguir estabelecer relações de referência para além de- les. Isso é difícil e arriscado. Renzo Piano, que concebeu um museu “clássico” muito aclamado, para expor arte “clássica”, na Fundação Beyeler em Riehen, viu o seu Museu Klee em Berna descrito com títulos como “o Hangar Klee” e “Zona de Bem-Estar Cultural”. As formas mudam e fundem-se, e isso faz parte do risco inerente às metáforas como “catedrais de hoje”, independentemente de se trata- rem de fábricas, grandes armazéns ou museus. Deste ponto de vista, a situação continua em aberto – e as expectativas sobre a arquitec- tura de museus continuam elevadas.

  1. Karl Scheffler, Die Architektur der Grossstadt (Berlim, 1913), p. 160 (em refe- rência aos edifícios da AEG de Behrens).
  2. Josef Strzygowski, Die Krisis der Geisteswissenschaften (Viena, 1923), p. 310.
  3. Heinrich Wagner, “Museen”, in Eduard Schmitt/Heinrich Wagner et al ., Handbuch der Architektur , parte 4, 6.º meio volume, caderno 4: Gebäude für Sammlungen und Ausstellungen (Darmstadt, 1893), p.173.
  4. Barbara Basting, “Die Luxusvariante der Kunstvorratshaltung”, in Tages-Anzeiger (23.05.2003), p. 57.
  5. Samuel Herzog, “Kraftraum statt Konditorei”, in Neue Zürcher Zeitung (23.05.2003), p. 57.
  6. Nedko Solakov, Leftovers (Kunsthaus, Zurique, 2.9.–13.11.2005).
  7. Thomas Wagner, “Vorstand des Verschiebebahnhofs”, in Frankfurter Allgemeine Zeitung (7 de Dezembro de 2000), p. 53.
  8. Conversa com Daniel Libeskind, “Den Bauten eine Stimme geben”, in Neue Zürcher Zeitung am Sonntag (23.01.2005), p. 55.
  9. Klaus Englert, “Ein kleines Guggenheim”, in Neue Zürcher Zeitung (13.05.2005), p. 43.

ACtiviDADeS PARA ADuLtoS visitas guiada geral Domingo, 9 de Dezembro, 18h30. Outras datas disponíveis para grupos organizados (a partir de 10 pessoas).

ACtiviDADeS PARA CRiANÇAS visitas-jogo à exposição Ensino pré-escolar e 1.º ciclo €1 · Marcação prévia · Duração: 1h00 (aprox.) M... u... s... eu? É um espaço meu? Pré-escolar Visita-jogo que permite a descoberta e a exploração de pormenores das obras de arte. Com este processo de descoberta pretende-se prolongar o olhar sobre as obras expostas, dar autonomia às leituras e às interpretações de cada um e tornar a visita à galeria um momento divertido e habitual. Concepção e orientação Raquel Ribeiro dos Santos e colaboradores do Serviço Educativo

ACtiviDADeS PARA JoveNS visitas-jogo à exposição 2.º ciclo, 3.º ciclo, ensino secundário e ensino superior. €1 · Marcação prévia · Duração: 1h30 (aprox.) o que é um museu? Para que serve? 2.º e 3.º ciclos Dentro da galeria, junto às obras expostas vamos fazer um jogo de análise e descoberta. Pretende-se com este jogo trabalhar a atenção e a autonomia na leitura da obra de arte. Concepção e orientação Raquel Ribeiro dos Santos e colaboradores do Serviço Educativo visita dinâmica: o museu no século XXi ensino secundário e ensino superior Visita-jogo direccionada para a História da Arte Contemporânea. Propõe-se ao grupo visitar a exposição e, recorrendo a imagens e a alguns textos de apoio, compreender um pouco melhor algumas das problemáticas da arte do nosso tempo. Concepção e orientação Raquel Ribeiro dos Santos e colaboradores do Serviço Educativo visitas guiadas à exposição 2.º ciclo, 3.º ciclo, ensino secundário e ensino superior. €0,50 · Marcação prévia · Duração: 1h30 (aprox.)

É professor? Solicite a programação trimestral para saber com pormenor as propostas de exploração pedagógica para esta exposição. Inscrições e Informações Tel. 21 790 54 54 · Fax 21 848 39 03 · [email protected]

CoNfeRêNCiAS áS qUINTAS · 3 · 17 · 24 · 30 JANEIRO

Ciclo de conversas em torno da exposição

Pequeno Auditório · 18h Entrada gratuita (Levantamento de senha de acesso 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis. Máximo: 2 senhas por pessoa.)

O que é um museu dos (e nos) dias de hoje? Passaram mais de dois séculos sobre a abertura dos museus como forma de disponibilizar os tesouros patrimoniais ao povo. Ultrapassada está também a ideia de museu como espaço de confinamento (Foucault) e legitimação dos objectos. Aquilo que amenizou a crítica à deificação deste espaço trouxe também a nostalgia da universalidade da arte (Michaud) e abriu espaço para a sua adaptação em hipermercado da Cultura (Baudrillard). Da negação à apologia, os artistas estabelecem hoje uma ligação consciente e voluntária, são alvo de encomendas e criam objectos especificamente para o espaço museal. É o museu um espaço expositivo neutro? O museu tornou-se também mais próximo do visitante, conceberam-se na própria estrutura arquitectónica espaços para alimentação, compras ou investigação. É a experiência do objecto o principal motivo da visita? Considerada um dos maiores desafios arquitectónicos, a concepção de um museu pode invocar o espaço envolvente, estar condicionada a um edifício pré-existente ou constituir oportunidade para a criação

de espaços alternativos e surpreendentes merecedores de maior atenção por parte dos públicos do que o próprio conteúdo acolhido. Pode o conceito arquitectónico sobrepor-se à funcionalidade do museu? Qual a função dos museus na actuali- dade? Como olhamos para eles? Como os utilizamos? Neste ciclo, esperamos pensar estas e outras questões, na companhia de arqui- tectos, comissários, jornalistas, críticos e outros frequentadores de museus. 3 de Janeiro Para onde vai o museu de arte contemporânea? Raquel Henriques da Silva, João Pinharanda, Ricardo Nicolau (moderador) 17 de Janeiro o museu visto por quem o desenha Arquitectos Aires Mateus, Arquitecto Pedro Pacheco, Margarida Veiga (moderadora) 24 de Janeiro Conceito arquitectónico e conceito expositivo. Harmonia ou conflito? João Fernandes, Jean-François Chougnet, Delfim Sardo (moderador) 31 de Janeiro o museu visto por quem o usa Anísio Franco, Ana Ruivo, Sara Barriga (moderadora)