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O que é filosofia - caio prado, Notas de estudo de Direito

O que é filosofia - caio prado

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 17/03/2013

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lucas-sabino-2 🇧🇷

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Caio Prado Jr. O QUE É FILOSOFIA, (ico Pot editora brasiliense Copyright O by Caio Prado Jr., 1981 Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia da editora. Primeira edição, 1981 3º reimpressão, 2007 Revisão: José E. Andrade Caricaturas: Emilio Damiani Capa e Ilustrações: 123 (antigo 27) Artistas Gráficos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Prado Júnior, Caio. 1907-1990. O que é filosotia / Caio Prado Júnior - - São Paulo : Brasiliense, 2007. - - (Coleção primeiros passos ; 3» 34º reimpr. da 1º ed. de 1981. ISBN 85-11-01037-8 1. Filosofia E Título. I. Série. 07-8250 CDD - 101 Índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia : Teoria 101 editora brasiliense s.a. Rua Airi, 22 - Tatuapé - CEP 03310-010 - São Paulo - sp Fone/Fax: (Oxx11) 6198-1488 www.editorabrasiliense.com.br livraria brasiliense s,a, Av. Azevedo, 484 - Tatuapé - CEP 03308-000 - São Paulo - SP Fone/Fax: (Oxx11) 6197-0054 livrariasbrasilienseGeditorabrasiliense.com br O QUE É FILOSOFIA?* Não precisamos buscar na infinidade de conceitos de “Filosofia” — talvez um para cada autor de certa expressão, e que à vagueza das formulações acrescentam às vezes até posições contraditórias — não precisamos procurar aí a incerteza e impre- cisão que reinam e, sobretudo em nossos dias, Ro que concerne o objeto da especulação filosófica. Muito mais ilustrativa é a consulta aos textos filosóficos ou qualquer exposição ou análise do desenvolvimento histórico do assunto. De tudo se trata, pode-se dizer, ou se tem tratado na “Filosofia”, e até os mesmos assuntos, ou aparen- temente os mesmos, são considerados em perspecti- vas de tal modo apartadas uma das outras que não se combinam e.entrosam entre si, tornando-se impossível contrastá-las. Para alguns, essa situação é não apenas normal, mas plenamente justificável. Texto originalmente publicado no Ajmanague, nº 4, Ed. Brasi- liense, 1977. = Caio Prado JO que é Filosofia Ji por si bastaria para comprovar que nela se abrigam questões que dizem muito de perto com interesses e aspirações humanas que devem, por isso, ser atendidos, e não frustrados pela ausência ou desconhecimento de objetivo e rumo seguros da parte daqueles que se ocupam do assunto. Mas onde encontrar esse “objeto”. último e profundo da especulação filosófica para o qual converge e onde se concentra a variegada proble- mática de que a Filosofia vem através dos séculos e em todos os lugares se ocupando; e de que trata? E muito importante determiná-lo, porque isso pouparia esforços que tão Tregiientemente se perdem em indagações inúteis ou mal propostas; e que, concentrados na direção de um alvo legítimo e claramente definido, reuniram um máximo de probabilidades de atingirem esse alvo, ou pelo menos de O aproximarem. Existirá contudo esse objeto central é legítimo de toda a especulação filosófica, um denominador comum que embora disfarçado e mal explícito, orienta mais ou menos inconscientemente aquela espe- culação ? Acredito que sim, e a sua determinação constitui tarefa necessária e Preliminar da inda- gação filosófica; e, Certamente, mesmo que não gregue logo a uma precisão rigorosa (se é que ela Hj pose fel, Será por certo de resultados altamente O ponto de partida dessa determinação deve | Fat A ração e exame do próprio conteúdo e desenvol- vimento daquilo que se tem por pesquisa filosófica e do Conhecimento em geral. Mais comumente a Filosofia é tida como uma complementação da Ciência e da elaboração cognitiva em geral; como seu coroamento e síntese. Esse conceito da Filosofia se encontra aliás mais ou menos expres- samente formulado em boa parte das definições e explicações que dela se dão, e partidas dos mais afastados e mesmo antagônicos quadrantes. Até mesmo o séc. XVIII, e talvez o seguinte, Filosofia ainda se confundia com Ciência; e das filosofias particulares (como por exemplo a “filosofia química”, que não é senão a nossa Química, simplesmente) passava-se