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ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN E A ..., Exercícios de Literatura

Ser da Mulher nas obras: Orgulho e preconceito, de Jane Austen e A paixão ... No primeiro capítulo, tem-se a apresentação de uma verdade, que se.

Tipologia: Exercícios

2023

Compartilhado em 16/01/2023

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Leila_89 🇵🇹

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS
PRÓ
-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
MESTRADO EM LETRAS
LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA
MÁRCIA GRACIANO MADUREIRA INÁCIO
DA IDEALIZAÇÃO À (DES)SUBSTANCIALIZAÇÃO
DO SER DA MULHER NAS OBRAS: ORGULHO E PRECONCEITO, DE
JANE AUSTEN E A PAIXÃO SEGUNDO G. H., DE CLARICE
LISPECTOR
Goiânia
2014
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Baixe ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN E A ... e outras Exercícios em PDF para Literatura, somente na Docsity!

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

MESTRADO EM LETRAS – LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA

MÁRCIA GRACIANO MADUREIRA INÁCIO

DA IDEALIZAÇÃO À (DES)SUBSTANCIALIZAÇÃO

DO SER DA MULHER NAS OBRAS: ORGULHO E PRECONCEITO, DE

JANE AUSTEN E A PAIXÃO SEGUNDO G. H., DE CLARICE

LISPECTOR

Goiânia 2014

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

MESTRADO EM LETRAS – LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA

MÁRCIA GRACIANO MADUREIRA INÁCIO

DA IDEALIZAÇÃO À (DES)SUBSTANCIALIZAÇÃO

DO SER DA MULHER NAS OBRAS: ORGULHO E PRECONCEITO, DE

JANE AUSTEN , E A PAIXÃO SEGUNDO G. H., DE CLARICE

LISPECTOR

Dissertação apresentada à Banca de Defesa do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu - Mestrado em Letras: Literatura e Crítica Literária – da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC Goiás, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Aparecida Rodrigues.

Goiânia 2014

DA IDEALIZAÇÃO À (DES) SUBSTANCIALIZAÇÃO

DO SER DA MULHER NAS OBRAS: ORGULHO E PRECONCEITO, DE

JANE AUSTEN E A PAIXÃO SEGUNDO G. H. , DE CLARICE

LISPECTOR.

COMISSÃO JULGADORA

DISSERTAÇÃO PARA A OBTENÇÃO DO GRAU EM MESTRE EM LITERATURA

___________________________________________________

Profa. Dra. Maria Aparecida Rodrigues (Orientadora) PUC – GOIAS


Prof. Dr. José Alcides Ribeiro USP


Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima PUC - GOIÁS


Prof. Dr. Divino José Pinto PUC - GOIÁS

GOIÂNIA – GO

A alvura de sua tez fresca e pura escurecia o mais fino jaspe. Nem os raios do sol, nem o exercício acenderam uma rosa mesmo pálida em sua face, cândida como a pétala do jasmim. A seiva dessa mocidade, o viço dessa alma, não se expandia no rubor da cútis, mas no olhar ardente e esplêndido dos grandes olhos negros, e no sorriso mimoso dos lábios, que eram um primor da natureza. JOSÉ DE ALENCAR

AGRADECIMENTOS

A Deus, o pastor que nos guia, a água que nos refrigera, e o amor que nos motiva.

À Professora Maria Aparecida Rodrigues, cuja paixão para ensinar, entendimento literário e instigação para a minha escrita genuína, fez com que eu pudesse acreditar-me capaz.

Aos professores do mestrado que, com competência e dedicação, mostraram o universo da linguagem literária, e contribuíram na construção do conteúdo do trabalho efetuado, em especial, à professora Maria de Fátima, responsável por incentivar-me a fazer o mestrado, pois sua paixão pela poesia fizera com que em mim despertasse a paixão pela palavra.

À minha querida professora Waldevira, por sua dedicação ao me auxiliar em minhas dificuldades primárias.

