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orgulho e preconceito, Manuais, Projetos, Pesquisas de Português (Gramática - Literatura)

livro literatura Jane austen romance

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2021

Compartilhado em 09/02/2021

alexandra-magalhaes
alexandra-magalhaes 🇵🇹

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Jane Austen
Orgulho e Preconceito
Título original: Pride and Prejudice
Tradução de Maria Francisca Ferreira de Lima
Tradução portuguesa c de P. E. A.
Capa: estúdios P. E. A.
Editor: Francisco Lyon de Castro
Publicações Europa-América, Lda.
Apartado 8
272ó Mem Martins Codex
Portugal
Edição n.o: 151034/ó472
Execução técnica:
Gráfica Europam, Lda.,
Mira-Sintra - Mem Martins
Depósito legal: 9727ó/9ó
ISBN 972-1-04084-3
Orgulho e Preconceito
Orgulho e Preconceito é, sem dúvida, uma das obras em que melhor se pode descobrir a personalidade
literária de Jane Austen.
Com o fino poder de observação que lhe era peculiar, a autora dá-nos um retrato impressionante do que
era o mundo da pequena burguesia inglesa do seu tempo: um mundo dominado pela mesquinhez do
interesse, pelo orgulho e preconceitos de classe.
Esses orgulho e preconceito que, no romance, acabam por ceder o passo a outras razões com bem mais
fundas raízes no coração humano.
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Jane Austen

Orgulho e Preconceito

Título original: Pride and Prejudice Tradução de Maria Francisca Ferreira de Lima Tradução portuguesa c de P. E. A. Capa: estúdios P. E. A. Editor: Francisco Lyon de Castro Publicações Europa-América, Lda. Apartado 8 272ó Mem Martins Codex Portugal Edição n.o: 151034/ó Execução técnica: Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra - Mem Martins Depósito legal: 9727ó/9ó ISBN 972-1-04084-

Orgulho e Preconceito

Orgulho e Preconceito é, sem dúvida, uma das obras em que melhor se pode descobrir a personalidade literária de Jane Austen.

Com o fino poder de observação que lhe era peculiar, a autora dá-nos um retrato impressionante do que era o mundo da pequena burguesia inglesa do seu tempo: um mundo dominado pela mesquinhez do interesse, pelo orgulho e preconceitos de classe.

Esses orgulho e preconceito que, no romance, acabam por ceder o passo a outras razões com bem mais fundas raízes no coração humano.

Capítulo I

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa.

Por muito pouco que se conheçam os sentimentos ou modo de pensar de tal homem ao entrar pela primeira vez numa vizinhança, esta verdade encontra-se de tal modo enraizada nos espíritos das famílias circundantes que ele é considerado como propriedade legítima desta ou daquela de suas filhas.

  • Meu caro Sr. Bennet - disse-lhe sua mulher um dia -, sabe que Netherfield Park foi finalmente alugado?

O Sr. Bennet respondeu-lhe que não sabia.

  • é como lhe digo - tornou ela -; pois a Sr.a Long ainda há pouco aqui esteve e contou-me tudo.

O Sr. Bennet não deu qualquer resposta.

  • Não lhe interessa saber quem o alugou? - exclamou a mulher, impaciente.
  • A senhora pretende participar-mo, e eu não me oponho a ouvi-la.

Como convite, era mais que suficiente.

  • Pois saiba, meu caro, que, pelo que a Sr.a Long me disse, Netherfield foi alugado por um jovem de grande fortuna do Norte de Inglaterra. Chegou na segunda-feira, numa carruagem puxada por quatro cavalos, para visitar o local, e ficou tão encantado que desde logo aceitou as condições do Sr. Morris. Vem ocupar a casa ainda antes do dia de S. Miguel e alguns dos seus criados deverão chegar já no fim da próxima semana.
  • Como se chama ele?
  • Bingley.
  • é casado ou solteiro?
  • Oh! Solteiro, naturalmente, meu caro! Um homem solteiro e de grande fortuna, com rendimentos no valor de quatro ou cinco mil libras anuais. Que maravilhoso acontecimento para as nossas filhas!
  • Como assim? Que têm elas a ver com isso?
  • Meu caro Sr. Bennet - retorquiu sua mulher -, que maçador que o senhor é! Sabe perfeitamente que encaro a possibilidade de ele vir a casar com uma delas.
  • é essa a intenção dele ao vir instalar-se para aqui?
  • De nada nos serviria nem a chegada de vinte deles, uma vez que o senhor se recusa a visitá-los.
  • Pode ter a certeza, minha querida, que, quando eles forem em número de vinte, os visitarei a todos.

O Sr. Bennet era um misto tão extraordinário de petulância, sarcasmo, reserva e capricho que a experiência de vinte e três anos não bastara ainda para a mulher compreender o seu carácter. Por seu lado, a mentalidade dela era bem menos difícil de revelar. Tratava-se de uma mulher de inteligência medíocre, cultura rudimentar e temperamento incerto. Quando irritada, procurava refúgio nos nervos. A principal ocupação da sua vida era casar as filhas e o seu passatempo as visitas e os mexericos.