imperceptivelmente para assuntos gerais que se enquadrariam melhor naquilo que hoje entenderíamos mais especifi- camente como “Filosofia”. Que a Filosofia é Conhecimento, e que de certa forma se ocupa dos mesmos objetos que as ciências em geral, não há dúvida. Mas tudo está nessa restrição “de certa forma”. Isso porque a Filosofia não é e não pode ser, logo veremos por que, simplesmente prolongamento da Ciência, uma “superciência” que a ela se sobrepõe e que a completa. Não há lugar pára esse simples prolon- gamento. Ou melhor, qualquer legítimo prolon- gamento da Ciência é e sempre será, tudo indica, Ciência e não outra coisa. Isso se pode concluir do fato que o desenvolvimento da Ciência, quando ser, para nada perder em objetividade, a conside- ] mo 10 = Caio Prado JrO que é Filosofia 11 r se excluem indevidas extrapolações, se faz sempre Um sentido único que é o da crescente genera- e progresso vão uniformemente no sentido d elaboração de conceitos, ou melhor “conceituação” cada vez mais abstrata e geral. Isto é de sistemas conceptuais mais inclusivos, que por isso mesmo cobrem. £ representam conjuntos mais amplos da Realidade Universal — não no sentido de mais é densos simplesmente, quantitativamente maiores, mais diferenciadas, Compaerana nte de feições c ' rem-se a Ósi Os dois setores do Conhecimento que se encomtnio Contemporaneamente nos extremos da linha dscendente do Progresso científico: de um lado lências sociais, de outro as tísicas. No primeiro desses Setores encontramo-nos em face de um conhecimento empírico ainda solidário, direta- mente, com dados imediatos da observação e experimentação. A conceituação representativa desses dados que refletem os fatos sociais é d insignificante generalidade; os conceitos que a cons. tituem se entrosam mal e frouxadamente entre si ê não se englobam em sistemas amplos capazes de ormarem, por sua vez, outros tantos conceitos de mais elevado nível de abstração e generalidade. Confronte-se essa situação com a das Ciências físicas e de seus imponentes sistemas conceptuais que cobrem e compreendem, representando-os conceptualmente, extensos e amplamente diver- sificados aspectos e feições da Realidade universal. Considere-se em particular o progresso recente dessas Ciências no sentido de uma precipitada gene- ralização, que já hoje compreende (embora ainda falte um bom caminho para a complementação e integração sistemática total do assunto) o conjunto das Ciências físico-químicas que há algumas décadas passadas ainda se confinavam em esferas estanques e impenetráveis uma à outra. Observando-se esses fatos da marcha progressiva do Conhecimento e da Ciência, o que se verifica é a homogeneidade desse progresso. E daí se pode concluir a respeito da homogeneidade também do conhecimento científico, de sua natureza, caráter e estrutura, que são sempre uniformes e do mesmo padrão. Onde pois o hiato ou transformação qualitativa suficientemente acentuado para justificar, nesse processo de desen- volvimento e aprofundamento do Conhecimento, a eventualidade da fixação de limites além dos quais já não se trataria mais de “Ciência” e sim de outra disciplina? Outra ordem de Conhecimento que caberia à Filosofia? Essa indagação sem resposta plausível leva à conclusão de que a Filosofia não é e não pode ser simples prolon- gamento do conhecimento científico, nada mais 14 Caio Prado » que é Filosofia mento a se fazer objeto do conhecer. Fato esse suficientemente marcado para dar lugar a uma ordem de cogitações bem caracterizadas e distintas que seja seu nível de cultura. O Conhecimento é essencialmente de uma só natureza, e por mais elementar e grasseiro que seja, tem fundamental- mente o mesmo caráter do mais complexo e do Conhecimento ordinário. E se bem que pensa- refinado conhecimento científico. Não há aliás dores e elaboradores do Conhecimento não se nenhuma fronteira marcada, ou possível de marcar, tenham desde logo dado plenamente conta da nessa complexidade, nem mesmo separação possível. diferenciação e partição interior dos objetos de Pois O conhecimento científico de hoje será o que se ocupavam (do que aliás resultariam mal- vulgar de amanhã. | “entendidos e confusões de largas conseguências) Assim sendo, as nossas considerações acima se | a sua