Aos meus colegas de mestrado, companheiros nos desabafos e frustrações sofridas.

Ao escritor José de Alencar, que estando vivo por meio de suas obras, perpetuou seu talento e primor na escrita. Um escritor que com tamanha sensibilidade fez com que diversos leitores se aventurassem na arte de escrever. E, por ser apaixonada por suas obras, principalmente “Sonhos d’Ouro”, é que tive o sonho de escrever e me fiz enveredar pelos caminhos do mestrado.

À minha mãezinha querida, amor de minha vida, inspiração para minhas ideias, cuja inteligência e sensibilidade tornaram-se motivadores para minhas reflexões sobre a vida.

E, em lágrimas de saudade, agradeço a meu pai, que não pode ver a conclusão de meu sonho, pois agora dorme no Senhor. A ele, que sempre pendurava em suas paredes a vitória acadêmica de seus filhos, meu amor e reconhecimento.

A meu esposo querido e amado que, com palavras de incentivo, por acreditar na minha capacidade, ajudou-me, de todas as formas, a realizar esse sonho. A meus filhos, Gabriel e Vanessa, amores de minha vida, motivos de meus esforços e alegrias.

Goiânia 2014

INÁCIO, Márcia Graciano Madureira. Da Idealização à (Des)Substancialização do Ser da Mulher nas obras: Orgulho e preconceito, de Jane Austen e A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector (Mestrado Em Letras – Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2013).

ABSTRACT:

This works aims to study two major novels: Pride and Prejudice by Jane Austen and The Passion According to GH , by Clarice Lispector, highlighting the construction and deconstruction of the female figure in literature. In Pride and Prejudice, it is noted that the figure of the woman is constructed from a romantic vision. The female figure appears as a discourse of the other, due to the idealization of a society based on the control of men over women. The possessive relationships within the family and society are derived from religion and the patriarchal model, legitimizing vehicles that contributed to the formation of female identity in the eighteenth century. The female figure, conscious of its social role, discusses, through narrative, issues related to marriage and functions aimed at women, questioning the social rigidities that denies female subjectivity. In The Passion According to GH, a modern view of language, with traces of postmodernism will observe if -. Finally, we intend to establish a dialogue between the two novels, seeking parallels that prove that the woman, built in Pride and Prejudice, undergoes a process of deconstruction, set in GH character, the work of Clarice Lispector. This is achieved through a discursive deconstruction and (un) process substantiation of female character who, by becoming aware of the social conditioning about their identity, goes to deconstruct. The strong presence of inner monologue provides the narration to unleash the flow of consciousness, in which the character is being deconstructed and loses his human form, in the pursuit of understanding of his own existence.

Key-Words: Woman. Identity. Deconstruction. Construction. Language.

SUMÁRIO

  • CONSIDERAÇÕES INICIAIS
  • I. A ESTÉTICA ROMÂNTICA E A COMPOSIÇÃO DA FIGURA FEMININA......
  • 1.1 A Visão Romântica e a Criação Artística
  • 1.2 O Romantismo Social em Orgulho e Preconceito
  • 1.3 O Discurso do Outro na Configuração do Ser-Mulher
  • 1.1. As Relações Possessivas: a moral doméstica e o casamento
    • romântica 1.4 A Religião e a Sublimação: o amor como paradigma da sensibilidade
  • II. O FIO NARRATIVO EM ORGULHO E PRECONCEITO
  • 2.1 A Narrativa Linear em Orgulho e Preconceito
  • 2.2 Orgulho e Preconceito e Nuances do Romance Epistolar
  • 2.3 O Aspecto Descritivo das Personagens..........................................................
  • 2.4 O Discurso Dissertativo na Narrativa
  • III. A CONTEMPORANEIDADE E A (DES)SUBSTANCIALIZAÇÃO DA MULHER
  • 3.1 A Paixão Segundo G. H e suas Características Contemporâneas
  • 3.2 Metaficção: uma narrativa surpreendente em A paixão segundo G.H.
  • 3.3 O Outro e a Formação da Figura Feminina Contemporânea
  • 3.4 A (Des)substancialização do Ser-Mulher em A Paixão Segundo G. H
  • 3.4.1 A Voz Feminina e a Reflexão sobre o ser.....................................................
  • 3.4.2 O Fluxo da Consciência Feminina em G. H.
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • REFERÊNCIAS

