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O que é filosofia caio padro, Resumos de Filosofia

Livro do caio Padro sobre o que é a filosofia, nele é abordado oq é a filosofia

Tipologia: Resumos

2022

Compartilhado em 11/05/2022

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alexandre-pereira-de-s-junior 🇧🇷

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Coleção Primeiros Passos
O que é Filosofia
Fonte:
PRADO Jr., Caio. O que é filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1981 (Primeiros Passos, 37).
O que é filosofia
* Texto originalmente publicado no Almanaque, nº 4, Ed. Brasiliense, 1977.
Não precisamos buscar na infinidade de conceitos de "Filosofia" — talvez um para cada
autor de certa expressão, e que à vagueza das formulações acrescentam às vezes até posições
contraditórias —não precisamos procurar aí a incerteza e imprecisão que reinam e, sobretudo
em nossos dias, no que concerne o objeto da especulação filosófica. Muito mais ilustrativa é a
consulta aos, textos filosóficos ou qualquer exposição ou análise do desenvolvimento
histórico do assunto. De tudo se trata, pode-se dizer, ou se tem tratado na "Filosofia", e até os
mesmos assuntos, ou aparentemente os mesmos, são considerados em perspectivas de tal
modo apartadas uma das outras que não se combinam e entrosam entre si, tornando-se
impossível contrastá-las. Para alguns, essa situação é não apenas normal, mas plenamente
justificável.
A Filosofia seria isso mesmo: uma especulação infinita e desregrada em torno de qualquer
assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas preferências e mesmo de seus humores.
Há mesmo quem afirme não caber à Filosofia "resolver", e sim unicamente sugerir questões e
propor problemas, fazer perguntas cujas respostas não têm maior interesse, e com o fim
unicamente de estimular a reflexão, aguçar a curiosidade. E já se afirmou até que a Filosofia
não passava de uma "ginástica" do pensamento, entendendo por isso o simples exercício e
adestramento de uma função — no caso, o pensamento em vez dos músculos — sem outra
finalidade que essa.
Apesar, contudo, de boa parte da especulação filosófica, particularmente em nossos dias,
parecer confirmar tal ponto de vista, ele certamente não é verdadeiro. Há sem dúvida um
terreno comum onde a Filosofia, ou aquilo que se tem entendido como tal, se confunde com a
literatura (no bom sentido, entenda-se bem) e não objetiva realmente conclusão alguma,
destinando-se tão somente, como toda literatura, a par do entretimento que proporciona, levar
aos leitores ou ouvintes, a partir destes centros condensadores da consciência coletiva que são
os profissionais do pensamento, levar-lhes impressões e estados de espírito, emoções e
estímulos, dúvidas e indagações. Mas esse terreno que a Filosofia, ou pelo menos aquilo que
se tem entendido por "Filosofia", compartilha com a literatura, não é toda Filosofia, nem
mesmo, de certo modo, a sua mais importante e principal parte. E nem ao menos, a meu ver,
com todo interesse que possa representar, constitui propriamente "Filosofia", e deveria antes
se confundir, na classificação, e às vezes até mesmo na designação, com a mesma literatura
com que já apresenta tantas afinidades.
Mas conserve embora a Filosofia literária sua qualificação e status, é necessário que a par
dela e com ela se desenvolva também uma Filosofia de outro teor que dê resposta, e na
medida do possível, precisa, às questões que efetivamente nela se propõem. A Filosofia pode
a rigor ser tratada literariamente, como pode sê-lo a Ciência e o conhecimento em geral. Mas
que isso seja forma, e não fundo. Esse fundo é outra coisa que, apesar de tudo, se percebe em
todo verdadeiro filósofo, por mais que se disfarce num pensamento confuso, disperso, sem
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Coleção Primeiros Passos

O que é Filosofia

Fonte: PRADO Jr., Caio. O que é filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1981 (Primeiros Passos, 37).

O que é filosofia

  • Texto originalmente publicado no Almanaque, nº 4, Ed. Brasiliense, 1977.

Não precisamos buscar na infinidade de conceitos de "Filosofia" — talvez um para cada autor de certa expressão, e que à vagueza das formulações acrescentam às vezes até posições contraditórias —não precisamos procurar aí a incerteza e imprecisão que reinam e, sobretudo em nossos dias, no que concerne o objeto da especulação filosófica. Muito mais ilustrativa é a consulta aos, textos filosóficos ou qualquer exposição ou análise do desenvolvimento histórico do assunto. De tudo se trata, pode-se dizer, ou se tem tratado na "Filosofia", e até os mesmos assuntos, ou aparentemente os mesmos, são considerados em perspectivas de tal modo apartadas uma das outras que não se combinam e entrosam entre si, tornando-se impossível contrastá-las. Para alguns, essa situação é não apenas normal, mas plenamente justificável.

A Filosofia seria isso mesmo: uma especulação infinita e desregrada em torno de qualquer assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas preferências e mesmo de seus humores. Há mesmo quem afirme não caber à Filosofia "resolver", e sim unicamente sugerir questões e propor problemas, fazer perguntas cujas respostas não têm maior interesse, e com o fim unicamente de estimular a reflexão, aguçar a curiosidade. E já se afirmou até que a Filosofia não passava de uma "ginástica" do pensamento, entendendo por isso o simples exercício e adestramento de uma função — no caso, o pensamento em vez dos músculos — sem outra finalidade que essa.

Apesar, contudo, de boa parte da especulação filosófica, particularmente em nossos dias, parecer confirmar tal ponto de vista, ele certamente não é verdadeiro. Há sem dúvida um terreno comum onde a Filosofia, ou aquilo que se tem entendido como tal, se confunde com a literatura (no bom sentido, entenda-se bem) e não objetiva realmente conclusão alguma, destinando-se tão somente, como toda literatura, a par do entretimento que proporciona, levar aos leitores ou ouvintes, a partir destes centros condensadores da consciência coletiva que são os profissionais do pensamento, levar-lhes impressões e estados de espírito, emoções e estímulos, dúvidas e indagações. Mas esse terreno que a Filosofia, ou pelo menos aquilo que se tem entendido por "Filosofia", compartilha com a literatura, não é toda Filosofia, nem mesmo, de certo modo, a sua mais importante e principal parte. E nem ao menos, a meu ver, com todo interesse que possa representar, constitui propriamente "Filosofia", e deveria antes se confundir, na classificação, e às vezes até mesmo na designação, com a mesma literatura com que já apresenta tantas afinidades.

Mas conserve embora a Filosofia literária sua qualificação e status, é necessário que a par dela e com ela se desenvolva também uma Filosofia de outro teor que dê resposta, e na medida do possível, precisa, às questões que efetivamente nela se propõem. A Filosofia pode a rigor ser tratada literariamente, como pode sê-lo a Ciência e o conhecimento em geral. Mas que isso seja forma, e não fundo. Esse fundo é outra coisa que, apesar de tudo, se percebe em todo verdadeiro filósofo, por mais que se disfarce num pensamento confuso, disperso, sem

objetivo desde logo aparente e seguro. Que se percebe sobretudo na Filosofia em conjunto como maneira específica de tratar dos assuntos de que se ocupa, por mais variados e díspares que sejam. Com toda sua heterogeneidade, confusão e hermetismo de tantos de seus textos vazados em linguagem acessível unicamente a iniciados—ou antes, por eles julgados acessíveis, mais do que acessíveis de fato — com tudo isso, a Filosofia encontra ressonância tal que, se não fosse outro o motivo, já por si bastaria para comprovar que nela se abrigam questões que dizem muito de perto com interesses e aspirações humanas que devem, por isso, ser atendidos, e não frustrados pela ausência ou desconhecimento de objetivo e rumo seguros da parte daqueles que se ocupam do assunto.

