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Parte 3 - Crescimento e idade, Notas de estudo de zootecnia

Exterior e Raças

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 24/03/2012

tais-terra-2
tais-terra-2 🇧🇷

4.7

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Victor Cruz Rodrigues – DRAA/IZ
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8 DESENVOLVIMENTO DO BOVINO
8.1 AS ONDAS DE CRESCIMENTO
Os bovinos vivem entre 15 a 20 anos e o ciclo de desenvolvimento se dá por
ação de vários hormônios, em especial o hormônio do crescimento ou somatotropina,
produzido na hipófise posterior. Os hormônios sexuais também ajudam no
desenvolvimento do animal promovendo as características sexuais secundárias.
O crescimento se dá por dois tipos de ondas específicas, primárias e
secundárias (Figura 1). As primárias agem da órbita ocular para o focinho, do joelho
para o casco e do jarrete para o casco. Após essa fase, entram em ação as ondas
secundárias com direção invertida, ou seja, do pescoço para o corpo, do joelho para o
corpo e dos jarretes para o corpo. Quando essas ondas atingem a altura do lombo ou
rins, o animal para de crescer entre 36 e 40 meses dependendo da maturidade
fisiológica.
No decorrer da vida do animal verifica-se uma mudança corporal, no início as
pernas são longas, o corpo estreito e a cabeça com maior proporção em relação ao
corpo. Depois essa tendência vai se invertendo, as extremidades vão encurtando em
relação à massa corporal (Figura 3)
Considerando os três principais tecidos de uma carcaça, osso, músculo e
gordura, todos se desenvolvem simultaneamente, mas em proporções diferentes, ou
seja, no início da vida do animal os ossos crescem mais intensamente, depois os
músculos e mais tardiamente a gordura (Figura 5). A mesma tendência acontece em
relação à paralisação de crescimento, os ossos param de crescer mais cedo, mas os
músculos e a gordura diminuem drasticamente esse ritmo posteriormente, sendo a
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Victor Cruz Rodrigues – DRAA/IZ

8 DESENVOLVIMENTO DO BOVINO

8.1 AS ONDAS DE CRESCIMENTO

Os bovinos vivem entre 15 a 20 anos e o ciclo de desenvolvimento se dá por ação de vários hormônios, em especial o hormônio do crescimento ou somatotropina, produzido na hipófise posterior. Os hormônios sexuais também ajudam no desenvolvimento do animal promovendo as características sexuais secundárias. O crescimento se dá por dois tipos de ondas específicas, primárias e secundárias (Figura 1). As primárias agem da órbita ocular para o focinho, do joelho para o casco e do jarrete para o casco. Após essa fase, entram em ação as ondas secundárias com direção invertida, ou seja, do pescoço para o corpo, do joelho para o corpo e dos jarretes para o corpo. Quando essas ondas atingem a altura do lombo ou rins, o animal para de crescer entre 36 e 40 meses dependendo da maturidade fisiológica. No decorrer da vida do animal verifica-se uma mudança corporal, no início as pernas são longas, o corpo estreito e a cabeça com maior proporção em relação ao corpo. Depois essa tendência vai se invertendo, as extremidades vão encurtando em relação à massa corporal (Figura 3)

Considerando os três principais tecidos de uma carcaça, osso, músculo e gordura, todos se desenvolvem simultaneamente, mas em proporções diferentes, ou seja, no início da vida do animal os ossos crescem mais intensamente, depois os músculos e mais tardiamente a gordura (Figura 5). A mesma tendência acontece em relação à paralisação de crescimento, os ossos param de crescer mais cedo, mas os músculos e a gordura diminuem drasticamente esse ritmo posteriormente, sendo a