vitoriana? Aspectos relevantes demonstram, na ironia utilizada pela narradora, uma renúncia ou, até mesmo, denúncia dos valores impostos à mulher. De modo dessemelhante, seria a narrativa clarisceana, em A paixão segundo G.H., a amostragem da consciência feminina de sua própria situação degradante num mundo feito pelo poder dado ao masculino? Ou seria um questionar-se enquanto Ser existente, envolto entre , com outros e quase nunca junto? Este trabalho tenta responder a esses questionamentos via obra de arte, sugerindo uma abordagem crítica que integra fenomenologia e hermenêutica. A primeira permite reconhecer as obras como fenômeno estético e, ao mesmo tempo, humano. A segunda possibilita, ao crítico, a leitura interpretativa que aproxima arte e humanidade. Da hermenêutica, vale considerar o pensamento de Hans Georg Gadamer (2002) afirma que, na interpretação de uma obra do passado, existe a possibilidade de emergir um novo significado para o texto, dependendo da posição histórica do leitor e da sua capacidade de dialogar com o texto. O propósito é demonstrar que “quando a obra passa de um contexto histórico para outro, novos significados podem ser dela extraídos” (EAGLETON, 1997, p. 98). Isto se torna possível, segundo Gadamer (2002), por meio do cruzamento dos horizontes de expectativa da obra com os do leitor, no momento da leitura e de acordo com sua posição histórica e suas experiências anteriores. Dessa forma, o leitor conquista, aos poucos, seu papel como produtor de sentidos. Tais assertivas reafirmam a ideia do hermeneuta de que “a linguagem é o jogo em que todos participamos” (Idem, p. 283). Assim concebida, a leitura move-se do discurso à diegese , não necessariamente nessa ordem. Este estudo divide-se em dois momentos: O primeiro tratará da figura feminina idealizada e, a segunda, da figura feminina (des)substancializada. Assim, no primeiro momento tratar-se-á dos seguintes tópicos: “A Estética Romântica e A Composição da Figura Feminina” e “O Fio Narrativo em Orgulho e Preconceito ”. Em “A Estética Romântica e A composição da figura feminina” estudar-se-á: “A Visão Romântica e a Criação Artística”; “O Romantismo Social em Orgulho e Preconceito ”; “O Discurso do Outro na Configuração do Ser-Mulher”; “As relações Possessivas: a moral doméstica e o casamento”. Em “O Fio Narrativo em Orgulho e Preconceito” estudar-se-á : “A Narrativa Linear em Orgulho e Preconceito ”; “ Orgulho e Preconceito e Nuances do Romance Epistolar”; “O Discurso do Outro na Configuração do Ser- Mulher”.