Mas onde encontrar esse "objeto" último e profundo da especulação filosófica para o qual converge e onde se concentra a variegada problemática de que a Filosofia vem através dos séculos e em todos os lugares se ocupando; e de que trata? E muito importante determiná-lo, porque isso pouparia esforços que tão freqüentemente se perdem em indagações inúteis ou mel propostas; e que, concentrados na direção de um alvo legítimo e claramente definido, reuniriam um máximo de probabilidades de atingirem esse alvo, ou pelo menos de o aproximarem. Existirá contudo esse objeto central e legítimo de toda a especulação filosófica, um denominador comum que embora disfarçado e mal explícito, orienta mais ou menos inconscientemente aquela especulação? Acredito que sim, e a sua determinação constitui tarefa necessária e preliminar da indagação filosófica; e, certamente, mesmo que não chegue logo a uma precisão rigorosa (se é que ela é possível), será por certo de resultados altamente fecundos.

O ponto de partida dessa determinação deve ser, para nada perder em objetividade, a consideração e exame do próprio conteúdo e desenvolvimento daquilo que se tem por pesquisa filosófica e do Conhecimento em geral. Mais comumente a Filosofia é tida como Uma complementação da Ciência e da elaboração cognitiva em geral; como seu coroamento e síntese. Esse conceito da Filosofia se encontra aliás mais ou menos expressamente formulado em boa parte das definições e explicações que dela se dão, e partidas dos mais afastados e mesmo antagônicos quadrantes. Até mesmo o séc. XVIII, e talvez o seguinte, Filosofia ainda se confundia com Ciência; e das filosofias particulares (como por exemplo a "filosofia química", que não é senão a nossa Química, simplesmente) passava-se imperceptivelmente para assuntos gerais que se enquadrariam melhor naquilo que hoje entenderíamos mais especificamente como "Filosofia".

Que a Filosofia é Conhecimento, e que de certa forma se ocupa dos mesmos objetos que as ciências em geral, não há dúvida. Mas tudo está nessa restrição "de certa forma". isso porque a Filosofia não é e não pode ser, logo veremos por que, simplesmente prolongamento da Ciência, uma "superciência" que a ela se sobrepõe e que a completa. Não há lugar para esse simples prolongamento. Ou melhor, qualquer legitimo prolongamento da Ciência é e sempre será, tudo indica, Ciência e não outra coisa. Isso se pode concluir do fato que o desenvolvimento da Ciência, quando se excluem indevidas extrapolações, se faz sempre num sentido único que é o da crescente generalização. E não há nenhum ponto fixado, no passado, ou previsível no futuro, nem mesmo fronteira difusa naquele processo além do qual não caberia mais falar em Ciência propriamente. A história da Ciência nos mostra que sua marcha e progresso vão uniformemente no sentido da elaboração de conceitos, ou melhor "conceituação" cada vez mais abstrata e geral. Isto é, de sistemas conceptuais mais inclusivos, que por isso mesmo cobrem e representam conjuntos mais amplos da Realidade universal — não no sentido de mais extensos simplesmente, quantitativamente maiores, e sim mais complexos e abrangentes, de feições mais diferenciadas. Comparam-se a esse propósito os dois setores do Conhecimento que se encontram contemporaneamente nos extremos da linha ascendente do progresso científico: de um lado as Ciências sociais, de outro as físicas. No

E assim pelo seu objeto, e somente por ele, que a Filosofia se há de distinguir da Ciência, e com isso se legitimar como disciplina à parte. Mas se à Ciência cabe, como objeto, a Realidade Universal, isto é, o Universo e seu conjunto de ocorrências, feições, circunstâncias que envolvem e também compreendem o Homem, o que ficará de fora para eventual mente constituir objeto próprio da Filosofia? Note-se que estamos aqui empregando a expressão "ciência" onde deveríamos com mais propriedade dizer "Conhecimento". isso porque Ciência não é senão Conhecimento sistematizado, e advertida e intencionalmente elaborado, não se distinguindo senão por essa sistematização em nível elevado e elaboração intencional do Conhecimento comum ou vulgar, aquele de que todo ser humano é titular, por mais rudimentar que seja seu nível de cultura. O Conhecimento é essencialmente de uma só natureza, e por mais elementar e grosseiro que seja, tem fundamentalmente o mesmo caráter do mais complexo e refinado conhecimento científico. Não há, aliás, nenhuma fronteira marcada, ou possível de marcar, nessa complexidade, nem mesmo separação possível, pois o conhecimento científico de hoje será o vulgar de amanhã.

Assim sendo, as nossas considerações acima se aplicam não especialmente ao conhecimento científico, e sim ao Conhecimento em geral, ocupe ele o plano hierárquico e o nível de importância que ocupar. E, reformulando nessa base a nossa questão, diríamos: qual o possível objeto do Conhecimento que não seja objeto do Conhecimento? Pergunta aparentemente sem sentido dentro dos cânones lógico-lingüisticos ordinários mas que se resolve simplesmente, e veremos que historicamente também, no fato de que além do conhecimento dos objetos ordinários do Conhecimento — as feições e ocorrências do Universo em que existimos e de que participamos—pode haver, e efetivamente há ainda, reflexivamente, um Conhecimento do próprio Conhecimento.

Realmente é o que se verifica no desenvolvimento histórico do pensamento humano logo que o progresso do Conhecimento atinge certo nível. Isto é, um retorno reflexivo da elaboração cognitiva sobre si mesma, passando o próprio Conhecimento a se fazer objeto do conhecer. Fato esse suficientemente marcado para dar lugar a uma ordem de cogitações bem caracterizadas e distintas do Conhecimento ordinário. E se bem que pensadores e elaboradores do Conhecimento não se tenham desde logo dado plenamente conta da diferenciação e partição interior dos objetos de que se ocupavam (do que aliás resultariam malentendidos e confusões de largas conseqüências) a sua obra não deixará de refletir a duplicidade do assunto tratado e o novo rumo que tomava o pensamento e elaboração do Conhecimento; isto é, a par do Conhecimento, a do Conhecimento do Conhecimento. O que cronologicamente coincide no Mundo Antigo (e não terá sido por certo uma simples coincidência) com a eclosão daquilo que seria havido como "filosofia".

Veremos isso com suficiente clareza para uma primeira abordagem do assunto, assim penso, numa sumária recapitulação, a largos traços, das linhas mestras e momentos culminantes e decisivos do pensamento e elaboração do Conhecimento nas sociedades que mais contribuíram, até os nossos dias, para a evolução em conjunto e conformação da cultura moderna; e que vem a ser aquela que, brotada no seio das civilizações do Mediterrâneo oriental, se difundiria pela Europa ocidental e daí para o mundo todo.

