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O Que é Serviço Social, Notas de estudo de Serviço Social

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Tipologia: Notas de estudo

2013
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Nota: Este livro foi escaneado e corrigido por Norman Davis Jr., em maio/julho de 2005,
para o uso exclusivo de pessoas com alguma deficiencia visual e sua
distribuição ao público em geral, bem como para fins comerciais é extritamente proibida
pela lei brasileira de direitos autorais.
Nota: a descrição das ilustrações são de minha autoria, menos as frases dos
personagens e legendas.
Ana Maria Ramos Estevão
O QUE É SERVIÇO SOCIAL
nº 111
1984
Copyright © Ana Maria Ramos Estevão
Capa e ilustrações:
Miguel Paiva
Revisão:
José G. Arruda Filho
José W. S. Moraes
editora brasiliense s.a.
01223 r. general jardim, 160
sãopaulo brasil
ÍNDICE
Introdução 7
Das damas de caridade a Mary Richmond
e a infância do Serviço Social 10
O feijão e o sonho: o Serviço Social
descobre a luta de classes 28
O sonho acabou e o feijão está caro, o
Serviço Social põe os pés no chão 50
Do pobre ao cidadão . . . . ’. 58
Conclusão: novos horizontes 64
Indicações para leitura 6
"Entre nós, onde tão penosa função ainda não constitui meio de vida, pode-se
acrescentar que a assistente social deve ser
rica, bonita e alegre."
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Nota: Este livro foi escaneado e corrigido por Norman Davis Jr., em maio/julho de 2005, para o uso exclusivo de pessoas com alguma deficiencia visual e sua distribuição ao público em geral, bem como para fins comerciais é extritamente proibida pela lei brasileira de direitos autorais. Nota: a descrição das ilustrações são de minha autoria, menos as frases dos personagens e legendas.

Ana Maria Ramos Estevão

O QUE É SERVIÇO SOCIAL nº 111

1984

Copyright © Ana Maria Ramos Estevão

Capa e ilustrações: Miguel Paiva

Revisão: José G. Arruda Filho José W. S. Moraes

editora brasiliense s.a. 01223 — r. general jardim, 160 sãopaulo — brasil

ÍNDICE

Introdução 7 Das damas de caridade a Mary Richmond e a infância do Serviço Social 10 O feijão e o sonho: o Serviço Social descobre a luta de classes 28 O sonho acabou e o feijão está caro, o Serviço Social põe os pés no chão 50 Do pobre ao cidadão.... ’. 58 Conclusão: novos horizontes 64 Indicações para leitura 6

"Entre nós, onde tão penosa função ainda não constitui meio de vida, pode-se acrescentar que a assistente social deve ser rica, bonita e alegre."

Plínio Olinto - 1939

"Nada do que é humano me é estranho."

A Pedro e Iracy, meus pais, por quem são. A Júlia e Ivan Ramos Estevão, uma pequena gratificação pelo tempo a eles roubado, e para José Carlos, porque sim.

p. 7 INTRODUÇÃO

"Assistente social é aquela moça boazinha que o governo paga para ter dó dos pobres."

Qualquer definição popular e até algumas definições dadas por profissionais sobre o Serviço Social contêm estes dois elementos: a moça e o pobre. Isto tem uma aparência de verdade, mas apenas aparência. As origens do Serviço Social estão fincadas na assistência prestada aos pobres, por mulheres piedosas, alguns séculos atrás. De lá para cá, apesar de muita coisa ter mudado, o Serviço Social continuou sendo uma profissão essencialmente feminina, só que as ricas damas de caridade cederam lugar às filhas da classe média ou dos trabalhadores urbanos. Mas, claro que isto

p. 8 não é suficiente para descrever a profissão. De fato não é fácil descrever o que é o Serviço Social, para que serve o trabalho da assistente social e como ele se realiza. Fazemos Assistência Social ou Serviço Social? Já se disse que o Serviço Social é "uma ciência", "uma engenharia social", "uma arte". Alguns mais irônicos dizem que a assistente social "assiste o social"; outros mais sérios disseram que somos os "artífices das relações sociais" ou "os modernos agentes da caridade". Para os de "esquerda" somos os que põem panos quentes nas feridas do capitalismo. Enfim, tanto leigos como profissionais já deram mil e um palpites e até agora não se conseguiu definir o que é Serviço Social.