As teorias de suporte para a composição crítica deste primeiro momento serão buscadas nos seguintes autores: Guinsburg em Romantismo (2011) em que se encontram os artigos de Benedito Nunes com enfoque em “A Visão Romântica” (2011); Otto Maria Carpeaux, discutindo a “Prosa e Ficção do Romantismo” (2011) e Gerd Bornheim, em “Filosofia do Romantismo” com ênfase em, Fichte, Schleiermarcher, dentre outros. Serão estudados, também, os seguintes livros: Romantismo de Citelli (2011); A Minha História das Mulheres, de Michelle Perrot (2008); A História das Mulheres do Brasil, de Mary Del Fiori em (1997) ; Estio do Tempo, de Pedro Duarte (2011). No segundo momento, tratar-se-á sobre: “A Contemporaneidade e a (Des)Substancialização do Ser-Mulher”, que será subdividido nos seguintes tópicos: A paixão segundo G.H. e suas características contemporâneas”; “A Metaficção: uma narrativa surpreendente em A paixão segundo G.H .”; “A Voz Feminina e a Reflexão Sobre o Ser”; “O outro e a formação da Figura Feminina contemporânea”; “O Fluxo da Consciência feminina na busca da identidade”; “A Existência e a (Des)substancialização do Ser-Mulher, em A paixão segundo G. H”. Servirão de aporte teórico para a composição crítica desta parte os seguintes autores: Alan Flávio Viola com Crítica Literária e Contemporânea (2013); Eagleton, As ilusões do Pós-Modernismo (2011); Antoine Compagnon, Os cinco paradoxos da modernidade (2011); Sartre, O Ser em si (2011); Steven Connor em Cultura Pós- Moderna (1993), dentre outros. A metodologia da pesquisa desenvolver-se-á por meio do registro de paralelos de vida da figura feminina encontrados nas obras Orgulho e preconceito, de Jane Austen e A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Nos encontros dos paradigmas que envolvem a mulher, observar-se-á que a importância dessas narrativas não se limita apenas ao valor estético, mas também na ação de perquirir a interioridade das personagens, o valor sociocultural que as reveste e a religiosidade que as delimita e as forma. A pesquisa procurará desvelar que em Orgulho e preconceito a mulher é construída sob o olhar do outro. Já em A paixão segundo G. H , a personagem reconstrói-se na desconstrução, substancia-se na (des)substancialização, e organiza-se na desorganização de si mesma, sob seu próprio olhar despertada pelo olhar do outro. Esta pesquisa procurará mostrar o paradigma que se inicia na idealização e

I. A ESTÉTICA ROMÂNTICA E A COMPOSIÇÃO DA FIGURA FEMININA

Fico impressionado [...] com a paciência que têm as jovens para se tornarem tão prendadas como são todas. JANE AUSTEN

A composição da figura feminina na estética romântica se dá, a partir da idealização da mulher, inserida no contexto patriarcal, uma mulher que exerce sua subjetividade frente à família e à sociedade. O Romantismo surge com uma nova estética e uma nova visão sobre a arte. Uma arte produtora da liberdade de criação, do rompimento com os padrões clássicos e de uma nova visão do artista (GUINSBURG, 2011 p. 279). Na análise do romance Orgulho e preconceito, percebe-se que a composição da figura feminina, manifesta-se por meio da herança cultural, e também da influência da Igreja sobre a sociedade. Parte do ideário da figura feminina no romance está refletida no trecho a seguir:

(^1) ‘Todas as jovens damas refinadas! Meu caro Charles, o que você quer dizer?’ Sim, todas elas, eu acho. Todas elas pintam mesas, revestem telas e tecem bolsas. Mal conheço alguém que não faça tudo isso e estou certo de que nunca ouvi falar de uma jovem dama pela primeira vez, sem ser informado de que ela era muito prendada’ (AUSTEN, 2011, p. 26).

A estética romântica, ao delinear a representatividade feminina, mostra a idealização da sociedade em relação à figura da mulher. A sociedade compõe a imagem feminina, e com isso acaba por delimitar a imaginação artística. O Romantismo usa a imagem da mulher na literatura, de maneira a desvelar a alma feminina, o trecho a seguir mostra a idealização dessa mulher: ‘Oh! Ela é a mais bela criatura na qual já pus meus olhos! [...]’ (AUSTEN, 2011, p. 10). Essa maneira romântica de referir-se à figura feminina é própria do movimento romântico. Este trabalho dissertativo pretende instigar uma reflexão na tentativa de compreender como se deu a construção do ser feminino no romance Orgulho e preconceito. Os fatores relativos à figura feminina ter-se-á a forte presença da herança cultural que condiciona o comportamento da mulher. A cultura ocidental,

(^1) A aspa única de algumas citações é referente ao fato de que o texto original possui aspas nos diálogos.

inserida no contexto patriarcal, define os papéis sociais da comunidade, e a figura feminina exerce uma função peculiar nessa visão, pois, no lar, a mulher representa a figura da mãe e da esposa. No trecho a seguir, percebe-se como a filosofia do matrimônio tende a influenciar o objetivo de vida da mulher.