Mas em que consiste ou pode consistir esse Conhecimento do Conhecimento cuja gênese e vissitudes sofridas no curso de sua evolução se trata para nós aqui de examinar? Ou, em outras palavras, que vem a ser Conhecimento como "objeto do Conhecimento"? Em primeiro lugar, está claro, a natureza do Conhecimento, seu processamento. Dito de outro modo: o que vem a ser o fato ou ato de "conhecer"; e como se realiza esse fato, qual a sua seqüência—sua gênese, seu desenvolvimento e seu desenlace; em que vai dar. Isso é, como se apresenta e configura na sua conclusão como corpo de conhecimentos para o qual o processo afinal se

dirige e em que se torna. São essas as questões que se agrupam na disciplina ordinariamente conhecida por Teoria do Conhecimento, epistemologia ou mais genericamente: gnosiologia. Disciplinas essas que constituem, segundo consenso generalizado, capítulos da Filosofia. Até aí, portanto, não haverá divergências apreciáveis que começam daí por diante. Há os que restringem a Filosofia a isso mesmo, e até menos, como os logicalistas que fazem da própria Teoria do Conhecimento, e pois da Filosofia que a ele se reduziria, uma simples análise lógico-crítica da linguagem ou simbolismo em que o Conhecimento e a Ciência em particular se exprimem. Essa concepção, contudo, é restrita a reduzidos círculos. Em regra, pelo contrário, a teoria do conhecimento, em si, ocupa oficialmente um lugar secundário e diríamos quase marginal da Filosofia que, a julgar pelos assuntos nela tratados, ou pelo menos sob sua responsabilidade, tem voz em qualquer terreno, duplicando de certa forma com isso o papel da Ciência cujo objeto não se distinguiria essencialmente do seu. Filosofia e Ciência, distintas embora quanto à perspectiva em que respectivamente se colocam, e ao método, ou antes "estilo" que adotam, se ocupariam uma e outra da mesma Realidade universal. Já lembramos acima essa universalidade da Filosofia, bem como a confusão reinante no seu ponto de partida entre os objetos respectivos do Conhecimento (que seria em particular a Ciência) e o Conhecimento do Conhecimento, ou Filosofia. Confusão essa que se prolongará sob muitos aspectos, embora progressivamente se atenuando, até os dias de hoje.

Notamos também que em princípio e em frente aos fatos do desenvolvimento histórico da Ciência, essa pretensão da Filosofia de se ocupar com assuntos da alçada da Ciência não se justifica. Nesse ponto os logicalistas, que partem dessa questão para seu programa de limitação do campo da Filosofia, têm plena razão. Quando a Filosofia se ocupa dos objetos da Ciência, a saber, das feições e fatos do Universo, suas conclusões são sempre desmentidas em prazo mais ou menos dilatado, mas sempre fatal. Como se depreende claramente da história da Ciência, e sobretudo da Física moderna, a Filosofia, ou antes, os filósofos, no que se refere à sua atuação no campo científico, não têm feito mais que consagrar velhas e ultrapassadas concepções, disfarçando-as em princípios absolutos com pretensões à validade eterna. E sob esse disfarce que as rudimentares e grosseiras noções físicas de Aristóteles atravessaram os séculos; e mais tarde a Mecânica newtoniana foi erigida em "verdade" final e absoluta. Assim tem sido porque, tratando de objetos que não são seus, e portanto sem condições para fazê-lo, a Filosofia não podia dar, como não deu, em outra coisa que vestir hipóteses científicas de trajes filosóficos, fazendo deles "princípios" dentro dos quais aquelas hipóteses se "putrificam", na sugestiva expressão de P. Franck.*

A Filosofia, embora ultrapassando largamente aquilo que de ordinário se trata na teoria do conhecimento, conserva-se dentro e no âmbito do Conhecimento como objeto. Isso é, enquanto a Ciência e o Conhecimento em geral, em que a Ciência constitui o setor organizado e sistematizado, têm por objeto as feições e ocorrências do

Universo que envolvem o Homem e de que ele também participa, o objeto da Filosofia é precisamente esse "conhecimento" de tais feições e ocorrências. E assim Conhecimento desse Conhecimento. E isso não apenas por ser essa, para a` Filosofia, a perspectiva própria para a consideração e exame das questões que nela legitimamente se propõe. Mas ainda, e sobretudo porque esse tem sido o seu campo de ação, mesmo quando, por uma falsa perspectiva e involuntária confusão, aparenta dela se afastar. A Filosofia sempre se ocupou, de fato, do Conhecimento em si e todas suas implicações, embora freqüentemente julgue, ou melhor, julgam os filósofos seus autores estarem tratando de outro objeto. E aliás dessa confusão que resultam e sempre têm resultado os mal-entendidos que viciam a especulação filosófica e a tornam, em tão grande parte e alto grau, imprecisa e ambígua, infestada de debates estéreis e questões inúteis e insolúveis. O que, além do mais, faz perder de vista, ou propõe de forma defeituosa algumas das questões essenciais da Filosofia. Bem como perturba a elaboração

"matéria", que vem constituindo através dos séculos um dos principais divisores do pensamento filosófico; e a respeito do qual as partes que contendem incessantemente não conseguem sequer fixar com clareza o que está sendo debatido. O que torna o debate, no mais das vezes, em infindáveis monólogos que se desenrolam paralelamente uns aos outros, e sem correspondência no mais das vezes entre si. Cada qual trata respectivamente de assuntos que não coincidem, embora essa coincidência esteja sendo presumida.

O desentendimento nesse caso tem suas raízes na consideração de "matéria" de ângulos distintos, em que se mesclam em proporcões várias, conforme os filósofos, de um lado a perspectiva de algo exterior e que a expressão "matéria" designaria (substância corpórea ou sensível... componente primário e original do Universo... substratum de todas as coisas. ), de outro lado o conceito propriamente de "matéria"—como se dá quando se trata de contrastar o conceito "matéria" com outros conceitos, como seja "espírito", "idéia", "forma"; ou então quando com o conceito de matéria se integra um sistema conceptual, como se dá com a nogão aristotélica de "potencialidade para receber forma". Note-se bem que não se trata aí unicamente, nem mesmo essencialmente, de diferença de sentido, de acepção da palavra "matéria", pois se fosse apenas isso o acordo ainda seria possível, pelo menos no que se refere às premissas da discussão, seu ponto de partida. A divergência é muito mais profunda, pois diz respeito à "localização", digamos assim, daquilo que se designa por "matéria". Localização essa que, nos casos extremos mais puros, será alternativamente: ou entre objetos ou feições naturais exteriores ao pensamento; ou, no caso contrário, entre elementos conceptuais. Na maioria dos textos filosóficos em que ocorre o conceito "matéria", um exame atento e devidamente alertado revela essa indistinção entre o conceito propriamente e em si, de um lado; e doutro, o objeto da Realidade exterior que ele representa, ou que deveria ou poderia referir e representar. Naturalmente os filósofos julgam sempre, ou parecem julgar ao se referirem a "matéria", estarem tratando de objetos exteriores ao pensamento e incluídos na Realidade e feições do Universo. Mas o que efetivamente estão fazendo—no caso da matéria como no de outro conceito qualquer da mesma natureza ambígua—é projetaram seu pensamento e conceituação no mundo exterior, e tratarem assim, como incluído nesse mundo exterior, o que realmente constitui um fato de seu pensamento, um conceito. *