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gordura o último tecido a se acumular no corpo. A partir dessa etapa a alimentação rica em proteína não mais será transformada em músculo, mas em gordura. A multiplicação celular (hiperplasia) e o aumento do tamanho das células (hipertrofia) são os fundamentos principais do crescimento. Na Figura 2 está demonstrada, resumidamente, a ação hormonal que determina o desenvolvimento do bovino. Desta forma, o animal destinado ao abate deve chegar ao frigorífico pesando entre 450 e 500 kg, de acordo com sua maturidade, uma vez que acima desse peso ele passará ganhar menos peso e acumular mais gordura na carcaça, conforme já informado acima. Isto significa prejuízo para o criador, uma vez que nesta fase o animal estará transformando o alimento em gordura e não em músculo. O músculo é que será transformado em carne, cujo consumidor vem exigindo com um mínimo de gordura, ou seja, carne mais magra. Uma camada de gordura subcutânea é importante para garantir a proteção da carne contra o endurecimento pelo resfriamento e um mínimo de gordura intramuscular que assegure o melhor sabor.

As modificações ao longo do crescimento permitem, em muitos casos, ter uma idéia de como o animal será no futuro. Os jovens se diferenciam dos adultos pelo comprimento dos seus membros, pelo pequeno perímetro torácico e pelo corpo mais curto. As modificações durante o crescimento aparecem em ciclos, isto é, há períodos de menor e de maior crescimento. A curva de crescimento é maior nos três primeiros meses, depois fica mais lenta e é retomada com um ano, com ligeiro retardamento em um ano e meio, novamente acelerando até os 2,0 anos (Figura 3). O úmero e o fêmur atingem o desenvolvimento completo aos 3,5 anos, enquanto a escápula, o coxal e a coluna vertebral continuam até aproximadamente 5,0 anos. A ação hormonal durante o crescimento está descrita de maneira sintética na Tabela 1 abaixo. São incluídas várias atividades biológicas exercidas pelo hormônio de crescimento no organismo, como a regulação do crescimento propriamente dito,

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Na Tabela 1 estão descritos os principais hormônios, os órgãos responsáveis pela produção e suas respectivas ações durante o desenvolvimento de bovinos.

TABELA 1 – Ação hormonal durante o desenvolvimento de bovinos.

HORMÔNIOS LOCAL DE

PRODUÇÃO

AÇÃO

Tiroxina Tireóide Permite a ação do hormônio de crescimento (crescimento ósseo e produção de GH) IGF Fígado Permite a ação de GH no esqueleto Insulina Pâncreas Estimulante do crescimento: ingresso de aminoácidos e glicose na célula Glucocorticóides Córtex adrenal Inibidores do crescimento

Testosterona Testículos Regulação do crescimento: peso, massa muscular e liberação de GH Estrógenos Ovários Regulação do crescimento: em doses baixas estimula o crescimento e a produção de IGF. Em doses altas inibe Progesterona Ovários Anabólica: fêmeas em gestação

GH – hormônio de crescimento. IGF – fator de crescimento insulínico.

8.2 CURVA DE CRESCIMENTO

O desenvolvimento de um animal até atingir o estado adulto é determinado pela ossificação dos ossos longos. Pode-se constatar então que um animal ou determinado grupo genético tenha um período de tempo maior para atingir a fase adulta e outro que alcance esta mesma fase em um tempo bem mais reduzido. No primeiro caso, o animal ou grupo genético é considerado tardio e no segundo precoce. O termo precocidade é também utilizado para animais que alcançam acabamento para o abate mais cedo, isto é, aqueles que acumulam mais cedo certa espessura de gordura subcutânea. Pela observação do exterior a precocidade é identificada nos animais que apresentam maior profundidade de costelas em relação à altura dos membros e a observação de depósitos de gordura (maneios) na virilha, inserção da cauda, maçã do peito, paleta e coluna vertebral. Em geral, quanto mais definida a musculatura, menor será a gordura subcutânea de acordo com a região, assim como o animal com precocidade reprodutiva também possui precocidade de acabamento. As Figuras 4 e 5 exibem dois gráficos, o primeiro representa a curva de crescimento geral e o segundo a curva de crescimento por tipo de tecido.