social: trata-se de fazer caridade. A justificativa é a necessidade de todos praticarem o bem, portanto os ricos precisavam cumprir seus deveres com os pobres. Era uma preocupação com o indivíduo. O modo pelo qual se pensava resolver os problemas sociais era pela "reforma dos costumes" ou "reforma social" de cada um. Toda a assistência social nesta época é feita de forma não sistemática, sem qualquer teorização a respeito além de vagas justificativas religiosas e ideológicas. É a partir da segunda metade do século dezenove que algumas pessoas, como Chalmers na Inglaterra, Ozanam na França e Von der Heydt na Alemanha, praticam uma caridade de caráter assistencial que se constitui como um esboço de técnica e de forma organizada. Mas o que faziam estas pessoas que era diferente da prática caritativa anterior? Elas dividiram as paróquias em grupos de vizinhança designaram um responsável em cada setor para distribuir ajuda material e fazer trabalho educativo (principalmente dando conselhos)

p. 12 As conferências São Vicente de Paulo em 1833, por exemplo, organizam seu trabalho em torno de visitas e ajudas a domicílio, creches, escolas de reeducação de delinqüentes, cuidados e socorros a refugiados e imigrantes. O que era feito apenas nas paróquias passa a ser feito por toda a cidade. A princípio organizada em pequenos bairros, a assistência começou a se expandir e procurou conquistar um espaço na cidade inteira. Até aí a Assistência Social é exercida, em caráter não profissional, como contribuição voluntária daqueles que possuíam bens para aqueles que eram pobres. Bem, o que fazia então uma dama de caridade ou "assistente social"na segunda metade do século XIX? Procurava em primeiro lugar conhecer as verdadeiras necessidades de cada um. Usar economicamente as esmolas disponíveis, visitar aS casas dos pobres e necessitados, estudar conscienciosamente os pedidos de ajuda e conseguir trabalho para os desocupados", para prevenir os problemas derivados da pobreza. Um marco importante para a organização da

p. 13 Assistência Social é a fundação em 1869 da Sociedade de Organização da Caridade em

Londres, que se baseia em alguns pontos que fundamentaram a prática de toda a assistência social a partir de então. Seus princípios de trabalho são:

  1. Cada caso será objeto de uma pesquisa escrita;
  2. Este relatório será entregue a uma comissão que decidirá o que se deve fazer;
  3. Não se dará ajuda temporária, mas metódica e prolongada até que o indivíduo ou a família voltem às suas condições normais;
  4. O assistido será agente de sua própria readaptação, como também seus parentes, amigos e vizinhos;
  5. Será solicitada ajuda às instituições adequadas em favor do assistido;
  6. Os agentes dessas obras receberão instruções gerais e escritas e se formarão por meio de leituras e estadias práticas;
  7. As instituições de caridade enviarão a lista de seus assistidos para formar um fichário central, com o objetivo de evitar abusos e

p. 14 repetições de pesquisas;

  1. Formar um repertório de obras de beneficência que permita organizá-las convenientemente.

Sociedades como esta se formaram em todos os países capitalistas mais desenvolvidos, principalmente nos Estados Unidos. A novidade principal destas instituições era colocar, como princípio, a necessidade de criar instituições que se encarregassem de formar pessoas especificamente para realizadas tarefas, de assistência social e colocar em pauta a institucionalização do Serviço Social. O que se fazia por prazer ou por obrigação religiosa passa a se esboçar como uma profissão secularizada. Mas, é bom lembrar que para esse movimento de institucionalização outros fatores importantes contribuíram. Temos de pensar, então, como e por que ou para que surge uma profissão. Em primeiro lugar é quando ela se torna socialmente necessária e as práticas profissionais se gestam no labor cotidiano. Antes de serem

p. 16 instituídas, as profissões se legitimam pela sua eficácia social e/ou política. É claro que as questões humanísticas contam como declaração de boas intenções, principalmente para aqueles que serão os pioneiros da profissão. O Serviço Social também começou assim.