obra não deixará de refletir a duplicidade aplicam não especialmente ao conhecimento do assunto tratado e o novo rumo que tomava científico, e sim ao Conhecimento em geral, ocupe o pensamento e elaboração do Conhecimento; ele o plano hierárquico e o nível de importância isto é, a par do Conhecimento, a do Conhecimento que ocupar. E, reformilando nessa base a nossa do Conhecimento. O que cronologicamente coinci- questão, diríamos: qual o possível objeto do de no Mundo Antigo (e não terá sido por certo Conhecimento que não seja objeto do Conheci- | uma simples coincidência) com a eclosão daquilo mento? Pergunta aparentemente sem sentido que seria havido como “filosofia”. dentro dos cânones lógico-lingúísticos ordinários Veremos isso com suficiente clareza para uma mas que se resolve simplesmente, e veremos que primeira abordagem do assunto, assim penso, historicamente também, no fato de que além do numa sumária recapitulação, a largos traços, das conhecimento dos objetos ordinários do Conheci- linhas mestras e momentos culminantes e decisivos mento — as feições e ocorrências do Universo do pensamento e elaboração do Conhecimento em que existimos e de que participamos — pode nas sociedades que mais contribuíram, até os haver, e efetivamente há ainda, reflexivamente nossos dias, para a evolução em conjunto e um Conhecimento do próprio. Conhecimento. conformação da cultura moderna; e que vem a 15 nó matizado, e advertida e intencionalmente elabo- Realmente é o que se verifica no desenvolvimento rado, não se distinguindo senão por essa sistema. histórico do pensamento humano logo que o tização em nível elevado e elaboração intencional progresso do Conhecimento atinge certo nível. do Conhecimento comum ou vulgar, aquele de que Isto é, um retorno reflexivo da elaboração cogni- todo ser humano é titular, por mais rudimentar tiva sobre si mesma, passando o próprio Conheci- o, 16 E Caio Prado 2 que é Filosofia 17 ( ser aquela que, brotada no seio das civilizações do Mediterrâneo oriental, se difundiria pela Europa ocidental e daí para o mundo todo. Mas em que consiste ou pode consistir esse Conhecimento do Conhecimento cuja gênese e vicissitudes sofridas no curso de sua evolução Se trata para nós aqui de examinar? Ou, em outras palavras, - que vem a ser Conhecimento como objeto do Conhecimento”? Em primeiro lugar está claro, a natureza do Conhecimento, seu processamento. Dito de outro modo: o que vem a ser o fato ou ato de “conhecer”; e como se realiza esse fato, qual a sua segúência — sua gênese, seu desenvolvimento e seu desentace; em que vai dar Isso €, como se apresenta e configura na sua conclusão como corpo de conhecimentos para o qual O processo afinal se dirige e em que se torna São essas as questões que se agrupam na disciplina ordinariamente conhecida por Teoria do Conhe- cimento, epistemologia ou mais genericamente: gnosiologia. Disciplinas essas que constituem, segundo consenso generalizado, capítulos da Filosofia. Até aí, portanto, não haverá divergências apreciáveis que começam daí por diante. Há os que restringem a Filosofia a isso mesmo, e até menos, como os logicalistas que fazem da própria Teoria do Conhecimento, e pois da Filosofia que a ele se reduziria, uma simples análise lógico- crítica da linguagem ou simbolismo em que o Conhecimento e a Ciência em particular se exprimem. Essa concepção, contudo, é restrita a reduzidos círculos. Em regra, pelo contrário,.a teoria do conhecimento, em si, ocupa oficialmente um lugar secundário e diríamos quase marginal da Filosofia que, a julgar pelos assuntos nela tratados, ou pelo menos sob sua responsabilidade, tem voz em qualquer terreno, duplicando de certa forma com isso o papel da Ciência cujo objeto não se distinguiria essencialmente do seu. Filosofia e Ciência, distintas embora quanto à perspectiva em que respectivamente se colocam, e ao método, ou antes “estilo” que adotam, se ocupariam uma e outra da mesma Realidade universal. Já lembramos acima essa universalidade da Filosofia, bem como a confusão reinante no seu ponto de partida entre os objetos respectivos do Conheci- mento (que seria em particular a Ciência) e o Conhecimento do Conhecimento, ou Filosofia. Confusão essa que se prolongará sob muitos aspectos, embora progressivamente