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A curva de crescimento se aplica também ao gado de leite. Uma novilha da raça Holandesa pode entrar na reprodução com 350 kg de peso, antes de atingir o peso adulto entre 500 a 600 kg. Neste caso, a novilha continuará a ganhar peso para seu crescimento normal e para o bezerro que nascerá com cerca de 40 kg em média. Portanto, deve ser observada a estrutura, o arcabouço ósseo, a saúde e o estado corporal em geral.

8.3 VELOCIDADE DE CRESCIMENTO E PRECOCIDADE

O termo velocidade de crescimento está relacionado ao ganho de peso e se aplica ao animal que atinge um determinado peso em menor espaço do tempo, mas não significa que seja precoce. Conclui-se, então, que todo animal precoce tem velocidade de crescimento alta, mas nem todo animal que cresce rapidamente é precoce (Figura 6). Essa comparação pode ser feita entre animais de diferentes espécies, raças, variedade, linhagens e famílias ou dentro destas. Búfalos, por exemplo, têm alta velocidade de crescimento, mas não são precoces, pois se tornam adultos mais tardiamente quando comparados aos bovinos. Ao considerar animais de portes diferentes (Figuras 7), os de pequeno porte tendem a ser mais precoces, enquanto os de grande porte tendem a ser mais tardios. Isto quer dizer que ao se considerar animais com a mesma idade cronológica, os de pequeno porte são normalmente mais maduros do que os de grande porte. Nestes últimos, o acúmulo de gordura é mais tardia e apresentam maior proporção de musculatura na carcaça. Assim, os animais tardios são geralmente mais altos e compridos (longilíneos) enquanto os animais baixos e curtos (brevilíneos) são mais precoces, pois atingem rapidamente o peso de abate e a maturidade sexual. Outro aspecto é o da maturidade de acabamento, como dito acima, os bovinos quando são encaminhados ao abate devem possuir uma espessura de gordura de cobertura ou de gordura subcutânea. Quer dizer que se não atingirem tal espessura

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isso, há espaço para os diferentes tipos de animal, desde que a produção seja economicamente viável.

O comprimento do corpo e aprofundidade do peito crescem em proporções

semelhantes a altura na cernelha, com leve vantagem em favor do comprimento do corpo. O tronco se amplia ao longo do crescimento, aumentando em altura, comprimento e espessura.

8.4 DIMORFISMO SEXUAL E CASTRAÇÃO

Os bovinos apresentam características sexuais primárias, que são os próprios órgãos genitais, vulva e úbere na fêmea, prepúcio, verga e testículos no macho, enquanto as características sexuais secundárias podem ser observadas pela morfologia própria de cada sexo por influência dos hormônios sexuais, a testosterona nos machos e o estrógeno nas fêmeas. Portanto, a masculinidade do macho e feminilidade da fêmea são fatores que devem ser bem definidos, uma vez que são indícios de fertilidade. O macho tem maior porte que a fêmea, sua cabeça é máscula, mais larga e curta em relação à cabeça da fêmea que é comprida e mais delicada. O pescoço do macho tem musculatura evidente, especialmente no gado taurino que desenvolve o congote, ausente na fêmea. No gado Zebu, o cupim é mais desenvolvido que o da fêmea; No macho adulto, o trem anterior (frente do animal) desenvolve mais que o posterior (traseiro do animal), sendo o inverso na fêmea. A espessura do couro é maior no macho e menor na fêmea. Os membros são mais delicados nas fêmeas e as cores são mais vivas e escuras nos macho, especialmente, nas extremidades.