‘Oh! Solteiro, meu querido, esteja certo! Um homem solteiro de grande fortuna, quatro ou cinco mil por ano. Que grande coisa para nossas filhas!’ ‘Como assim? De que maneira isso as afeta?’ ‘Meu caro Sr. Bennet’ replicou sua esposa, ‘como pode ser tão cansativo! Você deve saber que estou pensando em que uma delas o despose’ (AUSTEN, 2011, p.5 - 6)

Segundo pode-se observar em Orgulho e preconceito uma mulher tem, perante a sociedade, um dever santificado, que envolve o bem-estar da família e a obrigação religiosa. Cabe à mulher a responsabilidade de dar filhos a seu marido e conservá-los em uma vida digna e saudável. A Igreja tem um papel importante na construção dessa mulher santificada destituída de defeitos ou deslizes morais. A Igreja representa o poder legitimador que produz a consciência do ser-mulher. O romance Orgulho e preconceito possui, em sua composição textual, indícios dessa mulher construída sob o olhar do outro e esse outro representado pela sociedade e pela Igreja. A narrativa reafirma o contexto patriarcal que coloca o homem como personalidade de destaque responsável pela família. O pai, figura importante neste sistema, é o detentor do destino de todos os membros, principalmente da figura feminina. O patriarca, representando o benfeitor e o protetor da mulher, é revestido de autoridade legal capaz de decidir o futuro de todos. Observar-se-ão alguns indícios do referido sistema no capítulo sobre “O Discurso do Outro na Configuração do Ser-Mulher”. No item abaixo, estudar-se-á a Visão Romântica e a Criação Artística como linguagens que possibilitam uma melhor compreensão da construção do ser-mulher no romance. Em Orgulho e preconceito , a figura feminina é um ser imbuído de subjetividade, individualidade e afetividade representado pela personagem romântica Elizabeth Bennet. Gabriel Chalita (2011), em Vivendo a Filosofia, fala sobre as características das personagens românticas:

[...] são figuras portadoras de ideais, revolucionárias, defensoras e contrárias

Você também pode chamar definitivamente de impertinência. Era muito pouco menos do que isso. O fato é você estava farto de civilidade, de deferência, de oficiosa atenção. Você estava desgostoso com as mulheres que estavam sempre falando, e parecendo, e pensando em sua aprovação, apenas. Eu despertei e lhe interessei porque sou muito diferente delas. Tivesse você não sido realmente amável e teria me odiado por isso, mas, apesar dos esforços que você empreendeu para disfarçar, seus sentimentos sempre foram nobres e justos; e, em seu coração, você desprezou por completo as pessoas que tão assiduamente lhe cortejavam. Pronto – eu lhe poupei do problema de explicar isso, e realmente, com tudo considerado, começo a julgar perfeitamente razoável. Para estar certo, você tão sabia nada de verdadeiramente bom em mim – mas ninguém pensa nisso quando se apaixona (AUSTEN, 2011, p.224).