se atenuando, até os dias de hoje. Notamos também que em princípio e em frente aos fatos do desenvolvimento histórico da Ciência, essa pretensão da Filosofia de se ocupar com assuntos da alçada da Ciência não se justifica. Nesse ponto os logicalistas, que partem dessa questão para seu programa de limitação do campo da Filosofia, têm plena razão. Quando a Filosofia se ocupa dos objetos da Ciência, a saber, das feições e fatos do Universo, suas conclu- a 20 TE - Caio Prado Jo que é Filosofia verificando no curso do desenvolvimento histórico da Filosofia, O Conhecimento, como objeto do Conhecimento, se propõe em segiiência ao conhecimento da Realidade universal exterior ao pensamento elaborador.? Esse conhecimento da Realidade se apresenta na conceituação que elaborada na base da experiência do indivíduo pensante, reflete, ou melhor, representa na esfera mental desse indivíduo pensante as feições e ocorrências da Realidade. Desse primeiro momento ou nível da atividade cognitiva (isto é, a elaboração da conceituação representativa da Realidade), o instrumento dessa atividade, que é o pensamento elaborador do Conhecimento, se volta sobre si próprio e toma reflexivamente por objeto aquele mesmo conteúdo conceptual ou Conhecimento por ele elaborado, Trata-se de uma posição como que crítica, que objetiva de um lado, e entre outros, aferir de um modo geral a segurança, e ponderar o valor e alcance do Conhecimento adquirido e por adquirir; e, de outro, visa e se propõe dar ao Conhecimento expressão conveniente (em especial e fundamentalmente pela linguagem (2) Essa restrição do Pensamento “elaborador"” é necessária, pois o Pensamento am si, abstração feita do ato da elaboração da Conhecimento, Participa das ocorrências do Universo como es -demais, E será objeto legítimo da Ciência, di il , Ps em particular. * Fatedtogia Gear pi pal discursiva) e ordenar e sistematizar a conceituação que compõe o Conhecimento. Isso tudo para, no contexto geral do processo cognitivo, alcançar o seu fim primordial (que é o do “conhecer” como função e constituinte essencial da natureza humana), fim primordial de determinar e orientar devida- mente o comportamento do Homem. Não entraremos aqui no pormenor desses pontos a fim de não particularizar a exposição e perder com isso de vista o conjunto e o essencial do assunto que diretamente aqui nos interessa, e que vem a ser a duplicidade dos níveis em que opera o pensamento elaborador do Conhecimento, e o que essa duplicidade significa. Repetindo, temos de um lado, como ponto de partida, o nível do conhecimento direto e imediato das feições e ocorrências da Realidade que se trata de conhecer, isso é, aquilo que ordinariamente entendemos simplesmente por “Conhecimento”, e Ciência em particular. Temos de outro, e em seguida, um segundo nível sobreposto ao primeiro, e no qual o pensamento se ocupa já não diretamente com as feições e ocorrências da Realidade, mas com o Conhecimento acerca dessas feições e ocorrências. No primeiro nível, o pensamento estará se apli- cando à esfera objetiva e exterior ao ato pensante,” Lembramos aqui novamente a observação já feita em nata anterior, que O pensamento em si pode ser e é de fato objeto (3) pt +— 2 — Caio Prado Jo que é Filosofia na outro, se aplicará a si próprio, ou antes ao seu conteúdo — e, note-se bem, propriamente como seu conteúdo, já desligado da Realidade que representa — conteúdo de Conhecimento ou conceituação representativa da esfera objetiva, e elaborada no curso de sua atividade no primeiro nível. Mas, aplicando-se embora ao seu conteúdo de Conhecimento e conceituação, ou seja, à esfera subjetiva, o pensamento irá por força se referir embora indiretamente, aos objetos daquele Conhe- cimento — que são, repetimos, as feições e Ocorrências da Realidade que lhe são exteriores Isso é óbvio, pois pensamento ou conhecimento ndo existem em estado “puro” é vazio de repre- sentação conceptual das feições e ocorrências do Universo. Não existem mesmo, tais quais faculdades” potenciais do indivíduo pensante e conhecedor, à parte dessa representação que lhes Concede a substância de que se constituem. Essa situação é por sua própria natureza fonte de confusão entre as duas esferas, a subjetiva e a objetiva. E deriva daí a impressão