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Com a ausência dos testículos, o macho desenvolve menos o pênis, a próstata e as glândulas de Cowper entre outras, enquanto as tetas, que ficam na região inguinal, se tornam maiores e engrossadas. A castração provoca mais o crescimento em comprimento dos membros pelo alongamento do fêmur e da tíbia. Se a castração for praticada logo após o nascimento, a forma da bacia não terá correspondência a do macho nem e da fêmea, podendo ser qualificada como neutra. O desenvolvimento corporal prolonga-se até cinco ou seis anos, quando no inteiro esse crescimento vai até os 4,5 anos. A altura fica maior, os quartos traseiros se desenvolvem mais e a bacia fica mais ampla, o corpo mais curto e engrossado. O crânio torna-se alongado e fino, os chifres maiores e finos, a marrafa mais baixa. A pele fica mais fina e a musculatura do pescoço bem menos desenvolvida, assim como a cor que fica mais clara nesta região, no traseiro e nos membros. O temperamento torna-se linfático e a voz com menor potência. Devido à ausência da testosterona, o macho acumula mais gordura na carcaça. Em relação à fêmea, esta tende a diminuir de tamanho, ficando parecida com o macho castrado. A cabeça alonga-se mais e afina-se, os chifres ficam mais grossos e maiores, a lactação prolonga-se. Em suma, o macho castrado ganha algumas características de fêmea, assim como as fêmeas castradas ganham algumas características de macho. A Figura 8 exibe o desenvolvimento ponderal dos tecidos corporais, bem como o aumento da gordura corporal de acordo com a categoria animal.

9 IDADE DOS BOVINOS

O animal passa por três fases durante sua vida, a infância e adolescência em que cresce e se desenvolve, a idade adulta em que o desenvolvimento se estabiliza e a velhice em que perde sua energia vital, conseqüentemente, perde tecido corporal. A determinação da idade aproximada de bovinos tem alguns empregos práticos, isto é, na fazenda, nos julgamentos de exposições agropecuárias, para definir categorias em concursos leiteiros, para classificação da carcaça nos frigoríficos. Mas é preciso ficar claro que a melhor forma de se definir a idade de um animal é através do registro de nascimento, isto é, através do controle zootécnico. Além disso, a maturidade fisiológica tem grande influência na determinação da idade, uma vez que ocorrem diferenças entre o nascimento, a troca e o desgaste dos dentes entre animais tardios e precoces. Os elementos primários e secundários de exterior são de grande valia, entendendo como primários a dentição e os secundários as demais características de exterior, conhecidos como órgãos cronométricos. Os olhais, as têmporas, os chifres, a pelagem e a musculatura vão sendo modificados a partir do nascimento até a idade adulta. Esses fatores ajudam a estimar a idade do animal, mas com baixa precisão. Os chifres aparecem no primeiro mês de vida e são fixados aos seis meses, uma vez que até esta idade são móveis, opacos e rugosos e crescem entre 1,0 e 1,5 cm por mês de acordo com o tamanho o grupo genético em estudo. No terceiro ano de vida, um anel ou sulco (Figura 9) aparece nos chifres e mais um a cada ano consecutivo. Portanto, um animal com cinco

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e primeiros médios são rasados entre cinco e seis meses, os segundos médios entre seis a sete meses e os cantos ou extremos entre sete a 9 meses. No terceiro período ocorre o nivelamento da primeira dentição: pinças aos 10 meses, primeiros médios aos 12 meses, segundos médios aos 16 meses e os cantos aos 18 meses de idade. O quarto período se inicia aos 18 meses e vai até os 6,0 anos de idade e caracteriza-se pela muda dos dentes temporários pelos definitivos. A queda das pinças caducas acontece entre 18 e 20 meses e as pinças definitivas apresentam um crescimento completo aos 2,0 anos. A queda dos primeiros médios temporários ocorre aos 2,5 anos e o crescimento completo dos definitivos aos 3,0 anos. A queda dos segundos médios temporários acontece aos 3,5 anos e o crescimento completo dos permanentes se dá aos 4,0 anos. A queda dos cantos caducos ocorre aos 4,5 anos e os definitivos nascem logo após, estando crescidos entre o quinto e sexto ano de vida. No caso dos zebuínos, as pinças são substituídas em torno de 28,2 meses, os primeiros médios aos 35,4, os segundos médios aos 41,9 meses e os cantos aos 50, meses. Portanto, os zebus iniciam a muda com atraso, mas se recuperam em seguida. No quinto período é caracterizado pelo rasamento e nivelamento dos definitivos. O rasamento das pinças se dá aos 6,0 anos e o nivelamento aos 7,0 anos. O nivelamento dos primeiros médios se dá aos 8,0 anos, dos segundos médios aos 9, anos e dos cantos aos 10,0 anos (Figura 12). Na última fase os dentes diminuem de tamanho, afastam-se entre si e apresentam um formado arredondado após os 12,0 anos e depois ocorre a queda. Também com os bovinos podem ocorrer mau formações e ausência de dentes.

