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Descreve método de coleta e produção de mudas nativas
Tipologia: Notas de estudo
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Edna Scremin-Dias Cristiane Kalife Zildamara dos Reis Holsback Menegucci Paulo Robson de Souza
Edna Scremin-Dias Cristiane Kalife Zildamara dos Reis Holsback Menegucci Paulo Robson de Souza
Campo Grande - MS 2006
Projeto: Rede de Sementes do Pantanal Instituição Executora: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Convênio 042/2001 – MMA/FNMA)
Coordenação Edna Scremin Dias Laboratório de Botânica - Departamento de Biologia Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Caixa Postal 549 79070-900 - Campo Grande - MS
Secretaria Executiva Cristiane Kalife Ana Lúcia Barros
Técnico em Informática Fabio Luiz Modesto
Responsáveis pelo Banco de Dados Alex Wukio Wassano Ana Lúcia Barros Cristiano Costa Argemon Vieira Hercules da Costa Sandin Ravi Vilela Rauber Paulo Robson de Souza (produção do acervo de fotografias)
Revisão Técnica do Manual Ana Lúcia Barros Arnildo Pott (listas de espécies) Cristiane Kalife Edna Scremin-Dias Nelson Akira Matsuura (normas para a produção de mudas florestais) Paulo Robson de Souza Zildamara dos Reis Holsback Menegucci
Ilustrações Vander Fabrício Melquíades de Jesus
Consultoria ad hoc Alexandra Penedo de Pinho Angela Lúcia Bagnatori Sartori
Fotos da Capa Paulo Robson de Souza (foto maior: dossel de piuval, Tabebuia sp., Base de Estudos do Pantanal – UFMS; foto menor: plântula de olho-de-cabra, Ormosia fastigiata )
Capa Lennon Godoi
Editoração Eletrônica Marcelo Brown
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL Portão 14 - Estádio Morenão - Campus da UFMS Fone: (67) 3345-7200 - Campo Grande - MS e-mail: [email protected]
ISBN: 85-7613-087- Depósito Legal na Biblioteca Nacional Impresso no Brasil
Desde o descobrimento do Brasil, os recursos na- turais constituem a principal riqueza nacional, tendo sido explorados e, infelizmente, negligenciados ao lon- go dos últimos séculos. Atualmente, as plantações florestais (exóticas ou nativas) ocupam apenas 0,6% do território brasileiro, atendendo cerca de 30% da demanda nacional de madeira (Gonçalves & Stape, 2002).
Em decorrência disto há uma grande pressão so- bre os remanescentes florestais do país, restando, na maioria das regiões brasileiras, somente fragmen- tos florestais, muitos deles em alto grau de antropização. Ressalta-se que nosso patrimônio flo- restal requer enorme responsabilidade quanto ao manejo e preservação, de maneira a atender às de- mandas sociais e ambientais (Gonçalves & Benedetti, 2000). Neste sentido, deve-se dar atenção especial à geração de conhecimento técnico e aplicação e difusão de tecnologias.
O processo produtivo de sementes e mudas das essências florestais nativas deve ser embasado em parâmetros técnicos consistentes e bem elaborados. As mudas destinadas à comercialização devem pos- suir excelente qualidade, resultando em produtos va- lorizados no mercado, sem problemas fitossanitários e que se estabeleçam eficientemente após o plantio.
Neste sentido, o Ministério do Meio Ambiente lançou edital, por meio do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), objetivando estruturar redes de sementes em todos os biomas brasileiros para me- lhorar a qualidade e aumentar a quantidade de se- mentes e mudas das essências florestais nativas pro- duzidas e comercializadas no Brasil. O estabeleci- mento da Rede Brasileira de Sementes contribuirá para o fortalecimento do setor produtivo de semen- tes e mudas, além de estimular o consumo de produ- tos com qualidade, tendo como conseqüência a con- servação de ambientes naturais em todos biomas brasileiros. O setor produtivo de essências florestais nativas do Brasil apresenta atraso tecnológico de mais de 30 anos. As pesquisas em tecnologias para produção de espécies exóticas possuem destaque no Brasil e, infelizmente, os produtos florestais nativos somente despertaram interesse na última década. Atualmente, o destino da produção atende princi- palmente aos processos de restauração ambiental. Contudo, a geração de tecnologias para o plantio consorciado de espécies, para fins madeireiros ou para sistemas agroflorestais, ainda é incipiente. Em decorrência do grande número de espécies de inte- resse florestal no Brasil e do atraso tecnológico no
Todo o setor produtivo de sementes e mudas no Brasil foi regulamentado pelo Decreto n° 5.153, de 23 de julho de 2004, que aprovou o Regulamento da Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003. Esta Lei e o referi- do Decreto dispõem sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas – SNSM, onde é firmado que to- das as ações decorrentes das atividades previstas no Regulamento deverão ser exercidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, dentro da competência prevista no art. 5º da Lei.