Capítulo II

O Sr. Bennet contava-se entre os primeiros que foram visitar o Sr. Bingley. Sempre tencionou visitá-lo, embora até ao fim tivesse feito crer à mulher que não iria; e até à noite do próprio dia da visita ela não teve qualquer conhecimento do facto, que só então foi revelado da seguinte maneira. Estando o Sr. Bennet a observar a sua filha segunda a enfeitar um chapéu, inesperadamente disse-lhe:

  • Espero que o Sr. Bingley goste, Lizzy.
  • Não temos qualquer possibilidade de saber o que agrada ou não ao Sr. Bingley - disse a mãe dela amuada -, uma vez que o não podemos visitar.
  • Mas a mãe esquece-se - disse Elizabett - de que nós o encontraremos em reuniões e que a Sr.a Long prometeu apresentar-no-lo.
  • Não tenho nada a certeza de que a Sr.a Long faça tal coisa. Ela própria tem duas sobrinhas. É uma mulher egoísta, hipócrita e não a tenho em grande estima.
  • Nem eu - disse o Sr. Bennet -; e alegra-me saber que a senhora prescinde dos seus serviços.

A Sr.a Bennet não se dignou a dar-lhe qualquer resposta; mas incapaz de se conter, começou a repreender uma das filhas.

  • Acaba-me com essa tosse, Kitty, por amor de Deus! Tem um pouco de compaixão pelos meus nervos. Pões-me fora de mim.
  • Kitty não sabe tossir com discrição - disse seu pai -; não tem controlo na tosse.
  • Não é por divertimento que eu tusso - replicou Kitty, impertinente.
  • Quando é o teu próximo baile, Lizzy? (1)

(1) R. W. Chapman é de opinião que esta pergunta, que no texto se atribui a Kitty, é feita, de facto, pelo Sr. Bennet.

  • De amanhã a quinze dias.
  • Ora, pois é - exclamou sua mãe -, e a Sr.a Long que só regressa na véspera. Assim ser-lhe-á impossível apresentar-no-lo, pois nem ela própria o conhece ainda.
  • Nesse caso, minha querida, a vantagem será sua e poderá apresentar o Sr. Bingley à sua amiga.
  • Impossível, Sr. Bennet, impossível, pois eu própria não tenho qualquer familiaridade com ele. Que arreliador que o senhor é!
  • Aceite o meu louvor por tal circunspecção. Um conhecimento de quinze dias é, na verdade, insuficiente. Nada de concreto se pode saber sobre um homem ao fim desses quinze dias. Mas, se «nós» não arriscarmos, outros arriscarão, e nessa altura a Sr.a Long e as sobrinhas não terão mais que aguardar a sua oportunidade. Porém, como tal gesto seria por ela considerado um acto de bondade, caso a senhora decline prestar-lhe esse serviço, eu próprio me encarregarei dele.

As raparigas olharam, espantadas, para o pai. A Sr.a Bennet apenas disse: «Que disparate!»

  • Qual o significado de exclamação tão enfática? - disse ele exaltado. - Considera um disparate as práticas de apresentação e a importância que se lhes dá? Nisso não estou nada de acordo com a senhora. Qual a tua opinião, Mary? Tu, que és jovem sensata e profunda, que lês bons livros e deles extrais ensinamentos.

Mary quis dizer algo de relevante, mas não sabia como.

  • Enquanto Mary põe em ordem as suas ideias - continuou ele -, voltemos ao Sr. Bingley.
  • Estou farta do Sr. Bingley - exclamou a mulher.
  • é consternado que a ouço dizer tal coisa. Mas porque não me preveniu antes? Se soubesse disso esta manhã, não teria de certeza ido visitá-lo. Já é pouca sorte! Mas, uma vez que a visita está feita, não nos podemos agora esquivar a uma certa familiaridade.

O espanto provocado nas senhoras foi exactamente aquele que ele pretendeu, ultrapassando de longe o da Sr.a Bennet o das filhas, apesar de, passada a primeira efusão de aleoria, ela declarar que dele não esperava outra coisa senão aquilo.

  • Que bonito gesto o seu, Sr. Bennet. Mas eu sabia que acabaria por o convencer. Tinha a certeza de que o seu amor pelas pequenas não o deixaria indiferente perante tal oportunidade. Oh!, que contente que eu estou!, e que bela partida nos pregou, ter ido lá esta manhã, e guardar segredo até este momento.
  • Agora, Kitty, tosse à tua vontade - disse o Sr. Bennet; e, dito isto, abandonou a sala, cansado dos arrebatamentos de sua mulher.
  • Que excelente pai o vosso, minhas filhas - disse ela, quando a porta se fechou. - Não vejo como

constituíam cinco ao todo: o Sr. Bingley, as suas duas irmãs, o marido da mais velha e um outro jovem.

O Sr. Bingley era um homem belo e distinto. De semblante agradável, os seus modos eram delicados e simples. As irmãs eram igualmente bonitas, afectando um ar decididamente elegante. O cunhado, o Sr. Hurst, não passava de um homem vulgar, mas o Sr. Darcy, o amigo, logo chamou sobre si as atenções do salão pela sua alta e elegante estatura, os traços formosos e o porte desenvolto, correndo célere, cinco minutos após a sua entrada, o rumor de que ele possuía rendimentos no valor de dez mil libras anuais. Os cavalheiros classificaram-no como um belo tipo de homem, as senhoras declararam ser ele bem mais formoso que o Sr. Bingley, e ele foi longamente admirado, até os seus modos deixarem transparecer um enfado que muito afectou a sua popularidade. A partir desse momento consideraram-no um orgulhoso e pedante, longe de se mostrar divertido, e nem as suas extensas propriedades no Derbyshire o impediram de ter uma expressão sinistra e desagradável e ser indigno de comparação com o amigo.