e ilusão que tão da Ciência, da Psicologia em particular. Mas nesse caso ale será considerado em abstrato e fora do ato pensante efetivo, ista é, na perspectiva de uma feição, ocorrência do Universo. tal como o restante da objetividade di e que s ivi- dade cognitiva, à é Oesp a ani 23 á fortemente se ancoraria na Filosofia, e que consiste em tratar de um objeto julgando tratar-se de outro. Ou melhor, simplesmente ignorar a distinção e oscilar dubiamente entre um e outro; ocupar-se do Conhecimento e conceituação que o compõe, como se tratasse das feições e ocorrências da Realidade exterior ao pensamento representados conceptualmente por aquele Conhecimento. Caso flagrante disso, que refiro a título de ilustração bem esclarecedora dessa confusão, é o conceito “matéria”, que vem constituindo através dos séculos um dos principais divisores do pensamento filosófico; e a respeito do qual as partes que contendem incessantemente não conseguem sequer fixar com clareza o que está sendo debatido. O que torna o debate, no mais das vezes, em infindáveis monólogos que se desenrolam parale- lamente uns aos outros, e sem correspondência no mais das vezes entre si. Cada qual trata respecti- vamente de assuntos que não coincidem, embora essa coincidência esteja sendo presumida. O desentendimento nesse caso tem suas raízes na consideração de “matéria” de ângulos distintos, em que se mesclam em proporções várias, conforme os filósofos, de um lado a perspectiva de algo exterior e que a expressão “matéria” designaria (substância corpórea ou sensível... componente primário e original do Universo... substratum de todas as coisas... ), de outro lado o conceito propriamente de “matéria” — como se dá quando Caio Prado O que é Filosofia — 27 o objeto pela sua cópia, o conceito”,* Daqueles padrões conceptuais pelos quais se modela a Realidade, o mais importante é natural- mente o da linguagem discursiva, na qual e através da qual a conceituação, no mais das vezes, se formaliza e exprime.é Essa a razão principal por que encontramos a nossa concepção corrente e ordinária do Universo fundamentalmente confor- mada por estruturas verbais. É através de formas verbais que o realismo ingênuo (que esponta- neamente, e na base de nossa educação e formação ordinária, é de todos nós) enxerga o Universo e o interpreta; e é na base delas que-se dispõem as feições e ocorrências da Realidade universal. É daí que deriva, entre outras, a noção de um mundo constituído de “coisas” e “entidades” bem discriminadas e separadas entre si; coisas e entidades essas de cujas “qualidades” e compor- (5) Engels. M, E. Dúhring boulsverse ta science (anti-Dúhring), trad, francesa, Paris, 193%, |, 139. (6) Na acepção aqui adotada, reserva-se a designação de “conceito” ou “conceituação” à representação mental das ocorrências ou circunstâncias em geral do Universo, Aquilo em suma que ordinariamente se entende por “idéia”, A linguagem discur- siva — tal como outras verbais, gráficas e demais, como em particular a principal delas (depois da discursiva), e que é o simbolismo matemático — a linguagem discursiva constitui expressão formal, isso é, direta e Imediatamente acessível aos sentidos, da conceituação. — 28 [eee Caio Prado que é Filosofia 29 tamento resultam os fatos, feições e circunstâncias em geral do Universo. Mal se disfarça nessa con- cepção ingênua e integrada tanto no pensamento filosófico profissional, como no ordinário e vulgar, mal se disfarça aí o modelo que o inspira, a saber, a estrutura gramatical do sujeito e predicado, e seus elementos constituintes essenciais: substan- tivo, adjetivo, verbo. Temos aí os materiais com que se constitui e concebe ordinariamente o Universo, com as circunstâncias que nele se verificam e ocorrem. Os substantivos se farão nas coisas e entidades em que o Universo é discrimi- nado e dividido; os adjetivos serão as qualidades com que se revestem aquelas coisas e entidades; e os verbos, finalmente, designarão (e a rigor “serão” mesmo) a ação das mesmas coisas e entidades; ação essa com que se descreverá O comportamento do Universo... Essa maneira de proceder, isso é, de inverter a ordem do processo do Conhecimento que, originando-se na Realidade exterior ao pensamento elaborador, retorna e se projeta afinal