p. 18 início do século XX, teve a sensibilidade de começar a pensar e a escrever a respeito do que é Serviço Social e de como ele deveria ser exercido. Aproveitando os relatos de experiências de colegas e alunas e a sua vasta experiência de anos de instituição, ela é a primeira a escrever sobre a diferença entre fazer assistência social", ou caridade, ou filantropia, e o Serviço Social propriamente dito. É através de seu livro Caso Social Individual que surgem as primeiras luzes sobre uma prática profissional não ainda institucionalizada, e é ela quem vai dar as medidas da prática profissional competente. Para Mary Richmond, dar ajuda material para as pessoas pobres não era Serviço Social, era apenas um osso do ofício, mas não o próprio ofício. De fato, para ela, fazer Serviço Social implicava trabalhar a personalidade das pessoas e o seu meio social. É claro que o meio social" eram a família, a escola, os amigos, o emprego, etc. O que faria então uma assistente social no

p. 19 início deste século se ela fosse séria, rigorosa e competente? Em primeiro lugar iria preocupar-se em determinar qual a história individual da formação da personalidade de seu cliente. Se ele não havia conseguido desenvolver suas potencialidades, enquanto pessoa e cidadão, era porque a situação vivida por ele, em seu meio social, não havia permitido um correto e completo desenvolvimento de sua personalidade. Esta primeira assistente social acreditava que a personalidade da pessoas pode por motivos alheios à sua vontade, dependendo do meio social em que vive, se atrofiar, não realizando assim tudo de que as pessoas podem ser capazes quando lhes são dadas a condições necessárias. Iria também estudar e investigar seriamente o meio social daquela pessoa, através de entrevistas, conversas informais, visitas domiciliares a amigos, professores, patrões, etc. Observando e anotando, fazendo relatórios minuciosos, obteria um diagnóstico e tentaria descobrir quais as possibilidades daquela pessoa vir a desenvolver a sua personalidade e como conseguir a ajuda do meio social para sua causa

p. 20 Era preciso descobrir quais as possíveis motivações do seu cliente que poderiam incentivá-lo a querer mudar, a se desenvolver enquanto gente, descobrir quais aspectos de sua personalidade deveriam ser reforçados e quais deveriam ser negados. Este procedimento Mary Richimond chamou de "compreensões": compreensão do meio social e compreensão da personalidade. Isto feito, era necessário então escolher qual caminho dever-se-ia seguir para que esta personalidade se desenvolvesse e para que o meio social contribuísse para isso. Caso o meio social não pudesse mudar, o cliente mudaria de meio. A isto Mary Richmond chamou "as ações": ações diretas sobre a personalidade do cliente e indiretas sobre o meio. A assistente social, através de longas conversas, de caminhadas noite afora e de visitas, ganharia a confiança, mostraria estar (como de fato estava) interessada em apoiá-lo e ajudá-lo na sua caminhada em busca de seu desenvolvimento individual: propondo-lhe alternativas, mostrando-lhe caminhos e, principalmente, exercendo influência sobre a consciência da pessoa.