Além da Lei e do Decreto, devem ser considera- das (i) a Instrução Normativa MAPA n° 24, de 16 de dezembro de 2005, que aprova as Normas para a Produção, Comercialização e Utilização de Mudas, (ii) a Instrução Normativa MAPA n° 9, de 02 de junho de 2005, que aprova as Normas para a Produ- ção, Comercialização e Utilização de Sementes e da qual alguns anexos são também utilizados pelos pro- dutores de mudas e, ainda, (iii) a Instrução de Servi- ço CSM n° 1/2005, que trata das taxas decorrentes da inscrição no Registro Nacional de Sementes e Mudas - RENASEM.
No caso específico de produção de mudas de espécies florestais nativas, deve-se observar, ainda, o capítulo XII do Decreto 5.153/2004, em seus arti- gos 143 a 175. Para elaboração das normas comple-
mentares a estes artigos o MAPA instituiu uma co- missão. Os textos da citada legislação se encontram dis- poníveis na página eletrônica do Ministério da Agri- cultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA. O endereço: www.agricultura.gov.br
na página inicial selecionar: legislação > selecione “sislegis” > na caixa de diálogo aberta, no campo “busca li- vre” digitar “sementes e mudas” > será mostrado um menu com os atos relativos a sementes e mudas, em ordem inversa por data de publicação. Neste manual serão sinalizadas as condições mínimas que todos os viveiros devem atender para funcionar de maneira legal perante o MAPA e profissionalizar sua produção. As orientações aqui contidas servirão como elemento norteador para os produtores de mudas estabelecerem sua produção da melhor maneira possível, visando produzir mudas de qualidade e atender a demanda do mercado den- tro da legislação vigente. Toda pessoa física ou jurídica que exerça ativida- de de produção, beneficiamento, reembalagem,
armazenamento, análise, comércio, importação ou exportação de semente ou muda, é obrigada a se inscrever no Registro Nacional de Sementes e Mu- das - RENASEM.
Para inscrição no RENASEM o produtor ou co- merciante de mudas deve dirigir-se à unidade do MAPA no Estado onde tenha sede e apresentar re- querimento em modelo próprio, conforme sub-item 5.1 das Normas para Produção, Comercialização e Utilização de Mudas, oficializadas pela Instrução Normativa MAPA 24/2005.
Na página eletrônica www.agricultura.gov.br encontram-se a relação das unidades do MAPA nos Estados e os respectivos endereços.
Na forma em que estão organizados, o Regula- mento e as Normas Complementares sobre mudas e sementes objetivam disponibilizar materiais de repro- dução e multiplicação vegetal para o sistema produ- tivo de sementes e mudas, com garantias de identi- dade e qualidade, respeitadas as particularidades de cada espécie. Para tanto a produção de sementes e mudas deverá obedecer às normas e aos padrões de identidade e de qualidade, estabelecidos pelo Minis- tério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, pu- blicados no Diário Oficial da União.
As atividades de produção de sementes e mudas deverão ser realizadas sob a supervisão e o acom- panhamento do responsável técnico, em todas as fases, inclusive nas auditorias.
O responsável técnico pela produção de se- mentes ou mudas é o Engenheiro Agrônomo ou En- genheiro Florestal, registrado no Conselho Regio- nal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – CREA, a quem compete a responsabilidade técni- ca pela produção, beneficiamento, reembalagem ou análise de sementes ou mudas em todas as suas fases, na sua respectiva área de habilitação profis- sional. Estas informações objetivam chamar atenção dos produtores para iniciarem a organização do sistema de sua produção, adequando-se à legislação vigente. É claro, para os técnicos do MAPA, que a normali- zação^1 deste processo será gradual, e o objetivo deste manual é orientar e contribuir para a implantação do setor de produção de sementes e mudas com quali- dade, no âmbito da Rede de Sementes do Pantanal http://sementesdopantanal.dbi.ufms.br (Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul). Com rela- ção ao cadastramento dos viveiros, o produtor deve inscrever o viveiro de mudas, anualmente, até 15 dias após a emergência das plântulas, no caso de mudas provenientes de sementes, ou até 31 de março nos demais casos, apresentando ao órgão de fiscaliza- ção da produção na Unidade da Federação – MAPA, no caso dos estados de MS^2 e MT^3 – requerimento em formulário próprio, conforme sub-item 7.5 das Normas para Produção, Comercialização e Utiliza- ção de Mudas, oficializadas pela Instrução Normativa MAPA 24/2005.