sobre essa mesma Realidade e a modela segundo seus padrões, esse procedimento tem na Filosofia raízes tão fortes que a encontramos mesmo naqueles setores que - mais diligentemente procuraram se libertar dos preconceitos e distorções da Filosofia clássica — que vem a ser aliás a Metafísica aristotélica que consagrou filosoficamente e projetou pelos séculos afora e até nossos dias, como aliás veremos ze adiante, a confusão das esferas subjetiva e objetiva do pensamento e Conhecimento. Assim os logica- listas que fundamentalmente visavam desfazer aquelas distorções através do correto emprego da linguagem simbólica “perfeitamente” construída (e são essa correção e perfeição que sobretudo visam em seus trabalhos) acabam concebendo e construindo com todas as peças esse mundo idealmente modelado para ser adequadamente descrito por aquela linguagem “perfeita” por eles pretendida. A abertura do Tractatus Logico- Philosophicus de Witigenstein (o evangelho, pode-se dizer, do logicalismo) nos dá conta desse mundo ideal, num encadeamento de proposições, tal qual normas de um texto legal — segundo o estilo tão característico do autor — cuja inspiração em modelos e padrões puramente gramaticais é patente e inconfundível. Numa consideração bem alertada e atenta interpretação do desenvolvimento histórico da Filosofia, vamos encontrar a comprovação não somente de que o verdadeiro objeto dela é o Conhecimento em si, e não dos objetos desse Conhecimento que são os fatos, feições ou circunstâncias em geral da Realidade exterior ao pensamento elaborador (embora frequentemente, e mesmo no mais das vezes isso tenha passado despercebido), veremos não somente isso, mas ainda que foi e ainda é precisamente essa incom- preensão ou falta de rigorosa discriminação entre Caio Prado Fu é Filosofia 33 que os ocupa centralmente e que diz respeito à “substância” constituinte do Universo representa sem dúvida alguma coisa bem diferente e um novo caminho imprimido a seu pensamento. Constitui erro, assim penso, e imperdoável anacronismo considerar — como frequentemente se tem feito ou pelo menos insinuado — que os pensadores gregos estivessem preocupados com a substância ou elemento constituinte do Universo com o mesmo espírito com que os físicos da atualidade e de um século para investigam as “partículas” ou outras ocorrências de cujas estruturas, disposição e comportamento no plano microscópico, resultam os fatos observados no plano macroscópico que é “o nosso usual de todos os dias. Estruturas e comportamento esses com que se torna possível explicar tais fatos, ou antes representá-los con- ceptualmente (mentalmente) e formalizar e exprimir essa representação que os descreve através do simbolismo matemático. Evidentemente preocupações dessa natureza eram completamente estranhas, como não podia deixar de ser, aos pensadores gregos. Nem possuíam eles lastro suficiente de conhecimentos para cogitar delas, nem tampouco a maneira de propor o assunto e em seguida desenvolvêlo apresentam a mais remota analogia com à que ocorre nos procedi- mentos da Ciência de nossos dias. De fato, o que os pensadores que se ocupam do assunto têm em mira é essencialmente uma questão Er sera gnosiológica que constituirá o pano de fundo de todo debate, e tema central da Filosofia grega em geral. Já em outra oportunidade procurei desen- volver esse assunto” que consiste resumidamente no seguinte. Trata-se em suma e esquematicamente de explicar como neste mundo tão variado e em permanente fluxo e transformação; onde as feições naturais se apresentam aos sentidos não somente sob tal multiplicidade de aspectos a ponto de nunca se assemelharem perfeitamente entre si; como também porque se modificam sem cessar; trata-se assim de explicar como é possível neste mundo tão variado e variável, multiforme e em fluxo e transformação permanentes, como é possível um verdadeiro e legítimo Conhecimento que implica uniformidade e permanência, condições essas indispensáveis para a caracterização e identificação dos objetos daquele Conhecimento. Todo Conhecimento começa necessariamente por essa caracterização e identificação dos objetos que se trata de conhecer, o que somente é conce- bível na uniformidade e estabilidade deles. Os milésios responderão a essa questão, que