10 TIPOLOGIA

O tipo é definido como o conjunto das características fisiológicas, econômicas e morfológicas semelhantes. É o somatório dos caracteres morfológicos externos que indicam a função predominante exercida pelo animal ou ainda, é a conformação correlacionada com a função zootécnica ou produtiva. É a forma ou estrutura do corpo de um animal que deve permitir seu melhor desempenho no sentido de uma função específica. A forma e a função desempenhada pelo indivíduo são os elementos básicos para o julgamento de um animal, tendo por base o exterior. O tipo então pode ser resumido na fórmula TIPO = FORMA + FUNÇÃO PRODUTIVA. Portanto, animais com predisposição a adquirir musculatura é do tipo corte, enquanto aqueles sem capacidade de deposição de músculo ou é enxuto ou descarnado é do tipo leite. Um animal intermediário entre os dois tipos é de aptidão mista.

10.1 CARACTERES INDICATIVOS DO BOVINO DE CORTE

O gado de corte como animal produtor de carne deve possuir conformação adequada com boa saúde e temperamento. A cabeça deve ser leve e denotar ossatura

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fina, costelas compridas, oblíquas e arqueadas (Figura 14). A pele deve ser fina, macia, elástica e bastante flexível a fim de facilitar a engorda. Os animais criados a campo têm pele mais espessa em relação aos confinados. Os pêlos devem ser curtos, finos, macios e luzidios. Em geral devem possuir grandes depósitos de músculo, sobre as paletas, dorso, lombo, garupa, coxas e nádegas. Animais mais musculosos com boa distribuição pelo corpo pesam mais e ainda apresentam maior rendimento e qualidade da carcaça.

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10.2 GADO DE CORTE TRADICIONAL E MODERNO