p. 21 As ações indiretas sobre o meio seriam para fazer com que este contribuísse para o tratamento, não só através de apoio, mas de efetiva melhoria das relações sociais entre o cliente em seu meio. A assistente social faria reuniões, entrevistas e debates, daria sugestões, faria críticas para que as pessoas e instituições em volta do cliente estivessem também afinadas no trabalho de desenvolver esta personalidade atrofiada. Evidentemente, o cliente chegava diante da assistente social para solicitar algum tipo de ajuda concreta: dinheiro, roupas, casa, comida, etc. A instituição dava ao profissional os meios para atender esta solicitação, mas o trabalho não parava aí. Esta proposta profissional chama-se Serviço Social de Casos Individuais. E exigia muito tempo e muita paciência, extensos relatórios e coleta minuciosa de dados. O grande mérito de Mary Richmond foi dar um estatuto de seriedade à profissão, mostrar que era possível fazer mais do que caridade, ser rigoroso em termos de procedimento, descobrir

As assistentes sociais começaram então

p. 24 trabalhar também com grupos e, em 1934, se inicia dentro do Serviço Social um movimento que tem por finalidade definir a técnica e os objetivos deste método de trabalho. Pouco a pouco, a prática profissional exercida dentro dos grupos é aceita como um dos métodos e forma básica através da qual o Serviço Social atua. A assistente social podia, em determinadas instituições, montar os grupos por tipo de problema comum apresentado: grupo de jovens que querem fazer recreação, senhoras que querem ajudar os favelados de uma região, ou então ser solicitada por algum grupo local para dar a orientação técnica necessária ao bom funcionamento destes grupos. O problema a ser tratado pela assistente social tanto podia ser do grupo como exterior a ele. Foi em 1935 que Gisella Konopka, uma assistente Social americana, escreveu um dos clássicos do Serviço Social de Grupo, onde fala muito da necessidade de se encontrar formas de vencer a solidão dos grandes centros urbanos e criar laços de amizade e ajuda mútua entre as pessoas. Nesta época, as pessoas também

p. 25 sentiam na pele que a competição na sociedade capitalista não era brinquedo. O grande e não planejado crescimento urbano era um monstro, bicho-papão pronto a engolir as pessoas; o Serviço Social, pensava-se, tinha as condições e o espaço social necessário para lutar contra ele profissionalmente. O desenvolvimento do Serviço Social de Grupo levou a um terceiro método de atuação profissional: o Serviço Social de Comunidade. A concepção de trabalhos com grupos se desenvolveu para a ação intergrupos, isto é: há certo tipo de problemática social que necessita atuação de vários grupos, que, por terem objetivos comuns, devem se interligar. É a partir dessa necessidade que começa a se gestar a noção de Serviço Social de Comunidade. De início trata-se de um trabalho de organização de comunidade entendido como "a arte e o processo de desenvolver os recursos potenciais e os talentos de grupos de indivíduos e dos

indivíduos que compõem esses grupos". Depois, o Serviço Social de Comunidade vai ser concebido como "um processo de adaptação e ajuste de tipo interativo e associativo e mais uma técnica

p. 26 para conseguir o equilíbrio entre recursos e necessidades". Esta idéia de organizar a comunidade passa a ser melhor precisada quando se descobriu que juntamente com os esforços dos grupos e das populações locais agrega-se o esforço dos governos para promover a melhoria das condições econômicas, sociais e culturais das comunidades. Mas as coisas não seriam assim tão plácidas: no pós-guerra, com o socialismo grassando na Europa Oriental e na China, o mundo já tendo sido repartido por blocos de interesses opostos, era necessário oferecer aos países do "Terceiro Mundo", na área de influência dos Estados Unidos, uma alternativa para a proposta socialista. Já não era possível pensar apenas em organizar a "comunidade"mas era necessário, principalmente promover o seu desenvolvimento a partir dos seus própios recursos humanos e materiais (evidentemente com uma pequena ajuda do exterior). O trabalho social com comunidade é outro espaço que vai ser conquistado pela profissão

p. 27 e desenvolvimento de comunidade passa a ser um método de trabalho privativo do Serviço Social, que produziu efeitos tão bons para os interesses norte-americanos e para o sistema, que até a ONU (Organização das Nações Unidas) formula propostas de desenvolvimento de comunidade para os países ditos subdesenvolvidos: é a fórmula mágica que irá salvar esses países do comunismo, isto é, da barbárie