A confusão entre esfera subjetiva e objetiva vai dar assim na projeção da primeira na segunda; a projeção da conceituação no mundo exterior ao pensamento. Fato esse que tem papel essencial em todo desenvolvimento histórico do pensamento humano. Pode-se mesmo dizer que o comum das concepções gerais acerca da Realidade (isso tanto no nível da Filosofia e da Ciência, como no das concepções vulgares) se acha fortemente influenciado por essa verdadeira inversão idealista pela qual se recria no exterior do pensamento um mundo feito à imagem desse pensamento. Isso é, modelado e configurado segundo padrões conceptuais. Engels, o primeiro, que eu saiba, a assinalar essa inversão idealista, assim a descreve: "Primeiro fabrica-se, tirando-o do objeto, o conceito desse objeto; depois inverte-se tudo, e mede-se o objeto pela sua cópia, o conceito". *

Daqueles padrões conceptuais pelos quais se modela a Realidade, o mais importante é naturalmente o da linguagem discursiva, na qual e através da qual a conceituação, no mais das vezes, se formaliza e exprime. *6 Essa a razão principal por que encontramos a nossa concepção corrente e ordinária do Universo fundamentalmente conformada por estruturas verbais. E através de formas verbais que o realismo ingênuo (que espontaneamente, e na base de nossa educação e formação ordinária, é de todos nós) enxerga o Universo e o interpreta; e é na base delas que se dispõem as feições e ocorrências da Realidade universal. E daí que deriva, entre outras, a noção de um mundo constituído de "coisas' e "entidades" bem discriminadas e separadas entre si; coisas e entidades essas de cujas "qualidades" e comportamento resultam os fatos, feições e circunstâncias em geral do Universo Mal se

disfarça nessa concepção ingênua e integrada tanto no pensamento filosófico profissional, como no ordinário e vulgar, mal se disfarça aí o modelo que o inspira, a saber, a estrutura gramatical do sujeito e predicado, e seus elementos constituintes essenciais: substantivo, adjetivo, verbo Temos a; os materiais com que se constitui e concebe ordinariamente o Universo, com as circunstâncias que nele se verificam e ocorrem. Os substantivos se farão nas coisas e entidades em que o Universo é discriminado e dividido; os adjetivos serão as qualidades com que se revestem aquelas coisas e entidades; e os verbos, finalmente, designarão (e a rigor "serão" mesmo) a ação das mesmas coisas e entidades; ação essa com que se descreverá o comportamento do Universo.

Essa maneira de proceder, isso é, de inverter a ordem do processo do Conhecimento que, originando-se na Realidade exterior ao pensamento elaborador, retorna e se projeta afinal sobre essa mesma Realidade e a modela segundo seus padrões, esse procedimento tem na Filosofia raízes tão fortes que a encontramos mesmo naqueles setores que mais diligentemente procuraram se libertar dos preconceitos e distorções da Filosofia clássica - que vem a ser aliás a Metafísica aristotélica que consagrou filosoficamente e projetou pelos séculos afora e até nossos dias, como aliás veremos adiante, a confusão das esferas subjetiva e objetiva do pensamento e Conhecimento. Assim os logicalistas que fundamentalmente visavam desfazer aquelas distorções através do correto emprego da linguagem simbólica "perfeitamente" construída (e são essa correção e perfeição que sobretudo visam em seus trabalhos) acabam concebendo e construindo com todas as peças esse mundo idealmente modelado para ser adequadamente descrito por aquela linguagem "perfeita" por eles pretendida. A abertura do Tractatus Logico" Philosophicus de Wittgenstein (o evangelho, pode-se dizer, do logicalismo) nos dá conta desse mundo ideal, num encadeamento de proposições, tal qual normas de Um texto legal—segundo o estilo tão característico do autor—cuja inspiração em modelos e padrões puramente gramaticais é patente e inconfundível.

Numa consideração bem alertada e atenta interpretação do desenvolvimento histórico da Filosofia, vamos encontrar a comprovação não somente de que o verdadeiro objeto dela é o Conhecimento em si, e não dos objetos desse Conhecimento que são os fatos, feições ou circunstâncias em geral da Realidade exterior ao pensamento elaborador (embora freqüentemente, e mesmo no mais das vezes isso tenha passado despercebido), veremos não somente isso, mas ainda que foi e ainda é precisamente essa incompreenção ou falta de rigorosa discriminação entre as esferas objetiva e subjetiva, que se encontra na base dos mel- entendidos e confusões que permeiam e viciam o pensamento filosófico, tornando tão precária a realização da tarefa que lhe incumbe.

Como foi notado, e procuraremos comprova -lo agora com os fatos históricos, a Filosofia tem suas origens e ponto de partida quando o pensamento investigador do Homem se volta reflexivamente sobre si próprio e seu conteúdo de conhecimentos já elaborados e conceituados, ou em vias de elaboração, a fim de aferi-los, compreender o processo de sua elaboração, conceder-lhe segurança e orientação adequada para a utilização prática a que se destinam. E para realizar isso, organizá-los e concatená-los devidamente na sua expressão verbal. Transfere-se então o pensamento investigador para outro nível. Isso é, da consideração das feições e fatos da Realidade exterior, bem como da atividade elaboradora do Conhecimento dessa Realidade, passa-se para a consideração desse mesmo Conhecimento em si, e processo de sua elaboração. Isso, contudo, não se perceberá plenamente desde logo, dando lugar à confusão das esferas subjetiva (objeto da Filosofia) e objetiva (objeto da Ciência). E com isso se baralham os distintos níveis de elaboração do Conhecimento.

responderão com a sua substância material ou assemelhada que preencherá para eles a função de representar o substrato permanente e estável do Universo que faz possível o Conhecimento Com isso os milésios davam bem mostra da ingenuidade de suas concepções ainda presas inteiramente a um nível rudimentar e grosseiro de Conhecimento não liberto do empirismo de seus começos, e confundido por isso com os dados diretos e imediatos dos sentidos com que o Homem entra em primeiro e original contato com a Realidade exterior

Uma nova geração de pensadores mais maduros que segue esses precursores e se inaugura na segunda metade do VI séc. A.C. procurará dar à questão uma resposta mais profunda— embora a mesclem ainda, em grandes proporções, com as grosseiras concepções derivadas dos milésios; concepções essas que somente desaparecerão na obra de Platão. A multiplicidade e instabilidade das feições naturais será por eles atribuída à ilusão enganadora dos sentidos. Por trás dessa ilusão, dirão eles, se abriga a verdadeira Realidade, onde se encontram a uniformidade e permanência que se trata de apreender e que proporcionarão o legítimo Conhecimento, A identidade desse princípio ideal (ou pelo menos semi- ideal, como é o caso dos mais antigos pensadores dessa fase), principio unificador da Natureza, variará segundo os filósofos: serão os números, para Pitágoras; o SER, para Parmênides; o Logos para Heráclito; o Nous para Anaxágoras .. Mas seja qual for a natureza atribuída ao principio unificador, ele mal disfarça e em última instância se confunde sempre com o pensamento. E a solução do problema da Uniformidade na multiplicidade, e da permanência no fluxo das coisas e feições do Universo, se transferirá para o plano do pensamento do Homem, exibindo- se com isso a natureza do que seria a Filosofia e seu objeto, que não consistia, como poderia às vezes parecer à primeira vista, e nas concepções grosseiras dos milésios podia mesmo iludir, não consistia nas feições da Natureza. O objeto de que se ocupam os pensadores que mereceram, e com acerto, a qualificação de "filósofos" (pois de outra forma seriam, como realmente os houve, simplesmente homens de ciência), esse objeto eram o pensamento e o produto da elaboração desse pensamento que vem a ser o Conhecimento. Isso é patente sobretudo, e por isso o destacamos aqui, naquela concepção que mais se projetaria no futuro desenvolvimento da Filosofia, e durante séculos constituiria, podemos dizer, seu tema central. Refiro-me ao SER de Parmênides, que é afinal, e sem embargo da tempestade verborrágica que a Metafísica desencadearia em torno do assunto *9, não é senão expressão geral e formal da operação mental com que se qualificam e identificam as feições da Natureza, e com isso se caracterizem, determinam e fixam. O SE R é originariamente a cópula (verbo) com que formalmente se exprime a qualificação e se designa a identificação (a árvore é Um vegetal, o homem é racional, isto com que escrevo é Uma esferográfica... ). Não pode haver duvida que Parmênides pressentiu com sua concepção, confusamente embora, mas com mais clareza que qualquer de seus contemporâneos, que a questão central proposta pelos milésios se situava efetivamente no plano conceptual. Que se tratava, para empregarmos uma linguagem no caso anacrônica, de um problema da "teoria do conhecimento". O pressentimento de Parmênides— que aliás ficará nisso, degenerando em sua esdrúxula e grosseira imagem de uma "esfera imóvel, sem princípio e sem fim" — encontrará seu intérprete — em seguimento aos Sofistas e sobretudo Sócrates — em Platão.