O Sr. Bingley em breve tinha feito conversa a todas as principais pessoas na sala. Alegre e animado, dançou todas as danças, lamentou o baile terminar tão cedo e falou em ele próprio realizar um em Netherfield. Tais qualidades, só por si, falavam. E que contraste entre ele e o seu amigo! O Sr. Darcy dançou apenas uma vez com a Sr.a Hurst e outra com a Menina Bingley, recusou ser apresentado a qualquer outra jovem e passou o resto da noite passeando pelo salão, conversando ocasionalmente com um ou outro do seu grupo. O seu caracter estava definido. Era o homem mais orgulhoso e desagradável do mundo, e todos esperavam que ele não mais voltasse ao seu convívio. Entre as pessoas mais inflamadas contra ele contava-se a Sr.a Bennet, cuja antipatia pelo seu comportamento geral se avivara num ressentimento particular por ele ter desdenhado uma das suas filhas.

Elizabeth Bennet, que a escassez de cavalheiros obrigara a permanecer sentada duas danças, teve a oportunidade, numa altura em que o Sr. Darcy se encontrava perto de si, de ouvir a conversa que se seguiu entre ele e o Sr. Bingley, que por momentos abandonara a dança para o vir incitar a juntar-se-lhe:

  • Vem daí, Darcy - disse-lhe -, quero que venhas dançar. Detesto ver-te por aí sozinho. Fazias melhor se viesses dançar.
  • Não contes comigo. Sabes perfeitamente quanto isso me custa, desde que não conheça intimamente o meu par. Aliás, com gente como esta isso ser-me-ia insuportável. As tuas irmãs tem cada uma o seu par e não há outra mulher na sala cuja companhia não se tornasse num suplício para mim.
  • Se fosse a ti, deixava-me de esquisitices - exclamou Bingley. - Por Deus! Palavra de honra que nunca na minha vida encontrei um grupo de raparigas tão agradável como o que aqui temos esta noite, e, como podes ver, algumas delas são invulgarmente bonitas.
  • Tu estás precisamente a dançar com a única rapariga bonita da sala - disse o Sr. Darcy, olhando para a mais velha das irmãs Bennet.
  • Oh!, ela é a criatura mais bela que eu jamais vi! Mas, sentada mesmo atrás de ti, está precisamente uma das suas irmãs, que, além de muito bonita, me parece ser bastante simpática. Deixa que o meu par

te a apresente.

  • Qual dizes? - e, voltando-se, olhou demoradamente para Elizabeth, até que esta, devolvendo-lhe o olhar, o fez desviar o seu, e friamente declarou: - é razoável, mas não suficientemente bonita para me tentar. Aliás, de momento não me sinto na disposição de consolar as jovens que outros desdenharam. Vai tu para junto do teu par e desfruta-lhe os sorrisos, que comigo perdes o teu tempo.

O Sr. Bingley seguiu o conselho do amigo, e o Sr. Darcy afastou-se, deixando uma impressão pouco favorável a seu respeito no íntimo de Elizabeth. Esta, contudo, ao contar a história às amigas, fê-lo com um certo humor, pois, de feitio alegre e brincalhão, tirava partido das situações mais ridículas.

De um modo geral, a noite decorreu agradavelmente para toda a família. A Sr.a Bennet vira com satisfação a sua filha mais velha ser muito apreciada pelo grupo de Netherfield. O Sr. Bingley por duas vezes dançara com ela e as duas senhoras tinham-na rodeado de atenções. Jane sentia-se com isso tão maravilhada como sua mãe, se bem que de um modo mais discreto. Elizabeth partilhava do prazer de Jane. Mary ouvira-se elogiada na presença da Menina Bingley como a rapariga mais completa da vizinhança; e Catherine e Lydia congratulavam-se por não lhes ter faltado par a noite inteira, o que era, aliás, tudo o que até à altura tinham aprendido sobre o essencial num baile. Foi, portanto, em óptima disposição de espírito que tomaram o caminho de regresso a Longbourn, a vila em que viviam e da qual eram os principais habitantes. Foram encontrar o Sr. Bennet ainda a pé. Quando mergulhado na leitura de um livro, perdia a noção do tempo; e naquela ocasião específica ansiava pelo relato de uma noite que tão esplêndidas expectativas suscitara. Esperava, contudo, que os planos arquitectados por sua mulher à volta daquele desconhecido caíssem pela base, mas em breve descobriu que a história a ouvir seria bem diferente.