Até meados do século passado as condições de vida no Brasil eram bastante diferentes de hoje, até a década de 50 mais da metade da população se encontrava no meio rural. Nesse período, a gordura animal era utilizada na alimentação e, praticamente, em todo o mundo havia um tipo de bovino que produzia carne e gordura, gado taurino proveniente da Europa (Figura 13). O gado de corte era conduzido para ser um animal muito profundo, largo, uniforme e compacto. A cabeça, os membros e as espáduas mostravam refinamento. Aspectos como espessura, firmeza, regularidade na cobertura de gordura entre uma grande quantidade de musculatura natural do corpo marcavam este tipo de gado. O corpo apresentava uma forma retangular ou cilíndrica com muita largura e profundidade, com as linhas superior e inferior retas. Os animais eram compactos ou brevilíneos com pernas curtas e muito cheias, largos e profundos, com grande equilíbrio entre o trem anterior e posterior. O pescoço curto, harmonizando-se com as espáduas em uma só linha. Havia a necessidade de distância entre as pernas, com peito largo e profundo, bem como a caixa torácica. A carcaça deste animal era muito rica em gordura de cobertura, Em gordura interna, gordura entre músculos e marmoreio. Basicamente, as raças britânicas eram os melhores representantes do tipo tradicional. Resumindo, o tradicional, clássico ou convencional novilho de corte tinha as seguintes características: formas corporais compactas (corpo em forma de paralelepípedo, simétrico, equilíbrio entre anterior e posterior, esqueleto relativamente reduzido, linhas corporais paralelas e maneios evidentes), extremidades reduzidas (cabeça, pescoço e membros), grande capacidade torácica e digestiva (peito amplo e cheio, tórax largo e profundo, costelas longas, perímetro torácico amplo, ventre desenvolvido, largo e profundo), aparência geral atraente e vigorosa (conformação própria, temperamento, vigor, saúde, masculinidade e feminilidade). Mas o óleo de soja veio revolucionar a alimentação e a gordura animal deixou de ser uma prioridade na cozinha. Ninguém mais quer consumir gordura, muito menos saturada, que é a produzida pelos ruminantes. Os hábitos alimentares mudaram radicalmente e o gosto do consumidor evoluiu para o desejo de uma carne magra e saborosa sem excesso de gordura, inclusive para prevenir doenças cardiovasculares. E assim nasce o moderno novilho de corte com características bastante diferentes do tradicional. Este animal visto de frente apresenta pontas das espáduas afastadas, desenvolvidas e cheias de músculos, aprumos corretos, peito largo, sem excesso de gordura, boa distância entre os membros anteriores e posteriores. No animal visto de perfil (Figura 14), o pescoço é curto e forte, inserido harmoniosamente nas paletas, o peito com pouca gordura. Os membros são mais longos e os músculos do braço bem desenvolvidos, a linha superior reta, comprida, larga e musculosa. As ancas são largas com espessa cobertura de carne, as costelas bem compridas, oblíquas e bem arqueadas, com boa profundidade, tórax e abdômen bem desenvolvido e bom comprimento do corpo de extremo a extremo. A forma cilíndrica do corpo tem um

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leve desequilíbrio com posterior mais desenvolvido que o anterior, considerando que as carnes de primeira estão no traseiro, cuja coxa denota grande musculosidade. No animal visto de trás apresenta grande desenvolvimento dos quartos traseiros que são largos, profundos (nádegas bem descidas), cheios e musculosos. A largura deve ser a mesma das paletas até os quartos. As ancas no horizontal de extremo a extremo, a bolsa escrotal sem gordura, as pernas aprumadas e bem separadas. O que interessa na conformação é a musculatura, devendo-se dar importância às características como largura entre as pontas das espáduas, largura e forma do garrote, largura e forma do dorso, lombo e garupa, trem posterior bem desenvolvido, musculoso e cheio. Os reprodutores abaixo representam desde a tipologia do passado até os nossos dias. Em suma, deve-se valorizar animais volumosos e de rápida velocidade de crescimento com carcaça de qualidade, ou seja, animais possuidores de carnes magras (músculos), compridos e com os quartos posteriores volumosos, largos e profundos, com nádegas volumosas, arredondadas e descidas, esqueleto bem estruturado e robusto, membros com aprumos corretos e cascos resistentes e firmes. Em resumo, o gado de corte moderno (Figura 14) pode ser assim descrito: formas corporais alongadas (corpo em forma de barril, ligeiro desequilíbrio entre dianteiro e traseiro, grande desenvolvimento de massas musculares em regiões distintas, sem evidência de maneios, linhas corporais não planas, isto é perfil corporal convexo, extremidades mais alongadas (pescoço e membros mais compridos), maior comprimento do corpo (talhe mais alto), grande capacidade torácica e digestiva (peito amplo e cheio, com menos altura do tórax, costelas curtas, porém, bem arqueadas, corpo em forma de pêra, quando visto de cima, aparência geral atraente e vigorosa.). Os animais hipertróficos ou de musculatura dupla (animal à direita da Figura