(^1) Seguimos a orientação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que usa o termo “normalização” (em vez do neologismo “normatização”) para designar processos de estabelecimento de normas.
(^2) Endereço da Superintendência Federal de Agricultura no Mato Grosso do Sul: Rua Dom Aquino, 2.696, centro, Campo Grande, MS – CEP 79 002-970. Fone (67) 3325 8866.
(^3) Endereço da Superintendência Federal de Agricultura no Mato Grosso: Alameda Aníbal Molina, s/n, bairro Ponte Nova,Várzea Grande, MT – CEP 78 115-901. Fones (65) 3685 5678 e (65) 3685 7589.
mordial importância o conhecimento da demanda e da oferta de mudas da região, bem como localizar o centro consumidor das espécies produzidas no viveiro. Com essas informações podem-se otimizar os gastos com transporte da produção, minimizando as distâncias entre o centro produtor e consumidor do produto.
A facilidade de obtenção de mão-de-obra na re- gião de produção também deve ser considerada, pois isto determina o sucesso do empreendimento e o custo com pessoal. Outro fator importante a se con- siderar é a declividade do terreno, que de preferên- cia deve ser plano, para facilitar a implementação das técnicas. Além disso, a disponibilidade de ilumi- nação em grande parte do dia, o correto dimensio- namento dos diferentes espaços do viveiro e a previ- são de espaço para ampliação da produção, são im- portantes aspectos a serem considerados antes da implantação do viveiro, vislumbrando-se investimen- tos futuros. Na prática, do espaço disponível para implantação de um viveiro, somente 70% é de fato utilizado para a produção, sendo o restante, 30%, ocupado por corredores de circulação.
Outro fator extremamente importante na escolha da área para instalação é o suprimento de água de qualidade para a produção. Alguns aspectos relacio- nados à qualidade da água de abastecimento devem
ser considerados, para não comprometer a produ- ção (ver Tabela 5 , item 5 – Irrigação da produção).
O dimensionamento do viveiro deve obedecer à organização espacial que contemple todas as etapas de produção de maneira a otimizar este sistema. No entanto, o produtor deve sempre ter em mente que as informações obtidas em pesquisas devem ser in- corporadas, paulatinamente, tendo como estratégia o aperfeiçoamento contínuo da produção. Esta é uma importante ferramenta a ser exercitada em nome do pacto pela qualidade total da sua produção. Considera-se que o viveiro deve apresentar cin- co divisões bastante distintas, cujas funções devem estar bem claras durante o processo de manejo: Área de preparação básica – composta por um conjunto de depósitos e equipamentos, que apóiam as atividades básicas de preparação da linha de pro- dução. No depósito ficam os materiais e equipamen- tos, as sementes colhidas e devidamente armazena- das e a área de manuseio e beneficiamento de frutos e sementes. Próximo a este local devem ser estabelecidas as sementeiras, além dos canteiros de repicagem, preparo de substrato e envasamento.
Figura 1 - Dinâmica operacional do viveiro, indicando todas as etapas de produção, até o momento da expedição das mudas. (Fonte: Sanesul, 1996)
Grupo 1 (G1) – neste grupo ficam canteiros destinados aos tubetes que foram semeados dire- tamente e/ou repicados. Este grupo caracteriza- se por ser uma área coberta com sombrite (nível de sombreamento 50%), responsável pela prote- ção contra possíveis danos às plântulas, provoca- dos pelos raios solares. Nesta área deve-se ter um sistema de irrigação não-setorial (micro- aspersores de 360o^ de raio de lançamento). As plântulas devem permanecer por um período de 20 a 40 dias pós-germinadas ou pós-repicadas e, posteriormente, serem encaminhadas ao Grupo 2 (G2).