  • Oh!, meu caro Sr. Bennet - disse a mulher, mal entrou na sala -, passamos uma noite encantadora e o baile foi magnífico. Adorava que o senhor lá tivesse estado. Jane foi tão admirada que nem calcula. Todos falavam nela e o próprio Sr. Bingley a achou muito atraente e dançou com ela duas vezes! Imagine-me só, meu caro; por duas vezes dançou com a nossa Jane! E foi ela a única rapariga na sala a quem ele pediu segunda vez para dançar. Primeiro, convidou a Menina Lucas, o que bastante me contrariou, mas não pareceu muito entusiasmado, como é compreensível, pois ela não entusiasma ninguém. Em contrapartida, ficou logo impressionado com Jane, que na altura também dançava, tratou imediatamente de saber quem ela era, foi-lhe apresentado e pedia-lhe para dançar. A seguir dançou com a Menina King e depois com Maria Lucas, a quinta dança foi de novo para Jane e a sexta para Lizzy, e a Boulanger...
  • Se ele tivesse algum dó por mim - exclamou o marido, impaciente -, não teria dançado nem metade do que dançou! Por amor de Deus; acabe-me de uma vez com a inumeração dos pares dele. Oh!, oxalá ele tivesse torcido um pé logo na primeira dança!
  • Oh!, meu querido - continuava a Sr.a Bennet -, estou positivamente encantada com ele. É tão belo rapaz! E as irmãs são umas pessoas encantadoras. Os seus vestidos eram de uma elegância como eu nunca vi igual. Quer-me parecer que o galão do vestido da Sr.a Hurst...

E, aqui, foi de novo interrompida, pois o Sr. Bennet recusava-se terminantemente a ouvir qualquer descrição sobre os trajos. Viu-se ela, deste modo, obrigada a procurar, no mesmo assunto, outro tema

  • Tens razão; mas só a princípio. Uma vez faladas, tornaram-se bastante agradáveis. A Menina Bingley vem viver com o irmão e governar-lhe a casa, e, ou eu me engano muito, ou vamos ter nela uma vizinha encantadora.

Elizabeth ouviu-a em silêncio, mas não ficou convencida. A atitude delas no baile não correspondia exactamente àquela que seria de esperar de alguém que desejasse agradar. Dotada de um sentido de observação mais vivo e de um temperamento menos dócil do que a irmã, além de um espírito crítico impessoal de mais para se deixar arrastar por simpatias, ela sentia-se pouco disposta a acolhê-las de braços abertos. Eram, de facto, umas senhoras muito delicadas, capazes quer de uma certa vivacidade quando divertidas, quer de se mostrarem agradáveis quando bem o entendiam, mas, no fundo, não passavam de umas orgulhosas e presumidas. Indiscutivelmente bonitas, educadas num dos principais colégios particulares da capital, na posse de uma fortuna de vinte mil libras e no hábito de gastar mais do que o necessário e de se darem com a melhor sociedade, não admirava que se sentissem inclinadas a pensar o melhor de si mesmas, em detrimento dos outros. O facto de pertencerem a uma respeitável família do Norte de Inglaterra ocorria-lhes mais frequentemente à memória do que o de a fortuna de seu irmão e sua própria terem sido adquiridas pelo comércio.

O Sr. Bingley herdara bens no valor de cem mil libras, de seu pai, que tencionara transformar parte em terras, mas não vivera o suficiente para o realizar. O filho comungava da mesma ideia, e por várias vezes escolhera a região, mas, encontrando-se de momento provido de uma boa casa e gozando da liberdade de fazer o que melhor lhe aprouvesse, havia quem, entre os mais familiarizados com a brandura do seu caracter, não duvidasse de que ele acabaria o resto dos seus dias em Netherdield, deixando a aquisição das terras ao cuidado da geração seguinte.

Suas irmãs ansiavam por o ver senhor de propriedades imensas; contudo, embora presentemente ele não passasse de um simples locatário, nem a Menina Bingley se fazia rogada em presidir à sua mesa, nem a Sr.a Hurst, que casara com um homem de sociedade mas sem fortuna, estava menos disposta a, sempre que isso lhe conviesse, considerar como sua a casa do irmão. O Sr. Bingley atingira a maioridade ainda não havia dois anos, quando, por recomendação acidental, se sentiu tentado a visitar a casa de Netherfield. Uma vez aí, mirou-lhe a fachada, percorreu os interiores, agradaram-lhe a situação e as salas principais, satisfizeram-no as vantagens apontadas pelo proprietário, e imediatamente a tomou.

Entre ele e Darcy existia uma sólida amizade, apesar dos feitios diametralmente opostos. Bingley cativava Darcy pela brandura, franqueza e docilidade do seu caracter, se bem que nenhum houvesse que maior contraste oferecesse com o seu e se bem que com o seu nunca ele visse razão para queixa. Na estima de Darcy tinha Bingley uma confiança inabalável e do seu juízo a mais elevada opinião. Em inteligência, Darcy superava-o. Bingley não era de modo algum deficiente, mas Darcy era esperto. Era simultaneamente arrogante, retraído e difícil de contentar, e os seus modos, apesar de delicados, não atraíam. Neste capítulo, o amigo levava-lhe a palma. Bingley, onde quer que aparecesse, tinha a certeza de agradar, enquanto Darcy estava continuamente ofendendo.