p. 28 O FEIJÃO E O SONHO: O SERVIÇO SOCIAL DESCOBRE A LUTA DE CLASSES

Quem, nos idos de 1960, tinha a idade em torno dos doze anos, morava na periferia das grandes

que, uma vez acordado, traria a prosperidade, a paz, elevando-se o nível de vida do povo e o produto interno bruto. Para despertar o gigante, é necessário industrializar o país a toque de caixa. Se para isso é necessário capital estrangeiro, não tem importância. A meta prioritária do governo passa a ser o homem, não somente o crescimento econômico em si mesmo; assim se passava pelo menos ao nível do discurso janista e assistente social sempre gostou de boas intenções.

p. 31 Neste momento, as "assistentes sociais se propõem a aceitar o desafio de sua participação no novo projeto desenvolvimentista, exigem posições e funções, e avaliam as formas para preparar-se para desempenhá-las a contento". "Propõem-se, através do método de Desenvolvimento de Comunidade a contribuir para o processo de mudança exigido pelo desenvolvimento", enfim, os grandes problemas estruturais terão soluções técnicas. Apenas retomando: o Serviço Social começa sua existência tratando os problemas sociais de forma individual através do atendimento de casos, incorporando depois os métodos de grupo e de comunidade. No começo da década de 60, os assistentes sociais assumem o desenvolvimentismo, e sua atuação, ao tornar-se mais técnica, fundamenta-se na busca de neutralidade, frieza e distanciamento em relação aos problemas tratados e no aprimoramento dos métodos. O assistente social para trabalhar dentro desta perspectiva tinha de ser quimicamente puro, inodoro, incolor e insípido, segundo caracterização feita por Ander-Egg

p. 32 Um fato que, de viés, colaborou para que o Serviço Social latino-americano assim se caracterizasse foi a revolução socialista cubana de

  1. O êxito da experiência cubana mostrou-se um perigo para os regimes latino-americanos. De repente, os Estados Unidos se vêem na contingência de apresentar propostas alternativas para um continente onde a maioria da população era de analfabetos, famintos, culturalmente "atrasados"

e economicamente subdesenvolvidos. Precisavam fazê-lo pois o inimigo havia se implantado em seu próprio quintal. Cuba era um exemplo de que o status quo norte-americano passava por um grande risco. Cuba se transforma em um problema político e a resposta a este problema também deveria ser política, daí a ALIANÇA PARA O PROGRESSO, que, além de oferecer ajuda material concreta às populações, trouxe as idéias desenvolvimentistas. Cabe não esquecer que com o florescimento da indústria em nossos países o Serviço Social de empresa acha um campo fértil para o seu desenvolvimento. Mas o desenvolvimento da profissão em empresas acontece paralelamente ao seu

p. 34 desempenho na área pública institucional, e é até hoje um campo de atuação que mantém uma certa autonomia em relação aos outros, e muitas assistentes sociais até o consideram o patinho feio do Serviço Social.

Ilustração da página 33: Uma assistente social, daquelas antigas, vestida bem formalmente, com saia comprida, coque no cabelo e óculos (enfim, uma verdadeira mocoronga), segurando a sua pasta pela alça, tendo na costa uma chave de dar corda. Legenda: O assistente social tinha que ser quimicamente puro, inodoro, incolor e insipido.