  1. são aqueles que apresentam sulcos nas regiões da espádua, do lombo e da perna com perfil corporal extremamente convexo, cujos limites e contornos ficam bem visíveis. Esses animais têm alto rendimento de carcaça e porcentagem mínima de osso e gordura, alta rendimento de cortes nobres. A hipertrofia muscular é provocada por um gene parcialmente recessivo, presente no lócus 2, o chamado de GDF-8 (Growth Differentiation Factor 8) ou mh ou simplesmente, miostatina, originário de uma mutação gênica. Este gene inativa a miostatina, que é um inibidor do crescimento muscular, provocando a hipertrofia muscular. Esta característica não está presente em todas as raças, isto é, existem raças com maior freqüência deste gene, são as raças continentais como nas raças Belgian Blue, Piemontês, Limousin e outras. Entretanto, apenas uma parte dos indivíduos destas raças tem hipertrofia muscular. É praticamente inexistente nas raças zebuínas e bubalinas e de baixa freqüência nas raças britânicas.

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entre os dois tipos. Entretanto, verifica-se que a área do olho do lombo ou área do músculo longissimus dorsi e a espessura de gordura de cobertura ou subcutânea foram diferentes. Esses valores são associados ao quantidade de músculo e de gordura, concluindo-se que o moderno novilho de corte apresenta maior proporção de carne e menos de gordura na carcaça. Portanto, a carcaça do longilíneo tem maior qualidade, identificado com a maior proporção de cortes comercializáveis.

TABELA 2 – Peso vivo e carcterísticas de carcaça dos tipos compacto e longilíneo em zebuínos e corte.

TIPO Peso vivo Kg

Peso da carcaça

Rendimento %

Área do olho do lombo

Espessura de gordura subcutânea Compacto 515 299 63,2 64,5 5 Longilíneo 508 303 64,9 85,8 3

10.3 MANEIOS

As gorduras localizadas no corpo do animal ajudam a avaliar se um animal está magro ou muito gordo, indicando o momento de modificar o tipo de alimentação ou até o manejo (Figura 15). Sabe-se ainda que um animal muito gordo pode ter problemas reprodutivos. Os maneios são determinados pela palpação local, isto é, utilizando os dedos para se avaliar o grau de acúmulo de gordura em cada região do corpo. Maneios são definidos como formações de gordura localizadas na superfície corporal que atestam o estado de engorda de bovinos. De acordo com a localização eles têm denominações próprias. Bordos ou cimeiros se situam entre a base da cauda e a ponta da nádega, cordão ou entre nádegas ficam na região posterior e central da nádega ao longo do períneo, escroto localiza-se no saco ou bolsa escrotal, gordinho na dobra da pele que liga a coxa ao abdômen, ante leite situa-se adiante do úbere, flanco no centro do flanco propriamente dito, anca situa-se na ponta da anca, lombeiro fica na região sub-lombar nas apófises transversais das vértebras lombares, costelas no costado nos espaços existentes entre as costelas, paleta fica no ângulo dorsal das espáduas, coração um pouco atrás das espáduas, entre a paleta e o contra-coração, contra-coração fica entre os bordos inferior e posterior da espádua e a costela, peito na ponta exterior do esterno, orelha fica na base da orelha, baixo língua na região intermaxilar. Maneios como peito, paleta, costelas, gordinho e cimeiro aparecem no início da engorda, enquanto escroto, entre nádegas e orelhas aparecem no final da engorda, ajudando a definir o momento de se conduzir os animais para o frigorífico. Os maneios também têm alguns significados. Paleta, coleira, costela, contra- coração e peito indicam gordura de cobertura, anca, coração e lombeiro indicam

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gordura entremeada, enquanto baixo-língua, escroto, entre-nádegas, gordinho e ante- leite indicam gordura na forma de sebo.