é, como se vê, fundamentalmente gnosiológica — tratase no essencial de estabelecer e fixar as condições do Conhecimento? — responderão com (7) Dialética do Conhecimento, 1969 (53 ed,), 1, 177, (8) Mais tarde, mas sempre na mesma linha de pensamento, Platão Caio Pradok; Va a sua substância material ou assemelhada que preencherá para eles a função de representar of substrato Permanente e estável do Universo que faz | possível o Conhecimento. Com isso os milésios | 1 . ingenuidade de suas t concepções ainda presas inteiramente a um nível | davam bem mostra da rudimentar e grosseiro de Conhecimento não liberto do empirismo de seus começos, e contun- É dido por isso com os dados diretos e imediatos |; dos sentidos com que o Homem entra em primeiro e original contato com a Realidade exterior, Uma nova geração de pensadores mais maduros que segue esses precursores e se inaugura na segunda metade do VI séc, AC. procurará dar à | questão uma resposta mais profunda — embora a mesclem aínda, em grandes proporções, com as grosseiras concepções derivadas dos milésios; concepções essas que somente desaparecerão na obra de Platão. A multiplicidade e instabilidade das feições naturais será por eles atribuída à ilusão enganadora dos sentidos. Por trás dessa ilusão dirão eles, se abriga a verdadeira Realidade, onde se tisará como fundamento básico de sua doutrina das Idéias fsobre 9 que voltaremos adiante) o argumento referido por Aristótelos que procura refutáo: “Se há ciência s conheci. mento de alguma coisa, devem existir algumas outras natu- rezas além das naturezas sensíveis, realidades estáveis, pois não há ciência do que está em Permanente Fluxo” Aristó- teles. Metafísica, trad, francesa de J, Tricot, t, 733. , encontram a uniformidade e permanência que se trata de apreender e que proporcionarão o legítimo Conhecimento. A identidade desse princípio idea! (ou pelo menos semi-ideal, como é O caso dos mais antigos pensadores dessa fase), princi- pio unificador da Natureza, variará segundo os filósofos: serão os números, para Pitágoras; o SER, para Parmênides; o Logos para Heráclito; o Nous para Anaxágoras... Mas seja qual for a natureza atribuída ao princípio unificador, ele mal disfarça e em última instância se confunde sempre com o pensamento. E a solução do pro- blema da uniformidade na multiplicidade, e da permanência no fluxo das coisas e feições do Universo, se transferirá para o plano do pensa- mento do Homem, exibindo-se com isso a natu- reza do que seria a Filosofia e seu objeto, que não consistia, como poderia às vezes parecer à primeira vista, e nas concepções grosseiras dos milésios podia mesmo iludir, não consistia nas feições da Natureza. O objeto de que se ocu- pam os pensadores que mereceram, e com acerto, a qualificação de “filósofos” (pois de outra forma seriam, como realmente os houve, simplesmente homens de ciência), esse objeto eram o pensa- mento e o produto da elaboração desse pensa- mento que vem a ser o Conhecimento, Isso é patente sobretudo, e por isso o destacamos aqui, naquela concepção que mais se projetaria no futuro desenvolvimento da Filosofia, e Í Caio Prado elaboração e expressão do conhecimento, encontra em Platão um analista Seguro. E foi a compreensão desse processo que permitiu a Platão abrir as perspectivas para a formulação da lógica formal que, já delineada e potencialmente contida na obra do filósofo, será desenvolvida por seu discípulo e sucessor Aristóteles, que lhe dará forma final e acabada. Se alguma dúvida houvesse, nos filósofos que antecederam Platão e lhe prepararam o caminho, acerca da natureza e do objeto da Filosofia nesta sua fase preliminar e ponto de partida do que seria O pensamento grego, essa dúvida se desfaz inteira- mente na consideração e exame da obra platônica que consistiu em continuar e prolongar a linha de desenvolvimento daquele pensamento, procurando, 8 com grande sucesso, dar resposta às perguntas nele propostas. Aquilo de que Platão se ocupa, em continuação aos pensadores que o precederam, & que constitui o objeto essencial e fundamental de sua obra, contribuição máxima para a cultura, são O pensamento e o Conhecimento tal como nós hoje o conceituamos. O seu ponto de partida e questão primeira que a ele Se propõe, é a mesma de toda