O modo como falaram da festa no clube de Meryton era suficientemente característico de cada um. Bingley nunca na vida encontrara pessoas tão agradáveis nem raparigas mais bonitas; todos tinham sido de uma bondade e atenção extremas para com ele, não houvera qualquer espécie de formalidades e

depressa se sentira familiarizado com toda a sala; e, quanto à Menina Bennet, não concebia anjo mais belo. Darcy, pelo contrário, apenas vira um grupo de gente em que a beleza era pouca e a elegância nula, em que por nenhum sentira o mais pequeno interesse e de nenhum recebera quer atenção ou prazer. Quanto à Menina Bennet, reconhecia-lhe a beleza, embora achasse que ela sorria de mais.

A Sr.a Hurst e a irmã, nesse ponto, concordaram com ele, não deixando, no entanto, de a admirar e simpatizar com ela, declarando-a um amor de rapariga e com a qual não se importariam de se dar mais intimamente. Perante tal elogio, o irmão sentiu-se autorizado, no futuro, a pensar nela como bem entendesse.

Capítulo V

A poucos passos de Longbourn vivia uma família da qual os Bennets eram particularmente íntimos. Sir William Lucas fora outrora comerciante em Meryton, onde fizera uma fortuna razoável e se tornara titular graças a um discurso ao rei, feito durante o seu mandato como presidente do município. A distinção impressionara-o, talvez, de mais. Com ela perdera o gosto pelo negócio e pela sua residência na pequena vila de passagem; e, abandonando ambos, transferiu-se com a família para uma casa a uma milha de distância de Meryton, onde poderia entregar-se ao pleno gozo da sua importância, e, liberto dos negócios, ocupar-se unicamente em ser delicado para com as pessoas. Se bem que maravilhado pela sua nova dignidade, não se tornara de modo algum altivo, mas, pelo contrário, desfazia-se em atenções para com todo o mundo. Inofensivo, amistoso e obsequiador por natureza, a sua apresentação em St. James tornara-o cortês.

Lady Lucas, sendo uma boa mulher, não era suficientemente esperta para se tornar numa vizinha preciosa para a Sr.a Bennet. Tinham vários filhos. A mais velha, uma rapariga sensata e inteligente de vinte e sete anos de idade, era a amiga íntima de Elizabeth.

Que as Meninas Lucas e as Meninas Bennet se reunissem para falar sobre o baile, era absolutamente indispensável; e, logo na manhã seguinte, as primeiras apareceram em Longbourn para ouvir e contar.

  • Começaste bem a noite, Charlotte - disse a Sr.a Bennet, para a Menina Lucas, com um autodomínio de pessoa educada. - Foste a primeira que o Sr. Bingley escolheu.
  • Sim, mas tudo indica que lhe agradou mais a segunda.
  • Oh!, estás a falar em Jane, suponho eu, por ele ter dançado duas vezes com ela. De facto, seria esse o sinal de que ela lhe agradava - tenho quase a certeza de que ela lhe agradou, contaram-me algo a esse respeito -, mas não me recordo bem - algo que ver com o Sr. Robinson.
  • A senhora refere-se talvez à conversa que eu própria ouvi entre ele e o Sr. Robinson, não lhe contei já? Que o Sr. Robinson lhe perguntara qual a opinião dele sobre as nossas festas em Meryton, se não achava que havia grande número de raparigas bonitas na sala e qual delas ele considerava a mais bonita? E que a esta última pergunta ele imediatamente respondera: «- Oh!, a mais velha das Meninas Bennet, sem sombra de dúvidas. Não existem duas opiniões sobre tal assunto.»

orgulho sem ser vaidoso. O orgulho diz respeito mais à opinião que temos de nós próprios, enquanto a vaidade ao que pretendemos que os outros pensem de nós.

  • Se eu fosse tão rico como o Sr. Darcy - exclamou o jovem Lucas, que acompanhara as irmãs -, não me importava com o meu orgulho. Havia de ter uma matilha de cães de caça e beber uma garrafa de vinho todos os dias.
  • Nessa altura beberias mais do que devias - disse a Sr.a Bennet -, e, se te visse nesses preparos, arrancava-te a garrafa das mãos.

O rapaz garantiu-lhe que ela não se atreveria; ela continuou, declarando que o faria, e a discussão só acabou com a visita.

Capítulo VI

As senhoras de Longbourn em breve visitaram as de Netherfield, que, na devida forma, lhes retribuíram a visita. A afabilidade da Menina Bennet continuava cativando tanto a Sr.a Hurst como a Menina Bingley, que, embora rotulassem a mãe de insuportável e as irmãs mais novas como indignas de menção, exprimiram, em atenção pelas duas mais velhas, o seu desejo de um conhecimento mais íntimo entre «elas». Jane, naturalmente, ficou extremamente sensibilizada, mas Elizabeth, que as via tratando tudo e todos com a mesma altivez, sua irmã até, decididamente não simpatizava com elas; aliás, a consideração que elas manifestavam por Jane, se de consideração se tratava, só valia enquanto resultante da influencia inspirada pela admiração do irmão. Este, na verdade, não escondia quanto a admirava, como a todos era dado ver, sempre que se encontravam; mas Elizabeth via, igualmente, como a irmã cedia à preferência que no seu espírito alimentara desde o primeiro dia em que o vira, caminhando a passos largos para o amor; contudo, era com prazer que considerava a impossibilidade de tal facto se tornar do domínio público, uma vez que Jane, aliando a uma poderosa força de sentimentos uma serenidade de temperamento e um controlo perfeito nos modos, nunca permitiria qualquer suspeita impertinente. E isto disse-o à Menina Lucas.