Não vamos aqui entrar no exame da filosofia platônica. Ela se resume no essencial, pode-se dizer, na observação de Raphael Demos: "A filosofia de Platão se sumariza na vida da razão". *10 Não importa que Platão tenha hipostasiado a Razão, fazendo dela um mundo supra- sensível à parte: o mundo das idéias que faz contrapeso e contrasta com o mundo sensível; que constitui o protótipo de que esse mundo sensível não é senão imperfeita reprodução. Esse mundo das idéias não é senão o pensamento, a função pensante e a atividade racional do Homem. E é desse pensamento disfarçado, sublimado e substancializado que o filósofo se ocupa. E se ocupa num exame que, desbastado do floreio em que este poeta que foi Platão o envolve, revela efetivamente, e com precisão e segurança, alguns dos aspectos essenciais da

atividade do pensamento na estruturação do Conhecimento. Em particular, o processo mental da identificação e qualificação fundamento e ponto de partida de toda atividade racional na elaboração e expressão do conhecimento, encontra em Platão um analista seguro, E foi a compreensão desse processo que permitiu a Platão abrir as perspectivas para a formulação da lógica formal que, já delineada e potencialmente contida na obra do filósofo, será desenvolvida por seu discípulo e sucessor Aristóteles, que lhe dará forma final e acabada.

Se alguma dúvida houvesse, nos filósofos que antecederam Platão e lhe prepararam o caminho, acerca da natureza e do objeto da Filosofia nesta sua fase preliminar e ponto de partida do que seria o pensamento grego, essa duvida se desfaz inteiramente na consideração e exame da obra platônica que consistiu em continuar e prolongar a linha de desenvolvimento daquele pensamento, procurando, e com grande sucesso, dar resposta às perguntas nele propostas. Aquilo de que Platão se ocupa, em continuação aos pensadores que o precederam, e que constitui o objeto essencial e fundamental de sua obra, contribuição máxima para a cultura, são o pensamento e o Conhecimento tal como nós hoje o conceituamos. O seu ponto de partida e questão primeira que a ele se propõe, é a mesma de toda a Filosofia grega desde seu nascedouro com os milésios e centralizada, como vimos, no problema da unidade e permanência na diversidade e fluxo em que a Natureza se apresenta aos sentidos, "unidade e permanência" essa que já se fixara (no consenso geral, ou pelo menos decisivamente dominante) no SER de Parmênides, que não vem a ser senão — isso também se consagrara — o universal, idêntico e permanente, em contraste com o particular dado na percepção sensível e diverso e em transformação constante. Universal que se revela e representa na Idéia, no conceito.

E daí que Platão parte. O que, traduzido para nossa linguagem ordinária e corrente, vai dar em que as Idéias do platonismo não são outra coisa mais que aquilo que entendemos por Conhecimento.

Platão exterioriza suas idéias e lhes concede uma existência extra-humana. Mas vistas mais de perto e no quadro de nossas concepções atuais (que têm atrás de si a alimentá-las e a lhes darem base, não o esqueçamos, a longa experiência, aprendizagem e progresso cultural e científico milenares de que somos herdeiros) tais idéias são apenas e simplesmente as nossas "idéias" vulgares; conceitos cujo conjunto constitui o Conhecimento. A análise que Platão faz das idéias, procurando determinar a sua natureza e estruturação, a disposição relativa em que elas em conjunto se articulam e entrosam entre si, sua derivação e filiação umas das outras—e aí Platão apresenta um dos capítulos mais fecundos de sua obra, quando, entre outros no Sofista, considera a "classificação", isto é, a operação mental de classificar—tudo isso significa na realidade análise do Conhecimento e da sistemática conceptual em que os conhecimentos se apresentam. E desse Conhecimento, portanto, que Platão, e mais que ele, a própria Filosofia para cujo embasamento e constituição o platonismo tanto contribuiu, é disso que se trata. A Filosofia como Conhecimento do Conhecimento se revela aí claramente.

Pode-se mesmo dizer que Platão, embora envolvendo suas concepções num manto de misticismo e fantasia literária que lamentavelmente as ofusca e muitas vezes lhes torce o sentido profundo, bem como disfarça o que deveria ser sua contribuição mais fecunda para a devida proposição das verdadeiras questões da Filosofia, pode-se dizer que Platão teve a intuição e marcou, com um máximo de clareza para um precursor, a distinção entre Conhecimento e Conhecimento do Conhecimento; entre Ciência E Filosofia. Desenvolvendo uma noção já em germe nos filósofos seus antecessores, e particularmente em Parmênides que separava o Conhecimento da simples Opinião, Platão, que emprega aliás as mesmas designações, acentua o objeto daquelas duas esferas. A primeira objetivaria as "imagens" (dados sensíveis), a outra, as "idéias", constituindo esta outra a "cumeeira do Saber". *

idealista que ainda hoje é fator de não pouca confusão, o caso do conceito "matéria", que de conceito se faz, ou antes é feito em constituinte das coisas que compõem o Universo. E ainda voltaremos ao assunto mais adiante.

E isso que Aristóteles faz, e é o que viciará profundamente não só a Filosofia subseqüente, mas ainda os hábitos ordinários de pensar e maneira de ver e de interpretar as coisas generalizadamente arraigadas em toda a cultura ocidental para cuja conformação Aristóteles direta ou indiretamente tanto contribuiu. Embaraçará também a marcha da elaboração científica que somente ganhará impulso quando modernamente se libera da Filosofia, ou antes da Metafísica em que a Filosofia se envolvera.

Vejamos como Aristóteles desenvolve seu pensamento, as conclusões a que chega e as conseqüências a que por elas é levado. Platão, seu mestre, concentrara a "uniformidade e permanência"—condição para os gregos, como referimos, do Conhecimento—no mundo das idéias fixas e estáveis, e por isso distinto e separado do variegado mundo da percepção sensível, mundo instável e em permanente fluxo e transformação. E Platão assim procedera, no depoimento do próprio Aristóteles num texto que já referimos acima, porque "se existe a ciência e o conhecimento de algo, devem existir outras realidades além das naturezas sensíveis; realidades estáveis, pois não há ciência daquilo que está em perpétuo fluxo". Tais "outras realidades estáveis" além do mundo sensível, seriam as "Idéias".