a Filosofia grega desde seu nascedouro com os milésios e centralizada, como vimos, no problema da unidade e Permanência na diversidade e fluxo em que a Natureza se apresenta 'aos senti- dos, “unidade e permanência” essa que já se fixara (no consenso geral, ou pelo menos decisivamente Eque é Filosofia 39 dominante) no SER de Parmênides, que não vem a ser senão — isso também se consagrara — O universal, idêntico e permanente, em Contraste . com O particular dado na percepção sensível 8 diverso e em transformação constante. Universa que se revela e representa na Idéia, no conceito. É daí que Platão parte. O que, traduzido para nossa linguagem ordinária e corrente, vai dar em que as Idéias do platonismo não são outra coisa mais que aquilo que entendemos por Conheci mento, . Platão exterioriza suas Idéias e lhes concede uma existência extra-humana. Mas vistas mais de perto e no quadro de nossas: concepções atuais (que têm atrás de si a alimentá-las e a lhes darem base, não o esqueçamos, a longa experiérei , aprendizagem e progresso cultural e cent fico milenares de que somos herdeiros) gens são apenas e simplesmente as nossas eos vulgares; conceitos cujo conjunto const a é Conhecimento. À análise que Platão faz das Idéias, procurando determinar a sua natureza e estrutu- ração, a disposição relativa em que elas em conjunto se articulam e entrosam a so derivação e filiação umas das outras — e a Ê a ão apresenta um dos capítulos mais fecundos de 8 ê obra, quando, entre outros no Sofista, consi e E “classificação”, isto é, a operação. ta e classificar — tudo isso significa na realidade an Ie do Conhecimento e da sistemática conceptua . Caio pao que é Filosofia 4 em que os conhecimentos se apresentam. E desse ele, a própria Filosofia para cujo embasamento é dorstituição O platonismo tanto contribuiu, & disso que se trata, A Filosofia como Conheci- Pode-se mesmo dizer que Platão, embora envol- e fantasia literária que lamentavelmente as ofusca e muitas vezes lhes torce o sentido profundo, bem como cefarça O que deveria ser sua contribuição cunda para a devida proposição e a g posição das derdadeiras questões da Filosofia, pode-se dizer que atão teve a intuição e Marcou, com um máximo de clareza para um precursor, a distinção entre Conhecimento e Conhecimento do Conhe- Cimento; entre Ciência e Filosofia. Desenvolvendo apomiua o objeta daquelas duas esferas. A primeira detivaria as “imagens” (dados sensíveis), a outra, as “idéias”, c itui ; onstituindo “cumeeira do Saber”. 1: SH outra a am Estamos naturalmente Psquematizando, para fins de simples exposição sumária, o pensamento de Platão, na realidade mais complexo, Vejaseo a respeito, e) i + em final do Livro IV de Bepública. Pertediar, a parte Conhecimento, Portanto, que Platão, e mais que mento do Conhecimento se revela aí claramente. + vendo suas concepções num manto de misticismo É [ Não é difícil para nós hoje em dia identificar atrás dessa distinção aquela que efetivamente ocorre entre o que designamos por “Ciência” e “Filosofia”: a primeira ocupando-se com os dados experimentais colhidos na consideração direta das feições e ocorrências da Realidade; e a Filosofia, com as ídéias (dirfamos melhor “con- ceitos” ou representações mentais daquela Realidade exterior carreada pela experiência). Só que Platão inverte a nossa ordem de prece- dência, processamento e estrutura do Conheci- mento: para ele as “imagens” ou dados da expe- riência são reflexos ou cópias aproximadas e imperfeitas das “idéias”; enquanto para nós, isto é, à luz das concepções científicas de nossos dias (se bem que ainda sobrem idealistas que pensam diferentemente, e, embora nem sempre com muita consciência disso, aproximam-se mais de Platão), são as “idéias” que constituem repro- dução, ou melhor, “representação” da Realidade. A distinção entre Conhecimento e Conheci- “mento do Conhecimento aí está. E tivessem os sucessores de Platão insistido nesse ponto, logrando ao mesmo tempo despir o platonismo do véu místico que o envolve, sem desprezar aquela distinção, e outra teria sido talvez a marcha da Filosofia. Mas as coisas não estavam maduras para isso que viria gradualmente, muito mais tarde, na base do progresso científico, como veremos adiante. E, pelo contrário, quem desem-