  • Talvez seja agradável para uma pessoa - replicou Charlotte - ser capaz de, em tais casos, iludir a opinião pública; contudo, essa mesma reserva pode, por vezes, tornar-se numa desvantagem. Se uma mulher é igualmente hábil em esconder a sua afeição do objecto que a motiva, ela arrisca-se a perder a oportunidade de o cativar, e, nessa altura, de pouco consolo lhe servirá saber os outros na mesma ignorância. Na maioria dos afectos, a gratidão ou a vaidade ocupam um lugar tão eminente que se torna perigoso ignorá-los. Todos podemos «começar» espontaneamente - uma preferência é coisa naturalíssima -, mas poucos são aqueles que enveredam pelo amor sem qualquer espécie de encorajamento. Em nove de cada dez casos, seria preferível uma mulher mostrar «mais» afeição do que aquela que ela realmente sente. Bingley sem dúvida que gosta da tua irmã, mas pode perfeitamente não ir mais além, se ela não lhe der uma ajuda.
  • Mas ela ajuda-o, tanto quanto a sua natureza lho permite. Se eu própria vislumbro os sentimentos que ela nutre por ele, ele é um pateta em não o descobrir também.
  • Lembra-te, Eliza, que ele não conhece tão bem como tu a natureza de Jane.
  • Mas, se uma mulher gosta de um homem e não faz nada para o esconder, ele tem de acabar por o descobrir.
  • Talvez isso acabe por acontecer, se ele estiver junto dela o suficiente. Ora, embora Bingley e Jane se encontrem com frequência, nunca é durante muito tempo; e como, quando se vêem, é sempre no meio de muita gente, torna-se-lhes impossível aproveitar todos os momentos para conversarem um com o outro. Jane deveria, assim, aproveitar ao máximo a escassa meia hora em que ela detém a atenção dele. Quando, finalmente, estiver segura do amor dele, terá todo o vagar para, por sua vez, se apaixonar como ela bem o entender.
  • Tudo isso está muito certo - replicou Elizabeth - para aqueles casos em que o que prevalece é o desejo de bem casar; e, se um dia me resolver a apanhar um marido rico, ou simplesmente um marido, creio bem que adoptarei o teu sistema. Mas não é este o caso de Jane; ela não persegue um objectivo. No ponto em que as coisas estão, ela não pode sequer estar certa da natureza dos seus próprios sentimentos, quanto mais da sua sensatez. Conheceu-o apenas há quinze dias. Dançou duas vezes com ele em Meryton, viu-o uma manhã em casa dele, e desde aí jantou quatro vezes na sua companhia. Como podes ver, não é o suficiente para ela se familiarizar com a maneira de ser dele.
  • Claro que não, do modo como tu apresentes as coisas. Se ela se tivesse limitado a «jantar« com ele, talvez nada tivesse adiantado sobre ele para além do seu apetite; mas não te podes esquecer que passaram quatro serões juntos - e quatro serões ajudam muito.
  • Sim, esses quatro serões deram-lhes a possibilidade de se certificarem que ambos gostavam mais do ving-un que do jogo do comércio; mas com respeito a qualquer outra característica essencial, não acredito que lhes tenha servido de muito.
  • Bom - disse Charlotte -, é com todo o coração que desejo um bom êxito a jane; e, se ela se casasse com ele amanhã, eu diria que as probabilidades de ser feliz seriam tantas quantas aquelas que se lhe ofereceriam após ela ter passado dose meses a estudar o carácter dele. A felicidade no casamento é uma questão de sorte. Por mais profundo que seja o conhecimento mútuo ou identidade entre as partes interessadas antes do enlace, em nada contribui para a felicidade. Há sempre, depois, uma disparidade de feitios suficiente para lhes assegurar a cada um a sua dose de mortificação; e, sendo assim, quanto menos se conhecerem os defeitos daquele com quem se vai passar o resto da vida, tanto melhor será.
  • Tu divertes-me, Charlotte, mas nada disso lógico. Tu própria reconheces á sua impraticabilidade e que no teu caso nunca agirias assim.

Ocupada em observar as atenções do Sr. Bingley para com sua irmã, Elizabeth estava longe de suspeitar que ela própria se tornara num objecto de certo interesse aos olhos do amigo. O Sr. Darcy, a princípio, fora quase com relutância que lhe admitira uma certa beleza; no baile olhara para ela sem admiração e na vez seguinte olhou-a apenas para a criticar. Porém, ainda mal ele se certificara a si e aos amigos da quase inexistência de um traço bonito naquela cara, quando começou a achá-la invulgarmente inteligente pela bonita expressão dos seus olhos pretos. A esta descoberta sucederam-se outras igualmente desconcertantes. Embora de um olho crítico tivesse detectado mais de uma falha de

Mary não tinha nem talento nem gosto; e, embora a vaidade lhe tivesse dado aplicação, emprestara-lhe também um tal ar de superioridade e afectação nos modos que por si só prejudicariam um grau de perfeição mais elevado que o que ela atingira; Elizabeth, que não tocava tanto como a irmã, prendera muito mais a atenção. Mary, após um longo concerto, e como paga de todo o elogio e gratidão, atacou alegremente árias escocesas e irlandesas, a pedido das irmãs mais novas, que, com algumas das Meninas Lucas e assistidas por dois ou três oficiais, formaram um pequeno grupo de dança numa das extremidades do salão.