10.4 HPERTROFIA MUSCULAR ou MUSCULATURA DUPLA

A musculatura se desenvolve exageradamente e o animal apresenta um perfil corporal convexo, de modo que os músculos externos com seus limites são bastante evidentes pelo exterior, especialmente, na região do traseiro, dorso, lombo e espáduas. Os principais sulcos externos ocorrem entre os músculos bíceps femoris e semitendinosus e entre o bíceps femoris e vastus lateralis. A chamada síndrome da musculatura dupla é uma designação imprópria, uma vez que não existe duplicação e sim um desenvolvimento exacerbado dos músculos, caracterizado pela hipertrofia e hiperplasia das fibras musculares, isto é, aumento do tamanho e da quantidade de células. A hipertrofia muscular não ocorre apenas em bovinos, já sendo descrita em suínos, ovinos, aves, peixes e roedores. O reconhecimento de bovinos com dupla musculatura é baseado em avaliação subjetiva (visual) da característica (grau de hipertrofia muscular), presença de sulcos intermusculares a outras características externas associadas à síndrome como a inclinação pélvica e o aparente alto ponto de inserção da cauda.

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TABELA 3 – Descrição das mutações que caracterizam a musculatura dupla em diversas raças de bovinos.

DESCRIÇÃO TIPO RAÇA AFETADA REFERÊNCIA

Deleção de 11 pb no exon 3

Stop codon prematuro

Belgian Blue Piemontês e outras

Grobet et al., 1997 McPherron e Lee, 1997 Inserção/deleção de 7 pb na posição 419

Stop codon prematuro

Maine Anjou Karim et al., 2000

Trasição C®T na posição 610

Sem sentido Terminação prematura

Limousin e Charolês Antoniou e Grosz, 1999

Transversão G®T na posição 676

Sem sentido Terminação prematura

Maine Anjou e Parthenaise

Karim et al., 2000

Trasição G®A na posição 938

Substituição de cisteína por tirosina

Piemontês e Gasconne

Grobet et al., 1997 Fahrenkrug et al., 1999 Transversão G®T na posição 874

Stop codon no domínio C-terminal bioativo

Marchigiana Cappucio et al., 1998 Marchitelli et al., 2003

Na Tabela 4 estão os valores para características da carcaça de bovinos da raça Marchigiana normais e com musculatura dupla, bem como o fenótipo dos animais da raça Marchigiana com musculatura dupla (TEIXEIRA e OLIVEIRA, 2007), ficando claro o maior rendimento de carcaça e o maior rendimento de cortes nobres, ratificados pela maior proporção de músculos, menor proporção de gordura e maior área de olho de lombo, nos animais hipertróficos. Nas Figuras 14, 16, 17 e 18 estão expostos exemplares com musculatura dupla com expressivo desenvolvimento mescular, animais convexos e com sulcos divisores dos músculos nítidos.

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TABELA 4 – Características de interesse conforme tipo de acasalamento para o fenótipo de musculatura dupla na raça Marchigiana

CRUZA RENDIM.

DA

CARCAÇA

CORTES

NOBRES

GORDURA

MÚSCULO

ÁREA DO

OLHO DO

LOMBO

(cm^2 )

DM x DM 63,2 61,3 22,8 61,6 90, DM x N 60,2 60,3 28,0 57,4 92, N x N 59,8 58,5 32,1 52,4 83,

DM x DM – pai e mãe com fenótipo para musculatura dupla. DM x N – pai com fenótipo para musculatura dupla e mãe com fenótipo normal. N x N – pai e mãe com fenótipo normal.

FIGURA 16 – Animais da raça Marchigiana com fenótipo de musculatura dupla (Teixeira e Oliveira, 2007)

CARACTERÍSTICAS ASSOCIADAS À HIPERTROFIA

A musculatura dupla esta associada ou tem correlação positiva com vários fatores físicos, fisiológicos e histológicas (Tabela 5) como adelgaçamento dos ossos do traseiro, alta frequência de animais com subdesenvolvimento da genitália externa (órgãos genitais infantilizados) e consequentemente redução da fertilidade, aumento