Mas para Aristóteles que tem os pés mais firmes na terra que o sonhador e poeta que é seu mestre, embora reconhecendo a necessidade para o Conhecimento de uma base estável em que se apoiar e fundar, para Aristóteles são precisamente outras realidades, mas ao alcance da percepção sensível, que se trata de desvendar, conhecer e compreender. E esse mundo dos sentidos, variegado e aparentemente tão instável que cerca o Homem e onde ele vive, a "natureza sensível", como Aristóteles a denomina, e que as idéias platônicas marginalizem, é isso que importa. E para o conhecimento da natureza sensível, "as Idéias não saio de nenhum auxílio". *13 Não será isolando a fonte do Conhecimento da natureza sensível e isolando-a num mundo à parte de idéias, como fez Platão, não é assim que se alcançará aquela natureza sensível que é o que interessa, segundo Aristóteles e que ele objetiva conhecer. "É graças aos princípios e com os princípios", afirma Aristóteles, "que se conhece o resto". *14 E no esquema platônico, os "princípios" ficariam naturalmente restritos ao mundo apartado e estanque de realidades estáveis, as idéias, que eles encarnam e exprimem.

E preciso assim substituir o esquema platônico, e abrir caminho para comunicar o setor estável da Realidade onde se situam o Conhecimento e os princípios, e que Platão apartara e isolara, é preciso comunicá-lo com a natureza sensível que se trata de conhecer. E o que fará Aristóteles, estabelecendo a comunicação por via da "dedução" do particular (que é o dado na percepção sensível) a partir do universal que substitui de certa forma a Idéia platônica, e que é o verdadeiro SER e seu conhecimento. Dedução essa cujo processamento e método (que será a sua grande realização) Aristóteles vai buscar no exame do discurso, a linguagem discursiva, informando-se para isso, em especial, nos modelos dialéticos (debates orais) de seus antecessores na matéria, os Sofistas; e s obretudo nos diálogos de seu mestre Platão. E num tal exame que Aristóteles logrará destacar e revelar os elementos ou "formas" essenciais da estrutura básica da linguagem discursiva. Ou seja, a maneira ou forma como se dispõe e interliga nos seus termos a expressão verbal capaz de, pela sua coerência, demonstrar, com segurança e sem contestação possível, opiniões ou teses defendidas; e convencer com isso o interlocutor. Circunstâncias essas que se admitiam a priori como prova incontestável do acerto — a "verdade" — das conclusões.

E com isso, reduzido a normas precisas, que Aristóteles constituirá a sua Lógica, que tem como núcleo central, como se sabe, o silogismo. Precisamente o instrumento que Aristóteles necessitava para realizar sua almejada "dedução" do particular a partir do universal. Isto é, o entrosamento e seqüencia verbal coerente (não contraditório), de Uma para outra, das expressões verbais daqueles dois termos da operação dedutiva, respectivamente o Universal e o particular.

E na base e com a manipulação dessa sua Lógica, que Aristóteles procurará a sistematização dos conhecimentos do seu tempo e entrosamento dedutivo da expressão verbal deles. Tarefa que muito pouco tem de "científico" propriamente, no sentido que hoje se dá à Ciência e sua elaboração—afora a coleção dos parcos dados empíricos existentes na época e ao alcance de Aristóteles no que aliás ele se mostra muito bem informado. E constitui de fato tentativa e ensaio — o que era aliás o que Aristóteles pretendia, embora sem muito discernimento do que realizava — ensaio de modelo de entrosamento dedutivo daqueles dados empíricos dentro da sistemática conceptual, e sua expressão verbal, implícitas nos conhecimentos do seu tempo e que ele soube, em suas linhas gerais, revelar. "O método que Aristóteles emprega para o estudo dos fenômenos [fatos físicos]", observa um dos mais modernos tradutores e autorizados comentaristas dos textos aristotélicos, "é antes de tudo dedutivo e sistemático. Nas Meteorológicas, como em toda sua obra, Aristóteles julga que uma explicação verdadeira não pode ser senão racional." *15 isto é, apresentado de maneira formalmente coerente, que vem a ser aquilo que ordinariamente chamaríamos de "lógico". E poderíamos acrescentar o inverso: que a explicação racional é necessariamente verdadeira.

Em suma, o que Aristóteles de fato realiza é a organização e integração (na medida do possível, bem entendido, e que não podia ser, como não foi, muito ampla e rigorosa) da conceituação de seu tempo relativa aos objetos tratados no que hoje seriam a Física, a Astronomia, a Biologia, etc., em sistemas lógico-formais. Isto é, expressos em forma verbal coerente, de modo a se poderem deduzir logicamente (dentro dos cânones lógicos) os dados empíricos disponíveis.

Note-se de início—e isso é importante para o que nos interessa aqui centralmente—que assim procedendo Aristóteles estará de fato e essencialmente ocupando-se não com os fatos propriamente e os dados empíricos que a percepção sensível proporciona; e sim com a maneira de filiar esses dados — seria a sua "dedução"—a uma conceituação preexistente ou pelo menos presumida; ou melhor, dada a priori. E dentro dela enquadrá-los. A maneira de justificá-los logicamente através de um enquadramento e integração numa sistemática conceptual pré-formada. " Racionalização ", diríamos hoje.

A atenção de Aristóteles numa tal tarefa estará assim primordialmente voltada, como logo se vê, para aquela sistemática conceptual e sua estrutura, procurando alcançá-la pela aplicação do seu método. Tanto é assim que seu resultado principal não será propriamente uma contribuição científica, na acepção corrente de nossos dias—o que a obra de Aristóteles como já foi notado, não oferece —e sim um exemplo de modelo de aplicação da Lógica na consideração dos dados sensíveis da observação empírica, visando como que uma interpretação "lógica" do comportamento da Natureza tal como ela se apresenta naqueles dados.

Em conclusão, o interesse de Aristóteles e a contribuição que oferece, afinal, se fixam essencialmente não nos fatos que refere, e sim no Conhecimento deles, no Conhecimento em si. O objeto é assunto de que Aristóteles se ocupa em seus tratados relativos aos fatos da Natureza — físicos, geológicos, astronômicos, biológicos, etc. — não são direta e essencialmente te is fatos, e sim a maneira como esses fatos são concebidos, ou devem ser

gerações de pensadores e escolas filosóficas na tentativa, de muito poucos resultados, de ajustá-la às novas feições que o Conhecimento foi tomando, e harmonizá-la com o progresso desses conhecimentos; embora tudo isso, a Metafísica aristotélica ainda conserva até hoje seus quadros fundamentais que impregnam o pensamento moderno e lhe trazem toda sorte de dificuldades e deformações.

Vejamos esquematicamente os pontos essenciais e linhas mestras dessa Metafísica, e em especial as circunstâncias que a inspiram em seu nascedouro, e que foram, como se notou, a necessidade de fundamentar o método dedutivo com que Aristóteles julgava alcançar o conhecimento da Realidade sensível. A atenta consideração de tais circunstâncias esclarece muita coisa dos rumos que tomaria o pensamento filosófico; e contribui em particular para a compreensão dos principais problemas e questões que a perspectiva metafísica, subjacente naquele pensamento, iria suscitar, mesmo depois de formalmente e oficialmente posta de lado pelos principais setores do pensamento moderno. O que não impediu que se conservasse latente em muito dele e em questões pendentes até os dias de hoje. O interesse do assunto continua assim a ser da maior atualidade.