Perto deles encontrava-se o Sr. Darcy, criticando-os intimamente por tal modo de passar a noite, em detrimento de toda e qualquer espécie de conversa; e tão embrenhado estava nos seus pensamentos que não deu pela presença junto de si de Sir William Lucas senão quando este lhee disse:

  • Que encantador divertimento este para os jovens, Sr. Darcy! Não há nada como a dança, no fundo; considero-a até um dos principais requintes das sociedades cultas.
  • Perfeitamente de acordo, meu senhor; e tem também a vantagem de estar em voga entre as sociedades menos cultas do mundo. Qualquer selvagem sabe dançar.

Sir William apenas sorriu:

  • O seu amigo dança maravilhosamente - continuou ele após uma pausa, ao ver Bingley juntar-se ao grupo -; e não duvido de que até o senhor seja um adepto de tal arte, Sr. Darcy.
  • Viu-me dançar em Meryton, creio eu.
  • Sim, de facto, e não foi sem um certo prazer que o fiz. Dança com frequência em St. James?
  • Nunca, meu senhor.
  • Não acha que seria um acto lisonjeador para com tal local?
  • É esse um lisonjeio que, sempre que posso, evito fazer a um local, seja ele qual for.
  • Tem uma casa na capital, segundo deduzi?

O Sr. Darcy curvou-se em sinal de assentimento.

  • Tive em tempos a intenção de me fixar na capital, também, pois tenho uma predilecção pela alta sociedade; mas não tinha a certeza que Lady Lucas se desse bem com os ares de Londres.

Fez uma pausa, na esperança de uma resposta, mas o seu companheiro não estava disposto a dar-lha; e, como nesse momento Elizabeth passava por eles, ocorreu-lhe de súbito a ideia de um gesto deveras galanteador, e chamou-a.

  • Querida Menina Eliza, porque não dança? Sr. Darcy, permita-me que lhe apresente esta jovem senhora como um par desejável. Não se recusará a dançar, creio eu, perante tanta beleza. - E, pegando

na mão dela, deu-a ao Sr. Darcy, que, apesar de extremamente surpreendido, fez menção de lhe pegar, quando Elizabeth de pronto a retirou e, numa certa agitação, disse para Sir William:

  • Por Deus, meu caro senhor, não tenho qualquer intenção de dançar. Peço-lhe que não pense que passei por aqui apenas em busca de um par.

O Sr. Darcy, compenetrado e correcto, pediu-lhe que lhe desse a honra de dançar, mas em vão. Elizabeth estava decidida, e nem Sir William a conseguiu persuadir do contrário.

-Tem uma maneira tão bonita de dançar, Menina eliza, que é cruel da sua parte negar-me a felicidade de a apreciar; e, embora este cavalheiro, de um modo geral, despreze tal divertimento, tenho a certeza de que não se oporá a entreter-nos durante uma escassa meia hora.

  • O Sr. Darcy é de uma delicadeza sem limites - disse Elizabeth, sorrindo.
  • é-o, de facto, mas, tendo em vista o incentivo, querida Menina Eliza, não nos podemos admirar da sua condescendência; pois que teria ele a dizer sobre tal par?

Elizabeth deitou um olhar malicioso e afastou-se. A sua resistência não feriu o cavalheiro; estavas ele precisamente a pensar nela, quando foi abordado pela Menina Bingley.

  • Penso adivinhar qual o assunto de meditação tão profunda.
  • Creio bem que não.
  • Estava a pensar que insuportável não seria ter de passar mais de uma noite assim... com tal gente; e, na verdade, estou plenamente de acordo consigo. Nunca me senti tão aborrecida! A insipidez, e não obstante a algazarra: a nulidade, e não obstante a presunção de toda esta gente! O que eu não daria para o ouvir a si censurá-los.
  • Está redondamente enganada, asseguro-lho. Pensava em coisas bem mais agradáveis. Meditava, por exemplo, no imenso prazer que um par de lindos olhos na cara de uma mulher bonita podem conceder.

A Menina Bingley, imediatamente fixando os olhos na cara dele, desejou saber a que senhora se devia a honra de lhe inspirar tais reflexões. O Sr, Darcy, intrépido, replicou:

  • A Menina Elizabeth Bennet,
  • A Menina Elizabeth Bennet! - repetiu a Menina Bingley.
  • Estou deveras espantada. Desde quando ocupa ela o lugar de favorita? E, diga-me, quando o devo felicitar?
  • Era exactamente a pergunta que esperava que me fizesse. A imaginação de uma senhora é de uma rapidez fantástica; é um instante enquanto salta de admiração para amor, e de amor para matrimónio. Sabia que faria a gracinha de me felicitar.

pois na manhã seguinte ele partiria para Londres.