Na busca do Eu e de respostas para a formação desse Eu, os românticos valorizaram a subjetividade e, deste modo, uma nova forma de ver, viver, e existir era dialogada e questionada. O ser era agora decomposto de interioridades, exterioridades, religiosidade e magia. Um ser que, na tentativa de compreender a existência, busca, na arte, respostas concretas para o abstrato (BORNHEIM, 2011 p. 90). O Problema da subjetividade e da possibilidade de comunicação entre consciências foi uma das discussões propostas por Fichte. Ele propõe o entendimento de que a liberdade de um não é limitadora da liberdade do outro, afirmando que o problema da relação de liberdade está mais voltada para um problema de interioridades e não de exterioridades. O Eu puro é caracterizado por Fichte como uma realidade a-histórica e supra-individual (BORNHEIM, 2011 p. 90). Fichte sublinhava as contradições da filosofia, quando pensava o ser de tudo o que é, a partir da determinação recíproca entre sujeito e objeto, eu e não-eu. Pode-se, ao analisar o romance, confrontar a mulher representando “o Eu” e a sociedade representando o “não-Eu”. Segundo Bornheim, é na exposição de sua preocupação com os problemas morais, que Fichte constrói uma teoria de costumes e uma filosofia do direito. O eu individual é o eixo, e como primeiro passo, ele afirma a realidade do outro, do tu. “A consciência do eu individual, pessoal, implica e afirma a ação da consciência do outro, do eu alheio” (BONHEIM, 2011, p. 90). Essa afirmação pode estar contida, de maneira explícita e implicita na expressão da personagem ‘[...] Há uma teimosia em mim que não suporta ser assustada pela vontade dos outros. Minha coragem sempre se ergue a cada tentativa de me intimidar’ (AUSTEN, 2011, p. 107). Como se vê, o trecho transcrito do romance Orgulho e preconceito revela a subjetividade da personagem, sua individualidade, ações provocadas pela confrontação com o outro.

Toda a discussão de Fichte em relação à consciência individual, ao mundo das representações, segundo Bornheim, expõe também a preocupação com os problemas morais. Problemas morais que se encontram na análise do romance Orgulho e preconceito , como um exemplar, característico de discussões relativas à subjetividade feminina, ao mundo e ao universo em que essa mulher está inserida. Essa obra revela a iniciativa criadora de uma escritora feminina, e também se refere ao fator moral que caracteriza a identidade da mulher e sua força de interação com o mundo. O romance Orgulho e preconceito, considerado uma narrativa a-histórica, é um romance que não está preocupado com os fatores mundiais ou os relatos políticos. A obra reflete a subjetividade da figura feminina, numa família composta por cinco filhas em que cada personalidade feminina revela sua subjetividade. Uma história leve, porém com profundo teor dissertativo. ‘Você deve aprender algo com a minha filosofia’ (AUSTEN, 2011, p.217). A personagem parece querer ensinar algo, passar uma informação de vida, de aprendizado ao representante masculino. Enquanto produtor de ideias, tem-se no romance Orgulho e preconceito, uma demonstração da subjetividade relativa ao sujeito, pois os discursos que possui estão mesclados de outros discursos subjacentes. Uma literatura que aponta aspectos que mostram o modelo patriarcal e a figura feminina que, inserida neste contexto, pode manifestar sua vontade pelo apoio masculino, pois a figura feminina não pode dispor de sua vontade sem a aprovação da figura masculina, seja ela encontrada na figura do pai ou do marido:

‘-Eu não vou fugir, papai’ – disse Kitty nervosa. ‘– Se eu alguma vez fosse a Brighton, me comportaria melhor do que Lydia’. ‘Você, ir a Brighton! Aprendi a ser cauteloso, e você sentirá os efeitos disso.’ ‘Lizzy’ – disse o pai ‘– eu dei a ele o meu consentimento’ (AUSTEN, 2011)

O filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel apud Chalita, em seus estudos sobre a dialética, evidencia e valoriza os conceitos que se formam pela confrontação de ideias, “onde a contraposição e contradição de ideias que levam a outras ideais” faz-se presente. A dialética hegeliana busca refletir sobre a realidade, sendo considerada uma dialética idealista que aborda o movimento do espírito. O trecho a seguir mostra como os diálogos induzem à compreensão de um conceito diferente do esperado: ‘Você já tinha resistido à minha beleza e quanto aos meus modos- meu comportamento para com você foi, pelo menos, bordejando o incivil e nunca falei com você sem mais lhe desejar causar dor, do que não. Agora, seja