Grupo 2 (G2) – Neste grupo estão incluídos canteiros destinados à etapa de desenvolvimento das mudas (condução). As práticas incluem as adu- bações e grande parte das atividades de manejo como raleamento, controles fitossanitários e irriga- ções periódicas, entre outras. A permanência das mudas neste grupo varia de 60 a 120 dias, em mé- dia; após este período irão para o Grupo 3 (G3).
Grupo 3 (G3) – Neste grupo estão as mudas que entrarão na fase de rustificação, que é o proces- so de aclimatação. Na aclimatação, visando simular as possíveis situações adversas encontradas no cam- po, deve-se reduzir o número de irrigações e aduba- ções. Esta fase permite a seleção de mudas para expedição, permanecendo nesse grupo por um perí- odo médio de 30 dias, dependendo da demanda e programação dos clientes. Área administrativa – nesta área providenci- am-se os materiais e insumos da linha de produção, além do acompanhamento de recursos humanos, controle geral e fluxo de documentação. Esta rotina operacional é a adotada no Viveiro de Mudas da CESP, com pequenas distinções entre as quatro unidades que a empresa possui, visando aten- der às especificidades locais. No entanto, este siste- ma organizacional pode servir como base para todo produtor, uma vez que a referida empresa conseguiu otimizar suas atividades por meio da estrutura organizacional apresentada na página anterior.
A semente é um óvulo que após ser fecundado e desenvolvido, constitui a unidade de dispersão de dois grandes grupos vegetais: as gimnospermas e as angiospermas. O primeiro grupo, cujos exemplos mais marcantes são os pinheiros, produz sementes nuas (sem fruto) e o segundo grupo, predominante na flo-
ra brasileira, tem suas sementes protegidas pelos fru- tos. A semente possui um envoltório externo (casca ou tegumento), o hilo (cicatriz deixada pelo tecido que unia o óvulo à parede do ovário – Figura 2 ); internamente, um embrião e o endosperma (tecido para nutrição do embrião).
Figura 2 - Esquema representando as partes de uma semente de feijão (em cima, à esquerda) e semente alada (direita, embaixo) e as fases do desenvolvimento da plântula (à direita).
A germinação ocorre quando o embrião, contido dentro de uma semente, começa a se desenvolver, rompendo a casca da mesma, dando origem a uma plântula. Para que isso ocorra são necessárias algu- mas condições, como por exemplo, temperatura, luz, oxigênio e umidade ideais.
Durante a sua formação a semente perde umida- de, o que evita a germinação dentro do fruto ou junto ao corpo da planta-mãe, bem como sua deterioração pelo ataque de microrganismos. Essa redução no teor de umidade faz com que o embrião tenha seu metabolismo reduzido, aguardando condições favo- ráveis para que ele se desenvolva e origine uma nova planta.
Os eventos importantes da germinação iniciam-se com a embebição de água , processo físico que ocor- re mesmo em sementes mortas. A ativação enzimática acontece logo em seguida, em parte devido à reativação de enzimas estocadas, formadas durante o processo de desenvolvimento do embrião, e em parte devido à sín- tese de novas enzimas, assim que a germinação se ini- cia. A primeira evidência da germinação é a emer- gência da radícula ( Fig. 2 ). Quando a plântula inicia a absorção de água e a fotossíntese, tornando-se inde- pendente dos tecidos de reserva, considera-se que o processo de germinação está terminado.
Quando a semente tem a capacidade de germi- nar imediatamente assim que lhe forneçam os níveis adequados de umidade, temperatura, oxigênio, diz- se que está quiescente ; já uma semente viável, tendo todas as condições ambientais ideais para germinar e não o faz, é chamada semente dormente.
A dormência é uma estratégia reprodutiva impor- tante e está associada às plantas que se regeneram naturalmente, a partir do banco de sementes do solo, ou àquelas que precisam conservar seu potencial de germinação, até que condições favoráveis ocorram. É, portanto, um mecanismo natural que impede a germinação (Figlioli & Pinã-Rodrigues, 1995).