No momento em que parece que foram dadas todas as condições para a elaboração de uma concepção desenvolvimentista do Serviço Social, que os assistentes sociais se instalaram dentro do novo espaço profissional que se abria, a dinâmica do processo social levou a situações que parecem negar esta possibilidade e colocou o Serviço Social tanto na América ispânica, quanto no Brasil em profunda crise existencial, que vai ser resolvida por caminhos diferentes. Vários fatos são significativos para a compreensão desta crise existencial. Alguns internos à profissão, outros alheios a ela. Após algum tempo de prática dentro da perspectiva desenvolvimentista e comunitária duas questões se colocaram para as assistentes sociais:

capitalismo monopolista, imperialismo. Os sociólogos deixaram de acreditar na

p. 37 harmonia e no equilíbrio social e passaram a falar em contradições, luta de classes, conflitos inconciliáveis de interesses. Os assistentes sociais deixaram de falar em pobre, carente, patologia social, desenvolvimento de comunidade e passaram a falar em mudanças de estrutura, trabalhadores, compromisso com a população e revolução. O questionamento quanto à situação política dos países latino-americanos torna-se mais agressivo: os trabalhadores, os sindicatos, as universidades, os profissionais liberais, os trabalhadores rurais, enfim, a sociedade em seu conjunto começa a falar em socialismo, em passagem do poder de uma classe para a outra, passa a questionar o status quo. No bojo destas interrogações, tendo em vista a proposta emergente de uma nova sociedade, moldada em relações não capitalistas de trabalho e de vida, o Serviço Social entra em pânico. "E se vier o socialismo, nós que sempre trabalhamos de braços dados com o sistema, faremos o quê?" Mas então, no Brasil, vem o "milagre" (e o arrocho, e a repressão, e o Ato Institucional nº 5):

p. 38 as coisas tomam um rumo muito diferente do tomado nos demais países da América do Sul. Nestes, a resposta a estas questões deu no que se convencionou chamar de Movimento de Reconceituação do Serviço Social. Isto é, todos os conceitos, crenças, bases teóricas já não mais valiam, era necessário procurar outros. Era necessário criar também outros espaços profissionais. Tudo que as assistentes sociais faziam até este momento estava maculado pelos interesses burgueses. Trabalhar em instituições públicas significava fazer o jogo do sistema, trabalhar em indústria era defender os interesses do patrão perante os operários, distribuir ajuda material era ser paternalista e assistencialista. Enfim, fazer Serviço Social era reproduzir a ideologia burguesa, capitalista e exploradora.

Logo, fazia-se necessário, inclusive, mudar o nome da profissão. O Serviço Social passou a se chamar Trabalho Social e a concepção desenvolvimentista e técnica anterior deu lugar a uma concepção "conscientizadora-revolucionária". O método de trabalho pautava-se obrigatoriamente

p. 39 pelo "materialismo histórico e dialético", as análises informadoras da prática, os textos produzidos nos países latino-americanos traziam sempre a reafirmação de doutrinas "marxistas". Para se chegar ao Serviço Social era preciso, antes de tudo, falar de luta de classes, de contradição, de tese, antítese e síntese, de formas de ver e ler a realidade, de ideologia; enfim, uma certa terminologia marxista incorporou-se ao Serviço Social. É lugar-comum, hoje em dia, falar-se em "método dialético" para o Serviço Social. Obviamente, o grau de crítica e autocrítica mesclado com as novas proposições variou de país para país. Nos países onde o processo social estava mais borbulhante, o movimento de reconceituação foi mais feroz, nos países onde este processo era mais lento, a dinâmica da reconceituação também foi mais lenta. Levando isso em consideração, dá para imaginar como foi este movimento no Brasil onde o processo político era o inverso do que acontecia na Argentina, Chile, Uruguai, Peru, etc. Nesses últimos tinha-se governos democráticos,

p. 40 com todos os substantivos que pode ter uma democracia burguesa (liberdades sindicais, partidárias, de expressão, etc.), no Brasil tínhamos uma ditadura militar. O Movimento de Reconceituação brasileiro foi mais uma adequação aos áureos anos do milagre e a modernização do Serviço Social para as exigências do momento, onde é o Estado quem dirige o processo de modernização da sociedade brasileira. Assim sendo a reconceituação no Brasil se dá assimilando as exigências conjunturais da sociedade brasileira, concentrando-se na tarefa de adequar o Serviço Social às necessidades do Estado e da grande empresa monopolista. A justificativa para sua existência é tornar-se mais eficiente, mais racional e mais técnica.