Na Metafísica, Aristóteles transfere a sua Lógica, e com ela o método dedutivo que implica— Lógica e método que de fato não são senão sistemas derivados de formas lingüísticas *17 — transfere sua Lógica para os fatos da Realidade concreta, para o mundo das "coisas sensíveis", designação com que o próprio Aristóteles por vezes se refere às "realidades da percepção" que trata de conhecer pela aplicação do método. Simples "transferência" de fato porque a nada mais que isso corresponde esta concepção aristotélica, centro nevrálgico da Metafísica, que vem a ser a da geração das "coisas sensíveis" (que afinal não são senão o "particular", em contraste com o "universal") pela"realização" da forma—aquilo que faz a coisa ser o que é— na matéria, substância indeterminada das coisas sensíveis, mas que reune em cada caso as condições específicas necessárias para que a forma determinada possa nela se concretizar ou gerar; que tenha a "potencialidade" para isso, que seja a "coisa em potência", na terminologia aristotélica. Para usar Uma ilustração, entre outras do próprio Aristóteles tal como se dá com o "lenho" relativamente ao "cofre" que é com ele confeccionado: o lenho seria a matéria em potência na qual a forma "cofre" se realiza, é gerada. *

Ora, a forma, que é essência ou "aquilo que faz a coisa ser o que é", se reduz na terminologia aristotélica à idéia, ao universal. *19 E assim, tal como na Lógica aristotélica o particular se "deduz" do universal, assim também a coisa sensível, que é o "particular", se "gera" pela realização da forma potencial contidase emparelham; de na matéria; forma essa que vem a ser o "universal". Os dois casos se emparelham: de um lado a operação lógica pela qual se alcança o conhecimento das coisas sensíveis—o que as coisas são—; de outro, o fato concreto em que se geram as coisas. Ambos se confundem; vêm no final a dar no mesmo.

E consuma-se com isso a inversão idealista aristotélica, a confusão das esferas subjetiva e objetiva que se projetará pelos séculos afora e ainda impregna até hoje o pensamento filosófico —e com ele a maneira ordinária de pensar, e em muitos casos até mesmo a científica, ou que se pretende ou" presume científica. A confusão das "coisas" (que é a designação tradicional e consagrada da Metafísica, e aliás corrente em todos os setores, para indicar as feições do Universo, e assim fragmentá-lo, numa outra instância da inversão idealista, à imagem da expressão verbal) a confusão das "coisas" com a maneira como se conhecem. E a confusão conseqüente do conhecido com o Conhecimento; da esfera exterior ao pensar e objeto dele, com esse próprio pensar.

O que praticamente vem a consistir—na tarefa de interpretação da Realidade e elaboração do Conhecimento e construção da Ciência —vem a consistir na confusão do Conhecimento com

o Conhecimento do Conhecimento, com o embaraIhamento de seus respectivos objetos. O pesquisador, mais precisamente o filósofo de formação aristotélica—e muitas vezes o cientista também— pretende ocupar-se de ocorrências e circunstâncias da Natureza, e freqüentemente julga fazê-lo, quando de fato se encontra na perspectiva do Conhecimento do Conhecimento, e vai tratar não daquelas ocorrências, e sim do conhecimento que se tem delas, de sua representação mental ou conceito, e de sua expressão verbal que assim, inadvertidamente, se projeta na Realidade considerada. Já nos referimos acima a essa confusão e projeção idealista ao lembrarmos o caso tão flagrante do conceito "matéria". Outra instância característica no assunto, fartamente conhecida, deebatida e de considerável papel na história e evolução do pensamento filosófico, bem como do científico também, é a dos conceitos "espaço" e "tempo". Em virtude daquela deformada perspectiva e inversão, o "espaço", de simples relação de situação ou posição de uns objetos com respeito a outros; e o "tempo", de relação de sucessão de situações *20, isto é, de simples conceitos mentalmente representativos de circunstâncias particulares da Realidade, se farão, uma vez transpostos para essa Realidade e nela confundidos e substancializados, se farão num espaço e tempo absolutos e de realidade e existência extramental concreta e em si, independentemente de quaisquer objetos eventualmente neles presentes e incluídos. Algo como, para o "espaço", um continente extenso e infinito predisposto para conter e abrigar no seu interior as coisas de um Universo nele eventualmente introduzido; mas que dele inteiramente independe, podendo ser concebido como sem esse conteúdo. E no que diz respeito ao "tempo" seria como o desenrolar no vácuo desta outra entidade ad hoc inventada e que seria a "Eternidade", a presenciar ou o vazio, ou o perpassar incidente de coisas e ocorrências eventualmente presentes no correr de uma existência sem começo nem fim...

A literatura filosófica—com extensões traiçoeiras inclusive para o campo da Ciência—aí está para exibir o infíndavel debate sem perspectivas, e os paradoxos sem conta, nem saída, a que levaram e levam ainda hoje baralhamentos como esses das esferas subjetiva e objetiva. A confusão da Realidade concreta, com o pensamento dessa Realidade, o que dá na confusão do Conhecimento com o Conhecimento do Conhecimento.

Nesse sentido, e de certo modo, poderíamos dizer—possivelmente com alguma dose de anacronismo—que a obra de Aristóteles constituiu um passo atrás nas realizações de seus antecessores. Estes, embora sem muita clareza e precisão, muito pelo contrário, é força reconhecer, e de forma grosseira no tratar o assunto, tinham ao menos vislumbrado a distinção entre as esferas mental e extramental. Parmênides, p. ex., como foi lembrado, ocupa-se em separado daquilo que respectivamente designa por "verdade" (que diria respeito à esfera mental) e por Opinião, que constituiria o que hoje designaríamos por Conhecimento propriamente (em contraste com o Conhecimento do Conhecimento) ou ciência empírica, isto é, dirigida direta e imediatamente para a Realidade exterior ao pensamento. Em Platão essa separação se faz ainda mais radical, e de tal modo extremada que as idéias platônicas se substancializam num mundo supersensível bem destacado do sensível que constituiria a Realidade de nossa experiência concreta ordinária.

Com toda sua fantasia poética e deformação mística, a concepção platônica tinha pelo menos o mérito de distinguir as duas esferas respectivamente mental e extramental. Obviava-se com isso a confusão em que incorreria Aristóteles e de tão danosas consequências que ate nossos dias ainda vicia o pensamento filosófico, fazendo-o tão freqüentemente perder de vista suas verdadeiras e legítimas metas com a proposição de questões sem conteúdo real algum e incapazes de levar a outra coisa senão um infindável e estéril debate em torno do significado de conceitos ou pseudoconceitos reduzidos a simples formulações verbais que já há muito perderam qualquer ligação com a Realidade em que vivemos e que condiciona a existência

E assim na manipulação conceptual, através de operações lógicas, que se alcança o Conhecimento. *21 Quanto aos fatos reais, às feições e circunstâncias que compõem a Realidade concreta exterior ao pensamento conhecedor e elaborador do Conhecimento, isso que constitui na perspectiva moderna pós-metafísica o legítimo objeto do Conhecimento; se subestima, se não se desconsidera por completo, ou então se manipula convenientemente a fim de acomodá-lo aos esquemas conceptuais consagrados.