Para desencadear o processo germinativo de al- gumas sementes pode ser necessário promover a que- bra de dormência, que consiste em propiciar a ob- tenção de umidade que elas perderam. A perda de umidade da semente pode ocorrer durante sua for- mação, durante o procedimento de sua retirada dos frutos e na secagem visando o armazenamento (Car- neiro, 1995), ou ainda pelo processo natural de impe- dimento da hidratação, em decorrência de tegumentos impermeáveis. É interessante notar que muitas das espécies que crescem em áreas de grande variação estacional – de temperatura ou de estresse hídrico – requerem um período de “latência” antes de sua germinação. Algumas sementes não germinam na natureza en- quanto sua casca não for retirada, permitindo a en- trada de água ou oxigênio no interior da mesma (CESP, 2000). Outras só germinarão na natureza se passarem pelo interior do trato digestivo de um ani- mal, causando assim o desgaste da casca pela ação do suco gástrico. Como saber se uma espécie possui sementes dor- mentes? É importante ter sempre à mão uma biblio- grafia especializada para buscar essa e outras infor- mações sobre as espécies com as quais queremos trabalhar. No entanto, se o viveirista não dispõe des- se material de consulta, ele deve mergulhar as se- mentes em água à temperatura ambiente e deixá-las ali por 24 h. Se após esse período as sementes não incharem, indicando que absorveram água, é prová- vel que esta espécie apresente dormência física. Além dessa impermeabilidade da casca à água, existem outras formas de dormência em sementes, como: presença de inibidores da germinação, embrião imaturo e a combinação dos fatores mencionados.
4.4.1. Dormência do tegumento (casca) da semente
Dormência física – Tegumento (casca) imper- meável à água, mas com embrião quiescente, característica de grande número de espécies das se-
As sementes escarificadas muitas vezes são sus- ceptíveis ao ataque de organismos patogênicos, per- manecendo viáveis por um curto período após o tra- tamento. Sendo assim, a escarificação deve ser fei- ta no momento que se pretende obter a germinação do lote de sementes.
A escarificação pode ser feita também por meio de substâncias químicas, conforme procedimento descrito a seguir, que auxiliam na ruptura ou elimina- ção parcial do tegumento.
4.5.2. Método químico
Tratamento por ácidos Um dos métodos comuns para se obter a quebra de dormência é o tratamento de imersão em ácido sulfúrico. Este tratamento resulta no aumento do ín- dice de germinação de 10% para mais de 90%. Al- gumas sementes como tamboril ( Enterolobium contortisiliquum (Vell.) Morong), sucupira-preta ( Bowdichia virgilioides Kunth), barbatimão ( Stryphnodendron adstringens (Mart.) Coville), mutamba ( Guazuma ulmifolia Lam.), araticum ( Annona sp) e cumbaru ( Dipteryx alata Vogel) têm seu potencial germinativo aumentado grandemente com o auxílio de ácido.
Cada espécie necessita de um tempo diferente de embebição no ácido; depois de transcorrido esse tempo as sementes e o ácido devem ser despejados lentamente em água. É importante que não se despeje a água sobre o ácido , pois isso pode cau- sar grave acidente! O ácido com as sementes é que devem ser despejados lenta e cuidadosamente so- bre a água, evitando-se os perigosos respingos e vapores tóxicos.Várias lavagens em água devem ser feitas para retirar totalmente o ácido e os fragmen- tos de casca que podem se desprender.
No processo de tratamento químico por ácido deve-se: (i) misturar todas as sementes formando um único lote; (ii) testar o tempo ideal de imersão das sementes em ácido, utilizando algumas amostras pequenas – quando as sementes estiverem com o tempo de tratamento ideal, elas ficam escuras; (iii)
após definir o tempo ideal para a espécie, cobrir to- das as sementes do lote com ácido e deixá-las pelo tempo necessário; (iv) após o término do tempo, la- var as sementes com água corrente por cinco a dez minutos para eliminar todo o ácido; e (v) secar total- mente as sementes antes de utilizá-las.
Tratamento por outras substâncias Alguns sais e produtos como tiuréia, hidróxido de sódio, peróxido de hidrogênio, álcool etílico (álcool comercial comum) e solventes como éter e aceto- na, também são úteis no tratamento químico pré- germinativo. Após o tratamento químico das sementes, elas podem ser preservadas de uma semana a um mês, antes da semeadura, sem grande deterioração.