A "questão social", que se impõe neste momento, nada mais é do que a necessidade de se levar em consideração os interesses da classe operária em formação. A implantação do Serviço Social se dá neste processo histórico, a partir da iniciativa particular

p. 43 de vários grupos da classe dominante, que têm na Igreja Católica seu porta-voz. É claro que não fazia parte das reivindicações dos operários a implantação deste tipo de serviço. Por mais estranho que pareça, são os grupos burgueses que mais vão contribuir para que esta profissão se coloque socialmente. bom, por que foi assim? As condições de trabalho neste país eram as piores possíveis. A jornada diária era sempre calculada de acordo com as necessidades das empresas. Se a fábrica precisasse que seus operários trabalhassem dezesseis horas por dia, trabalhava-se 16 horas por dia. Mulheres, menores de idade (menores de 14 anos inclusive), estavam sujeitos ao mesmo ritmo de trabalho, não tinham direito a férias nem descanso remunerado no fim de semana. Se o operário ficasse doente não tinha auxílio doença. O trabalho do operário e de sua família era somente para comer. Sua vida cultural, educação (primária), saúde e todos os pequenos prazeres cotidianos que a vida pode oferecer ficavam a cargo da filantropia ou da caridade. O trabalhador urbano brasileiro

p. 44

e sua família eram subcidadãos. Começam a surgir, então, movimentos sociais que tinham como objetivo defender o único patrimônio desta população: sua vida. Formam-se as Sociedades de Resistência e os sindicatos que, a princípio, lutarão pela defesa do poder aquisitivo e, logo depois, pela promulgação de uma legislação trabalhista que controlasse um pouco a exploração selvagem a que estavam submetidos os trabalhadores. O Estado (governo) respondeu muito timidamente, fazendo alguns decretos e leis que estavam muito longe de dar o mínimo requerido. A única resposta concreta às greves e movimentos foi a

repressão policial que, apesar de bater, prender, etc., não se mostrou eficiente para acabar com o problema. Temos como saldo, no fim da década de 20, a Lei de Férias (15 dias) e o Código de Menores, que regulamentava a jornada de trabalho das crianças. A reação das empresas com relação a estas pequenas vitórias foi a "preocupação" com o que o operário faria nestes dias de folga, quando este homem comum, que não teve a educação

p. 46 e o refinamento necessários para cultivar o ócio, seria vítima fácil dos "vícios" e da "animalidade". Isto é, o modo de vida capitalista ainda não estava suficientemente dentro da cabeça do homem do povo para que ele pudesse organizar seu curto lazer.

Ilustração da página 45: o operário um bicho! O operário com uma expressão bem animalesca, arrepiado, babando, com garras nas mãos, uma cauda cabeluda de lobo, segurando uma garrafa de cachaça. Legenda: O operário nos dias de folga seria vitima fácil dos "vícios" e da "animalidade".

Era necessário, portanto, que estas medidas sociais fossem complementadas pelo disciplinamento deste curto tempo livre, propiciando-se também equipamentos de lazer, alguma educação formal, a mentalidade de culto ao lar e sua boa organização, quer dizer, tornar o proletariado ajustado à ordem capitalista industrial, produzindo uma certa "racionalidade" em seu comportamento e sua postura frente à sociedade. Daí as empresas começarem a oferecer uma precária assistência médica, as caixas de auxílio, as escolas, as vilas operárias, etc. Para a tarefa de socializar o proletariado no capitalismo, contribuem os empresários e a Igreja Católica, através do seu laicato. São as Ligas das Senhoras Católicas, em São Paulo, e a Associação das Senhoras Brasileiras, no Rio, que vão assumir a educação social dos trabalhadores urbanos brasileiros, dentro de

p. 47 uma perspectiva de assistência preventiva e do apostolado social.

Brasil — décadas de 40 a 50: Questão social — um caso de política