É com esse rumo que a Metafísica de inspiração aristotélica intervirá na tarefa de elaboração científica, com os resultados que se podem avaliar e que a história fartamente ilustra. Uma instância flagrante desse procedimento, tanto mais esclarecedora como exemplo que já data dos tempos modernos, e por isso além de largamente documentada e de fácil acesso e exame, melhor se destaca no contraste com o novo pensamento àntimetafísico que começava na época a dominar; essa instância será a famosa questão da "essência das espécies" que tamanho papel, e papel altamente negativo, representou no desenvolvimento das Ciências naturais. Ocupei-me do assunto em outra oportunidade *22 e lembrarei aqui apenas a observação de Darwin a respeito do assunto, lamentando os naturalistas do seu tempo "incessantemente perseguidos pelas dúvidas insolúveis sobre a essência específica desta ou daquela forma". Em suma, a elaboração científica se tornava essencialmente, na base do modelo metafísico, um processo especulativo onde operações lógico dedutivas faziam as vezes da observação empírica e conceptualização da experiência. E na forma lógica que se haveria de desvendar a VERDADE.

Não é preciso insistir que é isso o observado no mundo ocidental, acentuando-se com a Escolástica e a consagração da Metafísica aristotélica que iria daí por diante soberanamente inspirar e orientar o pensamento da época. Assistiremos aí, a par de um intenso trabalho de elaboração lógica (ou antes de refinamento e bizantinização da Lógica aristotélica) a Uma desenfreada especulação abstrata orientada por aquela Lógica, e que no terreno da elaboração científica deixa a consideração dos fatos reais num segundo e muito apagado plano. A ciência por isso marcará passo, e somente ganhará impulso quando nos tempos modernos começa a gradualmente se desligar da Filosofia—ou antes da Metafísica e dos esquemas lógicos estereotipados e especulações sem fim a que ela se reduzirá. *23 E a elaboração do Conhecimento, em alguns de seus setores pelo menos, se orientará diretamente para seu verdadeiro objeto: os fatos naturais exteriores ao pensamento elaborador, *24 e não os fatos mentais que não fazem senão representar conceptualmente aqueles fatos naturais.

E abrem-se com isso as perspectivas para a separação das duas esferas do pensamento confundidas pela Metafísica: de um lado o processo mental pelo qual se elabora o Conhecimento propriamente, a saber, a representação mental das feições da Realidade exterior ao pensamento elaborador. De outro, a consideração dessa mesma representação mental elaborada pelo Pensamento e nele presente como conceituação constituinte do Conhecimento; da Ciência em particular.

Para essa discriminação dos objetos da atividade pensante — discriminação essa que delimitará as esferas objetiva e subjetiva, isto é, que os campos respectivos: do Conhecimento, de um lado; de outro, do Conhecimento do Conhecimento que constitui ou deve constituir o próprio da Filosofia—para essa discriminação, é importante notá-lo, contribui sobretudo a experimentação. Realmente na experimentação as duas esferas se propõem desde logo separadamente e bem discriminadas uma da outra. Diferentemente da simples observação passiva e contemplativa, o pensador e elaborador do Conhecimento, na experimentação, intervém ativamente para dispor de maneira conveniente e em perspectiva adequada o objeto de sua consideração e exame, para fazer com que se reproduza nesse objeto o fato que se trata de compreender e representar mentalmente. intervir nele e como que

participar dele com sua ação. Ação pensada, e no outro extremo da ação reflexo, com o pensamento alertado não somente visando o objetivo imediato de dirigir a ação, e sim também o de se integrar no Conhecimento preexistente, torna-se ele próprio Conhecimento novo. Ação pensada em função do objeto considerado, no curso da qual se desenrola o processo de elaboração cognitiva e em que essa elaboração se realiza na base do duplo e conjugado impulso do pensamento conduzindo a ação para amoldá-la ao objeto e reproduzi-la, e da ação inspirando e estimulando o pensamento e o ajustando ao objeto. E esse o processo cognitivo (processo natural e espontâneo, mas que se vai tornando cada vez mais consciente e deliberado no curso da experimentação científica e adestramento que proporciona), é isso que se revelará sempre mais acentuadamente nos procedimentos da elaboração científica moderna. Procedimentos esses que pela sua própria natureza e dinâmica, em contraste com a especulação abstrata e a simples observação passiva, põem em confronto direto, e ao longo de todas as suas operações, o sujeito e o objeto bem discriminados um do outro. Isso tanto mais acentuadamente quanto, por força de circunstâncias históricas gerais notórias que não precisam ser aqui repisadas, propõe-se crescentemente, no "conhecer", não apenas, como objetivo, o simples deleite intelectual ou valor intrínseco e em si da atividade intelectual e do Saber, como se dava com os filósofos gregos;] ou, como nos séculos que os separam do mundo moderno, o objetivo fixado no sobrenatural e no conhecimento da Divindade e de seu comportamento com relação à humanidade. E sim propõe-se o "conhecer", na expressão famosa de Descartes, como aquisição de "uma prática pela qual conhecendo a força e as ações do fogo, da água, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diferentes misteres de nossos artesãos, pudéssemos aplicá-los pela mesma forma a todos os usos para os quais são próprios, e tornando-nos assim como senhores e possuidores do Universo". *

Esse domínio do Homem sobre a Realidade que Descartes preconizava, e de fato se estava realizando em ritmo acelerado com o progresso da Ciência moderna; esse "gerar" das coisas sensíveis sem ser pela "forma" potencialmente preexistente e incluída nelas, nos termos da Metafísica; e sim forjadas no Conhecimento construtor pelo próprio Homem, dirigindo a sua ação, e não desvendado pela "dedução"; isso permite desde logo discriminar os objetos do Conhecimento e abrir claras perspectivas para o Conhecimento do Conhecimento, para o objeto da Filosofia disfarçado na confusão metafísica do ser e do conhecer.

Assim será efetivamente, e o objeto próprio da Filosofia começa a se definir. E que o problema do Conhecimento, o como conhecer, premissa da Filosofia, se propõe de forma patente com o progresso da Ciência e as perspectivas que esse progresso abria. Tratava-se de uma transformação radical dos métodos de elaboração cognitiva. Galileu e seus sucessores, atirando objetos de alturas para o solo, e fazendo rolar esferas sobre planos inclinados, contrastavam nitidamente seus métodos com a anterior e habitual especulação inspirada na Metafísica aristotélica. Achavam-se pois abertamente em jogo os procedimentos adequados para a elaboração do Conhecimento. E era preciso não somente determinar esses procedimentos, mas trazer a sua justificação e reeducar-se na condução dos novos métodos. Tanto mais que tais métodos iam chocar-se em última instância com preconceitos profundamente implantados em concepções tradicionais que traziam o poderoso selo de convicções religiosas. As necessidades do momento levavam assim os homens de pensamento a se deterem atentamente nos problemas do Conhecimento. O que, afora as estéreis manipulações verbais a que se reduzira a Lógica formal clássica, praticamente já não detinha a atenção de ninguém.

Abria-se com isso uma nova fase para a Filosofia, forçando-a a se voltar para seus objetos próprios e neles se concentrar. Afirmam-se tais objetos que se farão patentes. Toda a Filosofia moderna nos traz o testemunho disso, de Bacon e Descartes até o criticismo kantiano. Aquilo