  • Estou deveras surpreendida, meu caro - disse a Sr.a Bennet -, pela prontidão com que o senhor classifica de tolas as nossas filhas. Se eu desejasse criticar os filhos de alguém, não escolheria decerto os meus.
  • Se as minhas filhas são tolas, espero poder dar sempre por isso.
  • Sim, mas acontece que elas até são todas muito espertas.
  • É esse o único ponto de que me gabo de discordar de si. Sempre diligenciei por uma paridade de opiniões entre os dois, mas devo diferir de si o bastante para considerar as nossas duas filhas mais novas como invulgarmente imbecis.
  • Meu caro Sr. Bennet, o senhor não pode esperar que raparigas como elas tenham o bom senso dos seus pais. Quando atingirem a nossa idade, creio bem que pensarão tanto em oficiais como nós hoje em dia o fazemos. Recordo-me perfeitamente do tempo em que também eu estremecia perante um belo uniforme... e, na verdade, ainda hoje os admiro; e, se um jovem e brilhante coronel, com rendimentos superiores a cinco ou seis mil libras, se interessasse por alguma das minhas filhas, não lhe diria que não; aliás, rio outro dia, em casa de Sir William, achei o coronel Forster muito elegante no seu uniforme.
  • Mãezinha - exclamou Lydia -, a tia contou-nos que o coronel Forster e o capitão Carter já não visitam com tanta frequência A Menina Watson como a princípio o faziam; ultimamente têm-nos visto na biblioteca Clark.

A Sr.a Bennet foi impedida de responder pela entrada de um criado com um bilhetinho para a Menina Bennet, provinha de Netherfield e o criado aguardava uma resposta. Os olhos da Sr.a Bennet brilharam de prazer, e, ansiosa, implorava, enquanto a filha lia:

  • Então, Jane, de quem é? De que trata? Que diz ele? Então, Jane, despacha-te e conta-nos lá; despacha-te meu amor.
  • É da Menina Bingley - disse Jane, e passou a lê-lo em voz alta:

Minha querida amiga,

Se a sua compaixão não a trouxer a jantar comigo e com Louisa, correremos o risco de nos detestarmos o resto de nossas vidas, pois um tête-à-tête de um dia inteiro entre duas mulheres nunca acaba sem uma discussão. Venha logo que puder. O meu irmão e os outros senhores jantam com os oficiais. Sua dedicada, CAROLINE BINGLEY.

  • Com os oficiais! - exclamou Lydia. - Espanta-me que a tia nada nos tenha dito.
  • Jantam fora - Disse a Sr.a Bennet -, que pouca sorte.
  • Posso levar a carruagem? - disse Jane.

-Não, minha querida, é melhor ires a cavalo, pois parece-me bem que vai chover; e nessa altura terás de passar lá a noite.

  • Seria esse um bom ardil - disse Elizabeth -, se a mãe tivesse a certeza de que elas não se oferecem para a mandar pôr a casa.
  • Oh!, mas acontece que os cavalheiros precisam da carruagem do Sr. Bingley para irem a Meryton e os Hurst não têm cavalos próprios.
  • Eu preferiria ir de carruagem.
  • Mas, minha querida, estou certa de que o teu pai não poderá dispensar os cavalos. Eles são precisos na fazenda, não é verdade, Sr. Bennet?
  • São mais as vezes que preciso deles do que as vezes que os tenho ao meu dispor.
  • Mas, se exactamente hoje dispuser deles - disse Elizabeth -, o pai irá ao encontro dos desejos da mãe.

E assim ela acabou por conseguir do pai a confirmação de que os cavalos não estavam livres. Jane viu-se deste modo obrigada a ir a cavalo, e sua mãe acompanhou-a à porta com muitos e animados prognósticos de um mau tempo. As suas esperanças foram realizadas, e ainda não havia muito que Jane os deixara, quando desabou uma chuva torrencial. As irmãs ficaram um tanto preocupadas, mas a mãe regozijava. A chuva continuou pela noite dentro, sem parar; decerto que Jane não poderia regressar.

  • Foi uma óptima ideia, a que eu tive, não?! - disse a Sr.a Bennet mais de uma vez, como se o facto de chover só a ela se devesse. Só na manhã seguinte, contudo, ela se inteirou do êxito completo do seu estratagema. Terminavam o seu pequeno-almoço quando um criado de Netherfield chegou com o seguinte bilhetinho para Elizabeth:

Minha querida Lizzy,

Não me sinto nada bem esta manhã, o que, suponho eu, se deve atribuir à molha que ontem apanhei. As minhas bondosas amigas não querem ouvir-me falar em regressar a casa senão quando me sentir completamente restabelecida. Insistem também para que o Sr. Jones me examine - por isso, não se assustem se ouvirem dizer que ele foi chamado por minha causa -, e, à parte da garganta inflamada e uma dor de cabeça, nada mais há que ofereça motivos de preocupação. A tua, etc.

  • Então, minha querida - disse o Sr. Bennet, quando Elizabeth terminou a leitura do bilhete -; Se a sua filha tombasse gravemente doente, ou morresse até, serviria de consolação saber que tudo fora em perseguição do Sr. Bingley, e sob as suas ordens.
  • Oh! Não tenho qualquer receio de que ela morra. Não se morre de pequeninas e insignificantes constipações. Além disso, dispensar-lhe-ão todos os cuidados. Desde que ela por lá fique, está tudo