4.5.3. Choque térmico
Embebição em água quente Este tratamento é recomendado para as espéci- es cujas sementes possuem o tegumento duro, tais como canafístula ( Peltophorum dubium (Spreng.) Taub.) e unha-de-vaca ( Bauhinia longifolia (Bong.) Steud.). Neste método, a água é aquecida até cerca de 90°C, e nela são mergulhadas as se- mentes, que deverão permanecer imersas por um tempo ideal, que varia, dependendo da espécie. Para saber o período necessário de permanência das se- mentes neste tratamento, recomenda-se testar uma pequena amostra em tempos variáveis, aferindo as taxas de germinação. Depois de permanecerem o tempo necessário ao tratamento, as sementes es- tão prontas para semeadura.
Embebição em água fria Este método consiste em colocar o lote de se- mentes em água à temperatura ambiente, manten- do-as por cerca de 24 horas. O tempo de embebição varia conforme a permeabilidade da casca (tegu-
mento) e, em geral, descartam-se as sementes que flutuam, pois provavelmente estas não estão viáveis. As espécies cujas sementes devem ser embebidas em água são: corticeira-da-serra ( Erythrina falcata Benth.), jenipapo ( Genipa americana L.), palmito ( Euterpe edulis Mart.) e pau-jacaré ( Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F. Macbr.), entre outras_._ Após a embebição as sementes, se necessário, po- dem ser estocadas a baixa temperatura (± 5°C), por algum tempo.
Esse teste visa avaliar o poder germinativo das sementes após a sua colheita, após os tratamentos pré-germinativos e após os períodos variáveis de armazenamento. Quando o coletor de sementes vai comercializá-las é importante que ofereça ao com- prador a informação da porcentagem de germina- ção daquela amostra. Nos viveiros, esse teste tam- bém é importante já que, conhecendo o poder de germinação daquele lote de sementes, economiza- se substrato no momento da semeadura. Por exem- plo, se o teste acusar que o lote apresenta 50% de germinação colocam-se de duas a três sementes em cada recipiente; depois que germinarem, as plântulas podem ser repicadas para outros recipientes.
Como fazer o teste de germinação? É necessário que esse teste seja feito em labora- tório com alguns equipamentos e utensílios básicos tais como: germinador e destilador, placas de Petri (ou caixas de Gerbox), pinças de vários tamanhos e papel de filtro. É indispensável o uso de literatura especializada para a adoção de metodologias apro- priadas para cada espécie, permitindo-se avaliar as seguintes variáveis: germinação na presença ou na ausência de luz, temperatura ideal para germinação e número aproximado de dias para o início da germi- nação.
De maneira geral, o procedimento comum para sementes de todas as espécies, após tratamento de quebra de dormência ou não, é o descrito a seguir. As placas de Petri ou caixas de Gerbox devem ser
forradas com o papel de filtro umedecido em água destilada. As sementes são colocadas dentro das pla- cas com espaço suficiente entre si para que haja a emissão da radícula (raiz primária). Esse conjunto pode ser tratado com fungicida ou as sementes podem ser previamente lavadas com hipoclorito de sódio 1% (uma parte de hipoclorito para 99 partes de água) para evitar a contaminação das sementes, o que afetaria a taxa de germinação do lote. As placas são colocadas no germinador à tem- peratura mais adequada para a espécie mas, se esse valor não for conhecido, o teste deve ser feito com temperatura de 25° a 30°C. Algumas espécies tam- bém exigem luminosidade, enquanto outras exigem escuridão para germinar. Essa informação também deve ser buscada em bibliografia especializada. A cada 24 horas as placas devem ser retiradas do germinador e as sementes que germinaram devem ser contadas e retiradas com pinça esterilizada das placas de Petri, e descartadas.
A avaliação da qualidade de um lote requer uso de metodologias padronizadas, de modo que os tes- tes possam ser reproduzidos em qualquer laborató- rio com o mesmo material. As Regras de Análise de Sementes (Ministério da Agricultura, 1992) estabe- lecem especificações padronizadas a serem utiliza- das, desde o tamanho da amostra até instruções para realização das análises das qualidades de sementes. Embora as RAS prescrevam o uso de 400 se- mentes para se realizar teste de germinação, isso nem sempre é possível para as espécies florestais, por dois motivos: pelo tamanho e pela baixa produ- ção das sementes, o que requer a diminuição do nú- mero de sementes por repetição. Neste casos, os técnicos de setores florestais adotam o uso de cem sementes (quatro repetições de 25 sementes, ou cin- co repetições de 20 sementes). O teste pode ser feito em caixas Gerbox ou pla- cas de Petri e a semeadura deve ser feita entre ou sobre substrato. Para minimizar a contaminação de